J~L
Segunda-feira
Um longo corredor existia no primeiro andar entre a torre central e a torre oeste, onde ligava a sala de História da Magia e a sala dos Estudos dos Trouxas.
Grandes e inúmeras janelas traziam toda a luz possível para o lugar, onde muitos alunos costumavam passar o tempo entre as aulas, ou antes das refeições. Às vezes, era até difícil de se locomover, tendo que disputar a passagem entre alguns braços e outros, mas nada que pudesse ser tão irritante a ponto de inibir a presença dos alunos por ali.
Naquele momento, porém, o corredor estava vazio. Ou melhor, quase.
Havia um homem alto, com suas vestes e botas de combate de Auror; sua varinha bem protegida em seu coldre; sua capa de viagem... Se houvesse qualquer um ali para vê-lo, chamaria bastante atenção. Não era comum ter um Auror com suas vestes de combate andando por aí.
Principalmente com um cachorro enorme e preto ao seu lado, os olhos brilhando a cada fleche de luz pela qual passava.
— Se quiser esperar, Harry está na Aula de História da Magia.
O cachorro apenas fez um som pelo nariz, confirmando, trotando um pouco mais rápido na direção da sala onde o afilhado, Harry, assistia a aula tranquilamente com o resto do primeiro ano da Grifinória.
Já o Auror-Investigador em seu uniforme de combate... ele foi na direção da sala de Estudo dos Trouxas.
James lembrava-se das suas aulas ali. Fez tudo o que pôde para frequentá-las até o último dia em Hogwarts, mesmo ouvindo que elas seriam dispensáveis caso ele quisesse virar um jogador de Quadribol ou um Auror.
Não interessava se seria importante para a sua vida profissional ou não. Aquilo era pessoal.
Gostava da vida que os trouxas levavam, de certa forma. Achava genial as soluções que eles encontravam sem ter mágica alguma; conquistas que tinham sem nem poder levitar qualquer coisa, como ter que viajar dentro de algo enorme com asas imóveis e apenas pela física — ainda acreditava que quem tinha inventado aquilo, foi o mesmo que inventou as vassouras do mundo bruxo, já que aviões e as vassouras não precisavam de asas que batiam para voar.
Enfim. Sim, foram aulas em que aprendeu muito e sentiu-se orgulhoso de ter ido até o fim.
Ajudou muito em sua vida com Lily também.
Apesar de tudo, quando já/ainda casados, havia muita influência do mundo trouxa na vida da ruiva, mesmo ela sentindo-se muito mais bruxa. E James adorava aquilo, incitando-a a nunca deixar tudo de lado.
Será que ainda é assim nos dias de hoje?
Deixou de lado seus pensamentos em sua ex — muito frequentes, aliás — ao parar na frente da porta da sala. Ouvia os murmúrios da aula ocorrendo, mas não podia decifrar muito o que ocorria. Na sua época, não só o professor falava, mas também sempre havia barulhos de objetos trouxas com os quais trabalhavam. Era uma aula bem barulhenta, por assim dizer. Não nesse silêncio todo, onde ouvia-se apenas a voz do professor.
Aproximou-se mais, tentando entender alguma palavra, mas qual foi a sua surpresa quando a porta abriu de repente, com James deparando-se com Quirrel. Ele pareceu um pouco surpreso ao vê-lo ali, ainda que a maneira com a qual abriu a porta parecia ter sido como se soubesse que ele estava ali, espreitando.
— Senhor Potter?!
Endireitando-se, James olhou rapidamente por cima dos ombros do professor, antes de voltar para ele.
— Olá, professsor Quirrel. Posso entrar?
Quirrel continuava surpreso, além de ter dado um tilt em seu pescoço, como da última vez em que se encontraram.
— Há algum problema? NA-não estava ciente da visita de Aurores em classe. O diretor Dumbledore...
— Albus Dumbledore está mais ocupado com outras coisas do que visitas de rotina — James o cortou. Quanto mais rápido ele entrasse ali, mais rápido sairia. Tinha certeza que o então diretor já sabia da sua visita ali e talvez enviasse Hagrid para conferir, já que ele e Sirius entraram pelo Salgueiro.
Porque o que ele não sabia, o velho, não é mesmo?
— Eu acho-a-acho que os alunos não apreciariam.
— Tenho certeza que vão adorar. Afinal, o que não tem para adorar ao ter um Auror vestido dos pés a cabeça na sua sala de aula? Eu acharia o máximo.
Assim, o maroto forçou sua entrada, passando pelo professor ainda não contente, e deparando-se com vários olhos arregalados de alunos do terceiro ano, provavelmente.
— Você é um Auror de verdade? — um deles perguntou.
— Claro que é. Não está vendo o broche oficial de Auror no lado esquerdo? Eles usam um quando estão trabalhando — um outro aluno respondeu.
— Ou quando estamos de plantão — acrescentou James. — Temos Lufa-Lufa e Corvinal presentes, correto?
Um coro de afirmação ecoou pela sala enquanto os olhos continuavam a estudá-lo, curiosos. Ali, lembrou que não era a primeira vez invadindo uma aula nas últimas semanas. Teria que lembrar de não fazer isso com certa frequência.
— Senhor Potter, eu creio que devo conversar com o diretor Dumbledore. Eu não estava ciente da supervisão do Ministério. — Quirrel deu um riso nervoso, passando a mão na nuca.
Esse cara tinha sérios problemas na cervical. E por que James notava isso? Não sabia. Era apenas estranho.
— Não é uma supervisão. Por favor, professor, continue sua aula.
— Mas eu devo dizer que...
— Ah! Aula sobre transportes trouxas?! Que coincidência! — James foi até a frente da classe. — Eu estava pensando sobre aviões minutos antes.
Ele pegou alguns exemplos de transporte trouxas que estavam em cima da mesa: caminhões, ônibus. Que nostalgia. Eram os mesmos das suas aulas: mesmas cores, tamanhos e modelos.
Pegou o avião e virou-se para todos.
— Vocês sabiam que os primeiros registros da vassoura dos bruxos vieram em torno de 930 D.C, ano trouxa? — comentou James, estudando o avião.
— Sim! — Um lufano animado levantou a mão. — Manuscritos alemães, certo?
— Exatamente. Diz a história que nossos antepassados precisavam criar algo que pudesse ser escondido dos trouxas ao redor sem chamar a atenção, e acharam que uma vassoura seria um bom item para tal. Afinal, quem não tinha uma vassoura em casa, não é?
— Eu creio que eu deva interrompê-lo e lembrá-lo que é Estudos dos Trouxas, senhor Potter — Quirrel insistiu, ainda com o seu riso nervoso.
James o ignorou.
— Esse fato é o que me faz, talvez, desistir sobre ter sido realmente um bruxo quem inventou o avião. Por que demoraria tanto para que o avião pudesse ser inventado por um bruxo para os trouxas? Por que apenas no começo deste século?!
— Talvez não foi quem inventou a vassoura, mas alguém que saiba criar essa mágica em objetos — um aluno corvino sentado na primeira fileira, pronunciou-se. — Ele pode ter sido um meio-sangue que descobriu e quis ajudar a comunidade trouxa. Ou mesmo podia ser um rebelde contra a supremacia bruxa.
Aquilo tirou um sorriso de lado de James. Não só pela incrível inteligência desse garoto — não é à toa que era um corvino —, mas por lembrá-lo de seu avô, Henry, que lutou tanto por isso. Não ficaria surpreso se tivesse sido ele.
— Pode ter sido uma bruxa também, não um bruxo — uma lufana entrou na conversa.
— Com toda certeza. Eu ficaria até menos surpreso, considerando as bruxas que conheço e o quão inteligentes são.
Quirrel aproximou-se.
— Caso não se importe, senhor Potter, eu tenho uma aula para continuar.
— Sem dúvidas o senhor tem — disse James, dando as costas para os alunos e focando apenas no professor, abaixando o tom de voz. — Então eu me pergunto o motivo do senhor não estar aqui na semana passada, nesse mesmo dia da semana e horário.
— O senhor diz sobre a minha reunião no Ministério, quando nos encontramos? — Quirrel riu um pouco. — As pessoas que precisavam saber da minha ausência foram notificadas, senhor Potter.
— E os Inomináveis sabiam da sua presença no Departamento de Mistérios também ou a sua preocupação foi apenas para o responsável do corpo docente de Hogwarts sobre uma reunião fora da escola ?
O professor não pareceu afetado. Ao contrário: parecia mais do que preparado para um eventual questionamento dele.
— Ora, eu não pensei que era necessário informá-lo sobre onde e com quem eu tenho reuniões. — O professor parecia calmo, apesar da leve tensão que existia em seu corpo.
— E eu acho necessário avisá-lo que alguém que não conhece o Departamento de Mistérios não deveria arriscar aparecer por lá sem prévio convite ou sem saber como navegar ali dentro. — James esperou por alguma reação, mas Quirrell continuou com seu sorriso um pouco forçado, querendo parecer simpático. — Professor Quirrel, o senhor sabe o que pode encontrar naquele nível do Ministério?
— Com todo o respeito, senhor Potter, mas eu acho que a nossa conversa terminou aqui. — O professor continuava com aquele sorriso sonso e falso. — Eu tenho que continuar a minha aula.
— Conheço poucas pessoas que sabem o que podemos encontrar lá e conheço muitas que tiveram que passar meses no St. Mungus após arriscarem um passeio sem saber. Recomendo que continue sim sua aula e arrisque menos o seu pescoço onde não é chamado. — James analisou um pouco o homem em sua frente, que parecia nervoso, mas não exatamente pelas palavras do Auror. — Ainda mais o senhor, com esse pescoço que me parece tão frágil.
Automaticamente, Quirrel teve um tilt na cabeça.
— Agradeço sua preocupação com a minha saúde. Agora, se me der licença...
Quirrel apontou para a porta.
— Com todo o prazer. Mas antes de ir, saiba que caso volte ao Ministério, para reunião ou aventuras, o meu setor receberá uma notificação da sua presença e um Auror o acompanhará por todas as dependências e todo o tempo da sua estadia, até seus dois pés estiverem fora de lá. — James sorriu. — Boa aula!
Com um aceno de cabeça para os alunos e sorriso encorajador, James saiu da sala.
Deixou seu pulmão esvaziar, tirando o nervoso que aquele cara trazia. Estava ficando tenso por coisas bobas ou era impressão?
De qualquer forma, não deixaria escapar a chance de ter um diálogo com aquele homem depois do passeio de elevador pelo Ministério e uma parada no Departamento de Mistérios. E continuaria de olho nele até não levantar mais suspeitas.
Um vulto no final do corredor lhe chamou a atenção: era Sirius, ainda em sua forma animaga, chamando por ele. O maroto parecia inquieto, então James apressou-se até a esquina do corredor, mas diminuiu o passo ao ouvir vozes.
— Você sabe o que terá em mãos, certo, Wood? — Era McGonagall. Espiando, James pôde ver a professora de Transfiguração e o senhor Wood, o capitão do time de Quadribol.
— Com certeza — respondeu o garoto.
— É um capitão muito competente, sabe disso, mas terá um grande talento em mãos que vem com bagagem.
— Eu saberei lidar com o senhor Potter. Será um prazer, aliás.
James levantou uma sobrancelha. Wood falava dele ou de Harry?
McGonagall deu um leve suspiro, algo que evitava fazer na frente dos alunos, a não ser que estivesse com a guarda completamente baixa. Isso acontecia bastante quando ela estava envolvida emocionalmente ou...com Quadribol.
— Pode avisar o nosso novo apanhador sobre a posição após as aulas de hoje. — Apesar da aparente preocupação da professora sobre algo, ela parecia muito contente. — Eu prevejo uma taça brilhando com o nome da Grifinória até o fim do ano letivo. — James ouviu a mulher engasgar. — De quem é esse cachorro?
James não tinha percebido, mas Sirius tinha adentrado o corredor e trotava alegremente, balançando a cabeça como se tivesse comido um enorme pedaço de carne de 10kg.
— Eu nunca o vi antes — alegou Wood.
Sirius latiu alto. James interpretou aquilo como um grito de vitória pela entrada de Harry no time. Porém, aquele latido espontâneo não só sobressaltou McGonagall e Wood. Com o canto de olho, James capturou um vulto no fim do corredor, parecendo espiar a cena assim como ele, mas de uma maneira menos professional.
Percebendo também o vulto, Sirius disfarçou e correu até o final do corredor, virando a esquina.
— Terei que falar com os alunos hoje. Cachorros não são permitidos como animais de companhia, a não ser que haja alguma boa razão para tal.
Percebendo que os dois viriam em sua direção, James rapidamente escondeu-se atrás de uma estátua. Quando viu-se sozinho novamente, foi atrás de Sirius e o tal vulto curioso do corredor paralelo ao seu.
— Hey, você é engraçado. Não, não pule em mim.
Era Malfoy. O estudante, não o imbecil do pai.
Por mais estranho que fosse, Sirius — ainda como cachorro, claro —, estava brincando com o garoto. E Draco ria, mesmo com uma certa rigidez que vinha de família.
Quando James foi descoberto, o sorriso de Draco se fechou e uma muralha pareceu crescer diante dos olhos azuis brilhantes dele. Uma mudança da água para o vinho muito clara.
— Malfoy! O que está fazendo fora da sala de aula? — perguntou James.
— Como sabe quem sou? — o garoto jogou de volta a pergunta.
— Basta conhecer o seu pai para saber quem você é.
Levou uma boa estudada do garoto, com todo aquele ar de superioridade que James já tinha visto muitas vezes em Lucius.
— Basta conhecer o seu filho para saber quem você é.— Para James, aquilo era um prazer enorme de ouvir. — Esse cachorro é seu?
— Snuffles?! Eu não diria meu, mas podemos dizer que eu tenho que dizê-lo o que fazer e o que não fazer aqui e ali. Muito teimoso... as vezes, tenho que trancá-lo para que se comporte.
Sirius bateu com a pata no chão, em pleno desacordo.
— Bom...eles devem aprender, não é? De uma maneira ou de outra, caso não aceitem o jeito simples.
Não era algo que esperava ouvir de uma criança. O que esse menino ouvia em casa para dizer tal coisa?
— Não respondeu a minha pergunta: o que está fazendo nos corredores?
Pela segunda vez, levou uma boa medida de cima a baixo do garoto.
— Pode ser um Auror, mas não tem poder por aqui. O seu uniforme não muda nada. Aliás, muito feio, o que só demonstra a decadência daquele lugar.
Não deixou seu queixo cair com a ousadia, mas James estava sim de queixo caído em sua mente.
Que insolente!
Abaixou-se na altura de Draco, apoiando as mãos nos joelhos. Ele não era muito menor do que Harry.
— E o seu cabelo parece precisar de ajuda de um profissional. Ou o seu pai ocupa o tempo inteiro dele, sem te deixar um único minuto para tal?
Draco bufou, exibindo um sorriso gelado.
— Diz o cara que parece não ver um pente por anos!
Quê?!
Estava pronto para responder, mas algo obrigou-o a desviar o olhar de Draco: o cachorro preto fazia um barulho muito parecido com uma risada.
Sem perder mais tempo, o sonserino deu as costas e tomou seu rumo para o fim do corredor, dirigindo-se para a sala de História da Magia.
— Que merda é essa, Padfoot?
Sirius voltou à sua forma humana, ainda rindo.
— Você foi esculachado por um pestinha de 11 anos, Prongs!
— E você estava brincando com Draco Malfoy?! — Abriu os braços, ainda inconformado com a cena que pegou mais cedo.
O maroto de cabelos compridos abanou a mão.
— Não estava contando com isso quando quis ver quem estava espiando a conversa. Nós dois fomos pegos de surpresa. Parece que a criança não tem muito contato amoroso, porque ficou mais do que feliz em querer brincar com um cachorro quase do tamanho dele enquanto ninguém via.
— Estamos surpresos?
— Não, não estamos. Eu acho que a minha querida prima não é uma mãe horrível para ele, mas ela ainda é uma Black no sangue, casada com um Malfoy. Eu descreveria essa união como acordar todo dia e espetar uma pena em sua mão: doloroso, não tanto a ponto de matar, mas por que fazer? Enfim...— O sorriso enorme que James estava acostumado quando o melhor amigo estava muito entusiasmado, voltou. — Harry é o novo apanhador do time da Grifinória. O mais jovem, aliás. Vamos buscar Harry e Moony para comemorar!
James ainda olhava para onde Draco Malfoy se retirou, pensando o que passava na cabeça do garoto ao ouvir que Harry tinha conseguido uma vaga no time de Quadribol. Ele já tinha tentado contato com o seu filho antes, será que tentaria com mais afinco agora?
— Não, temos que deixar Harry nos contar. Além do mais, ele ainda não sabe que está no time, mesmo sendo óbvio que seria escolhido. Talvez seja melhor irmos. Eu sinto que Hagrid pode aparecer a qualquer momento.
— Tem medo do guarda-caça da escola, Prongs? Ou de Dumbledore?
— De nenhum, mas quero manter minhas chances de voltar aqui abertas. Eu acho que vamos precisar delas.
Voltando a se transformar em um cachorro, Sirius apenas seguiu o caminho pelo corredor, aceitando o destino de não poder comemorar a grande notícia do afilhado como o novo apanhador da Grifinória.
Sabendo que o filho os chamaria na primeira oportunidade daquele final de dia, decidiram que ficariam pela Casa dos Gritos. Assim, James também poderia terminar de estudar um pouco mais a história de Quirrell e saber se ele valeria a pena o seu tempo dali em diante ou não.
J~H~S~R
O contato de Harry não demorou nem um pouco após o fim do jantar daquele mesmo dia.
James, após deixar a certa tensão com Quirrell passar e o esculacho que recebeu de Draco Malfoy passarem, a notícia do dia tinha finalmente sido registrada corretamente em sua cabeça.
Muitas notícias poderiam extasiar James, cansá-lo de tanta felicidade e anestesiar suas bochechas de tanto sorrir. Mas apenas aquela o fazia querer invadir Hogwarts e jogar o filho para o alto, comemorando.
Para ser honesto, era óbvio que Harry entraria uma hora ou outra para o time de Quadribol. Só não esperava que fosse no primeiro ano e quase sem fazer os testes para apanhador.
— Demorou para sair a confirmação, porque Wood estava caçando um bom artilheiro e não queria dar dois anúncios — Harry dizia, enquanto usava a lareira de Remus. — Os treinos vão começar no Halloween.
Ou seja: em dois dias, pensou James.
— Você está feliz por entrar no time?
— Claro, pai!
— Mesmo termos conversado sobre o lado ruim de entrar no time? — Harry assentiu. — Se Wood for um Capitão sério, o que eu acredito que ele seja, muitos fins de semana serão para treinos intensos. Noites, depois de um longo dia de estudos, serão para treinos. Frio, chuva, calor, neve...tudo isso, vem com o kit de ser um jogador. Se o time perder, não costuma ser fácil.
— Você já disse isso tudo para ele, quer fazê-lo desistir ou o quê, parecendo um disco riscado? — reclamou Sirius ao seu lado.
James virou-se para o amigo.
— Eu lembro quando você entrou no time, dois anos depois de mim, e bateu boca com grifinórios depois de uma partida em que quase perdemos. — Sirius revirou os olhos. James voltou sua atenção para Harry. — Os alunos estão esperando a vitória e, se não há uma, alguns podem ser bem maldosos.
— Tem também o lado bom: quando ganhamos, alguém também vai querer comemorar com você.
James fechou os olhos, tentando desacreditar que Sirius Black falava sobre aquilo com o seu filho de 11 anos.
— Eu lembro das histórias sobre as festas na sala comunal depois dos jogos. Vai ser muito legal.
Ainda bem que Harry estava levando aquilo para o lado mais inocente.
— Porém, não vou ser condescendente caso chegue atrasado nas aulas — avisou Remus. — Só eu sei o quanto eu tive que arrastar a bunda desses dois escadas abaixo para não se atrasarem nas manhãs seguintes das festas.
— Não acho que Ron ou Neville ficariam felizes fazendo isso... — respondeu Harry, porém, com a voz um pouco ao longe, como se a cabeça do garoto estivesse em outro lugar.
Assistindo as sobrancelhas do filho subirem e descerem em alguma discussão interna, James resolveu finalmente tirá-lo daquele debate:
— Há algo que queira nos dizer, Campeão?
Sirius e Remus ficaram atentos, provavelmente também percebendo que Harry parecia pouco tagarela. Principalmente após sua entrada no time.
Aquela pergunta pareceu ser o que Harry esperava, pois sem nem segurar a língua por um segundo a mais, seu filho soltou aquilo que devia ser a razão de tê-los chamado tão cedo, ao invés da sua entrada no time:
— Por que nunca me contaram do cão de três cabeças?
— Quem?! — os três marotos perguntaram em uníssono.
— O cachorro de três cabeças do terceiro andar.
James, Sirius e Remus se entreolharam, completamente confusos.
— Alguma chance de ele ter sido azarado e ficado louco? — Sirius cochichou disfarçadamente para James.
— Espero que não — sussurrou de volta.
— Que cão de três cabeças no terceiro andar, Harry? — Remus, com o seu tom de professor, perguntou ao seu lado. — Eu não estou sabendo disso.
— Como vocês não sabem sobre ele? Fizeram um mapa do castelo e nunca o encontraram? — Harry virou-se para Remus. — Dumbledore comentou no começo do ano letivo que o terceiro andar estava proibido para todos.
— Eu acho que estava um pouco distraído.
Remus, de fato, esteve. Seus dois amigos estavam debaixo da capa de invisibilidade, assistindo à cerimônia, e teve que perder uma parte dela jogando feitiços aqui e ali para que ninguém reparasse neles, já que estavam sendo tão barulhentos.
— Explique melhor sobre isso — pediu Sirius.
— Há um cachorro enorme de três cabeças no terceiro andar. Ele está guardando algo, pois está em cima de um alçapão.
Aquilo era novo. Não existia tal coisa no castelo, eles saberiam. O terceiro andar era um andar qualquer, com bastante movimento tanto como qualquer outro corredor ou andar.
— Dumbledore tem um cachorro de três cabeças solto na escola?! — A frase escapuliu da boca de James. — Por Morgana!
— Ele está bem preso, mas sim, está aqui.
— Remus, você não o sentiu? — James olhou para o amigo.
— Não, em momento algum. E não me foi comunicado isso. Agora eu lembro que não vejo ninguém por ali. Eu mesmo não pego o terceiro andar, mas não sei o motivo disso.
Feitiço Confundus. Alguém confundiu Remus sobre isso, mas por quê? Por que ele não poderia saber?
Alguma coisa dizia que poderia ter algo ligado à Harry. Talvez para que o professor não deixasse escapar a informação e não instigando o garoto a ir verificar, considerando de quem ele era filho e sobrinho?
Era uma hipótese.
Mas ainda assim... UM CACHORRO DE TRÊS CABEÇAS EM UM CORREDOR DE UMA ESCOLA?
— Eu pensei que vocês conhecessem e não tinham me dito — Harry parecia decepcionado. — Pensei que teriam a explicação.
— Ele foi colocado depois de nós, com toda a certeza, mas qual seria o motivo? — disse Sirius. — Não há nada tão cabuloso em Hogwarts para ser guardado assim. Digo, quem deixaria algo perigoso embaixo dos pés dos alunos?
— Quem deixaria um cachorro de três cabeças solto no terceiro andar?! — perguntou Remus ao vento. — Eu vou ter que tentar arrancar essa informação.
— E eu vou ter que dar uma passada no Departamento para Regulamentação e Controle das Criaturas Mágicas. Se um cérbero foi requisitado para Hogwarts, eles saberão — continuou Sirius, já levantando-se do chão sujo da casa dos gritos. — Eu aviso caso consiga algo hoje. — O maroto estava pronto para ir, mas abaixou-se novamente na altura de Harry no fogo. — Fique longe do terceiro andar. Um cérbero não é brincadeira.
— Claro — respondeu Harry. — Eu tenho muito treino de Quadribol para me ocupar.
O rosto de Sirius voltou a brilhar.
— Sim, você tem. Até mais, criança!
Sem mais, Sirius desapareceu para a sua missão.
— Sua hora chegou, Campeão. Não queremos que seja pego nos corredores, independente de ter uma capa de invisibilidade ou não.
Com um meio sorriso, Harry despediu-se do pai e de Remus, saindo da sala. Os dois marotos restantes se olharam por alguns segundos.
— Dumbledore quer evitar que pessoas entrem no alçapão ou evitar que algo escape dele? — perguntou o Auror.
— Ou os dois? — Remus adicionou.
Esfregou o rosto, com impaciência. Aquilo não era bom. O fato de que Albus Dumbledore estava arriscando vidas com um cérbero dentro da escola, em um andar tão aleatório e acessível, só o deixava com o pressentimento ainda maior de que algo ruim estava à espreita. Para tal ato, podia-se entender que o diretor não confiava em ninguém, além dele mesmo, para guardar o que quer que fosse que tivesse dentro do alçapão.
— Eu não acho que Sirius irá encontrar algo. Os Aurores saberiam de algo caso houvesse uma ameaça real ou se o pedido do cérbero tivesse sido feito para o Ministério oficialmente. Esse cérbero entrou de outra maneira aí...
Remus concordou com James e riu sem humor, balançando a cabeça, um pouco desacreditado.
— Eu terei que tomar chá na casa de Hagrid amanhã depois das minhas aulas, então. Não vejo outra pessoa possível que saberia sobre uma criatura dessa dentro do castelo, além dele.
Se alguém sabia de um cachorro de três cabeças em Hogwarts, Hagrid seria o cara para se rondar. Sem dúvida alguma.
— Obrigado, Moony.
— Como diria Padfoot: nada como um pouco de ação para movimentar a vida. — Remus deu de ombros. — Mas tudo vai ficar bem. Dumbledore é maluco, mas não arriscaria as nossas vidas por nada.
— Não, ele não arriscaria. E esse é o problema: se ele está arriscando, então há algo muito sério nisso.
O que diabos Dumbledore estava enfiando em Hogwarts que o faria trazer tamanha segurança?
Por que Harry tinha que ter descoberto isso? Tendo essa informação e uma capa de invisibilidade, James só poderia esperar para que os treinos de Quadribol realmente o ocupasse, porque Merlin sabia que o filho iria a fundo nisso e James continuaria tomando do próprio veneno ao imaginá-lo fazendo algo tão perigoso quanto ele mesmo e os amigos faziam anos atrás.
Maldição de karma.
Terça-Feira...
Ser animago era espetacular.
Desde a sua primeira transformação, o seu mundo inteiro muda. Ver tudo pelos olhos de algo tão inocente e com características que te fazem temer coisas diferentes, que te fazem aproveitar coisas diferentes, era surreal.
Além de te dar muitas regalias, como aquela de hoje: espiar Hogwarts da Floresta Proibida sem dar bandeira na noite seguinte da descoberta do cérbero.
"— Hagrid, quando me viu chegando para o chá, correu para fora, dizendo que tinha uma reunião com Dumbledore. Desde então, ele continua fugindo de mim. Parece que sente que eu estou vindo com perguntas."
James sabia que Remus era além de competente quando tratava-se de manter o olho em algo. O melhor amigo podia passar despercebido quando queria, já que estava acostumado a esconder a sua condição de lobisomem, lhe dando um merecido reconhecimento em manter-se incógnito. Ele também era muito bom em questionar as pessoas. Em sua época de Hogwarts, ele quem conseguia arrancar informações muito importantes sobre qualquer assunto que os marotos precisavam saber. Acesso à área restrita da biblioteca mais cedo do que podia veio após ele passar muitas tardes questionando a bibliotecária sobre assuntos diversos, mostrando o quanto ele era interessado nas coisas. A bibliotecária, para ter um pouco de paz, deu acesso à ele.
Hagrid sabia dessa habilidade do maroto, pois ele tinha sido alvo de Remus muitas vezes ao longo dos anos. E o guarda-caça com certeza sabia que alguém lançou um feitiço para Remus não saber sobre o terceiro andar, então devia estar correndo dele como um maluco.
E Remus também tinha muito a fazer. Ele finalmente tinha um emprego estável, ótimo e que gostava muito, então James não o queria perdendo a oportunidade única de ser um professor em Hogwarts só por terem descoberto que uma criatura mortal estava ocupando uma boa parte de um importante andar do lugar.
Até agora ninguém havia sido ferido, o que James achava uma dádiva, então parecia que o minimamente correto estava sendo feito sobre isso.
As luzes do castelo eram nostálgicas, o barulho da Floresta atrás de si também. Apenas queria poder pegar a sua mala e entrar por aquela porta, jogando-se em sua cama no dormitório masculino da Grifinória, pronto para as aulas do dia seguinte.
— Eu também gosto de apreciar a vista do castelo.
James, ainda em forma de cervo, continuou a admirar o castelo, como se aquilo não tivesse sido dirigido a ele. Não tinha escutado passo algum, nem movimento algum por perto. Como Auror treinado que era, tinha os ouvidos perfeitos. Podia reconhecer até diferentes espécies.
Como, então, Dumbledore estava parado atrás de si sem James percebê-lo chegar?
Disfarçando, começou a distanciar-se, parecendo mais preocupado com a grama do que com o diretor da escola.
— Harry está bem, James — Dumbledore continuou, sem olhar para o cervo que ficava cada vez mais distante. — Mas você é bem-vindo nos terrenos da escola.
Continuou a ignorá-lo.
Não sabia como Dumbledore soube da sua presença ou mesmo sobre ele ser um animago, então estava mais do que feliz em continuar o seu caminho.
— Eu tive muitos pais preocupados em várias ocasiões. Na crescente de Voldemort, por exemplo. Recebi uma carta ou duas dos Potter, eu me lembro bem. Além de uma visita.
Era verdade. Fleamont e Euphemia tinham visitado o diretor, perguntando sobre as devidas seguranças que o castelo estaria tomando para proteger a todos. James lembrava da conversa que teve com os pais logo após, sobre sua vontade de lutar e de fazer a diferença. Naquele momento, a vontade de seguir carreira como um jogador de Quadribol já estava tão longe, que apenas ser Auror lhe fazia sentido.
— O castelo está seguro, James.
Aquela última frase de Albus Dumbledore o tirou do seu papel de cervo-tapado-comendo-grama, fazendo-o voltar à sua forma humana no mesmo segundo.
Não olhou diretamente para o professor, ainda preferindo encarar qualquer coisa da Floresta. Resistiu ao ímpeto de rir, preferindo engolir aquele bolo de ironia.
— Como soube que eu estava aqui? — perguntou, finalmente, o maroto.
— O castelo está seguro, James — repetiu Dumbledore, com um sorriso leve.
— Posso entender isso como "se alguém que não deveria estar aqui, chegar, eu estarei ciente"?
Dumbledore descruzou os braços atrás das costas, cruzando-os na frente.
— Como Auror e alguém que conhece sobre a segurança que esse castelo tem, sabe que sim. — Dumbledore deu aquele sorriso quase inocente de novo — Eu sei das suas visitas por aqui. Tanto essa, como a de ontem na sala do Estudo dos Trouxas, outra com a senhorita Evans... a da cerimônia com o senhor Black.
— A questão é que eu sou inofensivo, tanto quanto Sirius e Lily. Será que todos que passam essa barreira mágica também são? Incluindo os seus funcionários?
Dumbledore virou-se para ele
— Eu deveria estar preocupado com os meus funcionários?
— Eu não sei. Deveríamos?
Era óbvio que o diretor tinha sido levemente irônico em sua frase, apesar de não querer transparecer, mas James não se importava em deixar claro a sua ironia.
— O funcionário mais recente no corpo docente do castelo é o senhor Lupin. Apesar de sua condição, eu não o vejo como alguém que poderia ser perigoso.
— Não, não é. Com a Wolfsbane que Lily é capaz de fazer para ele, Lupin é o menor dos problemas. — Voltou a olhar para o castelo, vendo algumas luzes apagando-se, anunciando o toque de recolher. — Mas um funcionário novo não precisa ser necessariamente o único perigo. Já ouviu falar em funcionários insatisfeitos? Seria possível imaginar a professora McGonagall fazendo a cara de alguém como arranhador de gato caso seja destratada.
Na verdade, não via muito. Teria que ocorrer algo muito ruim para que Minerva McGonagall chegasse a esse ponto contra o castelo ou Dumbledore, claro.
— Minerva saberia colocar um ou outro poderoso em seu lugar sem levantar uma unha sequer.
Nisso, o diretor estava certo.
Os dois observavam Hogwarts por um momento. James fez questão de estar com a sua Oclumência no máximo, sem querer intrusões de Dumbledore. Não teve a sensação de que o diretor tentou ler seus pensamentos, mas preferia mantê-lo fora desde o começo do que ter que expulsá-lo de sua mente.
— Hogwarts está segura, James. Ninguém que não deveria entrar, terá acesso.
O fato de que ele repetia aquilo era irritante. Tanto que mal podia acreditar em suas palavras, lhe dando a sensação de que, na verdade, estavam todos em perigo.
— Eu espero nunca precisar testar a sua teoria. E também espero que o senhor tenha certeza de que ela nunca será posta à prova.
— James...
— Principalmente com Harry dentro do castelo — James o cortou. Viu que os olhos de Dumbledore vacilaram muito levemente, quase imperceptível. — Isso não é uma ameaça, diretor, apenas um pedido para que se algo estiver à espreita e pronto para entrar no castelo, o senhor irá detectá-lo e sairá do conforto do seu escritório, assim como hoje a noite, para averiguar pessoalmente. — James esperou alguma resposta, mas não obteve uma. Então continuou. — E que a coisa não seja nada além de um inocente animago.
"E que nada do que deveria sair ou entrar no alçapão do terceiro andar sendo guardado por um cachorro de três cabeças alcance alguém que não deveria ser colocado no meio dessa sua maluquice", essa frase ele guardou. Achou que deveria ter esse trunfo na manga, pois poderia ser de boa ajuda em algum momento.
Sem despedir-se do diretor como manda a etiqueta, James apenas abaixou a cabeça em sinal de respeito — o que estava um pouco balançado em relação ao diretor, mas ainda assim o fez —, e embrenhou-se na floresta, transformando-se novamente em cervo e distanciando-se do homem que um dia ele admirou tanto, mas que agora... agora já duvidava muito mais da sua sanidade do que qualquer outra coisa.
Quinta-Feira...
Aquela semana estava sendo cheia. Muito mais do que previsto, mas nada poderia ser pior do que aquele dia. Uma pena que todo o trabalho que teve ontem com pilhas de pergaminhos e trancado em seu escritório o dia todo não aconteceu hoje, pois agradeceria ficar distraído e ocupado.
Aquela data era amarga. De uma maneira que nunca poderia explicar.
Sirius tinha tentado contato o dia inteiro, assim como Remus. Os dois marotos não queriam forçar nada, mas sempre mostraram-se disponíveis todos os anos. Algumas vezes, James aceitava companhia, em outras preferia ficar só. Trabalhava ou apenas tentava se ocupar com outra coisa. Mas não dessa vez.
Seu estômago revirava de desconforto, sua cabeça trazia as lembranças daquela noite, junto com sentimentos de impotência. Queria poder ter vivido aquele dia 31 de Outubro de 1981 de outra maneira.
Queria ter pego Lily e Harry e corrido, aparatado logo em seguida. Fugido. Mas seu senso de justiça achava que ele tinha que acabar com aquilo, eliminar a ameaça, posicionar-se diante da morte para a segurança da sua família.
Pensava que era coragem, mas com o passar dos anos, começou a duvidar se não era medo. Agiu por medo de Voldemort.
Mas quem não teria? Não do homem em si, nem de que ele era. E sim do que ele representava: a possível morte da sua família.
Então James agiu por medo e não por coragem. Porém, não dizem que coragem não passa de uma ação movida pelo medo? Você encoraja-se para agir contra algo que teme. Soa heroico, de certa forma.
Só que não sentia-se muito heroico por muitos anos.
"Você salvou a todos, Prongs. O seu maior medo era perder Lily e Harry, e ambos estão vivos" diria Sirius, como sempre.
E responderia, como sempre, que não salvou sua família. Comprou tempo para Lily pegar Harry e salvá-lo. Quem salvou a todos, na verdade, foi ela. Ao pegar Harry, sair da casa, aparatar para a Ordem, deixar Harry e voltar com ajuda.
Sem ela e seu ato tão logicamente calculado, friamente realizado, Harry não estaria a salvo na sede da Ordem e James poderia estar caído em sua sala, após uma longa luta contra Voldemort. O maroto achava que até poderia ter chances de derrotar o tal "Lorde das Trevas", mas enquanto agia com o coração naquela noite? Seria difícil.
Hipóteses. Nada mais do que hipóteses. A vida é feita delas. Ele poderia ter morrido. Não morreu. Harry poderia ter morrido. Não morreu. Lily poderia ter morrido. Não morreu.
Eles estavam bem. Mais um dia 31 de outubro se passava e as hipóteses continuavam ali.
Todas elas. Inclusive as boas.
Entrou no Cabeça de Javali tarde daquela noite. Vestia seu uniforme de combate pela segunda vez naquela semana, mas tinha tirado o seu broche de "Auror em Serviço". Queria apenas poder tomar um bom firewhisky e ir embora, descansar.
Estava cansado de combates. Poderia ocorrer um ali mesmo e ele apenas viraria o último gole do seu copo e iria embora.
— Um firewhisky, por favor — pediu, sem nem perceber com quem falava. Provavelmente era Aberforth Dumbledore, mas não queria bater papo.
Sua nuca começou a formigar e nem um segundo depois, seus olhos foram puxados para um canto do bar, fixando nos bonitos olhos de Lily, sentada em uma mesa dupla, quase no escuro.
Ela estava tão estática quanto James, parecendo muito surpresa.
Dia 31 de outubro de 1991. Dez anos depois do ocorrido, e ali estava a mulher com a qual lutou lado a lado.
Pela qual lutou.
Alguns segundos encarando-se depois, Lily desviou o olhar. A ruiva pegou o próprio casaco que estava na cadeira em sua frente e o depositou em seu colo, olhando para ele novamente.
Um claro convite para que ele sentasse.
Deveria ir? Por que deveria?
Por que não deveria?
Pegou seu copo e afastou-se do balcão. Sentou-se em sua frente devagar, demonstrando a sua insegurança sobre ser isso mesmo que ela queria.
— Boa noite, James.
A voz dela não tinha nenhum tom que o desencoragasse de estar ali, então pôde relaxar um pouco mais na cadeira.
— Boa noite, Lily.
Era claro o quanto a cabeça de ambos berrava a incredulidade de se encontrarem naquele dia, tão aleatoriamente.
— Me seguindo? — ela perguntou, sorrindo logo após e quebrando aquele clima bizarro.
— Ou o contrário?
Lily deu de ombros.
— Eu estava aqui primeiro.
— E você sabe como realizar uma perseguição perfeita: esteja no lugar antes da presa — respondeu ele.
— Claro, aprendi com o mestre.
James não pode não rir um pouco. No sétimo ano, quando tudo estava mais leve entre eles, mas nada ainda tinha acontecido, James poderia ser encontrado na biblioteca logo após o café da manhã...antes de Lily chegar por ali, alegando coincidência. Eles conversariam por horas, deixando os livros de lado, enquanto também tomavam bronca das risadas altas.
Os marotos também poderiam ser encontrados em um lado do jardim, onde Lily e as amigas gostavam de passear no fim de tarde. Eles acabariam conversando ou aproveitando qualquer tipo de jogo que Sirius inventaria na hora.
Ele também sabia que após receber cartas de fora de Hogwarts, Lily desceria até o salão comunal de madrugada para pensar e se isolar. James também estaria ali quando ela chegasse, mas certificaria que a ruiva gostaria da sua presença. Muitas vezes recebia um sim. Algumas recebia um não, então ele prontamente a deixaria — com o coração na mão, claro —, respeitando o seu espaço e sua tristeza.
— Isso ainda está para ser discutido, pois eu não faço ideia do que esteja falando, Evans — frisou o seu sobrenome, da maneira que trataram-se por tantos anos.
— A sua ingenuidade nunca me convenceu, Potter.
Ele deu um gole em seu whisky.
— Pena, não sabe o quanto de neurônio poderia conservar sabendo que sou apenas um cara que acorda cedo, gosta de estudar e ficar de madrugada em salas comunais.
— E ter um novo lugar favorito nos jardins também.
— Claro, isso também.
Os dois sorriam com nostalgia. Era algo bom a se lembrar em um dia onde as lembranças eram tão pesadas.
— Além do mais...— Lily voltou a falar. — Eu moro em Hogsmeade. Qual a sua desculpa?
Touché!
— Eu moro longe daqui, por isso gosto de vir até o Cabeça de Javali para poder sair um pouco do meu convívio.
— Desculpa horrível, assim como "vim estudar para a dissertação de Transfiguração", quando eu já o tinha visto terminar a mesma na noite anterior na sala comunal.
— Você deve ter se confundido, pois eu não faria isso — riu, sem graça. Lily o acompanhou, apesar de com um pouco mais de entusiasmo. — Aliás, mesmo depois de tantos anos, você ainda me surpreende com essas falas, demonstrando o quanto me observava. Quem fica observando outra pessoa escrever em um pergaminho?
— Uma pessoa muito intrigada, curiosa e interessada pela outra.
James tinha certeza que seus olhos estavam doces, como se sorrissem, pois os sentia leves. Mesmo após anos, mesmo após ter sido casado com ela e terem passado por tudo o que passaram, ouvir isso era como voltar ao sétimo ano e saber que a garota pela qual você é apaixonado, demonstra interesse por você.
— Isso explica o motivo de eu saber quando você sempre terminava os seus relatórios e informava Sirius que ele podia tentar pedir emprestado o de Poções.
Lily sorriu.
— Eu também aprendi com o mestre isso — repetiu ela.
— Não que eu ficasse te perseguindo e observando todos os anos, claro.
— Não, isso é verdade. Mas fazer isso durante um tempo foi o suficiente para me passar seus ensinamentos e eu poder colocá-los em prática..
Recostou-se na cadeira, tomou o ultimo gole do seu firewhisky, e a admirou.
— Fico feliz em ter sido um professor tão bom. E vamos ficar felizes por você ter aprendido a observar intrigada, curiosa e interessada, ao invés de ficar bagunçando o seu cabelo e tentando aparecer para mim. — Parou sua frase por um momento. — Na verdade, eu acho que isso também funcionaria e eu cairia nessa armadilha de qualquer jeito.
Ele riram, porque era verdade. Caso Lily decidisse, a qualquer momento após o quinto ano, bagunçar seus cabelos e ficar jogando feitiços aqui e ali para ter sua atenção, poucas horas disso seriam o suficiente para que ele se jogasse em sua frente e a pedisse em casamento.
— Talvez — ela respondeu. No segundo seguinte, Lily enfiou a mão pelos fios ruivos, bagunçando-os e os jogando para o lado. Com a outra mão e sem varinha, enviou algumas moedas até o balcão e trouxe magicamente um outro copo de firewhisky até ele. — Nunca saberemos.
Percebeu que seus lábios tinham descolados quando seus dentes bateram levemente um no outro ao fechar a boca. Seu coração também tinha descompassado, seus olhos pareciam secos demais por não ter piscado por longos segundos.
O começo do sétimo ano foi cheio de brincadeiras como essa. Quando James via-se em conversas instigantes com Lily Evans — tão leve, sorridente e acessível —, a sua mente mal acreditava. Via a oportunidade de algo chegando, mas tinha receio de dar um passo errado e ferrar com tudo. Eles se resolveram para valer apenas no Natal, mas poderia ter sido muito antes caso não tivesse sido tão precavido.
Um primeiro beijo já tinha até ocorrido, mas uau, como ele quis cimentar bem aquele caminho para que o beijo não fosse a única coisa que teriam na vida.
Não culpava alunos que mal acreditavam que tinham ficado juntos, casados, tido um filho. Era algo tão fora do normal dos primeiros anos. Até ele custava conectar aqueles dois adolescentes com os dois adultos reunidos anos depois.
Foram tantas coisas boas. Um caminho que foi bem cimentado sim, pois sem isso, eles não conseguiriam passar pelo o que passaram juntos. Não passaria por toda a guerra ao lado de outra pessoa, pois apenas Lily seria o seu encaixe para isso.
A guerra. James encarou o copo entre suas mãos, deixando o sorriso esmaecer pouco a pouco, quando a lembrança do que o dia representava voltou como um jato d'água em sua mente.
Não olhou para ela, apenas tendo os olhos bem fixos no firewhisky quase estático em seu copo.
— Deveríamos estar com esse humor neste dia? — Lily o trouxe de volta à mesa, com certeza percebendo a mudança de humor repentina dele, fazendo-o levantar os olhos. Ela parecia um pouco perdida, enquanto olhava em volta, estudando o lugar, antes de virar-se para ele. — Nós vencemos, James. Há dez anos, nós vencemos. Saímos do nosso esconderijo com vida, Harry à salvo em nossos braços, e Voldemort apenas uma memória. Então eu pergunto: por que estamos com esse humor neste dia?
— Difícil dizer. — Mentira, não era. Ele sabia sim o que dizer, mas antes de sequer pensar em algo para contornar o "foi o começo do fim", Lily continuou.
— Por que eu vim jantar, sozinha, no Cabeça de Javali? — Lily estava consternada. — Quinta-feira, uma noite razoavelmente fria, Halloween...e eu, com esse humor horrível, decidi que deveria comer essas batatas que estão bem secas, aliás, aqui. Por quê? Por que não no Três Vassouras, com aquela deliciosa sopa de Halloween? Por que não em casa, com um chá?
Claramente era um monólogo, então o maroto apenas apoiou o queixo na mão e a assistiu reclamar um pouco mais:
— Dizem que tem uma inesperada tempestade de neve nos Estados Unidos nesse momento, o que eu acho fantástico. Eu posso ir até lá, se eu quiser, e voltar antes do relógio bater meia-noite. Mas decidi vir até aqui e pensar o quão complicado tudo é. E por quê?, eu pergunto novamente. Estamos vivos! — A ruiva riu por um segundo. — Olha você, vivo. Harry, o nosso maravilhoso Harry...está bem. — Lily pegou os talheres e começou a cortar as batatas, parecendo decidida. — Eu vou te dizer algo, James Potter, e você vai me ouvir bem: nós somos vencedores. Nós merecemos estar comendo algo melhor que essas batatas, mas eu digo mais...— Ela colocou um monte das tais batatas na boca, cobrindo-a com a mão para continuar. — ... eu também mereço estar comendo-as secas, porque hoje simplesmente é um dia como outro qualquer, apesar de ser um dia de vitória. E quer saber mais? Se não quisermos fazer esse o dia da vitória, tudo bem. Mas não faremos ser o dia da derrota. — James teve a faca apontada para ele. — Porque não fomos derrotados! Nós ganhamos e sempre vamos ganhar.
Colocando mais batatas secas na boca, Lily mastigava quase com raiva. Ela chacoalhava a cabeça de vez em quando ao continuar a olhar por todo o ambiente. O monólogo não tinha acabado na cabeça dela, mas James não sabia se ela não queria continuar em voz alta por achar que ele não estava interessado ou por não querer compartilhar o que pensava naquele momento.
Tomando um longo gole do seu copo, junto com as palavras de Lily, James assentiu.
— Você está certa! — concluiu. — Mais do que certa.
Lily deixou seu quase finalizado prato de lado, cruzando os braços em cima da mesa e olhando-o profundamente:
— Nós deveríamos comemorar todo Halloween ao invés de nos colocar pra baixo. Vimos muitos dos nossos perder a vida, sem poder estar aqui para poder aproveitar de batatas secas ou um copo de firewhisky. Então por que não estamos tirando o máximo da nossa vida, que já esteve em risco tantas vezes? — Lily sorriu para ele, tentando tirar um sorriso dele também. — Lembra das tantas festas que os marotos davam em Hogwarts? Uma vez, depois de umas cinco festas no mesmo mês no sexto ano, eu finalmente perguntei para o Remus "qual a ocasião?" e você respondeu do outro lado da sala "e precisamos de ocasião para celebrar a vida?".
Aquela lembrança o atingiu em cheio. Era uma época em que eles simplesmente tinham acesso a tudo no castelo com o mapa completo; o processo de animagia já estava feito e não precisavam perder muito tempo do dia para estudarem sobre algo gigante que queriam fazer. Então por que perder tempo dormindo? Poderiam festejar até o dia amanhecer.
Festejar tudo, festejar nada. Simplesmente festejar.
Lily e as amigas eram sempre convidadas. James já aceitava a tal rejeição de Lily, entendia que não adiantava de nada tentar ser algo em sua frente para chamar sua atenção, pois não funcionava. Decidiu por ser ele mesmo, enquanto sua maturidade o alcançava junto. Isso resultou em muitas festas onde pôde aproveitar um pouco mais perto dela, ainda que não tentasse nada.
Aquilo os aproximou, ao ponto de tudo virar no ano seguinte.
— Você celebrou bastante — comentou ele.
— Porque vocês nos mostraram que tinha mais a ser celebrado. A vida estava difícil, mas não existia uma ameaça direta. — Lily se apoiou na mesa, aproximando-se dele. — A ameaça existiu depois disso, mas já não existe mais. Estamos bem, James. Tudo isso acabou. Vamos celebrar até o fim ao invés de remoer!
Pegando o seu copo — que James não sabia o que havia dentro —, Lily o levantou em sua direção. O maroto pegou o próprio copo e brindou com ela.
— Ao nosso filho feliz e seguro; aos nossos amigos felizes e seguros; à nossa vida sem ameaças...seguros. Felizes. — A voz dela falhou um pouco na última palavra. Claramente ela tentou disfarçar, mas James conhecia muito das nuances de Lily para que ela escapasse dessa sem que ele visse.
Lily não estava feliz, mas parecia muito disposta a querer reverter a situação, considerando o seu discurso de minutos atrás. Não era uma grande novidade para ele. Desde que a reencontrou, entre coincidências aqui e ali ou visitas dela em seu escritório, ela já havia deixado claro que as coisas não iam bem.
Tinha em mente que não possuía poderes para mudar aquilo. Não sabia o que a deixava para baixo e sentia que, independente de estarem com uma boa relação naquele momento, seria um pouco invasivo perguntar o que lhe deixava tão mal. Havia perguntado uma vez, querendo saber o motivo da sua mudança da Inglaterra, e Lily estava fechada para o assunto. Então não insistiria.
O que podia fazer, pois parecia muito importante para ela, era manter tudo seguro.
Por muito tempo, ela viveu sob julgamentos, xingamentos — e vindos até de pessoas que ela nem esperava —, dúvidas por conta de ser nascida trouxa. Depois, ameaças por ser nascida trouxa...quase morreu por ser uma. Apesar de hoje ainda haver muita discriminação, ela fez seu caminho e vivia confortavelmente no mundo bruxo. Sobre isso ele poderia ajudar, fazer seu trabalho, mantendo tudo seguro para ela.
Ambos deram um gole de sua bebida após brindarem.
— Obrigado, Lily. Acho que precisava ouvir isso.
— E eu, de dizer. Obrigada por ouvir.
Os olhos se fixaram novamente, mas com mais intensidade. Era sempre um enorme prazer olhar para ela e não só por sua beleza. Lily transmitia paz, mesmo quando estava em guerra. Por anos, ela foi o seu porto seguro. Sentia-se o cara mais sortudo e seguro do mundo quando estava em seus braços e não só por saber que ela era uma exímia duelista, uma bruxa magnífica, mas por ter toda a paz e tranquilidade necessária. Todo o amor e a calma que Lily emanava.
De repente, Lily cortou o contato visual com ele, um pouco perdida. Pegou o casaco na cadeira ao lado e levantou-se de repente.
— Foi bom te ver, James.
Um final de conversa um pouco abrupto, diria o maroto, mas não iria comentar nada.
— Foi bom te ver, Lily.
A ruiva fez um gesto com a cabeça e passou por ele.
James respirou fundo, bebendo o resto de firewhisky. Seu pescoço formigou, fazendo-o virar-se para trás. Ali, encontrou Lily parada, olhando para ele.
— Celebrar a vida. Não esqueça disso, Prongs — disse ela, sorrindo levemente. Começou a tirar algum fio inexistente do casaco em seus braços e continuou, sem olhar para ele dessa vez. — Eu não me importaria de ter mais conversas...assim. Ou, outras. Ou caso você precise conversar ou até mesmo... — Ela deu de ombros, ainda tentando tirar o fio imaginário do casaco. — Entende? Digo... conversas.
Virando-se na cadeira e apoiando os braços no encosto, James tentou não sorrir.
— Você quer ser minha amiga, Evans?
Ele havia feito essa mesma pergunta para ela no começo do sétimo ano, quando Lily sentou-se ao seu lado no café da manhã de um dia qualquer, quando suas amigas e os marotos não tinham descido ainda, e ela começou a conversar com ele normalmente. Aquele James adolescente não resistiu a brincadeira e perguntou.
A Lily do presente riu, um pouco diferente da Lily do passado que arregalou os olhos por um segundo e começou a pegar panquecas, tentando se recuperar da surpresa.
— Se isso me levar para alguns lugares interessantes, por que não? Eu acho que posso ter muitas vantagens — Lily respondeu. Exatamente como respondeu naquele café da manhã de tantos anos atrás.
Aquilo o fez sorrir de verdade agora.
Sem mais, ela deu as costas e saiu do Cabeça de Javali, deixando um James um tanto quanto reflexivo para trás.
O que diabos estava acontecendo? E onde aquilo iria parar?
— Gostaria de mais uma, Potter?
A voz de Aberforth atraiu sua atenção, fazendo James olhar para o seu segundo copo vazio e depois para o homem.
— Não, eu vou parar nesse.
O dono do Cabeça de Javali jogou o pano por cima do ombro e cruzou os braços.
— Dia difícil?
— Apenas cansado do trabalho.
Voltou sua atenção ao copo vazio, querendo voltar com os pensamentos sobre aquela interação com Lily que tivera. Parecia muito mais agradável do que falar com qualquer um que seja sobre o dia em si.
— Caso precise de uma passagem para encontrar o seu garoto, sabe onde encontrar uma aqui — disse Aberforth.
Sabia de muitas maneiras para entrar em Hogwarts, inclusive aquela. Imaginava que o seu antigo companheiro de Ordem da Fênix não sabia que o maroto as conhecia, mas ficou agradecido pela sugestão.
Muitos "31 de Outubro" foram passados com Harry, inclusive aqueles em que ainda estava com Lily. Aquela frase de Aberforth só lhe deu mais vontade de estar com o filho novamente. Mas não iria interrompê-lo. Neste momento, o jantar de Halloween acontecia e Harry poderia aproveitá-lo pela primeira vez. Esperava que o comitê de Monitores tivesse tido uma boa ideia esse ano, fazendo algo diferente.
Lembrava do seu último jantar de Halloween, quando era Monitor-Chefe, e resolveram deixar tudo "à moda trouxa", com fantasias e pedidos de "Gostosuras ou Travessuras".
Mal podia esperar pela carta do filho em alguns dias, contando tudo o que aconteceu.
Aquilo, junto com a conversa com Lily, lhe tirou um sorriso verdadeiro pela segunda vez naquela noite.
— Dumbledore! — chamou pelo irmão de Albus, que tinha se afastado. — Mudei de ideia. Um outro copo. — O homem assentiu e foi buscá-lo, enquanto James sentia o conforto que o pensamento do filho estar bem e de Lily tão acessível lhe tomar. Aquilo era bom. — Celebrar, festejar. Vamos beber um copo para isso, afinal.
E assim terminaria aquela noite tão complicada: com um sorriso no rosto e a certeza de que as coisas estavam caminhando melhor do que esperava.
Sexta-Feira...
Mas havia o dia seguinte. Sempre havia o dia seguinte.
Não estava de ressaca, pois os copos de firewhisky estavam bem dosados e rasos, mas estava cansado.
Esfregou os olhos, tentando manter o foco no que lia. Um relatório enorme de um dos Aurores prestes a sair da Academia parecia dançar diante de seus olhos, não fazendo sentido algum. Do seu outro lado, um pergaminho com alguns rabiscos sobre algumas ideias de como comemorar o aniversário de Sirius em dois dias. Esse último teria que ficar para depois, pois James via seu trabalho ficando para trás agora.
Não, não era um relatório ruim, mas longo, e James não estava muito concentrado. Apesar da noite ter terminado bem, a madrugada foi um pouco diferente enquanto encarava o teto e rolava na cama, sem grudar os olhos nem por um segundo.
Estava com raiva de si, mas não por não ter levantado e tomado alguma poção para ajudá-lo a dormir, mas por estar tendo aqueles pensamentos. Por pensar em Lily. Por pensar nela e de um jeito que não deveria.
Estavam ficando próximos novamente, com encontros, até cartas já tinham trocado. Ela estava virando uma figura recorrente em sua vida após tanto tempo e aquilo estava deixando-o um pouco na defensiva, ao mesmo tempo que uma outra parte sua estava ficando contente até demais.
Abaixou a cabeça nas mãos, perdido. Esse tipo de questionamento já tinha feito parte da sua vida no último ano de Hogwarts, quando não sabia se Lily estaria disposta a entrar naquilo com ele, mas hoje era diferente. Muita coisa tinha acontecido, muita mágoa foi sentida.
Lily tinha um namorado, pelo amor de Merlin.
O outro lado seu, o positivo e masoquista, pensou que muito amor também aconteceu e foi sentido. Que Lily também teve namorados em Hogwarts e nenhum deles saiu dali com ela. Foi ele!
Suas vidas como duas pessoas que se amam não foi algo insignificante e fácil de esquecer. Era algo enraizado, mesmo com alguns espinhos e...
— Potter!
Levantou a cabeça com rapidez, dando de cara com Alastor Moody parado em sua porta. Não o via por semanas, longas semanas, nem saberia quantas.
Após a ausência tão longa, James imaginava que o veria com mais cicatrizes do que o normal e talvez faltando outra parte de seu corpo. Não por desejar isso para o homem, mas porque o velho Auror era assim: se jogava nas batalhas valendo tudo ou nada, sem se preocupar se voltaria com um membro faltando.
Hoje, Moody parecia como na última vez em que se viram, sem algo a mais ou nem algo a menos, quando a vida de James ainda seguia tranquila e sem pensamentos de Lily o impedindo de dormir.
— Moody.
— Preciso falar com você.
A voz de trovão do Auror fez com que James caísse contra o encosto da cadeira.
— Certo — James respondeu com desconfiança.
— Agora!
Moody saiu para o corredor.
Aquilo não cheirava a coisa boa. Alastor Moody dificilmente aparecia no Departamento de Investigação e quando aparecia... bem, nunca era para tomar um chá.
Levantou, sem saber se precisava levar um pergaminho para anotar algo, mas algo dentro de si, no seu âmago, lhe dizia para apenas ir.
Sentia que havia uma esfera brilhante no centro do seu corpo que começava a crescer e comprimir tudo, trazendo uma sensação de angústia. Não entendia o que acontecia, talvez devesse chamar aquilo de medo, medo puro e simples de que algo iria acertá-lo de uma maneira que não estava esperando.
Saiu da sua sala e pegou o corredor, dirigindo-se até a sala de reunião, mas um "Psi" chamou sua atenção. Ele deu dois passos para trás e olhou para dentro de uma das salas de treinamento da divisão de Aurores que acabara de passar.
— Aqui! — O Auror-Chefe fez um sinal com a mão para que ele entrasse.
James olhou da sala de reunião no fim do corredor, de volta para a sala de treinamento. Aquilo estava ficando pior a cada segundo.
Entrou na sala, que era iluminada apenas pelas pequenas frestas da cortina bem fechada. Aquela janela, assim como a sua, daria vista para o átrio do Ministério e raramente as mantinham fechadas, a não ser que lidavam com algo muito importante.
A porta se fechou em suas costas e James, agora, estava naquela sala gelada e nada convidativa com um dos Aurores mais doidos que conhecia. E que tinha algo para lhe falar, escondido de todos.
— Como foi a viagem, Moody?
Se é que ele estava viajando. Não aparecendo por ali e sem ter fofocas de estar em St Mungus, James só podia imaginar que ele estava fora, em missão.
— Corta essa, rapaz. Não temos tempo a perder.
O homem estava muito inquieto e aquilo não estava ajudando.
— Então não perca mais tempo e fale.
Moody espiou pelas cortinas uma vez, antes de se virar para ele.
— Eu não estive fora para o Ministério, ou não diretamente. Foi a pedido de Albus Dumbledore.
Não gostava daquilo antes e estava gostando menos ainda agora.
A Ordem da Fênix não existia mais, por assim dizer. A entidade ainda era algo concreto, Dumbledore continuava sendo o líder, o cabeça de tudo, mas estavam inativos por anos. Todos os participantes ou trabalhavam ativamente como Aurores ou ligados a eles, ou conseguiram seguir carreiras longe dos perigos ou...mortos. Não havia mais "viver pela Ordem".
O fato de que Dumbledore pediu algo à Moody depois de tantos anos e tudo o que passaram desde 1981, a caça às horcruxes, a iminente morte de Voldemort, as prisões de Comensais...aquilo era estranho.
Seus ouvidos estavam tampados, fazendo sua respiração tão alta em sua cabeça. Aquela esfera dentro de si parecia tomar conta de todo o seu corpo, não mais comprimindo, mas esmagando tudo o que encontrava dentro dele.
— Onde?
— Albânia.
Engoliu com dificuldade.
— E o que Dumbledore queria que você fizesse lá? — Moody olhou novamente pela cortina, deixando James ainda mais nervoso. — Inferno, Alastor, abra essa maldita boca de uma vez!
Nunca tinha falado assim com ele ou com qualquer outra pessoa que trabalhava diretamente. Já teve suas desavenças com colegas de trabalho e até alguns membros da Ordem na época, mas ali, no Ministério? Nunca. Muito menos com Alastor Moody, que poderia acabar com a sua vida em um piscar de olhos.
— Eu tenho que tomar cuidado, rapaz — ele respondeu, sem explodir pela indelicadeza da sua impaciência mal colocada de antes. — De qualquer maneira, Dumbledore me enviou à Albânia para conferir alguns rumores...
— Quais rumores? — perguntou, sem deixar Moody terminar. Estava apressado, precisava saber, precisava ouvir a maldição de informação que ele queria lhe passar.
Virando-se para James e o encarando com aquele olho que deixava o maroto tonto as vezes só de olhar, Moody respirou fundo:
— Eu posso dizer com certa propriedade que ele está de volta. — As mãos de James se fecharam em punho. — E ele está à procura de uma das horcruxes para escondê-la.
Não!
Não, não!
Não é verdade, porque não é possível!
Queria poder dizer o que pensava, mas não conseguiria. Tudo voltava tão rapidamente na sua cabeça: suas primeiras batalhas na Ordem contra Comensais; as três malditas vezes que confrontou Voldemort; a descoberta da profecia; Potter Cottage; a quarta maldita vez que o confrontou...
Harry e Lily.
— Isso não é possível — disse em um fio de voz, pois não tinha voz. Sua garganta não parecia saber como deixar o ar passar, sua língua estava estranha. — Não há mais horcruxes, nós eliminamos todas elas.
— Aparentemente, não.
Não. Aquilo não era possível, não era. Eles eliminaram todas as horcruxes, Voldemort, os seus seguidores. Tinham desmantelado tudo, acabado com tudo.
Ele tinha certeza disso, porque a sua vida acabou junto com tudo aquilo. Seu casamento, sua família...ela tinha sido arruinada por conta disso. Cada vez que lembrava, um pedaço dele morria, mas não se importava de se sacrificar por essas lembranças, porque ele fez tudo o que podia para manter as duas pessoas que mais amava a salvo.
Sacrificou seu amor por eles para mantê-los vivos. Não gostava disso, mas aceitou anos atrás.
Então Voldemort não estava voltando, porque ele não aceitaria ter perdido tudo o que perdeu para não ter valido a pena.
— São informações falsas. Voldemort está quase ou já morto, ou praticamente sem esperança de voltar.
— Voldemort está vivo, Potter. E mais: pronto para voltar.
Aquela esfera de luz que crescia em seu peito pareceu explodir. O calor que sentiu com a raiva que o dominou só podia ser fruto de uma implosão.
— Vocês...! — Sua voz estava tão carregada de ódio, que mal se reconhecia. — Vocês: Dumbledore, você e a Ministra na época...vocês disseram que era o fim. Que após recuperarmos e destruirmos todas as horcruxes, tudo estava terminado.
— Era o que deveria ser.
— POR QUE ELE ESTÁ VOLTANDO, ENTÃO?
Deu as costas para Moody e saiu da sala, desorientado, como se alguém o tivesse acertado com um Obliviate e agora não sabia para onde ir, onde estava ou quem era. Mas então isso seria uma benção, pois poderia esquecer o que acabara de ouvir de Moody.
Era uma imbecilidade sem tamanho.
Voldemort não estava pronto para voltar. Não. Ele não aceitava isso.
Mal percebeu que entrou na própria sala e se jogou na cadeira, encarando o vazio.
Sua mente estava lutando tanto, que mal sabia o que fazer.
— Quis avisá-lo pessoalmente e em particular. — A voz de Moody surgiu em sua porta novamente, mas James não levantou o olhar dessa vez.
— O que quer dizer? — perguntou, tirando forças do além para aquela simples pergunta.
— Quer você queira ou não, ele está de volta. — James teve o rosto contorcido de dor e raiva, antes de Moody continuar: — Isso quer dizer que a Ordem da Fênix também está.
Enfiou o rosto nas mãos, não acreditando.
A sua vida, tudo o que lutou anos atrás, tudo o que tinha feito...tudo pelo ralo. Tudo jogado fora.
Ele falhou. Falhou em deixar sua família a salvo, falhou como um membro dela. Falhou como marido, como pai, como maroto.
Falhou.
E aquilo doía como um inferno. Na sua alma, na sua cabeça, no seu peito...na porcaria do seu corpo inteiro, quase sugando toda a sua energia.
— O que Dumbledore disse? — Sua voz estava completamente sem emoção agora, um contraste enorme com alguns segundos atrás.
Estava curioso, mas também mal se importava.
— Ele não sabe.
Aquilo fez James levantar a cabeça e virar para a porta.
— Não sabe?!
— Não. Achei que você gostaria de saber antes. — Era uma surpresa parecida com um soco no estômago, deixando-o sem ar. — Mas estou indo encontrá-lo e os outros saberão na reunião.
— Quando?
— Hoje! Enviaremos a convocação. — Moody parecia pronto para sair. — Mas ninguém é obrigado a vir.
Assim, o Auror-Chefe saiu de sua sala. James levantou e correu.
— Espere. — Moody parou, claramente a contragosto. James se aproximou dele, conferindo se estavam sozinhos ali. — Amanhã. Peça por uma reunião amanhã.
— Não temos tempo a perder! — Alastor grunhiu de volta.
— Um dia não fará diferença para a Ordem, mas fará para mim, para nós. — Moody franziu a testa, então James respirou fundo. — Eu preciso falar com Lily antes. Ela não merece descobrir isso junto com os outros.
Era nítida a falta de jeito que o homem na sua frente levava com alguns sentimentos, mas James sabia que havia muito ali dentro. Se Alastor Moody fosse tão frio e sem coração — como muitos o julgavam —, ele não teria vindo até James primeiro. Partiria até Hogwarts e contaria tudo o que viu para o homem que pediu por aquela excursão.
Lily era o membro da Ordem mais querida entre todos, inclusive Moody. Ela brincava e o deixava sem graça muitas vezes, fazendo o homem criar um carinho por ela. Do jeito dele, mas criara.
— Você tem hoje para contar. Amanhã, a Ordem se reunirá.
E sem mais, Moody partiu.
E James, sem mais, entrou em sua sala e desmoronou.
FIM DO ATO I
p.s como sempre, informações sobre postagens e todo o resto, no Instagram ;) Não das palavras bondosas para essa pessoa que postou tão repentinamente :P
