A chuva torrencial caía impiedosa, acompanhada dos estrondos de raios e trovões que, hora ou outra, riscavam o céu da capital grega, transformando tudo em um verdadeiro caos. As gotas de água cumpriam seu papel, alheias ao fato de que Aiolos estava preso em um engarrafamento quilométrico. As sinaleiras, bem como todo tipo de iluminação artificial, haviam sido apagadas na região devido ao temporal, que provocara um curto-circuito na estação de energia elétrica.

O sagitariano estava nervoso. Olhava para frente, mas a fila de carros parecia não ter fim. Se continuasse assim, não chegaria a tempo de impedir que Érika partisse — isso, se é que ela já não tivesse partido.

Como não estava tão longe do aeroporto, decidiu estacionar o carro. Desceu rapidamente e, sem hesitar, começou a correr em direção ao terminal. Não se importava com a chuva fria que o encharcava da cabeça aos pés; a única coisa que realmente importava era encontrar a canceriana.

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Érika observava pela janela do aeroporto a chuva torrencial que caía sem trégua. Seus olhos cor de mel estavam fixos no movimento incessante das gotas, mas sua mente vagava, perdida em pensamentos sobre tudo o que lhe acontecera nos últimos meses — principalmente sobre aqueles olhos verdes e o sorriso de Aiolos, que sempre conseguiam tirá-la do prumo.

Ela não era covarde, longe disso. Mas havia decidido abandonar tudo, porque não suportaria ficar tão próxima dele e, ao mesmo tempo, tão distante. A ideia de vê-lo nos braços de outra mulher era dolorosa demais. Não fazia isso por egoísmo; pelo contrário, queria vê-lo feliz. E, por isso, resolveu ir embora. Já havia enfrentado decepções antes e sabia, melhor do que ninguém, que a dor eventualmente passaria.

O amor que sentia por Aiolos chegara de forma avassaladora, arrebatando seus pensamentos, sua alma e seu coração. Era o tipo de sentimento que transformava cada minuto longe em uma eternidade. Esse amor doía, e agora doía ainda mais. Tudo o que Érika desejava era poder voltar no tempo e impedir que as coisas chegassem a esse ponto. Também ansiava arrancar, com as próprias mãos, a dor que lhe comprimia o peito. Mas nada podia fazer além de esperar que o tempo, soberano de todas as coisas, cumprisse sua função e colocasse cada peça em seu devido lugar.

Ah, esse tom de voz eu reconheço

Mistura de medo e desejo…

– Érika…

A canceriana estava tão imersa em sua dor, que ouviu seu nome soar como um sussurro quase se perdendo no som da chuva batendo no telhado e do barulho incessante dos trovões e, por isso, achou que fosse sua mente a lhe pregar uma peça. "Céus, até quando minha própria mente vai me atormentar?", pensou enquanto sentia o gosto salgado das lágrimas que caiam em abundância de seus olhos.

Eu pensei que só tava alimentando

Uma loucura da minha cabeça

Mas quando ouvi sua voz, respirei aliviada.

– Érika…

Dessa vez, o som foi mais forte. A voz marcante estava misturada ao desespero e à agonia, e Érika soube naquele momento que não se tratava de seus devaneios. Isso foi confirmado pelo reflexo na janela de vidro, onde Aiolos estava parado atrás dela. Prontamente, segurou o pranto e a respiração e, como se fosse em câmera lenta, virou-se na direção dele.

O dourado, ao vê-la ali, sentiu um misto de alívio e tristeza. Alívio por ter conseguido chegar antes de sua partida e tristeza por saber que era o causador do sentimento estampado no rosto feminino. Internamente, sentiu-se o pior dos homens, pois jamais pensou que pudesse causar tamanha dor a alguém, ainda mais a quem amava.

Segurou o ímpeto de correr até ela e abraçá-la de maneira que toda a dor se esvaísse, pois não sabia como Érika reagiria. Com certeza, depois de tudo o que havia acontecido, ela estaria pensando que ele era um cafajeste… Quem diria que Aiolos de Sagitário, o Cavaleiro mais fiel a Atena, que morreu para salvar a deusa protetora da Terra e foi tido como um traidor, pudesse agora ser visto dessa forma? Mas ele não estava ali para lamentar, e sim para consertar o que, talvez, fosse o maior erro de sua vida.

Respirou fundo, tentando controlar os batimentos cardíacos, caminhou até ela e fitou profundamente os olhos cor de mel, avermelhados pelo pranto, sob as lentes dos óculos de armação redonda que ela usava.

– Érika, eu preciso falar com você. Por favor, me deixe explicar – falou com um tom de súplica, quase desesperador, que chamou a atenção da canceriana. – Não vá embora, fique comigo!

A jovem sentiu seu coração acelerar ao ouvir as palavras do sagitariano. Um misto de sensações tomou conta de cada parte do seu ser, mas, com elas, veio a lembrança de Laís e do filho que ela esperava. Agora, somente a raiva predominava. O que ele queria afinal? Como podia pedir isso se estava prestes a se casar? Ele queria ficar com as duas, era isso?! – pensou. Tentou se afastar dele e sair correndo, mas foi impedida.

– Sei que você deve estar pensando que sou um cafajeste, mas não é nada disso. Descobri que Laís me traía, eu era apenas um prêmio para ela – desembuchou tudo de uma vez, incapaz de segurar aquelas palavras na garganta por mais tempo.

Érika apenas o olhava, sem esboçar reação alguma. Será que os deuses haviam ouvido suas preces? Será que aquilo era um sonho? Saiu de seus devaneios ao sentir os braços fortes de Aiolos a envolverem. Apesar da camiseta dele estar encharcada pela chuva, podia sentir o calor que emanava de seu corpo e também as batidas aceleradas de seu coração. Sem pensar, e desejando se perder naqueles braços, ela o abraçou também. Ficaram assim por vários minutos que mais pareciam horas... ou seriam anos?

Aiolos separou o abraço e fez o que desejava desde que chegara ali: segurou delicadamente o rosto dela e a beijou.

É, e na hora que te beijei

Foi melhor do que imaginei

Se eu soubesse tinha feito antes

No fundo sempre fomos bons amantes.

Aquele beijo era calmo, mas não menos profundo, e ambos transmitiam, em cada toque, todo o amor que nutriam um pelo outro. Seus corações pareciam prestes a explodir de tanta alegria. Já haviam se beijado antes, mas aquele tinha um sabor diferente, mais intenso, porque, agora, nada mais os impedia de serem felizes.

Com muito esforço, Aiolos interrompeu o beijo. Ainda segurando o rosto delicado de Érika entre as mãos, encostou sua testa na dela, deixando que suas respirações se misturassem.

– Fique comigo. Eu preciso de você na minha vida, minha rainha... E, por favor, posso até ser seu chefe, mas, antes disso, sou Aiolos, o homem que te ama com todas as suas forças. Então, não me venha com a desculpa esfarrapada de que não podemos ficar juntos, porque agora nada nos impede.

Ao ouvir o pedido, novamente carregado de sinceridade e amor, Érika não conseguiu conter as lágrimas, que agora transbordavam de felicidade. Aquelas eram as palavras que sempre desejara ouvir, o sonho que jamais acreditara que pudesse se tornar realidade.

Sem dizer nada, mas oferecendo sua resposta, aproximou-se dele mais uma vez e selou seus lábios nos dele. Era o seu sim. Sim, ela não iria embora. Sim, ela ficaria em sua vida. E, naquele instante, o destino deles foi traçado sob a força do amor que os unia.

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Aiolos e Érika estavam no apartamento do sagitariano na capital grega. O ambiente era aconchegante, com móveis de tons neutros e iluminação suave, perfeito para uma noite tranquila após tantos acontecimentos intensos.

– Vamos pedir algo para comer? – perguntou Aiolos, quebrando o silêncio. – Estou faminto!

– C-claro. Também estou – respondeu Érika, gaguejando levemente. Sua mente, entretanto, a traía, enchendo-se de pensamentos nada castos sobre a sugestão do sagitariano. "Se controle, Érika", repetiu mentalmente, como um mantra.

Aiolos caminhou até o telefone e ligou para um restaurante grego, fazendo o pedido. Depois, foi até uma pequena adega portátil, de onde escolheu um vinho tinto. Serviu o líquido em duas taças e entregou uma a Érika antes de ambos se acomodarem no sofá.

– Aiolos, me conta direitinho o que aconteceu entre você e Laís – pediu Érika, sua curiosidade vencendo o momento de descontração.

– Conto, sim, mas não agora – respondeu ele, deixando sua taça sobre a mesinha de centro. – Não quero estragar nosso momento. Além disso... – disse, seu semblante de repente sério – preciso te falar algo importante.

O tom grave da voz de Aiolos fez o corpo de Érika se retesar. Milhares de pensamentos começaram a passar por sua mente. Será que ele havia mentido sobre Laís? A ideia causou um nó na garganta. Fitando-o com um olhar decidido, ela rebateu:

– Não. Eu quero saber agora! – Sua voz foi firme, surpreendendo o sagitariano.

Aiolos suspirou, percebendo que não havia como adiar.

– Tá bom, linda. Não quero segredos entre a gente – disse, segurando a mão dela com carinho. Então, fitando seus olhos, começou a contar tudo o que havia descoberto sobre Laís.

Ele fez pausas enquanto explicava, tanto para respirar quanto para permitir que Érika processasse as informações. Quando ela abriu a boca para falar algo, ele colocou delicadamente o dedo indicador sobre seus lábios.

– Antes que você diga qualquer coisa, preciso te contar algo ainda mais importante.

E foi então que Aiolos revelou sua verdadeira identidade. Contou que era um Cavaleiro de Ouro, que havia morrido e ressuscitado, e falou sobre seu dever como protetor de Athena. Érika ouviu tudo em silêncio, seus olhos atentos ao homem à sua frente. Era muita informação para absorver. Saber que os deuses gregos existiam de fato era uma ideia avassaladora. Sentindo-se tomada por pensamentos confusos, ela se levantou e caminhou até a janela, buscando clarear a mente.

Aiolos a observava, respeitando seu silêncio. Ele entendia a complexidade da situação; no lugar dela, talvez também precisasse de tempo para digerir tudo.

O momento de introspecção foi interrompido pelo som da campainha. Aiolos foi atender, já imaginando que fosse a entrega do restaurante. Após pagar, levou a comida até a cozinha e ajeitou a refeição sobre a mesa. Voltando à sala, encontrou Érika ainda próxima à janela, imóvel. Aproximou-se dela com cuidado, envolvendo-a em um abraço por trás.

– Ei, está tudo bem? – sussurrou ele no ouvido dela. – Sei que tudo isso é confuso para você, mas eu realmente estou aqui. Não sou um sonho.

Érika soltou um suspiro longo, virando-se para encará-lo. Com delicadeza, colocou a mão na face masculina.

– Eu sei, lindo. Só preciso de um tempo para me acostumar com tudo o que você disse.

Aiolos segurou a mão dela sobre seu rosto e sorriu.

– Eu entendo... – disse antes de aproximar seus lábios e lhe dar um selinho suave. – Vamos comer?

Ela assentiu, e os dois seguiram para a mesa. Durante o jantar, desfrutaram da comida deliciosa enquanto Aiolos respondia pacientemente a todas as dúvidas da brasileira.

Quando terminaram, voltaram para a sala, agora mais leves. Sentaram-se novamente no sofá, ainda com as taças de vinho, aproveitando o momento tranquilo para deixar o peso dos acontecimentos se dissipar aos poucos.

Tanto amor guardado tanto tempo

A gente se prendendo à toa

Por conta de outra pessoa

Só dá para saber se acontecer.

Com a cumplicidade entre eles restaurada, o grego a abraçou e dessa vez selou seus lábios nos dela num beijo mais demorado que aos poucos foi tornando-se mais possessivo e urgente. As mãos iam passeando pelos corpos um do outro e, assim, acendendo o desejo. Aiolos não queria apressar as coisas, esperaria o tempo que fosse necessário para que dessem o próximo passo.

Pensando nisso, interrompeu o beijo. Mesmo respirando com dificuldade, encostou sua testa na dela, mas antes que pudesse falar algo, fora surpreendido por um beijo avassalador vindo dela. E ali ele soube que ela não queria esperar. Os braços fortes do dourado ergueram o corpo miúdo e depois se dirigiu até seu quarto, onde a depositou com cuidado sobre os lençois brancos. Voltou a se apossar dos lábios avermelhados, mas dessa vez não se demorou ali, logo desceu os beijos pelo queixo, pescoço, ombro e com a mão livre, começou a descer a alça do vestido que ela usava.

A cada parte do corpo de Érika que lhe era revelado, Aiolos respondia beijando cada centímetro da pele macia e cheirosa. A canceriana aos poucos deixava que gemidos tímidos começassem a sair de seus lábios, instigando mais e mais que o dourado prosseguisse. Quando por fim retirou toda a peça de roupa feminina, Aiolos se ajoelhou sobre o colchão, deslizando seus olhos verdes por todo o corpo de Érika e um sorriso se formou em seus lábios. Ela era linda e perfeita.

Antes de voltar a deitar seu corpo sobre o da canceriana, retirou sua camiseta pólo, deixando seus músculos torneados à vista e viu os olhos cor de mel dela adquirirem um brilho intenso. Jogou a peça de qualquer jeito para algum canto e tomou os lábios novamente num beijo carregado de luxúria que foi retribuído da mesma forma. Suas mãos voltaram a passear pelo corpo feminino e seus lábios deixaram os dela encontrando um dos seios firmes, onde circundou com a ponta da língua para depois tomá-lo com a boca arrancando um gemido lânguido e fazendo o corpo de Érika se arquear devido ao prazer que ele estava lhe proporcionando.

Aiolos permaneceu ali por mais algum tempo, saciando todo seu desejo por aquela parte da anatomia feminina que ele tanto amava. Quando deu-se por satisfeito, seguiu depositando selinhos e marcando a pele alva até chegar na calcinha rendada, retirando-a em seguida. Érika tinha os olhos brilhando e a respiração acelerada pela expectativa do que viria, quando o grego segurou firme em suas coxas depositando beijos nelas, para enfim encontrar seu ponto máximo de prazer. Um gemido mais alto se desprendeu de sua garganta, enquanto seus dedos emaranhavam nos cabelos castanhos.

A sensação de ter a língua do dourado explorando cada recanto de sua intimidade era gostoso demais, queria mais e mais. Ele permaneceu ali lhe proporcionando prazer até começar a sentir os espasmos atingindo seu ápice. Aiolos se levantou retirando em seguida sua bermuda e cueca boxer, liberando seu membro que pulsava implorando para ser usado. Deitou-se por cima do corpo feminino enquanto Érika abria as pernas para recebê-lo e o puxou para um beijo cheio de lascívia que o sagitariano entendeu que ela estava pronta.

Então sem mais conseguir esperar, adentrou a intimidade da canceriana, e dessa vez, foi ele que não conseguiu conter um gemido. Ela estava quente, tão molhada que fez seu membro pulsar forte. As primeiras estocadas foram profundas, mas os gemidos de deleite e os arranhões que Érika fazia em suas costas o instigavam a aumentar a velocidade, o que não demorou para que ambos atingissem o ápice juntos.

Aiolos deitou sobre a cama trazendo Érika para que deitasse em seu peito e assim o casal adormeceu, com a certeza que nada e nem ninguém mais atrapalharia o sentimento que nutriam um pelo outro.

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No dia seguinte, Alethea e Luisa estavam conversando. A médica falava sobre sua descoberta em relação a Laís, enquanto a secretária compartilhava que Aiolos havia ligado perguntando sobre Érika.

– Será que ele conseguiu impedir que ela fosse embora? – perguntou Luisa, curiosa.

– Eu acho que sim, porque, uns dez minutos antes, ela me ligou dizendo que, por causa do temporal, todos os voos estavam atrasados – Alethea deu um sorriso matreiro, que foi acompanhado pela outra.

As duas estavam prestes a continuar a conversa, mas o som do elevador interrompeu o momento. Elas olharam na direção da porta, e Aiolos apareceu, com os olhos brilhando e um sorriso largo no rosto.

– Hmmmm… viu o passarinho verde, Olos? – Luisa perguntou, divertida. – Aliás, uma passarinha com olhos cor de mel.

– Lú… você não toma jeito – respondeu Aiolos, também divertido. – Ah, quero te agradecer, porque, graças ao que você descobriu, agora posso viver o amor verdadeiro.

– Assim você me deixa envergonhada – Luisa corou. – Agradeça às Moiras, que fizeram com que eu descobrisse na hora certa o que Laís estava fazendo.

– Verdade! Foi na hora certa. Alethea – ele virou-se para a secretaria, que apenas ouvia a conversa – Por favor, providencie a papelada para que Érika volte a trabalhar aqui e também para retornar ao apartamento onde morava.

– Claro, senhor Hilbert – Alethea sorriu, feliz pela amiga.

Depois de fazer o pedido a Alethea, Aiolos seguiu para sua sala, enquanto Luisa se despedia de sua amiga e também ia em direção à sua sala.

É, e na hora que te beijei

Foi melhor do que imaginei

Se eu soubesse tinha feito antes

No fundo sempre fomos bons amantes.

É o fim daquele medo bobo...

Alguns meses se passaram. Érika e Aiolos estavam em um restaurante para comemorar mais um mês de namoro. Eles bebiam um vinho quando o sagitariano puxou a canceriana pela mão, onde começaram a dançar ao som da música que tocava e, com ela, muitas declarações e beijos apaixonados foram trocados pelo jovem casal.

FIM.