O ambiente estava carregado de uma tensão ansiosa enquanto Lydia repassava as últimas instruções para Adam e Barbara, que se preparavam para entrar no portal. Ela deu uma última olhada na expressão séria dos dois e tentou reprimir a sensação de medo que lhe embrulhava o estômago.

"Olha, eu sei que parece assustador e um pouco suicida...", Lydia começou, tentando soar mais confiante do que se sentia, "Por mais que já estejam mortos. Mas vocês precisam fazer isso com calma e precisão. Esperem até que Juno saia da sala, entrem discretamente e procurem por qualquer coisa relacionada a Beetlejuice, ou alguém que possa ter estado perto dele. Sei que é vago, mas... confiem no instinto investigativo de vocês!".

Barbara segurou com firmeza a mão de Adam, lançando um olhar solidário para Lydia. "Prometemos que faremos tudo com cuidado. Eu sei o quanto isso significa para você".

Adam assentiu, um pouco nervoso, um pouco suado, mas definitivamente determinado. "Não se preocupe. Nós voltaremos com respostas... e inteiros".

Lydia sorriu brevemente, com carinho, ainda que os olhos revelassem uma preocupação profunda. Sabia que o casal estava indo além dos seus limites por ela e sua busca, mesmo que ela não tivesse uma razão muito convincente, por isso era realmente grata pelos esforços.

Enquanto ela observava os dois desaparecerem portal a dentro, respirou fundo, tentando afastar o aperto no peito. A ideia de perder aqueles que já haviam se tornado sua família deixava um vazio insuportável.

Porém, sem poder perder mais tempo, Lydia pegou o casaco e se dirigiu ao ponto de ônibus. Parte do seu plano, que decidira na mesma manhã, seria que enquanto os Maitlands estivessem no outro mundo, ela tentaria buscar por pistas nesse mundo – talvez houvessem arquivos históricos que pudessem revelar algo sobre o passado nublado de Beetlejuice.

Como Winter River ficava em Connectcut, o melhor local para a sua pesquisa era a University of Connecticut (UConn). A viagem era longa e devagar, e o zunido do ônibus em movimento enquanto passava pelas pequenas áreas rurais, quase a fez perder o pouco de paciência que lhe restava. Mas assim que chegou ao campus, a ansiedade voltou a tomar toda a sua atenção.

A Biblioteca Homer Babbidge, localizada no campus principal em Storrs, era imensa e cheia de prateleiras que se estendiam até onde seus olhos alcançavam, o teto parecia pesar sobre ela, o cheiro de livros antigos era tão forte que se sentia desde o corredor. Lydia se aproximou do balcão de madeira maciça e antiga, onde uma bibliotecária bastante idosa a encarava com uma expressão severa e nada convidativa.

"Posso ajudar?". A voz da mulher era cortante e gélida, Lydia notou, em um lampejo, uma semelhança perturbadora com Juno.

"Eu... é que preciso de acesso a alguns arquivos históricos", Lydia respondeu, tentando soar natural. "É para um projeto escolar sobre... registros antigos de mortes não explicadas ao longo dos séculos".

A bibliotecária levantou uma sobrancelha e a analisou por um longo e desconfortável instante antes de acenar com a cabeça na direção de uma fileira de computadores no fundo. "Um tema muito mórbido para uma criança. Computador quatro. E não toque em nada que não seja o necessário. Espero que saiba como usar".

A mulher se afastou sem titubear e Lydia soltou um suspiro de alívio. Caminhou rapidamente até o computador, com o coração batendo forte. Sentou-se e começou a tentar se familiarizar, era uma tecnologia muito recente em 1989, ela mesma só havia usado poucas vezes. Com os dedos trêmulos, ela começou a digitar devagar, só com os indicadores, enquanto navegava pelos arquivos. Cada clique parecia ecoar na sala silenciosa.

Inicialmente, suas buscas eram muito amplas e vagas. Mortes inexplicáveis do período da peste negra, personalidades estranhas, mistérios e tragédias familiares. Demorou muito tempo, mais do que ela gostaria, para que um nome aparecesse comumente em determinados momentos: Montrose. Era uma família influente, cujas raízes eram marcadas por riqueza e um certo prestígio, mas com o tempo, envolta em uma nuvem de infortúnios. Um padrão sombrio parecia os cercar, e Lydia, fascinada, começou a restringir sua busca.

"Montrose...", murmurou para si mesma, intrigada. Ela começou a encontrar fragmentos de registros: menções a uma filha única e misteriosa. Não sabia se era a fadiga ou seu sexto sentido falando, mas parecia ser esse o caminho.

Havia informações sobre um casamento e o noivo, Lorde Corbetti, seguidos por comentários sobre a morte prematura dessa jovem, descrita como uma tragédia inexplicável, mas os detalhes eram incertos, superficiais, como se estivessem propositalmente fragmentados.

Lydia não conseguiu segurar a empolgação ao notar que a história dessa jovem parecia cada vez mais envolvente e misteriosa. Exatamente como procurava. E continuou a vasculhar os arquivos, clicando sem parar, e os minutos se transformaram em mais horas. Sua busca finalmente trouxe uma imagem: um quadro pintado para retratar o dia do casamento. Na pintura, a noiva e o noivo estavam perfilados um de frente para o outro, mas o rosto dela estava borrado, escondido como se o próprio tempo tivesse apagado sua identidade. Já o rosto do homem era nítido, duro e cheio de uma desprezível arrogância.

Lydia franziu a testa e aproximou o rosto da tela. Um arrepio percorreu sua espinha; o rosto da noiva parecia quase... intencionalmente oculto.

"Sophia Montrose Corbetti?", sussurrou ela, sem perceber, ao ler a legenda da imagem.

Enquanto isso, no outro mundo, Adam e Barbara se escondiam atrás de pilhas de papéis, caixas e bagunças empilhadas. Estavam próximos à sala de espera de Juno, no que parecia ser uma eternidade, esperando impacientemente por um momento em que ela se ausentasse.

"Eu acho que ela vai sair agora", sussurrou Barbara, segurando a respiração quando Juno finalmente saia pela porta, arrastando pesadamente os pés e resmungando algo sobre um grupo grande de recém-desencarnados causando confusão. Sem perder nenhum segundo, os dois se esgueiraram para dentro da sala.

A sala já era familiar para eles, mas ainda sim, muito escura e mal conservada. Mais pilhas de documentos estavam espalhadas por todo o lugar, e Adam prontamente começou a vasculhar uma delas enquanto Barbara examinava a mesa e gavetas. Seus dedos trêmulos passavam pelas pastas, até que encontrou uma especificamente grande que lhe chamou a atenção: "Caso 2397864, ano 1349 – Beetlejuice".

Adam olhou para Barbara com os olhos arregalados, e ela acenou de volta, ambos compartilhando a tensão do momento. Abrindo a pasta com cuidado, descobriram várias folhas amareladas e corroídas, cobertas de rabiscos e muitas palavras apagadas pelo tempo. A excitação era tanta que eles liam pulando frases, procurando por coisas que fizessem sentido, mesmo que de forma desconexa.

"Maldição...Beetlejuice... Culto... Sophia... Renascimento... Dolores...", leu Barbara, quase inaudível.

"Isso é muito maior do que imaginávamos", murmurou Adam, engolindo em seco. Ele folheou mais algumas páginas e encontrou uma lista de regras e restrições que se referiam a Sophia como um "espírito reincarnante". Era claro que a própria existência dela era antinatural, isso explicava toda a papelada e a reação angustiada de Juno.

De repente, passos ecoaram do lado de fora da sala, e os dois congelaram. Adam fechou a pasta rapidamente e a escondeu sob o casaco. Os dois se seguraram em pânico buscando uma rota de fuga. No outro canto da sala, havia uma porta estreita e escondida, eles não faziam ideia de onde aquele caminho levaria, e sentiam que se arrependeriam disso depois, mas era a única opção, então eles correram em direção a ela.

Lydia já havia saído da biblioteca e estava sentada em um ônibus que balançava violentamente, revisando as últimas anotações que fizera. Havia um fragmento de uma carta, aparentemente escrita por uma mulher da alta sociedade, comentando sobre "a pobre Sophia Montrose" e o destino terrível que ela havia enfrentado. Outra menção breve sobre um suposto culto que havia surgido e matava pessoas para roubar suas almas em troca de vida eterna, isso fez seu coração acelerar. Parecia muito absurdo, mas ela não tinha mais o luxo de ser tão cética depois dos acontecimentos do último ano.

Ela sentia que estava na direção correta, mas ainda ficava confusa sobre o que tudo isso realmente significava e como as coisas poderiam estar ligadas. Mas fora isso, ela não havia encontrado mais nada, se sentia exausta e irritada, então precisava confiar em sua intuição, ou achava que poderia enlouquecer a qualquer momento.

Decidida a não perder nada, Lydia imprimiu as páginas e as guardou em sua mochila. Quando chegou em casa, encontrou Charles e Delia esperando-a. Delia a recebeu com uma mistura de empolgação e nervosismo, ansiosa para ouvir os detalhes. Charles não queria parecer tão interessado, achava que assim faria Lydia desistir dessa maluquice, mas ela conhecia o pai muito bem para saber que a curiosidade estava o matando. Então começou a relatar o que descobrira.

"É tudo muito estranho", disse Lydia, espalhando os papéis sobre a mesa para que Charles e Delia pudessem ver. "Essa Sophia Montrose... era filha única e teve um casamento arranjado com um cara rico da cidade. Depois que ela morreu... a família entrou em declínio e perdeu tudo, o próprio pai acabou se matando e Anthony sumiu do mapa. As pessoas desconfiavam que ele a matou, mas nada foi confirmado e virou só uma fofoca".

Charles olhou para os documentos com uma expressão pensativa, "Essa é uma história realmente triste, mas por quê você acha que Beetlejuice estaria envolvido, de alguma maneira?"

Antes que Lydia pudesse responder, ouviram um grande estrondo e Adam e Barbara entraram ofegantes, eles passaram correndo por uma porta que surgiu no meio da sala, fechando-a rapidamente. Mas ainda foi possível ver o gigante verme do deserto atrás deles.p

Com olhares tensos e ainda tremendo, Barbara segurava a pasta firmemente e, com uma expressão sombria, a colocou sobre a mesa.

"Nós encontramos algo... que vocês precisam ver...", disse Adam, pausadamente para recuperar a respiração. "Há uma maldição... uma história antiga entre Beetlejuice e uma moça. Algo que envolve um culto... e que explica muito mais do que imaginávamos...".

Lydia sentiu um calafrio enquanto abria a pasta, cada pelo do seu corpo estava levantando enquanto lia os documentos e, finalmente, percebendo que ela estava no caminho certo para descobrir o passado sombrio de Beetlejuice, sempre esteve, isso a encheu com uma inexplicável sensação de poder e orgulho.

Era como se o tempo houvesse congelados, ninguém ousava se mexer e os únicos sons que podiam ser percebidos eram das respirações arfadas. Ao mesmo tempo, os olhos de todos se levantaram uns para os outros, trocando olhares sérios e significativos. Eles sabiam que, se tratando de Beetlejuice, nada seria tão simples, mas não estavam preparados para aquilo.

Mas uma coisa estava clara: aquela era apenas a ponta de um segredo muito mais profundo e perigoso.