J~L
No capítulo anterior:
"— Voldemort está vivo, Potter. E mais: pronto para voltar.
Aquela esfera de luz que crescia em seu peito pareceu explodir. O calor que sentiu com a raiva que o dominou só podia ser fruto de uma implosão.
— Vocês...! — Sua voz estava tão carregada de ódio, que mal se reconhecia. — Vocês: Dumbledore, você e a Ministra na época...vocês disseram que era o fim. Que após recuperarmos e destruirmos todas as horcruxes, tudo estava terminado.
— Era o que deveria ser.
— POR QUE ELE ESTÁ VOLTANDO, ENTÃO?
(...)
— Espere. — Moody parou, claramente a contragosto. James se aproximou dele, conferindo se estavam sozinhos ali. — Amanhã. Peça por uma reunião amanhã.
— Não temos tempo a perder! — Alastor grunhiu de volta.
— Um dia não fará diferença para a Ordem, mas fará para mim, para nós. — Moody franziu a testa, então James respirou fundo. — Eu preciso falar com Lily antes. Ela não merece descobrir isso junto com os outros.
(...)
— Você tem hoje para contar. Amanhã, a Ordem se reunirá.
E sem mais, Moody partiu.
E James, sem mais, entrou em sua sala e desmoronou."
O seu patrono foi enviado dez minutos depois que Moody saiu de sua sala, depois que James conseguiu se deslocar do sofá sem cair — literalmente — , indo até sua mesa.
Não sabia se Lily responderia, não sabia se ela aceitaria encontrá-lo, mas teriam que conversar.
Não queria dar aquela notícia, não desejava nunca dar aquela notícia. Por que, afinal, o que significava? Teriam que se esconder novamente? Tirar Harry de Hogwarts e desaparecerem?
Voldemort viria atrás de Harry?
Ou apenas tentaria se recuperar, juntar seus hominhos restantes e fazer uma festa da ressurreição?
Ele insistiria na profecia?
Tantas perguntas, nenhuma resposta. E seu corpo parecia colapsar a cada segundo enquanto sentia a agonia, a tristeza, a culpa.
Um patrono em forma de corça atirou sua atenção ao atravessar sua porta fechada, e seu coração disparou.
— Estarei disponível às 20h. Te espero em Hogsmeade.
A voz de Lily encheu a sala e o seu peito, apenas para senti-lo desinflar logo depois. O fato de ela aceitar encontrá-lo sem perguntas ou dúvidas era algo sem descrição, mas a razão de ter que encontrá-la o jogava para baixo.
Passou a tarde inteira e o começo da noite trancado em sua sala. Havia um mapa da Albânia aberto em sua mesa, pergaminhos e mais pergaminhos de informações sobre atividades suspeitas que, anteriormente, não significavam nada, mas hoje poderiam dar alguma informação relevante sobre o que Moody lhe disse.
Não que Moody tenha dito muito.
Marcou alguns pontos do país onde soube que algo estranho havia acontecido e teria que voltar naquilo mais tarde. Talvez planejar uma viagem para lá e verificar tudo de perto, com os próprios olhos.
Aquelas atividades de magias das trevas de semanas antes. Não podia ser coincidência. Aquela dúvida que ficou, aquela desconfiança de que era algo para investir em descobrir não tinha sido à toa. Se não estava ligado à Voldemort, então era a coincidência mais bizarra de todas.
Às 19h55, saiu do Ministério e aparatou em Hogsmeade. O vilarejo estava razoavelmente calmo, com os poucos moradores voltando de seus trabalhos ou apenas caminhando. Alguns iam até o Três Vassouras e James ouvia algumas altas e divertidas conversas ali.
Caminhou em passos lentos e parou em frente ao Cabeça de Javali. Não sabia onde deveria esperá-la, ou se talvez devesse ter ido até a sua casa, mas honestamente? Não estava raciocinando muito naquele momento, deixando seu corpo tomar conta enquanto sua mente estava presa em um looping aterrorizante, com vários cenários bizarros e assustadores.
Não estava longe de Hogwarts. Poderia chamar Harry e pedir para se encontrar na entrada do castelo. O seu desespero fazia querer mais do que tudo ver o seu filho. Além de Lily. Ambos. Juntos, de preferência.
— Oi!
A voz dela era tão doce, tão acolhedora.
Virou-se na direção da voz e encontrou algo ainda melhor do que ela: a dona. Lily estava tão bonita. Seus cabelos estavam por cima de um ombro, contrastando com a sua blusa preta. Carregava uma jaqueta pendurada no braço e um sorriso leve.
— Oi — respondeu um pouco desanimado. — Obrigado por ter vindo.
— Não há problema.
Lily fez menção de entrar no Cabeça de Javali, mas James limpou a garganta, fazendo-a parar.
— Podemos...? Podemos ir a outro lugar?
Ela estava surpresa pelo pedido dele, mas se achou ruim, não transpareceu.
— Claro.
Aproximando-se, ele ofereceu o braço e não precisou dizer mais nada, pois ela sabia que aquilo queria dizer que eles iriam desaparatar assim como era na adolescência: James sempre dava o seu braço e Lily o segurava forte.
Dessa vez, não foi diferente. Ela enlaçou seu braço e o apertou, fazendo James sorrir verdadeiramente
— Segure-se — avisou, antes de partirem.
Não foram longe. Não queria sair de Hogsmeade, mas também não queria andar pelo vilarejo e perder tempo, então aparatou na Casa dos Gritos.
Não era Lua cheia, ninguém se atrevia ir ali e teriam a privacidade que precisavam.
— Casa dos Gritos, hein?! — ela disse, divertida. — Tantas histórias nesse lugar.
Ele olhou ao redor, observando cada marca, mancha, destruição, remendos. Tudo isso feito pelos marotos e ninguém mais. Um lobisomem e três animagos. Às vezes, apenas quatro caras tentando escapar para Hogsmeade quando não deviam, às vezes usando o lugar de quartel general para decisões importantes sobre a Animagia ou o Mapa, quando tinham receio de serem interrompidos no castelo.
Usavam de estoque para coisas que também não seriam aceitas pelas autoridades da escola. Tudo para uma festa estava estocado ali: bebidas, qualquer coisa para decoração, ideias.
— Lembra da primeira que me trouxe aqui? - perguntou ela.
James não podia esconder o sorriso com a lembrança.
— Como esquecer...? — respondeu, virando-se para ela.
— Você estava tentando provar que era corajoso e não tinha medo da casa, então entrou enquanto me deixava do lado de fora, receosa. — James começaria a rir sem piedade caso não estivesse em um humor tão sombrio e para baixo. Porém, isso não o impediu de sorrir um pouco mais. — Então, comecei a ouvir barulhos horríveis e eu corri porta adentro, tentando te achar.
Nunca esqueceria daquilo. Lily quase botou a porta abaixo ao entrar na casa. A varinha em uma mão, os olhos arregalados, mas uma expressão determinada. Se James estivesse mesmo em perigo, ele não tinha dúvida de que ela o salvaria considerando o quanto parecia pronta para enfrentar o que estava atacando-o.
— No final, vimos que a verdadeira corajosa era você — concluiu ele. Aquilo arrancou um sorriso sincero, porém tímido, dela. — Sempre foi, você sabe.
— Eu acho que você apenas está deixando de ver o lado verdadeiro disso.
Aquilo o intrigou.
— O que quer dizer?
— Às vezes a coragem não é sobre o que se enfrenta, mas sobre quem queremos salvar.
O pequeno sorriso que James abriu alguns segundos atrás ficou um pouco maior e mais leve, apesar de seus olhos não acompanharem realmente aquela leveza. Seu coração ainda estava doendo pelo o que viria, mas Lily o pegava agora e o aquecia mesmo sem nem imaginar o bem que estava fazendo.
Ela o havia salvado e ajudado inúmeras vezes, aquilo não era novidade. Ouvir aquilo quando sentia-se tão gelado por dentro, porém, era imensamente bom.
Lembrar-se de que tudo aquilo foi real era imensamente bom.
Antes de ele sequer perder as forças e a coragem para o que vieram fazer, suspirou e apontou para o andar de cima, indicando para subirem. Lily tomou a frente nas escadas, sendo seguida por James.
Apenas agora ele notava o quanto ela estava bem arrumada. Lily estava em algum outro lugar ou realmente se arrumou para encontrá-lo?
Isso não interessa, James. Isso não é da sua conta.
Chegaram em um dos grandes cômodos no primeiro andar. Ali, ele acendeu algumas velas e duas pequenas lamparinas ainda de sua época. Aquele lugar lhe trazia tantas boas lembranças, umas das melhores de toda a sua vida.
Não que Remus fosse concordar.
— Desculpe, não é o lugar mais limpo e aconchegante.
— Não tem problema. Mas por que me trouxe aqui? — Lily perguntou, olhando ao redor e decidindo pendurar seu casaco na maçaneta da porta, provavelmente o lugar menos sujo dali.
— Eu não consegui pensar em qualquer outro lugar privativo para isso.
— Poderíamos ter ido na minha casa. É um lugar privativo.
Aquela frase poderia ser interpretada de tantas maneiras. Se James não estivesse naquele estado de espírito, provavelmente teria feito uma piada bem boba e infantil.
— Eu nem pensei nisso.
— De qualquer forma, aqui estamos. Mas por quê?
Começou a se acovardar. Ao olhar para ela, tão bonita e tranquila, tão livre e despreocupada, apenas queria não precisar dizer uma palavra que deveria.
Há tempos não via aquela serenidade em seus olhos. Quando ela foi embora, há oito anos, seus olhos eram carregados de angústia. Poderia dizer que mais angústia do que quando estavam trancados em Godric's Hollow.
Em Godric's Hollow eles ainda eram uma família. Quando ela foi embora, já não eram mais.
— Eu sinto muito, Lily.
Queria cair de joelhos e pedir perdão por tudo. Por ter trazido essa merda de volta em suas vidas, por serem obrigados a passar por aquilo novamente.
Por ter Harry envolvido novamente.
— Pelo o quê sente muito?
Sua garganta estava tão seca. Se ainda tivessem o estoque de firewhisky que mantinham quando eram adolescentes, provavelmente pegaria uma garrafa agora.
— Eu não consegui evitar. — Olhou para ela, que estava confusa. — Falhei com Harry, falhei com você. Falhei com a gente. Falhei comigo mesmo e com todo o resto do mundo.
Lily deu um passo à frente.
— James, do que está falando?
— Eu deveria ter continuado, procurado, estudado mais. Mas eu ouvi Dumbledore, ouvi Moody, a Ministra...me deixei levar, quando eu sabia que ainda havia algo. E falhei.
— Você está me deixando preocupada. Por favor, seja claro.
Olhou para o teto por um momento, tentando encontrar forças e coragem, mas não as achou. Teria que ser sem elas.
Voltou a olhar para a ruiva, a poucos metros dele.
— Ele está voltando.
Lily deixou os braços caírem ao lado do corpo. Por um longo momento, ficou apenas parada, tentando engolir aquela informação.
— Não!
A negação. Sim, ele passou por isso há algumas horas e sabia que ocorreria o mesmo com ela. Não tinha como reagir diferentemente. Apostava que até Moody negou a informação quando estava na Albânia.
Assistiu-a ficar estancada no lugar, olhando para ele, mas James duvidava que ela o via. Seu rosto estava inexpressivo, seus olhos estavam vazios. Só podia imaginar o que passava na cabeça dela, todas as lembranças de anos, do sofrimento, do medo.
Desencostou-se da velha mesa ao ver que Lily não reagia. As únicas mudanças eram em seus olhos: eles perderam o brilho, ficando cada vez mais fundos, caídos. Depois, sua boca entreabriu.
Aquilo! Era por aquilo que tanto lutou para nunca mais acontecer. Lily deveria ser feliz, ela merecia toda a felicidade que existia. Seus olhos deveriam brilhar sempre, seus lábios deveriam sempre sorrir.
James sentia o próprio coração quebrar em mais mil pedaços ao vê-la daquela maneira. Não era para ter sido assim, não era.
A respiração de Lily começou a mudar agora, ficando mais rápida e descompassada. James aproximou-se lentamente dela.
— Eu juro que vou consertar isso. — Ela pareceu acordar ao tê-lo ali, parecendo vê-lo agora. — Eu falhei antes, mas não vou falhar de novo.
— James...!
— Harry vai ficar a salvo, você vai ficar a salvo. — Permitiu-se pegar as duas mãos dela, querendo que ela sentisse o quão verdadeiro estava sendo, o quanto aquele juramento era verdadeiro.
— James!
— Nada vai acontecer com vocês e, dessa vez, eu vou até o fim. — Lily começou a balançar a cabeça, desesperada. — Não precisa ficar assim, tudo vai ficar bem.
— Não, James.
Ela soltou suas mãos e agarrou o rosto dele, colocando a testa contra a sua.
Ah, Merlin. James fechou os olhos enquanto sentia toda aquela descarga de sensações com aquele gesto. As mãos dela o seguravam contra seu rosto, enquanto seus dedos faziam um carinho que ele tanto sentia falta. O cheiro dela, o mesmo cheiro de sempre, lhe atordoou de tão bom, tão familiar.
Sentia-se quase no céu. Lily era a melhor pessoa para lhe oferecer conforto, os únicos braços nos quais ele podia sentir-se em casa. E há quanto tempo ele esteve fora de casa...
— Você não falhou — ela voltou a falar. — Nunca falhou, nunca. Nem comigo e nem com Harry, pelo contrário. Você nos salvou de tudo e todos, estava pronto para partir por nós...
— Ele está de volta.
— E não foi culpa sua.
— Lily, eu fiz tudo o que fiz para consertar tudo e, ainda sim, ele está de volta.
— Você fez o tudo o que achou necessário para nós.
— E não foi o bastante.
— Ele voltar não é culpa sua, muito menos por não ter feito o bastante. Você fez bastante, fez muito, mais do que qualquer um, mais do que todos. Mais do que eu.
— Você fez absurdamente bastante, Lily.
Abriu os olhos ao ouvir Lily fungar: ela estava chorando.
Aquilo foi muito para aguentar, então a abraçou. Forte, com tudo o que tinha: a culpa, o arrependimento, o respeito...o amor. Lily chorava livremente agora em seus braços, fazendo-o deixar algumas lágrimas caírem também.
Não queria vê-la chorar novamente, mas ali estavam com o medo de volta, a decepção.
Ela o afastou um pouco, permitindo que ambos se encarassem. Vendo que ele mesmo deixou cair algumas lágrimas também, Lily as enxugou.
— Olhe para mim — ela pediu. Seu rosto estava tão vermelho agora, mas nunca menos bonito. — Vamos nos acalmar, ok? Eu quero que você se acalme comigo.
— Sim, acalmar — repetiu como um tonto.
— Não estávamos esperando por isso. Acho que nunca pensamos nisso, nunca esperaríamos ouvir isso. — Ele balançou a cabeça, concordando com ela. — Mas estamos mais velhos agora, mais maduros. E por isso, eu quero que você me prometa algumas coisas.
— Qualquer coisa.
Ela sorriu antes de levantar as mãos e segurar seu rosto novamente, enquanto ele mesmo não a tinha soltado do abraço ainda.
Nunca imaginaria que estaria naquela condição com Lily novamente. Era tão maluco o quanto não parecia ter mudado como se sentia, mas também o quanto sentia saudades de estar tão perto dela.
— Primeira coisa: você não vai fazer como da última vez. — Iria começar o seu protesto, mas ela não o deixou. — Você tem que me prometer que não fará isso, James. Que vai deixar as pessoas designadas fazerem seus trabalhos.
— Eu tenho que fazer tudo o que puder.
— Querido, me escute, por favor. — O fato de ela ter chamado-o de "querido" foi perfeito para fazê-lo fechar a boca. Estava em choque. Era como o chamava antigamente quando precisava chamar sua atenção quando ele estava sendo "muito". — Se Voldemort está de volta, então é um problema para todos nós. Muitos podem morrer novamente e todos irão querer pará-lo.
— Mas ninguém têm Harry como nós temos — disse entredentes. — Voldemort o queria, estava atrás do nosso filho e não dos deles.
— E muitos filhos morreram naquela época, o nosso não.
Suspirou.
— Não posso ficar sentado de braços cruzados.
Um flash de dor passou pelo rosto dela. Sentiu suas mãos perderem a firmeza em seu rosto, então ele apertou sua cintura, querendo recuperar aquele aperto.
— A mesma frase — ela soltou, um pouco sem emoção.
James fechou os olhos, entendendo o problema. Era a mesma frase que repetia anos atrás, antes do fim de tudo.
"— James, volte para casa.
— Ainda há duas horcruxes a serem encontradas.
— Todos os Inomináveis estão trabalhando nisso, a Ordem, os Aurores. Todos nós. Mas você precisa voltar também.
— Não posso ficar sentado de braços cruzados, Lily, enquanto existir algo que possa machucar vocês dois."
Aquela tinha sido a primeira vez. Depois, vieram muitas outras e, em cada uma delas, Lily se despedaçava um pouco mais à sua frente.
— Lily, não é a mesma coisa.
— É a mesma coisa. — A voz dela estava menos frágil agora, assim como seus olhos. — Me prometa, James. Você não desaparecerá como no passado, não irá deixar de ser James Potter.
— Lily, eu não sei o que dizer.
— Me prometa! O seu filho precisa de você e não só no campo de batalha. Não faça isso com Harry...ou comigo.
Como ele não poderia lutar até as últimas consequências para salvá-los? Se Voldemort viesse atrás deles novamente, não mediria esforços para protegê-los até o fim.
— Eu não posso prometer isso, Lily. Eu vou fazer e darei tudo o que tenho para salvar vocês. Harry...se ele vir atrás de Harry, eu farei tudo o que puder para que Voldemort não vença.
— Eu não estou te pedindo para não lutar. E isso vem com a próxima coisa que eu queria pedir. — Ela o observava, esperando por alguma negação, mas James apenas esperou. — Vamos fazer isso juntos.
Foi o momento que se distanciou dela, soltando sua cintura, e as mãos de Lily soltando o seu rosto.
Queria gritar um imenso "não", que ecoaria por aquelas paredes de madeiras frágeis. Queria sair correndo, apenas para não ter que ouvir aquilo. Queria acordar daquele pesadelo, encontrar-se na cama ou no seu escritório, então ir até Padfoot e contar que teve um dos piores pesadelos dos últimos tempos.
Mas não, tudo era real. Lily estava na sua frente com o rosto incrédulo, as mãos caídas. Voldemort ainda deveria estar na Albânia ou sabe-se lá onde mais. Seu filho estava em Hogwarts, seguro.
— Você mesma disse sobre deixar isso para as pessoas designadas — foi a única coisa menos impactante que conseguiu dizer.
Porque ele não queria que ela lutasse. Na verdade, pela primeira vez, pensou que a MACUSA era uma ótima ideia. Ela estaria salva, longe da loucura que aquele lugar viraria.
— Assim como você, eu não vou deixar de lutar contra Voldemort, especialmente se ele vier atrás de vocês, de Harry. Se ele está em perigo, eu também farei tudo o que eu puder.
— Mas...!
— Mas...— ela o cortou, repetindo-o. — Eu sei que há limites. Nós não podemos salvar a todos, mas podemos lutar. — Lily aproximou-se novamente e James não fugiu. — Juntos, lutar juntos, lado a lado, por Harry. E aprendermos, juntos, como e quando recuar.
O desespero que sentia no começo da conversa parecia amenizar-se de alguma maneira, apesar do medo enorme ainda existir. Encarando Lily, estando tão forte diante de tamanho problema, o fazia pensar que tendo-a ao seu lado, ele poderia encarar todo o inferno que encontrasse. Simples assim.
O mais preocupante, o outro desespero que parecia crescer agora, era começar a sentir aquela sensação em seu estômago que não sentia desde a sua adolescência. Aquele comichão na alma, uma sensação que não deveria estar sentindo: a certeza de que enfrentaria o inferno para que ela estivesse ao seu lado. Desta vez, ao seu lado novamente.
Aquilo o abalou.
Já estava abalado, demais até. Agora aquilo? Nem era hora de ter a cabeça presa nisso, por Merlin.
— Eles já sabem?
A voz de Lily o trouxe de volta para o problema real. Ela provavelmente estava esperando por alguma resposta dele, alguma continuação na conversa, mas James simplesmente viajou para o outro lado do mundo com aquelas loucuras.
Sem precisar perguntar, ele sabia que Lily falava de Sirius e Remus.
— Não. Moody irá enviar um chamado para uma reunião.
Ela abriu bem os olhos.
— Para a Ordem? — James apenas assentiu. — Como você sabe? Os Aurores sabem? Voldemort foi detectado?
— Moody apenas me disse que sabe que ele voltou. Ele foi à Albânia a pedido de Dumbledore. Realmente, não sei mais do que isso.
— E ele veio te contar em primeira mão? — ela continuou o interrogatório.
— Mesmo antes de Dumbledore. Ninguém sabe disso, além de Moody, você e eu. — Lily assentiu, recomeçando a registrar a notícia. Ele quase podia dizer literalmente registrar, já que ela colocou a mão na cabeça como se tivesse dor. James fechou os olhos agora, sentindo a dor da continuação. — Lily, infelizmente tem mais.
— Mais?! — A voz dela falhou.
A próxima informação não seria fácil. Foi um dos grandes motivos de tudo ruir entre eles, de certa forma. A única coisa maléfica o bastante para afastá-los, apesar de James não tirar a sua culpa naquilo.
— Eu não sei a quantidade ao certo, mas parece que ainda há uma horcrux.
Ele a tinha perdido completamente agora. O choque em seu rosto, o desespero em seus olhos. Lily agora entendia que não teriam que lidar apenas com o homem, mas com algo a mais que o mantinha ainda nesse mundo. E, honestamente, James também sabia que ela pensou em tudo o que ele fez para achar todas as horcruxes, o quanto as coisas ficaram ruins...muito ruins após a descoberta delas.
O ódio por Voldemort não cessava em crescer. Queria poder encontrá-lo hoje e acabar com tudo aquilo, mesmo se sua vida acabasse junto. Ter pessoas ao seu redor sendo arrastadas, mergulhadas naquela tristeza novamente era o seu pior pesadelo.
— Obrigada por vir me contar, James. — Sua voz estava sumindo.
— Eu não poderia fazer diferente.
Lily continuava com um semblante quase doente. A informação parecia querer ser registrada concretamente agora, o que devia estar trazendo uma bagunça enorme dentro de si.
— Acho que...que eu preciso ir. James. Desculpas, mas... — Lily deu voltas no próprio eixo. Sim, ele podia dizer que tudo parecia cair com toda a força em cima dela agora. — Antes de tudo...você está bem? — Ela parou suas voltas para olhar para ele, realmente preocupada.
— O máximo que eu poderia estar com tudo isso. — Ele deu de ombros, pesaroso.
— Ok. Bom, se não se importa, eu preciso...— Lily apontou para a porta. — ... ir. Entender, refletir...!
Queria poder abraçá-la novamente, dizer que tudo ficaria bem, que eles encontrariam as respostas e consertariam tudo. Poder consolá-la. James tinha a impressão que tudo ligado a ele era apenas notícias ruins e poder ser um pouco de acalento seria um diferencial.
Mas não iria adiante. Eles tiveram um momento de acalento há alguns minutos onde foi bem encaixado. Naquele momento, tinha a impressão que cruzaria uma linha. Sem contar que Lily não parecia estar no momento de acalmar-se, mas de sentir o que precisava sentir e deixar aquilo assentar depois.
Então, no final, quando ela precisaria de acalento, não seria James com ela. Provavelmente outra pessoa, um outro entusiasta do Quadribol no mundo de Lily.
— Eu sinto muito ter te chamado para dar essa notícia. Acredite em mim, eu preferia ter qualquer outra coisa para te falar ao invés disso. — Pelo menos podia ser sincero e tentar deixá-la partir com um pouco da impressão de que ele estava tão arrasado de ter dado aquela notícia quanto ela estava ao ouvir.
Lily o encarava, os olhos caídos e sem o brilho de quando se encontraram em frente ao Cabeça de Javali.
— Eu também esperava ter ouvido qualquer outra coisa além disso.
Virando-se, ainda um pouco perdida, ela desceu as escadas e saiu da Casa dos Gritos.
Jogou-se no sofá, cobrindo o rosto, ainda sem acreditar em tudo o que estava acontecendo.
Inferno! Voldemort estava voltando.
Não queria que Lily lutasse. Apesar de saber do quanto ela era capaz, não queria vê-la no campo de batalha novamente. James nunca conseguia dormir quando sabia que ela estava em uma missão para a Ordem antes, andando pela casa, quase criando um buraco no chão até ter notícias. E independentemente de não estar mais casado com ela; de não cuidar de ferimentos ou de sua exaustão física e mental após uma missão; de não ser a pessoa a ouvir todos os detalhes do que ocorreu e deitar ao seu lado e segurá-la forte com o alívio de tê-la de volta sã e salva, não conseguiria agir diferente hoje. Se ela saísse em missão, ele nunca dormiria até ter notícias. Passar por tudo aquilo e sem estar para onde ela voltaria, seria um sofrimento duplo.
Ao mesmo tempo, não via como poderia lutar sem ela.
Abaixou as mãos, encarando o chão.
Não. Precisava fazer algo, ao invés de encarar o chão e pensar no que não devia.
Levantou-se e decidiu continuar com as pesquisas sobre a Albânia que estavam na sua mesa antes de sair e encontrar-se com Lily.
Saiu da Casa dos Gritos em direção ao Ministério... tentando impedir o seu peito de encher com aquela vontade de ir contra tudo e apenas voltar para casa. A sua única casa.
A casa que ele nunca devia ter saído e que não poderia voltar.
Sirius, após um lapso de loucura — nada anormal dele, aliás —, decidiu que gostaria de disponibilizar a Mui Antiga e Nobre Casa dos Black como quartel general da Ordem da Fênix.
Para James, aquilo era um deboche tão sem limites à honra de Walburga e Orion Black, que sentia paz apenas ao pensar naquilo. Ver um grupo de combate — que também participavam nascidos trouxas, lobisomens e afins —, ser reunido ali, era como dançar em cima de seus túmulos.
E ele adorava cada pedaço daquilo.
O quadro de Walburga, aliás, era um plus. Pena não ser a própria bruxa assistindo aquilo, mas já estavam perto o suficiente.
Sirius não conservava a mansão como deveria, no sentido de deixar a casa habitável, mas era o suficiente para passar algumas horas sem estar coberto de pó. Monstro se ocupava do lugar, mas ainda permanecia algo pitoresco. Era uma casa muito bonita e James, já tendo a oportunidade de estar naquele lugar anos atrás, sabia que o lugar já teve seu momento de pura glória.
Enquanto estava parado na calçada, dissertando em sua mente sobre Largo Grimmauld número 12, o Auror-Investigador tentava escapar do motivo de estar ali. Do assunto que seria discutido dentro daquelas paredes.
Mas não adiantava fugir mais. Ali estava ele, assim como boa parte da Ordem da Fênix.
Não fez cerimônia para bater à porta, apenas adentrando o lugar. Estava mais caloroso do que poderia imaginar, mesmo ali, no longo hall de entrada. Ouviu algumas vozes, alguns tilintares de vidro vindo do fim do corredor.
— Prongs!
Sirius abriu os braços assim que James adentrou o que, uma vez, foi uma sala de jantar elegante, com sua longa mesa de madeira e louça chinesa.
Ali, viu Remus, Alice, Frank, Aberforth, Dédalo Diggle, Elifas Doge, Emmeline Vance e Estúrgio Podmore. A maioria dos sobreviventes da Ordem da Fênix.
Não viu Mundungus Fletcher, mas ele não era alguém que faria tanta falta. Estava cada vez mais enturmando-se com alguns idiotas na travessa do Tranco.
Só faltavam Moody, Dumbledore e Lily.
— A chamada de Moody foi eficaz — comentou ao passar os olhos mais uma vez pelos presentes.
— Se alguns fantasmas estivessem nesse plano, eu tenho certeza que se apresentariam também. — Sirius passou uma taça para James, antes de continuar. — Quem vai ficar tocando piano e cantando desafinado, como fazia Marlene? Ou Dorcas e seus doces? Os Prewett e suas piadas...!
Perderam pessoas especiais demais naquela época. Não costumava pensar tanto neles, querendo não reviver tudo, mas quando a lembrança o atingia, a dor no coração não podia ser maior. Todos eles viveram sob tantas ameaças, e ainda achavam tempo para trazerem alguma normalidade à vida.
— E pensar que tudo pode recomeçar agora — sussurrou.
Sirius, que estava sorrindo e acenando para Frank, voltou para James.
— Desculpa, o que disse? Frank parece animado demais com essa reunião saudosista.
— Nada.
Estava pronto para ir falar com o casal de amigos, quando Sirius segurou seu casaco.
— Lily está lá em cima. Foi a primeira a chegar e está muito para baixo. Será que temos problemas no paraíso? — O amigo levantou as sobrancelhas, indicando que falava sobre ela e McGuillen.
Não, Sirius. O paraíso que estava sendo inundado de problema, era a vida de Harry!
— Eu vou buscá-la.
Recebeu um tapa de encorajamento do outro maroto, como se estivessem de volta em Hogwarts e Sirius o visse indo falar com Lily para chamá-la para sair após estarem amigáveis.
As escadas rangiam terrivelmente. O quadro de Walburga, perto delas, estava coberto e a velha parecia dormir, então James apenas continuou a subir os degraus, ignorando-a.
Por sorte, não precisou ir muito longe. Lily estava sentada em frente ao piano da sala de estar do primeiro andar. Ela parecia mergulhada em seus pensamentos, a cabeça baixa e uma mão sobre as teclas do instrumento.
Marlene e Lily tinham se aproximado bastante durante a Ordem, criando uma amizade pura e forte. Alice juntou-se a elas, tornando um trio quase tão imbatível quanto os marotos, que eram um quarteto na época ainda.
A intimidade, respeito, confiança e companheirismo que as três criaram em tempos de guerra foram cruciais para manter boa parte de suas mentes sãs. Quando James saia em missão, Lily não ficava sozinha, tendo as duas ou uma delas que poderia lhe fazer rir e tentar tirar sua mente do fato de que seu marido poderia não voltar.
Com a morte tão prematura de Marlene, mas em um momento tão crítico da guerra, foi obrigado a ver Lily engolir a tristeza para não ser levada por ela.
— Ela adorava tocar piano — a ruiva comentou, sem se virar para a porta ou ter qualquer indício da sua chegada.
— E tocava muito bem.
Lily passou os dedos por todas as teclas, docemente, parecendo tocar os dedos da amiga.
Ela deixou a mão cair no próprio colo.
— Não é justo tudo isso recomeçar, James.
Entrou na sala, aproximando-se vagarosamente do piano.
— Não é. Para nós e nem para ninguém.
— Já perdemos demais. Vidas, almas, mentes.
Deslizando pelo banco duplo, ela parecia oferecer um lugar ao seu lado, o qual James aceitou.
— Não sabemos de tudo ainda, ou em quais condições ele está voltando. Talvez tenhamos uma chance de pará-lo antes que ele sequer comece, antes de perdemos qualquer coisa.
Pelo menos era em tudo isso em que andou pensando desde ontem e a notícia de Moody, após a reunião com Lily. Mal dormiu, apenas olhando mapas e pergaminhos. Infelizmente, não tinha muita informação e parecia que estava deixando-se cair em um limbo que talvez não fosse necessário.
O suspiro de Lily quase doeu na alma. Quantas vezes não o escutou antes?
— Acha que ele iria atrás de Harry novamente? Que essa loucura de profecia vai voltar?
Ouviram alguém subir as escadas. James levantou do banco e postou-se ao lado do piano, de frente para Lily e a porta. A ruiva continuava com o rosto para baixo, querendo ficar sozinha mesmo em uma casa tão cheia de gente.
Remus apareceu na soleira.
— Moody e Dumbledore estão aqui. Digo, o outro Dumbledore, no caso.
James olhou de Remus para Lily.
— Você quer a companhia do Moony para descer? — perguntou baixinho.
Após um outro suspiro, Lily levantou a cabeça e o encarou. Seus olhos não tinham lágrimas, mas estavam mergulhados em preocupação. Virando-se no banco, ela olhou para Remus e sorriu:
— Eu adoraria.
Sem hesitar, Remus foi até ela com um sorriso solidário — provavelmente também pensando que ela estava mal por conta de algo do relacionamento com McGuillen — e ofereceu seu braço, que foi prontamente aceito.
Os dois partiram da sala sob os olhos de James, que estavam felizes em ver Lily recebendo suporte de Remus, mas também tristes por não poder ser ele a lhe oferecer.
Estalou a língua e os seguiu escadas abaixo.
Em direção a grande notícia que ninguém ali esperaria receber.
~OdF~
Dumbledore conversava simpaticamente com os Longbottom, dizendo algo sobre Neville que James não podia ouvir completamente. Moody estava apoiado em seu cajado, observando toda a sala, que bebia e conversava tranquilamente.
O pedido de Moody não tinha sido alarmante, então não era surpresa ver todos tão tranquilos. Nunca houve uma reunião da Ordem após Outubro de 1981, nem nada para lidar, com tudo estando tão calmo. Então por que se preocupar, certo?
Poderia ser uma simples reunião de antigos colegas. Oras, por que não?
Esfregou os olhos, querendo que Moody dissesse que estava maluco, alucinado, e para que ninguém considerasse as baboseiras que podia falar, às vezes.
E falando nele. Três batidas daquele troço enorme de madeira que usava foi o suficiente para silenciar toda a sala.
— Se vocês pudessem parar um pouco com a bebida neste momento, há coisas a serem discutidas. — Aquela voz de trovão tão conhecida fez o ambiente começar a acalmar.
Aos poucos, as conversas e tilintares das taças e copos sendo depositados aqui e ali ou sendo pegos foram sendo substituídos pelo silêncio.
A cada segundo que passava, a cada segundo que aproximava a notícia de chegar, fazia seu coração bater mais rápido. Havia uma quantidade de pessoas o suficiente para criar um bom círculo, com todos bem presentes e a vista. James encontrava-se entre Frank e Aberforth, de frente para Sirius; não muito lateralmente a Remus ou Lily. Não precisava virar o pescoço para olhá-los e ele não sabia se aquilo era uma benção ou não.
Moody estava a três pessoas à sua esquerda. James teria que virar-se para vê-lo, mas para que faria? Não precisava encarar o Auror-Chefe para o que viria.
Então deixou a cabeça erguida, mas os olhos baixos.
— Estamos ouvindo — disse Alice. Ela era uma das que ainda tinha sua taça de champanhe na mão, os braços semi cruzados.
Apenas diga, Moody. Vamos lá, apenas jogue essa bomba em nós.
— Alastor esteve na Albânia nos últimos dias...— Dumbledore começou.
— Últimos dias? Eu diria semanas! Estou esperando até hoje a validação de um relatório — ralhou Sirius do seu lugar, mas em um tom de brincadeira. James diria que o amigo já tinha bebido algumas taças antes de todos os convidados chegarem e não sabia se aquilo era uma boa ideia, considerando o que estava por vir.
— Nas últimas semanas — corrigiu-se Dumbledore.
Moody bateu seu cajado no chão e deu um passo à frente na roda.
— Não temos tempo para começos assim, Albus. — Moody estava muito mais agitado do que ontem, quando deu a notícia para James. — Essa reunião foi chamada para informar que a Ordem da Fênix está de volta!
Todos os participantes se entreolharam, confusos. Menos James e Lily, que continuavam com seus olhares baixos. Então realmente não haveria drama para a notícia. Sem tensão, sem historinha para criar o caminho para o que ele tinha para falar.
Seria um tapa na cara e chute na bunda ao mesmo tempo.
— Ok?! — Frank, ao seu lado, riu um pouco. — Reuniões semanais? Mensais? Digo, nós temos uma vida agora...
— E não terão mais vida caso Voldemort achar o que tanto procura e voltar tão forte como era antes!
Silêncio absoluto. Ninguém se mexeu, nem mesmo o mundo lá fora parecia se mexer.
— Do que está falando, Moody? — Remus murmurou.
O Auror jogou o cajado para a outra mão, desconfortável por dar aquela notícia, com certeza, mas tendo aceitado a função que lhe foi dada. Quando ele abriu a boca, Dumbledore fora mais rápido:
— Voldemort voltou!
Silêncio novamente. Aquele silêncio tão incômodo, que faz seus ouvidos parecerem prestes a explodir.
Um vidro quebrando fez os olhares virarem para a fonte do barulho: Sirius tinha sua taça completamente destruída em sua mão, o sangue começando a pingar no tapete egípcio dos Black.
— Voldemort não voltou. — Foi o que saiu da boca de Sirius. O maroto ainda tinha a mão fechada nos cacos de vidro, levantada ao ar como se a taça ainda estivesse inteira entre seus dedos. — Isso é a coisa mais idiota de se dizer.
A reação do amigo refletia claramente a fé que todos tinham na possibilidade do que estava acontecendo. Alguns dias antes, Sirius havia mencionado que o brilho de Marte e o prelúdio de guerra poderiam estar relacionados a Voldemort. Ele foi tão enfático a esse respeito, insistindo para que James não esquecesse essa possibilidade — mesmo ciente das condições precárias em que Voldemort se encontrava — que era uma surpresa sua reação agora.
Isso apenas demonstrava que, apesar do receio e da ideia de que Voldemort ainda vagava/rastejava/mal sobrevivia nesse mundo, sua volta parecia tão ilógica que uma conversa entre amigos sobre essa possibilidade não era absurda. No entanto, alguém afirmar isso era motivo suficiente para descreditá-lo.
— Sim, ele voltou. Provavelmente, já esteja entre nós — continuou Moody.
Aquilo surpreendeu James e Lily, obrigando-os a levantar o olhar.
Perdão?! Aquela informação estava faltando na reunião de ontem. Ele não estava na Albânia?
— Entre nós? — perguntou Lily. — No país, disfarçado ou entre nós...?
— Ambos. Todas as opções são possíveis. Independente de não termos a confirmação, seria bom todos pensarem que sim e agirem como tal.
Agora, todos no ambiente se entreolharam. A preocupação e choque eram as expressões mais vistas.
Para James, aquilo significava que as checagens a cada conversa entre eles deveriam ser feitas. Perguntas pessoais; senhas que deveriam mudar a cada dia; sinais secretos; patronos... tudo o que a Ordem já tinha utilizado para os membros reconhecerem-se.
Alguém começou a rir, chamando a atenção de todos.
Sirius, ainda com sua taça quebrada e mão ensanguentada, gargalhava disparatadamente.
— Vou pegar mais champanhe...
O maroto saiu em direção a cozinha, deixando um rastro de sangue. Ninguém tirou os olhos dele até desaparecer. No segundo seguinte, Lily foi atrás dele ao mesmo tempo que James e Remus seguiram caminho também.
— Onde está aquela champanhe? — Sirius abria e fechava armários sem realmente procurar. Os três outros estavam na porta, assistindo-o naquela cena onde não tinha sentido, já que ele olhava entre panelas velhas e dentro da pia. — Será que eu já levei para lá? Hm, Frank pode ter pego...
— Padfoot — chamou Remus. Sirius olhou rapidamente para o amigo, antes de continuar a procura.
— Você viu aquela champanhe de rótulo verde, Moony? Uma delícia. Tinha cinco por aqui.
— Padfoot, pode parar por um momento? — Remus interviu novamente.
— Tenho que achar a champanhe. Pode ajudar ou vai ficar parado? — A voz de Sirius já não tinha nenhuma leveza mais, mesmo que falsa. Ouvia-se a raiva que tinha chegado ali. — Sem a champanhe, não podemos continuar.
— Me deixe cuidar da sua mão — pediu Lily, adentrando a cozinha, mas James a parou.
Não era bom aproximar-se naquele momento.
— Minha mão? — Sirius riu, olhando para a dita cuja. Os cacos estavam bem entalhados na palma e nos dedos, parecendo estalagmites vermelhas. — Não há nada de errado com ela, foi só um corte leve.
— Por favor — ela insistiu, sem sair do lugar dessa vez.
— Está tudo bem, Lily. Veja só. — Sirius começou a arrancar os vidros, jogando-os no chão. — Vê? Está tudo bem, assim como todo o resto está bem... ESTÁ TUDO BEM!
O último vidro foi jogado no chão com muita força, criando outros milhares de cacos de vidro pela pedra do chão da cozinha.
Aquilo era o sinal para que James pudesse se aproximar.
— Nós vamos conversar. Apenas nós. Mas precisamos das informações de Moody antes.
— Prongs! — Suas vestes, incluindo uma camisa branca, foram pegas por Sirius, puxando-o para perto. — Você ouviu o que ele disse? Aquilo não pode ser real.
— Vamos ouvir Moody, Sirius — repetiu James.
— Nós estamos bem. Por anos. A vida está boa e não há ameaças. Ele não está voltando.
— Parece-me que ele já voltou. — O comentário veio de Remus e James não podia julgá-lo em dizer aquilo no meio de um ataque de negação de Sirius, pois sabia que um amigo estava tão desestabilizado quanto o outro.
As mãos de Sirius ainda agarravam as roupas de James, encharcando-as de sangue, mas Lily as pegou delicadamente, soltando-o do agarro do outro maroto.
— Lembra daquela missão, uma semana antes de James e eu anunciarmos a gravidez? — ela começou a falar, enquanto a sua bolsa vinha da sala por encantamento. De lá, ela tirou um kit de emergência que James conhecia bem, desde a época da Hogwarts. — Nós dois passamos a noite toda em frente daquela casa, esperando por algum movimento. Eu estava morrendo de sono e você não entendia como eu poderia dormir sentada e naquele frio.
Sirius observava Lily enquanto ela cuidava de suas mãos.
— Sua cabeça ficava pendendo para frente e para o lado — relembrou ele.
— Exato. Ao invés de me acordar ou reclamar que eu não ajudei na missão, você apenas emprestou o seu ombro e me cobriu com o seu casaco. Eu ainda lembro de você dizer algo como "eu estou aqui, ruiva. Pode dormir".
Aquilo levou um sorriso rápido a James.
— Você estava tão estranha, dormindo tanto, parecendo tão cansada. Eu pensava que era preocupação e exaustão das missões — Sirius respondeu.
Lily pareceu limpar toda a sua mão e passou para uma poção cicatrizante tão conhecida deles.
— Pois é, quem diria que era Harry. — Ela riu um pouco. — Mas sabe o que é mais importante nessa história? É que eu estava morrendo de preocupação e medo sim. Do presente, do futuro. Mas eu sabia que se eu estivesse ao seu lado...— Lily olhou ao redor, para todos os presentes, para dizer que aquilo era dirigido a todos. — ... eu poderia dormir tranquila, mesmo durante uma missão, simplesmente por ter as melhores pessoas do mundo comigo.
As palavras dela eram calmantes. Lily deveria sentir-se no olho de um furacão naquele momento, tão abalada, mas conseguia ser o ponto de balanço naquela tempestade para qualquer um deles.
— Nada nunca aconteceria com você naquela noite ou qualquer outra, você sabe — Sirius respondeu, apenas olhando para Lily enquanto ela continuava a cuidar da sua mão.
— Eu sei. Assim como eu sei que eu ainda tenho vocês e nós vamos passar por isso ainda melhor do que na última vez. O meu ombro sempre estará aqui, e eu tenho certeza que um ombro maroto também sempre estará aqui para mim!
Ela terminou com a mão de Sirius, parecendo também terminar com a sanidade de James. Enquanto ele relembrava como era no sétimo ano com ela há duas noites, hoje ele lembrava como era na Ordem da Fênix.
Quantas e quantas vezes eles precisavam levantar a moral um do outro, ou apenas estar ali para uma conversa? Ou mesmo um ombro para um cochilo.
— Vocês precisam voltar!
Alice, na porta da cozinha, parecia desconfortável em ter que chamá-los, mas não parecia ter muita escolha.
Remus abaixou-se e abriu um armário quase escondido, tirando uma garrafa dali.
— Aqui. Sua champanhe — Entregou ele a Sirius.
— Obrigado, Moony. — Sirius deu um tapa no ombro de Remus. — Vamos voltar, agora que eu encontrei a champanhe.
Rindo um pouco, o maroto saiu na frente. Remus assentiu para o nada, suspirando, preparando-se para a continuação da reunião, e depois seguiu Sirius.
Lily juntava suas poções, o olhar perdido e o peso de toda aquela loucura quase visível em seus ombros. Ela sempre seria o tipo de pessoa que guardaria seus lamentos caso alguém precisasse de suas palavras ou suporte.
Não sabia o motivo, mas a cena de quando ela descobriu, ainda no sétimo ano, que eles eram animagos lhe tomou. Talvez por vê-la lidar com o kit de cura, o qual usava sempre com eles após uma lua cheia. As poções que ela fazia eram excelentes, cobrindo cicatrizes até antigas.
Mesmo sem saber, ela também tinha curado a cicatriz que Snape tinha lhe feito em sua bochecha na fatídica discussão no quinto ano, quando aquele trasgo usou um feitiço xexelento que James custou a fazer parar de sangrar. O maroto não se importava com a cicatriz em si, ela tinha até ficado legal, mas quando a via, apenas lembrava de Severus Snape chamando Lily daquilo.
Seu sangue esquentava a ponto de borbulhar.
Fechou os olhos por um instante e respirou fundo, arrancando aquela cena da sua mente. Aproximou-se dela.
— Ainda bem que temos o nosso kit de emergência preferido a postos — James comentou com um sorriso, tentando levantar a moral.
— Sempre preparada — ela respondeu na mesma intenção dele.
Os dois tentaram brincar, mas seus tons de vozes eram tão fracos e sem emoção, que era impossível escapar do drama.
James fez sinal para que ela fosse primeiro. Lily pegou o caminho, mas parou na frente dele. A ruiva colocou a mão em seu ombro.
— Obrigada. — James sentiu o leve aperto, antes de Lily deixar a mão cair e voltar para a sala.
Poderia estar fantasiando ou enlouquecendo, mas tinha certeza de que ela agradecia pelo o ombro que ele estava disponibilizando.
E por que ele pensava isso?
Porque ele mesmo estava agradecido por ela estar disponibilizando o dela.
A sala onde todos estavam reunidos continuava do mesmo jeito: um clima estranho, pesado. Quem tinha descoberto naquela noite sobre a volta de Voldemort, estava recluso, passando por todo o processo que Moody deve ter passado, depois James, Lily, Dumbledore e afins.
Acreditar naquilo era doloroso, principalmente depois de tudo o que já passaram.
— Poderia continuar agora, Moody? — Alice pediu, batendo os dedos contra os antebraços cruzados.
Sem cerimônia, um mapa desenrolou-se da parede livre do cômodo.
— Como isso foi parar aí? — James ouviu Sirius sussurrar para si.
— Como alguns daqui sabem e para os outros que não estão cientes: muitas atividades de magia das trevas foram captadas na Albânia recentemente. — Vários pontos começaram a brilhar no mapa. — Ninguém conseguiu encontrar a fonte e nem qual magia foi essa. — Moody olhou para o mapa durante uns segundos, antes de virar-se para todos. — Eu só posso dizer que foi algo pesado.
James lembrou-se que Sirius foi enviado para a Albânia há alguns dias, mas não teve nenhum relato assim quando o amigo voltou.
— Pesado como? — perguntou Emmeline Vance.
— Pesado como mil dragões em sua cabeça.
Algumas magias poderiam te dar sensações. Certas magias das trevas poderiam deixar rastros surpreendentes no ambiente e cada bruxo poderia sentir aquilo de forma diferente. A descrição de Moody lhe dava a impressão de que o rastro era algo que usava a atmosfera do lugar, com muito mais pressão do que o normal, fazendo sua cabeça ser empurrada para baixo. Após experimentar um dia em um parque de diversões trouxa anos atrás, ele compararia com você descer a montanha-russa com a cabeça abaixada e tentar levantá-la.
— E como isso está ligado à Voldemort? — foi a vez de Frank perguntar.
— Isso entra na questão da presente localização de Voldemort. Foi reportada sua presença na Inglaterra pouco antes de Setembro. Fontes confiáveis que conseguiram me provar mais de uma vez.
Aurores sabiam que não adiantaria perguntar quem/como/onde, pois Moody nunca falaria. O velhor Auror tinha uma rede de espiões enorme, em diversos ramos e posições.
Se Alastor Moody dizia que tinha provas, então não era um bilhete que passou de mão em mão, ou um artigo no rodapé do Profeta Diário. Ele tinha algo muito concreto e ninguém veria a luz daquilo, nem Dumbledore.
— Isso não quer dizer que estamos em perigo, certo? — Sturgis Podmore pronunciou-se. — Sabemos que ele se foi praticamente morto. As horcruxes foram destruídas, então ele não teria como voltar forte como já foi. Seus Comensais, ou a maioria, estão presos.
— Mas ainda restam Comensais soltos. E eles estariam mais do que contentes em voltar ao mestre! — interrompeu Elphias Doge.
— E há outro detalhe não comentado, mas agradeço à introdução, Podmore — agradeceu Moody. Ele olhou para James por um segundo, antes de continuar. — Nem todas as horcruxes foram destruídas.
O horror que estampou o rosto de cada um dos ocupantes — tirando James, Lily e Dumbledore — era quase elétrico. Pensou que haveria uma sinfonia de taças quebrando caso elas ainda estivessem sendo seguradas por eles.
A caça às horcruxes não foi algo simples e leve. Foi exaustivo para todos. A ameaça de Voldemort em si não existia, mas lidar com o fato de que ele tinha partido sua alma foi complicado. Descobrir que não foi apenas uma vez e sim algumas vezes foi difícil de compreender, ainda mais sabendo como o processo era feito. Tiveram que estudar e ler incansavelmente sobre o tópico, que não era uma viagem por jardins floridos. E depois, toda a dedicação para encontrá-las: saber sobre a história de Tom Riddle; os Gaunt; seus passos antes e depois de Hogwarts; achá-las; descobrir como destruí-las...
— Explique! — A voz de Sirius, cheia de raiva, estava baixa. A impressão era que o maroto poderia pular no pescoço de Moody a qualquer momento agora.
Sirius tinha razão de estar com raiva, assim como todos ali. Foi dito que todas as horcruxes tinham sido destruídas e que estavam livres dos caminhos para uma volta concreta daquele que trouxe miséria para a vida de todos.
— Após o interrogatório de Lucius Malfoy e da informação de que havia mais horcruxes, chegamos à conclusão de que quatro existiam — Dumbledore quem começou a falar agora. — O diário de Tom Riddle e a informação sobre a taça da Lufa-Lufa no cofre da família Lestrange em Gringotes, em um acordo para que Malfoy não fosse julgado; o anel de Marvolo Gaunt localizado na cabana da família Gaunt; o medalhão de Salazar Sonserina... — Todos deram uma singela olhada para Sirius, que não reagiu e continuava a encarar Dumbledore. — ...encontrado por ninguém menos que Regulus Black.
— Quatro horcruxes, se considerarmos quem as estava criando, parece um número baixo. Quem faz quatro, faz mais. O mais difícil é fazer o primeiro, talvez o segundo. A partir daí, o que impediria alguém que quer tanto ficar vivo, de fazer vinte? — Moody voltou a falar. — Mas não havia mais nenhum bem da família que foi transformada em horcrux, e os Inomináveis trabalharam por anos sobre isso, chegando à conclusão de que o anel tinha sido o único. O que bate com a personalidade de Voldemort. Ele não usaria um único campo de interesse para múltiplas horcruxes.
— A não ser Hogwarts! — A voz de Lily viajou por todos eles, enquanto a ruiva encarava o tapete egipcio. — Foi a única linha que ele decidiu seguir.
— Tentou seguir, você quer dizer — corrigiu Podmore. — Só duas horcruxes não me parece muita coisa.
— Ou não. — A ruiva levantou os olhos, passeando-os pela sala por um momento. — Foi confirmado que a espada de Gryffindor não foi transformada em uma horcrux, o que põe por terra essa tentativa de Voldemort. Mas isso não quer dizer que não há outra horcrux ligada à Hogwarts. Houve uma para a Sonserina e outra para Lufa-Lufa. Não teve uma para Grifinória, então...
— Corvinal. Deveria haver uma para a Corvinal — Remus completou a frase.
— O que eles usariam para a Corvinal como uma horcrux? Um estudante inteligente? — Aberforth pronunciou-se pela primeira vez. — A cabeça de um deles?
— Só por eles serem conhecidos pela inteligência, não quer dizer que Voldemort usaria a cabeça de um — Emmeline retrucou. — Hogwarts é cheia de história. Os Fundadores obtiveram muitos emblemas por anos.
— Nem todos conhecidos — divagou Remus.
— Mas tem um importante o bastante: o diadema. — Lily, mais uma vez, chamou a atenção de todos.
Diadema? Que diadema? O que, por Morgana, era um diadema?
— Eu nunca ouvi falar de diadema algum — Alice comentou, olhando para o marido, que parecia tão perdido quanto.
— Vocês não tiveram muita companhia de corvinos, então. — continuou a ruiva. — O diadema de Rowena é uma história bem conhecida entre eles.
James sabia que não era hora e nem lugar, muito menos a década certa, mas não impediu-se de revirar os olhos levemente e apoiar o peso em uma perna. Lily tinha namorado um corvino por alguns meses, então claro que ela saberia coisas da casa que os estudantes das outras casas não saberiam, ou os que não tinham amigos muito próximos ou parceiros na casa dos sabichões.
Enfim, aquilo não era importante agora.
— Mas o diadema está perdido por séculos. Isso se realmente existiu — Elphias, que provavelmente andou com alguns corvinos aqui e ali como Lily, entrou na conversa.
— Há uma estátua de Rowena em Hogwarts com o diadema. Por que não teria existido? — disse Lily.
— E esse diadema é a única coisa pertencente à Corvinal que poderia ser interessante para Voldemort? — Foi a vez de Sirius. — Nada mais interessante?
— O diadema de Rowena Ravenclaw é uma peça única da Fundadora. — Finalmente Dumbledore se fez presente na sala. James estava tão concentrado nas informações corvinas que Lily parecia tão a par, que esqueceu que existia alguém talvez ainda mais informado sobre isso na sala. — Era especulado que aumentava a sabedoria de quem o portava.
— O que é um diadema? — Ouviu o cochicho de Sirius para Lily não longe dali.
— Uma espécie de tiara.
— ...e sabendo que Tom estudou muito sobre os Fundadores, poderia ser a única coisa que ele iria atrás — finalizou Dumbledore sobre o cochicho. — É algo muito valioso para Rowena e Helena, faz parte da história trágica da família.
— E está perdido por séculos! — repetiu Elphias. — Assim como Voldemort pode ter tentado capturar a espada de Gryffindor, tão conhecida e também sem localização, em algum momento ele pode ter sido impedido de fazer algo pela Corvinal por não saber do paradeiro do diadema.
— O que sugere que seja a última horcrux então, Doge? — Moody não parecia nem um pouco feliz agora. Não que ele estivesse pulando de alegria desde o começo.
Ou em qualquer momento da vida.
— O que foi considerado em 1981, mas descartado? — Frank deu um passo para frente. — Podemos começar daí. Sabemos que a espada de Gryffindor foi descartada. O que mais foi?
— Todo e qualquer objeto pertencente à Família Gaunt e Riddle, após o anel, claro — respondeu James.
— O orfanato foi revirado cinco vezes e nada de magia das trevas foi encontrado — foi a vez de Moody.
— Nenhuma horcrux encontrada na Borgin and Burkes, onde ele trabalhou — complementou Emmeline.
— Todos os cofres e propriedades dos Comensais e suas famílias foram revistados e nada encontrado — respondeu Sirius.
Durante dois minutos, todos os membros continuaram a comentar toda e qualquer lembrança que tinham sobre a caça às horcruxes da época, quando tinham revirado toda a vida de Tom Marvolo Riddle para chegar até todas elas.
— Só um lugar não foi revirado. E se foi, não com tanto afinco — James finalizou aquela conversa, levantando o olhar para Dumbledore.
— O castelo foi revirado, James — o diretor respondeu.
— Com afinco? — perguntou Sirius.
— Cada fresta de cada pedra? Cada sala, cada lugar onde um objeto pode ser escondido? — voltou a falar James. — Hogwarts poderia ser um ótimo lugar para esconder coisas, não?
Dumbledore pareceu surpreso com a vivacidade de James naquela frase.
Sim, Albus Dumbledore, eu também estou falando de outra coisa nessa frase. Algo nem um pouco pequeno para caber em frestas, aliás, e que está sendo escondido em um andar daquele lugar.
— Assim como em qualquer outro lugar do mundo, James, há frestas — insistiu Dumbledore.
— Temos que revistar Hogwarts novamente — Remus finalmente soltou o que James estava a ponto de dizer. — Foi o único lugar onde não achamos nada e, ainda assim, é o lugar com mais ligações com horcruxes. Havia duas delas, oficialmente. Se houver mais uma ou outra, porque nenhuma estaria na escola?
— Nenhuma estava em Hogwarts, mesmo sendo um pertence de um Fundador — comentou Podmore.
— Não essas. Quem garante que uma terceira não estaria lá? — replicou Remus.
— E de novo, Voldemort não deixaria horcruxes juntas — continuou James. — Não estamos lidando com uma pessoa inepta e de algo simples como sua coleção, mas objetos que contém um pedaço da sua alma. Quando éramos estudantes, passamos sete anos desbravando aquele castelo e eu tenho certeza absoluta de que não conhecemos tudo. E posso dizer que conhecemos mais do que a maioria.
— Então se há uma horcrux perdida, eu voto para ser caçada em Hogwarts — Sirius levantou a mão.
Em seguida, James, Remus e Lily. Alice e Frank foram os próximos, seguidos por Emmeline. Moody levantou ao mesmo tempo que Aberforth. Os restantes pareciam hesitantes, pensativos. No final, Dumbledore foi o único com as mãos baixas, mas James tinha a sensação de que ele não se incluiria na votação, deixando que os membros decidissem e ele daria a palavra final, como um juiz.
— Vemos que há uma unanimidade — começou o diretor. — Vamos arranjar isso.
— Podemos começar amanhã. Uma força-tarefa que...
— Há crianças no castelo, Sirius. — cortou-o Dumbledore. — Isso precisa ser planejado para que não haja terror entre elas e entre os pais. Não queremos assustar e nem chamar a atenção para o que fazemos.
A língua de James coçava para abrir a boca e dizer algo, mas segurava-se. Tentou chamar a atenção de Sirius para que o amigo não abrisse a própria boca.
— Vamos planejar então — Moody concordou. — Podemos realizar procuras pela noite, após o toque de recolher, evitando sermos vistos pelos estudantes e professores.
Aquela informação parecia tornar as coisas mais oficiais. O choque nos primeiros segundos ou horas trazia muitos sentimentos de negação, falha, indignação, até medo. Mas agora a cabeça parecia entender o quão ruim a coisa era.
Voldemort ainda tinha uma horcrux e estava bem disposto a achá-la.
Pela calças de Morgana! Eles achavam que a horcrux estava em Hogwarts!
Hogwarts, onde Harry estava. Seu filho, quem Voldemort queria matar!
— James, Lily. — Os dois citados olharam para Dumbledore, que tinha aproximado-se. — Podem me conceder alguns minutos, em algum lugar mais reservado?
— Claro — Lily prontamente aceitou.
— Nós vamos juntos — Sirius puxou o cardigan de Remus, para que o outro maroto não fosse descartado.
O diretor sabia que aquela era uma batalha perdida, então não foi contra a presença dos outros dois. Liderando o caminho, Sirius os levou para um velho escritório de Orion Black.
O maroto postou-se atrás da antiga mesa do pai, mas não sentou-se. James ficava orgulhoso quando o via colocar-se em tal posição, principalmente por transformar o papel do mais importante — e único, até o momento — membro da família Black em alguém bom. Não que fosse algo que o amigo gostasse de fazer sempre, pois Sirius não hesitaria em mudar de nome/família caso pudesse, mas quando o fazia, era difícil não orgulhar-se.
Tinha certeza de que Sirius, se levasse mais a sério o seu papel como um Black, mudaria como o mundo os veria. Traria mais miséria para a memória dos que o maltrataram antes, com toda a certeza. Mas era dolorido.
Principalmente depois da morte de Regulus e a descoberta sobre o medalhão que o irmão mais novo encontrou, substituiu e que ajudou tanto na saga da destruição das horcruxes e Voldemort.
Ainda que ainda restasse uma.
— Alastor me disse que tinha avisado-o, James, permitindo que tenha falado com Lily também — começou o velho diretor. — Eu fico feliz que ele tenha tomado essa decisão. Eu não poderia imaginar o choque que seria descobrir nos últimos minutos, como todos.
Ele ouviria uma coisa ou outra de Sirius sobre ter a informação antes, James sabia, mas entenderia o amigo. Remus provavelmente pensaria a mesma coisa, mas não seria tão dramático quanto o outro maroto.
Mas eles teriam que saber que era difícil. Não deixou de avisá-los por achar não ser importante, mas por não saber como. Com Lily já tinha sido difícil o suficiente, quase arrancando o seu coração em ter que dar aquela notícia. Não conseguiria fazer aquilo de novo em tão pouco tempo e sabendo que alguém o faria logo.
Sem contar sobre suas reações. Sirius iria entrar em parafuso, como foi deixado bem claro na cozinha. Remus ficaria perturbado o suficiente para não conseguir estar com a cabeça em sala de aula. Aquela informação era algo que pesava em você a cada minuto que passava, a cada compreensão, a cada novo susto sobre algo a ser feito, protegido.
Lily era um exemplo. Ontem, ela tinha sido uma rocha enquanto ele caía em sua frente, horas depois de ter recebido a informação. Hoje, ela já parecia menos como a rocha e mais como o James de ontem: a compreensão tinha tomado conta, o medo também. O choque e a negação ficaram para trás.
Estando algumas horas à frente, James hoje sentia a raiva. Ela chegaria para os outros também, assim como a vontade de agir.
— Eu imagino que se Moody tivesse contado para o senhor primeiro, o senhor não teria pensado em contar para nós antes da reunião?!
— James, isso não importa agora — respondeu o diretor.
— Desculpe, mas isso importa, sim. Não somos maiores do que ninguém, mas o nosso filho é uma peça principal disso. Eu gostaria de saber, com muita antecedência, sobre uma possível ameaça a ele.
— Para isso, o diretor teria que saber antes do que estava acontecendo — disse Remus.
James olhou para o amigo.
— Bem, adivinha quem enviou Moody para a Albânia. Dica: não foram os Aurores, muito menos o velho Alastor decidindo passar férias nas florestas da Península dos Bálcãs e, oups, magia das trevas na área, galera. Vamos investigar, pode ser Voldemort.
Os olhos viraram-se para Dumbledore.
— O senhor sabia? — Remus perguntou, a voz demonstrando certa decepção.
— Eu não tinha certeza, era impossível tê-la. Contatos me disseram que havia movimentos estranhos na região e eu decidi verificar.
— Se nos dissesse, todos nós poderíamos ter verificado — reclamou Sirius. — Temos quatro Aurores na Ordem, mais todo o resto que duela como ninguém. Teríamos revirado aquele lugar até ver as raízes das montanhas tocando os céus — dizia ele, com vigor. — Eu fui mandado para lá pelo QG, sem ter ideia do que eu procurava, mas provavelmente já era tarde demais. Se me contassem que procurávamos algo relacionado à Voldemort, podem ter certeza que eu iria rastrear esse merda até o porão que ele está escondido hoje!
— Eu entendo a sua preocupação, Sirius, mas foi exatamente o que Moody fez. Não houve um só lugar não verificado.
— Sozinho! Enquanto ele verificava o Oeste, Voldemort poderia estar ao Norte — disse Remus.
— Eu acho que Dumbledore não quis criar alarde sem confirmações. — Lily deu um passo na conversa. — Ainda que eu preferiria ter ficado desesperada e ajudar na procura ao invés de termos perdido, potencialmente, a chance de achá-lo. — A ruiva virou-se para os três marotos. — Mas está feito. Moody descobriu muito para nós e agora está na hora de encontrar Voldemort. E a horcrux!
— Foi debatido inúmeras vezes sobre chamar a Ordem para isso. Eu mesmo iria verificar, mas não poderia ficar tanto tempo longe de Hogwarts, pois a varredura foi extenuante e completa. De qualquer maneira, eu entendo suas frustrações, claro. — James evitou suspirar. Parecia que Dumbledore estava "desculpando" as pessoas que estavam em desacordo com ele. — Eu estava inclinado em vir falar com vocês, principalmente vocês dois.
Ele se dirigiu à ele e a Lily.
— Somos todos ouvidos — respondeu Lily, dando uma olhada rápida para James.
Nem todos os ouvidos, Lily. Nem todos. Vamos com calma.
— Parece-me que demos uma enorme volta e caímos no mesmo lugar de anos atrás, tendo que discutir sobre isso. — Dumbledore parecia tão sereno quanto determinado. — Temo que a pergunta não pode ser ignorada e devo fazê-la, mais uma vez, após tanto anos: vocês gostariam de se esconder novamente?
Foi como um bom soco no estômago, mas sem ser durante uma briga. Foi muito inesperado.
Não podia dizer que não tinha pensado nisso, mas concentrou-se tanto em outras partes do problema, que acabou deixando de lado.
Se Voldemort estivesse atrás de Harry, esconder-se seria o ideal. Bem longe, e não implicar ninguém com um segredo. Não que duvidasse de Sirius ou Remus, mas sentia que era um risco muito grande para a pessoa. Um deles poderia morrer justamente por não serem traidores e não abrirem a boca sobre a localização deles.
Dumbledore poderia oferecer-se novamente, mas James não gostaria de implicar o diretor também.
Além do mais, tinha Lily. E ele. Eles não eram um casal mais.
E como Harry enxergaria um confinamento, estar afastado de todos?
O quanto aquilo mexeria com o seu filho?
— Quatro!
A palavra, solta por Sirius e com um pouco de contentamento, deixou a todos curiosos.
— Quatro o quê, Padfoot? — perguntou Remus.
— A profecia. James e Lily desafiaram Voldemort quatro vezes e não três. — Sirius levantou a cabeça, encarando cada um deles. — Não é Harry na profecia.
Houve um bom momento para todos digerirem aquele fato.
Profecias podem mudar?, James voltou com a pergunta que teve semanas atrás.
— Neville! — murmurou Lily, com espanto. — Frank e Alice...apenas três vezes e Neville, final de julho...! — Ela levou as mãos à cabeça, dando voltas na sala. — Por Merlin, Dumbledore, você está falando com o casal errado! Eles precisam se esconder, rápido.
— Eu não creio que Voldemort esteja, neste momento, pronto o bastante para o ataque — Dumbledore voltou a falar. — Segundo Moody, sua fonte utilizou a palavra "monstro" como uma descrição do que Voldemort é hoje, apesar de não ter dado mais detalhes. A diferença da última vez em que lidamos com Voldemort é que era um homem muito poderoso, com pessoas ao redor, prontas para morrer por ele. Neste momento, sem a horcrux, ele é apenas o resto do que um dia foi.
— Por isso vamos atrás da horcrux, que eu espero que seja a última! — Batendo as mãos na mesa, Sirius queria encerrar aquela conversa.
— E antes de entrar no castelo para a procura...— James chamou a atenção para si. Já estava segurando muito a língua sobre o que queria falar e não queria seguir daquela maneira. — Diretor, gostaria de nos alertar sobre o perigo que corremos ao procurar pela horcrux no terceiro andar?
As sobrancelhas grisalhas levantaram um pouco. Para quem não costuma demonstrar tanto quando é pego de alguma forma, James considerou aquela expressão enorme.
— Do que está falando? — Lily perguntou, tão confusa quanto poderia estar.
Ah sim, era verdade. Naquela sala, Lily era a única sem saber que tinha um CACHORRO ENORME DE TRÊS CABEÇAS andando pelo terceiro andar da escola.
— Eu imaginei que Harry descobriria uma hora ou outra. Está no sangue. — Dumbledore parecia achar divertido, ou talvez apenas tentasse amenizar o problema. — E eu tentei evitar que o meu grande professor de Defesa Contra as Artes das Trevas descobrisse, evitando isso.
— Então você confessa que eu fui confundido para não saber e nem passar por lá?! — Remus estava lívido.
— Foi necessário, Remus.
— O que Harry descobriu? — Lily tentou novamente, olhando para todos eles, ficando mais ansiosa.
— Algo a ser discutido com todos os outros.
Assim, Dumbledore abriu a porta e fez sinal para Lily passar na frente. Os três marotos entreolharam-se, mas não discutiram.
Estavam mais do que curiosos de saber a desculpa que ele daria sobre aquela maluquice.
Ninguém tinha ido embora, apesar de terem se dispersado pelo cômodo. Quando os viram voltar, a atmosfera pesada e inconformada virou algo mais como curiosidade.
— Como foi pedido tão gentilmente, eu acho que devo avisar a todos sobre um detalhe que temos em Hogwarts esse ano. — Dumbledore conferiu o relógio em cima da mesa. — Antes que eu tenha que partir. Frank, Alice...eu poderia ter uma conversa com os dois no meu escritório em Hogwarts após o anúncio?
O casal assentiu, sem esconder a surpresa e confusão.
— Como eu ia dizendo... nós temos um convidado este ano no castelo: o Fofo.
Queria rir. Não por achar engraçado o que estava ouvindo, mas por estar descrente no que ouvia.
Fofo? Estavam falando da mesma coisa? Do cerbero?
Claro, James não julgaria o nome. Talvez acharia ótimo em outra circunstância.
Aliás, havia uma maneira de tirar Hagrid disso, principalmente após esse nome ser revelado?
— Quem é Fofo? O seu bicho de estimação? Por que estamos falando dele?
Ah, Moody. Será que você ficará tão chocado quanto nós?
— Fofo é um gentil cachorro, posto no terceiro andar, para guardar um alçapão.
— Um gentil cachorro?! Eu conheço cachorros gentis, um monte deles, e nenhum tem três cabeças! — grunhiu Sirius, inconformado.
Todas as cabeças viraram para o diretor. Aquela reunião estava sendo um bom exercício para todos os pescoços.
— Temos um cerbero guardando um alçapão no terceiro andar.
Lily e Alice exclamaram um bem alto e indignado "o quê?", enquanto Frank abria os braços, indignado.
— Por que tem um cerbero no terceiro andar? E com os nossos filhos lá dentro, Albus? — Alice tinha os olhos bem abertos, sua voz alguns tons mais graves.
— Harry descobriu isso?! Quer dizer que ele estava junto com o cerbero? — Lily parecia prestes a perder a cabeça.
— Parece que não precisamos nos importar com Voldemort, já que o diretor parece querer matar as crianças antes.
Ninguém ouviu aquela frase de Moody além de James. E não poderia concordar mais.
— Podemos falar sobre isso depois, uma nova reunião da Ordem. Hagrid poderá estar presente e garantir que Fofo é inofensivo...se mantermos nossa distância.
— Ele está em um castelo cheio de criança curiosa, Albus! — Doge reclamou.
— Estamos lidando com toda a segurança. Frank, Alice...se puderem me encontrar no meu escritório em cinco minutos, eu agradeceria. Infelizmente eu tenho que partir, mas Moody poderá dar todas as outras informações obtidas.
— Espere! Por que precisa do Fofo guardando um alçapão? O que tem dentro dele? — James tentou se aproximar, mas Dumbledore apenas lhe enviou uma olhada.
— Sinto muito, James. Conversaremos depois.
E dessa maneira, Dumbledore deu as costas e partiu pelo corredor de entrada, pronto para aparatar quando colocasse os dois pés para fora da casa. Estava bem disposto a ir atrás dele, mas sabia que não conseguiria mais do que teve. Quando Dumbledore não queria algo, era inútil insistir.
Em suas costas, a sala pareceu entrar em erupção. Havia todo o tipo de conversa: sobre Voldemort, horcrux, Fofo, Dumbledore perdendo a cabeça...
— Ele colocou um cachorro de três cabeças dentro da escola, Sirius! — Ouviu Lily exclamar em cima do amigo.
— Eu sei. Se isso te acalma um pouco: eu estou planejando averiguar isso o mais rápido possível. O que acha? — Sirius, vendo James se aproximar para o amigo, virou-se para ele também. — Eu vou até lá e bato um papo com o Fofo. — Vendo o rosto quase desesperado de Lily, o maroto continuou. — Amanhã. Eu vou amanhã, ok?
— No seu aniversário?! — ela choramingou.
Inferno! James deveria ter planejado o aniversário de Sirius alguns dias atrás.
— Quem se importa com isso? Vamos comemorar meu aniversário dançando em cima da última horcrux destruída.
Isso poderia significar comemorar os 32 anos de Sirius ou os 40. Aquela maldição poderia estar em qualquer lugar do mundo e, permitindo-se um pouco de negatividade, nunca nem ser encontrada.
— Estamos neste barco novamente então.
A frase de Frank jogada no ar, fez com que todos voltassem suas atenções para o Auror formado, ao lado de sua esposa.
— Quem estiver pronto para lutar — respondeu Moody.
— Se alguém aqui acha que estamos caindo fora desse barco só por ter sido difícil antes, melhor pensar de novo — Emmeline levantou-se e pegou seu casaco. — Alastor, eu ouso dizer por todos que estão aqui: a partir do momento que aceitamos o convite para essa reunião, isso já deveria te servir como um lembrete de que não somos desistentes.
Moody fez uma careta, mas para quem já passou muitas horas ao lado do Auror-Chefe, sabia que aquilo era uma tentativa de esconder o seu sorriso de orgulho e contentamento.
— Voldemort foi derrotado antes quando existiam quatro horcruxes. Não será agora que ele vai nos pegar. — Pudmore concordou. — Mas por Morgana, eu preciso voltar para casa e beber em frente da lareira para saber que não estou tendo um pesadelo.
O homem encaminhou-se para fora do cômodo. Emmeline cumprimentou a todos e o seguiu. Não demorou muito para que as pessoas pegassem seu choque e o levasse para casa.
Cada vez mais a casa caía em silêncio. James permitiu-se tomar uma das poltronas no canto da sala para deixar os pensamentos encaixarem, os sentimentos se acalmarem.
— Você sabe por que Dumbledore gostaria de conversar conosco?
Encontrou Frank e Alice parados em sua frente, prontos para partirem. Adorou o fato de que tenha passado mais de cinco minutos desde o pedido do diretor para uma reunião com eles em cinco minutos.
— Se eu posso dizer algo é: escutem o que Dumbledore tem a dizer e depois... pensem no que é melhor para vocês. Juntos, vocês dois!
Alice segurou o braço do marido, temerosa.
— As suas palavras não são muito esperançosas, James — disse ela.
— Tudo vai ficar bem, Alice.
Não tinha mais nada a oferecer ao casal. Não poderiam confirmar se Voldemort seguiria a profecia ou deixaria tudo de lado, ou se mesmo atentaria-se ao fato de que os Potter o combateu quatro vezes e não três.
Caso os Longbottom decidissem por um esconderijo, talvez teria uma coisa ou outra para recomendar. Caso contrário, teriam apenas que enfrentar aquela tempestade como todos eles.
Talvez não tenha dito o que eles queriam ouvir, pois apenas assistiu o casal, um pouco preocupado, partir sem dizer mais nada a ninguém. Ninguém os levariam a mal, não quando Dumbledore anuncia na frente de todos que precisavam falar com eles, depois daquela reunião.
Esteve nessa posição, viveu aquilo. Ainda que um pouco diferente. O que lhe deixava aliviado era ver que Frank e Alice, independente do que escolhessem, tinham um ao outro. Enfrentariam o que fosse, juntos.
Seus olhos automaticamente procuraram por Lily, achando-a em frente à janela, olhando pela rua vazia e silenciosa, os braços enrolados em si.
Aquilo o lembrou da época de reuniões da Ordem, onde ela também se perderia em pensamentos ao olhar pela janela, provavelmente tentando achar uma solução ou preparando-se para sair em missão ou tentando não surtar ao ver outras pessoas saindo em missão. Principalmente ele ou qualquer outro maroto.
James, então, aproximaria-se e a abraçaria por trás, lhe oferecendo as melhores e confortáveis palavras para diminuir aquela angústia que via nela, não querendo que a mulher que amava ficasse preocupada, chateada ou sozinha.
Hoje, ele não poderia fazer daquele jeito, mas ainda sentia o ímpeto de fazer algo por ela.
Levantou-se e caminhou vagarosamente até ela. Percebeu, pelo canto dos olhos, Sirius cutucando Remus, fazendo o amigo também virar-se para a cena. Poderia dar a volta e desistir, ou até revirar os olhos para os amigos. Mas decidiu apenas seguir.
— Eu não posso fazer isso de outra maneira... — começou, assim que a alcançou, sem deixar tempo para desistência. Lily virou-se, ainda tendo os braços bem presos no corpo. — ... então eu tenho um pedido.
A ruiva estava bem intrigada, além de tensa.
— O que seria?
James estendeu a mão para ela.
— Você me concede essa última luta? Lado a lado. E então faremos dessa, a última.
Soltando os braços, ela o encarou. Ontem, Lily havia pedido para que lutassem juntos, mas ele não chegou a dar uma resposta. Hoje, sentia que precisava não só dar a resposta, como deixar claro de que existia uma vontade que também vinha dele.
— Você me promete que ela será lado a lado?
— Como uma última dança do fim da maior e mais difícil festa — respondeu ele, sem tirar os olhos dos dela.
Sem esperar nem mais um segundo, Lily segurou a mão de James em um acordo.
— Ou como uma primeira dança em uma Slughorn Party.
Aquilo o surpreendeu. A primeira dança deles em uma Slughorn Party foi memorável e não só por ter sido com uma música trouxa, mas por ter sido a primeira dança deles na vida. Ele a guiou mesmo sem saber uma única nota, e Lily o seguiu como se seus corpos soubessem exatamente para onde ir, conectados como dois imãs.
O fim daquela noite levou aquele James adolescente ainda tão receoso de estragar tudo com Lily a arriscar um beijo leve, mas cheio de significado. Beijo que foi mais do que aceito por ela.
— Uma dança que faremos valer por todas as outras, pois seremos os vencedores no final novamente. — Lily continuou.
James apertou sua mão.
— E dessa vez, para sempre.
O aperto dela ficou ainda mais firme.
— Que a nossa dança, então, seja a melhor e eterna.
As palavras de Lily voaram por toda a sua cabeça, tentando ser filtradas ou impedidas de serem levadas para um lugar onde ele não deveria levá-las.
Era muito difícil não deixar-se cair em algo bom quando tudo ao redor parecia ruir.
A questão agora era se ele deveria escutar um coração que parecia gritar para que ele começasse a seguir um caminho que era novo — de certa forma — , instável, sem certezas, completamente fora dos seus planos... enquanto sua cabeça dizia para que ele apenas levasse as coisas de maneira simples até o fim de tudo aquilo.
Sua mão começou a esquentar e, previsivelmente, algumas faíscas surgiram entre as duas mãos juntas. Lily riu um pouco enquanto os dois soltavam do aperto.
James deu um riso leve, não conseguindo reagir propriamente ao perceber que talvez estivesse recebendo respostas, ao mesmo tempo que a sentia outra luta começando dentro de si e uma que ele não sabia qual lado venceria.
N/A:
Mais informações, sempre no meu Instagram fezfics ;)
Nos próximos dias, estarei focada no lançamento do meu segundo livro na Amazon "Infinito & Melodia". Eu iria dar uma conferida no meu outro Instagram Fezevans sobre isso, se eu fosse você :D Isso não quer dizer que vou demorar meses para postar o próximo capítulo, ok? haha
Até logo!
