É em momentos como esse, onde parece que o poço onde estou afundado está ficando ainda mais fundo, que essas ideias estalam como fogos de artifício na minha mente. Eles brilham, gritam e giram de tal modo que é praticamente impossível ignorar. Então, faço a única coisa que me resta: (tento) escrever. Nem sempre funciona, mas não há nada de errado em tentar, certo?

Tudo surgiu muito ao acaso: semanas atrás teve uma corrente no Bluesky onde você via que tipo de plot adolescente seria você e, conversando com Tobi Téo, decidi transformar a temática escola e detenção em três histórias distintas: uma Twelve/River, uma Twelve/Missy e uma Twelve/Clara. Tudo acabou ficando mais longo do que eu gostaria, então o que era para ser uma short (bem short MESMO) oneshot, acabou ficando um pouco mais longa. Por isso, decidi dividir em capítulos – mas não será nada longo, prometo (até porque, eu tenho preguiça, veja bem e_e).

A música que tenho em mente ao escrever essa aqui em particular é a Picture of You – Boyzone. Tenham em mente que escrevi durante o trabalho e a história não foi betada – então, caso você encontre erros, por gentileza, me informe para que eu possa corrigir tudo.

Sinto muito pelo muro de palavras e espero sinceramente que não seja uma leitura pavorosa.


Parando para pensar não lembrava exatamente como tinham se conhecido. Talvez tenha sido logo que ela se mudou e o garoto, que era seu vizinho, resolveu bisbilhotar pela janela – ainda era fresca em sua memória a lembrança de seu rosto bobo e do seu sorriso divertido contra o vidro. Mesmo sem ter certeza se essa era realmente a primeira vez que o tinha visto, essa era a memória mais antiga que tinha dele. River viu a mudança do menino de riso fácil que usava gravata borboleta o dia inteiro para um jovem sério e debochado com o passar dos anos.

Bom, pelo menos essa era a imagem que John queria que todos tivessem de si. No início, foi um pouco estranho, ela tinha que admitir. Eram acostumados a passar horas juntos e em um piscar de olhos cada um pareceu seguir um caminho diferente. Ele se fechou em seu próprio mundo com sua guitarra e seus covers de Bowie, enquanto ela experimentava a vida de quase adulta. E, nossa, ela era grata aos Deuses e ao Universo por tamanha dádiva – os anos só lhe faziam bem, seu rosto e corpo ficando cada vez mais bonitos conforme o tempo passava.

Naquele momento, pensava em ser modelo; quem sabe, poderia ser Miss um dia. Ela estudava para tirar boas notas, mantinha uma rotina de cuidados com a saúde, pele e cabelos e, claro, ia a festas nos finais de semana. Afinal de contas, do que adianta ser tão admirada pelos corredores se você não puder aproveitar um pouco? River dançava, pulava, cantava – e, claro, também beijava quando lhe dava vontade. De alguma forma, o conjunto de aluna exemplar com menina festeira fizera com que ela se tornasse cada vez mais adorada pelos colegas de escola.

Se perguntassem, ela não saberia dizer quando, exatamente, se tornou popular. Fato era que, sim, ela era popular. River era absurdamente popular, conhecida por pessoas que nem estudavam na mesma escola que ela. Era bem quista pelos professores, todos pareciam gostar dela e durante muito tempo ela chegou a pensar que nada abalaria sua fama.

Bem, isso foi até John, seu vizinho e amigo de infância, aparecer esbaforido pelo corredor. Ele estava uma confusão tão grande que demorou para reconhecê-lo com o cabelo desgrenhado, as roupas desalinhadas e os óculos escuros quase escorregando pelo rosto pálido de quem parecia sem fôlego – algo que ele realmente parecia estar, ela observou. O jovem passou tão apressado que não havia reconhecido River e teria passado direto, não fosse pelo fato de ter esbarrado nela enquanto passava, derrubando a mochila que carregava no chão. Levou algum tempo para processar o que havia acontecido – River podia ouvir as engrenagens de seu cérebro girando –, antes que ele conseguisse articular as palavras.

– Desculpe, – disse com a voz entrecortada, já se abaixando para juntar o que havia caído no chão.

– Preste mais atenção, garoto – ela tentou parecer séria, sem muito sucesso. – Você sabe que não pode correr aqui dentro.

– Eu sei, eu sei – ele deu de ombros. – Não importa. Só preciso sair daqui.

– Aconteceu alguma coisa? – River se abaixou para ajudá-lo e antes que John pudesse repreendê-la, já tinha acontecido.

Se lhe dissessem que o garoto de sorriso bobo e gravata borboleta que conheceu assim que chegou na cidade iria uma década depois ser responsável por ela ir para detenção, ela não acreditaria. Sendo justa consigo mesma, é improvável que ela aos seis anos soubesse do que se tratava, mas a River de dezesseis anos está furiosa. Foi tão rápido que ela só conseguiu processar quando o diretor lhe encarou com decepção estampada no rosto – olhar parecido com o de sua mãe quando ela, por acidente, havia quebrado a janela da sala chutar uma bola que a mãe já lhe havia dito para não fazer.

Mas agora lá estava ela com uma lata de spray na mão e um John que nervosamente gesticulava para o diretor. A voz dele estava aguda demais, como era característico de quando ficava agitado. Palavras como "ela não tem culpa" e "desculpe, River" chegavam aos seus ouvidos, porém a jovem não conseguia reagir. Seus olhos iam do diretor para John e depois para a lata de spray em suas mãos. Sua mente já imaginando a decepção estampada no rosto dos pais e os comentários que invadiriam os corredores daquela escola assim que soubessem que ela foi pega.

Certo, certo. Pega, pelo quê?

A perguntava martelava em sua cabeça, mas sua boca estava incapaz de se abrir. Pela primeira vez em toda a sua vida, River estava sem palavras. John e ela seguiram o diretor para uma sala com a palavra "DETENÇÃO" escrita em letras grandes e garrafais que fez com que um arrepio passasse por sua espinha. Eles entraram e o diretor falou, falou, falou e por mais que o relógio na parede indicasse ter se passado apenas quinze minutos, era como se tivessem ficado horas e horas ali, apenas ouvindo.

– Bem, – disse o diretor Lethbridge-Stewart ao retornar do armário que ficava nos fundos da sala. Ele tinha esponjas e material de limpeza nas mãos. – Todos os dias, depois das aulas, vocês dois irão limpar os muros pichados para aprenderem uma lição. Podem começar.

River olhou para os itens que estavam na mesa com um misto de pavor e descrença, sem ousar olhar diretamente para o diretor; pelo tom de voz, era nítido que ele estava falando sério. Ela arriscou um olhar para John que a essa altura já tinha guardado os óculos escuros e tinha ajeitado a jaqueta. Seus cachos acobreados estavam um tanto desalinhados e havia aquele sorriso debochado nos lábios.

Minutos depois, eles estavam limpando as paredes que davam na biblioteca. Havia frases como "Time Lords from Gallifrey rules" e desenhos de robôs estranhos por toda parte. Sua mente vagava entre querer esfregar aquela cara sonsa do jovem escocês na parede e fazer o possível para se controlar, pois sabia que o castigo que a aguardava em casa seria pior, bem pior do que limpar as paredes e muros da escola. Ficaram ali por cerca de uma hora até limpar todos os resquícios da presença de John naquele corredor.

O diretor foi breve quando dispensou os dois, relembrando, apenas, que deveriam fazer a mesma coisa no dia seguinte e no dia após o dia seguinte e assim por diante – até que estivesse tudo limpo. Sem dizer palavra, River pegou sua mochila e foi para casa tão rápido que sua respiração falhava como se ela tivesse corrido uma maratona. Foi direto para o seu quarto e antes que pudesse alcançar o banheiro para se livrar do cheiro de sabão vagabundo e esponja velha, a voz de sua mãe chegou aos seus ouvidos.

– Que bom que você chegou, – havia algo no tom de voz que a garota não conseguia identificar, seria ironia? Talvez. – Chegou tarde hoje, querida. Como foi a aula?

– É, teve muita coisa para fazer na escola hoje, – River se viu dizendo enquanto caminhava lentamente para a cozinha, que era de onde vinha a voz. A sensação era a de que estava indo ao encontro do abate, cada passo ficando mais pesado e mais difícil de ser dado.

– Ah, sim, interessante. – Amy estava picando alguns legumes na bancada da cozinha, seu cabelo cor de fogo contrastando com a pele clara. – Você deve estar cansada.

– Sim, estou, – admitiu simplesmente, sem saber exatamente qual seria o rumo daquela conversa. Sua mãe parecia calma, calma até demais.

– Sabe, fico aqui me perguntando, – a mãe agora a encarava, os olhos brilhando em um misto de fúria e decepção. Ela havia soltado a faca e tinha as duas mãos na cintura, algo que certamente acende um alerta em qualquer adolescente em apuros. – Como pode alguém ter tanta coisa para fazer ao longo do dia e mesmo assim arranjar tempo para pichar paredes?!

– Mãe, mas...

- "Mas" nada – a ruiva não lhe deixou continuar. – O diretor Lethbridge-Stewart ligou e me contou o que aconteceu. Estou desapontada com você, River – ela deixou os ombros caírem, o semblante ficando com aquele ar triste que deixa qualquer filho com o coração na mão. – Você é uma menina tão bonita, tão inteligente, tão esperta, o que passou pela sua cabeça, garota?

- Mãe, eu...

- Tudo bem que a adolescência é uma época complicada, – Amy a interrompeu novamente, dessa vez parecendo falar mais consigo mesma do que com a filha diante dela. – Mas pichação? E o John? Santo Deus, ele sempre foi um rapaz tão comportado, o que está acontecendo com vocês? Saindo por aí, rabiscando paredes, quem colocou isso na cabeça de vocês?

John. Sempre ele. Boa parte das desventuras que havia tido foram por causa dele – inclusive algumas broncas. Anos antes, foi graças a ideia dele de jogar bola na sala de casa que acabou por quebrar a janela e, consequentemente, ficar um mês de castigo sem poder brincar na rua. Não sabia de onde ele tirava essas ideias malucas, porém sempre que estava com ele era certo de que arranjariam confusão. A jovem mal percebeu que a mãe ainda falava e só se deu conta de que ainda estava de pé diante dela quando ouviu estalos diante dela.

– Você não está nem me ouvindo, – a mãe parecia ter parado de divagar. Ótimo. – Não importa. Vá tomar banho e trocar de roupa. Eu liguei para o seu pai e quando ele chegar, teremos uma conversinha. Nós três.

"Conversinha", que nada mais era do que um eufemismo para "você vai levar a maior bronca da sua vida, prepare-se para a humilhação eterna" de uma forma sutil para que os filhos não fujam pela janela com medo da consequência de seus atos. Nesse caso, seu único erro havia ter estado naquele maldito corredor e, graças a um erro ínfimo e clichê de estar no lugar errado na hora errada, ela teria castigos e mais castigos sem ter feito absolutamente nada. Ela estava furiosa e se visse John, possivelmente o mataria de tanto ódio.

A água quente que escorreu pelo seu corpo não ajudou a aliviar a raiva e a frustração que sentia. Entretanto, pelo menos agora ela cheirava a erva doce e não a suor e sujeira. O pai não demorou a chegar e a conversa não foi tão ruim. River apenas sentou diante dos pais que, assim como ela havia imaginado, estariam desapontados e furiosos – pendendo mais para o primeiro estado – e nada do que ela dissesse mudaria a impressão que eles tinham dela no momento. Afinal de contas, não era sempre que o diretor Lethbridge-Stewart ligava para os pais dos alunos e, se ele o fez, foi com motivos sólidos. Cansada, não tentou negar ou se justificar; ao invés disso, aceitou o seu destino: três meses de castigo. Sem saída aos finais de semana, sem festas, sem telefonemas para as amigas. Nesse período, ela deveria ir apenas de casa para a escola e da escola para casa.