J~L
Auror-Investigador, o Lead Auror, o Professor e...o Campeão.
Desligou o chuveiro, o qual nem teve tempo de entrar e aproveitar, ao ouvir barulhos vindo de algum lugar do apartamento.
Enrolou-se na toalha e esperou. Sabia que era alguém batendo na sua porta, mas ele poderia fingir que não havia ninguém em casa? Não seria a pior das ideias. Estava morrendo de sono ainda, apesar de não conseguir dormir, mas não contava em interagir com ninguém mais.
Isso. Iria ignorar. Melhor coisa que faria naquela manhã.
Ligou o chuveiro novamente e os barulhos voltaram, tão altos quanto antes. Respirou fundo e se vestiu novamente.
— Acho que tem alguém na sua porta. — A voz feminina vinda do quarto o alertou.
— É o que parece.
Pegou sua varinha e saiu do banheiro arrastando os pés. As luzes vindas das janelas da sala davam indício de que era cedo, mas não tão cedo quanto costumava acordar. Era sábado e um dos poucos que teve livre em dois anos. Mal sabia o que era estar em casa naquela hora em um fim de semana.
Só queria ter dormido um pouco mais do que aquilo, mas seu corpo parecia já acostumado com as madrugadas.
Abriu a porta sem nem pensar em checar antes quem era.
— Sr. Potter. — Um homem com um conhecido uniforme acenou. — Uma mensagem urgente.
Inferno, o seu sábado livre já parecia estar acabando. Só podia ser o trabalho para alguém vir até ali, ao invés de enviarem uma coruja.
"Segurança em primeiro lugar, sempre. Para assuntos importantes: patronos ou mensageiros do Ministério em que confiam 100%. Senão, venham diretamente até mim, mesmo se eu estiver na Lua." dizia sempre Alastor Moody.
— Obrigado.
O homem desaparatou na sua frente sem nem mesmo se despedir. Os mensageiros do Ministério estavam cada vez piores. Euphemia teria ido até o escritório deles para poder puxar a orelha daquele cara, alegando a má educação em desaparatar na frente de alguém daquele jeito.
Ele mesmo já tinha levado alguns puxões logo após ter passado no teste de aparatação e fazer isso o tempo todo na casa dos Potter durante as férias.
Nostálgico ao pensar na mãe, há muitos anos não mais presente, pensou que poderia tomar um café antes de abrir e ler a mensagem infeliz que o faria voltar para o quarto, tomar aquele banho e vestir seu uniforme de Auror.
Na verdade, Auror-Investigador. Ofereceram o cargo no Departamento de Investigação, centrado no estudo e rastreamento de bruxos das trevas, alguns anos depois das destruição das horcruxes. Sua ótima habilidade de encontrá-las, assim como as pessoas que pudessem estar envolvidas com as mesmas, se destacou e chamou a atenção de todos do Departamento, levando-o a receber a proposta, mesmo mal ter terminado seu treinamento de Auror. O fato de estar sozinho e precisando entrar de cabeça em algo, o fez aceitar e começar aquele trabalho que pedia tanto do seu tempo.
Apesar de ainda ser considerado um Auror e tendo Moody como seu chefe, não trabalhava com os outros Aurores no campo, ou raramente o fazia. Tinha mais trabalhos investigativos do que batalhas, mesmo muitas vezes tendo que batalhar durante suas investigações.
Quando deu as costas e ia em direção a cozinha, três batidas na porta o fizeram parar. O que era agora? Uma nota urgente dizendo que devia estar na sala de reunião em dez minutos?
Bufando impaciente, ele abriu a porta novamente, um pouco mais rude dessa vez.
— Veio se desculpar...?!
Parou de falar quando dois indivíduos na sua frente sorriram. Um deles era alto, com várias cicatrizes pelo rosto, o olhar bondoso, o sorriso gentil que poderia enganar muitos, mas não ele. James o conhecia por tantos anos agora, que reconheceria Remus Lupin até de olhos fechados.
A segunda pessoa fez seu coração disparar. Ali, os olhos verdes o encaravam. Eles estavam sempre brilhantes, como lágrimas de alegria. O sorriso tinha um tom de bondade e um tom de malícia. Suas bochechas sempre um pouco vermelhas, como se estivesse sempre tímido, ou talvez, sempre correndo.
Eram os olhos, o sorriso e as bochechas que ele mais amava no mundo.
Era o par de olhos que James lutaria contra o mundo todo para salvar. E que ele já havia feito uma vez e nunca deixaria de fazer.
— Campeão!
Harry se projetou para frente e abraçou o pai. Aqueles braços, abraços, carinhos...tudo aquilo era o mundo para James. Todo o bendito mundo dele estava ali, em seus braços agora.
— Pai, você não vai acreditar no que o tio Moony estava me falando na viagem até aqui. Qual foi a desse lance de vocês explodirem o escritório do Sr. Filch para tentar recuperar o mapa? Eu quero ouvir a sua versão e a do tio Pads.
Harry soltou o pai e entrou no apartamento ainda tagarelando. James voltou o olhar para Remus, a pergunta bem nítida em sua testa. Remus respirou fundo.
— Você não leu a nota enviada?
— Essa? — James perguntou levantando o pergaminho que o mensageiro lhe entregou. Remus assentiu enquanto a tal mensagem era aberta.
"Desculpe tudo ser tão rápido assim, mas algo inesperado ocorreu.
Eu tenho certeza que vocês dois se divertirão como sempre neste fim de semana. Harry está bem empolgado.
Obrigada!"
Aquele foi o bilhete mais longo que James tinha lido de Lily Evans, sua ex-mulher, há anos. A pessoa que foi todo o seu mundo, com Harry...até ela não querer ser mais.
Oito anos se passaram. Oito malditos anos em que James teve que se recuperar de perder Lily, de se ver como pai solteiro, de receber um cargo alto no Ministério.
Hoje em dia ele estava bem, seus amigos o ajudaram a se recuperar. Foram anos difíceis após Hogwarts: a guerra estava no auge, eles lutaram como loucos pela Ordem. A morte de seus pais, a profecia, se esconderem, Voldemort encontrá-los, a batalha que ocorreu em Godric's Hollow naquela noite, a Ordem chegando após Lily conseguir escapar e avisá-los...a quase-morte do Lorde das Trevas na sua sala de visitas.
Foi tudo horrível, pesado, mas que foi superado com amor. Ele tinha a mulher da sua vida, o seu filho, dois dos seus melhores amigos. Tudo ficaria bem.
Até eles descobrirem sobre as horcruxes e nada estar mais.
Balançou a cabeça e percebendo que o filho tinha parado de tagarelar, virou para procurá-lo...apenas para achá-lo parado entre a cozinha e a sala, olhando em direção ao fim do corredor onde tinha uma mulher enrolada no lençol, encarando seu filho de volta.
— Campeão! — James foi até o filho e tampou seus olhos. Fez um sinal com a cabeça para a mulher, pedindo para que ela voltasse para o quarto.
A mulher assentiu e voltou, fechando a porta.
— Bem, bem, bem. Alguém estava aproveitando o fim de semana de folga — Remus disse com toda a sua seriedade e pingos de humor em sua voz.
— Pai! — Harry exclamou enquanto ainda tinha os olhos cobertos. — Você viu...?
Segurando as mãos em frente ao peito, Harry fez um movimento em que descrevia perfeitamente os atributos da mulher enrolada no lençol.
— Alguém tem andado muito com Padfoot — disse Remus novamente.
— Talvez até demais — James murmurou e soltou o filho. — Tem seus doces no armário, por que você não vai pegar?
— Sério? A essa hora? Mamãe vai te matar se souber.
Os olhos verdes brilharam ainda mais e Harry correu para a cozinha. James sorria como um bobo, não acreditando que teria a chance de ficar mais alguns dias com o filho.
— Você deveria ter recebido esse bilhete cinco minutos antes de chegarmos. — Remus fechou a porta atrás de si e foi em direção ao sofá.
— Se eu tive dez segundos de intervalo, foi muito.
— Tem um grupo de preguiçosos naquele Ministério. — O amigo sentou e colocou os pés na mesa de centro.
— O que aconteceu, Moony? Você não vai fingir que nada está ocorrendo, não é? Lily nunca fez isso antes. Está tudo bem?
— Está. Ela teve um probleminha no trabalho e não podia deixar de responder o chamado. Eu ficaria com Harry tranquilamente, mas você sabe que quando um de vocês não pode ficar com ele, o Ministério é um pouco chato com tudo isso caso o outro responsável não for avisado. Tive que trazê-lo até você, mas se você estivesse trabalhando, Padfoot ou eu ficaríamos com ele.
Harry voltou até eles com dois pacotes de doces nos braços e sentou-se ao lado de Remus.
— Eu não conto para a mamãe sobre isso se você não contar. — Harry disse para o pai. Aquele garoto sabia como ter o que queria.
— Eu não irei, mas não coma tudo de uma vez. — James sentou na poltrona, deixando-se relaxar, assistindo Harry comer seu doce alegremente. Viu o filho no domingo passado e já sentia saudades imensas dele. Ficar com ele mais dias era perfeito, principalmente com o que estava para vir. — Você foi até o Beco Diagonal para a sua lista de Hogwarts?
Aquilo fez o garoto largar os doces e se virar para o pai.
— Sim! Compramos todos os livros, acessórios. Como a mamãe prometeu, deixou o uniforme e o bicho de estimação para eu comprar com você.
— E você já sabe qual bicho de estimação você quer levar? — Remus continuou.
— Eu pensei em um gato, mas a mamãe disse que o Pumpkin está velho e ranzinza, sem querer brincar com outro. Ela tem medo de ele morrer por conta da idade. Neville está levando um sapo e até pensei que seria legal.
— Neville está levando um sapo? — James perguntou um pouco surpreso.
— Sim, eu o vi uma vez. Ele é até legal, mas não deve fazer muita coisa além de pular e ser pegajoso.
— Frank pegou o menino de jeito com as suas manias — Remus disse baixinho.
— O tio Pads disse que podia vir como cachorro e ficar comigo — Harry continuou sua tagarelice por cima de Remus. — Mas que talvez teria problema com um outro animago que tem lá.
Os dois marotos se entreolharam.
— Minnie! — James e Remus disseram.
— Quem é Minnie?
— Você irá conhecê-la logo. Ela te visitou quando era pequeno.
— Eu não lembro dela. — O garoto deu de ombros. — Enfim, eu estava pensando em algo diferente...tipo uma cobra ou...!
— Não! — Os dois marotos exclamaram com um pouco de emoção a mais, fazendo Harry franzir as sobrancelhas.
— Por que não?
— Porque...sua mãe. Sua mãe não vai gostar — James explicou. — Que tal irmos com a boa e velha coruja? Assim ficará fácil de nos comunicarmos.
Harry pegou seu pacote de doce e voltou a comer, pensativo.
— Se não posso ter nada de diferente, então sim.
— Que tal irmos até o Beco mais tarde? Assim compramos tudo o que precisa.
— Legal! — Harry gritou dando um soco no ar. Remus bagunçou ainda mais os cabelos dele.
Não esperava ter que ir até o Beco Diagonal naquele dia, com muitas outras coisas planejadas, mas tudo se tornava desinteressante quando podia fazer qualquer coisa com Harry. Principalmente quando ele ficava tão animado.
— Sua varinha está bem guardada desde que a comprou?
— Mamãe guardou assim que voltei com o tio Pads e o tio Moony.
A compra da varinha era um momento especial, talvez não tão importante para um bruxo quanto poderia ser para um nascido trouxa, mas era especial. James queria ter estado com o filho na hora, mas sabia que seria algo mais interessante para Lily, então se retirou daquela tarefa. Após saber por Sirius e Remus que James lhe concedia a honra, Lily pediu para os dois amigos acompanharem o filho, assim seria justo para ambos os pais.
O que soube daquela compra...talvez deveria ter ido, até mesmo na presença de Lily, pois o testemunho dos amigos e do filho sobre uma loja de varinhas vindo abaixo foi sensacional. Harry quis testar todas e quaisquer varinhas ao seu alcance, o que acabou quase implodindo a loja. Sirius quase perdeu uma orelha, Remus quase um braço e o Sr. Ollivanders estava a ponto de chorar.
Até os adultos — vulgo Remus e Sr. Ollivanders — tomarem as rédeas da situação e impedirem que a loucura continuasse. Isso inclui parar Sirius que trazia mais e mais caixas para o afilhado testar. No final, uma varinha azevinho de 28cm e com núcleo de pena de fênix foi a responsável de impedir que aquele lugar viesse abaixo.
— Ansioso para o seu primeiro ano em Hogwarts, Harry? — Remus o tirou do devaneio do que deve ter sido aquela compra.
— Sim. Com as histórias que vocês me contaram, com as da mamãe, da tia Alice...eu estou pronto. E depois da história de hoje da sala do Filch, eu já tenho algumas ideias de como posso recuperar o Mapa.
A porta do quarto se abriu e os três ocupantes da sala se viraram. A mulher de cabelos escuros sorriu timidamente para eles, pegou sua bolsa no balcão da cozinha e saiu do apartamento sem dizer uma palavra. James tinha até esquecido que ela ainda estava ali.
— Quem é? — Harry perguntou olhando para a porta se fechando. James reconheceu aquele olhar de garoto que encontrava uma mulher bonita e atraente.
— Uma amiga.
— Corta essa, pai. Segundo as coisas que o tio Pads já me explicou, você fez coisas com ela lá dentro.
Ele fechou os olhos, matando Sirius lentamente em sua imaginação. Harry tinha feito 11 anos há poucos dias e não precisava ouvir certas coisas ainda. Principalmente sobre o pai dele.
Ainda que James percebesse que não poderia tardar em conversar com Harry. O seu filho estava indo para Hogwarts, onde ficaria meses trancado com outros garotos, muitos deles mais velhos, que falariam toda e qualquer besteira sem filtro perto de crianças. Além de terem muitas garotas ao redor.
Não que o filho fosse tão leigo, já que...bem...Sirius Black ao redor e tudo mais.
— O seu padrinho não sabe de nada.
— Sabe sim e disse que vai me explicar depois. Acho que ele iria falar com você antes.
James se levantou em um rompante e foi até o espelho em cima da mesa de jantar.
— Padfoot.
Alguns segundos depois, o rosto de Sirius apareceu. Ele tinha um corte ou outro na sobrancelha, parecendo ter saído de uma batalha recentemente.
Seu melhor amigo, hoje em dia, era um Lead Auror. Quando o chefe dos Aurores, Alastor Moody, tinha um novo caso em mãos (provavelmente recebido dos Aurores-Investigadores), ele passava para os Lead Aurores para que esses liderassem uma equipe. Não era fácil chegar nesse cargo, mas após suas habilidades serem testadas milhares de vezes na Ordem e na Batalha de Godric's Hollow, Sirius já tinha um pé dentro da profissão, apesar de ter entrado na Academia de Aurores logo após a Guerra. Ali, ele teve que provar ainda mais que estava pronto para pegar aqueles que quisessem acabar com a paz, ao invés de se juntar a eles.
— Prongs!
— Meu apartamento. Agora.
— Isso não está parecendo muito encorajador.
— Pois não é.
Desligou a conversa.
Assistiu a Remus e Harry conversando animadamente. Seus amigos, mais do que nunca, o ajudaram a segurar a barra pesada pela qual passou. Sem eles, James estaria perdido. Eles amavam seu filho como se fosse deles, tomavam conta dele como James fazia. Harry estava seguro e feliz com Sirius e Remus como estaria com o pai ou com a mãe. Ter aquele tipo de suporte era um presente enorme em sua vida.
Daria sua vida por todos eles, sabia que seus amigos fariam o mesmo por ele e Harry. Também sabia que, apesar dos pesares, Lily também estava naquela equação.
Só precisava que o padrinho do seu filho parasse de falar safadeza para o garoto.
-M-
Os três homens, os últimos marotos restantes livres — ainda bem —, caminhavam tranquilamente pelo Beco Diagonal enquanto Harry ia mais à frente, olhando de vitrine em vitrine. Era engraçado como, a partir do momento que os quatro estavam juntos, eles tinham uma formação automática: Harry ia na frente, um dos marotos ficava sempre à sua esquerda; James ficava um passo atrás à sua direita e um outro maroto ficava um passo atrás de James, à esquerda. Eles formavam um triângulo, mas não muito afastados, o que permitia conversas e também a segurança que buscavam.
Basicamente, quem sempre mudava eram Sirius e Remus. James mantinha a mesma posição, com a varinha na mão direita e deixando a mão esquerda livre para que pudesse pegar ou agarrar Harry com facilidade. Era assim desde os primeiros passos do filho e de suas saídas com os três marotos.
Harry parou em frente da "Artigos de Qualidade para Quadribol ", onde uma Nimbus 2000 girava em um pedestal, mostrando toda sua glória. James teve a oportunidade de experimentar uma em um trabalho com o Ministério há algumas semanas, mas não tinha pensado em comprar ainda. Honestamente, mal tinha tempo de usar a sua, quanto mais uma nova.
— Vocês viram as características dela? — Harry dizia sem tirar os olhos da vassoura.
— É bem rápida — James concordou.
— Mas há uma outra em fase de testes e que deve chegar em dois anos ou menos. A Firebolt vai destronar a Nimbus.
Sirius Black, assim como James, adorava Quadribol como um louco. Talvez não tanto quanto os Potter, mas perto o suficiente. Harry tinha assistido o primeiro jogo em um estádio como presente do padrinho. Eles passaram o fim de semana fora, deixando assim James e Lily livres para poderem se reconectar.
E por que James lembrava de tudo isso? Porque foi o último fim de semana deles como um casal, antes de Lily partir.
— Pode existir alguma vassoura melhor que a Nimbus? — O garoto perguntou ainda babando na vitrine.
— Claro que sim — Sirius respondeu ficando na altura do afilhado, apoiando o queixo em seu ombro. — Se eu fosse você, esperaria por uma surpresa no seu aniversário em dois anos.
Harry se virou com um sorriso maior que o mundo enquanto Sirius lhe dava um tapa carinhoso em suas costas e apontava para a loja, encorajando-o a entrar. O garoto correu e se lançou na porta, não a segurando para os outros três entrarem de tanta empolgação.
— E eu pensando em comprar a Nimbus 2000 quando ele começasse os treinos de Quadribol — James comentou debochado enquanto entrava na loja logo após os amigos.
— Quando ele pode tentar entrar no time? Em dois, três anos? — Remus perguntou.
— Meu afilhado não pode esperar todo esse tempo para ter uma boa vassoura, Prongs.
— O seu afilhado tem uma ótima vassoura já, em ótimas condições. Eu ganhei todos os campeonatos que participei com a minha velha guerreira. Uma nova vassoura não quer dizer que é uma boa vassoura.
— Você é o fanático por Quadribol mais bizarro que já vi. Você deveria estar eufórico com as novidades, os lançamentos. Mas ainda está traumatizado, só por conta daquele jogo em que perdemos e que você usou aquela sua vassoura nova — Sirius comentou.
— Ela me deixou mais lento, era mais duro de manobrar...longe de ser a vassoura para um artilheiro. A minha antiga sempre nos ajudou a ganhar, sempre.
— Quem vê, pensa que ele jogava sozinho — Remus disse indo até Harry, que olhava para os kits de manutenção.
De jeito nenhum. James sabia que teve o melhor time de Quadribol do século, com a sorte de estudar ao mesmo tempo que os melhores jogadores que aquela escola teve, criando um time imbatível. A única vez que perdeu um jogo, foi com aquela maldita nova vassoura que o atrasou demais, mesmo com a promessa de que era a mais rápida do mercado.
Se arrependeu tanto de ter investido sua mesada com ela.
— Eu não preciso de um kit de manutenção inteiro, mas preciso de mais cera — Harry dizia enquanto procurava pelo artigo.
— Não pegue a cera errada dessa vez! — Sirius advertiu quando viu o garoto correr até o fim da loja. — Aquela mancha horrível ainda está bem marcada na madeira. Esse garoto precisa de uma vassoura nova.
— Você está apenas inventando motivos para comprar a Nimbus para ele — Remus murmurou enquanto conferia os novos uniformes dos Tutshill Tornados.
— Claro que não, é para a segurança dele. Aquela mancha corroeu a madeira. — Sirius olhou para James, tentando enfatizar o problema. — A vassoura pode quebrar no meio e Harry cair de 15 metros de altura. Já pensou?
— Você vivia usando a cera errada e a madeira da vassoura era cheia de manchas, Padfoot — James respondeu. — E você nunca caiu ou quebrou a vassoura no meio.
Sirius bufou.
— Vou falar com Lily, talvez ela entenda a gravidade.
— Claro. — James revirou os olhos. — Ela sabe que eu tomo conta muito bem desta parte da vida do Harry e que eu nunca deixaria meu filho voar em situações precárias.
— Inferno, Prongs! — Sirius ralhou. — Só me deixa comprar a bendita vassoura.
— Você disse que queria comprar a outra que sai em dois anos. — Remus se virou para o amigo.
— Eu compro essa e a Firebolt em dois anos, não tem problema. Eu só quero manter a tradição de comprar a vassoura do meu afilhado.
— Harry não precisa de uma vassoura nova. Mas não se preocupe, eu vou deixar você seguir a tradição e comprar a próxima, porém, apenas quando e se ele quiser entrar no time da Grifinória — James encerrou a conversa.
Remus jogou as mãos para o alto.
— E lá vamos nós. Até onde eu sei, é o Chapéu Seletor quem diz para onde o seu filho vai.
— Ele vai para a Grifinória. — James e Sirius disseram ao mesmo tempo.
— Vocês não podem ter certeza e muito menos botar essa pressão nele.
— Pressão não, mas certeza? Veremos! — James respondeu dessa vez, enquanto Sirius apenas desdenhou o amigo e foi atrás do afilhado no fundo da loja.
Teria que manter um olho em Sirius, caso quisesse evitar que o filho saísse dali com uma Nimbus embaixo do braço.
— Não nos vimos ou não tivemos uma conversa longa há quase duas semanas, Prongs. Como estão as coisas? — Remus perguntou ao amigo, que ia para o lado de artigos de coleção.
— Nada demais. As coisas estão um pouco quietas no Departamento em geral, por isso consegui esse fim de semana de folga.
— E quem era aquela mulher?
Respirando fundo, ele deixou de lado os itens e se virou para Remus.
— Uma conhecida de um primo de um dos novos Aurores. Honestamente, ninguém importante.
— Sempre a mesma história. Quando você vai trazer "alguém importante"?
— Quando eu a encontrar. Se eu a encontrar.
— Sempre a mesma história — Remus repetiu.
O que Remus queria ouvir? Que ele havia conhecido o amor da sua vida e estava pronto para casar?
Aliás, aquilo já havia acontecido e não achava que aconteceria de novo. E casar estava longe dos seus planos. Nem existiam planos para isso. Tinha vivido a experiência uma vez, com a pessoa que ele achava que seria para sempre, e não deu certo. Por que insistir no erro?
Seus olhos captaram Sirius no fundo da loja falando com o vendedor. O amigo apontava para a Nimbus e cochichava, fazendo gestos estranhos, como se quisesse que a vassoura fosse embalada secretamente.
Maldição.
— Essa é a cera correta, não? — Harry se aproximou com um grande pote do produto.
— Sim, é essa. Pegue mais dois, assim você estará coberto por alguns meses.
Seu filho voltou para o corredor e James foi até Sirius.
— ...pode entregar hoje mesmo. — Ouviu as últimas palavras dele.
— Se a encomenda for uma Nimbus 2000, pode cancelar — disse ao vendedor.
Sirius bufou como uma criança.
— E se for para mim?
— Não é.
— E se for?
— Você não faria escondido e já a teria desde o lançamento.
Sentia que tinha dois filhos, às vezes. Enquanto o mais velho cancelou o pedido, o mais novo apareceu carregando três potes grandes de cera. Pegou os três das mãos de Harry, ajudando-o.
— Olha, a camiseta dele.
Ao chegarem para pagar, Harry apontou para as camisetas especiais da temporada.
Sam Mcguillen estava em todos os cantos, era verdade. Posters, camisetas, estampando jornais, revistas...fazendo uma miséria contra os Montrose Magpies na temporada passada.
Não entendeu a surpresa do filho, mas não iria oferecer para comprar aquela camiseta dos Ballycastle Bats. Nem nos seus melhores sonhos.
Compraria todas as camisetas dos Magpies, mas não de outro time!
— Você me deve um sorvete, Potter. — Sirius apareceu do seu lado e tirou os potes de sua mão, pegando os próprios galeões do bolso. — Olha a vergonha que passei cancelando um pedido grande assim.
— Você foi avisado.
Sirius fez uma careta e, se não estivessem na frente de tantas pessoas, James teria ganhado um dedo do meio.
Sim. Definitivamente, tinha dois filhos. E um mais educado do que o outro.
-M-
Do assunto Quadribol, foram direto para a Madame Malkin, atrás do uniforme.
O lugar estava razoavelmente vazio, o que significava que não ficariam a tarde toda ali, para o prazer dos quatro.
— Ah, queridos. Sejam bem-vindos! — A mulher veio até eles. James tinha a impressão de que ainda era a mesma mulher de 1971. — O que procuram?
— Hogwarts para o pequeno aqui. — Indicou Remus com a cabeça para um Harry um pouco perdido.
— Claro, uniformes. Primeiro ano, eu assumo?
— Exatamente — James confirmou.
— Certo. Uniforme padrão é o que procuram. — A mulher se virou para Harry. — Qual casa você gostaria de ser sorteado?
Harry olhou de esguelha para o pai e os tios.
— Eu gostaria que fosse Grifinória — respondeu um pouco tímido.
— Para mostrar toda a sua coragem para todos? — A mulher continuou.
— Eu gostaria de ir para a mesma casa dos meus pais e dos meus tios — Harry respondeu simplesmente.
Aquilo fez um sorriso escapar de James, apesar de não querer colocar pressão alguma no filho.
— Ah, muito bem então. Espero que você seja sorteado para a casa dos Leões. Eu vou trazer o necessário e você poderá experimentar.
A mulher desapareceu no fundo da loja, deixando-os sozinhos com todos os tecidos que voavam por suas cabeças, agulhas que James pensava que não era uma boa ideia estarem encantadas...
Era louco como a sua cabeça podia mudar a partir do momento que você é pai. Se fosse mais novo ou não tivesse Harry ali, poderia muito bem se divertir com tudo aquilo.
— Por que eu tenho que comprar uniforme antes de entrar em Hogwarts, sendo que eu nem sei qual casa eu vou?
Harry e sua curiosidade para tudo.
— Nós vamos levar o uniforme tradicional. Não se preocupe, ele vai ter o símbolo e as cores da casa quando você for sorteado — Remus explicou.
— Você, como professor, vai ter que usar também? Um da Grifinória?
— Não, eu posso usar roupas normais.
— Isso não é justo.
Professor Lupin. Aquilo ainda soava estranho na sua cabeça e, ao mesmo tempo, tão certo. Sabia que foi difícil para Remus conseguir aquela vaga em Hogwarts, mas Dumbledore não poderia ter escolhido alguém melhor neste mundo. Havia uma grande chance de ser o único ano em que Remus ensinaria ali, já que nenhum professor de DCAT parecia durar no cargo, mas quem tivesse a honra de ser ensinado por Remus John Lupin naqueles meses, sentiria a diferença e o quão sortudo era.
Olhou para o amigo e apenas ao vê-lo explicar mais um pouco sobre os uniformes de Hogwarts, James sabia que os alunos não seriam os únicos saindo com enormes sorrisos das aulas. Ele era natural e era claro o prazer que tinha ao ensinar.
E falando em trabalho, deixou o amigo e o filho por um segundo para olhar novas gravatas. Como uniforme durante trabalhos fora do Ministério, sempre tinha que usar um grande sobretudo marrom, terno e gravata por baixo. Em seu escritório, poderia deixar de lado o sobretudo e talvez o terno. Para grandes missões, até poderia ter um outro uniforme. Quando se apresentava como Auror-Investigador, seria outra vestimenta. Tudo dependia do que, onde, quando e como as coisas aconteciam.
Mas nem sempre tinha tempo para toda aquela frescura, mas se pudesse usar roupas boas o suficientes para não morrer em batalha, ajudava. Já teve que duelar com roupas trouxas uma vez e podia dizer que as tais calças jeans não ajudavam nos movimentos, com toda certeza.
— Soube que você não estava sozinho nesta manhã. Está procurando uma roupa nova para sair hoje de noite? — Sirius perguntou ao seu lado.
— Eu vou estar com Harry. — Foi sua resposta curta.
— Eu posso ficar com Harry.
— Eu sei que você pode.
Saiu das gravatas e foi até a seção dos ternos. Não queria comprar um, mas não custava olhar.
— Então você não quer sair de novo com ela — Sirius continuou a conversa, seguindo-o.
— Foi só um encontro sem importância, Padfoot.
— Você não tem encontros sem importância por meses.
— Porque eu estou trabalhando como louco, além de aproveitar cada segundo com Harry antes que ele embarque para Hogwarts. — Percebeu que o amigo iria perguntar outra coisa, então se adiantou. — E ontem eu estava sozinho, terminei o trabalho cedo e aconteceu de encontrá-la. Se eu soubesse que Harry viria, eu estaria sozinho nessa manhã.
Ouviu Sirius suspirar.
— Lily não tinha muita escolha. Ela também não sabia que o fim de semana seria assim.
Achava engraçado — e não no mau sentido — o quanto Sirius e Remus defendiam Lily, assim como eles o defendiam. Os dois amigos se viram no meio do fogo cruzado que foi aquela separação inesperada e nunca quiseram tomar partido. Não que uma guerra tivesse ocorrido entre o casal ou qualquer briga durante o fim do casamento, mas foi um acontecimento não cogitado.
Quem diria que eles fossem se separar? Ninguém, nem mesmo James. Nem mesmo um dia antes do ocorrido, ele imaginaria isso. Mas Lily teve suas razões...
— Não estou tentando culpá-la, Padfoot. Emergências podem ocorrer com qualquer um, eu bem sei disso.
O retorno da vendedora o fez terminar aquela conversa, para o seu bem-estar mental.
— Vá experimentar, querido. Eu acho que é o tamanho certo. — Entregou uma pilha de roupas para Harry, o guiando até um provador. — E para vocês, senhores?
James e Remus apenas balançaram a cabeça educadamente. Sirius parou no meio da loja, olhando ao redor, uma mão embaixo do queixo.
— Um pai solteiro que precisa sair mais. O que a senhora recomendaria?
A mulher ficou mais do que empolgada, enquanto James arregalava os olhos.
— Tenho ótimas camisas ou então novas vestes de soirée.
— Não é necessário, madame. — James sentiu-se na obrigação de pará-la.
— Ah, sinto que é para o senhor. Vejamos, eu tenho um conjunto perfeito aqui que te vestiria perfeitamente.
Enviou um olhar torto para Sirius, que apenas sorriu para ele.
— Eu não preciso de vestes ou conjuntos novos, madame.
Ela se virou para trás e lhe deu uma boa olhada de cima a baixo.
— Não quero ser indelicada, mas devo dizer que discordo, senhor.
James olhou para as próprias roupas, sem entender. Qual era o problema? Estava tudo lavado e sem um amassado sequer. Ouviu os risos baixos dos amigos.
— E eu devo discordar da senhora. Minhas roupas estão ótimas.
— Caso ainda estivéssemos em 1986 — ela respondeu ainda procurando por algo.
— Ah, Prongs, você está tão fora da moda — Sirius riu.
— Então você também está, já que se veste igual a mim!
— Claro que não! Eu tenho um uniforme bem parecido com o seu, mas olhe para nós dois agora: eu tenho uma jaqueta de couro, Prongs. Eu sou muito melhor nisso.
— Só por você ter essa jaqueta te faz mais legal?
— Claro.
Olhou para Remus, que ria.
— E você, do que ri? Vive com esse estilo desde que nasceu.
— Eu?! — Remus apontou para o próprio peito. — Claro que não. Eu tenho mais cores agora, segundo Lily. Ela refez meu guarda-roupa todo.
Não estava surpreso.
A vendedora foi até ele com algumas camisas bonitas e vestes interessantes, tentando empurrar qualquer peça para ele, mas James recusava cada uma delas, tentando ser o mais educado possível enquanto a mulher continuava a falar do seu estilo de um jeito bem aberto.
— De qualquer maneira, estou feliz com o meu estilo. Eu mal uso esse tipo de roupa, de qualquer maneira — disse apontando para suas vestes informais quando a mulher finalmente desistiu.
— Deveria, você fica mais legal assim.
A voz de Harry vindo dos vestiários o alertou. Seus olhos capturaram o filho vestido com o uniforme de Hogwarts pela primeira vez e aquilo o fez esquecer de toda e qualquer discussão anterior.
Talvez fosse um pai um pouco babão, mas aquela cena estava mexendo com ele, talvez servindo como alerta de que Harry não era mais uma criança que precisava tanto dele, ou um bebê todo risonho e que só sabia roubar sua varinha. Ele tinha 11 anos agora, pronto para ficar meses longe, criando uma vida sozinho e quase independente dos pais, formando laços, amizades...era o começo de uma nova etapa em poucos dias e seu filho parecia tão preparado para aquilo, de um jeito que James não sentia estar preparado como pai.
— Olhem só para ele — Sirius comentou. James ouviu que o amigo também estava um pouco emocionado, mas tentando esconder. — Uniforme de Hogwarts e tudo. Eu nunca te vi usando sapatos assim.
— Eu não uso, na verdade. Não são tão confortáveis quanto os que a mamãe compra, mas vou me acostumar. — Harry vivia com roupas trouxas, é verdade. Ele dizia achar mais confortável, principalmente os tais tênis. — Eu só não sei dar o nó na gravata ainda.
A gravata preta estava pendurada dos dois lados do pescoço do filho. Lembrou de quando Fleamont o ensinou a dar um bom nó de gravata antes de começar Hogwarts, com Euphemia assistindo da porta do quarto.
Sirius e Remus olharam para ele, talvez esperando por sua reação. James pensava que havia pouca coisa nova que pudesse ensinar ao filho aos 11 anos. Claro, muitas outras ainda estavam por vir, mas essas pequenas coisas pareciam quase no passado.
Naquele dia inesperado, não imaginava que ensinaria o seu filho a dar um nó na gravata de Hogwarts. Algo tão simples, mas que o enchia de felicidade, pois Harry poderia se lembrar dele no futuro quando estivesse dando nós nas próprias gravatas quando James não estivesse mais aqui.
— Eu te mostro, é mais fácil do que você possa imaginar — James comentou ao se aproximar do filho e se apoiar em um joelho em sua frente. — Vou te ensinar como dar um nó four-in-hand. Até você começar a ter que usar vestes casuais ou formais, não precisa fazer outro nó além desse. — Harry assentiu, prestando atenção em cada palavra do pai. — Veja, a gravata tem dois lados diferentes: um é mais fino que o outro. O lado mais fino tem que estar na altura do meio da parte mais larga, nunca faça com os dois lados no mesmo nível. Vamos pegar esse lado da gravata, o maior, e passar na frente do outro lado...Dê uma volta por trás, outra na frente...quando estiver voltando para trás, você vai subir e passar pelo entrelaçado que criou...!
Continuou a explicação até o fim, tendo Harry bem atento.
O garoto rapidamente desfez o nó, pronto para treinar.
— Então eu coloco o lado mais fino nessa altura. — Harry começou a imitar os gestos do pai. Se perdeu por um momento, então James o ajudou. Ele continuou depois da pequena ajuda e teve que deixar James mostrá-lo como finalizar melhor, sem deixar o nó muito firme e enrugado. — Isso não é tão difícil!
— Eu disse que não era — respondeu James enquanto abaixava e ajustava a gola da camisa branca. Virou Harry na direção do espelho. — Perfeito.
— Eu pareço com você quando está vestido de Auror.
— Está faltando o casaco do terno, mas você não está longe. Se eu fosse você, ficaria feliz em não ter que usar e ter só o uniforme da escola por enquanto.
Quando levantou, viu os três outros adultos assistindo a cena. A vendedora era só suspiros, enquanto os dois outros marotos tinham um sorriso orgulhoso idêntico.
— Viram? Agora está correto. Vou ter que fazer e refazer algumas vezes para não esquecer — Harry tagarelava enquanto James também o assistia, todo orgulhoso ao vê-lo no uniforme completo.
— Bom, acho que isso pede aquele sorvete que você está me devendo, Prongs. — Sirius virou de costas para eles, parecendo um pouco emotivo demais e não confortável em mostrar. — Aliás, temos que tirar uma foto para Lily depois. Ela vai ficar feliz em ver Harry vestido assim.
Lembrando da fala do filho antes de sair do provador, James limpou a garganta:
— Antes, talvez, eu pudesse dar uma olhada nas vestes informais.
Remus pareceu surpreso e Sirius soltou uma risada, ainda de costas para eles.
— Vai ficar legal, pai. — Harry o parabenizou.
Era para esse sentimento que James sentia que vivia: aquele que traz aquele sorriso para o filho. Mesmo se significasse comprar roupas que provavelmente não usaria, ou não tão cedo.
-M-
Sentaram em uma mesa do lado de fora da sorveteria Fortescue após comprarem tudo o que Harry precisava para o seu kit de vassoura, o uniforme e novas roupas casuais para James. Só faltava a coruja, que comprariam quando estivessem indo embora.
Harry parecia no paraíso com o seu enorme sorvete de chocolate e framboesa com nozes picadas. Remus, ao seu lado, se deliciava com o seu chocolate apimentado.
— Sempre bom levar as crianças para tomar sorvete, não acha? — Sirius perguntou ao assistir os dois na sua frente enquanto comia uma casquinha de cerveja amanteigada.
James, que ficou apenas com uma água bem gelada, assentiu. Remus revirou os olhos.
— O que quer fazer depois, Campeão? — James perguntou para o filho.
— Jogar Quadribol — Harry respondeu sem nem pensar por um segundo. — Não jogamos semana passada por conta da chuva, o que eu acho besteira. Todo mundo joga na chuva, nenhum jogo é cancelado por conta da chuva.
— Você, carinha, ainda tem 11 anos e não precisa jogar na chuva — Remus disse ao terminar o seu sorvete. — Você não quer estragar seus últimos dias fora de Hogwarts na cama, doente.
— Não, não quero.
Harry resmungou alguma coisa que o pai não conseguiu ouvir.
— Vamos jogar Quadribol então — Sirius anunciou ao olhar para o céu e confirmar que não havia nem uma nuvem sequer dando as caras.
— Jogar embaixo do sol deveria ser considerado tão ruim quanto na chuva. — Harry recomeçou. — Muito quente e tudo mais, a mamãe vive falando para não ficar muito tempo no sol. Não que eu esteja reclamando de jogar hoje — Ele adicionou ao ver que o pai iria dizer algo. — Nunca vou reclamar, nunca. Apenas faz sentido... não sei, vou perguntar para o Sam.
James enrugou a testa. Sirius voltou sua atenção para o fim da sua casquinha e Remus parecia achar interessante o seu pote de sorvete vazio.
— Que Sam? — Perguntou.
Harry quem pareceu confuso agora.
— Você conhece o Sam, pai.
— Não. — Sirius e Remus continuavam distantes do assunto, fazendo James estranhar. — Quem é Sam, Harry?
— Sam Mcguillen. — O garoto deu de ombros, como se não fosse nada. James deixou o queixo cair.
— O batedor do Ballycastle Bats? Aquele que vimos a camisa na loja algumas horas atrás?
— Ele mesmo.
— Você vai perguntar para Sam do Ballycastle Bats sobre jogar no sol ou na chuva?
— Exato.
Hm!
O que estava acontecendo?
Seu filho estava mesmo deixando os Magpies? Sim, Mcguillen era o melhor batedor do time e dos campeonatos recentes, não sendo à toa toda a publicidade e loucura pelo seu nome/rosto e afins. O cara era, literalmente, um dos maiores dos últimos anos. Ficou ainda mais famoso quando não quis integrar a seleção britânica de Quadribol para não desfalcar os Bats.
Mas os Magpies tinham um time enorme, nomes de peso.
Talvez Harry apenas gostasse bastante dele, o admirasse, e achava que enviar um pergaminho com a pergunta seria o suficiente para ter uma resposta.
Ou era o que James estava torcendo ser.
— Campeão, vai ser um pouco difícil ter uma resposta dele sobre isso. Ele é muito ocupado.
— Eu sei que ele está na Irlanda do Norte se preparando para a temporada que começa em Setembro, mas ele não se importa em responder, eu acho.
— Talvez com a quantidade de cartas que ele recebe, sim. — Odiava ver o filho ficar empolgado com algo e saber que as chances de conseguir eram mínimas. — Eu posso tentar algum contato com ele por alguém do Departamento de Quadribol do Ministério, mas acho difícil.
— Não tem problema, pai. Vou pedir para a mamãe.
Aquela frase atingiu James como um tapa, mesmo que no fundo, lá no fundo, uma suspeita tinha sido criada desde o começo daquela conversa.
— Para a sua mãe?!
— Sim.
Não precisava de muita confirmação. Algo dentro de si estava lhe dando a resposta, mas preferia insistir e ouvir do seu próprio filho.
— Sua mãe...tem contato com Mcguillen. — Não era muito uma pergunta. Harry revirou os olhos.
— Ele já foi jantar em casa umas três vezes — O garoto respondeu como se James soubesse ou devesse saber.
Olhou para os amigos, que continuavam suas vidas como se aquela conversa não estivesse ocorrendo.
— Certo. — James colocou a mão no bolso e entregou algumas moedas para o filho. — Vai pegar outro sorvete. Não muito grande.
— Médio, então. — Harry soltou quando já estava longe o suficiente para não ser corrigido para "pequeno", e entrou na sorveteria.
Neste tempo, James cruzou as mãos em cima da mesa. Os outros dois marotos continuavam em silêncio.
— Sam Mcguillen, então? — Continuou recebendo silêncio dos dois amigos. — Lily está saindo com Sam Mcguillen.
— Ahm, "saindo" talvez seja uma palavra muito forte. — Sirius finalmente abriu a boca.
— Diríamos mais como "se conhecendo". — Remus tentou ajudar.
— Certo. — James assentiu.
Eles estavam há muitos anos longe, com poucas notícias da vida pessoal de cada um sendo compartilhada. Tudo sobre o que falavam, ou que trocavam cartas ou informações pelos marotos, era sobre Harry e só. Claro que ela seguiu em frente, assim como ele seguia, mas foi a primeira vez que ouviu qualquer informação desse tipo.
Era estranho.
Ligar o nome dela com qualquer outra pessoa o fazia voltar a Hogwarts quando a via namorando com outros caras. Bem, hoje em dia era diferente, pois não sofria como sofria naquela época.
Só era estranho. Só.
— Mas ela não disse nada para Harry, sabe, sobre estarem juntos — disse Remus.
— Harry não é bobo, ele sabe o que esse cara representa. — James o defendeu. — De qualquer maneira, eu tenho certeza que Lily está fazendo de uma maneira correta a apresentação dele na vida do nosso filho.
Bebeu o resto da sua água e amassou a garrafa. Talvez com uma força desnecessária.
Sam Mcguillen, hein?! Um dos jogadores atuais mais famosos. Apesar de não torcer para os Bats, era impressionante vê-lo jogar. O cara sabia como vencer um jogo, como defender cada jogador do seu time, com uma destreza para curvas que, caso ele não fosse bom rebatendo balaços, com certeza seria um ótimo artilheiro. Talvez até um bom apanhador.
Aquele idiota poderia formar um time todo apenas com as suas capacidades e isso o irritava. Não por ele estar saindo com Lily, claro que não. Apenas por James ser um péssimo batedor.
Bom, "péssimo" era muito forte, mas "ruim" lhe soava correto. Caso não fosse artilheiro, a posição de apanhador seria mais a sua praia. Tinha bons reflexos para o pomo, mas definitivamente não para os balaços. A não ser que fosse para escapar deles.
Ele riu quando lembrou de Lily lhe dando broncas após alguns jogos, dizendo o quanto ele se arriscava pela goles quando todos os batedores focavam nele. Desviava com facilidade deles e...
— Fico feliz por você estar feliz com isso. — A voz de Sirius interrompeu seus pensamentos. James fez uma cara de confuso, o que obrigou o amigo continuar. — Você está rindo, parecendo feliz com a informação.
— Não estou rindo. Digo, eu talvez estivesse, mas não pela informação. Não que a informação me deixe triste, porque não é o caso, mas... Enfim. — Preferiu dar um ponto final na tagarelice, coisa que Harry puxou dele, após ver as expressões jocosas dos amigos. — Apenas relembrando algumas coisas.
— Tipo o quê? — perguntou Remus de olho em Harry ainda dentro da sorveteria.
— O quão ruim eu era como batedor.
Os dois amigos se entreolharam.
— Você é ruim como batedor — Sirius o corrigiu para o presente.
James deu uma olhada para trás, vendo Harry pegar um sorvete quase tão grande quanto a própria cabeça.
Qual era o conceito de "não tão grande" e "médio" para o seu filho?
Assistiu-o voltar devagar enquanto equilibrava o sorvete. Quando os olhos verdes o encararam, James levantou uma sobrancelha, inquisitivo.
— Ele não tinha nenhum pote para sorvetes médios mais — Harry se explicou.
— E para os pequenos também não?
— Não perguntei — o garoto respondeu.
Ah, a audácia daquele Potter.
— O Sr. Fortescue não é mágico? Ele poderia diminuir o recipiente.
— Mamãe me diz para, se puder, não misturar comida e magia. Não quis arriscar.
Sirius tentou segurar uma risada pelos lábios, mas falhou por um segundo. James lançou um olhar não muito contente para o amigo, antes de puxar o sorvete para perto dele, pegando uma colher.
— Vamos dividir, então. Você já comeu doces demais hoje.
— Eu posso pegar um para você, se quiser. Eles devem ter recipientes pequenos.
— Pena que você não perguntou antes, senão teria um sorvete pequeno só para você. — James piscou para o filho, vendo-o fazer um bico contrariado. — Agora vai ter que dividir um grande comigo.
Por um momento, se perguntou onde o filho aprendeu a tentar contornar as coisas assim, até lembrar quem era o pai, o padrasto e tio. A cada ano que passava, mais maroto Harry virava, o que obrigava James a evoluir como um maroto também.
Um dia, seu filho o passaria nesse quesito e James seria obrigado a aceitar o destino.
Pegou uma colherada do sorvete enquanto pensava no próprio veneno que seria obrigado a tomar em pouco tempo.
-M-
Eles assistiam todas as bonitas corujas em frente da loja.
Até tentaram ficar mais do que cinco minutos e, talvez, achar algo diferente para Harry e que Dumbledore ou McGonagall aceitassem, mas Remus teve que tirar os três lá de dentro antes de soltarem todos os animais e serem expulsos do lugar.
— Ela foi um pouco indelicada — disse James ao saírem da loja.
— Eu acho que ela foi muito educada para o que vocês mereciam ouvir — Remus respondeu.
— Não temos culpa de isso nos lembrar um pouco das noites de lua cheia — comentou Sirius. — Acho que éramos os únicos que sabiam como responder corretamente em Tratos Das Criaturas Mágicas Avançado. Há quanto tempo não vamos em uma floresta tão cheia de animais quanto a Floresta Proibida?
— O pior foi ela dizer "vocês não são os mesmos responsáveis pela bagunça no Ollivanders algumas semanas atrás?" — exclamou um Remus quase revoltado, ignorando a nostalgia de Sirius. — O único lugar que quase não foi destruído nessas idas, foi a Artigos de Qualidade para Quadribol.
— Não iríamos destruir aquela loja, Moony, seria um sacrilégio — James respondeu. — E Madame Malkin também permaneceu inteira.
Remus decidiu também ignorar aquilo e se virou para o mais novo do grupo.
— Bom, Harry, vamos escolher logo a sua coruja antes que seja tarde demais e alguém nos expulse para sempre do Beco Diagonal.
De repente, o sol que esteve presente com eles até aquele momento, desapareceu, jogando os quatro na sombra. Porém, estava longe de ser uma nuvem acobertando o bom dia que fazia, ou até mesmo alguma magia.
Mas sim Hagrid, o meio gigante, guarda-caça e guardião das chaves de Hogwarts.
James não o via por tanto tempo, que ficou chocado em perceber que nada havia mudado. Desde a Ordem da Fênix, desde a caça às horcruxes, não tinha contato com o homem. Não por não apreciá-lo, mas a vida trouxe outras prioridades.
— Há! Mas que surpresa agradável! — Hagrid disse quase tão alto quanto todas as outras pessoas ao redor. — Os três encrenqueiros!
Os três marotos cumprimentaram o sorridente Hagrid.
— Ou diria os quatro. — James segurou os ombros do filho, que olhava admirado para o guarda-caça. — Você o viu pequeno, mas aqui está Harry. Este é Hagrid. Você o verá bastante em Hogwarts.
— Sério? Você é um professor?
— Seria um prazer, mas sou apenas o guardião da escola. — Hagrid se aproximou. — Quer dizer que se você tentar se aventurar como fazia o seu pai, talvez caia em apuros comigo. — Harry pareceu meio inseguro, desviando o olhar, antes de Hagrid começar a rir. — Vamos torcer para que ele seja mais como a mãe.
Se as pessoas soubessem quantas aventuras Lily teve por aquele castelo, mesmo antes de estar com ele, talvez fizesse muitos queixos caírem. Mas não seria ele quem espalharia o segredo.
— Não estou muito confiante sobre isso — Remus murmurou. — Enfim, o que te traz ao Beco hoje?
— Resolvendo algumas coisas para Dumbledore antes das aulas começarem, vocês sabem...o mesmo de sempre. — Hagrid deu de ombros, claramente querendo mudar de assunto. — E vocês, preparando tudo para Setembro?
— Só falta a coruja! — Harry quem respondeu, animado. — Mas fomos expulsos da loja...
— Quase expulsos — Sirius o corrigiu.
— Dá quase no mesmo, Padfoot — Remus murmurou. — Continuamos sem poder entrar de qualquer maneira.
Hagrid olhou para um grande relógio em seu pulso, que James arriscaria dizer que era tão grande quanto o que ele mesmo tinha pendurado em seu apartamento, antes de se virar para eles.
— Não saiam daqui — disse ele, animado, e entrou na loja.
Os quatro se entreolharam, mas não discutiram.
— O que Dumbledore teria no Beco Diagonal para levar para a escola? E ainda ter Hagrid como o responsável?
— Por que isso seria interessante para você, Padfoot? — Remus olhou para o amigo curioso.
— Não sei. Eu não vejo Hagrid sendo o responsável por comprar penas para o escritório dos professores. Você vê?
James entendia o que Sirius queria dizer e não o culpava. Após tanto tempo sendo Auror, você começa a se perguntar certas coisas quando as vê ou as ouve, mesmo que isso não passe pela cabeça das pessoas que não lutam diariamente com malucos.
A sua cabeça muda, achando tudo muito suspeito, longe de estar sossegada ou de achar a coisa mais normal o guarda-caça de Hogwarts comprando materiais escolares. E pior: para o diretor.
Pior em dobro: quando o diretor é Albus Dumbledore.
Tinha respeito pelo homem. Via todo o poder e capacidade por trás daqueles óculos, mas também sabia que Dumbledore era mais do que todos viam ou ouviam. Lembrava do que descobriu quando ainda se escondia em Godric's Hollow...toda aquela história sobre Grindewald e uma suposta amizade com o diretor de Hogwarts.
Ainda tinha uma enorme pulga atrás da orelha por isso.
Além de ter descoberto que Dumbledore sabia, ou talvez diria desconfiava, sobre a existência das horcruxes e nunca ter comentado. Não até descobrirem que Voldemort estava semimorto em algum lugar e o velho reunir a todos para dar a notícia:
"Se não acharmos as horcruxes, Voldemort voltará!"
James nunca teve a chance de perguntar se aquela informação era nova ou se Dumbledore a tinha antes mesmo da sua família ter que se esconder e suas vidas virarem de cabeça para baixo.
Porque se ele sabia, então qual a razão de não terem ido atrás das horcruxes antes? Por que esperar Voldemort se fortalecer cada vez mais e matar mais pessoas para só, então, destruir o que poderia mantê-lo vivo?
Por essas questões serem absurdas, o maroto gostava de acreditar que o velho não sabia das horcruxes na época.
Senão eles lutaram pela Ordem quase em vão.
Hagrid saiu da loja com uma grande gaiola em mãos, fazendo James sair daqueles pensamentos que, ele detestava admitir, eram bem corriqueiros.
— Uau! — Harry exclamou ao seu lado.
Uma bela coruja branca ocupava quase toda a gaiola. Seus olhos afiados estavam presos em Harry, parecendo saber seu destino e quem seria sua nova companhia.
— Eh, ela não é uma beleza? — Hagrid questionou, levantando a gaiola.
— Realmente. Ela estava lá dentro? Não lembro de ter visto nenhuma coruja assim. - Sirius aproximou-se e começou uma inspeção da ave.
— E tivemos tempo o suficiente para ver tudo?! — Remus retrucou, ainda enviesado por ter sido expulso do local.
— Você não vai parar de encher o saco por conta disso, vai, Moony?
— Foi a segunda loja, Padfoot! Um professor de Hogwarts sendo expulso de duas lojas do Beco Diagonal...minha reputação já está manchada.
— Que reputação?
Enquanto os dois amigos discutiam, James se virou para Hagrid.
— Coruja-das-neves, certo?
— Exato — Hagrid confirmou e se direcionou para Harry. — Não encontrará uma amiga mais fiel do que ela.
Harry olhou para o pai e depois para Hagrid, contente.
— Sério?! Ela é minha?
Mal esperando uma resposta, o garoto se jogou na direção da gaiola, conversando com a coruja.
— Obrigado por ter entrado. — James tirou seus galeões do bolso, mas Hagrid o parou.
— Aceite como um presente. Da Ordem. — Ele deu uma olhada para Harry. — Ele merece.
James assentiu em agradecimento.
— Ela já tem um nome? — o garoto perguntou.
— Nada mais justo você dar um bonito nome para ela — Hagrid disse antes de olhar para o relógio novamente, parecendo apressado. — Espero uma visita sua em Hogwarts para me contar.
Mais uma vez, ele conferiu a hora. Pelo canto do olho, James percebeu que Sirius estava com sua total atenção em Hagrid, apesar de falar com Remus.
— Não gostaria de tomar algo conosco no Caldeirão Furado? — James perguntou.
— Uma outra vez, talvez. Harry, eu te vejo no dia 1° de Setembro.
Com um aceno geral para os marotos e Harry, Hagrid saiu apressado entre os transeuntes.
— Parece que o estoque de penas e tintas está comprometido, fazendo o guardião de Hogwarts correr para comprar alguns pro diretor — Sirius comentou ainda seguindo com o olhar a grande figura no Beco.
— Deixe o homem e seus negócios com o chefe dele. — Sirius estava pronto para discutir com Remus novamente, mas o segundo levantou a mão. — Sim, o seu instinto de Auror te diz algo e não vou contra você, porém não há nada que possamos fazer, além de levar o seu afilhado para jogar Quadribol.
O rosto de Harry se iluminou no mesmo segundo.
— O que você prefere fazer, Campeão? Ir atrás do guarda-caça ou roubar o pomo debaixo do nariz do seu padrinho? - James perguntou.
Olhando para Sirius e dando de ombro com pesar, Harry respondeu:
— Eu prefiro jogar Quadribol.
Parecendo derrotado, Sirius se virou completamente para Harry, como se deixasse Hagrid e sua atividade suspeita para trás em definitivo.
— Vamos ver se você consegue passar por mim dessa vez.
— Ou vamos ver você comer poeira de novo! — Sirius tentou pegar Harry, mas este escapou. — Depois, podemos comer pizza? Hoje é sábado, e como todo sábado, o jantar pode ser qualquer coisa. — Ele se virou para o pai. — Você tem o livro "A História da Magia"? Acho que lembro de ter visto na sua estante...
Harry não esperou por uma resposta e saiu na frente, como sempre, tagarelando pelos cotovelos.
J~H
Após uma tarde inteira de Quadribol, pizzas para o jantar, um Harry muito cansado e pronto para dormir após o banho, James se jogou no sofá, também sentindo todas as atividades do dia lhe atingirem.
Harry tinha "A História da Magia" no colo, mas seus olhos estavam quase fechando. James não entendia de onde vinha aquela curiosidade de ler o livro. O filho apenas chegou e procurou por ele em sua estante, dizendo que tinha visto algo uma vez que o agradou e queria achar.
Enquanto isso, ele conferia as milhares de correspondências que chegaram no apartamento durante sua ausência: tudo sobre o trabalho. Às vezes gostava de estar tão ocupado daquele jeito, mas quando tinha dias como aquele com o filho, lembrava como era bom viver fora daquela bolha que o seu trabalho podia ser.
Falando em correspondências, pai e filho levaram um susto ao ver uma enorme coruja se espremer pela fresta da janela da sala, abrindo suas longas asas ao planar pelo cômodo, antes de pousar na frente de Harry.
James poderia ficar alarmado e intervir, mas apesar de anos, ele ainda reconhecia Clio, a coruja de Lily.
Seu estômago deu aquela cambalhota que quase não se lembrava mais. Quando recebia qualquer nota relacionada à Lily, elas chegavam por mensageiros ou corujas do Ministério. Raramente, pela de Sirius ou Remus. Mais raramente ainda com uma coruja do trabalho.
E nunca, nunca, por Clio.
A coruja de Harry se remexeu em seu poleiro, parecendo um pouco desconfortável com a presença de outra da sua espécie, mas para o bem de todos, não atacou. A última coisa que precisava era ter que limpar a guerra de corujas no meio da sua sala.
— Uma nota da mamãe — Harry comentou ainda bem sonolento e mal percebendo o carinho que fazia na coruja.
Soltou uma risada leve, não chamando a atenção de Harry, enquanto encarava Clio. Ela era uma coruja-buraqueira que sempre tinha aquele olhar blasé, nunca impressionada com nada, nem ninguém. Mas para James...ela sempre tinha um olhar blasé e com instintos assassinos. Até quando estava tranquilo na sala comunal da Grifinória, talvez até fazendo suas lições ou simplesmente matando o tempo, Clio aparecia na janela e o observava por horas, claramente tramando o seu assassinato.
Casado com Lily, os instintos assassinos da coruja continuavam ali. James podia jurar que era bicado de noite e Lily sempre dizia que ele estava sonhando ou que o medo de Clio estava chegando no limite.
Ele não tinha medo da Clio. Apenas não gostava de ser bicado a noite. Ou de dia. Ou qualquer outro horário, gratuitamente, como ela gostava de fazer.
— E então? - perguntou para o filho.
Harry entregou a nota para ele:
"Querido,
Desculpe pela mudança drástica do fim de semana. Eu sei que você entende, mas tínhamos tantos planos...
Vou recompensar no próximo! Mesmo tendo certeza que você não estará triste neste dois dias, aproveitando cada segundo ao lado dos marotos.
Mal posso esperar para te ver amanhã.
Eu te amo."
Devolveu a nota.
Ler "eu te amo" com a caligrafia de Lily lhe dava mais do que uma cambalhota no estômago, mais do que a nostalgia de receber notas quando estavam longe por alguns dias na época de Hogwarts, do que os bilhetes que recebia nas aulas, dos pequenos recados deixados pela casa quando já casados...
— Não há razão para ficar triste.
A voz de Harry lhe chamou a atenção. O filho continuava com os olhos sonolentos nas páginas do livro.
— Eu não estou! — Defendeu-se, limpando a garganta.
Harry olhou para ele, estranhando.
— Não estou falando de você, pai, mas de mim! Ela pensa que estou triste. Eu queria ter feito tudo o que planejamos, ficar com ela, mas entendo que ela teve um problema. — Com a maior expressão de compreensão que James podia ver em um garoto de 11 anos, Harry se virou para ele. — Além do mais, Hogwarts vai começar em algumas semanas e, até lá, nósvamos poder fazer tudo. Com você também, claro.
O filho voltou a atenção para o livro. Aquilo arrancou um sorriso orgulhoso de James, lembrando-o do grande carinha que Harry estava virando. Mesmo tendo muito potencial maroto em si — pela presença constante dos ditos cujos em sua vida — , a doçura de Lily era bem presente. Tinha o coração do tamanho do mundo e parecia prestes a acolher a tudo e a todos, sem distinção.
Diria que era a mistura perfeita de todos eles — incluindo Sirius e Remus, que tinham muita influência em Harry — , e era uma pena que eles não podiam ser a grande família de antes e que as coisas tinham que ser daquela maneira.
Jogou as correspondências de lado e encarou o teto. Não deveria começar a pensar naquilo, pois muitas lembranças voltavam com força e nem sempre eram boas:
"— James, por favor. Eles estão atrás do anel, Dumbledore diz ter certeza de onde encontrá-lo e os Inomináveis e Aurores se encarregarão disso amanhã.
—Eles não vão se importar tanto quanto a gente se importa, Lily.
—Todos querem acabar com toda e qualquer chance de Voldemort voltar, nós não somos os únicos.
—Mas nós somos os únicos correndo mais perigo do que qualquer outro.
Os olhos de Lily estavam cansados. Cansados de chorar às escondidas, de pedir. James entendia, mas era mais forte do que ele. Não podia deixar de estar presente, de ver com os próprios olhos as destruições de cada horcrux achada.
Fazia por eles, pela sua família, mesmo percebendo que sua família estava sofrendo com a sua ausência, com as suas crises de nervosismos, com seus surtos. Foi avisado por todos os grandes conhecedores de horcruxes que aquilo poderia acontecer, que não seria o mesmo homem caso permanecesse tão perto delas, se deixasse com que elas dirigissem sua vida.
O que o acalmava era saber que, uma vez que todas as horcruxes estivessem destruídas e ele não precisaria mais buscar por elas, tudo poderia voltar ao normal e sua família poderia voltar a ser feliz novamente.
Feliz e segura.
Viu que Lily estava prestes a continuar o debate, mas o choro de Harry começou do quarto não longe dali. A ruiva apenas deu as costas para ele, cabisbaixa, e foi ao encontro do filho."
Aquela havia sido apenas mais uma discussão entre eles. Antes, eram apenas conversas, que evoluíram para aquele tipo de discussão, para depois as coisas ficarem acaloradas — principalmente da parte dele, com tanta influência das horcruxes que vinha tendo, até tudo esfriar. Literalmente esfriar. Mas ele apenas pensava que era uma fase que enfrentariam e tudo se resolveria logo.
Deveria saber que ter as coisas tão gélidas, significava o fim. Ter Lily não mais pedindo; não mais dormindo em seu escritório no Ministério, esperando por ele, com lágrimas secas; não mais se importando se ele viria para o jantar, era um enorme sinal de que tudo tinha ido abaixo.
— Hedwig!
O grito de Harry o assustou, fazendo James pegar a varinha em seu bolso, pronto para a luta. Quando percebeu que não estavam sob ataque, mas apenas seu filho tendo seu momento de gritar um nome qualquer no meio dos seus devaneios, guardou a varinha novamente.
— Quem é Hedwig?
— A minha coruja. Hedwig! Eu vi esse nome nesse livro uma vez, mas tinha esquecido.
A coruja, que não estava longe deles, pareceu concordar e aceitar, já que piou alegremente de volta.
— Ela parece ter gostado.
— Eu queria dar um nome legal para ela, igual a mamãe deu para a Clio. Você sabe o que significa?
" — A sua coruja quer me matar! — James dizia enquanto era encarado pela dita cuja do outro lado do salão comunal.
Lily abaixou o pergaminho que havia recebido e sorriu.
— Ela não quer, James.
— Quer e quer que seja o mais rápido possível.
— Clio tem coisas mais importantes para fazer do que matar um estudante da Grifinória em uma quinta à noite.
— Eu não acho que ela tenha. O que significa esse nome, de qualquer maneira? Você disse que era algo da mitologia grega. Eu não sou muito conhecedor disso, mas conheço Hades e eu não duvidaria que alguma Clio fosse próxima dele!
Sem tirar os olhos da leitura, Lily apenas balançou a cabeça.
— Se quer saber, Clio é uma das nove musas. — Lily se virou para ele, deixando o pergaminho de lado. — ... ela é a musa da história e da criatividade, responsável também pela relação politica...
James se perdeu da voz da namorada enquanto os olhos de Clio se estreitavam mais em sua direção, ficando cada vez mais ameaçadora enquanto a dona dava uma aula sobre o seu nome.
— História e criatividade, hein?! — comentou quando percebeu que Lily tinha terminado e a coruja teve a audácia de mudar para uma expressão angelical quando a ruiva se virou para ela, lhe dando um petisco. — Tenho certeza que ela adoraria contar para as amigas no Corujal a história de como ela foi criativa em acabar comigo.
Clio terminou seu petisco e piou alto, quase soando como uma gargalhada para ele, e saiu pela noite. Lily fechou a janela e foi até ele, sentando-se em seu colo.
— Nada de ruim vai acontecer com você essa noite, James, porque você vai passá-la comigo. — Lily se aproximou de seu ouvido. — Eu vou te proteger, enquanto a gente aproveita."
Piscou várias vezes, querendo sair daquelas lembranças. Percebeu que o filho ainda o encarava, esperando uma resposta.
— Er, sim, eu...eu sei o que significa o nome da coruja.
Clio piou em resposta, provavelmente rindo da sua cara. Era tudo o que ela sabia fazer de qualquer maneira.
— Hedwig significa "guerreira". Um nome legal, não é? — A voz de Harry já estava menos agitada, indicando o quanto o cansaço o atingia após o garoto cumprir sua missão de achar o nome da coruja no livro.
— Uma responsabilidade e tanto carregar esse nome.
Sem qualquer aviso, Clio levantou as asas e alçou voo pela sala, passando por cima de sua cabeça, fazendo James temer levar uma bicada ou talvez um jato do jantar digerido da ave. Porém, esta apenas continuou seu trajeto e saiu do apartamento.
Coruja sem coração!
Obrigou-se a desviar o olhar da janela, não querendo acompanhar o voo de Clio e deixar-se levar para as tantas perguntas que viriam:
"Iria para Leste ou Oeste? Direto para a dona? A dona estaria em casa, descansando do trabalho extra que teve naquele dia, ou ela ainda estaria no trabalho?..."
Não! Apesar da curiosidade, aquilo não o interessava. Não interessava por anos e continuaria a mesma coisa por muito mais. Não podia dizer que Lily não passava pela sua cabeça de tempos em tempos, e tinha certeza que ela também pensava nele, de uma forma ou de outra.
Afinal, Harry estava ali, sendo o eterno laço entre eles. E era no filho que iria focar.
Pensando nisso, James se virou, pronto para propor uma jogada rápida de Snap Explosivo antes de dormir, mas se deparou com o filho e suas pálpebras pesadas enquanto lutava contra um sono que não poderia vencer.
O jogo poderia esperar até amanhã.
James se acomodou melhor, feliz por vê-lo em paz, protegido e feliz. Isso significava que todos os sacrifícios feitos anos atrás, pelo menos, resultaram na felicidade do filho...mesmo que a própria felicidade da época tenha sido esmagada e jogada pela janela.
O maroto se permitiu fechar os olhos e dormir também, com um sorriso no rosto...e sem saber a virada que sua vida daria e em como todos esses elementos estavam prestes a mudar.
N/A:
Bem-vindos!
Uma nova história começa. Uma com Harry, algo que nunca postei antes. Quem segue no Instagram, percebeu que eu nunca comentei que teríamos o Escolhido por aqui :P
Ainda sim, essa fic é JILY, focada em JILY, 100% JILY!
E por falar nisso, acalmem esses corações: nossa querida, a que compõem 50% desse ship, chega no próximo capitulo ;)
Bora dar um help com um comentário marotinho ai? Sem saber se estão gostando, vocês me deixam no escuro xD
