Tome banho e lave cada pedaço do seu corpo, use sua melhor roupa que não estiver puída ou rasgada, mas continue sorrindo.
Prenda seu cabelo e pegue o seu único sapato que não está furado nas solas, pense mil vezes antes de sair de casa, pense se você não pode se matar para não ir.
Já que eles irão confiscar se realmente está morrendo para que não compareça, afinal, fomos nós, seres humanos, que começamos isso... É uma punição e devemos ser punidos.
Agora que tudo está no lugar, caminhe para a praça, onde você verá pessoas em seus uniformes cinzas e com narizes em pé.
Mas continue com o mantra em sua cabeça e refaça todas as preparações.
Sinta seu hálito e confirme se não está cheirando sopa de repolho, e quando tiver a confirmação, apenas saia de casa e seja mais uma das pessoas acinzentadas.
Até mesmo o dia estava assim, completamente sem vida e devo me juntar a isso, até que eu desapareça desse lugar como apareci há oito anos.
Ainda me lembro quando cheguei aqui, todos eram simpáticos com a garota que apareceu do nada e até mesmo me deram essa casinha, já que ter mais uma boca para alimentar era o cúmulo do absurdo.
Lembro da Lucy agarrada nas pernas de um dos Bando, me observando com aqueles olhos castanhos e toda sonhadora...
Sentirei falta dela e de tudo que a fiz passar nesses oito anos de história, mas não posso ficar presa em um lugar que não pertenço.
Respirei fundo e parei de pensar no passado, abrindo a porta e saindo por ela.
Alisei meu vestido e segui a multidão, escutando lamúrias e negações.
_ Tudo vai ficar bem, você só precisa espetar o dedo e esperar, o seu nome não vai ser chamado, eu prometo. - Promessas sempre acabavam em morte.
Já escutei tantas promessas nesses anos, que poderia começar a escrever um livro, mas promessas são desfeitas, porém, juramentos são sagrados.
Era isso que aquela mulher dizia.
_ Está nervosa? - Puxou minha manga e nem precisei virar o rosto para ver quem era.
_ Não, sei que meu nome não estará ali. - Sorri. _ E você, está? - Estava usando a roupa de sua falecida mãe, como sempre.
_ Sempre. - Mordeu os lábios e continuamos. _ Sempre penso que a praça é um lugar tão grande, mas agora é minúsculo.
Ela tinha razão, quando todos estavam preocupados em ir a feira, o lugar parecia tão solitário, mesmo estando cheio.
Mas agora tudo é abafado e nem mesmo sentia o ar entrando em meus pulmões, mesmo que minha altura fosse um pouco maior que essas garotas.
Olhei para o lado, observando o edifício da justiça que de justiça não tinha nada, mas vejo as mesmas cadeiras vermelhas, um pódio e duas grandes bolas de vidro, que uma delas continha meu nome.
Tinha tantos papéis com o meu nome ali, que nem sei como eles não o sortearam nos seis anos que se passaram... Mas tudo bem.
Apertei a mão de Lucy, a deixando ir para o seu lugar na fila e pensei mais uma vez positivo, não temos que trabalhar e nem mesmo vou comer sobras ao anoitecer.
Tudo está indo tão bem que nem mesmo me importo com os berros de algumas famílias.
Apenas retiro do bolsinho a bolinha de sangue que toda colheita preciso refinar e a coloco na boca, esperando que a fila diminuía para que eu fizesse todo o processo.
Morda seu dedo e tente feri-lo com seus dentes, mas como não sairá sangue vermelho e quente, não deixe as pessoas perceberem.
Morda a bolinha de sangue e cubra o sangue dourado com o vermelho, e mostre o dedo para a pessoa que irá picar seu dedo.
Ela se lembrará de você e saberá quão ansiosa você fica, então não irá ligar pelo sangue escorrendo...
Tudo bem, já estava tudo preparado e só deveria olhar pela última vez a Lucy, que estava em seu lugar para meninas de dezesseis anos.
Queria estar com ela e dizer que queria escutá-la cantar pela última vez, mas isso não pode acontecer no momento.
_ Quem vocês acham que será sorteado? - Ah, os apostadores, já estava demorando.
Pensei que eles estariam bêbados demais ou estivessem dormindo ainda, se esquecendo que hoje era o dia importante para todos.
Claro, eles não tinham ninguém para que pudesse colocar nessa fila, então não ligavam e apenas se divertiam.
_ Todo ano que falamos que será a garota estranha, ela não vai e perco meu dinheiro. - Talvez sejam vocês que estavam me dando azar.
_ Vamos ver... - A fila andou e minha concentração foi para a pessoa a minha frente.
Ela estava tremendo e tentava não balançar as pernas, mas seus dedos das mãos se contorciam na saia que ia até os seus joelhos.
Mesmo tendo minha idade, ela não parecia acostumada com esse dia.
_ Próximo! - Era a garota negra de cabelos cacheados.
A menina estendeu a mão e a mulher apenas agarrou seu pulso, picando seu dedo logo em seguida.
O líquido carmesim foi pressionado no papel e conferido com aquele aparelho estranho, então, a próxima da fila era eu.
Nem mesmo precisou chamar e já mostrava meu dedo com o sangue escorregando por toda a mão.
_ Ansiosa de novo, Juníper. - Não falei nada e meu dedo foi pressionado no papel. _ Pode ir. - Saio da fila e me dirijo para a divisão das meninas.
A multidão estava silenciosa, como se uma bomba fosse cair a qualquer momento.
Mas as câmeras postas em todas as direções faziam alguns olharem para baixo, tentando inutilmente esconder seus rostos amedrontados.
E tive que esperar aqui, até que todos estivessem em seus lugares e Lucy estivesse ao meu lado, agarrando o tule de suas roupas coloridas demais para a ocasião.
_ Se a aquela garota. - Mayfair. _ For sorteada, vou rir. - Ela era uma diabinha. _ Mas sei que não vai.
_ Infelizmente. - Sussurrei de volta.
Então, a voz do prefeito Lipp começou a soar por todo o distrito, dizendo as mesmas coisas de sempre.
Listando os desastres, como a seca, tempestades, incêndios e elevação do nível dos mares, algo que já sabia de cor.
Até mesmo falou sobre a origem de Panem e como todos foram contra a Capital...
Como se o mundo tivesse uma memória curta do que antes podíamos dizer que era vida e agora é apenas uma tragédia atrás da outra.
Os Jogos foram criados para nos lembrar de nossa rebelião, o símbolo de nossa prisão e não dou a mínima para isso.
Mesmo morando aqui, convivendo com a pobreza e tentando não morrer de fome no minuto seguinte, não existia tantas pessoas que não aceitariam um passe livre apenas de ida para a Capital.
Somos humanos e humanos só veem a si, e sou egoísta o bastante para me ver saindo desse lugar.
_ Não é apenas um tempo de arrependimento como também de agradecimento. - Seu rosto anguloso sorriu, como se suas palavras fossem incentivo para esses jovens.
A lista mudou, mas suas palavras não vieram, afinal, não existia ganhadores do Distrito 12.
_ Isso parece mais um velório do que um jogo. - Sussurrei, vendo mais Pacificadores observando a multidão.
Eles já existiam aqui, apenas que essa quantidade era nova, já que eles estavam tentando controlar os mineiros que não conseguiam fabricar sua cota e a população parecia mais pálida do que o normal.
Mas isso não me impediu de continuar indo para a floresta e me jogando naquele lago, como se não fosse sobreviver no minuto seguinte.
_ É a minha deixa. - Bateu palmas, mas ninguém o seguiu.
Então, alguém que tentava mostrar sua beleza em roupas não usuais apareceu e aquilo era novo, já que o prefeito sempre sorteava os nomes.
_ Vejo que a Capital quer inovar. - Zombou. _ O que mais ela fará? Trens com acomodações de luxo? - Apenas continuei a analisando.
A mulher parecia estar dizendo que não importava quão rica parecesse ser, ela usaria roupas de segunda mão para que a gente se sentisse à vontade.
Sua voz pinicou meu ouvido, me fazendo franzir o cenho e observá-la atentamente.
Era uma mulher espalhafatosa, tentando fazer todas essas pessoas sorrirem, mas não conseguia com suas piadas estranhas.
_ Feliz Jogos Vorazes! - Bateu palminhas. _ E que a sorte esteja sempre com vocês. - Continuou sorrindo. _ Vocês não sabem a honra...
_ Honra? Que honra? - A garota sussurrou e não prestei atenção. _ Ela nem mesmo nos olha, parece mais um rádio estragado.
_ Fale mais baixo. - Sussurrou outra, sem que me virasse para olhá-las.
_ Então. - Sorriu ainda mais. _ Primeiro as damas. - Caminhou até a bola de cristal e os sussurros ficaram maiores.
Quase um cântico antigo, pedindo a todos os deuses que não existiam mais para que seus nomes não estivessem ali e pela primeira vez, pedi também.
Lucy segurou minha mão e sua respiração ficou presa em seu peito, seus olhos se fecharam e fiquei preocupada que ela pudesse desmaiar.
Antes que pudesse falar alguma coisa, a voz da mulher penetrou meus ouvidos.
_ Lucy Gray Baird! - Meu coração despencou em meu peito e agarrei sua mão, quase suplicando para que ela não fosse.
Para que ela fugisse, encantasse todos com sua música e os fizesse se esquecer que seu nome foi chamado.
_ Lucy... - Ela me olhou e negou enquanto a multidão se abria.
Minha rosa saiu do meu lado e caminhou em direção ao palco, mas parou enquanto sua mão ia até os babados coloridos do seu vestido, colocando algo no vestido azul de Mayfair.
Os gritos fizeram que toda atenção ficasse nela, mas meu olhar caiu na garota de 16 anos que tentava sorrir nessa situação.
Ela subiu no palco e ficou ali, vendo o prefeito se desesperar com sua filha gritando enquanto a cobra rastejava pelo chão, sumindo.
Engoli em seco e observei todos, tentando pensar no motivo de ter sido ela e não outra.
_ Aposto que isso é um erro, não foi o nome dela. - Olhei a garota que não parava de falar desde o começo e concordei.
Sim, a Mayfair deve ter contado ao pai e o pai ficou furioso, então retirou todos os papéis de nomes dessas garotas e só colocou o da Lucy...
Ou apenas estou ficando paranoica e nada disso aconteceu de fato.
O tapa me fez voltar a realidade, me fazendo avançar no meio da multidão, quase correndo para agredir o prefeito.
Seus lábios tremiam e meu coração ficava frio, ela podia ser parda igual a mim, mas seu rosto estava vermelho, iguais aos olhos por tentar conter as lágrimas.
_ Sua... - Levantou a mão para deferir mais tapas, mas foi segurado pelos Pacificadores, me fazendo agradecer.
_ Vamos nos acalmar, sim? - A mulher fez que todos parassem de sussurrar.
Respirei fundo e limpei minhas mãos suadas na roupa, tentando esquecer que estávamos brincando semanas atrás no lago, dizendo que ela seria a vencedora do nosso distrito e... Agora ela estava ali, olhando para todos.
_ Agora, para os garotos. - Deu uma corridinha e parecia ansiosa para acabar com isso. _ Isso nunca perde a graça. - Limpei meu dedo no bolsinho do vestido e esperei o nome.
O silêncio se instalou pela primeira vez, me fazendo arrepiar, mas só faltava uma pessoa e todos poderiam chorar de alegria ou tristeza.
_ Estranho... - Prendi a respiração nem mesmo sabendo o porquê. _ Isso está certo? - Um Pacificador foi até ela e sussurrou algo em seu ouvido, a fazendo exclamar em excitação.
_ Merda, será que o sorteio não valeu? - Dessa vez tive que olhar a garota de cabelos loiros opacos de 12 anos.
Ela era tão pessimista que estava me dando raiva e quase a estrangulei para ela parar de trazer tanto azar para um dia desses.
Mas era só o que me faltava, recomeçar o sorteio devido a um problema... Sim, podemos fazer isso e a filha do prefeito pode ser selecionada, então a Lucy estaria ao meu lado novamente.
_ Certo, uma pequena mudança, pessoal. - O desespero já me fazia sufocar. _ Dois nomes em um mesmo papel, já ouviram isso? - Acho que posso desmaiar.
Não era isso que eu queria... E se for eu? O que vou fazer? Não, não quero estar ali, me recuso! Hoje não.
_ Então será dois garotos? - A garota que estava a minha frente na fila me fez suspirar em alívio.
_ Então vamos aos nomes. - Olhou para a multidão que estranhava isso. _ Jessup Diggs.
Olhamos para o lado dos garotos e o homem de 18 anos, negro de pele retinta e com porte físico invejável, fez que todos sentissem um pouquinho de felicidade.
Podíamos ganhar pela primeira vez, era isso que estavam pensando.
_ Agora, o próximo nome é... - Continuamos olhando para os garotos. _ Juníper Ever! - Estranho, não sabia que existia um garoto com esse nome.
Pisquei algumas vezes e todos se viraram para mim, como se fosse meu nome na boca daquela estranha de roupas extravagante.
Não, não poderia ser eu, como posso estar em um papel do lado masculino? Ainda mais que já tinha a garota do nosso distrito, isso não pode estar acontecendo.
Dou alguns passos para trás, quase correndo para morrer por uma bala logo em seguida, mas os Pacificadores vieram.
Meu braço foi puxado e fui arrastada para o lugar que deveria estar, ao lado dos tributos.
Não precisava de um espelho para me dizer o quão deplorável estava, isso não estava nos meus planos de hoje... Aquele comandante de merda!
Sou jogada no palco, caindo no meio dos dois tributos.
_ Odeio vocês. - Sussurrei. _ Odeio vocês! - Gritei, socando o chão e olhando para todos.
Levantei-me com tanta raiva que meu coração explodia.
Peguei o microfone da mulher e vi os lábios daquelas pessoas levantados, até poderia escutar que estavam aliviados por eu ter sido selecionada.
_ Riem, continuem rindo. - A risada ficou maior. _ A estranha, a bruxa do Distrito 12, fará vocês pagarem, vou acabar com esse lugar como vocês querem fazer comigo.
_ Morra! - Os gritos me fizeram enlouquecer, se já não sou louca.
Depois de anos esperando estar aqui, o dia finalmente chegou, mas agora não queria mais.
_ Juni... - Apertei meu vestido e larguei o microfone, ficando no meio dos dois.
Não queria falar nada por enquanto, queria parar de pensar nos corpos jogados no chão, enquanto minha risada era ouvida por essa região.
Mas meus pensamentos só viam sangue e o quão delicioso seria se esse sangue fosse tirado por mim, pelas minhas mãos que tremiam enquanto a câmera focava em nossos rostos.
Meu peito subia e descia, entendendo que os verdadeiros jogos começaram, não os Jogos de quem sobrevive na arena, mas quem consegue se vingar primeiro.
Eu ou os rebeldes... Que os Jogos comecem.
