Ratchet começou a se preocupar com as constantes idas de Optimus ao Ártico.

Todos os cybertronianos sabiam o quanto o frio afetava seus sistemas. Optimus era um dos autobots que mais tinha medo do frio, e Ratchet sabia disso também. Sempre que notava a ausência do líder, fora de uma missão, se dirigia imediatamente em busca de sua atual posição. E lá estava Optimus, novamente caminhando no mesmo lugar de sempre.

Já faziam dois meses terrestres que Megatron havia desaparecido do mapa. Nem mesmo os decepticons sabiam mais onde encontrá-lo, assim como também não pareciam saber que os autobots pudessem estar envolvidos diretamente em seu sumiço. Pelo menos não da forma como realmente foi.

Ratchet sabia, mas não entendia como Optimus conseguia se sentir tão culpado pelo possível desligamento de Megatron. Se o líder decepticon congelou até a morte, não foi culpa de Optimus. Para Ratchet, a culpa era toda de Megatron, que tentou bancar o altruísta, depois de se aproveitar das fraquezas e da bondade de Optimus, como costumava fazer, sempre que aparecia uma oportunidade.

Pensou em ir atrás de seu velho amigo, quando recebeu um pedido de Optimus para que abrissem o portal.

Optimus atravessou o portal parecendo desolado. Se incomodou um pouco ao ver Ratchet ali.

Ratchet decidiu não o atormentar com perguntas desnecessárias, pelo menos não agora. Fingiu estar ocupado analisando uma amostra de energon sintético, ignorando a presença de Optimus.

Seu plano de deixar o amigo em paz não foi bem-sucedido, pois escutou um barulho de queda vindo do corredor.

Ratchet correu até Optimus e o ajudou a se levantar. Optimus estava frio e parecia muito fraco.

– Optimus, quanto tempo ficou lá desta vez?

– Pouco mais de quinze minutos terrestres.

– Bom, não é o suficiente para derrubar um bot do seu tamanho – verificou a energia em seu braço – Optimus! Você não recarregou… de novo!

Ratchet começou a se irritar de verdade. Optimus vinha fazendo isso ultimante, não só em suas idas atrás de algum rastro de Megatron, mas também em batalhas e outras reuniões com o grupo. O amigo vinha recusando cubos de energon e até palitos de ferrugem, que era o doce favorito de todo cybertroniano. Reclamava do cheiro de fumaça dos colegas e até dos lanches que seus amigos humanos faziam dentro da base. Na verdade, Optimus vinha reclamando muito desde que deixou a Matriz aos cuidados de Hot Rod. Ratchet teve que convencer Wheeljack a levar a Matriz até onde o autobot estava escondido, do outro lado sistema solar. Seria melhor para Optimus que Hot Rod tomasse conta dela, depois do surto que Optimus teve.

O problema era que Optimus nunca foi de reclamar e Ratchet não acreditava que a ausência da Matriz o havia mudado dessa forma. Antes da Matriz, quando Optimus Prime era apenas Orion Pax, o autobot costumava ser ainda mais gentil e mais ligado a seus companheiros. Então, aquele comportamento não fazia o mínimo sentido para Ratchet. Talvez a culpa por ter deixado Megatron sozinho, depois de receber ajuda do decepticon, o estava corroendo feito ferrugem. Infelizmente isso era algo com o qual Ratchet não poderia ajudar.

Teve muita dificuldade em fazer Optimus aceitar ser examinado. Acabou o convencendo, insistindo que seria apenas outro exame simples, só para garantir que o frio intenso não vinha afetando seus sistemas.

Mas lá no fundo, Ratchet temia por um mal muito maior.

Optimus ficou o tempo todo apático. Não conversou e mal respondia as perguntar mais básicas que Ratchet lhe fazia. Optimus quase fugiu quando Ratchet o escaneou. Ratchet teve que pular encima do grande mecanismo antes de perdê-lo outra vez. Se lembrou da semana passada, quando inventou uma vistoria geral em todos na base e Optimus se transformou ainda sobre a sua maca, evitando seu escâner. Ratchet acreditava que, dessa vez, a baixa energia acabou evitando mais uma fuga.

– Da parte que me cabe, fora a sua baixa energia, que não é novidade, já que continua se recusando a se alimentar, está tudo bem com você, Optimus. Sistemas físicos e neurais funcionando muito bem, e não há nada de errado com as suas centelhas.

Optimus pareceu bastante estarrecido, mas ficou em silêncio, olhando para Ratchet como se esperasse pelo lançamento de uma das bombas de Wheeljack bem em sua cabeça.

E a bomba veio. Devastadora.

Ratchet demorou alguns nano-ciclos para se dar conta do próprio diagnóstico que acabara de passar para Optimus.

– Optimus, pelo Allspark, por que você teria mais de uma centelha?

Repassou o escâner sobre o amigo mais algumas vezes, batendo o objeto sobre a maca, como se aquilo pudesse ser concertado e mostrar um resultado satisfatório. Pela expressão de horror de Ratchet, pareceu não funcionar.

O objeto acabou se partindo em dois, em meio ao desespero do médico autobot.

– Não, eu precisava disso.

Ratchet revirou uma caixa de aparência antiga e retirou outro escâner de lá. Esse era maior e parecia possuir mais botões. Repassou o objeto por cima do corpo de Optimus tentando obter uma resposta menos trágica.

Mas Ratchet sabia que tudo aquilo era inútil. Sabia que todo seu drama não adiantaria de nada e a única coisa que conseguiria ali era devastar ainda mais o estado do melhor amigo.

Ratchet olhou para Optimus que permanecia assutado e bastante abatido, deitado no mesmo lugar, sem mexer ao menos um mecanismo sequer. Se sentiu um lixo. Não era assim que um profissional deveria agir, ainda mais em circunstâncias como essas; ainda mais com um velho amigo.

Ratchet foi até um tanque de energon, localizado próximo a maca, e o ligou no braço de Optimus.

– Você vai ficar recarregando aqui por hoje. Essa é a melhor forma de se manter nutrido na sua condição atual. Se continuar a deixar seus tanques tão baixos assim, vai acabar se matando e levando elas junto.

– Ratchet – Optimus pareceu finalmente tomar coragem para falar – Você disse… elas?

– Sim, são duas centelhas – Ratchet tentou manter a voz calma e um tom profissional. Viu que Optimus só reagiu quando soube que eram duas. – Então não é o fato de você carregar uma centelha a mais que te surpreende, e sim, carregar duas. Você já sabia.

– Não, eu desconfiava. Acredito que, na verdade, eu só não queria saber.

Destruído. Era assim que Optimus se sentia depois que Ratchet lhe deu, ou melhor, confirmou a notícia. Chegou sim a desconfiar. Nos últimos orns vinha sofrendo dores e sensações muito estranhas. Não estava conseguindo recarregar adequadamente nem descansar. Mas o medo sempre o impediu de seguir adiante e buscar a verdade.

Optimus colocou a mão sobre sua câmara de centelha, sentindo as duas pequenas novas vidas pulsarem em resposta. Retirou rapidamente a mão assim que viu Ratchet o observando. O médico autobot parecia compadecido.

– Optimus, não precisa ter medo ou vergonha da sua situação – Optimus encarava o chão – Tudo bem, não é algo comum, principalmente para um líder, ainda mais com seu inimigo mortal e…

– Ratchet, por favor.

– Desculpe, Optimus, eu sei que está sofrendo, agora mais do que nunca. Mas eu só não consigo entender sabe… o Megatron? Acredito que eu nem precise perguntar, mas, como profissional e ainda mais nessas circunstâncias de guerra e tudo o mais…

– Foi totalmente consentido, não se preocupe com isso.

– Olha, sei que é horrível de se dizer mas, isso não me deixa menos preocupado.

– É óbvio que nem eu nem o Megatron planejamos isso, mas eu sempre amei o Megatron, desde jovem, e você sabe disso.

– Não, Orion Pax amou Megatronus, antes da guerra. Além disso, ele nunca correspondeu aos seus sentimentos.

– Eu nunca contei a ele; não tive coragem. Ficamos juntos por milhões de anos, então é claro que aconteceram uma ou duas coisas entre nós; coisa pouca, nada demais. Então eu recebi a Matriz e ele passou a me odiar por isso. A guerra começou e estávamos em lados opostos, ocupados demais, matando nossos inimigos e tentando nos matar.

– Eu sinto muito, Optimus.

– Eu sei disso, velho amigo. Mas agora é tarde demais.

– Não, não é, e você sabe disso.

– Ratchet – a voz de Optimus era de pura dor.

– A questão é, está mesmo disposto a acabar de vez com essa 'rivalidade'… o que restou dela? Desculpe, como médico eu sei que talvez não devesse perguntar algo assim. Além disso, você já passou do tempo para ter um espumante, nem sei como conseguiram esse feito. Essa será sua última chance.

– Ratchet, e os outros?

– Bem, os outros continuarão a ser quem sempre foram; os outros.

Optimus voltou a tocar sua câmara de centelha, colocando carinhosamente a mão sobre ela.

– Acredito que já tenha tomado a sua decisão, velho amigo.

– Mas, e agora, Ratchet?

– Agora tenho boas e más notícias. A boa notícia é que os dois estão bem. Quando você retirou a Matriz naquele dia, a impediu que ela os matasse. Um Prime não tem permissão para carregar. A má notícia é que seu corpo não suporta um carregamento, não desse nível – Optimus o olhou assustado – Sua estrutura física não vai conseguir se expandir o suficiente para abrigá-los quando crescerem e acredite, eles serão enormes.

– Nesse caso, não existe uma boa notícia.

– Sim, existe. Elas podem ficar em uma câmara de estase especial, até as protoformas começarem a desenvolver suas primeiras características. Depois elas precisarão de uma fonte de alimentação especial para terminarem de se desenvolver e então, 'nascer'. A parte boa disso tudo é que você não precisará se arrastar por ai carregando essas coisas enormes dentro de você – Optimus o olhou feio – Desculpe, força do hábito não ser gentil com nada que pertença ao Megatron.

– Eles também pertencem a mim. Aliás, são só meus, agora que ele se foi – Optimus ficou ainda mais deprimido.

– Lamento Optimus, mas tenho mais notícias ruins. Somente os decepticons possuem essa tecnologia para manter os espumantes seguros. E temos visto pouco eles ultimamente.

– Sim, por enquanto a única coisa que fazem é continuar nos deixando com baixo estoque de energon.

– É verdade, estão calmos e bem mais pacíficos, agora que o Megatron não está mais aqui.

Ratchet mordeu a glosa. Com certeza estava deixando Optimus mais deprimido que qualquer notícia ruim..

– Vou dar uma volta – Optimus saiu do consultório antes de ter que ouvir outra notícia ruim.

Optimus estava correndo pela estrada de terra que ficava próxima a base dos autobots. O Prime não era um velocista, nem poderia, dirigindo um caminhão daquele tamanho. Mas ultimamente, correr era a única coisa que deixava Optimus relaxado. Apesar de rápido, Optimus costumava ser sempre muito cuidadoso, ainda mais agora, carregando as coisas mais importantes do universo.

Um forte baque encima de sua cabine fez Optimus quase perder o controle e cair em um desfiladeiro. O autobot se transformou antes de tombar na beirada da rodovia.

Soundwave já estava esperando por ele bem no meio do caminho.

– Soundwave, eu não desejo lutar com você agora. Eu sei que você quer vingança pelo Megatron, mas acredite, estou sofrendo com a ausência dele tanto quanto você.

– Soundwave não acredita em autobot.

Soundwave partiu para cima de Optimus, tentando acertar um chute em seu rosto. Optimus apenas bloqueou, usando ambas as mãos. Soundwave continuou atacando, sendo apenas bloqueado por Optimus.

– Desde quando autobot se tornou um covarde? Soundwave aposta que foi depois de largar Lord Megatron sozinho para morrer congelado.

– Não, não é verdade, eu voltei por ele, mas ele não estava mais lá – Optimus parecia desesperado.

– Soundwave encontrou a última localização de Lord Megatron naquele dia. Havia outra assinatura, uma autobot; Optimus Prime. Soundwave foi até lá, mas não encontrou nada, nem ninguém. A relíquia também sumiu. Optimus Prime continuou aparecendo nos radares decepticons, mas Lord Megatron nunca mais voltou.

Soundwave envolveu o pescoço de Optimus com seus tentáculos. Optimus entrou em desespero. Aquilo poderia separar sua cabeça de seu corpo facilmente. Optimus começou a puxar Soundwave em sua direção para forçar o decepticon a soltá-lo. Bastaram dois puxões para Optimus também grudar no pescoço do decepticon. Optimus tinha muita força e também poderia partir Soundwave facilmente se quisesse.

O problema era justamente esse. Soundwave sabia que Optimus jamais faria algo assim.

– Autobot é fraco. Sempre protegendo os mais fracos, mesmo que isto custe a sua centelha.

– Está enganado, Soundwave, agora, mais do que nunca, eu tenho que ser forte e me proteger, para salvar os mais fracos. A mim e as minhas duas centelhas.

Soundwave se distraiu com aquela nova informação. Como assim proteger a si mesmo e a suas duas centelhas? Por que um cybertroniano possuiria mais de uma centelha; mais duas?

Um emoji de surpresa apareceu no visor de Soundwave.

Optimus sentiu os tentáculos o soltando gentilmente. O decepticon encarrou Optimus por alguns minutos sem dizer absolutamente nada.

– Soundwave, eu realmente sinto muito.

– Autobots não devem ter energon o suficiente para manter Optimus agora – Soundwave se levantou como se nada tivesse acontecido. Teclou alguma coisa em seu braço e se dirigiu a Optimus – Soundwave vai passar ao autobot as coordenadas de uma mina de energon que já está quase todo refinado. Não terá decepticons lá por dez ciclos; sejam rápidos.

– Soundwave, eu não creio que isso vá mudar o fato de que eu não possa mais carregá-los, muito em breve.

Soundwave se aproximou de Optimus o encarando bem de perto. Optimus tinha certeza de que se não estivesse portando aquelas centelhas, o decepticon teria o perfurado bem ao meio.

– Autobot está dizendo que vai encerrar espumantes de Megatron?

– Não, eu disse que não serei capaz de mantê-los comigo. Meu corpo não resistiria e eu acabaria os perdendo de qualquer forma.

– Autobots são muito inferiores. Decepticons podem lidar com esse problema. Soundwave vai falar com Nocaute, ele é jovem, mas muito eficiente.

– Soundwave, não acho que o Nocaute, ou qualquer outro decepticon, tenha alguma boa vontade de me ajudar, mesmo que seja pelo bem dos espumantes do Megatron.

– Soundwave não dirá que são do autobot.

Soundwave não esperou por mais nenhum tipo de agradecimento ou outro pedido patético de desculpas. Se transformou e saiu dali o mais rápido possível, não acreditando que seus medos realmente haviam se confirmado.