A noite estava tranquila, exceto pelo som leve de risadas que ecoavam pelo corredor principal. Selene, de pé no alto da escadaria, observava com uma mistura de exasperação e afeto enquanto Eve, com seus cinco anos de energia descontrolada, corria ao redor de Michael, que ria a cada vez que a filha tentava agarrá-lo.
— Papai, você não pode fugir para sempre! — gritou Eve, a voz carregada de alegria enquanto pulava nas costas do pai com uma velocidade incrível, que facilmente a segurava com uma mão, sorrindo.
Michael com o sorriso fácil que Selene sempre achou intrigante, parecia estar se divertindo mais que a própria filha. Seus olhos encontraram os de Selene, e ele deu um sorriso cúmplice, como se convidasse a vampira a se juntar à brincadeira. Selene, com seus séculos de controle rígido e frieza, revirou os olhos, mas não conseguiu evitar um sorriso suave que escapou por seus lábios.
— Vocês dois... — ela disse, sua voz carregando um tom de cansaço, mas com uma doçura velada. — Vão acabar destruindo a casa.
Michael riu, ainda segurando Eve no ar como se a menina fosse leve como uma pena o que para ele era. Ele olhou para a Selene com aquele brilho brincalhão nos olhos, o mesmo que sempre parecia suavizar o mundo sombrio de Selene.
— Só estamos aquecendo meu amor — ele disse, piscando.
Eve, percebendo que Selene estava observando, esticou os braços para a mãe, os olhos verdes brilhando com uma súplica que era impossível de resistir.
— Mamãe! Brinca com a gente! — ela pediu, a voz inocente, cheia de expectativa.
Selene olhou para a filha e, por um instante, uma pequena batalha interna aconteceu. Ela sempre lutava para equilibrar o papel de guerreira implacável com o de mãe de uma menina cheia de vida. Mas, como sempre, Eve sabia exatamente como desarmá-la.
Com um suspiro resignado, Selene desceu as escadas, seus passos silenciosos e elegantes, até se aproximar de Michael e Eve. O sorriso de Michael se ampliou quando ela chegou perto, e ele inclinou levemente a cabeça, como se soubesse que, por mais que Selene tentasse manter o controle, ela não resistiria à filha.
— Você sabe que ela nunca vai parar de pedir, não é? — ele disse, ainda segurando Eve, que ria.
Selene, com um leve sorriso, colocou uma mão no ombro de Michael, seus dedos frios encontrando o calor que sempre parecia emanar dele. Ela olhou para Eve, seu olhar suavizando ao ver o rosto esperançoso da filha. Apesar da energia incontrolável de Eve às vezes testar sua paciência, Selene amava aquela menina mais do que qualquer coisa — só não sabia exatamente como demonstrar isso o tempo todo.
— Só um pouco — disse Selene, relutante, mas com um brilho divertido nos olhos.
Eve deu um gritinho de alegria e, antes que Selene pudesse reagir, a menina pulou para os braços da mãe, abraçando-a com força. Selene tropeçou para trás por um segundo, surpreendida pela intensidade do abraço, mas logo relaxou, seus braços envolvendo a filha com uma ternura que ela raramente mostrava para qualquer outra pessoa. Michael riu, divertido, observando o momento entre mãe e filha.
— Você é mais forte do que parece — murmurou Selene, com um sorriso raro enquanto acariciava os cabelos de Eve.
— Eu sou forte como você, mamãe! — Eve declarou, sua voz cheia de orgulho, apertando-se ainda mais contra Selene.
Michael, sempre o equilíbrio perfeito para a seriedade de Selene, sorriu e se aproximou, envolvendo as duas com um braço, criando um círculo familiar em que a frieza de Selene sempre cedia ao calor de Michael e à pureza de Eve.
— Ela puxou o melhor de nós dois — ele disse baixinho, olhando para Selene com uma doçura evidente.
Selene não respondeu, mas encontrou os olhos dele e, por um breve momento, permitiu-se relaxar. Michael tinha essa habilidade, de fazer com que ela se sentisse em casa, não importa o quanto a imortalidade a afastasse do mundo. Ela inclinou a cabeça de leve, encostando-se no ombro dele enquanto Eve se aninhava em seus braços.
— Talvez você esteja certo — murmurou Selene, sorrindo.
Eve, percebendo que seus pais estavam quietos, levantou a cabeça e olhou para os dois, confusa.
— Estamos brincando ou não? — perguntou ela, impaciente, quebrando o momento de paz.
Michael riu, soltando Selene e pegando Eve e a jogando no ar mais uma vez, girando-a de forma brincalhona.
— Claro que estamos, minha pequena princesa guerreira! — ele disse, e começou a correr pela sala com Eve nos ombros, enquanto a menina gritava de alegria.
Selene cruzou os braços e observou a cena, agora sorrindo de verdade. Embora a maternidade fosse algo que ela nunca esperou ou planejou, havia uma beleza silenciosa naquela bagunça, naquela energia incansável. Michael e Eve eram seu ponto de equilíbrio, sua lembrança de que, mesmo na escuridão, existia luz.
Por mais que ela tentasse resistir ao caos que vinha com a filha, Selene sabia que, no fundo, ela amava cada segundo daquela confusão alegre que chamavam de família.
