Capítulo 10 - Um Lírio para Dar Sorte

O edifício do Profeta Diário era um imponente bloco de pedra antiga, com detalhes arquitetônicos góticos que conferiam um ar de seriedade e tradição. Os funcionários do jornal se movimentavam apressadamente pelos corredores largos, com pergaminhos flutuando e penas rabiscando furiosamente em todas as direções. O barulho constante de discussões, risadas nervosas e o som de passos apressados preenchia o ar, criando uma atmosfera de frenética produtividade.

Rita Skeeter, sempre em movimento, avançava rapidamente pelos corredores, seus saltos ecoando no chão de mármore polido. Sua bolsa balançava em seu braço enquanto ela ajustava a alça com um puxão rápido, ao mesmo tempo em que seus olhos varriam as informações em um pergaminho que ela carregava. Multitarefa era seu lema, e ninguém a via parada por muito tempo. Seus dedos tamborilavam no pergaminho, como se estivessem impacientes para capturar a próxima grande história, enquanto ela cruzava salas e cumprimentava colegas com acenos breves e rápidos, sem desacelerar.

Finalmente, Rita chegou ao final de um longo corredor, onde uma porta de madeira escura exibia letras douradas reluzentes que formavam as palavras: "Apolline Delacour - Editora-Chefe". Ela respirou fundo, ajeitando o cabelo com um movimento rápido e automático, antes de bater levemente na porta e entrar.

Apolline Delacour estava sentada atrás de sua imponente mesa de carvalho, cercada por pilhas de pergaminhos e edições do Profeta Diário. No auge dos seus 50 anos, Apolline era a própria imagem do sucesso. Seus cabelos platinados, característicos das Veela, brilhavam sob a luz suave que entrava pelas janelas, criando um contraste marcante com sua pele bronzeada, o que lhe conferia um ar confiante e exótico. O terno branco que vestia, com um caimento impecável, completava o visual de uma mulher que dominava tanto o mundo do jornalismo quanto do seu próprio destino. Ela ergueu os olhos ao ver Rita entrar, e um sorriso quase imperceptível surgiu em seus lábios.

— Rita Skeeter — disse Apolline, sua voz perfeitamente controlada. — Sente-se. Você tem atualizações sobre o caso do Senhor Boa Noite? Ou sobre a joia de Lucius Malfoy encontrada no dia do incidente?

Rita sentiu um leve aperto no estômago ao ouvir as palavras de Apolline. Sabia que essa conversa seria delicada. Sentando-se com a energia que lhe era típica, ela rapidamente pensou em como responder. Nos últimos dias, Rita havia descoberto que todo o alvoroço em torno do "Senhor Boa Noite", como era inicialmente conhecido, não passava de um mal-entendido. E pior, quem havia causado toda a confusão era ninguém menos que Fleur Delacour, a filha de sua chefe.

Porém, ao invés de compartilhar essa verdade com Apolline, a única pessoa que lhe deu uma chance de retornar ao cenário jornalístico, após um erro que quase arruinou sua reputação, Rita optou por um caminho diferente. Ela havia criado uma aliança com Fleur e Lucius Malfoy, e agora precisava proteger esse segredo a todo custo.

Apolline, por outro lado, já sabia que Fleur havia sido a causadora do misterioso "sono" no Beco Diagonal. Sua filha havia confessado que perdeu o controle de seus poderes de Veela por acidente, resultando na situação que os aurores estavam investigando como o mistério do Senhor Boa Noite. Apolline estava desesperada para proteger Fleur, tentando desviar a investigação para longe dela, mas, como editora-chefe, sabia que não podia simplesmente ignorar o assunto sem levantar suspeitas.

— Bem, Apolline — começou Rita, forçando um sorriso enquanto seus dedos apertavam os pergaminhos em suas mãos. — Os aurores ainda estão investigando, mas até agora, não conseguiram descobrir o verdadeiro propósito da joia de Lucius Malfoy. Não há confirmação sólida de que a joia estava, de fato, em posse da família Malfoy, apesar das gravações que possuem. Além disso, eles estão hesitantes em chamar Lucius para mais interrogatórios, temendo um processo, especialmente depois do primeiro interrogatório arbitrário.

Rita, sempre astuta, continuou, tentando manter a calma.

— E eu sugeriria que adotássemos a mesma abordagem. Lucius Malfoy acabou de sair de Azkaban. Se publicarmos algo contra ele sem provas concretas, ele pode encontrar a motivação perfeita para gastar seus dias processando o jornal e tentando nos derrubar. Acho que deveríamos ser cautelosas.

Apolline assentiu lentamente, ponderando sobre as palavras de Rita. Ela sentiu um breve alívio ao perceber que Rita parecia estar adotando uma abordagem prudente, sem perceber que estava, de certa forma, protegendo Fleur. Por um breve momento, um sorriso satisfeito apareceu em seus lábios.

— Estou orgulhosa da sua abordagem precavida, Rita. É exatamente essa cautela que precisamos neste momento.

Rita, sem perceber o dilema interno de Apolline, sentiu-se aliviada e segura em sua decisão.

— Claro, Apolline — respondeu ela, mantendo o sorriso enquanto uma sensação de alívio se espalhava por seu corpo.

Apolline manteve o sorriso controlado enquanto observava Rita se acomodar na cadeira.

— Rita, enquanto não temos atualizações concretas sobre a joia de Lucius Malfoy ou sobre o Senhor Boa Noite de maneira geral — continuou ela, sua voz calma, mas firme — Eu gostaria que você cobrisse outra pauta importante.

Apolline inclinou-se ligeiramente para frente, revirando os olhos discretamente, antes de falar com um tom cuidadoso.

— Quero que você investigue como o fato da Ministra da Magia, Wilma Dean, ter sido atingida pelo feitiço do sono do Senhor Boa Noite, no primeiro dia de sua campanha de reeleição, acabou dando mais destaque à oposição de Joseph Bolton. Os apoiadores dele, sempre tão ruidosos, aproveitaram esse incidente para inflamar ainda mais o mundo bruxo. É crucial que o Profeta Diário seja o primeiro a expor como esse incidente está sendo manipulado.

Rita acenou com a cabeça, anotando mentalmente a nova tarefa.

— Vou começar a apurar isso o quanto antes, Apolline — disse ela, já planejando seus próximos passos. — Mas, antes disso, preciso pegar a chave do meu novo apartamento. Vou morar em Hogsmeade.

Apolline sorriu, uma expressão de aprovação em seu rosto.

— Parabéns, Rita. Hogsmeade é um lugar encantador, e estar perto de Hogwarts certamente trará novas inspirações.

— Obrigada — respondeu Rita, retribuindo o sorriso. — Antes de ir, vou passar na floricultura do outro lado da rua para pegar uma planta. Acho que vai trazer sorte para essa nova fase.

Com isso, Rita se levantou, ainda mantendo o sorriso profissional, e se despediu.

— Nos falamos em breve, Apolline.

Rita saiu do prédio do Profeta Diário a passos rápidos, o ritmo frenético que marcava sua vida diária continuando mesmo fora do escritório. Atravessou a rua com determinação, seus olhos já fixos na pequena floricultura do outro lado.

— Um lírio para dar sorte — disse para si mesma, enquanto já se imaginava acomodando a planta em seu novo apartamento em Hogsmeade.

Ao chegar à frente da floricultura, algo no canto do olho chamou sua atenção. Discretamente, ela virou a cabeça e avistou Ron Weasley caminhando na direção oposta, aparentemente saindo da Travessa do Tranco. Ao seu lado, uma jovem deslumbrante de cabelos longos e escuros parecia profundamente envolvida na conversa com ele. Rita murmurou para si mesma:

— O que um homem casado como Ron Weasley estaria fazendo saindo do lugar mais infame do mundo bruxo, ainda por cima na companhia de uma mulher assim?

O instinto jornalístico de Rita disparou instantaneamente. Esqueça o lírio, pensou. Essa era a história que ela não podia deixar escapar.

— Vejam só — disse ela em um tom afiado, alto o suficiente para que Ron a ouvisse claramente. — Se não é o melhor amigo mais famoso do mundo bruxo... Mas, pelo que estou vendo, talvez não seja exatamente o melhor marido, não é?

Ron Weasley parou abruptamente, visivelmente surpreso ao ouvir a voz de Rita. Ele se virou lentamente, o rosto já assumindo uma expressão de desconforto. A jovem ao seu lado também parou, olhando entre Ron e Rita, sem entender completamente o que estava acontecendo.

Rita, por sua vez, manteve o sorriso irônico, seus olhos brilhando com a antecipação de algo que poderia ser um furo.

— E então, Weasley — continuou ela, com a voz carregada de insinuação —, o que estava fazendo em um lugar como a Travessa do Tranco, com uma companhia tão... encantadora? Não é exatamente o tipo de passeio que um bom marido faria, não acha?

Rita mal havia terminado sua provocação quando a jovem ao lado de Ron deu um passo à frente, já mostrando o distintivo de auror em treinamento.

— Bruna Nichols — declarou com firmeza, o distintivo brilhando sob a luz.

Rita arregalou os olhos de surpresa, mas rapidamente se recompôs, o sorriso malicioso retornando aos seus lábios.

— Oh, por Merlin! — exclamou Rita, com uma teatralidade que não deixava dúvidas sobre sua intenção de exagerar. — Então, vocês vieram buscar ajuda no submundo, já que a perícia bruxa não conseguiu descobrir para que serve a joia Malfoy?

Enquanto falava, sua pena de repetição rápida já estava em ação, anotando tudo em seu pergaminho, obedientemente registrando cada palavra. Antes que Bruna pudesse responder, Ron deu um passo à frente e agarrou o braço de Rita, levando-a rapidamente para um canto da rua, onde um amontoado de caixas vazias oferecia uma sombra discreta.

— Como você sabe sobre a joia, Skeeter? — sussurrou com intensidade, seus olhos fixos nos dela.

Mas Rita não se intimidou. Na verdade, a situação parecia apenas instigá-la ainda mais. Continuando a narrar para a pena, declarou em voz alta, com um tom dramático:

— Pena, registre: Ron Weasley, em um claro ato de intimidação, agarra a repórter destemida com força, numa evidente demonstração de força bruta e abuso de autoridade!

Ron imediatamente soltou o braço de Rita ao ouvir as palavras "abuso de autoridade" saírem de sua boca. Sua expressão endureceu enquanto ele tentava manter a calma.

— Você pode ser processada por obstrução da justiça, Skeeter — disse ele, sua voz baixa e carregada de advertência.

Rita, sem perder a compostura, ajeitou a roupa e lançou um olhar afiado para Ron.

— Se o senhor fosse um pouco mais esperto, senhor Weasley, ao invés de apertar meu braço como um troglodita, poderia me convidar para um café e perguntar o que eu sei — disse ela, seu tom carregado de sarcasmo. — Não é do meu interesse que os aurores não desvendem o caso, pelo contrário.

Ron, ainda frustrado, mas agora um pouco mais calmo, a observou com atenção. Sabia que Rita Skeeter jogava em várias frentes e que ela tinha uma habilidade única para transformar qualquer situação a seu favor. Relaxando um pouco, ele adotou um tom mais conciliador.

— Tudo bem, Rita — disse ele, inclinando-se ligeiramente para ela. — O que você sabe? Vamos conversar.

Rita observou Ron por um momento, avaliando sua mudança de atitude. Um sorriso astuto surgiu em seus lábios.

— Como um voto de confiança — começou ela, suas palavras escolhidas com cuidado — Vou lhe dizer algo que pode ser útil. Há mais joias da família Malfoy desaparecidas. E, pelo que eu sei, talvez seja apenas uma questão de tempo até que essas joias comecem a aparecer em locais suspeitos, tudo para tentar incriminar Lucius Malfoy.

Ron franziu o cenho, absorvendo a informação.

— Você acha que estão tentando enquadrá-lo... — murmurou, mais para si mesmo do que para Rita.

— É o que parece..., mas em breve posso lhe conseguir uma lista completa dessas joias e poderemos ter uma ideia do que a pessoa que as levou está tramando — respondeu Rita, observando-o com atenção. — Agora, Weasley, a questão é: o que você sabe?

Ron hesitou por um instante, mas decidiu retribuir a informação com algo que ele tinha.

— A função principal da joia encontrada no beco diagonal — começou ele, baixando a voz — É realçar a beleza.

Rita fez uma careta de desagrado:

— Realçar a beleza? Que decepção! Eu imaginei algo mais impressionante, como dar um olhar de medusa, permitir travessias incorpóreas... Mas ficar mais bonito? Para que serve isso, afinal, além dos motivos óbvios? — Ela parou por um momento, intrigada, antes de continuar: — E por que essa joia apareceu sorrateiramente no comício de Wilma Dean e não estava no Canadá, com Narcisa Malfoy?

Ron deu de ombros, igualmente perplexo.

— Também estamos no escuro quanto a isso. Estamos investigando se há algo mais oculto, alguma magia mais profunda que ainda não conseguimos identificar. Mas, por enquanto, isso é tudo que sabemos.

Rita sorriu, satisfeita com a troca.

— Isso é inesperado, certamente... uma joia de beleza — disse ela, quase como se estivesse pensando em voz alta. — Isso parece mais um enigma, não é? Eu diria que temos muito a descobrir ainda.

Ron a observou com desconfiança, mas sabia que, ao menos por agora, tinham trocado informações valiosas.

— Tome cuidado, Rita — disse ele em tom de alerta, antes de se afastar. — Isso pode ser mais perigoso do que parece.

Rita apenas deu de ombros, ainda com o mesmo sorriso no rosto.

— Perigo faz parte do meu trabalho, Weasley. Mas obrigada pelo aviso.

Enquanto Ron se afastava, Rita Skeeter já formulava mentalmente as próximas perguntas e conexões. A conversa havia sido produtiva, e ela sabia que precisava jogar com cuidado. Mais tarde, ao se encontrar com Fleur Delacour e Lucius Malfoy, compartilharia as novas informações obtidas de Ron. Sua lealdade, embora temporária, estava com o trio improvável que havia formado. Essas novas informações não só fortaleceriam a aliança, mas também reforçariam a sua importância dentro dela. Ela estava pronta para jogar suas cartas, mantendo-se essencial para ambos, enquanto planejava garantir sua própria vitória.