Remus estava afundado no sofá velho e gasto, a casa mergulhada na escuridão,
exceto pelo fraco brilho do fogo quase apagado na lareira. O apito agudo da chaleira
estava irritando seus ouvidos sensíveis, mas ele não queria se mover. Não. Ele não
conseguia se mover. Seus músculos doíam, pesados como chumbo, e sua mente
estava entorpecida, exausta de lutar contra as ondas de tristeza e arrependimento
que o assombravam todos os dias.
Ele fechou os olhos por um momento, como se pudesse se desligar do
mundo, mas o som contínuo da chaleira parecia apenas intensificar o vazio dentro
dele. Seu braço, que antes descansava em cima de seu estômago, escorregou para
o lado, derrubando a garrafa de hidromel aberta no chão. O líquido âmbar se
espalhou no tapete já manchado. O cheiro forte do álcool misturava-se com o ar
mofado e frio da casa, mas Remus sequer se importou. Ele não tinha forças para
limpar. Não tinha forças para fazer nada.
Tudo parecia tão distante, como se estivesse apenas existindo em um vazio
sem fim, sufocado pelas lembranças e pela solidão.
Ele não tinha ninguém.
Não mais.
Ele não queria mais isso, viver essa vida miserável e solitária.
Ele achava que havia se acostumado com a solidão. Ele sempre esteve
sozinho, desde de criança, mas parece que se aproximar daqueles garotos em
Hogwarts havia feito com que ele ficasse mal acostumado. Viver anos com seus
amigos no dormitório e depois ter sua cama e casa sempre ocupados pela presença
do amor da sua vida o fez amolecer.
Mas agora ele não tinha mais essas presenças. Ele não tinha mais seus
amigos, não tinha mais o amor da sua vida, não tinha mais ninguém. Ele realmente
estava surpreso por ainda estar vivo, seja pelos pensamentos de que a morte seria
algo realmente agradável ou pela falta de dinheiro. Se bem que Remus passava
dias e mais dias sem comer, vivendo apenas de cigarros e bebidas, fazendo com
que ele não se lembrasse da última vez que havia ficado sóbrio.
Então, houve uma batida na porta.
Fraca no começo, quase imperceptível. Remus nem sequer piscou. O som
parecia algo distante, como se viesse de outro mundo, e ele estava muito longe de
se importar. O apito da chaleira era mais insistente, mas ambos os sons se fundiam
em uma única massa que não chegava a perfurar a bolha em que ele estava preso.
A batida se repetiu, um pouco mais forte dessa vez, ecoando pela pequena
casa escura. Algo dentro dele registrou o som, mas Remus apenas permaneceu
parado, seus olhos turvos e a mente perdida. A porta era apenas mais uma coisa do
mundo exterior que ele não queria ou não podia encarar.
Quem quer que estivesse do outro lado parecia insistente, já que houveram
mais batidas ainda mais fortes. Remus piscou lentamente, a cabeça girando
levemente com a sensação do álcool pesado em seu sistema. Ele não sabia dizer
quanto tempo havia se passado desde a última vez que ouvira um som humano tão
próximo. E, francamente, não estava certo se queria saber quem estava ali agora.
Ele queria ser deixado em paz. Ele queria estar em paz.
Mais batidas, cada vez mais fortes e desesperadas.
Remus fechou os olhos por alguns segundos, suspirando pesadamente e se
forçando a levantar. Ele precisou esperar alguns segundos sentado, o álcool
fazendo a sua cabeça girar. Ou o ambiente. Ah, que se foda. Que diferença isso
faz? Remus se levantou, cambaleando até a porta, ouvindo mais batidas outra vez,
fazendo sua cabeça latejar.
Finalmente alcançou a porta, suas pernas bambas, os passos pesados, como
se cada um fosse uma batalha contra a própria vontade de não existir mais. As
batidas continuavam, incessantes, urgentes, e Remus, sem qualquer energia para
se importar, girou a maçaneta com as mãos trêmulas. Ele nem se deu ao trabalho
de olhar quem poderia ser. Talvez fosse um engano. Talvez fosse alguém que ele
não queria ver. Não fazia diferença.
Quando abriu a porta, o frio da noite entrou na casa, cortando o calor abafado
do interior. Remus piscou, tentando focar seus olhos turvos na figura à sua frente.
Ele congelou.
Era James.
Remus recuou, cambaleando até alcançar as escadas da pequena casa.
Seus joelhos cederam, e ele desabou nos degraus, as mãos trêmulas agarrando os
próprios cabelos enquanto os soluços violentos sacudiam seu corpo. O chão parecia
estar se afastando, e a realidade se distorcia em uma mistura de desespero e
negação. Cada fibra do seu ser lutava contra a visão à sua frente; James, seu
melhor amigo, de pé, olhando para ele.
— Remus! — James se aproximou, preocupado
— Você não é real... Você não é real!
— Remus, eu sou real! — a voz de James disse com desespero, mais perto
dele agora.
— Você não é real! Pelo amor de Merlin, me deixe em paz! Eu não aguento
mais isso! — Remus dizia entre os soluços, agarrando os cabelos com força.
— Remus... — mãos seguraram seus pulsos com cuidado, mas ainda de
forma firme. Remus levantou a cabeça rapidamente, os olhos arregalados de
choque.
Remus estava em completo estado de choque, os olhos arregalados, o peito
subindo e descendo em respirações irregulares. Ele puxou os braços
instintivamente, mas as mãos que seguravam seus pulsos não o soltaram. O toque
era real, quente, firme. Seus soluços saíram descontrolados, quase como gritos
sufocados, enquanto ele tentava se desvencilhar, mas suas pernas mal tinham
forças para mantê-lo de pé.
— Remus… — a voz de James soou baixa, mas cheia de emoção. Havia dor
ali, uma dor que Remus conhecia muito bem, mas não conseguia acreditar. Não
podia acreditar. Não depois de tudo.
— Não! — Remus gritou novamente, a voz falhando no final. — Você está
morto… Você… Você morreu! Eu fui ao seu funeral! Eu vi o seu corpo deitado no
caixão ao lado de Lily! Você é só a minha cabeça! Tudo isso é coisa da minha
cabeça!
James não se mexeu. Ele continuou parado ali, segurando gentilmente os
pulsos de Remus, como se soubesse que qualquer movimento brusco poderia fazer
com que o amigo desmoronasse por completo. Os olhos de James, cheios de
compaixão e tristeza, estavam fixos nos de Remus.
— Remus, sou eu. Eu estou aqui. Estou vivo! — disse James, com uma
calma que contrastava com o caos que Remus sentia dentro de si. — Eu não sei o
que te disseram, o que Dumbledore disse, mas eu estou vivo! Não é a sua cabeça!
Eu sou real!
Remus balançou a cabeça freneticamente, o choro o sufocando. Ele olhou no
fundo dos olhos castanhos de James.
— Por favor, eu não aguento mais… — ele sussurrou em tom de suplica.
James o puxou para perto, os braços ao redor de Remus agora, segurando-o
com firmeza. Remus ficou tenso por um momento, sem saber se lutava contra
aquele abraço ou se se rendia. E então, como se uma represa houvesse se rompido
dentro dele, ele cedeu. O choro de Remus se intensificou, desesperado, profundo,
como se todo o peso dos anos de dor estivesse sendo despejado ali, naquele
momento, contra o peito de James.
— Eu estou aqui, Remus. — repetiu James, apertando o abraço. — E não
vou a lugar nenhum.
Remus agarrou a camisa de James com tanta força que seus nós dos dedos
ficaram brancos. Ele soluçava sem parar, murmurando entre os soluços:
— Eu não aguento mais… Eu não aguento… Você… Sirius… Lily… Peter…
Eu perdi vocês… Eu perdi todos vocês…
James passou a mão pelos cabelos desgrenhados de Remus, sua voz baixa
e firme.
— Eu sei, Remus. Eu sei. Mas eu estou aqui agora. Isso é real, está tudo
bem agora.
Remus continuava agarrado a James como se ele fosse a última âncora de
sua sanidade, o corpo tremendo de forma incontrolável. Cada soluço violento
reverberava pelo espaço pequeno e escuro, preenchendo o silêncio sufocante da
casa. James não o soltava, Remus agradecia por isso, sentindo que ele
desmontaria por completo se fosse afastado do abraço.
Aos poucos, o choro de Remus foi perdendo força, os soluços se tornando
mais espaçados, até se transformarem em suspiros trêmulos. James mantinha a
mão firme nos cabelos de Remus, os dedos desenhando círculos lentos e
reconfortantes na nuca do amigo, como se tentasse acalmar a tempestade que o
consumia por dentro.
— Eu não sei como seguir em frente… — Remus murmurou com a voz
quebrada, os olhos fechados enquanto ainda se agarrava a James. — Não sei mais
como viver, como continuar sem vocês…
— Você não está sozinho, Aluado. — respondeu James, sua voz suave, mas
firme. — Eu estou aqui agora.
Remus não respondeu de imediato. Ele apenas se deixou levar pelo conforto
do abraço de James, seu corpo exausto, tanto física quanto emocionalmente. O
calor do toque de James parecia surreal, mas ao mesmo tempo, profundamente
reconfortante, como um lembrete de que, apesar de tudo, havia algo — ou alguém
— que o mantinha preso ao mundo real.
O peso do cansaço começou a vencer a batalha contra sua mente
atormentada. Remus já não tinha forças para lutar contra o alívio que o abraço de
James trazia. Seus músculos começaram a relaxar, e seu corpo foi ficando mole, os
olhos semicerrados enquanto a exaustão finalmente o dominava. Com cuidado,
James ajustou sua posição no chão, apoiando melhor o corpo de Remus e
encostando-o em seu peito, mantendo o abraço protetor.
Remus soltou um último suspiro pesado, seu corpo finalmente se entregando
ao sono. Sua respiração, antes ofegante e descompassada, agora havia se
acalmado, se tornando lenta e profunda. O rosto de Remus, antes marcado pela
angústia e pela dor, agora parecia um pouco mais tranquilo, como se, pela primeira
vez em muito tempo, ele tivesse encontrado algum tipo de paz, mesmo que
momentânea.
Remus deixou a exaustão tomar conta de seu corpo, o puxando para a
inconsciência.
James observou Remus dormir profundamente no chão, os traços de
angústia suavizados pela exaustão. Céus, ele não se lembrava de já ter visto
Remus nesse estado. Nem mesmo na morte do pai ele havia ficado tão devastado e
inconsolável.
James analisou Remus. Ele não podia deixar o amigo dormir no chão, mas
Remus, apesar de claramente extremamente magro, com seus 1,90 m de altura,
ainda era grande demais para James o carregar. Era a licantropia que o fez crescer
tanto quando eram adolescentes?
— Remus. — sussurrou enquanto chacoalhava seu ombro com cuidado. —
Aluado, acorda. Sei que você é um lobo, mas eu não quero que você durma no
chão. — James brincou com carinho.
Os olhos atordoados de Remus se abriram minimamente, claramente sem
conseguir processar o que estava acontecendo ao seu redor. Ele apenas se sentou
no degrau da escada, olhando vazio para o chão. James se levantou, guiando
Remus com cuidado até o sofá velho e gasto, deitando-o e ajeitando-o com cuidado,
puxando uma manta para cobri-lo. Remus adormeceu novamente assim que sua
cabeça tocou a almofada rasgada.
Depois de se certificar de que Remus estava confortável, James se sentou na
poltrona ao lado, sentindo o próprio corpo pesar com a tensão de tudo o que havia
acontecido. Ele manteve os olhos fixos em Remus por um longo tempo, como se
precisasse confirmar repetidas vezes que o amigo estava bem.
James olhou ao redor, e uma pontada de dor apertou seu peito ao ver o
estado da casa de Remus. Cada canto parecia refletir o mesmo vazio e desolação
que havia encontrado no amigo. A sala estava mergulhada em escuridão, com
apenas o brilho fraco e trêmulo do fogo quase apagado na lareira, que projetava
sombras nas paredes manchadas. O ar carregado de umidade e o cheiro
persistente de mofo e álcool quase o fizeram tossir.
As cortinas, outrora claras e talvez até aconchegantes, agora pendiam
pesadas, desbotadas e encardidas. O tapete, coberto de manchas antigas e a mais
recente, do hidromel que Remus derrubara, era um testemunho silencioso de dias e
noites em que ninguém se importou o suficiente para limpá-lo. A chaleira ainda
apitava na cozinha, e James podia ver de relance uma pilha de pratos empilhados,
cobertos com restos de comida já secos e endurecidos.
Ele respirou fundo, o coração apertado ao ver as prateleiras onde Remus
costumava guardar livros, agora cobertas por uma camada de poeira que só
ressaltava o abandono daquele lugar. Livros e papéis estavam espalhados pelo
chão e pelos móveis, amassados e esquecidos, como se qualquer resquício de
organização tivesse sido destruído.
James passou a mão pelos cabelos, tentando processar tudo o que estava
vendo. Era quase inimaginável que Remus, tão meticuloso e cuidadoso, tivesse
chegado a esse ponto. A lembrança do amigo sempre fora de alguém que, mesmo
em tempos difíceis, mantinha uma dignidade silenciosa, cuidando do espaço ao seu
redor como um reflexo de sua própria alma disciplinada.
Mas agora, tudo parecia despedaçado, tanto a casa quanto Remus.
James suspirou e se levantou, indo até a cozinha para desligar a chaleira. No
caminho, ele desviou de uma pilha de papéis, uma garrafa vazia de uísque e mais
alguns pratos sujos. Ao entrar na pequena cozinha, sentiu um nó na garganta ao ver
que o lugar estava coberto de sujeira e desordem. Copos manchados, xícaras com
restos de café, garrafas vazias e pacotes de cigarro espalhados pelo balcão eram
as únicas evidências de que Remus ainda usava aquele espaço, mas de uma forma
que não condizia com o amigo que James conhecia.
Voltou para a sala, onde Remus dormia profundamente no sofá. James olhou
para o rosto do amigo, agora sereno, mas ainda marcado pela exaustão e pela dor.
A noite passou devagar, com James cochilando esporadicamente na
poltrona, mas sempre acordando para checar Remus, como se temesse que ele
pudesse desaparecer a qualquer momento. Quando a luz fraca da manhã começou
a invadir a sala, James desistiu de dormir de fato e levantou-se silenciosamente e
foi até a pequena cozinha, onde começou a preparar um chá. O cheiro suave das
folhas secas se espalhou pelo ambiente, preenchendo a casa com uma sensação
de calma que aparentava não existir ali há muito tempo.
— James? — a voz de Remus saiu rouca e hesitante, entrecortada. Como se
tivesse medo de dizer o seu nome.
James se virou, colocando a chaleira de volta no fogão. Seus olhos
encontraram os de Remus, e ele sorriu suavemente, mas com uma expressão
carregada de preocupação.
— Bom dia, Aluado. — disse ele, com a mesma familiaridade de sempre.
Remus recuou no sofá, o peito subindo e descendo com rapidez.
— Você... — Remus tentou falar, mas a voz falhou. Seus olhos se encheram
de lágrimas enquanto ele se levantava lentamente do sofá, seu corpo tremendo
como uma vara verde. — Você está vivo... Você realmente está aqui… — ele
conseguiu falar, sua voz sendo um sussurro.
— Estou, Remus. — James sorriu de forma calorosa para ele.
Remus balançou a cabeça, as lágrimas escorrendo silenciosamente por seu
rosto. Ele sentia como se sua mente estivesse se partindo ao meio, lutando entre o
medo de acreditar e a necessidade desesperada de aceitar que aquilo era real. Sem
aviso, ele se jogou nos braços de James, abraçando-o com toda a força que tinha.
Os soluços saíram de novo, dessa vez mais desesperados, mais intensos, como se
a realidade da situação finalmente o tivesse atingido de forma devastadora.
— James... Você está vivo… Você realmente está vivo… — Remus
murmurou entre os soluços, a voz quebrada pela dor. — Eu achei que não tinha
mais ninguém... Achei que tinha perdido todos vocês…
James apertou o abraço, sentindo o próprio coração pesar, vendo a extensão
do sofrimento de seu velho amigo.
— Eu sinto muito, Remus... — James disse com a voz carregada de culpa,
passando a mão pelos cabelos desgrenhados do amigo.
Os soluços de Remus continuaram, enquanto ele se agarrava a James como
se sua vida dependesse disso.
— Eu estava tão sozinho… Merlin, era só questão de tempo até eu fazer
alguma besteira… — Remus admitiu.
Então, uma dúvida surgiu na mente de James, uma dúvida que ele não podia
mais ignorar. Quando sentiu que Remus estava se acalmando um pouco, ele fez a
pergunta que estava queimando em sua mente desde que o viu naquele estado.
— Remus… O Sirius… Onde ele está? — James perguntou relutante, com
medo da resposta. Remus se afastou de repente, olhando assustado em seus
olhos. — Remus, o que aconteceu com ele? Sirius jamais te abandonaria, ele nunca
te deixaria desse jeito.
Remus continuou lhe encarando em silêncio.
— Está de brincadeira? — Remus perguntou, incrédulo, se afastando um
passo de James.
James lhe olhou confuso.
— Não. Aluado, onde ele está? O que aconteceu com ele?
— James, você… — Remus passou a mão pelo cabelo sujo e desgrenhado.
— Não pode estar falando sério. Você ainda se importa com ele, mesmo depois do
que ele fez!?
— O que?
— Ele traiu você, James! Black te entregou para Voldemort! Foi isso o que
ele fez! Ele é o culpado de toda essa merda! — Remus praticamente gritava, um
olhar insano de raiva em suas íris verdes.
James recuou meio passo, não acostumado a ver tamanha raiva em seu
amigo que normalmente era tão calmo e equilibrado.
— Não! Sirius nunca faria isso!
— MAS FEZ! — Remus finalmente gritou, seu peito subindo e descendo
rapidamente. — Ele te traiu! TRAIU VOCÊ! TRAIU A MIM! TRAIU…
— Foi Pettigrew! — James interrompeu.
Remus parou de gritar, a expressão de raiva se transformando em confusão.
— O que…?
— Foi Pettigrew, Aluado! — James repetiu, sua voz firme. — Você foi
mandado em uma missão com os lobisomens e Sirius decidiu sair naquela noite. Ele
foi perseguido por Comensais da Morte no mundo trouxa! Ele conseguiu escapar,
mas foi até em casa desesperado, com medo de ser pego e colocado sob Imperius
ou qualquer outra coisa e acabar revelando a nossa localização. Ele insistiu para
que trocássemos o fiel e achamos que Peter seria uma boa ideia! Ninguém
desconfiaria dele! — James estava ofegante, a adrenalina correndo em suas veias e
o ar sendo pouco para a velocidade com que ele falava. — Você ainda não tinha
voltado da missão, não conseguimos te contar. Aluado, eu sinto muito, eu juro que
nós nunca esconderiamos algo assim de você.
O rosto de Remus ficou pálido, seu corpo pendendo para trás, caindo no
sofá.
— Não... — Remus murmurou, sua voz falhando.
— É a verdade, Aluado. — continuou James, se sentando ao lado dele com
cuidado. — Foi ele. O Rabicho nos traiu, se aliou a Voldemort. Sirius tentou nos
proteger.
Remus levou as mãos ao rosto, afundando os dedos nos cabelos
desgrenhados.
— Não… — ele sussurrou. — Não… Eu o larguei lá… Eu o larguei naquele
lugar… O que foi que eu fiz…? Merlin, o que foi que eu fiz? — um soluço fez todo o
corpo de Remus chacoalhar.
— Remus. — James segurou o braço do amigo. — Aluado, onde está Sirius?
O que aconteceu? — ele perguntou preocupado.
— Azkaban… Azkaban. Ele está em Azkaban. — Remus dizia entre os
soluços.
James sentiu um nó se formar em sua garganta. Ele ficou em silêncio por um
momento, tentando processar a informação. Sirius, seu melhor amigo, estava preso
naquela prisão infernal. Tudo por um crime que ele não havia cometido.
— Azkaban... — James repetiu, quase num sussurro, os olhos arregalados
de incredulidade. — Como... Como isso pôde acontecer? Ele... — a dor em sua voz
era evidente.
Remus continuava tremendo, os soluços agora mais suaves, mas não menos
dolorosos. Ele parecia incapaz de levantar o olhar, suas mãos ainda apertando os
próprios cabelos como se tentasse se segurar em algo real, algo sólido, em meio ao
desespero.
— A culpa é minha… A culpa é minha… — Remus finalmente disse, a voz
trêmula.
— Remus…
— Eu devia ter acreditado nele… Eu devia ter acreditado nele! — ele parou, o
queixo tremendo de forma descontrolada enquanto mais soluços saiam. — Eu
pensei que ele fosse o traidor. Todos disseram que foi ele... Eu nunca o visitei...
Deixei que ele apodrecesse lá, sozinho. Como eu pude fazer isso? — sua voz se
quebrou, e ele caiu em prantos mais uma vez.
James fechou os olhos por um momento, tentando controlar a raiva crescente
que queimava dentro dele. Não de Remus, mas da situação. De Peter. Do destino
cruel que havia destruído suas vidas.
Ele se agachou na frente de Remus, colocando as mãos nos joelhos do
amigo.
— Remus, escute... — disse James, tentando manter a voz firme. — Isso não
é sua culpa. Nada dessa confusão é culpa sua. Voldemort, Pettigrew... Eles são os
culpados. Eles enganaram todo mundo.
Remus balançou a cabeça, lágrimas caindo livremente pelo rosto.
— Eu deveria ter sabido... Eu deveria ter confiado nele. Ele sempre esteve lá
por mim, nós dividimos uma cama, dormíamos lado à lado… — Remus soluçou
mais uma vez, incapaz de continuar. — Como eu pude não confiar nele? Como eu
pude deixá-lo sozinho naquele lugar por todos esses anos!?
James arregalou os olhos.
— Anos!? — ele perguntou, assustado.
— Mais de seis anos… Eu o deixei sozinho por mais de seis anos! — Remus
chorou.
James respirou fundo, tentando conter seu pânico. Sua aparência já
entregava que ele havia dormido por um longo período de tempo, mas seis anos!?
James levou as mãos até os ombros de Remus e apertou com força,
tentando transmitir o máximo de força e apoio que conseguia, assim que saiu de
seu estado de choque.
Ele havia dormido por mais tempo do que imaginava.
— Remus, escuta: nós vamos tirá-lo de lá. — James disse com
determinação, seus olhos ardendo com uma mistura de dor e raiva. — Nós vamos
tirar ele de lá e trazê-lo para casa. Sirius não vai passar mais um dia naquela
maldita prisão por algo que ele não fez.
Remus olhou para James, a esperança misturada com descrença em seus
olhos.
— Como? — Remus sussurrou. — Ninguém escuta... Ninguém acredita.
— Eu estou aqui, não estou? Eu, a suposta vítima dele, quem escolheu o fiel
do segredo, não é prova suficiente?
Remus olhou em seus olhos, o choro mais calmo, enquanto ele assentia com
a cabeça lentamente.
— É… É, eu acho que sim… — ele respondeu.
James sorriu acolhedoramente para ele.
— Vamos tirar Almofadinhas de lá.
James e Remus atravessavam os corredores frios e opressivos do Ministério da
Magia com passos firmes, mas cada movimento carregava o peso de uma tensão
quase insuportável. O rosto de James era uma máscara de determinação, embora
por dentro sentisse os olhares penetrantes de todos ao redor, cheios de surpresa e
medo. Ele podia ouvir os murmúrios sussurrados às suas costas, vozes confusas
que espalhavam a notícia inacreditável: James Potter estava vivo.
A batalha para chegar até aquele ponto não tinha sido fácil. As tentativas
iniciais de convencer os oficiais esbarraram na incredulidade e na burocracia, até
que James, exasperado e sem outra escolha, sugeriu o uso de Veritaserum para
provar sua identidade. A ideia foi recebida com hesitação, mas o desespero em
seus olhos falou mais alto. Após um momento de desconfortável silêncio, os Aurors
cederam.
O impacto da revelação foi imediato e avassalador. O nome de James Potter,
antes lembrado como uma vítima heroica de Voldemort, agora ecoava pelos
corredores com um novo significado. A notícia se espalhou como fogo selvagem,
lançando o Ministério em um estado de caos contido.
O que antes parecia uma verdade inabalável — a morte de James Potter e a
traição de Sirius Black — agora estava desmoronando. O ar estava carregado de
incerteza. James percebeu o peso do que sua presença significava, mas afastou
qualquer pensamento que pudesse desviá-lo de seu objetivo. Ele precisava de
Sirius.
— Não consigo acreditar que realmente conseguimos fazer isso. — Remus
murmurou ao seu lado, a voz baixa e trêmula, como se o ambiente claustrofóbico
pudesse engoli-los. Suas mãos estavam escondidas nos bolsos do casaco, mas
James notou como tremiam.
James soltou um suspiro curto, assentindo enquanto caminhava ao lado dos
dois Aurors que os escoltavam.
— Mas conseguimos. E agora vamos tirar Sirius daquele lugar.
Remus olhou para James por um instante, e, por mais que tentasse manter a
compostura, não conseguiu evitar que a sombra da culpa atravessasse seu rosto.
Ele sabia que a luta para libertar Sirius estava apenas começando, mas naquele
momento, uma fagulha de esperança começava a brilhar no coração de ambos.
Os últimos portões do Ministério se fecharam atrás deles com um estalo que
reverberou no ar frio. James e Remus aparatam diretamente para a costa, onde
uma pequena embarcação os aguardava. O vento cortante trouxe consigo o cheiro
salgado e metálico do mar. O mar de Azkaban era como a própria prisão: sombrio,
impiedoso e gélido, as ondas quebrando contra as rochas em um ritmo que parecia
sincronizado com os gritos distantes que escapavam da fortaleza.
James levantou o olhar, os olhos fixos nas formas escuras que flutuavam
acima do castelo sinistro. Os Dementadores, guardiões da agonia, pairavam como
abutres, sugando qualquer calor que o vento carregava. Ele sentiu um calafrio
atravessar seu corpo, mas não desviou o olhar.
A travessia foi feita em silêncio, o barco cortando as águas pesadas
enquanto ambos homens encaravam o peso de onde estavam e o que estavam
prestes a enfrentar. Para James, a visão da ilha era um lembrete cruel de anos
perdidos, uma injustiça que o corroía. Para Remus, Azkaban era um pesadelo vivo.
Ele já havia estado ali em missões da Ordem, mas nunca antes com uma dor tão
pessoal. Saber que Sirius havia passado tantos anos naquele lugar o enchia de
culpa; culpa por não ter feito mais, por não ter percebido antes, por ter acreditado,
mesmo que por um segundo, nas mentiras que o colocaram ali.
Ao desembarcarem, os guardas da prisão os conduziram em direção à
fortaleza. Os corredores úmidos de pedra reverberavam o som de seus passos, mas
também dos lamentos distantes, gritos que ecoavam pelas paredes, como
fantasmas do sofrimento que habitava aquele lugar. O ar ali era pesado, impregnado
com o cheiro de umidade e desespero, e a presença dos Dementadores fazia o
calor de suas peles parecer um distante sonho de verão.
Quando chegaram a uma porta de ferro pesada, o guarda parou,
murmurando um feitiço para destrancá-la. A porta se abriu com um rangido lento e
agonizante, revelando a cela escura e gélida. James e Remus trocaram um olhar
antes de entrar.
A penumbra parecia engolir o ar ao redor deles, tornando cada respiração um
esforço. No canto mais distante da cela, um vulto estava encolhido contra a parede.
Sirius. Seu corpo estava tão magro que parecia que os ossos podiam perfurar sua
pele pálida e maltratada. Os cabelos desgrenhados, emaranhados e sujos, caíam
sobre o rosto encovado, obscurecendo parcialmente seus olhos. A luz fraca que
invadiu o espaço ao abrir da porta revelou o quão devastado ele estava, cada linha
em seu rosto era um mapa da dor que carregava.
Por um momento, Sirius não reagiu, seus olhos vagos e apáticos fixos no
vazio. A respiração curta e entrecortada escapava de seus lábios, cada som um
lembrete de sua fragilidade. Mas então, algo mudou. Ele os viu.
Os olhos de Sirius, turvos e cheios de uma dor insuportável, encontraram os
de James. Um brilho de reconhecimento passou por eles, mas era um brilho
quebrado, como uma janela estilhaçada. Sua boca abriu, mas nenhum som saiu no
início. Quando finalmente conseguiu falar, sua voz era um sussurro rouco, um eco
distante do Sirius que eles conheciam.
— Não... — sussurrou Sirius, sacudindo a cabeça violentamente, o corpo
reagindo em espasmos. — Não… Não… Não! De novo não! Por favor! Eu não
aguento mais! Por favor, faz isso parar!
James deu um passo à frente, a dor apertando seu peito ao ver o estado em
que seu amigo, seu irmão, se encontrava.
— Sirius... — chamou James, mas a resposta foi um grito rouco, cheio de
medo e desespero.
— Não! Saiam daqui! Vocês não são reais! — Sirius se afastou ainda mais,
tentando arrastar-se para longe, o pânico dominando seu rosto enquanto ele tremia,
os olhos vazios de qualquer razão.
Remus lançou um olhar aflito para James, então avançou lentamente, suas
mãos erguidas em um gesto pacífico. A voz de Remus, sempre tão calma e
reconfortante, cortou o silêncio sombrio da cela.
— Sirius, sou eu... É o Remus. — ele se abaixou, ficando na altura dos olhos
de Sirius, sem se aproximar demais. — Nós estamos aqui. James está vivo, Sirius.
Nós viemos te tirar daqui, meu amor.
Mas as palavras pareciam não penetrar a névoa de terror que envolvia Sirius.
Ele fechou os olhos com força, balançando a cabeça com desespero, os lábios
tremendo ao murmurar:
— Eu... Eu os matei... Todos eles. Matei o James... Matei todos… A culpa é
minha…
Remus engoliu em seco, e James deu mais um passo, mas Remus ergueu
uma mão, pedindo para que ele aguardasse. Lentamente, Remus se aproximou
ainda mais de Sirius, até que estava a apenas alguns centímetros de distância. Com
cuidado, ele estendeu os braços, envolveu Sirius e o puxou para perto, sentindo o
corpo trêmulo e frágil do amigo em seus braços.
— Não, Sirius, você não matou ninguém. — Remus falou suavemente,
segurando Sirius com firmeza. — James está aqui, ele está bem, meu amor. Eu
estou aqui. Você não está mais sozinho.
Por um momento, Sirius lutou contra o abraço, ainda imerso na confusão de
suas próprias alucinações. Mas as palavras de Remus, a segurança em sua voz e a
presença calorosa de alguém que ele amava. Lentamente, Sirius começou a ceder.
Seus movimentos bruscos diminuíram, e ele parou de resistir, deixando-se desabar
nos braços de Remus.
— Remus...? — a voz de Sirius saiu como um sussurro quebrado. Ele abriu
os olhos, confuso, piscando várias vezes enquanto tentava focar no rosto do marido.
— Sim, sou eu, meu amor. Estamos aqui. Está tudo bem agora. — Remus
respondeu, mantendo o tom baixo e tranquilizador, continuando a abraçar Sirius
com força, como se pudesse protegê-lo de todo o sofrimento que ele havia
suportado.
Sirius olhou para o rosto de Remus, e então seus olhos se moveram para
James, que observava a cena com o coração partido. Lágrimas escorriam pelo rosto
de Sirius, seus lábios tremendo enquanto tentava processar a realidade diante de si.
— James...? — sua voz estava rouca, cheia de descrença.
James deu um passo à frente, seu coração apertado.
— Sim, Sirius. Sou eu. Eu estou vivo. — ele disse, com um sorriso triste no
rosto. — E estou aqui com você.
Sirius soltou um soluço alto, quebrado, sua cabeça caindo no ombro de
Remus enquanto ele chorava, finalmente deixando todo o peso de anos de solidão e
dor escorrer em forma de lágrimas. Remus continuou abraçando-o, murmurando
palavras de conforto, enquanto James se ajoelhava ao lado dos dois, colocando
uma mão gentilmente no ombro de Sirius.
— Nós estamos juntos agora, Sirius. — disse James, a voz embargada. —
Vamos te tirar daqui. — apertou o ombro de Sirius de forma carinhosa, tentando
âncora-lo a realidade.
Remus precisou de mais um tempo para estabilizar o marido o suficiente para
que pudesse lhe puxar do chão.
— Tudo bem, querido. Eu estou aqui, vamos para casa agora. — Remus
abraçou Sirius pelos ombros, o guiando para fora da cela, com James logo atrás.
O corpo de Sirius tremia incessantemente, os braços magros abraçando o
próprio corpo, tentando se esconder no peito de Remus. Enquanto Remus ajudava
Sirius a atravessar os corredores frios de Azkaban, James mantinha-se ao lado
deles, lançando olhares cautelosos para os Dementadores que ainda pairavam
acima. Sirius tropeçava a cada poucos passos, seu corpo frágil e exausto mal
suportando o esforço. Remus o segurava com firmeza, falando baixo e
constantemente, tentando acalmá-lo.
Ao chegarem à costa, o vento gelado parecia cortar suas peles como
lâminas. Sirius tremia ainda mais, seu corpo envolto apenas em trapos que não
protegiam do frio implacável. Remus foi o primeiro a subir no barco, estendendo a
mão para ajudar Sirius, que subiu com dificuldade. Mas, em vez de se sentar em um
dos bancos, Sirius escorregou para o chão de madeira, encolhendo-se contra a
lateral do barco. Ele abraçou os joelhos contra o peito, escondendo o rosto nos
braços como se quisesse desaparecer.
Remus hesitou por um momento, sentindo a própria garganta se fechar.
Então, com delicadeza, ele se sentou ao lado de Sirius, abaixando-se ao nível dele.
Com gestos cuidadosos, Remus colocou o braço ao redor dos ombros trêmulos do
marido, puxando-o para perto.
— Estou aqui, meu amor. — murmurou Remus, sua voz carregada de uma
ternura que parecia conter anos de culpa e saudade. — Você está seguro agora.
Ninguém vai te machucar novamente. Eu prometo.
James, observando tudo em silêncio, retirou a jaqueta grossa que usava e a
estendeu a Remus. Não precisou dizer nada; o olhar carregado de preocupação era
suficiente. Remus pegou a jaqueta, murmurando um agradecimento enquanto a
colocava nos ombros de Sirius. Em seguida, apoiou a testa contra a cabeça do
marido, fechando os olhos e começou a acariciar os cabelos desgrenhados com
cuidado.
— Está tudo bem agora. — Remus sussurrou, enquanto sua mão continuava
um movimento constante e reconfortante. Ele se inclinou para deixar um beijo suave
no topo da cabeça de Sirius, como se quisesse transmitir todo o amor que guardara
por anos naquele gesto.
James, sentado no banco à frente, observava os dois em silêncio, o coração
pesado.
A visão de Sirius tão quebrado, tão diferente do homem vibrante que ele
conhecia, o consumia de dor e raiva contra aqueles que haviam permitido que
aquilo acontecesse.
Céus, Sirius não merecia aquilo, aquele inferno.
Enquanto o barco deslizava pelas águas geladas, Remus manteve Sirius
firme contra si, murmurando palavras de conforto. Ele não sabia quanto tempo
levaria para que Sirius encontrasse um pouco de paz, mas não importava. Ele
estava ali, e nunca mais deixaria o marido enfrentar a escuridão sozinho.
Quando o barco finalmente se aproximou da costa, os três podiam ver o
contorno da praia se delineando à distância. Mas, à medida que se aproximavam,
algo inesperado se revelou: um grande grupo de bruxos e bruxas se reunia no local.
Mesmo à distância, era possível ouvir o clamor das vozes ansiosas e o brilho de
flashes mágicos iluminava o céu já pálido pela manhã cinzenta. Jornalistas.
James fechou os olhos por um momento, sentindo a raiva borbulhar dentro
de si.
— "Claro que o Ministério não conseguiu manter isso em segredo." — pensou
ele, os punhos cerrados.
Remus também parou de acariciar os cabelos de Sirius por um momento,
observando com a mandíbula tensa a aglomeração crescente na praia.
Sirius, porém, foi quem reagiu mais violentamente. Seus tremores, que
haviam diminuído ao longo da viagem, voltaram com força total. Ele ergueu a
cabeça por um momento, confuso e assustado, os olhos arregalados fixando-se na
multidão adiante.
— O que… o que é isso? — ele sussurrou, sua voz frágil e embargada. Ele
agarrou o braço de Remus com tanta força que seus dedos magros tremiam. —
Eles… Eles vieram me levar de volta? — perguntou com pavor explícito em sua voz.
— Não, Sirius! — Remus respondeu rapidamente, segurando as mãos dele
com firmeza. — Eles não podem te levar de volta. Nós não vamos deixar. Eu
prometo. — sua voz era baixa, mas resoluta.
James se aproximou, ajoelhando-se ao lado dos dois. Ele olhou para Sirius
diretamente nos olhos, tentando ancorá-lo à realidade.
— Eles não podem fazer nada com você, Sirius. — disse James, o tom firme.
— Eles estão aqui por causa de mim. Porque ninguém acredita que eu estou vivo.
Sirius piscou várias vezes, confuso, mas antes que pudesse responder, o
barco balançou levemente quando encostou na areia. Imediatamente, os jornalistas
começaram a avançar, empurrando-se uns aos outros enquanto gritavam perguntas
incoerentes. As câmeras mágicas disparavam incessantemente, os flashes
cintilando como relâmpagos.
Sirius se encolheu, pressionando-se contra o peito de Remus.
— Não… Não, por favor, não! — ele começou a murmurar, balançando a
cabeça freneticamente. — Não consigo… Eles estão olhando… Eles vão me… vão
me machucar!
Remus puxou Sirius mais para si, protegendo-o como podia. Ele lançou um
olhar severo para James, que imediatamente entendeu o recado. Levantando-se,
James posicionou-se à frente deles, como uma barreira entre Sirius e a multidão.
Ele levantou as mãos, tentando conter a turba.
— Chega! — a voz de James ecoou, carregada de autoridade. — Saiam da
frente, seus abutres!
Os jornalistas hesitaram por um momento, surpresos com a presença
imponente de James Potter, um homem que todos acreditavam estar morto. Mas o
silêncio não durou muito tempo. Logo as perguntas começaram a chover
novamente:
— Senhor Potter, como você sobreviveu à Maldição da Morte?
— O Ministério sabia disso?
— Sirius Black será exonerado?
— Senhor Potter, Sirius Black é culpado ou inocente? Qual a verdade?
James cerrou os dentes, ignorando as perguntas enquanto olhava para
Remus por cima do ombro. Deu um passo à frente, posicionando-se como uma
barreira entre a multidão e os dois.
— CHEGA! — ele gritou, sua voz cortando o caos como uma lâmina.
Os jornalistas hesitaram por um breve momento, surpreendidos pela
intensidade de James. Mas então um bruxo mais ousado ergueu a câmera e
disparou outro flash, seguido por uma pergunta estridente:
— Senhor Potter, como pode defender Sirius Black? Você sabia que ele
ajudou Você-Sabe-Quem entregando sua localização?
James congelou por um momento, seus olhos se estreitando enquanto a
raiva queimava em seu olhar.
Um soluço e os murmúrios de Sirius invadiram seus ouvidos.
— Me perdoa… Me perdoa… Jamy, me perdoa, por favor… — Sirius
implorava entre os soluços de um choro dolorido, se agarrando cada vez mais a
Remus, que tentava desesperadamente consolar o marido.
James deu um passo à frente, sua postura rígida, o ar ao redor dele quase
vibrando com a intensidade de suas emoções.
— O que você disse? — ele perguntou, a voz baixa, mas perigosa,
carregando incredulidade e fúria. — O que. Você. DISSE!?
O jornalista cambaleou para trás, assustado pelo tom de voz de James e a
fúria enlouquecente estampada em seu rosto. James avançou mais um passo,
como se cada palavra o puxasse para mais perto do limite de sua paciência.
— Você ousa dizer isso? — ele vociferou, sua voz agora firme e carregada de
autoridade. — Sirius Black entregou minha localização? Sirius Black ajudou
Voldemort?
Os jornalistas recuaram coletivamente com a menção do nome, mas James
sequer piscou, o olhar cravado no homem que fizera a acusação.
— Deixe-me esclarecer algo para todos vocês aqui e agora! — James sibilou,
os punhos cerrados ao lado do corpo. — Se não fosse por aquele homem que você
acabou de insultar, eu e meu filho estaríamos mortos! Sirius Black só não é meu
irmão no sangue, e nunca — e eu disse, nunca! — trairia a mim ou à minha família e
amigos!
O peito de James subia e descia rapidamente, encarando o jornalista
desaforado nos olhos, enfurecido.
— Vocês acham que sabem tudo porque ouviram mentiras contadas por
aqueles que não conhecem Sirius ou sequer estavam lá para para saber a verdade?
Vocês não sabem nada! Vocês não viram o que ele passou, não viveram o que ele
sofreu para proteger a mim e à minha família! Então, eu sugiro que fiquem em
silêncio antes que digam outra estupidez desse tipo na minha frente!
O jornalista balbuciou, tentando responder, mas James o cortou antes que
pudesse falar.
— E se você ainda acha que tem algo para dizer sobre Sirius Black, sugiro
que olhe nos meus olhos e diga novamente. Porque eu estou aqui, vivo, e vou
acabar com qualquer mentira que joguem contra ele!
O silêncio caiu como um manto sobre o grupo. Os flashes das câmeras
haviam parado, as canetas tremiam nas mãos dos repórteres. James, respirando
com dificuldade, recuou ligeiramente e se virou para Sirius, que ainda chorava nos
braços de Remus. Ele de aproximou de Sirius, acariciando suas costas com cuidado
e carinho. A voz de James amoleceu, mas ainda carregava firmeza.
— Está tudo bem, cara. Você não tem nada pelo que se desculpar, Sirius.
Você fez um ótimo trabalho protegendo a mim e a minha família. Eu não vou deixar
ninguém manchar o seu nome mais uma vez. — James encarou Remus, lhe dando
um sorriso acolhedor. — Vamos levar ele para casa.
Eles aparataram, aparecendo na frente da casa de Remue. James observou
enquanto Remus, com delicadeza e preocupação evidente, conduzia Sirius para
dentro da casa. Sirius ainda soluçava, a mão agarrando a manga do casaco de
Remus como se fosse sua única âncora.
James passou a mão pelos cabelos, respirando fundo para controlar a raiva
que ainda borbulhava dentro dele. Ele sentiu uma onda de alívio ao ver os dois
desaparecerem para a segurança do interior da casa. No entanto, o cansaço
emocional do confronto começava a se instalar, fazendo seus ombros caírem
ligeiramente.
Já no andar de cima, Remus guiou Sirius até o quarto. Ele deixou a porta
entre aberta, garantindo que o mundo de fora não chegasse até eles. Sirius tremia
como uma folha, os soluços ainda sacudindo seu corpo.
— Shh, está tudo bem, Almofadinhas. — Remus murmurou, o tom baixo e
tranquilizador. — Eu estou aqui agora, meu amor. — ele ajudou Sirius a sentar na
cama e tentou tirar cuidadosamente a jaqueta dos ombros de Sirius, mas o marido
não deixou, agarrando a roupa do irmão e se enrolando mais ainda na jaqueta. —
Tudo bem. — Remus lhe deu um olhar compreensível e colocou uma coberta por
cima da jaqueta. — Já passou, Sirius. Você está seguro agora.
Sirius balançou a cabeça, ainda perdido em seus pensamentos confusos.
— A culpa é minha… A culpa é minha… James… Lily… Harry… — Sirius
balançava para frente e para trás.
Remus se ajoelhou à sua frente, segurando o rosto de Sirius com firmeza,
mas com gentileza.
— Não é sua culpa, Sirius. — Remus disse claramente. — Você fez tudo o
que podia. Tudo. Você foi traído, assim como todos nós, mas não foi sua culpa.
James sabe disso. Lily sabe disso. Harry sabe disso. E eu sei disso.
As palavras de Remus pareceram atravessar a névoa de angústia de Sirius,
que finalmente levantou os olhos para encontrar os de Remus.
— Vocês sabem…? — Sirius sussurrou, a voz quebrada.
Remus sentiu seu peito apertar. Ele sorriu tristemente.
— Sabemos. — Remus respondeu, seus olhos brilhando com lágrimas
contidas. — E eu sinto muito por demorar tanto tempo para eu acreditar. — Remus
se levantou lentamente, se sentando ao lado do marido, ainda segurando seu rosto.
— Eu vou me redimir. Prometo. Eu nunca mais vou te deixar. — as lágrimas
finalmente escorreram por seu rosto.
Sirius ficou lhe encarando, como se analisasse suas palavras, até que ele se
inclinou lentamente para Remus, enrolando seus braços magros na cintura fina do
maior. Remus retribuiu o abraço, protegendo Sirius em seus braços. Sentindo-se
finalmente protegido, Sirius deixou-se relaxar nos braços de Remus, seus soluços
diminuindo até que sua respiração se estabilizou.
Remus o ajudou a deitar, cobrindo-o com o cobertor e permanecendo ao lado
dele, acariciando seus cabelos até que Sirius adormeceu.
— Está tudo bem agora. — Remus murmurou, mais para si mesmo do que
para Sirius. — Eu estou aqui. E nunca mais vou te deixar. Eu prometo.
Sirius suspirou, pegando no sono.
Remus observou o rosto do marido, agora calmo, mas ainda conseguia ver
as marcas de sofrimento na sua magreza, nas olheiras profundas e nas cicatrizes
que se escondiam sob as roupas sujas e esfarrapadas. Remus suspirou, os olhos
pesados pela exaustão e pela culpa.
James, observando tudo, se aproximou e segurou o ombro de Remus com
cuidado e o levou para o andar de baixo, o fazendo sentar na mesa e preparando
um pouco de chá. Achou uma barra de chocolate em um dos armários, dando para
o amigo junto do chá. Ele sabia que Remus sempre se sentia pelo menos um pouco
melhor com chocolate e uma xícara de chá quente. Sentou na frente do amigo, o
vendo comer o chocolate e beber o chá demasiadamente.
James olhou para o calendário.
— Anteontem foi lua cheia. Você está bem? — ele perguntou, girando a
própria xícara de chá nervosamente.
— Já tive luas piores.
James não acreditou muito nas palavras de Remus, ele sabia que o amigo
não gostava de preocupar os outros, então acabava por mentir e desviar de
qualquer assunto que trate de seu bem estar. Apesar disso, sabia que insistir não
resolveria muita coisa, ainda mais com ele tão esgotado emocionalmente.
Olhou em volta da casa, vendo a bagunça e a sujeira.
— Você deixa Harry com a Molly durante a lua? — James perguntou virando
para Remus.
Remus olhou em seus olhos por cima da xícara.
Remus desviou o olhar de James e encarou a xícara de chá em suas mãos,
os dedos apertando-a com um pouco mais de força. A pergunta o atingira em cheio,
mas ele sabia que não podia mentir.
— Eu... — Remus hesitou, o nó em sua garganta crescendo. — Eu não sei
onde Harry está, James.
James ficou imóvel por um segundo, processando aquelas palavras. O
sangue pareceu gelar em suas veias. Seus olhos se fixaram no rosto cansado de
Remus.
— Como assim você não sabe? — a voz de James soou incrédula. —
Dumbledore disse que ele estava em um lugar seguro. Eu e Lily deixamos a guarda
de Harry para você e Sirius! Por que ele não está aqui!? — o desespero se tornava
cada vez mais evidente em sua voz, a respiração ficando cada vez mais acelerada.
Remus mordeu o lábio, sentindo a própria angústia se intensificar. Remus
sempre se sentiu culpado por não conseguir trazer o afilhado para seus cuidados,
por nunca ter conseguido sequer mandar uma carta contando sobre a sua
existência, dizendo que o amava, que sentia sua falta, que queria levá-lo para sair,
brincar com ele, assim como quando era bebê. Ele suspirou, colocando a xícara
sobre a mesa da cozinha e finalmente encarando o amigo com olhos tristes.
— Dumbledore... Ele não permitiu… — Remus murmurou, a voz baixa e
amarga. — Eu pedi, implorei, mas ele disse que Harry estava seguro, que era
melhor assim, que Harry precisava estar onde está e ficar longe do mundo mágico
para ficar protegido. Ele não me diz mais nada. Apenas que... ele está bem, que
está feliz.
A incredulidade de James se transformou em raiva palpável. Ele deu um
passo para trás, passando as mãos pelos cabelos em desespero, seu rosto
contorcido pela angústia.
— Longe do mundo mágico!? Longe de quem ele é!? E como eu vou saber
se isso é verdade? Como eu vou saber que ele realmente está feliz!? — James
quase gritou, sua voz tremendo. — Ele me mantém no escuro, Remus. Que porra é
essa!? Nem eu posso saber onde o meu filho está!?
Remus abaixou o olhar, sem conseguir olhar nos olhos de James. Sabia
como aquilo estava destruindo o amigo. Sabia como ele se sentia impotente,
sufocado pela falta de respostas. O mesmo sentimento corroía Remus todos os
dias.
— Eu sinto muito, James. — sussurrou Remus, sua voz se quebrando. — Eu
falhei com vocês… — um soluço deixou a boca de Remus, seus ombros tremendo.
James ficou em silêncio, observando Remus se desfazer à sua frente. A dor
no rosto do amigo refletia a sua própria, e por um instante, ele não sabia o que
dizer. Remus, que sempre fora o mais forte, o mais centrado, agora se mostrava
vulnerável de um jeito que James não estava acostumado a ver.
James respirou fundo, lutando contra o aperto no peito. Ele sentiu a raiva
ferver dentro de si novamente, mas sabia que gritar com Remus não resolveria
nada. Não era culpa dele. Era Dumbledore, com seus segredos e decisões
unilaterais, que os deixara à margem, impotentes.
— Remus… — James começou, sua voz mais suave agora, embora ainda
carregasse um traço de amargura. — Você não falhou com ninguém. Quem falhou
foi Dumbledore. Você sempre fez tudo o que pôde, sempre foi aquele que cuidava
de nós quando ninguém mais o fazia.
Remus levantou a cabeça, os olhos ainda brilhando com as lágrimas que
tentava conter.
— Eu não consegui cuidar de Harry... — sua voz falhou, cheia de culpa. —
Sirius confiou em mim para sempre estar ao seu lado e eu o abandonei. Você e Lily
confiaram em mim para cuidar de Harry e eu falhei. Ele era só um bebê, James. Eu
deveria tê-lo protegido, deveria ter lutado mais. Ele está sozinho, com estranhos,
sem saber quem nós somos. Eu... — Remus engoliu em seco, os olhos marejados
fixos em James. — Eu falhei com todos vocês
James se sentou ao lado de Remus, tocando seu ombro de forma
reconfortante.
— Você não falhou. — James disse firme. — Dumbledore te impediu. Ele
tomou essa decisão e impediu que você participasse da vida de Harry. Mas nós
vamos encontrá-lo.
Remus assentiu, os lábios tremendo levemente, sem forças para responder.
James o puxou para um abraço apertado.
— Você ama o Harry, Remus. — James apertou o amigo nos braços. — Eu
sei que você faria tudo ao seu alcance para protege-lo e dar a melhor vida que pode
para ele. E ele vai saber disso também. Dumbledore não vai conseguir mantê-lo
longe de nós para sempre.
Remus passou a mão pelo rosto, tentando recompor-se, e então deu um
pequeno aceno, mesmo que ainda hesitante, contra o ombro do amigo.
— Eu só... Eu só queria vê-lo sorrir, como quando ele era bebê… —
murmurou Remus. — Eu queria que ele soubesse que tem uma família que o ama
mais do que tudo e queria poder ter proporcionado o melhor que eu podia para ele.
Eu temo que quando o encontrarmos, ele já não se lembre mais de nenhum de nós.
James se afastou lentamente e com cuidado, olhando diretamente nos olhos
do amigo.
— Ele vai, Remus. Ele vai. Família nunca se esquece.
O silêncio caiu entre eles, pesado, mas com uma centelha de esperança.
Remus pegou a xícara de chá, agora fria, e a apertou contra o peito, deixando
escapar um longo suspiro. James, ainda de pé, olhou ao redor da casa, sentindo a
tristeza do ambiente. Estava tudo fora do lugar, sujo e esquecido, refletindo o estado
emocional de Remus.
— Nós precisamos de um plano. — James disse após um longo momento, a
determinação crescendo em sua voz. — Vamos descobrir onde Harry está e trazê-lo
para casa. Dumbledore querendo ou não.
— McGonagall. — Remus disse. — Ela deve saber de algo. Ela sempre sabe
de algo.
— Você tem razão, Aluado! — James sorriu. — Minnie tem olhos em todos os
lugares e está sempre por dentro dos planos de Dumbledore. Ela é praticamente
onisciente.
Remus mordeu o lábio inferior.
— Você acha que ela vai nos dizer algo? — perguntou com relutância.
— Claro que vai! Minnie pode nunca ter deixado eu e Sirius nos divertirmos
em paz, mas ela sabe quando quebrar as regras!
— Vocês queriam levar uma privada do banheiro do segundo andar de
lembrança.
— E ficamos satisfeitos com a pia.
