Observar o teto estranhamente familiar e desgastado, não era suficiente para me fazer desistir do trabalho que consegui.

Era o único emprego que fui aceita, e nada poderia me desviar do caminho que escolhi.

As roupas masculinas, grandes demais para o meu corpo, pendiam de maneira desajeitada, e meu cabelo estava preso em uma boina esfarrapada que roubei de algum lugar.

Já se passaram sete anos desde que aquela senhora morreu, e desde então, me visto assim, igual a um garoto.

O destino me rotulou como uma bruxa e uma aberração, e aprendi a viver com isso.

Lembro-me perfeitamente do dia em que cheguei a este lugar e fui recebida pelo Bando de braços abertos, como se eu fosse um deles.

Tudo parecia como uma segunda chance, mas estraguei com uma tentativa desesperada de ajudar.

Tentei recriar um medicamento que vi minha mãe fazer, usando meu próprio sangue, na esperança de salvar uma flor que murchava pela falta de água e nutrientes.

Queria apenas ajudar...

Queria dar àquela flor uma chance de sobreviver, como se isso pudesse corrigir os erros do meu passado.

Mas a flor não era um ser humano, e não sabia que o que fiz acabaria com a vida da senhora que me acolheu como se fosse sua neta.

Porém, mesmo dizendo e gritando que tudo que fiz foi realizar o desejo da senhora, eles não acreditaram.

A senhora pediu para morrer, e eu, em um momento de desespero e confusão, atendi ao seu pedido.

Agora, o que resta é um eco das minhas ações passadas e o peso de uma culpa que carrego comigo todos os dias.

_ Tudo vai ficar bem, falta pouco para tudo acabar. - Respirei fundo e mudei minha voz com poucas tossidas.

Saio do quarto e me despeço da minha solidão, saindo da casa pela porta dos fundos.

O céu continuava escuro, mas já tinha algumas pessoas caminhando para o seu serviço de.

Mas não poderia falar muito, também estava indo para o meu trabalho de.

_ Bom dia, Thomaz. - Acenei, e continuei caminhando para o meu destino.

Recebia saudações de estranhos, com nomes de garotos que não eram meus, e respondia com um sorriso forçado.

_ Mais um dia de luta, Grover. - Sinto um homem robusto e grande demais para o meu gosto, agarrar meus ombros. _ O vejo no bar para tomar uma?

_ Claro. - Claro que não. _ Até mais. - Minha voz era rouca e tinha um bom timbre para um garoto de minha estatura.

O que me facilitava nessas interações.

Continuei caminhando, cantarolando o hino de Panem e tentando não sorrir por algumas partes ou do sentimento que se preenchia em meu peito.

Faltava tão pouco...

Cheguei à pequena padaria, e a minha cantoria se foi com a felicidade que dominava meu corpo.

A entrada era marcada por uma cortina pesada que balançava com o movimento do vento.

Bufei e entrei no lugar, vendo o senhorzinho magrelo com dentes faltando em sua cadeira costumeira.

Mas o cheiro de mofo e umidade quase me fizeram sufocar, se não estivesse acostumada com isso.

A padaria estava mal iluminada, já que o dono odiava luz ou qualquer coisa luminosa.

Mas sabia que os pães estavam empilhados de maneira desordenada e que o único balcão já teve seus dias de glória.

As paredes estavam cobertas por papéis amarelados e as janelas estavam sujas, como sempre.

O ambiente tinha uma certa melancolia, refletindo a sensação de que o tempo havia parado ali.

_ Connor, você chegou bem a tempo. - Resmungou e me jogou a vassoura. _ Quero isso aqui brilhando.

_ Não posso. - Iria me jogar alguma coisa. _ Você odeia luz, e existem pessoas que ainda comem seu pão. - Abriu e fechou aboca, não podendo me refutar com suas palavras agressivas.

Segurei a vassoura com firmeza e sem pensar muito, os gestos eram costume da rotina.

A vassoura raspava o chão de madeira velha, e o som repetitivo era a única companhia no silêncio da manhã.

Meus pés seguiam o ritmo, e eu varria tudo, do balcão até a porta da frente, removendo o pó e as migalhas que restaram da noite anterior...

Não deixei minha mente vagar, estava aqui para trabalhar, e é isso que faria. Nada de memórias indesejadas ou sentimentos pesados.

Quando terminei, apoiei a vassoura no canto e caminhei até o balcão, onde uma pilha de batatas me esperava, igual todos os dias.

Peguei a faca e comecei a cortá-las, uma por uma, concentrando-me no som da lâmina deslizando pelo vegetal. Era quase tranquilizador, o movimento repetitivo e o som suave.

A cada fatia, a luz do sol ia aumentando, e o espaço, antes sombrio e melancólico, começava a ganhar vida. Eu seguia cortando, focada, esperando o momento em que algum cliente chegaria para comprar o primeiro pão do dia.

_ Connor. - Fiz um som com a boca. _ Aquela aberração precisa morrer. - Não parei meus movimentos, isso era rotineiro. _ E se ela comer um pão estragado?

_ Ela só vai ter diarreia. - Confidenciei. _ E nem pense em veneno igual a última vez, parece que a garota tem tolerância. - Bateu no balcão.

_ Aquele homem precisa fazer alguma coisa, a garota já tem dezoito anos. - Bateu no balcão. _ Se ela não for para os Jogos e morrer lá, ela ficará aqui para sempre.

_ O comandante não vai mexer com a garota, e você sabe disso. - Ele só fez isso uma vez.

_ Então que a prenda para sempre naquela cela. - Raspei a faca em meu dedo, mas nenhuma ferida foi feita. _ Não concordar comigo, Connor?

_ Claro, senhor. - Queria pegar essa faca e dilacerar o pescoço magro do homenzinho.

Talvez isso aliviasse meu estresse causado de todos os anos que trabalhei e vivi aqui.

Mas não fui capaz de nem mesmo segurar a faca em uma posição certa, já que o primeiro cliente era o comandante, o dito cujo.

Ele era um homem alto, suas vestes cinzas, simples e bem ajustadas, refletiam sua postura disciplinada e imponente.

Movia-se com a precisão de alguém acostumado ao controle e à liderança, sem espaço para distrações.

Seu olhar calculava tudo ao seu redor, sempre atento e distante, como se nada pudesse desviar sua atenção de seus objetivos.

Sem ser afetuoso ou simpático, Hoff exalava uma autoridade silenciosa que deixava claro seu domínio sobre o que o cercava.

Ele não era o tipo de homem para suavizar as dificuldades da vida; estava ali para cumprir seu papel, sem mais.

Por isso que o odiava ele, mais que o homem que me colocou nesse inferno de vida chamado Distrito 12.

_ Comandante Hoff. - Não ficou feliz de vê-lo. _ O que quer? - O homem franziu as sobrancelhas grossas e apontou para os pães.

_ Que eu saiba, o senhor só vende pão e estou com fome. - Escuto mais alguns resmungos e se levantou da cadeira.

_ Que pegue você mesmo. - Arrastou seu corpo torto para fora da padaria, passando por mim. _ E cobre o pão dele. - Gritou, fazendo que algumas galinhas acordassem. _ Calem o bico.

Deixei a faca no recipiente da batata e me levantei, indo até o homem que me observava com um certo olhar dominador.

_ Qual pão?

_ Não quero pão, quero falar com você, Juniper. - Semicerrei os olhos e esperei suas próximas palavras. _ Fiquei sabendo que algumas pessoas estão planejando que você morra.

Sorri, dando de ombros e mexendo nos pães que ainda estavam quentes. Queria comer um, então o peguei e o mordi, arrancando um riso do homem a minha frente.

Uma moeda foi depositada no balcão e a recolhi pelo pão em meus lábios.

_ Pensei que você quisesse minha morte. - Falei de boca cheia. _ Não foi por isso que matou a minha professora? - Um nó se fez em minha garganta.

_ Ela era uma traidora, estava tentando fazer uma rebelião. - Era as mesmas palavras de sempre. _ Sabe muito bem que tudo que fiz foi para o seu bem.

_ Não queria seus cuidados, sempre soube me virar nesse lugar. - Limpei minha boca. _ O que você realmente quer?

_ A considerei minha filha e fiz de tudo que nenhum dos Pacificadores contasse sobre você, mas você continua ingrata. - Tive quer rir, pegando mais um pão e mais uma moeda foi jogada no balcão.

_ Se isso é ser considerada sua filha, não me faça ver o que é ser sua filha. - Mordi o pão, saindo de trás do balcão. _ Mas não se preocupe, estou saindo desse lugar que você sempre tentou me manter.

_ Era para o seu bem, não sabemos quem tentou matá-la.

_ E nem vai! - Gritei, mas logo refiz minha compostura. _ Estou cansada de seus cuidados. - Se podemos colocar dessa forma. _ Você só dificultou minha vida.

Tentou se aproximar, mas logo peguei a vassoura, o fazendo ficar no seu lugar estava.

Coloquei todo o pão na boca e continuei segurando a vassoura, esperando que ele corresse e me agarrasse para me jogar mais uma vez na cela.

Aquela maldita cela que me fazia ter pesadelos quase todos os dias, a odiava tanto que quando tivesse a oportunidade, iria destrui-la.

_ Você continua uma criança birrenta. - Colocou as mãos para trás. _ Se eu pudesse voltar no tempo para não a conhecer quando era apenas uma criança, faria isso.

Seu corpo ficou rígido e não era mais o homem que jogava moedas para que eu saciasse minha fome.

Era o comandante dos pacificadores e não o homem que tinha falado alguns segundos atrás que me considerava uma filha.

_ Assim não teria pena em colocá-la na forca, ou atirar na sua cabeça. - Seu semblante estava sério e nem mesmo os poucos resquícios de sol que entrava aqui, o fazia amolecer.

_ Deveria ter feito isso antes. - Sorri. _ Agora é tarde demais para qualquer coisa.

_ Por que diz isso?

_ Estou indo embora para nunca mais ver sua cara feia. - Estranhou. _ O presidente me encontrou e poderei ver meu pai depois de anos de afastamento, já que o presidente vai me levar para a Capital.

Aproximou-se sem que desse tempo de levantar a vassoura.

Suas mãos agarraram meus ombros e os apertaram, mas nenhuma dor foi afligida em mim, e mesmo percebendo isso, continuou com suas mãos ali.

_ Você enlouqueceu de vez? - Sacudiu meu corpo. _ Aquele lugar irá matá-la na primeira oportunidade, ainda mais quando descobrirem quem você é.

_ E aqui não é a mesma coisa? - Tentei empurrar seu corpo. _ Eles querem me matar de qualquer jeito e até você veio me contar isso. - Bufei. _ Não existe lugar seguro para mim e nunca terá.

_ Louca. - Deixou meus ombros, enquanto alisava seu rosto em nervosismo. _ Não vou deixar você ir.

_ Você não tem que deixar nada. - Antes que ele abrisse a boca para falar mais alguma ofensa, ele se foi igual uma tempestade.

Ele devastou minhas palavras e não sabia mais o que falar, ou o que fazer.

Mas tudo voltou ao que sempre foi — silêncio e rotina.

Respirei fundo, tentando ignorar o calor que subia pelo meu peito, ele sempre soube como me desestabilizar, como se eu ainda fosse aquela criança perdida que ele salvou da forca.

_ Por que ele tinha que ser o único que me conhece nesse lugar todo? - Poderia ser qualquer outro comandante, poderia ser até o meu pai. _ Mas por que tinha que ser ele?

Joguei a vassoura em um canto qualquer e me sentei novamente no meu lugar, pegando a faca e as batatas novamente.

Já não importava o que ele dizia, tudo estava prestes a mudar e sairia desse lugar.

A cada fatia, repetia isso para mim mesma.

Porém, minha paz não continuou, já que o velho voltou com seus resmungos intermináveis.

Ainda bem que isso estava terminando.

Arrastou seus pés e passou por mim, mas seu sorriso revelava um sorriso cínico.

Ele se sentou na cadeira de costume e me observou, como sempre fazia, seus olhos cansados brilhando com um misto de curiosidade e desconfiança.

Mas ele não conseguiria nada comigo, já que as duas moedas estavam bem a vista de seus olhos.

_ O comandante continua generoso. - Zombou, guardando as moedas.

_ Pensei que o odiasse. - Murmurei, terminando com as batatas. _ Preciso fazer mais alguma coisa?

_ Sim, sumir da minha frente. - Ralhou com sua voz severa.

Levantei-me e deixei a faca ali, e fui até o homem que não queria lembrar do nome agora.

Levantei minha mão e aguardei pelo meu dinheiro, mas ele apenas riu e fechou os olhos, como se tudo que fiz fosse nada e não deveria ter meus trocados.

Claro, ficar aqui apenas algumas horas não era nada comparado aos outros serviços, mas isso dependia do dia e tinha dias que ficava aqui o dia todo.

Suspirei e abri a caixa que ele guardava o dinheiro e tirei três moedas dali, e sabia que ele estava me observando para não pegar as notas.

_ Peguei uma moeda a mais por todo seu estresse matutino. - Ele me lançou um olhar incrédulo, mas não me importei.

Fechei a caixa de dinheiro com um estalo firme, sentindo uma onda de satisfação.

_ Espero nunca mais vê-lo, velho de merda. - Soltei a boina de qualquer jeito, deixando meus cabelos caírem sobre os ombros, e vi o choque nos seus olhos.

_ Você... - Gaguejou.

A surpresa o paralisou e seu olhar, sempre carregado de desdém, agora estava repleto de incredulidade.

Sem me dar ao trabalho de responder, virei as costas e saí pela porta dos fundos, com as três moedas pesando no bolso.

Sem pensar duas vezes, comecei a correr.

As botas batiam pesadas contra o chão, levantando poeira, o vento corria por entre meus cabelos soltos, e a sensação era maravilhosa.

Cada respiração ofegante me afastava mais daquele lugar, da padaria mofada, dos sussurros traiçoeiros e das olhadas tortas.

O som do meu próprio respirar e o ritmo acelerado do meu coração eram tudo o que eu ouvia.

Abri meus braços e ri como se tudo estivesse acabando e poderia, mas sabia que estava apenas no começo.

Este era o verdadeiro início do fim.