J~L


Quatro batidas em uma sequência bem conhecida e distinta fizeram James levantar seus olhos do mapa que estudava na sala do seu apartamento.

Fez um aceno e a porta abriu, revelando um Sirius feliz demais para o seu gosto.

— Prepare-se — ele disse indo direto à cozinha e servindo-se com algumas torradas. — Agora, vai.

— Para quê? Eu estou trabalhando, Padfoot.

— Na sua noite de folga? Não, você não está. Estamos indo para o jogo.

— Que jogo?

— O jogo que o seu melhor amigo te convidou e que, por tabela, me convidou também.

Ah não. Tinha aquilo.

Sam McGuillen havia lhe convidado para um dos primeiros jogos da temporada. Não tinha sequer dado um segundo pensamento sobre isso, mas Sirius não parecia ter esquecido.

A última coisa que pensava em fazer ultimamente, era dar espaço para a sua cabeça viajar para perto de Lily. Então, logicamente, não pensava em McGuillen, o que, automaticamente, o fazia esquecer de qualquer jogo que fosse. Estava mantendo-se um pouco longe de Quadribol.

Mas agora entendia o motivo do amigo forçá-lo a tirar folga hoje, apesar de James continuar a trabalhar de casa.

— Precisamos ir?

— Claro! Quantas vezes conseguimos fazer algo divertido? Raramente as nossas folgas batem.

Isso era verdade.

Sem muita animação, levantou, largando os pergaminhos.

— É disso que eu estou falando, Potter. Vamos tirar a marca da sua bunda desse sofá.

Em meia hora, ainda sem saber para qual jogo estavam indo, Sirius os levou para frente do maior estádio de Quadribol da Irlanda do Norte: a casa dos Ballycastle Bats.

Era sua primeira vez ali. Tinha visitado muitos estádios na vida, mas nunca aquele. Talvez fosse um sinal desde o começo.

Por que tinha aceitado ir? Soava errado. Estava misturando muito sua vida com a de Lily, quando não havia necessidade. Eles já tinham Harry como ponto de interesse em comum. Para quê adicionar o namorado dela?

Deveria dar as costas e voltar para casa? Deveria.

Mas agora, via a empolgação de Sirius. Eles mais do que precisavam se divertir, sair daquele looping negativo que era trabalhar como Aurores. Um evento esportivo soava como uma boa ideia.

Só não era ótima, pelas condições.

Então engolindo o orgulho e a vontade de torcer o pescoço daquele ao seu lado que se dizia ser seu amigo, James permitiu-se relaxar.

— Acesso a área VIP de um dos maiores estádios da Europa. Isso é que é classe — dizia Sirius.

— Perfeito. Teremos uma boa visão do jogo.

E de McGuillen.

Com aquele par de ingressos, a entrada foi feita de uma maneira que nunca viu. Eram tratados como reis, sendo cumprimentados por pessoas importantes, tendo bebidas e alguns canapés entregues, além de serem escoltados até seus lugares.

Bom, poderia valer a pena, afinal.

Gostaria de ter tido a chance de trazer Harry. Ele ficaria enlouquecido com tudo aquilo. Quer dizer, caso ele já não tenha tido aquela experiência, mas achava que não. O filho teria descrito cada pedaço da sua noite para ele, caso tivesse.

Espera aí!

Por que Harry não foi levado para um jogo com toda aquela pompa? McGuillen não quis? Ele era idiota o bastante para não querer nem ter contato com o filho da namorada?

— O que foi? — perguntou Sirius ao seu lado. — Qual o motivo dessa cara?

— Harry já veio aqui?

Sirius pareceu estranhar a pergunta.

— Eu acho que não. Nunca fiquei sabendo, pelo menos.

— Hum.

Se ninguém tinha escutado o tagarela do seu filho sobre aquela experiência, então aquilo nunca aconteceu. Por quê?

— Não pense demais nisso, Prongs.

— Não estou.

— Está sim. Vamos, pegue mais firewhisky e aproveite um bom jogo nessa mordomia.

Não tinha outra escolha, já estavam ali mesmo.

— Uma pena que Moony não esteja aqui — comentou ao ver a torcida vibrar com as luzes verdes e brancas que começavam a piscar pelo estádio, anunciando os cinco minutos antes do jogo.

— Ele até poderia sair, mas duvido que iria querer.

Os professores tinham direito de sair quando fora de hora de aula, mas Remus, como sempre tão certinho, preferia ficar no castelo. Ou pelo menos por agora, que estava quase fazendo um mês desde o retorno das aulas e ele gostaria de não chamar muita atenção para si. Manter seu segredo na fase adulta, estando livres e com mais privacidade, mostrou-se mais desafiador do que quando adolescentes trancados na escola com um bando de criança curiosa.

O amigo não sabia, mas James e Sirius tiveram que pagar para calar algumas bocas. Foram sortudos quando as pessoas não voltaram e pediram por mais galeões, mas a partir do momento que ambos começaram a trabalhar no Ministério, ficava mais complicado extorqui-los.

Mas o importante era que Remus estava feliz.

— Devemos combinar a próxima lua cheia, que é em poucos dias. Talvez dar uma olhada na Casa dos Gritos, ver se há algo que precisamos reforçar ou melhorar antes de receber um lobisomem adulto. — Devaneou ao ver o movimento no campo ficar maior com os jornalistas.

— Eu me ocupo disso — Sirius respondeu, também focando no campo.

Os times começaram a entrar no exato momento que James sentiu aquele formigamento em sua nuca, a sensação de estar sendo observado. Virou-se para a porta e deu de cara com Lily, parada na entrada e parecendo surpresa. Provavelmente tanto quanto ele.

Ficaram se encarando por um longo momento, sem se moverem. Era quase como uma conversa silenciosa:

"O que está fazendo aqui?"

"Eu que te pergunto o que está fazendo aqui?"

"Talvez você queira que eu vá embora."

"Talvez eu devesse ir embora e deixá-los."

"Você não sabia que eu estava vindo."

"Você não tinha ideia que eu apareceria."

— Lils! — Sirius pareceu perceber a presença da ruiva também, cortando a conversa muda entre eles.

Lily se virou para ele e sorriu, sendo abraçada pelo amigo. Pelo jeito que sua mandíbula estava travada, ela também foi uma outra pobre coitada vítima de uma armadilha.

— Eu...não sabia que teria companhia — ela disse, rindo, um pouco nervosa. Foi um jeito sutil de dizer que não estava esperando vê-los.

— Não? Pensei que McGuillen tinha te dito que eu viria — Sirius respondeu.

Ah. Então Sirius foi atrás do cara, mesmo eles já tendo os ingressos? Começou a se perguntar o quão próximo o seu melhor amigo era do novo namorado da sua ex.

— Não, ele não me disse. De qualquer maneira, sintam-se em casa. — Lily olhou para ele e o cumprimentou com um aceno de cabeça, o qual James retribuiu.

Enquanto a ruiva foi para um lado do lugar, James voltou até a grade para ter seus olhos no campo, ao invés nela. Continuou bebericando o seu firewhisky, forçando sua vista apenas para os jornalistas lá embaixo, ficando eufóricos com os poucos minutos restantes para o começo do jogo.

— Interessante, não? — Sirius perguntou ao seu lado.

— Sim, eu nunca tive uma vista tão privilegiada — respondeu.

— Ah, sim...vista privilegiada. Nunca? Tem certeza?!

Aquilo fez James se virar para o amigo. Notando que James o olhava, Sirius deu um passo para trás, deixando Lily a sua vista, alguns bons passos distantes e também assistindo o movimento do campo.

Ela tinha as pontas dos cabelos em ondas, como sempre costumava ter quando dormia de cabelos molhados. Lembrava como se fosse ontem quando a via com Harry no colo, o rosto cansado, mostrando que acabara de acordar de uma soneca com o filho.

Virou para o campo novamente, tentando afastar aquelas lembranças.

— Estão jogando contra os Chudley? Eu nem tinha reparado — comentou ao ver as bandeiras dos Chudley Cannons pelo estádio também.

— Onde anda com a cabeça, Prongs? — Sirius riu, irônico. — Até parece distraído.

— Eu ainda estou com a cabeça nos relatórios que fui obrigado a deixar para trás, Padfoot.

— Claro, como sou obtuso.

Aquilo daria tão errado, que estava chocado por Sirius não perceber. Não sabia qual era a real intenção dele, mas iria dar errado, não importava o que fosse.

Tinha contado para o amigo tudo o que tinha ocorrido dias atrás: Lily em seu escritório, ambos em Hogwarts, o que se passou no castelo, a segunda visita de Lily e a bomba de que ela estava indo embora. Não comentou sobre a mudança dela. Não sabia se Sirius estava sabendo, mas preferiu dizer que entraram em uma discussão boba e Lily partiu do escritório lançando chamas.

Então Sirius Black sabia que as coisas não estavam bem. E James sabia que os ingressos dados podiam ser para qualquer jogo, mas o amigo escolheu aquele. Lily estaria em todos os jogos e isso não faz diferença ou Sirius sabia de algo?

O estádio começou a gritar quando a escalação dos dois times começou a ser apresentada. O time convidado foi o primeiro e bateram palmas para cada nome. Os Chudley mereciam, já que apesar das inúmeras derrotas pelos anos, não desistem nunca.

Os Bats começaram a aparecer e a torcida era quase ensurdecedora. Sabia que McGuillen seria o último, já que era a estrela do time e queriam uma ovação privilegiada. Pelo canto do olho, viu que Lily batia palmas para cada jogador. Quando o nome da estrela foi anunciado, Lily continuou com suas palmas. Ele não poderia dizer se ela sorria, se dizia algo...apenas acompanhou suas mãos o recebendo.

Provavelmente não estavam tão assumidos, deixando-a discreta, já que estava na cabine de um jogador e os jornalistas adoram caçar aquele tipo de fofoca.

Teve a confirmação da discrição do relacionamento, quando McGuillen passou perto deles e acenou como fazia para todos os fãs.

Virou o fundo do copo e o deixou de lado. Ficar investigando as coisas que não lhe diziam respeito não iria ajudar em nada. Não queria e não precisava saber de nada daquilo, além de beber ser completamente dispensável.

Mas poderia comer.

Voltou até o meio do espaçoso lugar e estudou os canapés. Há tanto tempo que comia coisas com preparação rápida, além de um ótimo restaurante com comida chinesa perto do Ministério, que era um bom agrado comer algo mais requintado.

Nessas horas, sentia saudade das refeições na casa dos Potter. Sendo elas realizadas pelos seus pais ou Lily.

Limpou a garganta, saindo daquele pensamento novamente.

— Os de camarão são uma delícia.

Falando nela, Lily parou ao seu lado e pegou o canapé citado, sorrindo educadamente para ele.

Aquela mulher. Essa mulher...ela não parava de surpreendê-lo. Será que era ele o louco, vendo coisas onde não havia? Tipo a raiva com a qual ela saiu do seu escritório da última vez? Ele sonhou com aquilo? Tinha certeza que não.

Apesar de Lily não ser uma pessoa rancorosa. Não por discussões ou brigas desse tipo, pelo menos.

— Vou experimentar, então.

Pegou o canapé e continuou com os olhos para baixo, tentando pensar como sair dali, daquela situação, pois não queria piorar algo que já estava ruim.

— Eu perguntaria para quem você vai torcer, mas eu lembro que você sempre foi compadecido pelos Chudley — ela voltou a falar.

Era um bom jeito de dizer "eu sei que você não vai torcer pelo meu namorado". Porém, independente de ela estar saindo com a grande estrela, ele não torceria pelos Bats e Lily, parecendo ter lembranças específicas dele como um torcedor, entendia.

— Eles precisam de um pouco de torcida para ganhar um mísero jogo, você sabe — respondeu.

— Sim, eu sei. Às vezes, eu pensava que você torcia mais para eles do que para os Magpies.

Deixou a mão com o canapé de camarão cair ao seu lado.

— Lily! Não vamos tão longe!

Ela riu.

— Não negue, James. Já te vi inúmeras vezes gritar pelos Chudley, quase se jogando no chão quando eles não conseguiam fazer uma manobra para um ponto.

Enfiou o canapé na boca, um pouco contrariado.

— Eles são muito ruins, coitados. A última vitória foi em 1892... Não pode só haver jogadores ruins nisso, mas alguma maldição nesse time.

A ruiva pegou outro canapé.

— Você poderia tentar salvá-los — James franziu as sobrancelhas, curioso. — Ainda há chances de você se tornar um jogador profissional, não? As habilidades, você tem.

Deu de ombros.

— A idade não ajuda mais. Além disso, o trabalho que eu estou fazendo hoje em dia é mais importante.

Lily apenas balançou a cabeça.

— Para a sociedade bruxa, sim. E para você? Está fazendo o mais importante para a sua vida?

Aquilo o fez fechar a boca, enquanto encarava Lily, que não desviou o olhar. Tinha tantas respostas para aquilo, todas tão contraditórias e complicadas. Não sabia se sua ex-mulher gostaria de ouvir algumas delas, já que as envolvia.

— Bem...! — Iria começar a sua resposta, mas Lily o cortou.

— Talvez deixará que a vida se encarregue disso?!

— Ahm...

— Ou tentaria dar um empurrão para conseguir?

— Erm...

— Ou alguém teria que dar esse empurrão para você?!

Por Morgana, o que era aquela conversa? Lily falava em código. Poderia tirar muitas coisas daquilo, mas não ousaria. Quando mais jovem, permitiria-se entender o melhor daquilo e se jogaria, colhendo o resultado que fosse. Mas estava um pouco judiado da vida agora, ainda que pudesse ser um pouco impulsivo.

— De qualquer maneira, acho que todas essas opções existem, de uma forma ou de outra — respondeu.

Comendo o canapé, Lily concordou. Pegou um guardanapo, mais um canapé, e virou-se para ele.

— Veremos qual dessas opções será a ganhadora.

E assim, afastou-se dele, voltando para a grade e o jogo.

Quando parou de assisti-la, percebeu que tinha um sorriso idiota no rosto. Fechou-o logo em seguida, enfiando outro canapé na boca.

Tudo aquilo era culpa de Sirius Black. Não sabia se fazia sentido, mas era melhor culpar o amigo de tê-lo trazido ali, fazendo-o ter pensamentos que não deveria.

J~S

O jogo passou-se como deveria: o Bats atropelando os Chudley; James berrando a cada jogada desperdiçada; Sirius rindo à vontade; Lily mantendo-se imparcial do começo ao fim.

Ela ficou mais próxima deles durante a partida, tecendo alguns comentários. Segundo Remus, na época de Hogwarts, ela era uma comentadora voraz, gritando com adversários da Grifinória, às vezes até soltando alguns xingamentos. No sétimo ano, era ainda pior, pois ela quase invadiu o campo quando acertaram-no com um balaço, deixando-o pendurado na vassoura por alguns segundos.

O batedor lufano que havia feito aquilo, de repente, recebeu uma detenção na semana seguinte e foi obrigado a limpar e encerar todas as vassouras do time da Grifinória.

Não tinha sido ele o responsável por aplicar aquela detenção.

— Era um pouco óbvio, não? — disse Sirius, quando o apanhador do Bats capturou o pomo, encerrando a partida de 1h.

— Talvez na próxima — comentou Lily, ao ver a expressão de desilusão de James.

— Pff...!

Alguém entrou no camarote, chamando a atenção dos três.

— Senhorita Evans...! — o homem anunciou.

— Um momento, por favor — pediu ela. O homem assentiu e saiu. Os dois marotos entreolharam-se antes de Lily virar para eles. — Isso foi uma partida única ou terei a honra das suas companhias mais vezes nos jogos?

O sorriso verdadeiro dela dizia que aquilo não soava como algo que não gostaria, ao contrário.

— Podemos te chamar para assistir as partidas dos Magpies na próxima semana, se quiser. Mas será nas arquibancadas — respondeu Sirius. — Lembra quando fomos pela primeira vez?

A primeira partida de Lily dos Magpies foi ainda no sétimo ano. Ela aceitou ser raptada pelos marotos uma vez e escaparam do castelo para uma partida inesquecível. Foi a primeira partida de Quadribol que James pôde assistir ao seu lado, descobrindo a torcedora entusiasta que ela era, tendo um vislumbre de como a sua namorada torcia por ele durante as partidas da Grifinória.

Segundo Remus, novamente, quando tratava-se do namorado de Lily Evans, ela era mais feroz do que tinha sido ao assistir na torcida dos Magpies, o que dava a James a ideia de que ela não estava muito entusiasmada hoje enquanto o namorado atual dela jogava, já que no jogo do Magpies ela estava absurdamente feroz.

Por que será? A sua presença a intimidou na torcida?

— Eu estarei um pouco ocupada nos próximos dias a partir de amanhã, mas eu adoraria em uma próxima. Podem me enviar uma coruja...— Ela se aproximou de ambos, abaixando o tom de voz. — ... ou um Patrono.

Sirius deu um tapa gentil no ombro da ruiva, antes de puxá-la para um abraço. Eles trocaram algumas palavras entre risadas, arrancando um sorriso de James.

Enquanto eles ainda estavam no abraço, uma sombra apareceu na porta: Sam McGuillen. Ainda em seu uniforme de jogo — que James achava um pouco brega, com aquele morcego escarlate na frente — parou e observou a cena. Não parecia incomodado, provavelmente sabendo o quanto Sirius era importante na vida de Lily e o quão inocente o amor entre os dois era.

Mas Lily e Sirius não tinham percebido a presença de McGuillen quando se separaram, ou quando Lily virou-se para ele, obrigando James a lhe dar atenção.

— Espero te ver no próximo jogo, James. — Ela ofereceu a mão para um cumprimento, o que ele achava cordial e inocente o suficiente para ser feito na frente do seu namorado.

O problema é que quando as mãos se juntaram, geraram um calor instantâneo e, automaticamente, uma magia nem um pouco discreta, causando algumas fagulhas.

Não ficou surpreso, porque não era a primeira vez que isso tinha acontecido, sendo essa no fim do sexto ano de Hogwarts, ao se despedirem na plataforma quando voltavam para a casa no verão. Eles já estavam corteses, Lily mais próxima dele. Deram as mãos como despedida, causando aquele calor imediato, assustando a ambos e fazendo-os puxarem as mãos, confusos. Eles riram e voltaram a se cumprimentar e, dessa vez, as fagulhas fizeram o seu pequeno show para os amigos e alguns alunos por perto.

Mais tarde, alguns anos depois, descobririam que tudo estava ligado aos patronos complementares. E as almas gêmeas.

De volta ao jogo dos Bats, os olhos se encontraram por um segundo, antes das mãos se afastarem.

— Lily?! — McGuillen chamou.

Sirius e Lily notaram a presença do jogador agora. O primeiro apertou os lábios, querendo segurar o riso. James iria matar o amigo caso começasse a rir. Já Lily, apenas sorriu, sem sobressaltar-se sobre o ocorrido alguns segundos antes na frente do namorado, parecendo achar completamente normal as magias de ambos responderem daquela maneira após um toque.

Principalmente quando ambos — e Sirius — sabiam do que se tratava.

— Estou pronta, podemos ir.

Dando um último aceno para os dois marotos, ela foi até a porta e parecia parabenizar McGuillen pela partida, sendo seguida por ele corredor afora.

— Cala a boca — disse apenas ao sentir Sirius ao seu lado.

— Lembra quando isso aconteceu? Sexto ano, plataforma ¾ , e o que você descobriu depois?

Sim, Sirius, estava relembrando isso há 5 segundos.

— Caso formos embora agora, ainda posso terminar um relatório — respondeu, pegando seu casaco e mais um canapé de camarão pois, de fato, era delicioso.

O amigo não respondeu enquanto saiam do camarote, apesar de saber que não duraria muito.

Não havia nada para dizer. James e Lily eram almas gêmeas, sim. Tinham patronos complementares, sim.

E estavam separados sim. A vida era uma cretina às vezes, mas era assim que era.


Um outro dia começando após uma nova vigília de 12h na travessa do Tranco e que não deu em nada. Estava começando a achar que a questão do sangue dos unicórnios foi um evento isolado. Infeliz, mas algo apenas atípico. Havia muitos loucos por aí e não ficaria surpreso se tivesse sido apenas alguém fora das suas faculdades mentais para procurar algo desse tipo tão abertamente. Mesmo sendo na travessa do Tranco.

Entrou na seção dos Aurores, desviando de uma ou duas pessoas na recepção do lugar, sem dar muita importância. Sabia que Sirius estava em missão hoje, então não foi procurar pelo amigo, indo diretamente para a própria sala.

Ali, vários pergaminhos para estudos que foram deixados na noite anterior esperavam por ele. Considerando as horas que trabalhou a noite toda, podia tirar 2h daquela manhã para uma leve dormida no pequeno sofá, não? Ninguém iria notar.

Acomodou-se como pôde, cruzando os braços e jogando a cabeça para trás. Daria um bom descanso, sim. Seria perfeito antes de se jogar naquela pilha de trabalho.

Caham.

Abriu os olhos, mas não se mexeu. Talvez tenha sido sua imaginação. Voltou a fechar os olhos.

Caham!

Levantou a cabeça e deu de cara com uma mulher parada na soleira da sua porta. Ela tinha sapatos tão altos, que ele não conseguia imaginar como ela andava. Sua saia justa e sua blusa um pouco espalhafatosa criavam um cômico personagem.

Quem era ele para julgar qualquer um? Estava com o uniforme todo sujo, jogado no seu sofá e dormindo na hora do serviço.

— Os Aurores se encontram na sala à direita da recepção da seção — ele indicou, pronto para voltar para o seu cochilo.

— Sim, claro. — A mulher deu uma risadinha, fazendo James levantar a sobrancelha. Ela deu uma boa olhada pelo lugar, parecendo julgar cada canto, cada pedaço. Algumas vezes, franzia o nariz, não gostando de algo visto. Virou-se para ele novamente. — Ouvi dizer que era bem próximo dos amigos em seu tempo de Hogwarts, sr. Potter. O quão feliz é em uma sala apenas para si aqui embaixo?

James sentou, apoiando os braços nas pernas, um pouco desacreditado.

Quem diabos era essa mulher que entrava na sua sala sem bater — apenas pigarreando — e fazendo esse tipo de pergunta, como se ele estivesse abandonado às moscas?

— E você é...?

— Ninguém de importante — ela respondeu, adentrando ainda mais a sala. — Porém, o senhor tem uma fama muito grande. — A mulher olhou para ele e sorriu maldosamente. — Interessantemente grande.

Não tirou os olhos dela, um pouco transtornado pela conversa. Estava tão cansado, que mal conseguia expressar sua confusão.

— Eu sinto muito, mas não posso ajudá-la. Há pessoas mais capazes em guiá-la pelo Departamento do que eu. Além do mais, acabo de voltar de muitas horas fora e gostaria do meu descanso.

— Eu imagino — ela comentou, mas não dando a mínima para o pedido dele. — Sem itens pessoais, nem fotos ou lembranças da família. Como é ter que lidar com essa dor, mesmo após tantos anos, sr. Potter?

Levantou.

— Do que está falando?

Uma pena, que parecia estar voando por entre os cabelos loiros da mulher esse tempo todo, apareceu. Rapidamente, um pergaminho saiu do bolso da saia e algo começou a ser escrito.

Era uma jornalista? Uma fiscal de algo?

— Eu imaginei que não haveria as fotos que estão circulando depois do último jogo enquadradas no seu escritório, mas talvez algo do passado? Dos amigos?

Não tinha mais nada pessoal por ali, justamente para não entregar de bandeja sua vida para quem não interessava. Tipo essa mulher. E inimigos em geral.

Peraí. Ela disse "fotos circulando depois do último jogo"?

— Quais fotos?

Um sorriso vitorioso surgiu e a mulher logo tirou um bolo de fotos do bolso.

— Esteve por todos os jornais ontem de manhã. Não lê jornal, sr. Potter?

Tirou as fotos das mãos dela um pouco indelicadamente.

— Diferente de você, meu emprego é importante, tentando salvar a vida das pessoas, incluindo as das mais enxeridas, com empregos dispensáveis.

— Está dizendo que jornalistas são dispensáveis? Nós, que trazemos todas as informações, não deixando de fora pedaços importantes para os cidadãos estarem informados sobre tudo que possa envolver a vida deles?

James cerrou os olhos.

— Até onde eu pude ver nos poucos segundos em que estive na sua presença, a senhora não passa de uma enxerida fofoqueira. Se quisesse passar informações para os cidadãos sobre tudo que possa envolver a vida deles, estaria atrás do Ministro, perguntando o motivo da aceitação da cláusula 58.

— Cláusula 58?!

— Ah, a senhorita não sabe o que é a cláusula 58? O quão boa jornalista é, tentando passar informações para os cidadãos? Ou talvez esteja ocupada demais caçando algo no Departamento de Investigação, infernizando a vida alheia de quem apenas quer trabalhar.

Seus olhos finalmente caíram para as fotos e congelou. Aí estava ele, apoiado no camarote do Bats, comentando algo com Sirius, apontando para o campo. Não muito longe deles, Lily bebia do seu copo, os olhos bem presos no campo também. A segunda foto era dele e Lily conversando e rindo. Aquela cena lhe fez sorrir, pois parecia como antigamente, apenas mantinham uma distância de respeito e ele não a abraçava e beijava como costumava fazer.

As outras fotos, era uma mistura dele assistindo o jogo, conversando com Sirius, conversando com Lily. Não havia nada demais, além do fato de estar na presença da ex-mulher no jogo do namorado atual dela.

— Sentindo-se nostálgico, sr. Potter?

A voz irritante daquela mulher o fez levantar o rosto novamente.

— O que os cidadãos da sociedade bruxa poderiam tirar ou aprender com essas fotos e sua, provavelmente, narrativa ridícula sobre o ocorrido...ocorrido o qual a senhorita não tem conhecimento algum?

As fotos voaram até a dona, que não parecia abalar-se pela atitude rude.

— Muitas coisas, eu diria.

— Então os cidadãos da sociedade bruxa estão precisando se ocupar, se a minha ida a um jogo de Quadribol está trazendo alguma lição para alguém.

— Como foi passar quase duas horas com a sua ex-mulher, sr. Potter? — ela jogou a pergunta, quase o cortando. — Deve ser dolorido, depois de tantos anos. Não deve ser fácil lidar com a perda de uma mulher tão bonita quanto ela.

Não, não lance esse feitiço. Ainda é uma maldição imperdoável e você seria preso. Fique calmo!

— Com certeza é mais difícil perder uma mulher bonita e inteligente como ela, do que uma como a senhorita. E olha que este comentário não é sobre a sua aparência.

O pergaminho enrolou-se, a pena voou até a mão da mulher.

— Tão misógino, sr. Potter.

— Neste caso, eu apenas estou direcionando o meu desgosto à você, senhorita. Também não fui o responsável em comentar a beleza ou a valia de alguém por coisas supérfluas. Não espere palavras dóceis ao entrar no meu escritório e me atacar.

Ela apenas deu um sorriso carregado de escárnio, o que esquentou o seu sangue.

— Muito bem. Tenha um excelente dia, sr. Potter.

Assim, ela deu as costas e saiu rebolando da sua sala, como se tivesse vencido algum argumento contra ele. Que pessoa esquisita. Ou ele estava muito cansado e lidou de uma maneira um pouco bruta?

Não era seu problema mais. Que ela fosse perturbar alguém diferente, pois ele iria descansar e não existiria pessoa nesse mundo que o acordaria.


"Em seu cubículo, tão apertado quanto pode ser para qualquer funcionário mediano do Ministério, encontramos James Potter ao ponto das lágrimas.

A sua tristeza e decepção eram nítidas em seus olhos, em sua postura de derrota amorosa, suas palavras amarguradas.

Em cada canto de seu escritório, apenas papéis e mais papéis. Sem sinal de amor em sua vida, ainda que fontes seguras nos digam o pai grandioso que é.

" — Ele já deixou de sair comigo para ficar com o filho. Estou surpresa em vê-lo tão desligado emocionalmente assim", diz uma fonte que teve um encontro com o Auror-Investigador.

O último jogo dos Battlecastle Bats talvez nos esclareça algumas coisas, já que James Potter foi visto ao lado da ex-mulher, Lily Evans (antigamente, Potter), e seu fiel companheiro, Sirius Black.

" — Eles pareciam felizes. Lily Evans sorria abertamente para o ex-marido, que retribuía."

Mas o pior parecia vir para o antigo Monitor-Chefe de Hogwarts: sua ex-mulher saindo do estádio com um dos jogadores do time. Infelizmente, com a segurança fortificada e sendo desiludidos, não possuímos a identidade do jogador.

Uma coisa, apenas, é certa: não foi na casa de James Potter, o homem o qual derrotou Voldemort, que Lily Evans passou a noite..."

— Já está bom, Padfoot!

Sirius fechou o Profeta Diário, um sorrisinho escapando do canto dos seus lábios, enquanto James apenas olhava para o teto.

— Rita Skeeter o nome dela. Uma megerinha insuportável, aliás.

— Percebemos.

Dois dias atrás, a megerinha tinha aparecido em seu escritório e, agora, ele era alvo das fofocas da comunidade bruxa. Mais uma vez, mas sem nada de glorioso. Ou verdadeiro.

E o pior: envolvendo Lily. Eles eram adultos o bastante para lidarem com isso, mas se Harry visse, poderia causar confusão sem fim. A realidade já era dura, não precisavam adicionar mais sal nessa ferida.

— Uma coisa é certa: vocês estavam bem amigáveis mesmo — comentou Sirius, jogando o jornal em um canto qualquer.

— Acho que não precisamos ser detestáveis um com o outro.

— Não, não precisam. Podem ser cordiais, simpáticos, educados...amigáveis e risonhos, eu diria, é um outro nível.

— Não começa com isso, Padfoot.

Estava cansado daquilo. Sabia que seus melhores amigos eram os maiores apoiadores da sua vida como casal com Lily, mas aquela vida já não existia mais. Por anos já, então estava na hora de avançar naquilo, naquele assunto, e deixarem aquilo em paz.

Falando em amigos...

Começaram a ouvir passos um pouco destrambelhados no andar debaixo.

— Eu vou. — Sirius fez um sinal para que James ficasse e saiu do cômodo.

Levantando do sofá que ainda estava com cheiro duvidoso, mesmo após uma rápida limpeza mágica antes de deitar, James levantou-se. Estavam no primeiro andar da Casa dos Gritos, esperando por Remus.

Eu sei subir uma escada, Sirius! — Ouviu o amigo ralhando.

Não está parecendo.

Remus xingou, algo que não devia fazer todos os dias, com tantos alunos em volta.

Assim que o amigo deu as caras na porta do cômodo, James tentou fazer o que fazia desde os primórdios de Hogwarts: sorriu, engolindo a preocupação ao ver o amigo em tal estado.

— Aí está você. — Abriu os braços, dando as boas-vindas à Remus. — De volta aos bons tempos com o nosso problema peludo, na Casa dos Gritos.

— Diria com o problema mais peludo do que antes, considerando as barbas — comentou Sirius.

— Você deveria ter mantido a sua, Moony, assim poderíamos dar mais ênfase a tudo isso.

Recebeu um olhar matador de Remus, mas um pequeno sorriso ameaçou escapar.

— E você deveria ter tirado a sua, já que as suas piadas não condizem com a idade que aparenta ter quando tem esses pêlos cervídeos.

Sirius bateu as mãos.

— Ótimo, ele está no humor que esperávamos, o que quer dizer que estamos prontos.

Ouviram um "vocês, talvez" vindo de Remus, que largou-se no sofá logo depois, claramente fatigado dos dias que antecediam sua transformação. Não demorou muito para que ele começasse a respirar fundo, se contorcendo com as dores. James olhou para Sirius, que retribuiu o olhar preocupado.

Mais um mês, mais uma lua cheia para Remus Lupin.

Porém, mais uma noite que os dois outros marotos fariam o seu máximo para que fosse o mais confortável possível.


Ser um Animago era uma das coisas mais impressionantes que vivenciava na vida. Não tinha comparação, poucas pessoas poderiam entender o sentimento e, ainda assim, nem todas teriam a mesma coisa a dizer sobre.

Uns poderiam dissertar sobre nadar, sobre voar. James não podia dissertar sobre isso, mas podia sobre a liberdade. De correr, de sentir o seu corpo alcançar uma velocidade que só poderia chegar em uma vassoura. E tudo isso, nos terrenos de Hogwarts.

Quantos Animagos poderiam sentir isso? Até onde ele sabia, apenas quatro. Contando com McGonagall.

Há anos não faziam a Lua naquele lugar, mas nada parecia ter mudado. O terreno continuava desnivelado exatamente nas mesmas localizações; algumas árvores caídas continuavam como um obstáculo que James gostava de competir com os amigos sobre quem conseguiria pular mais alto. O cheiro da Floresta Proibida também era a mesma coisa, tão diferente de tantas outras florestas que já esteve na sua vida, seja em Luas ou à trabalho, trazendo todo o toque de nostalgia.

Remus parecia tranquilo, portanto não temiam o passeio pelo lugar. Ninguém deveria estar fora do castelo, então nada aconteceria. Também não havia perigo de Remus acabar por...

James, Sirius e Remus pararam imediatamente. Havia uma mudança drástica no ambiente da Floresta Proibida. Alguns animais corriam, havia muito barulho de debandada e...um cheiro estranho, adocicado, mas diferente.

No segundo seguinte, Remus disparou em outra direção, forçando-os a segui-lo. Não tinha a mínima ideia do que estava acontecendo, e muito menos se estavam indo na direção do ocorrido ou fugindo, pois o único que parecia estar entendendo ou reagindo a coisa, era o lobisomem.

Sirius tentava pará-lo, mas sem sucesso. James também tentou desestabiliza-lo, querendo acalmá-lo, mas também sem sucesso. Não querendo ter a desagradável surpresa de ter um lobisomem encontrando quem quer que fosse, ele acelerou para pegar a dianteira. Teria que se colocar como escudo, dependendo do que fossem achar. Isso se achassem algo.

Mas Remus, como lobisomem, nunca tinha fugido de nada, então tinha a absoluta certeza de que disparavam na direção do ocorrido.

Mais animais passaram por eles, correndo na direção contrária. Sirius latiu em alerta, James bateu os cascos com mais força na terra, mas Remus estava hipnotizado por algo.

Quando pensava que teria que entrar em combate direto com Remus para pará-lo, o lobisomem freou, derrapando pela terra, trombando com o cervo, fazendo os dois rolarem. Sirius logo pulou em ambos, mas quando James balançou a tontura para o lado, percebeu que o amigo tentava parar Remus, o que obrigou-o a olhar para a pequena clareira que tinham chegado.

O cheiro doce e diferente, ainda mais forte ali, estava claramente explicado. O líquido azul-prateado estava formando uma poça razoavelmente grande. A lua cheia parecia propositalmente colocada logo acima das copas das árvores ao redor, iluminando o unicórnio desfalecido a alguns metros.

O lobisomem rosnou e fez menção de pular na direção do animal, mas James colocou-se na frente. Pisoteavam no sangue de unicórnio agora, fazendo-os cobertos de líquido, ainda em disputa. Enquanto James parecia conter o amigo, Sirius correu em volta, estudando o lugar rapidamente.

Infelizmente, Remus começou a ficar impaciente, em uma espécie de transe, sendo chamado cada vez mais para a cena. Percebendo que James não conseguiria segurar por muito mais tempo sozinho o lobisomem em fúria, Sirius voltou a sua forma humana e rapidamente paralisou Remus.

James tomou distância, tentando recuperar as forças e o fôlego, antes de voltar a sua forma humana também.

— Moony poderia ser amaldiçoado caso não o parássemos e bebesse o sangue. — James resfolegou antes de continuar. — Mas que merda é essa?

— Acho que voltamos ao caso dos unicórnios, Prongs. — Sirius estava sério, rondando a pobre criatura caída.

— Não foi um animal que o matou, foi feitiço — disse, ao perceber que não havia marcas de luta, apenas uma abertura no pescoço do unicórnio, indicando que algo ou alguém bebeu o sangue direto da fonte.

— Sim, foi humano — concordou Sirius.

Tinha um bruxo solto na Floresta Proibida, perto de Harry e todas as outras crianças, bebendo sangue de unicórnio. Aquilo era uma situação que James não estava querendo encontrar.

Ele — no caso, eles — não poderiam falar muito sobre segurança de Hogwarts, pois quebraram milhares de regras anos atrás, mas saber que era tão fácil ter algo tão bizarro quanto isso, ali, não lhe agradava muito. Afinal, se alguém estava bebendo sangue de unicórnio, essa pessoa não era a alma mais bondosa que existia.

Remus urrou de raiva sob o feitiço de Sirius, mas os dois outros marotos continuavam a investigar.

— Temos que avisar o Quartel General, Moody ou que seja — Sirius exclamou, parecendo tão chocado quanto ele sobre aquilo.

— Acredito que avisar Dumbledore e Hagrid também.

Um silvo passou por cima de sua orelha, indo em direção de Sirius, que também escapou por centímetros. A flecha caiu ao lado do segundo, entrando quase a metade na terra.

— Com as suas mãos sujas, mataram novamente uma criatura pura em nossa floresta!

Eram centauros. Quase uma dezena deles, para ser exato.

Merlin, aquilo não daria em boa coisa. Nunca dava.

— Oh la! — Sirius riu, um pouco em desespero. — Não vamos nos precipitar. Se podemos ser culpados por sermos achados no local do crime, então vocês também podem.

Os centauros bufaram em resposta, indignados. Um deles armou seu arco com uma nova flecha.

— O que ele quer dizer, é que chegamos todos na cena do crime, ninguém viu ninguém fazer nada. — Os centauros pareciam cada vez menos convencidos. — Olhe para nós! Temos um lobisomem paralisado, dois humanos sem sangue algum escorrendo das bocas... esse sangue não parece ter sido tirado agora.

— Mas foi morto por um de vocês! — rugiu um deles.

— Bem, temos históricos de centauros atacando humanos e não estamos aqui apontando dedos, não é?

Alguns dele deram passos raivosos na direção de Sirius. James rapidamente colocou-se entre eles.

— Sendo obrigado a traduzir o que o meu amigo aqui disse novamente, estamos apenas tentando entender o tanto quanto vocês. Fomos trazidos pelo nosso amigo ali...— James apontou Remus com a cabeça. — E nos deparamos com isso. Foi feito por um humano, eu concordo. Se pudermos investigar mais, podemos tentar rastrear ou encontrar pistas.

— Não há pistas para encontrar. — Um dos centauros colocou-se à frente de todos. — Na primeira vez, nós quase encontramos o responsável, mas ele não se deixará ser pego tão facilmente. Coincidentemente, havia humanos por perto também.

— Humanos?! Quem? — perguntou Sirius.

— Crianças!

Os dois marotos arregalaram os olhos.

— Crianças?! — disseram em uníssono. — Quando?

— Há alguns dias, quando Marte estava brilhante.

Hein?

— Firenze, já foi o suficiente! — O centauro do arco censurou o outro.

Remus, por algum motivo, parecia estar quebrando o feitiço de Sirius, mesmo que isso fosse impossível, pela força que lutava contra. Talvez ele ainda sentisse o cheiro do sangue do unicórnio e ficasse completamente fora de si. Mais do que já era.

— Lobisomens são sensíveis ao sangue de unicórnio. Por serem mais lentos, não os tem como presas. Vocês deveriam agradecer em não presenciar um licantropo após o consumo do sangue dessa criatura pura — O tal Firenze comentou. — Leve-o daqui antes que a sombra que paira sobre vocês, aumente.

— Que sombra? — perguntou James.

— Marte continua brilhante — Firenze repetiu. — A sombra aumenta a cada dia. As criaturas puras, que sempre partem primeiro, levam a inocência consigo. O brilho aumenta a cada dia.

O outro centauro bateu com um casco no chão, deixando claro que o tal Firenze deveria parar com a tagarelice.

— Temos brilho e temos sombra. Não está ficando um pouco contraditório?

James entendeu o centauro que queria dar uma patada em Firenze, pois sentia o mesmo com Sirius.

— Vamos pegar Moony, levá-lo de volta e trancá-lo — disse, olhando para Sirius. Logo depois, voltou-se para os centauros. — Vocês disseram que houve uma primeira vez e havia crianças por perto.

— Uma, em específico, com a sombra crescente.

Seu estômago revirou. Não deveria, mas revirou.

— Chega. Leve os seus para longe daqui, bruxo — esbravejou o centauro de arco novamente. — Caso sejam pegos novamente, não garantimos a leitura das estrelas como seus destinos.

Perdão?

Não iria discutir. Já tinham tirado a sorte grande de partirem facilmente sem danos.

Carregando Remus magicamente, eles deixaram a cena. Com o estômago ainda revirado e muitas mais dúvidas do que quando chegaram.

J~H

O sol já estava destacando-se ao longe. Era recorrente assisti-lo após noites de lua cheia, quando não estavam caindo de cansaço ou tendo que correr para o café da manhã.

Ter a vista de Hogsmead e o castelo de Hogwarts ao fundo era de tirar o fôlego todas as vezes. Trazia tantas lembranças...

— Ele está dormindo como uma pedra — Sirius anunciou em suas costas.

— Uma pena que foi mais preocupação do que aventura dessa vez — disse sem tirar os olhos da bela vista que tinha. — Eu vou ter que voltar para o Ministério e reportar o que foi visto. Os centauros devem ter tomado conta do pobre unicórnio, então vamos perder pistas.

— Você pode ir para casa e descansar, eu posso reportar o ocorrido, Prongs.

— Eu estava pensando em outro plano, na verdade, caso não se importe.

Vinte minutos depois, os dois amigos pegaram caminhos diferentes: um com Remus jogado em cima dos ombros para ser sorrateiramente levado até a Enfermaria, enquanto o outro seguia até o pé da Torre onde ficava a Grifinória.

A grama ainda estava cheia de orvalho, brilhando com o sol, trazendo ainda mais lembranças de quando voltava das noites de lua cheia, cansado, quase se arrastando pelos jardins. Das vezes que levou Lily para excursões de madrugadas, voos noturnos ou apenas dois adolescentes apaixonados embaixo de uma árvore, conversando e se beijando.

— Pai!

Harry veio correndo ao seu encontro, fazendo James sentir o peso da noite cair de seus ombros, e ao mesmo tempo voltar. Tão agridoce tudo o que sentia naquele momento.

— Você veio rápido.

Tinha chamado o filho por um patrono, pedindo para encontrá-lo. Pensava que ainda demoraria vinte minutos, mas qual foi sua surpresa que em cinco minutos, Harry já chegava.

— Eu já estava acordado. — Harry deu de ombros. Talvez era melhor não saber o que ele estava fazendo, pois mesmo estando acordado, ele chegou muito rápido ali vindo do dormitório. — O que está fazendo em Hogwarts?

— Lua cheia na Casa dos Gritos.

— Legal! — Harry parecia empolgado. — Quando eu vou poder começar as etapas para virar um Animago? Vocês disseram que eu poderia. E se fizermos logo, então eu posso ajudar também...!

— Hey, hey. Calma aí, Campeão. Nós vamos fazer isso quando for a hora certa.

— Por que a hora certa não é agora?

Harry falava como Sirius, era surpreendente. Ou não, considerando o tempo que os dois passavam juntos. E aquele assunto dava muita história, desde quando o filho soube da Animagia do pai e padrinho, querendo virar um no segundo seguinte, então era sempre sábio mudar de assunto.

— O que sabe sobre unicórnios na Floresta Proibida, Campeão?

Os olhos verdes abriram-se, como se Harry tivesse sido pego.

— O que você sabe sobre eu saber sobre unicórnios?

— Harry...! — disse James, em tom de alerta.

O garoto suspirou.

— Tivemos que cumprir uma detenção na Floresta Proibida...!

— Você o quê? — Nem em seu tempo, cumpriu detenções ali. Passeou, vagou e explorou, mas nunca foi enviado pela escola, que sempre lembrava dos perigos, para cumprir a detenção naquele lugar. O que era isso? Dumbledore estava caducando mais do que o normal? — Ok, eu vou ver sobre isso depois. Apenas continue.

— Bem, parece que há unicórnios feridos na Floresta e fomos procurar por eles. — Por Merlin, que detenção mais idiota e sem sentido. — Malfoy e eu encontramos...!

— Malfoy?! Você estava cumprindo detenção com Malfoy?

— Longa história. Qual você prefere ouvir primeiro?

Aquela alma de Sirius Black que baixava em seu filho às vezes...

— Continue sobre os unicórnios.

— Bom, Malfoy e eu encontramos um unicórnio caído...e alguém tomando o sangue dele!

O rosto de Harry mudou completamente para algo como choque, descrente. Não duvidava o quanto aquela cena poderia ser impressionantemente negativa, pois para um adulto, e que só estava ouvindo sobre, já era o bastante.

— Quem era?

— Não sei. Estava usando um casaco, mas não parecia andar, e sim flutuar. Foi estranho! — De repente, Harry começou a rir. — Malfoy saiu correndo com medo.

— E você ficou sozinho?

— Sim. A coisa tentou vir atrás de mim, mas então um centauro apareceu.

Temeu ouvir aquilo. Seu filho estava na Floresta Proibida em detenção, ficou sozinho com uma possível ameaça enorme, e teve que ser salvo por um centauro.

Tinha que confessar que era um dos maiores defensores de Harry desbravar o mundo. Sabia que Hogwarts despertava uma curiosidade e deslumbramento em qualquer aluno que entrava ali — sendo de uma família bruxa ou não — , então era óbvio que a alma aventureira do filho seria mais do que aguçada. Mas seu lado pai não gostava de ouvir que alguém o colocou em detenção naquelas circunstâncias.

Harry entrando na Floresta: ok. Alguém enviando o seu filho na Floresta: não ok.

— Você estava com a sua varinha? Lembra do que já treinamos, mesmo quando você não podia usar magia?

— Sim, lembro de tudo, todos os feitiços.

Certo, aquilo era de extrema importância. Não sabia o por quê de Harry ter sido salvo por um centauro, mas talvez a situação fosse mais delicada do que ele imaginava. Delicada o bastante para que um garoto de 11 anos que sabia feitiços e meios de se defender, não poder fazê-lo.

Ou ele estivesse apenas se desesperando por aquilo tudo. Não podia esperar que Harry saísse por aí soltando feitiços a torto e a direito. Feitiços que ele conhecia, mas nunca usara.

Balançou a cabeça. Um problema de cada vez.

— O nome do centauro era Firenze? — voltou a falar.

— Sim. Conhece Firenze?

— Fomos apresentados, podemos dizer.

— Pois é. Os outros centauros não ficaram felizes pela ajuda. De qualquer maneira, foi o que vi.

Teria que tirar os pergaminhos e reler tudo o que estava ligado a isso. Estava tudo muito pontual para ser uma procura por sangue de unicórnio aleatório.

E muito perto de Harry também.

— Ouviu algo diferente além disso?

— Não!

Foi uma resposta muito rápida.

— Hm, certo. — James encostou-se na torre, tendo o filho o imitando. — Sabe que eu estou aqui para o que você precisar, não é? O fato de eu trabalhar no Ministério não muda em nada. Eu só quero que você fique bem e leve uma vida tranquila, mas divertida.

Harry sorriu, agradecido.

— Eu sei. Eu gosto de Hogwarts, estou me divertindo.

— Pelo visto, até muito, já que ganhou uma detenção.

— Nada de ruim, eu juro.

Assentiu, sabendo que uma detenção vinha de uma ação ruim, mas não ter sido contatado por isso, lhe dava indícios que nada de maquiavélico tinha ocorrido.

Talvez o filho apenas lançou algo em Malfoy, para que o garoto deixasse-o em paz, o que James não via como algo ruim.

— Eu confio em você, Campeão. E por confiar em você e querer que você faça as coisas bem feitas...

Tirou a Capa de Invisibilidade de dentro do seu casaco com feitiço extensor. Os olhos do filho brilharam.

— Você vai me emprestar? — Até o tom baixo de Harry demonstrava toda a sua felicidade em receber tal presente.

— Não. — Os olhos de Harry cairam. — Eu estou te dando. — Harry virou a cabeça rapidamente na direção do pai. — Ela é toda sua agora.

As pequenas mãos do garoto seguraram o tecido como se lhe fosse entregue a coisa mais preciosa do mundo.

— Obrigado, pai. Você é o melhor!

Foi pego de surpresa com o super abraço que recebeu, a capa entre eles, mas não impedindo que James recebesse todo o amor que o filho lhe passava.

— Só me prometa uma coisa. — Soltou o filho, apenas para ajoelhar-se em sua frente. Harry prestava total atenção nele. — Você vai usar essa Capa para o bem, para se sair bem, para ficar bem e fazer o bem.

Harry levantou o dedinho da mão na direção do pai, fazendo James enrugar a testa, confuso. Revirando os olhos, Harry pegou o dedinho do pai e enroscou no seu.

— Promessa marota!

Seu peito encheu de orgulho, obrigando-o a abrir um enorme sorriso para o filho.

— Agora entre e comece o dia. Nos falamos logo.

Novamente, Harry o abraçou forte.

— Eu te amo, pai.

— Eu te amo, Campeão.

Assistiu Harry dar a volta pela torre e tomar seu caminho para a entrada principal do castelo. James ficou encarando o rastro que o filho deixou no orvalho da manhã, tentando o máximo não pensar que a sombra que crescia ou o brilho de Marte não fosse sobre ele.

Apesar do seu lado de Auror-Investigador dizer que sim.


N/A:

Olá! Demorei e vim com um capitulo curto. Infelizmente não tinha como desenrolar muito mais aqui. Apenas saibam que é importante para a história!

Vou tentar não demorar com o próximo. Puxem as minhas orelhas, porque funciona :D

E acalmem-se, pois a nossa Lily aparecera cada vez mais hehe

;*

Até a próxima! ;)