Milo POV ON

O porto fervilhava de vida. A cada passo, o som de vozes animadas, malas sendo arrastadas e o leve ranger dos navios ao vento se misturavam no ar. Quando finalmente avistamos o cruzeiro, parei por um instante, assim como Luisa. Aquela embarcação era impressionante. Um gigante de metal que parecia tocar o céu, com inúmeros andares reluzindo sob a luz da manhã e um brilho que exalava luxo.

— É maior do que eu imaginava — comentei, ainda observando a grandiosidade daquilo.

Luisa concordou com um aceno de cabeça, mas não disse nada. Seus olhos brilhavam com uma mistura de admiração e apreensão.

Não demorou muito até que encontrássemos os outros agentes que fariam parte da missão. Dois homens e duas mulheres que, assim como nós, passariam por casais em lua de mel. Nos apresentamos rapidamente, mantendo o tom discreto que a situação exigia, e seguimos juntos até a área de embarque.

Ao longo do caminho, percebi que Luisa já não parecia tão hesitante em segurar minha mão. Talvez estivesse se acostumando ao papel que precisaríamos desempenhar. O calor da palma dela na minha era constante, uma presença reconfortante, mesmo que não disséssemos nada.

Passamos pelo controle de entrada sem problemas. O disfarce estava impecável. Assim que pisamos no navio, uma jovem recepcionista nos guiou até nossa cabine. O trajeto foi longo, passando por amplos corredores decorados com carpete vermelho, paredes adornadas com obras de arte e iluminação dourada que criava uma atmosfera elegante. Apesar do papel de recém-casados, mantínhamos nossos sentidos atentos, absorvendo cada detalhe do ambiente, desde a distribuição das áreas comuns até as entradas e saídas mais discretas.

Quando finalmente chegamos à cabine, não pude deixar de soltar um assobio baixo. O quarto era luxuoso, ainda mais do que eu esperava. Uma cama grande com lençóis brancos impecáveis ocupava o centro, cercada por móveis em madeira escura que exalavam sofisticação. As cortinas pesadas em tons de azul-marinho cobriam uma enorme janela de vidro que dava para uma sacada privativa, com vista direta para o mar infinito. Ao lado, um sofá aconchegante e uma mesa pequena com um buquê de flores recém-colhidas. No banheiro, uma banheira reluzente convidava ao relaxamento.

— Eles capricharam — comentei, deixando as malas no canto do quarto enquanto Luisa observava tudo com atenção.

Ela caminhou até a janela e puxou levemente a cortina, revelando a vastidão azul do oceano.

— É lindo — murmurou quase para si mesma, mas eu ouvi.

Havia algo nos olhos dela, uma tranquilidade que parecia incomum para Luisa. Mas, ao mesmo tempo, sabia que a missão estava sempre em sua mente, assim como na minha. Cruzei os braços e fiquei ali, observando-a por alguns instantes, antes de abrir a boca:

— Então, o que acha? Pronta para viver como a senhora Kallas por alguns dias?

Ela se virou, e um pequeno sorriso apareceu em seus lábios.

— Acho que não tenho escolha, não é?

Ri baixo, mas não respondi. Por enquanto, estávamos em território seguro. Mas sabia que, a partir daquele momento, cada passo deveria ser calculado. E estávamos apenas começando.

— Acho melhor guardarmos nossas coisas no roupeiro — sugeriu Luisa, enquanto caminhava até as malas. — Assim as roupas não amassam.

— Boa ideia — concordei, abrindo minha mala e começando a tirar algumas peças.

A cabine era espaçosa o suficiente para que cada um tivesse seu lado do roupeiro. Enquanto organizávamos nossas roupas — vestidos, camisas, calças e, no meu caso, as roupas mais casuais que comprei para manter o disfarce —, percebi como ela era meticulosa. Cada dobra, cada peça, era cuidadosamente colocada no lugar.

— Parece que você já está bem à vontade no papel de senhora Kallas — brinquei, enquanto pendurava uma camisa.

Ela deu uma risadinha leve, mas não me olhou.

— É só senso de organização. E, no caso, sobrevivência. Não quero ter que passar um vestido logo antes de usá-lo.

Sorri, entendendo seu ponto, mas antes que pudesse responder, ouvimos uma batida na porta.

— Quem será? — perguntei, fechando o roupeiro e caminhando até a entrada.

Luisa ajeitou uma mecha de cabelo que havia escapado de seu penteado, parecendo automaticamente alerta. Assim que abri a porta, dei de cara com os outros agentes.

— Hora da reunião? — perguntei, já prevendo o motivo da visita.

Um dos homens, de cabelo curto e postura rígida, assentiu. Seu nome era Nikos, e ele parecia ser o líder informal do grupo.

— Sim, precisamos alinhar os detalhes antes de descermos para o almoço. Não queremos levantar suspeitas.

Ao lado dele estava Alexandros, outro agente, de olhar tranquilo, mas atento. As duas mulheres que os acompanhavam, Katerina e Eleni, usavam roupas que as faziam parecer turistas elegantes, mas discretas.

Luisa se aproximou, ficando ao meu lado, e cumprimentou o grupo com um leve aceno de cabeça.

— Claro, entrem — disse, abrindo mais a porta.

Os agentes entraram na cabine, observando brevemente o ambiente antes de se acomodarem no sofá e nas cadeiras ao redor da pequena mesa. Luisa e eu trocamos um olhar, sabendo que a missão estava prestes a começar para valer.

Nikos cruzou os braços, com uma postura firme, enquanto começava a falar:

— De acordo com a programação oficial do cruzeiro, partimos em trinta minutos. Até a hora do almoço, não há atividades obrigatórias ou programadas. A maioria dos passageiros usa esse tempo para descansar ou explorar o navio. É a oportunidade perfeita para começarmos nossas observações.

Alexandros, que estava sentado próximo à janela, inclinou-se para frente, complementando:

— Milo, Luisa, quando saírem do quarto, estejam atentos. Reparem em qualquer comportamento suspeito. Pessoas que pareçam deslocadas, que observem demais ou se mantenham isoladas.

— Ou até quem esteja sendo sociável demais — acrescentou Katerina, ajustando os óculos escuros que trazia como parte do disfarce. — É comum que alguns agentes da organização tentem se infiltrar ganhando a confiança de passageiros ou da tripulação.

Luisa e eu trocamos um breve olhar. Era algo que já havíamos discutido antes, mas ouvir isso diretamente deles reforçava a importância de permanecermos alertas.

— E sobre identificar os membros da organização? — perguntei.

Eleni respondeu desta vez, com uma voz calma, mas firme:

— Temos algumas descrições vagas, mas nada muito concreto. É provável que eles se misturem bem entre os passageiros. Precisaremos usar nossa intuição e observar os detalhes.

Luisa assentiu, parecendo absorver cada palavra.

— Entendido. Vamos nos certificar de observar tudo com discrição — respondeu ela, com uma seriedade que fazia jus ao papel que assumíamos.

— Isso é crucial — reforçou Nikos. — Eles não podem desconfiar que estamos aqui para mais do que apenas uma viagem de lua de mel.

Eu dei um leve sorriso, tentando aliviar o peso do momento.

— Bem, se Luisa continuar se saindo tão bem no papel, ninguém jamais suspeitará de nós.

Ela me lançou um olhar de soslaio, mas o canto de sua boca revelou um breve sorriso.

— Apenas façam o que for necessário, mas lembrem-se de agir como turistas normais — concluiu Nikos, levantando-se.

Com isso, os agentes se despediram e saíram, nos deixando sozinhos novamente na cabine. O peso da responsabilidade parecia mais real a cada momento que passava.

Enquanto arrumávamos as últimas coisas, olhei para Luisa e sugeri:

— Que tal assistirmos o navio partir do porto? É uma boa chance de aproveitarmos a vista e, depois, podemos explorar o navio.

Ela parecia pensativa por um momento, mas logo sorriu.

— Parece uma ótima ideia. Só me dê um minuto.

Luisa abriu sua mala e tirou um par de óculos escuros e um chapéu de aba larga branco, que combinava perfeitamente com sua roupa. Ela usava um vestido leve e solto em tom azul-claro, com alças finas e bordados delicados na barra. Nos pés, uma sandália rasteira branca com detalhes dourados que realçavam sua pele. Pequenos brincos de pérola brilhavam discretamente em suas orelhas, complementando o visual. O toque final era a aliança que ambos usávamos, a mesma escolhida na joalheria.

Eu estava mais casual, com uma camisa branca de linho de mangas curtas, calça bege e sandálias de couro. Embora estivesse simples, tudo fazia parte do disfarce de "recém-casados em lua de mel".

— Pronto — disse ela, ajustando o chapéu. — Agora podemos ir.

Caminhamos tranquilamente pelos corredores do navio até uma das plataformas externas, de onde era possível ver o porto e o mar ao longe. Já havia alguns passageiros reunidos ali, ansiosos pela partida.

O navio começou a zarpar, e o som característico da sirene ecoou pelo ar, marcando o início da viagem. A água do mar parecia dançar contra o casco, criando pequenas ondas que refletiam o brilho do sol. O porto foi ficando cada vez menor, enquanto a imensidão azul do oceano se expandia diante de nós.

Luisa estava ao meu lado, apoiada na grade de metal, observando a paisagem com um leve sorriso nos lábios. Ela parecia absorver cada detalhe.

— É impressionante, não é? — perguntei, quebrando o silêncio.

— Muito — respondeu ela, sem tirar os olhos do horizonte. — É como se o mundo fosse maior do que imaginamos.

Ficamos ali por mais alguns minutos, até que decidi sugerir:

— Que tal explorarmos um pouco o navio?

Ela concordou com um aceno de cabeça, e juntos caminhamos pelos luxuosos corredores, decorados com mármore e detalhes dourados.

Conforme caminhávamos pelo navio, Luisa e eu mantínhamos o disfarce impecável de um casal em lua de mel. Sorrisos, olhares e gestos casuais reforçavam a encenação. Mas, enquanto parecíamos relaxados e despreocupados, nossa atenção estava completamente voltada para cada detalhe ao redor. Observávamos tudo: os passageiros, o ambiente e qualquer coisa que pudesse parecer fora do lugar.

Chegamos à área da piscina, uma das mais movimentadas, cheia de pessoas aproveitando o sol, nadando ou relaxando nas espreguiçadeiras. Tudo parecia tranquilo até que, de repente, senti um pulsar no ar, um cosmo descontrolado e carregado de energia negativa. Era como um alarme silencioso que só nós dois conseguíamos ouvir.

Luisa, ao meu lado, ficou tensa, e percebi que ela também sentiu a mesma energia. Seus olhos buscaram os meus, e concordei com um leve movimento de cabeça.

— Ali — sussurrei, indicando discretamente com o olhar.

Abaixo de onde estávamos, em uma área mais afastada e quase oculta da movimentação principal, dois homens estavam em pé, aparentemente conversando. A posição onde eles estavam era estratégica: uma varanda inferior, parcialmente coberta por guarda-sóis e decorada com algumas plantas ornamentais, criando uma espécie de barreira natural. Ninguém parecia prestar atenção neles, mas, para nós, aquilo era como um sinal luminoso.

Os dois homens eram altos e corpulentos. Um deles vestia uma camisa social escura com mangas arregaçadas e calças de linho claras, seus gestos eram contidos, mas o cosmo que emanava dele não mentia. O outro parecia mais desleixado, com uma camiseta simples e jeans, mas seus olhos se moviam rapidamente, como se avaliassem o ambiente.

— São eles — murmurou Luisa, a voz baixa, mas firme.

Eu sabia que ela estava certa. Stavros havia descrito bem os principais alvos da organização criminosa, e esses dois homens batiam perfeitamente com o perfil. Era inacreditável que os tivéssemos encontrado tão rapidamente.

— Isso foi mais fácil do que eu esperava — comentei em tom quase irônico, embora sem baixar a guarda.

Luisa manteve a atenção fixa nos dois, enquanto eu analisava o entorno.

Depois de identificar os dois homens, Luisa e eu decidimos que seria prudente observá-los por mais um tempo antes de agir ou informar aos demais. Nos mantivemos posicionados em um local estratégico, de onde podíamos vê-los sem sermos vistos. Eles continuaram conversando por alguns minutos, aparentemente em tom casual, mas o cosmo perturbado que emanavam era suficiente para nos manter em alerta.

— Parece que estão esperando alguém ou algo — Luisa murmurou, com o olhar fixo nos dois.

— Concordo. Mas se continuarmos aqui por muito tempo, podem perceber — sussurrei. — Melhor recuarmos por enquanto.

Com um último olhar para os dois, descemos discretamente pela escada lateral que levava de volta ao convés principal e seguimos em direção aos quartos. No caminho, evitávamos qualquer comportamento suspeito, agindo como um casal apaixonado, enquanto o pensamento do que havíamos descoberto não nos deixava em paz.

Assim que chegamos ao andar onde ficava nossa cabine, nos dirigimos até a sala de operações improvisada. Era uma cabine maior, convertida em um espaço funcional pelos agentes. Havia uma mesa com mapas, pastas e documentos espalhados, além de um quadro onde estavam presas diversas fotos dos alvos e informações sobre a organização criminosa.

Nikos e Alexandros estavam lá, analisando algumas anotações. Assim que entramos, ambos levantaram a cabeça, atentos.

— Alguma novidade? — perguntou Nikos, direto.

— Encontramos dois alvos — respondi, apontando para o quadro. Caminhei até ele e indiquei duas fotos. — Esses dois. Estavam na área da piscina, conversando de forma suspeita.

Luisa completou:

— Um deles tem um cosmo descontrolado e extremamente negativo. Não restam dúvidas.

Alexandros se aproximou, pegando as fotos indicadas por nós.

— Esses são Stanislav Dimitrov e Tsvetan Ivanov — disse ele, após uma rápida verificação em uma pasta. — Eles são peças importantes na organização. Stanislav é um búlgaro com histórico de tráfico de armas e ligação direta com o líder do grupo. Tsvetan é o braço direito dele, responsável por gerenciar as operações de lavagem de dinheiro.

— Dois alvos cruciais, e já os encontramos logo no início — comentou Nikos, visivelmente impressionado.

— Sabemos que estão envolvidos, mas não sabemos o que estão planejando fazer no cruzeiro — disse Luisa, cruzando os braços. — Por enquanto, não demonstraram nenhuma movimentação, apenas estavam conversando.

— Continuem atentos — instruiu Nikos. — Qualquer comportamento fora do comum pode ser um sinal. E quanto mais informações conseguirmos antes de agir, melhor.

Concordei com um aceno.

Enquanto discutíamos os próximos passos, uma batida firme na porta nos interrompeu. Nikos levantou-se e foi até ela, abrindo com cautela. Do outro lado estava um homem alto, de uniforme impecável e expressão séria: o comandante do navio.

— Comandante Theodoros, o que o traz aqui? — Nikos perguntou, abrindo espaço para que ele entrasse.

O comandante deu um passo à frente, olhando para todos nós antes de falar.

— Bom dia. Espero não estar interrompendo nada importante. Preciso conversar rapidamente com vocês.

— Claro, comandante, entre — disse Alexandros, puxando uma cadeira para ele.

Theodoros agradeceu com um aceno e sentou-se, endireitando a postura.

— Primeiramente, quero agradecer por estarem a bordo. É um alívio saber que pessoas como vocês estão cuidando dessa questão tão delicada.

Ele pausou por um momento, olhando para cada um de nós, antes de continuar.

— Este cruzeiro é o coração da nossa empresa, um símbolo de luxo e segurança para os passageiros. Saber que essa organização criminosa o escolheu como palco para suas operações... é algo que me revolta profundamente.

Luisa, ao meu lado, assentiu com seriedade.

— Entendemos, comandante. Também estamos comprometidos em resolver isso da forma mais rápida e segura possível.

— E é isso que me dá esperança — disse ele, com um leve sorriso. — Desejo sucesso à missão de vocês. Espero que possam acabar com essa ameaça de uma vez por todas.

— Estamos trabalhando nisso — garanti, cruzando os braços. — Já identificamos dois dos alvos, e a missão está progredindo.

Theodoros pareceu surpreso, mas aliviado.

— Isso é excelente. Se precisarem de qualquer coisa — informações sobre a tripulação, acessos restritos, o que for —, eu estou à disposição. Não hesitem em me procurar.

— Agradecemos, comandante — disse Nikos, apertando a mão dele. — Sua colaboração é essencial para o sucesso desta operação.

Theodoros levantou-se, ajeitando o uniforme.

— Não vou tomar mais o tempo de vocês. Mais uma vez, obrigado. Estarei no meu posto caso precisem.

Com isso, ele saiu da sala, deixando-nos com uma sensação mista de responsabilidade e urgência. Luisa me lançou um olhar pensativo, e eu sabia que ela compartilhava o mesmo pensamento: estávamos lidando com algo grande, e qualquer deslize poderia custar caro.

— Parece que a pressão aumentou ainda mais — ela murmurou baixinho.

— Faz parte do trabalho — respondi, tentando oferecer confiança, mesmo que soubesse que o peso da missão era real.

Depois de uma última rodada de troca de informações na sala de operações, eu e Luisa voltamos para o nosso quarto.

Assim que entramos, Luisa olhou para o relógio na parede e depois para mim.

— Falta pouco para o almoço. Acho que vou tomar um banho rápido — disse ela, caminhando até o roupeiro para escolher algo para vestir.

Eu me sentei na poltrona próxima à janela, observando-a enquanto ela pegava suas roupas. Havia algo fascinante na sua forma metódica e calma, mesmo em uma situação como aquela.

— Boa ideia. Vai em frente, mas não se demore — respondi, tentando soar casual.

Ela riu suavemente e lançou-me um olhar provocador. — Não se preocupe, Milo. Estarei pronta antes que você perceba.

Com isso, ela entrou no banheiro, e logo o som da água começou a ecoar pelo quarto. Cruzei os braços, tentando me distrair com os detalhes da missão, mas minha mente insistia em vagar. Desde que começamos essa operação, percebi que havia algo diferente em vê-la fora do contexto do Santuário, longe das armaduras, longe dos treinamentos... Havia uma leveza nela que me intrigava.

Alguns minutos depois, o som da água cessou. Quando a porta do banheiro se abriu, olhei automaticamente em sua direção.

Luisa saiu com um vestido justo de tecido leve, em um tom coral que realçava a cor dos seus olhos. As alças finas deixavam seus ombros e clavículas expostos de forma elegante, enquanto o caimento do vestido destacava as curvas de seu corpo de maneira sutil, mas extremamente marcante. O comprimento, logo acima dos joelhos, dava um toque de simplicidade, mas a maneira como o tecido se ajustava ao seu corpo tornava impossível não notar como ela estava linda.

O perfume suave que ela usava chegou até mim, misturando-se ao frescor que sua pele ainda emanava após o banho. Senti meu corpo reagir de forma inesperada. Meu coração acelerou, e uma onda de calor percorreu meu peito, como se algo estivesse me puxando para mais perto dela. Era como se, de repente, eu estivesse vendo Luisa de uma maneira completamente nova, além da guerreira focada e disciplinada que sempre conheci.

Claro, eu já havia notado suas curvas antes, especialmente quando ela usava o collant de treino no Santuário, mas naquele momento... Havia algo diferente. Algo mais delicado e, ao mesmo tempo, irresistível. A forma como o vestido delineava seu corpo parecia amplificar uma beleza que, até então, eu não havia permitido a mim mesmo enxergar por completo.

Ela me olhou rapidamente, sem perceber o turbilhão que acabava de despertar em mim.

— Sua vez, Milo — disse, enquanto começava a secar os cabelos com uma toalha.

Levantei-me lentamente, tentando mascarar o impacto que aquela visão teve sobre mim. Respirei fundo, lutando para retomar o controle dos meus pensamentos.

— Certo. Vamos ver se eu consigo ser mais rápido que você — murmurei, mantendo a voz o mais casual possível.

— Duvido — ela respondeu com um sorriso leve, voltando sua atenção para o espelho enquanto ajeitava os fios ainda úmidos.

Entrei no banheiro e fechei a porta, mas era como se aquela imagem dela tivesse ficado gravada na minha mente. Eu me apoiei contra a pia por um instante, sentindo o coração bater forte. Como eu, um Cavaleiro de Ouro, podia estar tão afetado assim?

"Foco, Milo. A missão vem primeiro", pensei, tentando dissipar as sensações que insistiam em me invadir. Mas mesmo enquanto abria o chuveiro, o perfume dela ainda parecia estar ali, me rondando, trazendo uma inquietação que eu não esperava enfrentar.

Fechei os olhos assim que a água morna começou a cair sobre mim. O som do chuveiro abafava os pensamentos que insistiam em girar em minha mente, trazendo uma sensação de alívio. A missão, o disfarce, a proximidade com Luisa... Tudo parecia mais intenso do que eu havia previsto.

Respirei fundo, deixando a água escorrer por meus ombros e lavar a tensão acumulada. Aos poucos, senti meu corpo relaxar e minha mente clarear. O banho trouxe uma calma bem-vinda, como se eu tivesse encontrado um momento de equilíbrio no meio de toda aquela confusão de emoções.

"Concentre-se, Milo. Você é um Cavaleiro de Ouro, treinado para manter o controle em qualquer situação. Não pode se deixar abalar assim", pensei, reforçando o mantra que tantas vezes me manteve firme.

Depois de alguns minutos, desliguei o chuveiro e me enxuguei rapidamente. Vesti uma camisa de linho clara e calças leves de algodão, apropriadas para o clima quente. Passei a mão pelos cabelos, tentando ajeitá-los enquanto me olhava no espelho. A imagem refletida parecia composta, mas eu sabia que, por dentro, ainda havia uma inquietação que não poderia ignorar por muito tempo.

Saí do banheiro, ajustando a gola da camisa. Luisa estava sentada na cama, terminando de pentear os cabelos. Assim que me viu, lançou-me um sorriso tranquilo, e algo no meu peito se apertou novamente.

— Parece que você conseguiu ser mais rápido do que eu imaginava — comentou ela, brincando.

— Bom, eu tinha um motivo para não demorar — respondi, tentando manter o tom descontraído.

Ela arqueou uma sobrancelha, curiosa. — E qual seria?

— Estou com fome — declarei, sorrindo de lado, desviando de qualquer interpretação mais profunda.

Luisa riu, balançando a cabeça. — Então vamos. Não quero ser a culpada por deixar você mal-humorado por causa de fome.

Peguei a chave do quarto e ofereci meu braço para ela. — Está pronta, minha esposa?

Ela aceitou, cruzando seu braço no meu, e juntos saímos do quarto. O perfume dela ainda era perceptível, mas desta vez não me abalou tanto quanto antes. Talvez o banho tivesse realmente me ajudado a recuperar o equilíbrio, ou talvez eu estivesse aprendendo, aos poucos, a conviver com essa nova dinâmica entre nós.

Enquanto caminhávamos pelos corredores do navio em direção ao restaurante, meu foco voltava à missão. Não importava o quanto aquela situação fosse diferente ou inesperada, eu tinha um propósito claro a cumprir. E, ao meu lado, estava uma aliada forte e confiável, mesmo que ela tivesse a capacidade de me desestabilizar de formas que eu nunca imaginei.