J~L
Lucius Malfoy tinha virado fumaça por dias. Dias e dias.
Parecia que o homem sentia que alguém estava vindo atrás dele e resolveu sumir de todos os mapas possíveis. E James tinha muitas maneiras de achar pessoas, com todos os aparatos do Ministério, mas encontrar Lucius foi impossível.
Remus estava de olho em Draco. Aparentemente, o garoto continuava a tentar uma aproximação, mas Harry não parecia muito aberto àquilo. Na verdade, segundo o maroto professor, o filho começava a demonstrar impaciência. Aquilo era raro para Harry, então James só podia imaginar que aquele garoto estava enchendo o saco demais.
Não falava sobre trabalho na frente ou perto de Harry, nunca. Caso ele tenha escutado algo, pode ter sido por acidente. Mas James estava começando a ter em mente de que o filho já havia escutado alguma conversa dele com os marotos sobre Lucius Malfoy, ou a família Malfoy em geral. Isso explicaria a falta de interesse e a impaciência de Harry em fazer amizade com Draco, já que Remus dizia que a tentativa de aproximação não era nada de anormal.
Mas voltando à Lucius. Sim, seu paradeiro era uma incógnita.
Não mais.
Estava com a sua cópia do Profeta Diário, como todos os dias. Seus olhos deslizavam pelas palavras, mas sem ler uma só frase. Sua atenção estava a 20 metros de distância, onde Lucius conversava com um cara que James não fazia ideia de quem era.
Não quis arriscar lançar um feitiço de escuta, pois não se interessava pelo o que conversavam. O seu interesse era em outro tipo de conversa, uma que James estava sedento a ter.
E sua oportunidade estava sendo servida agora.
Fechou o jornal o mais displicentemente que pôde, tentando não puxar atenção para si. O átrio do Ministério estava calmo naquele começo de tarde de quinta-feira, então não precisou atravessar um rio de gente para estar quase colado na sua vítima.
Lucius andava tranquilamente, com aquela maldita bengala ou o que quer que fosse, batendo às vezes no chão, como se pedisse passagem.
Não havia filas para os elevadores, e um já estava à espera de passageiros. Lucius se lançou nele, sem imaginar que James entraria logo em seguida, fechando a grade.
A cabeleira loira se virou, surpreso pelo barulho do elevador se fechando com tamanha pressa. Eles se encararam enquanto James enviava-os para o nível 2.
— Potter! — Lucius o cumprimentou sem empolgação alguma.
— Malfoy. — O primeiro desviou o olhar, pronto para chamar o nível que iria, mas James preferiu cortar logo aquela cena. — Não perca o seu tempo. Você está indo para o nível 2!
Aquilo pareceu divertir o homem.
— Não, não estou.
— Sim, está.
— Isso é alguma coisa com os Aurores? Pois não recebi nenhuma convocação oficial e não pretendo me deslocar. Aliás, eu tenho uma colaboração premiada por algo que você, Potter, tem pleno conhecimento. E devo dizer que nunca escutei um "obrigado" da sua parte.
Mordeu o lábio, tentando não esquecer que não queria perder seu emprego, além das Maldições Imperdoáveis não serem mais liberadas para uso.
— Nível dois, Departamento de Execução das Leis da Magia, que inclui a Seção de Controle do Uso Indevido da Magia, o Quartel-General dos Aurores e os Serviços Administrativos da Suprema Corte dos Bruxos.
— As suas costas não estão mais quentes, e isso não tem nada a ver com Aurores, então eu recomendo que saia desse elevador e entre na primeira porta à direita, caso queira fazer isso do jeito fácil.
Lucius bufou uma risada irônica.
— Você terá que tentar o jeito difícil, então.
Não queria ter que segurar nos cabelos loiros e arrastá-lo para fora, então daria essa chance para ele e tentaria o jeito fácil de novo.
— Eu aposto que você ficará mais do que cooperativo, caso saiba que estou aqui para falar sobre o seu filho.
Ah, ali estava. Apesar dos pesares, Lucius não era um pai sem coração. Seus olhos mudaram de expressão tão rápido, sua boca entreabriu um pouco.
— Não ouse falar ou usar Draco como uma arma contra mim, Potter. Eu tenho certeza que não quer trazer nossos filhos nessa história.
— Saia desse elevador e entre na primeira porta à direita, Malfoy — repetiu, querendo mostrar que sua ameaça velada não o assustava, mesmo James ter que esconder o receio de qualquer mínima ameaça que podiam fazer a Harry. — Agora!
Era nítida a raiva e descontentamento de Lucius Malfoy quando saiu do elevador e entrou na bendita porta indicada. Por coincidência — ou não —, era a mesma sala que estiveram há dez anos, quando Lucius havia entregado a primeira horcrux e informado sobre a segunda.
Naquela época, James não tinha noção de que mais ainda estariam por vir.
— Sente-se, fique em pé. Eu não me importo — anunciou ao dar a volta por ele e ficar onde, um dia, esteve Moody interrogando-o.
Pelo o que parecia, o homem optaria por ficar em pé. James também não tinha ignorado o fato de que a mão dele estava bem posicionada na cabeça de cobra prata da bengala, onde estava sua varinha.
— Eu não tenho tempo a perder, então diga o que tem para dizer. — James abriu a boca, mas Lucius os interrompeu. — E eu tomaria cuidado com o que vai falar, Auror Potter. Muito cuidado.
Estava tentado a responder sobre o quanto ele o amedrontava, mas ele também não tinha tempo a perder.
Lucius sabia que era algo sobre Draco, mas não que envolvia Harry também. Era uma conversa sobre seus filhos e James não queria prolongar aquilo o tanto quanto qualquer um gostaria.
— O que você instruiu Draco a fazer?
— Do que está falando?
— O seu filho está se aproximando do meu e eu quero saber o que você tem planejado. E antes mesmo que você responda, eu já aviso: não vai funcionar.
Os olhos de Lucius estavam vazios, como se ele tivesse saído dali por um momento.
— Draco se aproximou do seu filho? — A voz dele não transparecia felicidade. — E você tem tomado chá de dragão?
— Como é?! — James grunhiu.
— Apenas alucinando para achar que isso seria possível. Não há nenhuma hipótese nessa vida, nenhuma brecha, nem em um mundo paralelo, onde Draco se aproximaria de crianças...!
Aquele maldito estava prestes a ofender Harry, então James cruzou os braços, levantando uma sobrancelha. Sirius costumava dizer que era um pouco intimidante quando o amigo fazia aquilo, mesmo que James o fizesse sem perceber.
De qualquer forma, aquilo fez o outro homem não completar sua frase.
— Parece que há e estamos vivendo neste mundo. — James resolveu voltar na conversa. — E sabendo o que sei de você, não estou surpreso. Qualquer plano que tenha em mente, não vai funcionar, Malfoy. Então, se eu fosse você, enviaria uma coruja para Draco e diria para acabar com essa coisa sem sentido. O mais rápido possível.
— Sua cabeça cresceu muito, Potter, para sequer achar que é tão importante assim. Pois bem, você não é. Só por ser reconhecido por onde vai, não te faz a reencarnação do próprio Merlin. — Aquela voz baixa e "calma" daquele homem era digna de se arrancar os cabelos de raiva. — O seu filho tem a mesma importância para mim quanto qualquer outra criança desinteressante naquele castelo. Talvez tão interessante quanto um elfo doméstico de Dumbledore.
Aquilo o irritou, mas não pela razão que Lucius poderia imaginar. Era enervante ouvir alguém falar do seu filho daquele jeito, mesmo James preferindo que Harry fosse desinteressante para aquele tipo de pessoa.
— Diga para Draco se afastar e estamos bem. Se eu não ver qualquer mudança no comportamento do seu filho, nos veremos de novo.
Foi até a porta para indicar que Lucius poderia ir.
— Isso tudo por não ter me colocado em Azkaban há 10 anos? — o loiro se pronunciou. — Eu pensei que prender Pettigrew e Snape tivesse sido seu triunfo pessoal, mas eu vejo que você teria gostado ainda mais ao me ver enlouquecendo naquele lugar também.
Ah não, ele não começaria aquela conversa. James tinha muito o que falar sobre, mas corria o risco de passar dos limites.
— Vemos que a quantidade de merda na sua cabeça não impede que pense o óbvio, Malfoy. Considerando a minha profissão, não é difícil saber que não só é um triunfo pessoal prender Comensais, mas também profissional. E quando um escapa, fica um leve amargor...— James deu de ombros. — Mas nada do que uma escorregada dele não ajude a compensar, mesmo 10 anos depois.
— Não tem nada contra mim, Potter, além de não poder apagar o fato de que usaram Imperius em mim na época.
James se aproximou.
— A sua sorte foi não ter tido um julgamento para você. E eu sei que foi isso que gostaria de evitar quando veio nos informar sobre o diário e a taça. Imagine se tivéssemos te levado para a Suprema Corte, com seus colegas Comensais como testemunhas. Será que eles corroborariam com essa história fajuta de Imperius?
Lucius sorriu levemente.
— Não há como você tentar qualquer coisa. Anos se passaram e o fato de terem me dado colaboração premiada impediria que qualquer calúnia fosse mais forte.
— Caso você não afaste o seu filho do meu, verá que eu posso te colocar sentado na frente da Suprema Corte dos Bruxos mais rápido do que você possa dizer "Imperius no meu rabo".
Se olhares pudessem soltar faíscas, os dois homens estariam dando um show de fogos de artifício.
— Não me ameace, Potter.
— Então não me obrigue a isso, Malfoy.
Uma pequena disputa de quem desviaria o olhar primeiro, se iniciou. James não iria abaixar a cabeça para ele, nunca, então sabia que Lucius seria a pessoa quem daria o primeiro passo e por diversos motivos: ele era medroso demais, estava ao lado do Quartel dos Aurores e não tinha nada contra James para usar. O que não podia dizer o contrário.
— Apenas para a sua informação, Auror Potter, e que fique bem claro: é do meu interesse que Draco fique longe do seu filho. Você não imagina o quão insatisfeito eu estou apenas em saber que eles dividem o mesmo ano, a mesma escola. — Lucius desviou os olhos, dirigindo-se até a porta. — Então pode ter certeza que ele manterá a distância, mas por eu não querer o seu filho perto dele. Já bastam as outras impurezas ao redor...Draco não precisa de mais uma.
A boca de James caiu, fazendo-o pegar a varinha do seu coldre, mas Lucius foi mais rápido e saiu da sala, fechando a porta em seguida.
Maldito. Filho de Morgana, maldito!
Iria matar aquele homem um dia.
-J~S-
— O que aconteceu?
Sirius assistiu James entrar como um louco no Quartel dos Aurores, quase correndo até sua sala com o ódio que possuía.
Como ele ousava dizer algo de Harry? Como ele teve a coragem de olhar em seus olhos e diminuir o seu filho e na sua frente?
— Eu vou matar Lucius Malfoy! — disse ao ouvir Sirius entrar atrás de si e fechar a porta.
— Apesar do fato dele respirar já contar como um motivo para tal, eu ainda vou perguntar o por quê.
Talvez não fosse sábio contar aquilo para Sirius. O amigo sairia daquele lugar e arrancaria fio por fio loiro do homem, enquanto batia em sua cabeça com aquela maldita bengala de prata.
— Eu disse para que ele afastasse o filhote dele de Harry. Tivemos uma discussão e isso despertou meus instintos assassinos.
— Se você quiser sair agora e pegá-lo numa emboscada, eu te ajudo. Tenho algumas coisas planejadas, mas não me importo em adiar.
Soava como um plano interessante, mas ainda não podia fazer nada.
Pegou um pergaminho e escreveu um rápido bilhete para Remus:
"Lucius está avisado. Draco deve se afastar em pouco tempo."
Para o bem de todos, esperava que fosse o caso. Pela sanidade dele e pela própria vida do patriarca da família Malfoy.
-M-
— Eu não vi Draco Malfoy hoje. Harry esteve sempre com Ron e Neville.
James e Sirius estavam no apartamento do primeiro maroto, enquanto Remus jantava em seus aposentos em Hogwarts e falava com os dois outros amigos por pó de Flu.
— O pai deve ter aparecido depois da conversa com o Prongs.
— Contanto que ele se afaste, eu não me importo com o resto.
James jogou o osso do frango do jantar de volta no prato e se jogou contra o sofá. Estava exausto, querendo férias, um pouco de sanidade.
— Talvez ele vá. Lucius Malfoy não pareceu tão contente em saber, pelo o que nos contou.
— Não, ele parece bem descontente.
— Queria ver o descontentamento dele em Azkaban. Um dia, quem sabe — Sirius comentou, também finalizando o jantar. — Pelo visto, deve sentir falta dos amigos dele, já que comentou sobre Snape e Pettigrew.
O maroto quase cuspiu no chão ao dizer os dois nomes. Não que James pudesse julgá-lo, já que eram dois imbecis. Um mais do que o outro.
Peter Pettigrew. O que dizer dele? Como eles poderiam imaginar que teriam um maroto traidor? Mesmo este sendo o menos popular entre eles? Você poderia dizer que um Black seria o mais propenso a isso, mas o rato provou a todos o quanto esse equívoco era real.
E ele foi tão escorregadio. Apenas em pensar que ele quase escapou...que a sua animagia, resultado de estudos de James e Sirius na verdade, quase o levou para longe da justiça. Era eternamente agradecido a Sirius por isso, pois foi o amigo quem o capturou logo após o ataque em Godric 's Hollow.
E Severus Snape. Graças a ele, Voldemort soube da profecia. O homem era tão devoto ao seu Lorde, que, assim que ouviu o risco de vida em que o chefe se encontrava, correu para contar tudo e mantê-lo a salvo.
Dumbledore contou, mais tarde, que assim que soube que Voldemort considerou Harry como alvo, Snape pediu pela vida deles, que os escondessem. Lily, quando soube, ficou grata, mas havia muitos "poréns" nessa história toda que faziam com que James não o vangloriasse:
1— se Lily não estivesse em perigo, Voldemort apareceria rapidamente para matar Harry. E a ele.
2— como você pode dizer que está de um lado, sendo que tinha acabado de tentar salvar o pilar central do outro lado? Você não vai tentar salvar Voldemort, dizendo a ele que corria risco de vida, querendo que suas loucuras, assassinatos e possível ascensão ao poder continuassem e dizer, horas ou dias mais tarde, que não estava do lado dele. Não era como uma decisão de gostar de uma cor de veste ou o estilo de música do momento.
3— e para começar, para estar ao lado de Voldemort e tudo o que ele acreditava, defendia e lutava por, você tem que pensar como ele. Deveria James, então, sorrir para uma pessoa que pensava que os ideais de Voldemort eram corretos? Por que? Por ele contar para Dumbledore que ele abriu a boca sobre a profecia e, agora, queria proteger a mulher que ele quis ter, com medo dela morrer?
Não. James não engolia Severus Snape e acha que o Comensal, com boas intenções ou não ao ir atrás de Dumbledore, deveria pagar pelos seus crimes, pois, querendo ou não, ele foi um Comensal da Morte.
Havia apenas dois destinos para esse tipo de gente, no ponto de vista de James Potter. E sabendo como Azkaban pode ser, não tinha muita certeza se o Ranhoso era sortudo ou não por ter pego aquele destino.
Foi a semente que ele escolheu plantar para colher e James estava feliz em tê-lo colocado atrás das grades. Lily poderia ter um pensamento ou outro sobre isso. Dumbledore também, mas ele não mudaria o que achava de um homem que seguiu Voldemort merecia.
Descobriu que seu melhor amigo de anos não era confiável, como ele poderia sequer cogitar confiar no cara que o via como seu inimigo número 1 desde os tempos de Hogwarts?
Não, isso não iria acontecer. Nunca. E qualquer julgamento que Severus Snape pudesse ter, iria torcer para que ele sempre fosse encarregado de pagar pelos seus crimes, tendo ele se arrependido ou não.
— Talvez veremos todos eles na prisão um dia — finalmente comentou.
— Ou talvez devêssemos apenas seguir em frente com o que conseguimos — respondeu Remus. — O que foi enorme. A maioria dos Comensais presos, Voldemort com um fio de vida ou morto, Harry feliz, nós três bem...! Temos muito para comemorar também.
Sim, eles tinham, e James devia lembrar-se disso mais vezes, apesar de saber que era sortudo.
Talvez até demais. Talvez até mais do que sabia ou imaginava que seria.
Pergaminhos, pergaminhos e mais pergaminhos. Uma vantagem em ter sido Monitor-Chefe em Hogwarts, foi acostumá-lo a lidar com relatórios. A única diferença é que sendo um Auror, ele não podia levar aquilo tão levianamente. Cada informação era importante e nada poderia passar batido.
Após o fim de Voldemort, as coisas haviam acalmado bastante. Até as vagas para a seção dos Aurores haviam diminuído, pois agora eles lidavam com muitos deles e não muita ação. Ainda existiam muitos ex-seguidores de Voldemort, não necessariamente Comensais, que estavam em seus radares o tempo todo, e eles eram perigosos o bastante para acharem algum outro maníaco para seguirem e recomeçarem uma guerra.
Já havia acontecido antes. Voldemort não foi o único bruxo das trevas com aquelas ideias e muitos seguidores. Infelizmente, muitas histórias tendiam a se repetir e aquela era uma que James lutaria para não ocorrer, não enquanto estivesse vivo, pelo menos.
Mas enquanto isso, ele estava preso no próprio escritório com algumas boas pilhas de pergaminhos dos Aurores que era responsável. Encontrava boas informações, outras nem tanto. Depois de checar um por um, teria que arquivá-los, caso não fossem importante.
Estava com um pergaminho quase colado em sua mão, há quase dez minutos já, sobre o caso de sinais da magia das trevas na Albânia que não tinha dado em nada. Os Aurores ingleses que se deslocaram na semana passada disseram que os traços encontrados eram de dias antes, ou seja, chegaram tarde demais. Talvez aquilo ainda voltasse ou, talvez, os bruxos envolvidos desistissem de fazer o que quer que fosse ali.
Levantou os olhos de repente. Sua nuca não arrepiou, mas algo balançou todo o seu corpo, em uma espécie de alarme.
A porta do escritório estava entreaberta e não havia ninguém ali. O que diabos?!
Deixou os pergaminhos de lado e levantou, desconfiado. O corredor estava vazio. Ouvia algumas conversas aqui e ali vindas de salas de reunião ou treinamento, ou da grande sala dos Aurores, mas nada que explicasse aquela sensação.
Saiu para o corredor andando vagarosamente, tentando entender. Não deveria sentir-se assim, principalmente ali. Não fazia sentido.
Ao chegar no hall da seção dos Aurores, ele entendeu.
Lily olhava descontraidamente para todos os reconhecimentos, homenagens para os vivos e os mortos, assim como alguns troféus. Os Aurores tinham orgulho por tudo o que alcançaram, todas as capturas extremamente importantes, seus feitos...e gostavam de deixar na entrada da seção para que todos os vissem. Afinal, eles arriscavam sua vida a cada saída, a cada chamada, a cada missão, e sentiam que era importante lembrar-se delas.
— Lily? — A ruiva se virou rapidamente para ele, surpresa ao vê-lo ali, e depois voltou a encarar um dos quadros. — Desculpe, eu não quis assustá-la.
— Não há problema, eu estava distraída. — A ruiva deu um longo suspiro. — Eu acho que nunca te agradeci — ela disse se aproximando mais do quadro.
— Pelo o quê? — James deu alguns passos até ela.
— Por tudo o que você fez. — Ela cruzou os braços. Ele sabia qual quadro ela olhava, mas se aproximou ainda mais para que olhassem juntos: era um recorte de jornal que anunciava a derrota de Voldemort em 31 de Outubro de 1981. Na foto, a antiga Potter Cottage quase em ruínas depois da grande batalha ocorrida ali.
Olhando aquela foto do seu antigo lar, tinha a impressão de ainda ouvir os ruídos horríveis da estrutura por ter sido tão judiada com os feitiços, os duelos. Depois, apenas sentia o odor de queimado, o ambiente tão pesado...aquela fumaça, aquela sombra que saiu do corpo de Voldemort ao cair.
— Por tudo o que eu fiz?! — A voz dele saiu um pouco confusa. Ele não tinha feito nada além de lutar.
— Por tudo o que você fez. Por Harry e por mim. — A voz dela estava fraca, emocionada.
— Se você nunca agradeceu, é por saber que não é necessário. Não foi um favor, foi o que era para ter sido feito para salvar vocês.
— E você poderia ter morrido naquela noite, enquanto lutava com ele.
— Todos nós podíamos ter morrido naquela noite.
Lily não olhava para ele, ainda hipnotizada pelo recorte de jornal.
— Isso é verdade. O importante é que não morremos — ela respondeu em um fio de voz. Continuou a andar pelo hall e observar cada quadro pendurado ali.
Sabia que tinha dito a Sirius dias atrás, mas ainda era incrível como depois de tantos anos, Lily continuava a mesma pessoa. Mesmo depois de tudo o que passaram, ela ainda era uma pessoa tão doce, carinhosa e aberta. Ouvia coisas maravilhosas de Harry, Sirius e Remus sobre como ela ia, como a sua vida estava estável. Parecia que ela estava feliz e fazia a vida de Harry a mais feliz possível também.
Ajeitou-se no lugar, não querendo se distrair com qualquer pensamento relacionado a ela, mesmo Lily estando na sua frente naquele momento, forçando-o a pensar em tudo aquilo.
— O que faz aqui, Lily? Procurando por Sirius?
Ela levou o seu tempo para responder enquanto ainda parecia interessada nos quadros.
— Eu tive que vir ao Ministério para lidar com uma questão do trabalho e...faz tanto tempo que não vinha aqui.
James cruzou as mãos em suas costas. As últimas vezes em que ela esteve ali, não eram boas lembranças. Ela pedia para que ele parasse de fazer as loucuras que ele fazia, de tentar encontrar horcruxes, que já não mais existiam.
E ele respondia que nunca poderia descansar enquanto não tivesse certeza de que tudo que pudesse matar eles tinha saído destruído.
Era um círculo vicioso.
— Conseguiu resolver o problema? — Voltou para o presente, querendo tirar aquelas lembranças horríveis da sua cabeça.
— Ah, sim. Tudo está melhor agora.
— Tem a ver com o problema que teve naquele fim de semana em que fiquei com Harry? Moony me disse que era algo urgente sobre o trabalho.
— Sim, ainda é a mesma coisa.
Finalmente, ela se virou para encará-lo. Aqueles olhos verdes sempre foram a sua fraqueza. Lily o desarmava todas as vezes que o encarava daquele jeito. Em Hogwarts, bastava seu olhar para que ele abaixasse sua varinha; para esquecer que havia qualquer outra pessoa no cômodo; que pudesse entender que ele podia ser mais do que era, que pudesse trazer mais para o mundo. Aqueles olhos foram sua salvação. Eles lhe deram a certeza de que podia lutar contra todos e qualquer um. Era pensando neles que se mantinha focado e desse o melhor de si em cada missão da Ordem quando eram apenas adolescentes recém formados. Era para voltar para eles, para o olhar de amor que ela lhe entregava toda vez.
Desviou o olhar.
— Posso te oferecer algo? Um chá?
Ele oferecia por pura educação. Lily não gostava de ficar em sua presença por muito tempo.
— Eu adoraria.
— Sério? — Pego de surpresa desse jeito, foi impossível de segurar a própria língua. — Digo...claro, venha.
Apontou para o corredor de volta ao seu escritório. Ele juntou os pergaminhos e fez um aceno com a varinha para que o conjunto de chá começasse o trabalho. Lily entrou timidamente, olhando em volta, quase com medo.
— Está completamente diferente — disse ela.
— Achei que merecia uma mudança depois de tantos anos — respondeu enquanto ia até o bule e esquentava a água com magia. Encheu duas xícaras, colocou dois torrões de açúcar em um e um pouco de leite no outro. — Está melhor do que antes?
Ele trouxe a xícara com os dois torrões de açúcar até ela. Lily olhou para dentro da xícara, parecendo surpresa.
Bem, não seriam oito anos que o fariam esquecer como ela gostava de seu chá, não é mesmo?
— Sim, está melhor. Está mais...vivo — ela respondeu enquanto dava um gole em seu chá.
Anteriormente, aquele lugar era um caos, assim como James sentia estar a sua alma. A cortina estava sempre fechada, os pergaminhos estavam por todos os lados, assim como livros e jornais. Xícaras e mais xícaras de chá espalhadas por todos os cantos. Às vezes era até difícil andar entre tantas coisas no chão.
— Definitivamente mais vivo — ele concordou. Deu a volta em sua mesa e sentou-se, convidando-a a sentar-se também, mas Lily ainda olhava tudo ao redor bebericando seu chá, aproximando-se da mesa.
Querendo que ela se sentisse mais confortável, ele mesmo se colocou confortável: jogou as costas para trás e as duas pernas em cima do canto da mesa, cruzando os tornozelos.
— Lembra daquele pedido da MACUSA anos atrás para que você fosse trabalhar com eles? — Lily perguntou finalmente sentando-se em sua frente.
— Lembro.
— Você recusou, dizendo que sua vida era aqui com a sua família. Nós, no caso.
James sorriu um pouco.
— Exato.
— Você se arrepende?
De onde vinha isso? Que conversa estranha era aquela e tão de repente? Aquilo aconteceu há tantos anos, que mal lembrava do fato.
— Me arrepender? Claro que não, nunca.
— Se você tivesse aceitado, estaria comandando a seção de Aurores da MACUSA agora.
Ele soltou o ar pela boca e se aconchegou mais em sua cadeira.
— E Harry estaria ingressando em Ilvermorny, perdendo a chance de estudar em Hogwarts. Você estava começando a sua carreira como pocionista aqui... Padfoot conseguiria entrar como Auror ou teria que fazer outra coisa? Moony poderia ser um professor, como ele sempre quis? Não se sabe.
Ela riu um pouco.
— Você sempre se preocupando com todos nós antes mesmo de pensar em você.
— Isso não mudou desde Hogwarts e acho que nunca vai mudar. — Sorriu.
Ficaram em silêncio, tomando seus chás e pensando, provavelmente, como teria sido a vida caso James tivesse aceitado o convite para trabalhar no Ministério americano. Para ele, era inconcebível. Sua vida era ali com a sua família, sua esposa, filho e seus amigos. E mesmo tendo certeza que todos viriam, ainda assim... não, sua vida era ali.
— Lembro que você foi visitar a sede para saber como era — Lily voltou a falar.
— Sim. Lugar bonito, aliás, com mais vida, mais luz do que esse Ministério frio e escuro.
— E você optou por ficar aqui.
Olhou bem nos olhos dela.
— A minha família estava aqui. Eu não trocaria isso por nada, mesmo se vocês pudessem vir. A nossa vida era aqui e eu era feliz assim, independente da luz e vivacidade que aquele lugar pudesse ter.
Lily tentou permanecer inexpressiva, mas James viu que algo tentou escapar naquela impassividade, porém foi difícil de entender se era um sorriso ou algo desagradável. Ela rapidamente se recuperou.
— Você não pensa o que poderia ter sido caso tivesse aceitado?
Ele se ajeitou na cadeira, olhando para longe. A resposta para aquilo era fácil.
— Eu penso no que poderia ter sido, mas não caso eu tivesse escolhido a MACUSA, e sim outras escolhas.
Ela quem estava perguntando, certo? Ele seria honesto. Nunca pensou como seria caso aceitasse a MACUSA, pois não achava que seria mais feliz lá do que em Londres. Mas, definitivamente, pensava e pesava as escolhas que fez em Londres e que o levaram até ali, hoje.
Era para ser mais feliz, menos sozinho...menos solteiro.
— Às vezes, eu paro e penso o que teria...!
Lily foi interrompida por duas corujas adentrando o escritório e soltando duas cartas: uma para ele e outra para ela.
Era uma carta com o selo de Hogwarts. Eles se olharam por um segundo antes de saltarem para suas cartas, rasgando-as com pressa e, claro, temor.
— Merlin, ele está lá há apenas alguns dias — Lily murmurava ao conseguir abrir a carta e começar a ler ao mesmo tempo que James.
"Sr. Potter,
Peço encarecidamente uma reunião com o senhor e a senhorita Evans em meu escritório o mais rapidamente possível.
Não é necessário confirmação. Estarei esperando-os.
Com os meus mais sinceros agradecimentos,
M. McGonagall
Vice Diretora de Hogwarts."
Os dois quase pularam da cadeira ao mesmo tempo, voando em direção a porta, correndo pelo escritório.
— Ele está bem, certo? — Lily perguntou enquanto pegava o seu casaco no hall de entrada e o vestia.
— Claro que está. Ela não seria tão vaga caso Harry não estivesse.
— Poucos dias, James! — ela repetiu enquanto entravam no elevador, apertando-se com outros trabalhadores do Ministério, para voltarem ao átrio.
— Para ser sincero, nós havíamos apostado que teríamos notícias assim nos primeiros dias.
Ela o olhou, incrédula.
— Vocês apostaram sobre quando Harry receberia uma detenção?
— Claro! Eu perdi, Padfoot também. Quer dizer que cada um de nós deve dez galeões à Moony.
— Como você aposta contra o seu filho?
— Não é contra Harry, mas...honestamente, Lily. Você acha que ele não receberia uma detenção ou aprontaria algo tão rapidamente quando tem nós três em sua vida? Ele faz coisas que eu mesmo não faria, coisas que surpreenderam Padfoot. Estamos falando de Sirius Black, pelo amor de Morgana.
Lily não respondeu mais, provavelmente concordando com ele. James tinha certeza que ela sempre soube que Harry não seria um anjo, pois ele nunca demonstrou que era. Seu filho era amoroso, com um dos maiores corações que já conheceu. Era defensor dos que precisavam, tinha uma personalidade forte sobre o que era certo e errado, sobre ser contra machucar as pessoas. Mas...existia o "mas". Harry tinha uma habilidade ilimitada para problemas, pegadinhas. Aquilo devia vir do sangue, pois não lembrava de ter ensinado tantas coisas assim para ele.
Bom, ele ensinou muita coisa, os outros dois marotos também, mas...
Inferno. Ele era culpado sim.
Mesmo pensando nas inúmeras possibilidades de serem chamados até o castelo após uma semana de aula, a de que Harry não estava bem estava matando-o por dentro. Tentou distrair a mente de Lily sobre o que poderia ser, que McGonagall não os chamaria por carta para avisá-los sobre Harry estar mal...mas e se fosse? Quando sofreu um acidente no Quadribol aos quatorze anos, ele não soube como os seus pais foram avisados de que ele foi transferido ao St. Mungus. Por carta? Por um funcionário do Ministério indo até a Potter House? Uma visita do próprio Dumbledore ? Não, o último era muito alarmante, desproporcional.
— Por que você está suando? — Lily perguntou quando saíram do elevador no átrio do Ministério.
— Estou? — Passou o antebraço na testa.
— Você está nervoso. — Lily acelerou os passos. — Você está nervoso. Merlin, algo está errado com Harry.
— Lily, calma. Não sabemos de nada.
— Você sua quando está nervoso.
— E quando está calor também.
— Mas não está calor. Estamos na metade de setembro e até as lareiras estão acesas.
Sem falar mais nada, Lily pegou pó de Flu e se foi. James parou em frente da chaminé pública, olhando para o vazio.
Diabos, para onde ela foi? Não podia usar a rede de Flu direto para Hogwarts.
— Ah! — Ele teve uma ideia.
Lily havia comprado uma pequena casa em Hogsmeade há alguns anos, querendo ficar próxima do filho quando ele ingressasse na escola. James sabia disso, pois tinha que receber aquele tipo de informação, legalmente dizendo. Harry também nunca parava de falar em como podia ver Hogwarts ao longe e o quanto ficava ansioso para aquilo, principalmente quando via os alunos durante suas saídas no vilarejo. Nunca tinha ido até lá, não sabia como a casa parecia, mesmo tendo visitado Hogsmeade muitas vezes. Mas parece que hoje seria a primeira vez.
Sorte a dele que tinha uma boa memória e lembrava o nome da casa do documento que havia recebido: Evans' House.
Pegou o pó de Flu e partiu. Um segundo depois, aterrissou na chaminé da tal Evans' House. E ali estava ela, voando pela sala, direto para a porta da frente.
— O que está fazendo na minha casa? — ela perguntou ao se virar.
— Pensei que estávamos indo juntos. Poderia ter me avisado para onde estava indo — ele disse, limpando as cinzas de seu uniforme de Auror.
— E você poderia ter aparatado em Hogsmeade ao invés de aparecer do nada na minha sala.
Ele parou por um segundo.
— Verdade. Bom, pensarei nisso na próxima vez.
Lily revirou os olhos e abriu a porta da frente. James nem teve oportunidade de admirar a pequena e aconchegante sala, saindo atrás dela logo em seguida.
Algumas pessoas passavam em frente da casa, vendo os dois saírem pelo pequeno portão. Talvez eles fossem conhecidos de Lily, alguns devem até saber do namorado famoso dela, pois os olhares curiosos e confusos eram nítidos. Se aquelas pessoas quisessem pensar que eles estavam juntos na casa, fazendo sabe-se lá o quê, James não se importava. Ainda que não fosse verdade, a mentira lhe soava boa.
— Onde está McGuillen?
— Por mais estranho que pareça, o meu namorado não fica colado em mim. Ele trabalha e treina bastante, principalmente agora.
— Ele sabia que você estaria no Departamento de Investigação hoje?
Lily parou o seu caminho e virou para ele.
— Ele sabe que eu tenho um filho e que tenho que lidar com qualquer coisa relacionada a ele com o pai dele. Sam não me proibiria de vê-lo, James. E se ele tentasse, sabe que quem ganha, quem sempre ganhará, será Harry.
— Bom saber. — Assentiu e voltaram a andar. — Ainda que você não tivesse nenhum assunto relacionado a Harry quando apareceu no escritório.
Não houve resposta.
Caminharam de Hogsmeade até Hogwarts. James poderia muito bem usar uma passagem secreta, mas na idade em que estavam, talvez fosse melhor se apresentarem na entrada do castelo ao invés de aparecerem, de repente, em um corredor cheio de alunos.
— Esse caminho não te dá nostalgia? — James perguntou.
— Sim. — Ela sorriu abertamente. — Bastante.
— Lembra daquelas ruínas ali na frente? — O maroto apontou para uma pequena casa que já estava com quase todas as paredes ao chão. Havia sido daquele jeito por longos anos.
— Hum, sim.
Quando voltavam de Hogsmeade em seu sétimo ano, era uma parada obrigatória para eles se beijarem. Aproveitariam que não havia ninguém por perto, completamente escondido de todos, e teriam sessões de amassos que James nunca esqueceria.
E pelo vermelho do rosto de Lily, ela também não.
O castelo já estava à vista, assim como os portões. Quando estavam a poucos metros, uma enorme sombra apareceu para recebê-los.
— James, Lily! — Hagrid os saudou ao abrir os portões, enquanto olhava para ambos, confuso. — Eu não esperava ver ambos aqui. Está tudo bem?
Se ele não sabia de nada, então provavelmente Harry estivesse bem. As notícias corriam como fogo naquele lugar.
— Fomos chamados por McGonagall — ele respondeu.
As sobrancelhas de Hagrid subiram.
— Verdade? Bom, nós sabíamos de quem Harry era filho, não é mesmo?
James riu com gosto, dando uma cotovelada em Hagrid. Olhou para Lily e viu uma pequena expressão de descontentamento. Ele parou de rir.
— Bem, bom... — Tossiu para disfarçar.
— Vocês sabem onde fica o escritório de McGonagall. Subam e eu aviso que vocês estão esperando.
— Obrigada, Hagrid.
Despediram-se com um aceno breve.
Andar por Hogwarts após tantos anos era uma sensação estranha, mas gostosa. Sentia que ainda pertencia ali, que tinha que correr para a sala de aula e abrir seu livro, enquanto algum professor explicava tudo o que eles precisavam saber ao saírem para o mundo. Era louco, porque James sentia que sabia de tudo, ou a maior parte, mas que aquelas paredes ainda tinham muito a ensinar. Muitas experiências que ele deixou de viver e que gostaria de ter a chance novamente. Tantas coisas que gostaria de apagar, mesmo tendo sido acontecimentos importantes que o fizeram se tornar o homem que era hoje.
Ele e seus amigos viveram uma era de ouro ali, desde o começo. Apesar de Peter estar na equação, naquela época ele era tão inocente, tão bobo...tão leve quanto eles tentavam levar a vida. Todo o processo de Animagia que passaram juntos, todas as luas cheias, todas as escapadas noturnas para descobrir passagens secretas. A criação do mapa... e Lily.
Aquela garota popular e bonita. A nascida trouxa que botava os de família tradicionais no chão com a sua inteligência e perspicácia. Os momentos que passou com ela, a vida que eles iniciaram juntos...tudo, tudo com ela.
Olhou para o lado, para aquela mulher forte que se tornou. Para a mãe maravilhosa que era desde o começo, que fez e faria de tudo por Harry. Ela esteve a ponto de dar a vida por ele, assim como James estava pronto para dar a sua vida pelos dois.
— Essa porta continua me assustando mesmo agora — ela comentou ao seu lado.
James olhou para a porta da entrada do castelo.
— Você sempre dizia sentir que ela estava prestes a se tornar um monstro e fechar para sempre, sem chance de abrir — comentou ele, saudosista.
— E continuo sentindo.
Alguns alunos pareciam ter aula vaga, passeando pelos corredores, sentados em grupo em alguns cantos. Ele sentia saudade de poder fazer aquilo também.
— São os Potter! — alguém cochichou alto demais.
— Tem certeza?
— Sim, são eles. Eu tenho um poster do Auror Potter no meu quarto.
James sorriu de lado.
— Eles estão desatualizados — Lily murmurou.
— Em quê?
— Sobre os Potter. Aqui, temos o Potter e a Evans.
Ela não estava errada.
— Para a maioria dos bruxos, nós somos os Potter. A família que destruiu Voldemort. Isso dificilmente vai mudar.
— Ainda assim, só há dois Potter neste castelo.
Ele suspirou. Não iria brigar por aquilo, pois entendia que ser ligada a um sobrenome que não lhe pertencia mais, não deveria ser legal. Viu isso com Sirius, mesmo sendo questões diferentes, mas ser ligado a algo que você não era, deveria ser bem desconfortável.
James não levava aquilo para o pessoal, algo contra ele. Eles foram casados, não estavam mais juntos e foi isso. Lily, agora, era Lily Evans novamente. Uma pocionista excepcional, ainda maior do que Fleamont, ele diria. Descobriu curas para duas doenças com altas taxas de mortalidades, aprimorou a poção cicatrizante — graças às suas experiências com eles e Remus após a lua cheia — , além de ter uma ética impecável no trabalho.
Ela deveria querer ser reconhecida por mais do que o passado traumatizante.
— Algumas coisas parecem menores — disse Lily olhando para algumas estátuas.
— Você prefere coisas medianas, não? — ele comentou ao abrir a porta do escritório da vice-diretora e deixando Lily entrar primeiro. Não diria "coisas grandes", pois não ficaria glorificando Sam McGuillen por aí.
— Se eu preferisse coisas medianas, eu não teria ficado anos com você, não?
Aquilo lhe pegou de surpresa, fazendo-o rir.
— Ora, ora. Um elogio.
— Quem disse? Talvez eu estivesse dizendo sobre gostar de coisas pequenas.
Ela abriu um sorriso jocoso, enquanto James colocava a mão no peito, fingindo dor.
— Eu só não levo a mal e não deixo esse comentário ferir meu ego, pois eu me lembro de coisas que você dizia e coisas que você fazia, Lily Evans. Disso, você não pode escapar.
Alguém pigarreou na porta e os dois se calaram. Minerva McGonagall sorria gentilmente para eles e fechou a porta atrás de si.
— Senhorita Evans, senhor Potter. Obrigada por se liberarem tão cedo para a nossa reunião.
— Harry está bem? — eles perguntaram ao mesmo tempo.
Minerva fez um sinal para que eles se sentassem primeiro, antes dela mesma tomar lugar em sua cadeira.
— Harry está ótimo. — Os dois soltaram o ar que seguravam, aliviados. — Desculpe se minha carta foi um pouco misteriosa, eu deveria ter alertado-os de que não se tratava de uma emergência.
— Sabendo que ele está bem, não há necessidade de desculpas, professora McGonagall. — Lily sorriu, mas James via como suas mãos não paravam de se mexer em seu colo. Ele poderia dizer que a ruiva gostaria de dizer algumas poucas e boas sobre escrever uma carta menos tendenciosa e mais explicativa na próxima vez.
— De qualquer maneira, minhas mais sinceras desculpas. Eu fiquei tão empolgada, que apenas escrevi a carta apressada e as enviei.
— Empolgada? — James repetiu a palavra.
— Senhor Potter, empolgada é um adjetivo bem fraco para dizer o quanto estou feliz.
James e Lily se entreolharam, confusos.
— O que houve? — a ruiva perguntou, curiosa.
— Eu os chamei aqui, porque é algo um pouco incomum. Não acho que eu tenha visto ainda acontecendo em Hogwarts. Ele está um ano e meio adiantado se comparado ao seu pai. — Os dois ainda esperavam o desdobramento da história. — Harry é um prodígio e eu gostaria da autorização de ambos para que ele entre para o time de Quadribol da Grifinória.
A professora terminou a frase com toda a sua empolgação. James deslizou na cadeira, segurando-se na mesa. Lily se deixou cair na própria, afundando-se.
— Meu filho...com 11 anos, no time da Grifinória?
Não podia ser. Quer dizer, podia ser. Harry era tão bom jogando, com reflexos incríveis, veloz, um equilíbrio impressionante. Desde sua primeira vassoura dada pelo padrinho quando completou um ano, ele era espetacular. Lily não parava de repetir o quão impressionada estava, já que era a sua primeira vez vendo um bebê voando. James já tinha visto anteriormente, mas nunca como o seu filho.
Ele era, de fato, um ótimo jogador de Quadribol amador, aos fins de semana contra seu pai e Sirius.
— Mas ele só tem 11 anos. — Lily pareceu acordar.
— Não há uma regra exata para isso — Minerva respondeu. — O time está em baixa desde o ano passado, quando o nosso apanhador se formou.
— Como chegamos nessa conversa? — James perguntou, tentando se concentrar. — Como estamos, Lily e eu, sentados em seu escritório e discutindo a habilidade de Harry em Quadribol, apenas poucos dias depois do seu início em Hogwarts? Ele nem trouxe a vassoura.
— Ah, bem. Antes de falarmos sobre Quadribol, talvez devemos falar sobre Harry não respeitando uma ordem direta de um professor.
— Ah, não. — Lily abaixou o rosto em suas mãos.
— Harry desobedeceu uma ordem de um professor? — James estava incrédulo. — Como...? Digo...piadas a parte sobre a minha infância e adolescência quebrando regras neste castelo, Harry não desobedeceria uma ordem direta de um professor.
Minerva deixou sua expressão de "não surpresa" escapar.
— Ele desobedeceu uma ordem direta de Madame Hooch, quando esta levou o senhor Longbottom para a enfermaria...
— Neville está bem? — Lily rapidamente perguntou.
— Sim, está bem. Foi apenas um problema no braço durante a aula de voo. Neste meio tempo, o senhor Malfoy pareceu feliz em brincar com um pertence do senhor Longbottom e Harry não apreciou.
Agora eles estavam falando de algo que soava mais como seu filho. E, honestamente, aquilo lhe deixava orgulhoso.
— Ele fez isso? — perguntou com alegria. McGonagall e Lily o olharam um pouco descrentes. — Vamos lá, Harry defendeu um amigo, ou o pertence de um amigo. Contra um Malfoy, aliás. Temos que comemorar, não?
Recebeu um silêncio em resposta, apesar de ver que Lily estava feliz pela reação do filho o tanto quanto ele. Deixou os braços caírem em seu colo.
— Vamos conversar com ele depois — Lily anunciou. — Mas voltando ao assunto: qual a relação de Harry desobedecendo um professor e entrando no time de Quadribol mais cedo?
— Poupando-os da longa história, Harry fez uma captura incrível nesta pequena bagunça. — McGonagall se virou para James, os olhos brilhantes. — Senhor Potter, ele é sensacional. Se estivesse jogando ao mesmo tempo que o pai, veria o quão bom ele é. E eu vi apenas um lance mal organizado.
— Eu sei! — James se aprumou na cadeira, tão empolgado quanto. — Harry tem uma facilidade para manobras, típicas de um apanhador: rápidas, limpas. Curvas perfeitas...um reflexo incrível.
Os dois entusiastas se encaravam com sorrisos de orelha a orelha. Aquela informação era o máximo. Seu filho entrando no time da Grifinória poucos dias após ingressar em Hogwarts? Aquilo era um feito e tanto.
Que orgulho sentia dele. Que orgulho.
— O que Harry pensa disso? — Lily perguntou.
James olhou dela para a professora.
— Não foi discutido ainda. Primeiramente, eu gostaria de saber se eu tenho a permissão dos pais. — Minerva se remexeu um pouco desconfortável na cadeira. — Ele acaba de começar seus estudos, um aluno de apenas 11 anos. Há tanta coisa para aprender, se adaptar. Não é à toa que começamos mais tarde as inscrições para o time. Mas estamos falando de um aluno com uma aptidão enorme. Algo que, se explorada cedo e se for o desejo de Harry, pode se tornar uma preparação para virar um jogador profissional.
Ah, o sonho. Harry James Potter, o jogador profissional do Montrose Magpies. Aquilo seria o fim da vida para James. Ver seu filho entre outros grandes nomes do Quadribol Internacional.
Uau.
Tinha que falar com Padfoot. Ele poderia, finalmente, comprar aquela miséria de Nimbus se quisesse.
— Eu gostaria de falar com Harry antes de dar qualquer permissão — disse Lily. James tentava conter sua empolgação, talvez soar menos inclinado a assinar qualquer autorização agora mesmo.
Mas ele sabia que Lily tinha razão. Harry amava Quadribol e sendo bom ou não, ele tinha que querer fazer aquilo. Era muita responsabilidade e seu emocional deveria estar em dia. Entender que às vezes você perderia e a sua casa poderia não estar feliz com ele. Ouvir vaias era cruel, ter as pessoas virando o rosto no corredor era enervante.
Para um garoto de 11 anos podia não ser a coisa mais fácil do mundo.
— Poderíamos falar com Harry? — ele pediu.
— O almoço será em uma hora. Caso vocês não estejam apressados, poderiam ficar para conversar com ele.
Eles se olharam e assentiram.
— Se estiver ok para você. — James se virou para Lily.
— Não tinha nada planejado esta tarde.
— Ótimo, combinado. Ficaremos 1h por aqui e conversaremos com Harry.
— Estão mais do que convidados para almoçar também — a professora continuou. — Eu creio que será muito nostálgico. — Os dois assentiram, felizes. — Vocês já pareciam nostálgicos quando eu cheguei para a nossa reunião.
Eles se entreolharam rapidamente, antes de começarem a falar ao mesmo tempo. McGonagall apenas soltou um pequeno sorriso de lado enquanto via o rosto de Lily se avermelhar e James gaguejar.
— De qualquer maneira...— Lily limpou a garganta, falando um pouco mais alto para interromper a falação de ambos. — Ficaremos para o almoço, será um prazer.
— Com certeza — James concordou. Ele olhou para as duas mulheres e achou que deveria escapar daquela sala antes de voltarem para algum momento estranho. — Se me derem licença, temos 1h para matar e eu gostaria de conferir algo.
Levantou, pronto para esquecer que McGonagall ouviu uma piada maliciosa dele para a ex-mulher alguns minutos atrás. Se ainda fosse adolescente, talvez não se importaria tanto e até adicionaria lenha naquele fogo, mas fazer isso hoje em dia talvez faria Lily desconfortável em níveis altos.
Mas quem sabe um outro dia?
— Não ouse interferir na aula do Sr. Lupin, Senhor Potter. — McGonagall chamou sua atenção quando já chegava na porta.
— Eu? Interferir? Jamais.
Com um sorriso tranquilo, ele se despediu das duas e saiu da sala.
Se fosse julgar pelo assunto sendo discutido, James diria que estava assistindo uma aula de DCAT do quarto ano.
Remus estava na frente da sala e falava com empolgação sobre um dos quatro recursos principais e básicos da disciplina: Reflexo. O amigo mantinha sua total atenção para os alunos, tentando passar todo o seu conhecimento e querendo trazê-los consigo para o tema.
Encostou-se no batente e o assistiu, orgulhoso. Remus tinha uma alma de professor, sabendo como administrar uma aula de uma maneira que James viu poucas vezes em sua vida. Todo o sufoco que passou para se tornar um professor tinha valido a pena e Hogwarts era a escola mais sortuda por tê-lo.
Os alunos o assistiam com muita atenção, nem mesmo um som de pena deslizando por pergaminhos. Ficou ali por alguns minutos, sentindo-se de volta à Hogwarts. Era uma sensação boa e quase o deixava mais leve, tirando todas as responsabilidades para trás e sendo um adolescente idiota e imaturo.
— Ele é ótimo! — Ouviu um sussurro ao seu lado.
Não se virou para Lily e nem se assustou, pois mesmo que ela tenha vindo nas pontas dos pés, com o treinamento que tinha regularmente, notou sua presença assim que ela virou no corredor.
— O melhor — disse, morrendo de orgulho.
A sala riu de algo que Remus disse, fazendo os dois sorrirem. Como era bom ver seu amigo feliz...
— Bom, ele está aqui há muitos dias, certo? — Lily perguntou, mesmo sabendo a resposta. — Então podemos considerar que todos os alunos o conhecem agora.
— Sim. — Não estava entendendo para onde ia aquela conversa.
— O que estamos fazendo aqui, apenas assistindo?
Lily tirou a varinha do bolso e apontou para Remus. James não a parou, curioso para saber o que ela tinha em mente.
Os cabelos de Remus começaram a subir, como um gato assustado. Os alunos o encararam, sem entender, enquanto o professor continuava a falar e apontando para o quadro e dando sua explicação.
James olhou para ela, desacreditado que foi deixado para trás, não tendo a ideia de fazer algo com Remus.
Quem não te conhece, que te compre, Lily Evans.
Ela adorava atormentar os três sempre que podia, inclusive com Harry. Não sabia quantas vezes foram pegos de surpresa por alguma pegadinha dela nos anos anteriores. Era uma versão da Lily Evans que poucos conheciam, pois ela era muito boa, melhor do que ele, em escapar das consequências.
Ouviu as risadas discretas dos alunos. Remus olhou para eles, sem entender o motivo.
Pegando a própria varinha, James apontou para o quadro, enquanto Remus prestava atenção nos alunos, tentando entender o motivo das risadinhas. No quadro, onde tinha escrito os quatro recursos básicos da disciplina (Feitiços de Defesa, Contra-feitiços, Reflexos e Controle Psicológico e Mental), James misturou tudo e substituiu cada linha por:
4 Curiosidades básicas de Remus John Lupin
— Eu sei como escapar de detenções. Me pergunte como.
— Eu tenho medo de papel alumínio. Não sei o motivo...
— Eu gosto de rosquinhas de chocolate. Se eu ganhar, dou um ponto a mais na sua prova
— Conheço ótimas poções para pulgas. Me pergunte quais, mas não me pergunte o "por quê"
Os alunos riram ainda mais, fazendo Remus olhar para o quadro.
— Ok. Muito engraçado, mas quem estiver fazendo isso, eu peço...
Quando ele se virou para frente, seus olhos foram para a porta, vendo James e Lily. Os dois se afastaram do batente, colando as costas contra a parede, enquanto riam.
— Ele nos viu? — ela perguntou.
— Eu acho que sim.
— Sim, eu os vi — Remus respondeu já no batente, ao lado deles. Virou-se para a sala. — Continuem a leitura da página 22. Eu já volto.
Fechou a porta atrás de si e cruzou os braços.
— Bem, o que posso dizer na minha defesa? — Lily sorriu. — Foi tudo feito por James.
— O quê? Lily!
— Não ficaria surpreso — Remus concordou. James cruzou os braços. — Ele é um dos poucos que sabe sobre o meu medo de papel alumínio.
— Não fui eu. Digo, não fui o único e...ela começou. — Apontou para a ruiva.
— Você está um pouco velho demais para não assumir a culpa, Potter — Lily rebateu.
— Ele nunca aprende — Remus concordou.
Ah, mas era só o que lhe faltava agora. Ganhando louros por algo que nem começou. Novamente, não se importaria se fosse mais novo, mas poxa...ser responsável por levantar os cabelos dele? Qual é, ele viria com algo muito mais pesado do que aquilo.
— De qualquer maneira, o que estão fazendo aqui? — Remus voltou a perguntar. — Harry está bem, eu o vi na troca das aulas uma hora atrás, indo para a aula de voo.
— Estamos aqui justamente por isso.
— Ele teve um acidente?
— Está tudo bem, vamos te explicar na hora do almoço. — James abanou a mão. — Ensinando Reflexo, hein?
— Sim, cobrindo os quatro elementos básicos, como você pôde ver bem — respondeu ironicamente o maroto professor. — Preciso voltar, aliás. Vocês ficarão para o almoço, então?
— Sim, precisamos falar com Harry — Lily respondeu.
— Então eu os vejo no Salão em 1h.
Remus estava pronto para voltar, quando James o parou.
— Você sabe a senha da Mulher-Gorda?
— Senha...? Não, eu não sei. Eu sou apenas um professor, não o diretor da casa ou um aluno.
— Você está ensinando a Grifinória aí dentro, não?
— Grifinória e Corvinal, do 4° ano.
Passou por entre os dois e entrou na sala. Os alunos, pensando ser o professor de volta, não deram atenção para ele. James caminhou até a frente do quadro e se virou. Quando os olhos começaram a perceber que não era o Professor Lupin mas um Auror uniformizado, largaram suas penas.
— Bom dia — os cumprimentou. Lily e Remus estavam ao fundo, apenas assistindo.
Novamente, os cochichos. Deveria estar mais do que acostumado com aquela falação quando ficava claro quem ele era, mas sempre continuava estranho, algo que não queria se acostumar, pois na sua cabeça o que o levou a ser famoso não era para se gabar daquela maneira. Preferia viver voando baixo sobre isso.
— Potter, da família Potter.
— O que derrotou Voldemort?
— Olha, é o James Potter.
— Meu pai trabalha com ele no Ministério.
Ignorou aquilo tudo e focou na sua tarefa.
— Alunos da Grifinória. Prazer conhecê-los, eu mesmo fui um aluno da mesma casa. — Ouviu alguns murmurinhos de excitamento por parte daqueles alunos. — Como Auror, estou na escola para ajudar em uma investigação muito importante e preciso da senha da Torre. Quem poderia me ajudar nesse caso?
Várias mãos subiram no ar, inclusive de alguns alunos da Corvinal, fazendo-o levantar uma sobrancelha.
Uma garota grifinória levantou entre as mãos ansiosas para ajudar.
— Eu sou irmã de um dos presentes monitores da Grifinória, acho que estou mais apta a ajudá-lo.
Alguns alunos não pareciam concordar com ela, querendo sua chance de ajudar um Auror, mas a garota não pareceu se abalar. Não importava para ele quem o ajudaria, apenas queria a senha.
— Ótimo. — Ele a pediu para se aproximar.
Contente e orgulhosa, ela acatou o pedido dele. James entregou um pergaminho que encontrou entre os materiais de ensino de Remus e uma pena.
— Ela deve mudar em três dias — informou a grifinória, entregando-lhe o pergaminho com a senha anotada.
— A investigação não durará tanto tempo, mas obrigado. — Piscou para ela e a garota só faltou derreter em sua frente.
Ele deu as costas e passou por entre as mesas de alunos que continuavam a falar sobre ele, provavelmente alheios às duas presenças no fundo da sala.
— Por que precisa da senha da Torre? — Remus perguntou.
— Pela nostalgia. — Voltou a olhar para Lily. — Você vem?
Parecia que os alunos notaram também a presença da ruiva, pois ouviu uma ou outra frase em suas costas sobre ela.
— Claro.
Se despediram de Remus e saíram da sala, ignorando os olhares e fofocas dos "Potter".
Os corredores estavam vazios agora naquela área, o que acalmava um pouco toda a conversa sobre eles. Ele deu uma olhada na senha novamente apenas para confirmar, e então queimou aquele pedaço de pergaminho, fazendo desaparecer o que sobrou. Não queria que caísse nas mãos erradas, ainda mais com o seu filho na escola.
— Você ainda odeia a fama que carrega — murmurou a ruiva.
Pararam em um lance de escada, esperando-a se mexer e levá-los até o próximo lance.
— Eu sempre vou odiar.
— Não era bem assim que você lidava com a fama por aqui. — Ela riu um pouco.
— São famas diferentes. Eu não me importaria em carregar a mesma de Hogwarts hoje em dia, mas a fama de hoje não foi algo que escolhemos, não é?
Lily negou com a cabeça e suspirou.
— Não, não escolhemos. Fomos escolhidos.
Ela saiu na frente, deixando aquele peso para trás com ele.
Querendo mudar um pouco aquilo, ele apressou o passo até ela, que já entrava no corredor em direção à Mulher-Gorda.
— Vai ser interessante voltar para a Torre depois de tantos anos, não? — Decidiu mudar de assunto, o que desacelerou Lily.
— Quanto tempo passou? Treze anos desde a última vez?
Uau, eram muitos anos. Vários e vários anos, mal conseguia imaginar que não colocava o pé na Torre da Grifinória por tanto tempo.
E o mais bizarro: o seu filho estava ali todos os dias.
Seu filho!
Pelas barbas de Merlin, Harry já tinha 11 anos. A única coisa que o confortava naquilo tudo era o fato de ter sido pai muito jovem, sendo assim jovem o bastante para se considerar...bem, ainda jovem.
— Qual o problema? — Lily perguntou ao notar a sua cara de, provável, desespero.
— Apenas um pouco chocado com os anos e o fato de que somos velhos, mas jovens.
— Não somos velhos.
— Temos 31 anos, Lily.
— Continuo com o mesmo pensamento.
— Eu acabei de piscar para uma aluna para agradecer e ela adorou. A única coisa que me veio à cabeça era que quando ela estava nascendo, eu já poderia ser pai. Eu poderia ter sido o pai dela.
— Mas você não é. — Ela riu.
— Não, não somos. — A corrigiu sem pensar.
Pararam na frente do quadro, que parecia tirar um cochilo.
— "Não somos"? Bem, dificilmente seríamos pais de uma criança aos 15 anos, James, juntos.
— Por quê?
— Oras, você queria que eu tivesse tido qualquer coisa com aquele James do 5° ano? Isso nunca aconteceria.
— Bom, você era a única que...
Parou de falar. Honestamente, aquela conversa não estava indo para um bom rumo. Foi uma piada que cresceu até o nível de "Lily" estar no mesmo assunto de "sexo". E foi a segunda vez naquele dia. O que estava acontecendo, afinal?
Talvez fosse o fato dela ainda ser uma mulher linda e tão atraente quanto sempre foi. Bastante, aliás. Bem atraente.
Enfim...
Virou para o quadro e percebeu que ela já estava acordada e olhando para ambos.
— Monitores-Chefes Potter e Evans. Que prazer revê-los.
Aquilo trazia ainda mais nostalgia. O último ano foi realmente algo a parte naquele castelo com tanta mudança em suas vidas, incluindo aquilo. Ter sido escolhido Monitor-Chefe foi o primeiro chacoalhão da vida que recebeu, sem imaginar que algo mais poderia surpreendê-lo e chocá-lo quanto.
Até Lily, enfim, virar sua namorada poucos meses depois. Aquele foi o chacoalhão do século.
— Há quanto tempo não escuto essa também. — Lily riu e começou a conversar com o quadro enquanto James apenas ficou ali do lado, pensando.
Foi a hora perfeita para poder pensar, pela primeira vez, sobre o que estava acontecendo. O que estava sendo aquele dia? Tudo parecia tão normal pela manhã: acordou, tomou seu café no silêncio do apartamento, foi para o Ministério se afundar em pergaminhos...tudo estava normal, ou dentro da normalidade.
Então Lily apareceu e virou a primeira metade do seu dia completamente de cabeça para baixo.
Ainda não entendeu a sua visita no Departamento, ainda que ela tenha tido uma reunião de trabalho no Ministério — o que ele imaginava que acontecia frequentemente — , ela não tinha obrigação de passar por onde ele trabalhava. Mas passou. E não foi para falar com Sirius ou mesmo admirar a parede de conquistas e homenagens dos Aurores.
Então a coruja de McGonagall, os dois chegando juntos ali e, desde então, andando para cima e para baixo como se...como se o quê? Fossem amigos? Colegas? Apenas conhecidos que já foram casados?
— Tasseomancia — cortou os pensamentos e a conversa entre as duas. Lily se virou para ele, um pouco surpresa. Talvez tenha sido um pouco indelicado, mas aqueles pensamentos não iriam levá-lo para algo bom.
— Primeira vez que o vejo tão apressado para entrar, Monitor-Chefe. Digo, a não ser que fosse para ir atrás da nossa querida...
— Pois é, estamos com a agenda cheia — cortou o quadro novamente.
Aquilo parece ter sido o suficiente para que o quadro se abrisse.
James fez um gesto para Lily ir na frente e a seguiu. Aquele pequeno e estreito corredor lhe trazia tantas memórias boas. Aquele cheiro típico da Sala Comunal, uma mistura de canela e livros, já preenchia todo o seu ser.
E assim que teve a visão do lugar, foi como usar um Vira-Tempo para uma época indescritível da sua vida. O simples barulho da chaminé acesa era um conforto, as cores da casa por todo o lugar era perfeito...e tudo era como antes, talvez algumas mudanças em um móvel ou outro, mas era tudo da mesma forma, no mesmo lugar.
— Uau. — Ouviu Lily suspirar ao seu lado.
— Tem certeza que foram 13 anos? — ele perguntou adentrando a Sala Comunal, girando e absorvendo cada pedaço do lugar.
— Infelizmente sim, mas não parece. Sinto que foi ontem nossa última comemoração aqui, depois da formatura.
— Não que tenhamos ficado por muito tempo, já que fomos para o dormitório do Monitor-Chefe depois.
Droga, ali estava de novo. Por que cada conversa tinha que ter alguma lembrança/conotação sexual? Mas foi o que aconteceu, o que poderia dizer?
Talvez não dizer nada seja uma opção, pensou.
— Sim, tivemos três tipos de festas naquela noite — ela também comentou.
Bom, ela também não estava ajudando, porque foram mesmo 3 festas: a cerimônia e festa no Salão principal; uma festa clandestina na Sala Comunal...e outra entre eles no seu quarto.
Em geral, havia sido uma noite para não se esquecer.
Se jogou no sofá e esticou as pernas, lembrando da época que passou ali com os marotos, conversando até tarde da noite, às vezes até de manhã. Quantas vezes o monitor da Casa não foi obrigado a descer e acabar com a bagunça, mandando os quatro para o quarto. Tantas brincadeiras, todos os planos que saíram de conversas ali... Foi naquele mesmo sofá que ele, Sirius e Peter decidiram virar Animagos. Foi naquele mesmo sofá que Remus estava sentado na manhã seguinte, dizendo "não, vocês não podem fazer isso" e perdendo a discussão.
Seus olhos viraram para Lily, que andava pela lugar parecendo tão nostálgica quanto ele.
Foi também naquele sofá que James, tantas vezes, assistia a ruiva que tinha roubado seu coração por completo. Ela conversava com as amigas, ou estudava na mesa lateral...às vezes apenas estava com um livro e roupas trouxas confortáveis, ou pensando em frente da lareira. Poucas outras, conversando com um outro cara e James estava ali, se mordendo de ciúmes e fingindo indiferença.
Hoje ele poderia rir daquilo, mas na época era difícil.
— Lembra quando você chegou na Sala Comunal caindo das escadas do dormitório masculino? — Lily disse ao passar em frente da escada e rir.
Ah, teve aquilo também e muitas outras cenas que deveriam ser vergonhosas para ele, mas conseguia tirar de letra sendo um maroto. Naquela vez em especial foi uma das piores, porque não estava fazendo nada de engraçado ou alguma cena, apenas caiu da escada e aterrissou ali de bunda no chão na frente de todos os alunos — que fugiam da nevasca e tentavam encontrar conforto ali dentro — , explodindo o lugar em gargalhadas. Lembra de se levantar e fazer algumas piadas, tentando amenizar ou mesmo mostrar que tinha sido de propósito, mas a dor que sentia não o deixava ser tão convincente.
— Boa memória — disse.
— Isso é algo para não se esquecer, desculpa. — Ela ainda ria como riu no dia.
Eles ainda estavam longe de serem próximos na época, ainda tendo seus desentendimentos. Quando viu que Lily começou a rir dele ao perceber que ele não tinha se machucado tanto, foi o pico da vergonha. Não deveria cair daquela maneira em frente da garota que você chamou para sair e ainda recebeu um não.
— Eu não lembrava, até você comentar agora. Obrigado.
— De nada. — Recebeu um sorriso orgulhoso dela.
Aquilo não poderia ficar barato.
— Talvez você queira algumas lembranças também? Como no dia que você e Alice apareceram com seus super penteados moicanos após tentarem cortar os cabelos sozinhas?
Aquilo a fez parar de rir.
— Nós tínhamos 12 anos.
— Com 12 anos, já é de conhecimento geral como cortar um cabelo com feitiço.
— Não era para mim. Eu sempre tive um profissional cortando meu cabelo e não meus pais com as varinhas.
— Alice deveria saber. — Ele olhou para as unhas, se divertindo com o fato dela ficar nervosa.
— Fui eu quem fez aquilo nela primeiro. Ela chorou tanto, que eu fiz no meu também para irmos até a enfermaria pedir por ajuda.
— Vocês foram na enfermaria?
— Onde mais iriamos? Foi um acidente mágico.
— Mas não era uma ameaça de vida.
— Para quem iremos pedir ajuda, Dumbledore?
Ela estava tão inconformada, que apenas o fez rir mais.
— Poderia ter vindo até nós. Poderíamos ajudar.
— Claro, vocês iriam mesmo ajudar nós duas, sem piorar a situação.
— Talvez faríamos um pouco pior primeiro, apenas pela diversão. Depois, talvez, ficaríamos com dó...ou Remus iria nos ameaçar, e seríamos obrigados a consertar.
Lily bufou e sentou na poltrona em frente ao sofá. A mesma poltrona que também sentava para conversar com ele muitas vezes quando já estavam se dando bem.
— Enfermaria sempre será mais segura do que ir até vocês. Eu iria até a Floresta Proibida e pediria ajuda por lá antes de ir até vocês.
— Ou a Lula Gigante, talvez? Vocês duas eram bem próximas, até onde eu lembro.
Aquilo arrancou um sorriso dela.
— Enfim...é bom rir disso hoje em dia, ao pensar que foi uma tragédia por alguns minutos na pacata vida de adolescente.
— Tragédias servem para nos ensinar uma lição, assim como para rir depois.
Se encararam por alguns segundos, antes de Lily desviar.
— Claro. Eu me apliquei em aprender feitiços caseiros depois do desastre do meu cabelo.
— E eu aprendi a tomar cuidado quando desço uma escada.
Ambos entraram em um momento introspectivo, lembrando-se dos momentos que ali passaram por tantos anos.
Em um pulo, James levantou, assustando a ruiva. O maroto começou a se dirigir, justamente, às escadas do dormitório masculino.
— O que está fazendo? — ela perguntou, mas também levantando.
— Conferindo algo.
Até subir aqueles degraus era diferente, menores. Ele não tinha crescido muito mais desde sua última vez ali, então deveria ser o fato de que passou tanto tempo sem subir para aqueles dormitórios no automático, sem pensar, que agora lhe dava a sensação de que suas pernas tinham crescido uns 20 centímetros.
Bateu na porta do primeiro ano e não recebeu resposta. Ao ver Lily se aproximar, curiosa pelo o que fazia, ele abriu a porta sem cerimônias.
Sim, era exatamente como se lembrava: as cortinas, os tapetes, as roupas de cama — aliás, começou a se perguntar se não estava na hora de redecorar aquilo —, onde cada móvel se posicionava.
Merlin, era como entrar ali pela primeira vez. Lembrava-se que correu para pegar a segunda cama à direita, sempre querendo ter uma janela de frente para a sua cama e acordar com o sol.
— Harry está aqui.
Lily apontou para a cama exatamente oposta à dele. Seu filho sempre fugindo da claridade, como Lily.
— Era a cama de Remus.
Abaixando-se, ele conferiu embaixo da cama e achou o que procurava: R.J.L encravado na madeira. Em cada cama daquela, haveria as iniciais de cada maroto. Foi até a sua e achou "J.F.P"; na de Sirius " S.O.B. A última cama, ele não se deu o trabalho de olhar.
— Vandalizando a escola desde cedo, eu vejo — comentou Lily. Ele estava prestes a revidar, um pouco envergonhado, mas ela continuou. — Nós gravamos nossos nomes direto na pedra, atrás da cama. Ainda devem estar lá.
Não ficaria surpreso.
— Podemos ir até lá e conferir.
A ruiva revirou os olhos.
— Até hoje, você não me contou como consegue subir na ala feminina sem causar um alvoroço.
— E continuará sem saber. Há segredos bons demais para compartilhar.
Ela concordou, sem ter muito o que fazer sobre isso. Lily nunca o forçou com segredos e todos os que ela sabia (animagia, capa da invisibilidade, Remus, Mapa do Maroto, etc) foram ditos de bom grado, sem com que ela forçasse nada.
Mas deixar algumas coisas no anonimato fazia a história ainda mais legal. Era melhor que ela tivesse aquela curiosidade de como ele subiu até lá, aparecendo entre algumas garotas no corredor da ala feminina e batendo no quarto do sétimo ano, ansioso para conversar com ela sobre um assunto que ela havia interpretado errado. Deixava a história mais interessante.
— Pretende contar para Harry?
Não tinha pensado nisso ainda.
— Se tiver uma ruiva com quem ele precise falar com urgência, para resolver um mal entendido...talvez.
Viu que ela queria sorrir ao lembrar do ocorrido.
— Se Sirius souber desse segredo, eu acho que chegará aos ouvidos de Harry.
Isso era verdade. Se dependesse do padrinho, Harry não só saberia tudo de tudo, como seria o Imperador do mundo.
O que acaba sendo trabalho dobrado para James.
Mais um tópico para discutir com o amigo mais tarde.
- J~L -
Ao saírem do salão comunal, depararam-se com um aluno grifinório que estava prestes a entrar. Educadamente, os dois adultos o cumprimentaram e continuaram seu caminho.
— Potter! — Ouviram a voz do garoto em suas costas. Naquele dia, James estava mais do que acostumado com os alunos os reconhecendo, mas sentiu um tom diferente na voz daquele garoto.
Deu uma olhadela por cima dos ombros, vendo o grifinório com os olhos congelados no nada. Tentou reconhecê-lo, mas James tinha certeza que não o conhecia.
— Você o conhece? — Lily perguntou, também achando estranho a reação do garoto.
— Não. Talvez os pais dele?!
Não pararam o seu caminho enquanto conversavam, então se assustaram quando, de repente, o garoto apareceu em sua frente, os parando.
— James Potter, não é? — O grifinório estava tão agitado, que James começou a se perguntar se tinha mandado para Azkaban alguém conhecido do garoto.
— Sim. — Sem saber o que viria, James, disfarçadamente, colocou a mão nas costas de Lily e a empurrou um pouco, querendo que ela continuasse o caminho e saísse de perto de ambos. Caso ele tivesse que se defender de algum ataque, seria melhor que ela não estivesse por perto. — E você é...?
O garoto abriu um sorriso enorme, surpreendendo-o.
— Um grande fã. — Ah, então era um futuro Auror? — Você foi, simplesmente, o capitão mais louco e perfeito que a Grifinória teve. Todos os relatos dos seus jogos, da sua maneira de jogar, de liderar... todas as suas vitórias. Merlin, os troféus que temos! Eu costumava passar pela galeria de Quadribol no meu primeiro ano e só pensava que queria ser tão bom quanto você. Por que não se tornou jogador profissional? Qualquer time daria metade da fortuna para ter um...!
— Wood!
A voz de McGonagall interrompeu a falação do tal Wood. A professora se aproximou rapidamente dos três, com um sorriso um pouco sem graça.
— Professora McGonagall, como a senhora não me informou...?
— Esse é Oliver Wood. — A professora apresentou o garoto para James e Lily. — Um fascinado por Quadribol, presente capitão do time da Grifinória.
— Eu estava começando a adivinhar. — James ofereceu sua mão. — Prazer, Sr. Wood. Capitão da Grifinória, então?
— Sim. Meu segundo ano.
— Quantas vitórias?
— Sem a taça ainda como Capitão, mas pretendo mudar isso a partir desse ano. Estamos com a posição de apanhador vago, depois que o excelente Charlie Weasley se formou no ano passado e...!
— Sr. Wood, você ainda tem um almoço para estar presente. Por favor, continuaremos a conversa depois. — McGonagall o empurrou gentilmente para seguir o caminho.
— Claro. Ouvi que Harry é um ótimo apanhador?! — ele continuou falando enquanto andava de costas para encarar James. — Sendo primeiranista ou não, eu tenho certeza que ele vai ser o melhor. Praticaram juntos? Ele será um ótimo Capitão quando eu sair...!
Oliver Wood virou na esquina de um corredor, e continuava falando, ainda que não fosse mais visto.
— Me desculpem, mas eu tive que falar com o Sr. Wood sobre a possibilidade de Harry entrar no time. Ele ficou empolgado!
— Podemos ver — Lily respondeu.
— Felizmente, meus bons anos como jogador rendem até hoje. Sempre bom ser reconhecido por outras façanhas, além de duelar com Voldemort, não é mesmo?
Os três caíram em um silêncio constrangedor.
— Bem, quem se importa? — ele continuou. — Eu estou morrendo de fome, vocês não?
Sorrindo, querendo tirar aquele peso de todos eles, James retomou o caminho para o Salão Principal.
O salão principal estava lotado de alunos famintos após muitas aulas naquela manhã. Ver aquele lugar tão cheio, tantas conversas ocorrendo, risadas e até discussões aqui e ali.
A saudade só aumentava.
— Queria ter parado no tempo e ter vivido isso mais um pouco. — Lily suspirou ao seu lado, parecendo ler seus pensamentos..
— Como mágicos, até podemos voltar no tempo, sabe?
— E então faríamos alguma besteira e a história mudaria. Talvez Harry não estivesse aqui hoje.
— Besteira que faria Harry não estar aqui hoje? Isso só aconteceria caso não ficássemos juntos...— James se virou para ela, surpreso. — Você quer dizer que mudaria isso no passado?
Lily sorriu enquanto parecia ver algo mais a frente, antes de se virar para ele.
— Ficar com você? Não. Talvez, apenas, quando isso aconteceu.
Assim, ela retomou o caminho e o deixou ali, paralisado, pensando se realmente poderia pensar que ela quis dizer que ficaria com ele mais cedo do que realmente foi. Se deixou mergulhar naquilo por alguns segundos até perceber que Remus se encontrava com Lily entre as mesas da Grifinória e Corvinal, e foi até eles.
No seu caminho, ele cruzou com um homem bizarro, uma expressão um pouco temerosa, submissa. Ele usava um turbante muito chamativo, fazendo-o lembrar de Sirius explicando que era um dos professores.
O homem olhou para ele e logo desviou o olhar, balbuciando algo, falando sozinho. James franziu a testa e parou, assistindo o homem passar por ele e dirigindo-se à saída do Salão. No caminho, ele desviava dos alunos, as mãos um pouco agitadas.
Qual era o problema daquele cara?
Foi retomar o caminho, mas trombou com alguém.
— Em quais condições vocês já treinaram? — O tal Wood, capitão da Grifinória, estava quase colado em si. — Você sabe, em Novembro acabamos jogando embaixo de muita chuva. Para um apanhador, pode ser desafiador pela baixa visibilidade. Porém, com muito treino, pode-se progredir muito.
— Oliver Wood, certo? — James perguntou. O garoto assentiu. — Em qual posição joga?
— Goleiro.
— Certo. capitão Wood, é o seguinte: se Harry decidir jogar no time, eu posso garantir que ele será o melhor. Não por ser o meu filho, mas porque ele é o melhor. Com chuva, sol, neve ou vento, ele vai pegar aquele Pomo. — Oliver sorriu, parecendo satisfeito. — Mas ele não fará milagres. Se aquela goles passar por você vezes o suficiente, não terá apanhador que ganhará o jogo. Se os seus artilheiros não marcarem suficientes vezes, não terá Pomo que sustentará isso. Se os seus batedores não marcarem o outro time, não terá Harry Potter que te trará aquela taça. — Oliver Wood abriu um pouco a boca. — Eu estou de acordo com o meu filho entrar no time, caso ele queira, e eu vejo que você é empenhado e quer a vitória. Então que fique claro que sendo bom ou o melhor, Harry não vai carregar esse time nas costas. Quem tem que carregar, é você, como capitão. Então lidere, incentive, escute os seus jogadores, dê o seu melhor...e você terá um time capaz de ganhar a primeira taça sob o seu comando.
— Oh..! Mas...sim, claro. Absolutamente. — gaguejou o garoto.
— Eu imagino que já seja o caso. — James deu duas batidinhas no ombro de Wood e seguiu o seu caminho, sem ver o quanto os olhos de Oliver Wood brilhavam.
Lily e Remus ainda conversam no mesmo lugar. Olhou para os lados, tentando encontrar o filho, mas sem sinal dele.
— Harry ainda não está aqui — Remus o informou assim que se aproximou. — Deve chegar em alguns instantes, acho que foi visitar Neville.
— Ah, ficamos tão nostálgicos com a Torre da Grifinória, que esquecemos de visitar Neville — disse Lily, levando as mãos ao rosto, se virando para James. — Temos que checá-lo antes de irmos.
— Ficaram nostálgicos por lá? O que isso quer dizer? — Remus perguntou com um sorriso que até poderia parecer inocente, mas estava longe disso.
— Lembrando de histórias e rindo. Lembra quando James rolou pelas escadas do dormitório masculino até a sala comunal?
Começou a pensar que se, durante aqueles anos separados, Lily pensou nele alguma vez, não foi como o pai do seu filho, ou o cara que enfrentou Voldemort ao seu lado, muito menos o homem que ela amou uma vez...mas sim o garoto de 16 anos que aterrissou de bunda na sala comunal. Era tão lisonjeiro.
— Nem foi tão engraçado assim — disse ao ver Remus começando a rir.
— Foi e não foi pouco. Ah, obrigado por me lembrar disso, Lily. Devemos lembrar Sirius também.
— Cadê o meu filho? — cortou o amigo, olhando ao redor. — Eu vou atrás dele na enfermaria.
Como se tivesse sido invocado, James sentiu algo colidindo contra a sua lateral. Esperava, dessa vez, que não fosse Oliver Wood novamente.
— Pai! — Seria muito embaraçoso abraçar Harry na frente de todos aqueles adolescentes como gostaria de fazer? Bom, aquela era uma pergunta boba, pois o próprio Harry o abraçou com força. Depois, ele correu para abraçar a mãe. — O que estão fazendo aqui?
— Vamos conversar sobre isso, mas primeiro, eu gostaria muito de comer — respondeu James.
— Que tal comermos na cozinha? — Remus deu a ideia.
E ela foi prontamente aceita, tendo os quatro dirigindo-se até a cozinha do castelo. Foi até útil, pois agora Harry sabia como acessar o lugar. Era de muita ajuda quando a fome apertava fora do horário, principalmente de madrugada.
Não desejava que o filho ficasse perambulando pelo lugar de madrugada, mas quando ele recebesse a capa, James sabia que seria inevitável.
— Esse lugar é tão legal. — O garoto andava por entre os elfos, falando com eles, os cumprimentando e olhando para dentro das panelas, para os pratos sendo postos nas grandes mesas que correspondiam às mesas no andar de cima
— Vocês não conheciam alguns elfos aqui na época de Hogwarts? — perguntou Remus.
— Sim, mas eu não os vejo — respondeu Lily ao inspecionar o lugar. — Talvez tenham partido, trabalhando em outro lugar.
James e Remus se entreolharam. Dificilmente os elfos teriam sido realocados para qualquer outro lugar, ou mesmo terem sido liberados. O mais provável, infelizmente, era um destino um pouco menos feliz.
— Sim, claro — respondeu, não querendo dizer que os elfos provavelmente tinham deixado esse mundo.
Ela não pareceu captar, continuando a assistir o filho revirar o lugar, curioso.
Foram acomodados em uma mesa à parte, recebendo todo o tipo de comida e em toneladas. Aquilo era outra coisa que fazia falta: a comida de Hogwarts. Cada pedaço de cada prato era delicioso.
Então não era a toa que os três adultos mergulharam na comida, enquanto Harry, que já estava deliciando-se daquilo por muitos dias, era o único falante na mesa:
— Eu não sei, aquele garoto é muito bizarro. — dizia ele após James lhe pedir para falar sobre Draco e sua aproximação. — Ele ficou tentando conversar comigo desde o começo, mas trata Ron muito mal. Ele ignora Neville e xinga uma garota do nosso ano da Grifinória, a Granger, de...você-sabe-o-quê. Só que ele também tenta ser legal comigo, o que eu não entendo. Eu já falei que não quero ter amizade com ele se ficar falando assim com os meus amigos ou o restante dos alunos, mas ele continua. — Harry deu de ombros. — Então eu não estou interessado.
Lily olhou para James, tentando entender o que estava acontecendo. Ela conhecia os Malfoy o tanto quanto ele e, provavelmente, estava desgostando da aproximação de Draco Malfoy de Harry o tanto quanto ele mesmo desgostava.
— E o que aconteceu hoje durante a aula de voo? — a ruiva perguntou.
— De novo, ele tentou falar comigo. Eu não quis saber dele. Como voar é a coisa mais fácil para mim, ele tentou chamar atenção voando, só que ele pegou um lembrol que a tia Alice enviou para o Neville hoje mais cedo. E vocês sabem que o Neville não é muito bom voando, então ele caiu. Eu fui tentar pegar e aquele idiota jogou longe.
O descontentamento de Harry era alto e claro em sua voz. O garoto tinha um senso de justiça tão grande, que deixava James orgulhoso. Pelo sorriso de Lily e Remus, eles também.
Além do mais, aquela história toda de Quadribol estava fazendo mais sentido. Se Malfoy jogou um lembrol e Harry foi atrás, não estava tão surpreso por McGonagall querer chamá-lo para o time. Ele deve ter feito uma captura simples e rápida, mas de uma maneira espetacular, já que o objeto em si não tentaria fugir dele.
— A professora Hooch pediu para ninguém voar enquanto ela levava o Neville para a enfermaria, mas eu voei. É por isso que vocês foram chamados, não é?
Olhou para Lily. Há anos eles não faziam aquela coisa de "coparentalidade" na frente do filho. Não sabia se estariam na mesma página, se pensariam igual.
Ela lhe lançou um sinal, para que ele começasse.
— Você desobedeceu a ordem de um professor — começou pela parte mais chata. — Isso não é muito do seu feitio, apesar dos pesares. Os tutores que teve nesses anos em casa nunca reclamaram.
— Eu sei. — Harry abaixou levemente a cabeça.
— Mas me conta dessa sua captura do lembrol! — Não conseguiu se segurar. — Como foi? Conseguiu alta velocidade com essas vassouras velhas da aula de voo? Foi de onde até onde? Teve que fazer uma manobra arriscada ou foi...?
Uma tosse cortou toda a sua empolgação. Remus olhou dele para Lily, que tinha uma expressão confusa. Percebeu apenas neste momento que estava completamente debruçado na mesa, na direção do filho.
— O que queremos dizer, Harry, é que entendemos o seu motivo, apesar de ter sido uma desobediência. Isso pode lhe causar muitas detenções — continuou Lily
— Mas o papai teve muitas e conseguiu se formar!
Ah!
Nessas horas, o passado não jogava a seu favor.
— Isso é verdade, mas quer ouvir algo chato? — James voltou a falar. — Eu perdi a comemoração de uma vitória do Quadribol por ter que cumprir uma detenção. E foi uma das festas mais legais que a Grifinória teve.
Até tentou escapar daquela detenção após uma hora, mas Filch estava grudado naquela porta mais do que chiclete em cabelo. Arrependeu-se tanto daquilo na época e tinha sido uma brincadeira tão sem graça e idiota com uns sonserinos, que não tinha valido nem um pouco a pena.
Não, aquilo também não o fez parar com as brincadeiras, mas o forçou a ter muito mais cuidado em não ser pego.
Harry pareceu pensar por um momento, enquanto os três adultos esperavam.
— Desculpa — ele, finalmente, disse. — Eu também não achei que seria tão grave. Eu não sabia que vocês seriam chamados por algo assim.
James sentiu que seu rosto todo se iluminou, pronto para falar sobre o real motivo de terem sido chamados ali. Suas mãos coçavam com agonia de manter aquilo em segredo por mais tempo.
— Apenas vá em frente com isso — Lily soltou, parecendo divertida.
Finalmente!
— Você quer entrar no melhor time de Quadribol da melhor casa de Hogwarts?
Harry franziu a testa, assim como Remus.
— Eu posso?!
— Ele pode?! — Remus perguntou.
— McGonagall viu a sua captura hoje e disse que foi excelente. Claro que foi, já que você é excelente! Ela nos chamou aqui para saber se daríamos a permissão para você entrar no time. — James quase pulava do banco com alegria. — Você quer? Hum?
Harry olhava para todos os adultos presentes, não acreditando no que estava ouvindo. O seu sorriso aumentava cada vez mais, seus olhos demonstravam toda a alegria que sentia.
E então, ele levantou e abraçou o pai, enquanto ainda pulava. Depois, foi até a mãe e fez o mesmo. Nem Remus escapou.
— Eu vou entrar nesse time e vou ganhar todos os troféus até o meu sétimo ano, igual você, pai!
Queria poder pular naquela cozinha assim como o filho, mas achava que sorrir igual um maníaco já era o bastante.
— Se você não ganhar todos, não tem problema — Remus comentou enquanto assistia Harry quase dar a volta na mesa. — Às vezes, a gente perde.
— Isso é muito importante que você entenda. — James pediu para que Harry se aproximasse. — Perder é difícil, ter um jogo ruim é muito doloroso. A sua casa vai sempre esperar pela vitória e quando ela não vem, pode ser complicado para as pessoas entenderem. — Aquilo pareceu acalmar o entusiasmo sem fim de Harry. — Como apanhador, as pessoas esperam muito de você. Como artilheiro, a partir do momento que o time está com pontos na frente, não temos muita atenção, apesar do show que damos. — Ele riu sozinho, lembrando dos velhos tempos. Imaginava que Remus e Lily estavam revirando os olhos naquele momento. — Mas os apanhadores nunca terão um minuto de sossego. Você vai ser cobrado em dobro, mesmo os sete jogadores em campo serem importantes igualmente.
— "Não há gol sem artilheiro, mas não tem artilheiro para fazer gol sem batedores para defendê-los. Não tem placar zerado se não tiver um goleiro e nem um fim de jogo sem um apanhador. E não há vitória sem todos juntos!" — Harry citou.
Aquela era uma frase que repetiu durante seus anos como capitão do time e que repassou para o filho desde o primeiro treino que tiveram na vida. Queria que ele entendesse, assim como precisou que seus jogadores na época entendessem, que todos eles eram importantes no time e que, sem eles, a vitória não viria.
— E apesar do apanhador apenas trazer o fim e não necessariamente a vitória, infelizmente, as pessoas de fora sempre vão pensar de outra maneira — completou.
— Então é importante que você pense se é isso o que quer agora, querido. — Lily entrou na conversa. — Se não quiser agora, pode tentar no ano que vem, ou até depois.
O garoto parou para pensar um pouco, enquanto assistia os elfos correndo pela cozinha, agora já enviando as sobremesas.
— Talvez eu devesse perguntar para alguém profissional, que entenda disso. — Harry pensou alto.
Ouch!
— Claro! — respondeu um pouco desanimado.
Não imaginava que aquilo poderia vir tão cedo. Teria que ver o filho se dirigir à Sam McGuillen sobre Quadribol, ao invés de falar com ele.
Morgana, isso doía mais do que imaginava. Era besteira, mas esse tipo de coisa lhe dava a sensação de que perdia um pouco do espaço que tinha com Harry. Um que era tão especial, que criou tantas memórias boas durante todos esses anos.
Harry o encarava. James levantou as sobrancelhas, confuso, até o filho rir:
— E então, pai, diga logo o que você acha? Você foi chamado no segundo ano, sabe como é jogar desde cedo pela casa.
O cara profissional era ele? Ele mesmo?
Seu peito encheu de uma felicidade sem igual, mas tentou se conter.
— Não foi fácil, confesso. Eu tive jogos no primeiro ano como artilheiro onde marquei poucos gols, então houve uma certa cobrança. Era bem chato e eu não aceitava. Você tem a cabeça muito mais no lugar do que eu, o que não tira ainda a grande responsabilidade que vai cair nas suas mãos.
— Então você deve pensar se é isso o que gostaria já para o seu primeiro ano aqui, querido. — A ruiva sorriu para o filho.
— A intenção é você fazer algo que goste e que vai te fazer feliz, apesar dos tropeços. Mas se isso não for algo que te traga felicidade, sua mãe deve concordar comigo: não vale a pena.
Lily o encarou do outro lado da mesa. Aquilo não era para ter saído como uma indireta, mas percebeu que poderia ser considerada uma apenas quando a frase já tinha saído da boca. Queria apenas dizer que eles estavam de acordo sobre não valer a pena algo que não o fizesse feliz, e não trazer qualquer coisa do passado.
Mas, bem...encaixou como uma luva, infelizmente.
— Eu preciso responder agora? — perguntou Harry.
— Os testes começam entre fim de setembro e começo de outubro, normalmente. Você tem alguns dias para decidir — respondeu James.
Harry pareceu satisfeito. E o melhor: com o pé no chão sobre o assunto. Caso decidisse com toda a empolgação do começo, talvez estariam olhando para um desastre anunciado, onde Harry poderia ficar frustrado com o esporte apenas por ter começado do jeito errado, na hora errada.
— Vocês sabem a sorte que tiveram de terem essa conversa sem o Padfoot por perto, não? — Remus riu quando todos tiveram a atenção roubada para as sobremesas.
— Se dependesse dele, Harry já estaria lá fora montado em uma Nimbus, esperando o primeiro jogo da temporada começar.
— Ele vai ficar tão feliz ao saber disso — comentou Lily. — Talvez me ludibriar novamente para comprar a vassoura.
Sirius não precisaria ludibriar mais ninguém, porque ele poderia comprar aquela infeliz de vassoura e presentear o afilhado, finalmente.
Por Merlin, seu filho era um prodígio do Quadribol. Mal podia esperar para assistir a todos os jogos.
Todos eles.
E vê-lo se tornar o melhor apanhador daquele castelo!
-J~S-
Após o almoço, antes mesmo de pensar em sair da cozinha, explorar o castelo ainda mais e visitar Neville, James teve um chamado do QG, fazendo-o correr para os limites das terras do castelo e aparatar no Ministério.
— Onde estava? Não atendeu ao espelho nenhuma vez. — Sirius o recepcionou na entrada do Departamento.
— Hogwarts! — Os olhos do amigo quase pularam para fora. — Eu vou te contar depois, nada urgente — adiantou ao entrar na sua sala e pegar o pergaminho que o fez deixar Remus, Lily e Harry em menos de dois minutos. — Porém, isso é. Que maldição é essa sobre unicórnios?
— Chegou hoje mais cedo. Um informante anônimo enviou uma carta dizendo que havia um cara bizarro na travessa do tranco no outro dia, perguntando sobre onde achar unicórnios.
— "Outro dia" quando? — perguntou James.
— Há duas semanas, me parece.
Não era a primeira vez que lidavam com esse problema. Os unicórnios eram conhecidos por trazer muitos benefícios, mas eles eram raros agora. Nas últimas vezes que lidaram com caças à unicórnios, os Aurores desmantelaram um grupo de bruxos das trevas que vendiam o sangue da pobre criatura, prometendo o mundo. E as pessoas inocentes — ou James preferia dizer: idiotas — compravam com a intenção de prolongar a vida, sem saber que seria apenas uma semi vida amaldiçoada.
— Não são os mesmos de dois anos atrás, pois estão todos bem instalados em Azkaban — disse em voz alta.
— Parece que há apenas uma pessoa envolvida. Normalmente, não somos avisados quando alguém procura por algo ilícito, ou não é tratado como urgência. Mas a caça aos unicórnios levanta algumas bandeiras, não? — comentou Sirius.
Sim, levantava algumas bandeiras, mas mais do que isso, James ficou cismado. Pegou o mapa da Albânia, onde tinha anotado sobre as atividades das trevas de algumas semanas também, e o encarou, depois encarando o pergaminho sobre os unicórnios.
Não havia nada, absolutamente nada, ligando os dois casos. Por que, então, aquela pulga estava se instalando atrás da sua orelha? Não costumava ignorar seus próprios alertas, então dificilmente faria com esse também, mas onde tudo se conectava?
Seria o fato de acharem unicórnios apenas em florestas da Europa? E atividades das trevas em uma delas e alguém procurar por isso fazia o seu cérebro pirar?
Talvez estava alerta demais por não ter casos das trevas por um longo momento e, agora, era confrontado com dois? Talvez por Moody ter pedido para Aurores ingleses irem até a Albânia para conferirem o caso?
— Você tem mais informações sobre isso, Padfoot?
— Não.
— Então vamos fazer guarda por alguns dias na travessa do tranco. Talvez a pessoa volte. E se voltar, vamos trazê-la para interrogatório.
— Vou tentar encontrar os meu contatos por lá.
Sirius levantou e estava pronto para sair, mas James o parou:
— Nesse meio tempo, você pode passar na Artigos de Qualidade de Quadribol.
— Do que você está precisando? Uns balaços para acertar a cabeça do cara durante o interrogatório?
— Não. Você pode comprar a Nimbus para o seu afilhado. — O rosto de Sirius se iluminou quase como o de Harry mais cedo. — Há grandes chances de Harry ser o apanhador mais jovem da história de Hogwarts!
A risada cheia de orgulho de Sirius saiu da sala, enchendo o corredor do lugar.
O riso do próprio James ia se esvaecendo enquanto ainda encarava o mapa e o pergaminho na mesa. Mesmo quando o amigo gritou já da saída do Departamento para alguém aleatório de que o afilhado iria acabar com a raça do filho da pessoa no Quadribol.
Aquela boa notícia parecia ter vindo em boa hora, pois James se levantou e pegou tudo o que precisava para fazer uma primeira investigação sobre o cara dos unicórnios. E faria isso tentando não se afundar na obsessão em encontrar o responsável por aquilo, apenas querendo pensar em seu filho ganhando o primeiro jogo da Grifinória.
-J~L-
Só não contava com aquilo.
Foram 24 horas. Infelizes 24 horas de vigia em um prédio podre e fedido na travessa do tranco. Desde o momento que descobriu sobre os unicórnios, não imaginou que ficaria todo esse tempo em um cubículo, de vigia. E o pior: para nada. Até poderia tentar dizer quando foi a última vez que dormiu. Algo como 36 horas atrás. Talvez menos, talvez mais. Provavelmente mais.
Sentiu um alívio imenso ao tirar seu uniforme de Auror e colocar suas vestes de volta. Quase sentia-se capaz de deitar no sofá da sua sala e dormir ali mesmo, mas o que era pegar um pó de Flu e voltar para casa? Pelo menos não era como os trouxas que tinham que dirigir ou pegar aqueles transportes que nada mais eram do que caixas com rodas.
Um rápido feitiço de limpeza o ajudou a tirar o cheiro que o empesteou. Mais um ponto em ser bruxo. O feitiço tirava o cheiro, mas não substituía um bom banho. Então pegou seu casaco atrás da cadeira, pronto para ir embora, mas seu pescoço arrepiou ao mesmo tempo em que virou para a porta. E deu de cara com Lily ali parada, segurando um casaco e sua bolsa.
Ficou sem reação por longos segundos, apenas a encarando.
Isso ele poderia contar: 27h desde a última vez que a viu.
— Olá — ela o cumprimentou.
— Oi. Er, Oi, Lily.
— Estou interrompendo?
Não soube o porquê, mas ele olhou ao redor, como se procurasse algo. Por um momento, a sua cabeça estava completamente em branco, sem entender o que estava acontecendo.
— Não. Eu...— O que ele estava fazendo antes mesmo? — Ah, eu estava indo embora.
— Às 17h?
— Bem, sim. Estou trabalhando desde...bem, desde ontem.
Lily abriu a boca em compreensão.
— Certo, desculpe. Bom descanso.
Ela deu as costas e saiu pelo corredor. James ficou parado igual um idiota, olhando para o vazio que ela deixou.
— Mas o quê...? — Ele balançou a cabeça e correu até a porta. — Lily, espere. — Foi até a ruiva, parada no meio do corredor. — Você queria falar comigo?
— Eu preciso, na verdade.
Hum, precisar era bem diferente de querer.
— Algo de errado com Harry?
Tinha deixado-a no dia anterior com o filho. Teria acontecido algo?
— Não, não. Harry está ótimo. — Ela parecia nervosa, ansiosa. — Vou enviar uma requisição de reunião. Desculpe aparecer assim, não foi correto.
Lily estava prestes a voltar seu caminho.
— Vamos lá, Lily. Não há necessidade disso, podemos conversar sem a intervenção do Ministério, certo?
— Se estiver ok para você.
— Claro que sim. Venha, por favor.
James voltou para a sua sala, com Lily logo atrás. Era tão óbvio o quanto ela não gostava daquele lugar, mesmo a ruiva já ter aparecido ali horas antes e ter tomado um chá tranquilamente, que ele mesmo sentia-se tenso.
— Posso te oferecer alguma coisa?
— Não, obrigada. — Ela sorriu, agradecida.
Percebendo que seria algo um pouco oficial, apontou para a cadeira em frente da mesa e ela sentou.
— Pelo visto, você tem algo importante, talvez algo oficial, e que o Ministério deve estar envolvido?
— Podemos dizer que sim — ela confirmou. — Eu estava por aqui e pensei vir diretamente te ver.
— Você pode fazer isso quando quiser.
Sua frase não deveria ter saído com duplo sentido e esperava que ela entendesse que foi uma resposta sincera.
— Bom, eu queria falar com você sobre algo no futuro próximo. — James se aconchegou na cadeira, prestando atenção. — Sobre uma possível mudança.
— Qual mudança?
— A minha.
James parou de respirar por um momento, seus olhos vidrados nela.
— Mudança sua?
— Exato. Eu recebi uma proposta de emprego da MACUSA.
Fechou os olhos e riu. Agora fazia sentido aquelas perguntas sobre o emprego que James recebeu anos atrás da MACUSA, a curiosidade dela. Lily queria saber o que ele achava do lugar — porque ele foi até Nova Iorque para conversar com o chefe dos Aurores da época —, e se seria uma boa ideia.
— O que te ofereceram? — perguntou sem olhar para ela enquanto segurava o ímpeto de, sei lá, enfiar a mão na boca e morder com força com um sentimento que começava a borbulhar dentro de si.
— Eles querem abrir um Departamento de Poções e conhecem meu trabalho. Eu os visitei algumas semanas atrás.
— Deixa eu ver se eu adivinho: foi o fim de semana em que eu tive que ficar com Harry, não é?
Ela suspirou e assentiu. James estalou a língua, sem saber o que sentir.
— Não queria mudar seus planos para o seu fim de semana, James, desculpe.
— Eu cancelaria qualquer coisa para ficar com Harry, sempre. Nunca duvide disso.
— Eu não duvido.
O maior problema em ficar nervoso daquele jeito, é que Lily não entraria em sua neura. Ela o conhecia bem e, por mais que tivessem um histórico de brigas quando adolescentes, aquilo havia mudado quando adultos. Ela sempre soube lidar com as decepções e frustrações dele, e vice-versa.
— Onde Harry fica nessa conversa? Ele acaba de ingressar em Hogwarts e eu não creio que Ilvermorny seja tão boa quanto. Eu pensava assim no passado e não mudei de ideia.
— Eu sei. Eu não quero que Harry saia de Hogwarts, não é essa a minha vontade.
— E então, como vai fazer?
— Nós temos uma vantagem de locomoção enorme. Se eu fosse trouxa, seria complicado, mas eu posso aparatar e usar pó de Flu. Eu estarei por aqui sempre, com uma rede de flu conectada na minha casa em Hogsmeade.
Há! Por isso ela tinha ido até o Departamento de Transportes Mágicos naquela vez que se encontraram sem querer no átrio do Ministério? Tudo começava a se encaixar.
— Até o seu trabalho te engolir e você não puder vir.
A feição dela mudou no mesmo instante.
— Eu nunca deixaria o meu trabalho, mesmo amando-o muito, sobrepor o meu filho! Nunca.
Aquilo foi um bom tapa em sua cara para que se acalmasse.
Ele mereceu aquilo, de verdade. Foi até pouco.
Tentou disfarçar o quanto aquilo o atingiu, mas era impossível. Sua boca retorcia, seus olhos cerraram, os dedos batiam sem ritmo no tampo da mesa.
— Eu nunca pensaria isso — disse, por fim. E era verdade. Lily nunca priorizaria algo acima de Harry em sua vida, nunca, jamais. Era impossível.
— Enfim, como eu dizia, eu não quero que Harry saia de Hogwarts. Eu estarei sempre aqui para ele, não importa se meu trabalho seja em outro país.
Harry era a vida dela, assim como era para ele. Por um momento na história, eles agiram diferentemente quanto a isso, mas era certo que o amor pelo filho sempre seria maior.
— Posso perguntar algo? — ele pediu.
— Claro.
— Qual o problema com o seu trabalho aqui? Você gosta, não? Pelo menos, gostava.
Lily respirou fundo.
— Eu gosto do meu trabalho. Adoro, na verdade.
— O que te fez considerar o outro lado do oceano? Não me entenda mal, eu não estou te julgando. Quero apenas entender.
O desconforto dela ficou ainda maior, fazendo James franzir a testa. Havia um problema e ele não era pequeno, para que Lily agisse desse jeito.
— A vida — ela respondeu.
— A vida?!
— Sim, a vida.
James levou a cabeça para trás, intrigado. "A vida"? Aquilo não era uma boa resposta.
— Está infeliz na Inglaterra?
— Eu não saberia como responder isso.
Por Morgana! Sentia que tentava extrair suco de uma pedra ali. Não adiantava forçar a conversa, pelo visto.
Voltou seu olhar para a mesa, pensando em Lily em outro país. Aquilo estava perturbando-o mais do que o necessário, mais do que imaginaria, o que era bem estranho. Não falava com ela por anos, não a via...ela poderia muito bem já estar em Nova Iorque e ele não teria ideia.
Mas ali, tendo aquela conversa, não era legal. Não estava sendo nada legal.
E ele não estava achando legal aquela sensação.
— Eu nunca te imaginaria em um lugar como Nova Iorque — comentou
— Eu não ficarei lá. Eu apenas farei parte da MACUSA, mas meu trabalho será por todo o continente americano. Eles têm muitos recursos naturais que trariam bons resultados caso montarmos uma boa base de pesquisa de poções.
Aquilo soava como excitante para alguém que amava poções e pesquisa, o que era o caso dela.
Só não entendia o motivo dela vir jogar a mudança na sua cara, naquele dia, no seu escritório.
— O que você quer que eu faça? — perguntou.
— Como assim?
— Você veio me falar sobre a sua mudança por um motivo, não?
— Eu creio que você deva ser informado, considerando nossa situação.
— Qual situação? O fato de não estarmos mais juntos?
Ela levantou uma sobrancelha.
— Sim, James, exatamente. E por termos um filho juntos. Se você fosse para qualquer canto desse planeta, eu gostaria de ser avisada. Legalmente, talvez sejamos obrigados, já que Harry fica com ambos.
Odiava quando ficava com o papel de bobo na conversa, mas só podia culpar a si mesmo. Lily parecia estar sendo bem paciente, na verdade.
Bem, ele estava cansado de uma vigia que não deu em nada, querendo um banho e uma pizza. Então Lily aparece em seu escritório pelo segundo dia seguido e joga que vai se mudar.
De novo, aquilo não deveria ser algo tão ruim como ele estava vendo. Eles não eram amigos, não eram próximos. Por que se importava?
— Bem, eu estou avisado. Considere a sua missão cumprida.
Lily levantou-se no segundo seguinte, postando-se ereta.
— Você ainda receberá uma nota oficial do Ministério.
Assim, ela se dirigiu para a porta. James respirou fundo, antes de levantar.
— Lily, espere.
— Eu terminei o que tinha para dizer. Tenha um bom descanso.
Os cabelos ruivos desapareceram em direção ao corredor e o maroto deixou-se cair na cadeira, parabenizando o grande feito de ter Lily Evans mais nervosa com ele do que ela já devia ser. O olhar dela, a boca levemente crispada no canto, era como na adolescência. Não era uma sensação boa, tão ruim quanto ouvir que ela sairia do país.
Riu sozinho, apesar de ser um riso sem graça, ao pensar que ainda conseguia destruir as coisas com Lily mesmo depois de anos.
Que dom, meus amigos, que dom.
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Olá!
Se você está aqui, mas nem sabe o motivo de um capítulo sair no meio da semana, é porque você não me segue no Instagram xD
De qualquer maneira: Feliz JILY DAY atrasado! O capítulo nem deveria vir agora, não está betado da melhor forma possível, mas a vida dá dessas.
Então aproveite, comentem, compartilhem...whatever xD
Até a próxima! ;)
