QUANDO NOS TOCAMOS
BY DAMA 9
Nota: Os personagens de Saint Seya não me pertencem, pertencem a Masami Kuramada e a Toei Animation.
-x-
Aviso: Classificação do capítulo (M).
-x-
Capítulo 18: Agonia e Êxtase.
.I.
Séculos haviam se passado desde a última vez que estivera naquele salão, aliás, poderia contar nos dedos as vezes que vira seu irmão desde que fizeram a partilha. Sempre que ia a Terra encontrava Posseidon andando entre os mortais, mas Hades não. Ele assumira aquele reino e vinha mantendo o equilíbrio entre os mundos, sempre evitando se envolver nos conflitos entre os deuses e os titãs e até mesmo entre eles próprios.
Por isso era estranho que justamente ele houvesse levado alguém da Terra e por ironia do destino, esse alguém fosse justamente Cora. Ela herdara o melhor dele e de Deméter, tanto sua beleza que rivalizava com Afrodite, como os poderes. Embora não desgostasse totalmente da ideia de finalmente tê-la no panteão ao alcance de seus olhos, não achava que Apolo seria um bom par para ela.
-Por que ele está demorando tanto? – Deméter reclamou andando de um lado para o outro.
Embora tivessem sido levados diretamente a Giudecca, sabia que se Hades quisesse prolongar aquilo, teriam que atravessar todas as prisões até o castelo, isso se não ficassem presos em algum labirinto. Dado o histórico que carregavam, mesmo ele - senhor de todos os deuses - não ousava se arriscar nas prisões criadas pelo próprio Caos dentro daquele mundo. Uma vez já fora confinado a uma prisão, não queria arriscar isso novamente, ainda mais em um local que seus poderes não eram totalmente eficazes.
-Hades quer resolver isso tão rápido quando nós; Zeus respondeu aborrecido.
-Detesto esse lugar; Deméter falou lançando um olhar de desprezo ao salão principal. Não via a hora de recuperar Cora e partir.
-Fique à vontade para partir. Ninguém a está segurando aqui; a voz do Imperador ecoou no salão chamando a atenção dos dois.
-Irmão! – Zeus saudou ao vê-lo aproximar-se do trono e sentar-se de forma elegante e majestosa.
Estreitou os olhos perigosamente, entendendo o recado explicito que ele acabara de lhe dar. Ali, mesmo ele - senhor dos deuses do Olimpo - não tinha poder contra a vida, a morte e o renascimento, Hades controlava aquele mundo e nada ali aconteceria se não fosse por sua vontade, naquele reino o irmão se tornara a extensão do próprio Caos, o criador de tudo e de todos.
-Por que estão aqui? – Hades indagou vendo Deméter prestes a avançar em sua direção.
-COMO SE VOCÊ NÃO SOUBESSE! – ela berrou, enfurecida. -DEVOLVA MINHA FILHA;
-Abaixe o tom Deméter; o Imperador ordenou, serrando os orbes perigosamente.
-Você não tinha o direito de levá-la;
-Talvez; Hades respondeu com pouco caso, nem um pouco preocupado com a explosão da irmã. - Cora não é uma prisioneira aqui;
-Então me devolva ela; Deméter falou ansiosamente.
-Eu disse que aqui ela não era prisioneira. Mas você, pelo contrário, a manteve trancada durante todos esses anos;
-É minha obrigação proteger minha filha; ela insistiu.
-Verdade! – ele concordou complacente, para em seguida acrescentar. -Proteger sim, mas você sabe melhor que não foi isso que você fez. Ao menos seja honesta;
-Como eu cuido dela não é da sua conta, Hades; Deméter rosnou, voltando-se para a outra divindade. -Exijo que ele devolva minha filha;
-Antes de tudo, você precisa saber se ela quer voltar; Zeus respondeu, vendo agora a fúria de Deméter voltar-se na sua direção.
-Não foi para isso que te trouxe aqui!
-Acho que nenhum de vocês dois sabe realmente o que vão conseguir estando aqui; Hades falou acomodando-se melhor no trono. -Você provavelmente está assim porque perdeu sua moeda de troca com Apolo... Agora, irmão... Se pretendia provocar Hera vindo aqui com ela, deveria saber melhor que a 'Senhora do Olimpo' pode ser bastante vingativa e criativa ao lhe fazer pagar por seus deslizes. Deveria ter avaliado de forma mais inteligente a situação; ele completou em tom de provocação vendo os dois voltarem-se para si com olhares de puro ódio, por ter acertado em cheio no alvo.
-CHEGA HADES, ONDE ESTÁ CORA? – Deméter gritou.
-Traga-a aqui e vamos acabar com isso de uma vez; Zeus exigiu visivelmente irritado. -Se ela quiser partir, iremos embora logo;
-E se eu quiser ficar? – a voz da jovem soou no salão, atraindo a imediata atenção do Imperador.
Rapidamente seus olhos buscaram pela jovem e dardejaram Hypnos que estava logo atrás dela.
Hades levantou-se do trono e estava prestes a ir até ela, quando Cora voltou-se para ele, acenando, e com um olhar sutil, pediu que esperasse.
Conteve a respiração, enquanto a túnica esverdeada deslizava pelo piso frio. Poderia olhar para ela por séculos e jamais deixaria de se surpreender com cada nuance que via. Desde a forma como o verde de seus olhos mudava de tom com a incidência da luz, ou o calor de seu sorriso.
-Filha! – Deméter falou ameaçando avançar, mas antes que ela chegasse ao primeiro degrau da escadaria aos pés do trono, o exército de espectros saiu por dentre as colunas, bloqueando sua passagem. -Mas o que...;
-Se cruzar essa linha, vou tratá-la como uma invasora e nem mesmo por Cora, você será poupada; Hades avisou, voltando-se para a irmã com olhos frios e mortais.
-Agora que você está aqui, pode simplesmente responder de uma vez, se quer partir ou ficar; Zeus falou os cortando, antes que Deméter fizesse algo insano, ainda mais porque Hades também estava falando sério.
-Mãe; Cora chamou, atraindo a atenção da genitora para si. -Eu quero ficar;
-IMPOSSÍVEL! – Deméter gritou avançando na direção da filha, mas antes que ela pudesse chegar a Cora, uma parede de pura energia formou-se entre elas, lançando Deméter para trás.
-Mãe; a ninfa sussurrou, apavorada voltou-se para Hades, mas o mesmo parecia impassível e frio. Embora tivesse ouvido o que ele disse, sabia que aquele ataque não viera dele. Não sabia como explicar, mas por mais que ele tivesse deixado implícita a ameaça a Deméter, ele não daria cabo disso se fosse lhe magoar. Era estranho, mas sentia isso.
-Eu posso aceitar essa resposta Deméter; Zeus afirmou, taciturno.
-Mas eu não; a divindade agrícola rosnou. -O que fez com ela, Hades? – ela exasperou e ficou ainda mais furiosa quando o viu apenas arquear a sobrancelha de forma petulante.
-Eu escolhi mãe; Cora respondeu colocando-se na frente de Hades, ficando entre ele e Deméter.
-Você não sabe o que quer, filha; ela falou em tom complacente. -Mas é minha culpa, eu deveria tê-la educado melhor. Venha comigo, irei protegê-la melhor a partir de agora;
-Deméter; Zeus alertou.
A qualquer momento aquilo iria sair do controle e os resultados seriam imprevisíveis.
-É melhor partir agora que tem sua resposta Deméter; Hades falou olhando atentamente os dois irmãos, embora não tocasse Cora diante deles por respeito a ela. Não iria se afastar de forma que isso lhe atrasasse caso precisasse protegê-la.
-Não! – a deusa insistiu, voltando-se para Zeus. -Não aceito isso, vá buscá-la agora;
-Mãe, a senhora não entendeu; Cora falou, chamando-lhe a atenção novamente. -Eu vou ficar;
No segundo seguinte Cora deixava cair sobre as escadas metade de uma romã que tinha nas mãos. O som seco ecoou pelo salão enquanto a fruta rolava até os pés da mãe espalhando o suco vermelho pelo piso como se fosse sangue. Não foram necessários mais do que dois segundos para que as divindades entendessem o que havia acontecido.
-Mentira; Deméter balbuciou com olhar alucinado.
-Eu escolhi ficar, mas a senhora não está preparada para entender isso; ela respondeu, dando um passo atras, propositalmente encostando-se no Imperador. –Eu quero ficar com ele!
E o verdadeiro inferno instalou-se sobre o salão. Violento e furioso. Espectros fecharam o cerco para protegê-los, enquanto os poderes de Deméter expandiram-se com ódio e fúria desenfreada, mas da mesma forma que essa força veio, também se foi, quando deuses e espectros caíram em sono profundo no chão de pedra fria, apenas os dois permaneciam de pé e no canto extremo do altar, jazia um Hypnos com olhos fechados, rodeado por um alo dourado.
-Hyp-...;
-Deixe-o, se ele perder a concentração agora, eles irão cair em um sono de morte; a voz do Imperador soou num sussurro em seu ouvido.
Abraçou-se, estremecendo com o frio que começara a tomar conta de si. Olhou para o salão preocupada que algum dos espectros pudesse ter se ferido na tentativa de lhes proteger. A mãe não iria desistir, tampouco aceitar a escolha que fizera. Então, sabia que precisava lhe mostrar o que queria, da única forma que ela não poderia contestar, mesmo que não esperasse toda aquela violência vinda dela.
-Jogada bastante ousada, criança; uma voz grave soou atrás deles, quase como um sussurro levado pelo vento.
Voltaram-se na direção da voz e imediatamente o Imperador colocou-se à frente dela, protetoramente.
-Pode descasar agora, Hypnos. Eles não serão mais um problema; a entidade continuou, antes de estalar os dedos. No instante seguinte, Hypnos caia de encontro a uma pilastra e abria os olhos, evidentemente exausto. Podia controlar o sono tranquilamente, mas conter duas divindades como Deméter e Zeus ao mesmo tempo, era mais do que ele podia suportar.
-Meu senhor; ele balbuciou um agradecimento silencioso, enquanto cambaleava até o Imperador.
O estranho de longas vestes negras aproximou-se do casal, olhando-os com visível curiosidade. O rosto fino, quase de ângulos retos comportava uma vasta cabeleira de fios negros, os olhos acinzentados adquiriam nuances coloridas conforme a luz dos archotes refletiam ali. Embora não soubesse explicar, sentia que havia uma força muito poderosa fervilhando quase na superfície vindo do desconhecido.
-Caos; o Imperador começou.
-Ela é geniosa e não irá cair sem lutar; ele comentou, voltando seu olhar para o salão, indicando o corpo inerte de Deméter.
-Mas eu...;
-Desfaça isso, Caos; Hades exigiu em tom frio.
-O que? – Cora quase gritou, voltando-se para ele com olhar assustado.
-Você é o único aqui que pode quebrar as velhas leis; o Imperador continuou, antes de colocar delicadamente uma das mãos sobre o ombro da jovem, sentindo-a incrivelmente fria. -Iremos fazer Deméter entender que não pode te prender; ele continuou, enquanto ela estremecia. -Caos?
-Você tem certeza? – ele perguntou arqueando a sobrancelha, enquanto a jovem empalidecia ainda mais.
-Por quê? – Cora balbuciou, lançando lhe um olhar ferido. Sabia que Deméter causaria problemas, mas não pensou que ela fosse se tornar um problema tão grande a ponto de ele querer se livrar dela assim. Será que entendera as coisas de forma errada? – Não quer que eu fique? – ela perguntou num sussurro, ansiando e temendo sua resposta.
-Agápi mou... Ter você aqui é mais do que eu sequer ousaria sonhar; ele falou virando-a de frente para si, colocando as mãos sobre seus braços cruzados, de forma que pudesse transferir parte de seu calor para ela. -Mas não suportaria que perdesse a liberdade e fosse condenada a permanecer aqui, sem ter a escolha de partir;
-Não é uma condenação quando a escolha foi minha; Cora respondeu, aproximando-se um passo dele.
Lembrava-se do que Sylphid lhe explicara no jardim mais cedo, os frutos do jardim eram tentadores, tanto que quase os consumira quando um dos frutos caiu suculento próximo a suas mãos, mas não fora por isso que escolhera ficar, a romã era apenas um meio para o fim.
-Mas...;
-Ou você também pensa como minha mãe? Que não sou capaz de fazer minhas próprias escolhas? – ela continua erguendo o queixo de forma desafiante.
-Cora;
-Ela te pegou, Imperador; Caos falou em tom de provocação, lembrando aos dois que ele ainda estava ali.
-Você não está ajudando; Hades resmungou para a entidade.
-É bom que pense assim; ele comentou, antes de olhar profundamente nos olhos da jovem. -Não será uma estrada fácil de percorrer;
-Eu também posso ser teimosa; Cora respondeu convicta.
-Mantenha isso em mente; a divindade falou olhando atentamente para os dois, até que seus olhos recaíram sobre a mão que o Imperador apoiava sobre o ombro dela. Com a ponta de seus dedos, tocou nas costas da mão do Imperador e como por magica surgiram dois pequenos círculos entrelaçados.
-Ai! – os dois gritaram ao mesmo tempo.
Quando Hades afastou sua mão dela, sobre o ombro de Cora o mesmo símbolo surgira. Eram traços delicados em vermelho e dourado, que para olhos não treinados seria impossível enxergar.
-Não há o que desfazer Imperador, ela nunca comeu as romãs; Caos falou com um sorriso malicioso ao ver o olhar chocado do outro, enquanto a jovem corava até a ponta das orelhas. -Mas essa jovenzinha deixou bem claro onde quer estar e pra mim, isso é só o que importa; a divindade comentou antes de lhes dar as costas, afastando-se. -Vou lhes dar um pouco de tempo, considerem um presente;
Como para provar a que ele se referia, Caos desapareceu no instante seguinte levando Zeus e Deméter consigo. Antes daquele dia terminar, os sussurros de Eco já haviam espalhado pelo mundo que finalmente o destino presenteara o sombrio Imperador do mundo dos mortos com uma companheira e que suas almas haviam se entrelaçado por força do destino.
-Kyría; ele sussurrou tocando-lhe a face delicadamente com a ponta dos dedos, atraindo-a para perto de si. -Eu nunca desejei tanto uma coisa, em todos esses séculos, mas ... Ter esperança, não é algo recorrente aqui; ele começou sem saber ao certo como explicar a ela.
Embora houvesse a levado da Terra, temia ter esperança de que ela escolhesse ficar, porque afinal, quem iria? Mas uma parte sua, bem pequena ousou, mesmo com medo de sentir. Logo ele, uma criatura acostumada com sombras e trevas, almejar alguém tão puro e brilhante como os raios do sol.
-Quero ver esse mundo... Quero que você me mostre seu mundo; Cora falou pausadamente. -Sei que nem tudo será um mar de rosas, mas se há um jardim tão lindo, mesmo entre as prisões, sei que existe luz aqui. Você me ensinará do que esse mundo precisa e juntos, vamos dividir esse fardo; ela completou referindo-se ao equilíbrio.
-Você é mais do que eu ousaria sonhar, agápi mou; o Imperador completou roçando-lhe os lábios quentes contra os seus.
-Eu posso aceitar isso...; Cora murmurou, quando sentiu os braços fortes envolverem-na com força antes que ele a suspendesse do chão, recostando-a imediatamente contra seu peito. -Por enquanto; ela brincou, antes que ele selasse seus lábios em um beijo intenso que lhe roubou o folego e a capacidade de pensar em qualquer outra coisa que não fosse naquele instante.
-Lady Cora!
O chamado soou a seu lado, puxando-a de um lindo sonho de forma tão brusca, que lhe roubou o folego. Olhou para o lado notando Fran parada na porta, com uma bandeja nas mãos.
Seus olhos correram a sua volta com um brilho assombrado. Buscando desesperadamente os últimos resquícios daquele doce sonho.
-Está tudo bem? – Fran perguntou vendo-a se afastar do beiral da janela onde estivera sentada, desde que lhe acompanhara de volta ao quarto depois do jantar.
Shun e Pandora não haviam se reunido com elas, mas sabia que eles estavam na biblioteca e mandara alguém levar uma bandeja com lanches para lá. Aqueles dois ainda tinham muito o que conversar.
-Estou, acho que peguei no sono aqui sem perceber; Cora comentou distraidamente enquanto levantava-se do acento.
-Vou deixar aqui a bandeja, achei que gostaria de um chá quente antes de dormir; Fran explicou, vendo a jovem distraidamente massagear um dos ombros.
-Fico grata por isso; ela respondeu com um fraco sorriso.
-Com licença, se precisar de mais alguma coisa, basta nos chamar; a governanta completou, antes de fazer uma breve mesura e deixar o local.
Olhou distraidamente a bandeja por alguns segundos, antes de desviar da mesma, indo deter-se em frente a um espelho de corpo inteiro ao lado da cômoda. Com cuidado soltou os laços do vestido de mangas compridas que usava agora, embora o outono só fosse chegar no dia seguinte, as correntes de ar naquele castelo eram mais pesadas e frias, causando-lhe uma estranha sensação de incomodo.
Afastou a gola até descobrir completamente o ombro direito, enquanto olhava atentamente seu reflexo através do espelho. Os dois anéis - vermelho e dourado - ainda estavam ali, com cores tão vivas como no dia que surgiram.
Não mentira para Caos quando dissera ser tão teimosa quanto Deméter, naquela noite pela primeira vez em sua existência, mentira para mãe. Acreditou que ela fosse desistir se pensasse que havia comido as romãs e por consequência estaria presa no reino dos mortos para sempre, mas exceto o tempo que lhes foi dado por Caos, Deméter não deu trégua.
A mãe incendiou o mundo como vingança por Zeus não ter lhe levado embora, desconsiderando completamente seu desejo de ficar, havia implorado por uma trégua, afinal, os mortais não mereciam sofrer por aquilo, mas Deméter foi irredutível - só pararia quando ela voltasse a ficar a seu lado.
Foi quando Zeus propôs que ficasse seis meses na Terra com sua mãe e os outros seis meses do ano, com o companheiro. Nenhum dos dois queria aceitar isso, mas lhe machucou demais ver tantas pessoas morrendo de fome, civilizações inteiras a beira da destruição porque nada mais germinava na terra.
A contragosto aceitou o acordo com Zeus, mas à revelia comeu as sementes de romã. Se da primeira vez a mãe tivesse desconfiado que havia blefado sobre querer ficar com Hades, agora, nada poderia separá-los. E assim ela voltou a Terra por seis longos e dolorosos meses, que seriam puro inferno e tortura se o marido não houvesse ido atrás de si e contrariando as vontades de sua mãe, passava o máximo de tempo que podia consigo na Terra.
Assim os séculos passaram, houveram encontros, desencontros, mal-entendidos, acertos e erros, mas a verdade ainda era a mesma, não se arrependia da escolha que fizera naquele dia. Provavelmente como Shun dissera, mesmo em outro mundo ou outro universo, ainda faria as mesmas escolhas; ela pensou antes de se afastar do espelho, pretendia encontrar uma roupa adequada para dormir na mala sobre a cama, mas antes iria até a sala de banhos no final do corredor, esperava que um banho quente lhe acalmasse o suficiente e quem sabe tivesse uma noite sem sonhos.
.II.
Distraidamente mexeu a colher dentro da xícara, vez ou outra batendo levemente com ela na borda de porcelana, o vapor suave do chá de hortelã erguia-se em uma nuvem esbranquiçada e perfumada. Viu-o olhar distraidamente para o celular sobre a mesa, que novamente emitia um som baixo e vibrava sobre o tampo de madeira.
-Acho que deveria atender; Pandora comentou, embora o aparelho estivesse virado para baixo e não pudesse ver a tela, tinha uma leve suspeita de quem estava do outro lado.
-Eu já avisei que chegamos bem, quando amanhecer eu ligo pra ele; Shun respondeu confirmando sua suspeita.
-Se você quer assim; ela respondeu dando de ombros, embora uma parte de si sentisse uma pontadinha de prazer ao vê-lo ignorar o cavaleiro, ainda mais depois daquele ano infernal que estivera em contato com Ikki e ele lhe mantivera apenas a margem sobre o que acontecia com Shun, mesmo que outra parte também não achasse justo que ele ficasse preocupado enquanto estavam ali.
-Não sei muito bem como falar pra ele; o cavaleiro comentou hesitante, olhando distraidamente para a própria xícara.
-O que? Que estou viva? – Pandora indagou preocupada, engolindo em seco. Agora era ela que não sabia como contar a ele, que Ikki já sabia disso a quase dois anos.
-Não, isso eu já sei que vai fazer ele surtar; Shun respondeu com um fino sorriso nos lábios. Conhecia bem o irmão e sabia que quando dissesse a Ikki que Pandora estava viva, ele entraria no próximo voo para Minden.
-Então? -ela perguntou curiosa.
-Não pretendo voltar ao Japão por enquanto; ele respondeu, vendo-a se sobressaltar derrubando sua xícara sobre a mesa.
-Droga! – Pandora murmurou, nervosamente tentando recolher os cacos da xícara que se espatifou, espirando chá pela mesa e sobre si mesma.
-Aqui! – Shun adiantou-se rapidamente lhe entregando um guardanapo, enquanto a ajudava com os cacos. – Cuidado para não se cortar;
-Tudo bem... Eu só fiquei surpresa. Me desculpe; ela murmurou, enquanto colocava os cacos sobre a bandeja. – O que pretende fazer então?
-Não sei bem, mas tenho alguns amigos que moram em Londres e Aberdeen, talvez eu passe um tempo com eles lá; o cavaleiro respondeu um pouco vago. – Apenas não quero voltar agora para o Japão;
Não, claro que ele não iria querer voltar. Depois que a Imperatriz partisse e ele voltasse pra casa, ainda teria que lidar com o olhar questionador de todos, mesmo que ninguém lhe perguntasse diretamente, ainda haveria muito barulho e especulação sobre o que ele e a Imperatriz haviam vivido, ou não. Além de desagradável, era extremamente irritante, mesmo que ela também estivesse um pouco curiosa sobre os dois.
Quando eles chegaram no pátio principal, vira a forma como Shun guiava a Imperatriz até a entrada, seu toque sobre ela embora sutil era firme e possessivo. Como se enviasse uma declaração a qualquer um que estivesse vendo, que eles estavam juntos. A aura em volta dele também mudava com essa proximidade, se tornava mais densa e quando alguém ameaçava invadir esse núcleo, a energia ficava mais agressiva.
Isso lhe confundia, não se lembrava de já ter sentido isso antes.
-E se você ficasse aqui? – ela sugeriu, tentando conter a animação com o pensamento de tê-lo por mais tempo ali.
-Aqui?
Nunca pensara realmente nessa possibilidade, ainda mais após a impressão inicial que tivera ao chegar ao castelo.
-Sim, além de descansar, você pode conhecer a região; Pandora completou, praticamente prendendo a respiração enquanto o via pensar.
Distraidamente terminou de enxugar a mesa e voltou ao lugar que ocupava na poltrona. Pegou sua própria xícara e levou aos lábios sentindo o líquido completamente gelado agora. Deu de ombros desistindo do chá, devolveu a xícara para a bandeja.
-Pode ser uma boa ideia; ele murmurou pensativo. -Se não houver problema, é claro?
-Não, problema nenhum; a jovem respondeu animada. -Vai ser ótimo ter você aqui;
-Obrigado; Shun respondeu, enquanto ouvia o celular vibrar mais uma vez.
-Mesmo que você não conte isso a ele agora, atenda... Diga que está tudo bem, ainda que seja uma mentira; Pandora falou, vendo o celular vibrar novamente. -Vai ajudá-lo a dormir à noite se pensar que, apesar de tudo as coisas estão sob controle; ela completou com um olhar pensativo.
-Tem razão; ele murmurou, inclinando-se para pegar o aparelho.
-Vou deixá-lo sozinho então, preciso falar com Fran; Pandora falou, decidindo que era melhor eles terem aquela conversa sozinhos.
-Te encontro amanhã no café? – ele perguntou, com um olhar ansioso enquanto o aparelho vibrava novamente em sua mão.
-Claro, estarei aqui sempre que precisar; ela respondeu com um fino sorriso, antes de pegar a bandeja com as coisas e deixar a biblioteca.
Assim que a porta se fechou atrás da jovem, deslizou o polegar sobre a tela enquanto a trava de segurança era desabilitada e atendia a ligação.
-Alô;
-Seu irmão está nos enlouquecendo; uma voz soou do outro lado.
Franzindo o cenho olhou para a tela do aparelho novamente, o número registrado ali era de Ikki, mas quem estava do outro lado usando o telefone não era ele.
-Hyoga congelou os pés dele e Seiya conseguiu amarrá-lo com o fio do telefone; Tohma continuou descrevendo a cena que tinha diante de si. -Achei melhor avisar caso você resolvesse retornar alguma das trezentas ligações perdidas dele;
-Eu pretendia retornar agora; Shun comentou casualmente.
-Sei; Tohma respondeu dando de ombros. -De qualquer forma, Ikki já entendeu que tem que parar de bancar a namorada pegajosa;
-Entendeu? Ou vocês fizeram ele entender? – o cavaleiro perguntou ouvindo um barulho estranho vindo do outro lado.
-Isso importa? – o anjo celeste rebateu arqueando a sobrancelha.
-Não, realmente não importa; Shun respondeu dando um pesado suspiro. -Mas estou bem, não precisam se preocupar;
-É uma boa mentira; Tohma murmurou somente para ele ouvir enquanto estreitava os olhos para os três cavaleiros que estavam na sua frente. -Mas aceitável por enquanto;
-É só o que posso dizer; Shun respondeu depois de alguns segundos de pesado silêncio. -Eu gostaria de falar com meu irmão agora Tohma, por favor;
-Boa sorte então; ele respondeu, antes de acenar para os dois soltarem o cavaleiro furioso, que ao se ver livre das amarras tomou o aparelho de suas mãos.
-SHUN?
-Ikki, agora não; ele pediu, contendo imediatamente a onda explosiva que certamente viria do irmão.
-O que aconteceu? – o irmão perguntou, sentindo a tensão na voz do mais novo.
-Achei melhor que você soubesse por mim, do que através do piloto da fundação; ele começou.
-Houve alguma falha no avião? Vocês quase caíram? É por isso que você não estava atendendo? O avião caiu? – ele perguntou freneticamente pensando em todas as possibilidades que poderiam ter feito o irmão não atender suas últimas ligações e porque o piloto iria reportar algo.
-Não para todas as perguntas; Shun respondeu dando um suspiro cansado. Por mais que quisesse adiar aquilo, sabia que seria pior deixar que ele descobrisse através de outra pessoa que não voltaria tão cedo ao Japão. Aliás, ainda estava surpreso com a própria decisão, não estava em seus planos originalmente, pelo contrário, quando deixara Jamiel estava decidido a voltar para o Japão e se estabelecer, mas muitas coisas haviam mudado nas últimas quarenta e oito horas.
-Então o que houve com o piloto da fundação? – Ikki perguntou impaciente.
-Amanhã ele retornará ao Japão;
-Que bom que você estará de volta mais cedo. Achei que tivesse de esperar até meia noite, ou algo do tipo e só voltaria no domingo; ele comentou animado.
-Você não entendeu; Shun o cortou. – Eu não vou voltar com ele;
-O QUE?
Afastou o aparelho da orelha, enquanto sentia um zumbido no ouvido com o grito dele.
-Ahn! Pandora também está viva;
-SHUN?!
-Gostaria que tivesse um jeito mais fácil de te contar isso Ikki, mas não tem; o cavaleiro falou tentando manter a calma diante da torrente frenética de palavras que saiam do outro lado. Afastou o aparelho do ouvido por alguns instantes, enquanto aguardava uma brecha para continuar -Eu pretendo visitar alguns amigos em Londres e Aberdeen, por isso liberei o piloto para voltar; Shun continuou, embora não houvesse dado a notícia ainda para a equipe de voo, faria isso no primeiro horário da manhã.
-Eu pensei que você fosse se preparar para as provas e escolher um curso? - o irmão comentou tentando se controlar.
-Eu ainda vou, mas tenho tempo até o exame admissional;
-Entendo; ele murmurou notando algo diferente na voz do irmão que o fez refrear a próxima torrente de perguntas.
-Eu vou ficar bem, você não precisa se preocupar tanto. Aproveite para se concentrar em estudar para os seus exames. Você não vai querer reprovar, não é? – Shun o provocou, sabendo que o irmão vinha se dedicando a isso no último ano e meio.
-Se você não ficasse, você me diria? – Ikki perguntou hesitante.
-Não acho que eu já tenha conseguido esconder algo de você por muito tempo; Shun comentou dando um pesado suspiro. -Mas, eventualmente eu te contaria sim;
-Posso lidar com isso no momento; ele respondeu, sabendo que não conseguiria mais nenhuma informação do irmão naquele momento. – E a Imp-...;
-Preciso dormir agora, o jetlag está começando a me afetar; Shun o cortou antes que ele perguntasse sobre Cora. – Nos falamos amanhã;
-Certo!
-Até; ele completou antes de desligar, impedindo qualquer onda de protesto do outro.
Jogou o aparelho sobre a mesa com um baque seco, inclinou a cabeça para trás no encosto da poltrona, sentindo pelo menos três terminações nervosas saltarem. Só esperava que Tohma e os outros mantivessem o irmão na linha, do contrário ele estaria ali nas próximas vinte e quatro horas, porque sabia que dentre tudo que eles conversaram, Ikki ainda não deveria ter processado a informação sobre Pandora e quando isso acontecesse, que os céus o ajudassem.
Talvez fosse hora de se recolher como dissera ao irmão, desde que entrara naquela sala com Pandora perdera completamente a noção do tempo. Deixou a biblioteca, apagando as luzes atrás de si. Com sorte, assim que deitasse a cabeça no travesseiro iria apagar.
Atravessou os corredores parcamente iluminados até chegar ao quarto que Fran lhe dera, antes que pudesse entrar, lançou um olhar para o final do corredor. Como a maioria dos castelos antigos, mesmo quartos como o seu não possuíam banheiros, as chamadas salas de banho normalmente ficavam atrás da cozinha, ou como ali, no final do corredor daquele andar. Caso o castelo estivesse cheio como no passado, seria um local compartilhado por qualquer um que habitasse aquela ala, sendo usado até por mais de uma pessoa ao mesmo tempo para que a água quente não fosse desperdiçada.
Até onde conseguira observar do castelo, muito da arquitetura clássica original ainda permanecia, mas em alas de uso comum pode ver a utilização de energia elétrica e aquecimento a gás, o que era de grande ajuda no inverno que provavelmente seria rigoroso já que estavam no alto de uma montanha rodeada por um vale.
Antes de se acomodar iria tomar um banho, se entrasse em seu quarto provavelmente o cansaço pesaria ainda mais. Por sorte Pandora lhe avisara mais cedo que encontraria no cômodo roupão e toalhas; ele lembrou-se antes de se afastar da entrada do quarto, seguindo até o final do corredor.
-x-
Olhou atentamente para o aparelho, agora mudo em suas mãos, a sua frente os três cavaleiros tinham expressões distintas entre si, variando de choque a puro homicídio, sendo a segunda a que lhe deu mais calafrios.
-Sério, Ikki? – Tohma perguntou pausadamente em tom frio, causando calafrios até em Hyoga.
-Bem...;
-Você não tem jeito; Seiya reclamou, balançando a cabeça levemente para os lados.
-Pelo menos Shun já sabe que Pandora está viva; Hyoga comentou, tentando enxergar algo positivo naquela situação.
-Ele avisou que não vai voltar; Ikki murmurou, desviando o olhar.
Havia pressentido que isso poderia acontecer, mas ouvir do irmão era doloroso.
-Eu poderia apontar o óbvio, mas seria jogar sal na ferida; Tohma comentou assertivo.
-Você acabou de fazer de qualquer forma; Seiya respondeu, lançando um olhar debochado a ele.
-Pelo menos ele irá voltar para o exame admissional; Hyoga comentou.
-Isso é daqui seis meses; Ikki respondeu estreitando os olhos como se houvesse acabado de pensar em algo.
-NÃO! – os três gritaram ao mesmo tempo, colocando-se em volta dele.
-O que?
-Você não vai para Heinstein; Hyoga adiantou-se, sabendo o que ele havia pensado.
-Vou ligar para Saori e avisar que você está sendo difícil; Tohma completou, puxando o celular que tinha no bolso. -Ela vai adorar saber, acho até que um dos doze que estão no Santuário agora, pode dar um jeito em você a distância se ela pedir; ele continuou em tom de provocação.
-Saga e Kanon, tenho certeza de que podem; Seiya continuou com um sorriso que estava longe de ser inocente, sabendo o quanto o cavaleiro iria se irritar com isso.
-Chega! Eu entendi; ele respondeu prontamente, dando-se por vencido. Sua última discussão com Saori não acabara muito bem e o posterior alerta que ela lhe dera ainda lhe instigava pesadelos.
-Agora que resolvemos isso, vamos dormir... Prometi a Minu ajudar a concertar o telhado do orfanato amanhã; Seiya respondeu antes de se afastar, dando por encerrado a conversa.
-Me espere amanhã cedo, eu vou com você; Hyoga avisou, acenando para os outros e seguindo o outro cavaleiro.
Observou os dois desaparecerem da sala, antes de voltar-se para o cavaleiro de fênix.
-Você sabe que, mais hora, menos hora, terá que contar ao Shun que já sabia sobre Pandora, não é? Mesmo que não importe mais, você deve a verdade a ele;
-Eu sei; Ikki respondeu sentando-se na poltrona que fora amarrado mais cedo por eles, empurrou o fio do telefone para o lado, teria que concertar aquilo depois, Seiya apenas puxara o fio sem considerar o estrago na parede de onde ele saíra, Tatsume iria lhes infernizar até a próxima vida quando visse aquilo.
-Eu não gostaria de voltar para um lugar onde as pessoas ficassem especulando sobre a minha vida, ou o que aconteceu comigo. Sei que para você é difícil ficar afastado dele mais tempo, mas será pior para o Shun voltar agora, enquanto a dor está muito na superfície; o anjo celeste comentou, desviando o olhar para a bagunça que eles tinham feito no cômodo mais cedo.
-É por isso que você ainda não foi ao Santuário desde que todos voltaram? – Ikki perguntou casualmente.
Quando o misterioso milagre acontecera, trazendo os cavaleiros de volta a vida, Artêmis e Apolo haviam desaparecido, levando consigo dois anjos celestes que haviam sido feridos em batalha. Apenas Tohma fora deixado para trás, provavelmente porque se voltara contra Artêmis no último minuto, entrando na frente da flecha que ela disparara contra Athena.
Ele também fora levado a Fonte para se recuperar e quando Saori fizera uma curta viagem ao Japão para verificar a empresa e equilibrar suas novas responsabilidades, ele fora o primeiro a se candidatar para escoltá-la, mas, quando um mês se passou e a jovem retornou a Grécia, Tohma decidira ficar no Japão e com isso, dois anos já haviam passado.
-Mês que vem pretendo visitar minha irmã; Tohma comentou distraído. Não confirmando nem negando a pergunta do outro. Apenas preferia não ficar analisando sua situação no momento, ou do contrário, entraria em questões as quais não tinha resposta e talvez nunca tivesse. -Vá logo descansar, essa semana você tem algumas provas pra fazer e não vai querer reprovar; ele completou antes de sair, deixando-o completamente sozinho com seus pensamentos.
.III.
Com os pés descalços caminhou pelo piso frio, levemente úmido pelo vapor que subia da banheira no meio do quarto de banho. Distraidamente ela se sentou em um banco de madeira, enquanto envolvia os longos cabelos molhados em uma toalha.
Depois que Fran sairá do quarto não conseguira simplesmente se deitar e dormir, provavelmente a agitação que sentia era devido ao fuso horário ou simplesmente a ansiedade que vinha atrelada a mudança das estações. Em algum lugar, mais além no oriente ela já estava mudando e em breve iria chegar até ali.
Agora que já se sentia melhor, iria voltar a seu quarto; ela pensou deixando a toalha úmida sobre o banco e pretendia se levantar quando notou a porta se abrir do outro lado do cômodo, instintivamente conteve a respiração reconhecendo imediatamente a energia de quem se aproximava, embora a sua ainda não tivesse sido notada.
Com passos precisos ele cruzou o cômodo, enquanto desabotoava distraidamente a camisa que logo foi ao chão quando ele chegou aos pés da banheira. O vapor fumegante subia da beirada deixando uma nuvem esbranquiçada sobre a superfície da água, o cheiro de hortelã e mel parecia desprender-se das paredes, enquanto as luzes bruxuleantes de dois archotes nos extremos do cômodo conferiam ao lugar um ambiente tranquilo e convidativo. Sobre uma mesa de canto o relógio de pulso, a carteira e o celular, foram deixados de forma displicente.
Os cabelos esverdeados caiam até o meio das costas e por um momento, teve vontade de se aproximar e tocá-los novamente, soltando uma respiração tremula – levantou-se, pretendia sair o mais silenciosamente possível dali. Não era certo ficar ali como uma voyeur devorando cada centímetro dele com os olhos, pelo menos os centímetros iluminados pela luz amarelada dos archotes, mas seus olhos simplesmente não conseguiam deixar de seguir os movimentos dele e quando se deu conta, seus pés a levaram para longe da porta e mais para perto dele, tão perto que poderia jurar que sua respiração arrepiou lhe a pele.
A luz baixa projetava sombras tremeluzentes nas paredes, observou com cuidado cada marca que seus olhos podiam alcançar, começando pelos frisos diagonais espalhados por suas costas, até as outras bem especificas em torno dos pulsos e antebraços.
Conteve a respiração ao sentir uma pontada dolorosa trespassar o coração ao constatar o que tinha causado aquelas cicatrizes. Com cuidado, deixou as pontas dos dedos correrem por seu pulso direito, enquanto a pele dele ainda quente, dava um sobressalto, reconhecendo sua presença.
-Eu não tinha as notado antes; Cora murmurou distraidamente, enquanto seus dedos subiam delicadamente pelas linhas de seu braço, indo até o ombro, afastando seus cabelos.
-Não importa mais; ele respondeu num sussurro rouco, enquanto um arrepio intenso corria o meio de suas costas.
Durante sua estadia na mansão ouvira uma série de histórias sobre como fora a vida dos cavaleiros de bronze que foram enviados a diversas partes do mundo, para treinarem e se tornarem cavaleiros, muitas crianças perderam suas vidas e as que voltaram, tinham marcas como aquelas, cicatrizes de batalha e do inferno que viveram também naquela mansão.
Seu coração doía ao pensar que tantas coisas poderiam ser diferentes se aquelas guerras estupidas não tivessem acontecido.
-Está tarde, você deveria ir dormir; o cavaleiro falou, serrando os punhos com força ao sentir a respiração quente dela roçar-lhe a pele.
-Deveria; Cora concordou, embora estivesse completamente alheia ao que ele estava falando.
Distraidamente contornou uma das marcas deixadas pelas correntes em seu antebraço, enquanto apoiava seu rosto sobre as costas dele, aspirando seu cheiro e absorvendo seu calor, fazendo uma onda de energia estática crepitar entre os dois.
-Cora; Shun murmurou em súplica, segurando-lhe uma das mãos com firmeza, antes de cuidadosamente virar-se pra ela.
Os olhos verdes límpidos haviam escurecido ao recair sobre ela, uma aura intensa o rodeava e algo sombrio parecia crepitar na superfície. As últimas nuvens de vapor aos poucos se dissipavam e o cômodo começava a ficar mais frio, embora o calor que os envolvia, pouco a pouco começava a cobrir sua pele com uma leve película de umidade.
-Shun; ela respondeu, enquanto seus olhos corriam para as mãos unidas de ambos. Sentiu uma leve fisgada no coração ao não encontrar nem mesmo um pequeno risco dourado nas costas da mão dele, ao mesmo tempo em que se sentia tola por sequer pensar nisso naquele momento.
-Você realmente deveria ir; ele falou pausadamente, evocando o máximo de resistência que poderia alcançar.
-E se eu não quiser? – Cora perguntou aproximando-se ainda mais, erguendo-se na ponta dos pés até que seus olhos ficassem quase na mesma altura, mas não foi apenas isso que aconteceu, com o parco equilíbrio seu corpo foi pra frente, enquanto os lábios rosados roçavam-lhe a curva da mandíbula, os braços dela contornaram lhe o pescoço.
Enlaçou-a pela cintura, mantendo-a firme contra seu peito, ancorando a ambos para que não caíssem. Não haveria volta para nenhum deles a partir daquele ponto.
-Que os deuses me condenem; ele murmurou quase em suplica.
Iria para o inferno, com toda certeza e não haveria redenção, estava certo disso.
-Shun; ela murmurou, contendo a respiração quando ele se abaixou, passando um dos braços por baixo de suas pernas, suspendendo-a do chão.
Enlaçou-o pela cintura com as pernas, automaticamente estreitando o espaço entre eles, viu-o fechar os olhos com força e sua respiração transformou-se em um gemido estrangulado em uma mistura de prazer e agonia.
Deveria dizer algo, sabia que precisava, mas não veio absolutamente nada em sua mente, pelo menos nada que os detivesse agora.
Haviam ultrapassado todos os limites.
Com passos tortuosos aproximou-se da bancada da pia contornando a banheira, apoiou-a sobre o tampo de mármore deixando-a na mesma altura de seus olhos, enquanto o laço do roupão cedia alguns centímetros, expondo a pele alva quase translucida exalando o cheiro doce de mel misturado a hortelã, arremetendo-o a lembrança do frescor de uma primavera aconchegante.
Entreabriu um pouco os lábios e a língua dele deslizou como veludo por ela, roubando-lhe o folego e o calor impaciente por saboreá-la melhor. Embriagada pelas sensações, sentia-se flutuar, enquanto as mãos inquietas prendiam-se entre os fios esmeralda.
Ele afastou um pouco os lábios, mas logo voltou a baixá-los sem perder o mínimo de contato permitindo que suas respirações se confundissem uma na outra. A luz que Cora via através das pálpebras semiabertas tornou-se dourada quando jogou ligeiramente a cabeça para trás, só o justo para lhe oferecer ainda mais contato.
Beijou-lhe os cantos da boca e ela não pode evitar esboçar um leve sorriso. O sangue já não palpitava furioso nas veias pela antecipação e os nervos tinham deixado de chispar. Agora lhe percorriam o corpo como mel quente ou deveria dizer pura ambrosia.
Agarrou-o com firmeza pelas laterais da calça, sentindo o material sob as pontas dos dedos, precisando apoiar-se em algo, ancorando a si mesma. Apoiou o rosto sobre seu peito, sentindo seu calor e as batidas de seu coração.
-O tempo poderia parar agora; ela murmurou, vendo-o segurar suas mãos delicadamente entre as suas, antes de deixar a ponta dos dedos correr sobre seu braço lentamente, como se estivesse gravando na memória cada curva e sensação.
Seus olhares se encontraram e com vagar afastou a gola do roupão sobre o ombro esquerdo, deixando-o deslizar displicente sobre a pele acetinada. O calor tornou-se mais intenso quando seus lábios encontraram a pele delicada, deslizando sensualmente pela curva do pescoço. Um gemido involuntário escapou dos lábios dela, enquanto suas mãos afoitas, buscavam desafivelar o cinto dele.
A intensidade de seu olhar era tão forte que o sentia sobre a pele como o toque de suas mãos, onde cada célula de seu corpo pulsava em chamas.
-SHUN! - o grito de pura luxuria e prazer explodiram de sua boca, quando os lábios dele desceram por seu colo encontrando o cume arredondado de seu seio.
As pernas caíram enfraquecidas pelas laterais dele, enquanto uma mão firme a agarrou pela lateral e lhe inclinou o corpo, acomodando-o melhor entre o calor de suas pernas, tendo agora apenas uma ínfima barreira de tecido impedindo seus corpos de unirem-se completamente.
Isto era um grau de paixão que não teria imaginado que seu corpo pudesse suportar, tampouco almejar mais. Era como se estivesse perdida no meio de um deserto e depois de muito caminhar, finalmente chegara a um oásis de água fresca e cristalina onde se fartar.
Vagamente ouviu o som da fivela de metal bater no chão, enquanto o cinto do roupão desatava-se completamente e a cobertura sobre os ombros caia pelo meio de suas costas.
Ele se moveu um pouco e deixou os lábios úmidos e sôfregos deslizarem até o outro lado, com toques ávidos e quentes que lhe roubavam a razão e deixavam um rastro de fogo por onde passavam quase roubando-lhe a consciência.
Um relâmpago de calor ondulou sobre sua pele de forma tão intensa quanto a lava de um vulcão prestes a entrar em erupção. Gritou, e o grito agudo reverberou pelo cômodo enquanto as mãos frenéticas agarravam-se as costas dele e de repente o prazer ameaçava explodir de seu corpo em meio ao frenesi, estava tão perto... Fechou os olhos concentrando cada sentido na pressão intensa sobre ventre.
-Aqui não...; ele murmurou enrouquecido.
-Shun!? – ela murmurou sentindo o coração falhar uma batida e com olhos assombrados viu-o se afastar, mas apenas o suficiente para enrolá-la sobre o roupão novamente e suspendê-la do tampo de mármore.
-Aqui não; o cavaleiro repetiu num sussurro, antes de deixar o cômodo com ela entre os braços, de volta a suíte que ocuparam mais cedo.
Que os céus o ajudassem, porque sua alma já estava condenada.
Continua...
Boa noite pessoal
Último dia do ano hein, tantas coisas aconteceram nesses 365 dias que foram equivalente a andar em uma montanha russa. Eu sei que prometi lançar os capítulos com mais frequência, mas uma série de coisas, entre boas e más aconteceram e me deixaram por um tempo num mar sem vento a deriva. Mas agora, estou melhorando, tem dois meses que retomei os estudos, estou fazendo pós graduação agora, retomei meu trabalho e nos intervalos estou escrevendo. Por isso, gostaria de agradecer a todos vocês que de forma direta ou indireta, tem me apoiado. Agradeço muito os comentários que sempre me norteiam, obrigada também a quem me marca entre suas histórias e autores favoritos, isso me deixa muito feliz.
Que desejar a todos, que iniciem esse ano com o pé direito, que a fé se renove e que muitas coisas boas sema vividas e conquistadas. Que 2025 seja muito melhor em todas as áreas da vida.
Agora gostaria de comentar um pouquinho com vocês sobre a história. Quando nos tocamos tem se mostrado a minha 'menina dos olhos', porque estou tendo a oportunidade de revisitar cenas mitológicas que antes via vagamente em livros e dar o meu parecer sobre isso. Sou apaixonada pelas lendas que envolvem Hades e Cora e descrever esse universo, trás um calorzinho pro meu coração.
Darkacuario não posso te falar muito sem dar spoiler, mas nesses próximos capítulos você irá entender melhor o que esta acontecendo com o Shun. E será algo incrível, prometo.
No mais, boa passagem de ano a todos e um grande abraço.
Nos vemos em 2025.
Dama9
