-Eu quero o divórcio – ela disse, seca e direta.
-O que? – Pericles se sentiu absurdamente surpreso com a afirmação da esposa.
-Eu quero o divórcio – ela repetiu novamente, com mais ênfase na voz.
O ruivo meneou a cabeça, incrédulo. Depois de meses viajando pela Europa, negociando os imóveis e artefatos para os clientes que Marguerith havia indicado – ele tinha que admitir que ela possuía tino para aquilo – ele não esperava que ela o recepcionasse daquele modo. Era verdade que as correspondências que haviam trocado durante sua ausência eram mais formais que o usual, mas ele sempre teve a sensação de que estavam lutando juntos para manter a família.
-Isso é por causa de Angelica? Ou por ter mentido para você sobre nossa situação financeira? – ele perguntou.
-Por tudo isso e mais um pouco. Vamos ser francos, Pericles, nos últimos anos, nós acabamos nos afastando... Além disso, Alphard voltou e eu percebi que ainda o amo.
O ruivo cerrou os punhos, em incontida raiva e ciúmes por Marge ter perdoado os deslizes de Black, mas não os dele.
-Você voltou para ele depois de tudo? – Thorne não escondeu o rancor em suas palavras.
Marge percebeu o quanto Pericles estava ressentido, precisava que ele compreendesse que as coisas não eram exatamente da forma como ambos acreditaram que havia sido.
-Tio Sirius... Foi tudo armação dele para nos separar. Ele lançou um Imperius em Alphie e depois o obliviou. Faz pouco tempo que as memórias dele voltaram.
O homem pensou em argumentar que aquilo era mentira, mas sabia que a esposa era uma pessoa sensata e não seria enganada facilmente. Contudo, tal revelação lhe suscitou uma pergunta.
-Marge, por que está me ajudando com as dívidas, se não me ama mais?
-Não é óbvio? É por nossos filhos!
-E essa nova criança, é dele? – Pericles perguntou, apontando para a visível barriga de grávida da esposa. Ela não havia mencionado nada nas cartas, portanto, foi com espanto que ele a encontrou naquele estado. Talvez ela tivesse omitido o fato por saber que ele não era o pai.
-Eu não sei – ela respondeu.
Não queria mentir para Pericles. Em verdade, em todos os anos de relacionamento, ela sempre foi sincera com ele. Poderia não ter contado sobre o bebê e Alphard antes, apenas esperou a melhor ocasião para fazê-lo.
-Pode ser seu – Marguerith confirmou.
O ruivo assentiu, esperançoso. Mesmo sabendo que ela amava outro homem, aquilo não lhe importava. Nunca em toda sua vida sentiu por alguém o que sentia por Marge, nem mesmo por Angelica. Quando soube que a caçula dos Black era a mulher de sua vida, desejou estar com ela enquanto pudesse, e, se possível, morrer em seus braços.
-Entendo... – ele retorquiu – Vou ficar em Wallsburg para não incomodá-la enquanto estiver na Inglaterra. Depois disso vou para a Áustria, os Zant-Spitz DeBourghe querem comprar nosso livro sibilino. De lá, tenho que ir para a Itália, e não possuo previsão de quando retornarei. Preciso trabalhar para Giordano em troca do dinheiro que ele nos deu.
-Compreendo. É melhor assim... – Marguerith assentiu, sem esconder o alívio.
-Quando eu voltar, conversamos sobre nosso casamento. – o ruivo falou, dirigindo para a porta, contudo, antes de ir embora, voltou-se para a esposa uma última vez – E, Marge, espero que a criança seja minha.
Aquela rotina se tornou agradável para ela nos últimos meses, passar parte da tarde e da noite no apartamento de Alphard. Nem sempre dividiam o leito um com outro, na maioria das vezes apenas conversavam, sobre os velhos tempos, sobre o que viviam no presente e o que planejavam para o futuro. Havia ocasiões em que tanto ele quanto ela precisavam focar nos respectivos trabalhos e a presença física mesmo que silenciosa era um alento. Como naquele momento em que Marguerith revisava o contrato da venda do casarão de Cheschire para Arcturus enquanto Alphard fazia um chá com cookies para os dois. O delicioso cheiro dos biscoitos de chocolate tomava conta do ambiente.
-Como foi com Pericles? – o moreno perguntou, sentando-se ao lado de Marge enquanto a fornada não estava pronta.
Ela levantou o rosto dos papéis, seus olhos pareciam ligeiramente melancólicos.
-A reação dele foi melhor do que eu esperava, ainda assim ele só aceitou conversar sobre minha proposta de divórcio quando voltar da Itália, ou seja, daqui a alguns meses...
-Você acha que ele vai criar algum obstáculo?
Ela ia responder, mas, nesse instante, Marguerith sentiu o pé do bebê empurrando de leve o interior de seu ventre. A surpresa foi tamanha que ela deixou a pena cair no chão, ao lado da mesinha onde fazia as anotações. Era a primeira vez que sentia a criança se mexer de modo tão nítido.
Ela olhou para o lado, notando que Alphard a fitava com um misto de curiosidade e discreta apreensão. Ainda envolta na emoção daquele momento, ela, sem refletir sobre o que o homem poderia pensar daquele rompante, pegou a mão dele entre as suas e pousou sobre o ventre.
- Ele me chutou, Alphie. - Marge falou, com serenidade - Você consegue sentir o bebê?
Alphard a encarou sem entender por um momento, até sentir sob seus dedos a ligeira pulsão do movimento da criança dentro da barriga de Marguerith. Inconscientemente, ele sorriu. Aquela era a primeira vez em que se tornava totalmente consciente da ideia de que poderia ser pai. Mesmo com a barriga de Marge crescendo a olhos vistos, sentir a criança tornou muito mais concreto o fato de que, muito em breve, ele poderia ser pai.
- Eu ainda não consegui me decidir qual nome dar se for uma menina - Marguerith confessou, imersa em devaneios sobre a criança que estava por vir.
-Eu gosto de Astreia. - ele observou, de um rompante.
- Astreia Black é um belo nome... - ela respondeu sorrindo discretamente.
Ela estava feliz, se a vida com Alphard seria daquele modo, ela poderia se sentir abençoada.
-Marge – ele a chamou com carinho – Eu sei que ainda vai demorar um pouco, mas queria te avisar de antemão que vou precisar viajar no começo de janeiro de volta a Hong Kong. Não queria que ficasse sozinha no final da gravidez.
Ela deu um meio sorriso apaziguador.
-Se você não se importar, eu posso ficar com Aribeth no norte da Inglaterra e levar os meninos comigo. Independente da minha escolha, ela se prontificou a nos ajudar se necessário.
Alphard concordou, embora uma parte dele se sentisse incomodado em ter auxílio da matriarca dos Thorne, outra se sentia imensamente grata por saber que Marguerith não ficaria desguarnecida.
-Vou tentar voltar antes da nossa criança nascer – ele disse, mesmo sabendo que ainda havia a possibilidade do bebê ser de Pericles.
Ela inclinou-se na mesa, dando um beijo suave nos lábios do amante, sabendo que independente dos desafios que ainda os aguardavam, eles conseguiram supera-los e serem felizes.
