My boredom's bone deep, this cage was once just fine...
Am I allowed to cry?
Bella encontrava-se em mais um dia onde o tédio dominava. Havia desmarcado todos os seus compromissos, riu amargamente ao pensar nos mesmos: ir ao salão fazer seu cabelo, unhas, massagem. Depois passar algumas horas andando na Quinta Avenida em Nova York, torrando o cartão sem limites do seu... marido.
Engoliu seco ao pensar e ao olhar para sua mão esquerda onde uma aliança de ouro (onde nem lembrava quantos quilates havia ali) e um anel solitário de ouro branco e um diamante exageradamente grande. Sentiu seus olhos marejarem e se questionou, pela milésima vez: Como chegou ali?
Seu telefone tocou pela milésima vez, Angela - sua amiga da época de faculdade e a única que ainda considerava como alguém especial – a ligava pela milésima vez.
Ela hesitou. Fazia semanas que evitava atender as ligações da amiga, inventando desculpas ou simplesmente ignorando. Mas, naquele momento, o vazio que sentia pareceu insuportável. Com um suspiro, deslizou o dedo pela tela e atendeu.
– Bella, pelo amor de Deus! Você está viva? – Angela disparou, a voz carregada de impaciência, mas com um toque de preocupação genuína.
– Estou, Angie. Só... ocupada.
– Ah, por favor! Você acha que eu não sei que "ocupada" significa trancada nesse mausoléu dourado, esperando o tempo passar?
Bella sentiu o peso das palavras da amiga. Havia algo de brutal na maneira como Angela enxergava sua vida, mas também uma sinceridade que ninguém mais tinha coragem de expressar.
– Não é tão simples assim – Bella respondeu, a voz quase um sussurro.
– Claro que não é. Mas você precisa sair dessa bolha, Bella. Ontem eu vi uma foto sua em uma dessas revistas de fofoca. Aquela matéria sobre o evento de gala? Sabe o que eu vi nos seus olhos?
Bella permaneceu em silêncio.
– Eu vi tristeza. Um tipo de tristeza que você tenta esconder, mas que estava lá, gritante, para quem quisesse enxergar.
Uma onda de emoções a atingiu. Ela não sabia que estava tão exposta. Depois de alguns segundos de silêncio, Angela completou:
– Escuta, eu te amo. E você precisa de um tempo para respirar, para lembrar quem você é. Vamos sair hoje. Sem desculpas.
Bella mordeu o lábio, pensando nas implicações. James odiava qualquer coisa que saísse da sua rotina controlada. Mas algo na voz de Angela, na preocupação genuína, quebrou uma barreira invisível.
– Tudo bem. Me diga onde.
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Bella desceu as escadas de mármore de sua cobertura, sentindo o som dos saltos ecoando pela vastidão do lugar. O aroma amadeirado do perfume de James se espalhava pela sala, misturando-se com o leve cheiro de tabaco do charuto que ele mantinha apagado na mão. Ele estava sentado em uma poltrona de couro, com um copo de uísque na outra mão e os olhos presos à tela do celular, mas ao notar sua presença, desviou o olhar e a estudou por um momento.
– Você vai sair? – perguntou, a voz grave preenchendo o espaço entre eles.
Bella hesitou por um segundo, mas respondeu com firmeza.
– Sim. Vou encontrar Angela.
James deixou o celular de lado e se levantou. Caminhou até ela, o som das solas de seus sapatos sobre o chão de mármore soando quase como uma melodia em contraste com o silêncio da sala. Ele ajeitou a gola do casaco que Bella vestia, seu toque surpreendentemente gentil.
– Está frio lá fora. Não esqueça de levar um cachecol – disse, os olhos fixos nos dela. Por um momento, parecia quase preocupado, mas o brilho em seus olhos desapareceu tão rápido quanto surgira.
– Obrigada – respondeu Bella, sentindo a familiaridade de sua atenção medida, quase automática, mas não desprovida de um resquício de cuidado.
– Não volte tarde – completou ele, voltando para a poltrona e pegando novamente o celular, como se o momento não tivesse acontecido.
Ela saiu sem responder, com a sensação de que, embora houvesse um vestígio de preocupação em James, aquilo nunca seria suficiente para preencher o vazio que crescia dentro dela.
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Angela havia sugerido irem a um pub do outro lado da cidade, ao chegarem ao local era exatamente o que a amiga havia descrito: pequeno, acolhedor, com um charme rústico que parecia genuíno. Bella se sentou com a amiga em uma mesa próxima ao palco, onde uma banda tocava um jazz improvisado. As paredes de tijolos aparentes estavam decoradas com pôsteres vintage e prateleiras de madeira repletas de garrafas de bebidas. Havia uma energia no ar, uma mistura de risadas, música e vozes, que fazia Bella sentir-se quase como uma pessoa comum.
Quando Angela foi ao banheiro, Bella decidiu buscar algo para beber no balcão. Foi então que seus olhos encontraram um rapaz que estava atrás do balcão, movendo-se com a confiança de quem conhecia cada centímetro daquele espaço. Ele tinha a pele clara, com algumas sardas discretas que marcavam o rosto anguloso, olhos de um tom castanho esverdeado que capturavam a luz de forma incomum e cabelos levemente bagunçados, como se tivesse passado a mão por eles repetidamente ao longo da noite. Uma tatuagem discreta espiava pela manga dobrada de sua camisa, e havia algo nele — talvez a postura relaxada ou o sorriso quase imperceptível — que exalava um magnetismo natural.
Ele estava falando com um cliente, rindo de algo que foi dito, antes de se virar em direção a Bella. Quando seus olhos se encontraram, ele a observou por um momento, como se tentasse compreendê-la, antes de abrir um sorriso leve, mas sem exageros. Não parecia o tipo de homem que tentava impressionar — pelo menos, não de propósito.
— Boa noite. O que posso trazer para você? — perguntou, com a voz firme e calma, sem pretensão.
Bella hesitou, sentindo-se estranhamente exposta. Não estava acostumada com esse tipo de interação, simples e direta, mas respondeu com um sorriso tímido:
— Algo não muito forte. Surpreenda-me.
Ele arqueou uma sobrancelha, intrigado, mas não comentou nada. Começou a preparar a bebida, seus movimentos precisos e tranquilos, enquanto Bella o observava com curiosidade.
— Primeira vez por aqui? — perguntou ele casualmente enquanto mexia o drinque.
— É. Minha amiga sugeriu.
Ele colocou o copo à sua frente, o líquido âmbar brilhando sob a luz do balcão.
— Então espero que ela tenha bom gosto. Essa aqui é especial.
Bella deu um pequeno gole, sentindo o sabor inesperado, uma mistura de doce e ácido que dançava no paladar. Ela sorriu, surpresa.
— Você acertou.
Ele inclinou a cabeça, satisfeito, mas não insistiu na conversa. O rapaz parecia saber exatamente quando se retirar, sem forçar uma intimidade que não existia. Ainda assim, havia algo na troca — nos sorrisos, no olhar que ele manteve por um momento a mais do que o necessário — que deixou Bella intrigada.
Quando voltou à mesa, Angela estava sorrindo, aparentemente alheia ao que havia acontecido no balcão. Bella tentou se concentrar na conversa, mas sua mente continuava voltando àquele sorriso despretensioso e aos olhos que, de alguma forma, pareciam enxergar além da fachada.
Naquela noite, ao voltar para casa, Bella subiu para o quarto e parou diante do espelho. Observou a mulher refletida ali, com suas roupas impecáveis e joias reluzentes. Por baixo de tudo, havia uma outra versão dela, uma que talvez aquele rapaz tivesse percebido, ainda que de forma inconsciente.
E enquanto tirava os brincos e a maquiagem, Bella sentiu algo que não sentia há muito tempo: uma curiosidade genuína pelo que poderia vir a seguir.
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Bella passou o dia vagando pela imensa cobertura que chamava de casa, sem rumo ou propósito. Os corredores, que pareciam infinitos, estavam silenciosos, exceto pelo leve som do vento que soprava contra as janelas de vidro. Os móveis impecáveis e as obras de arte cuidadosamente escolhidas não conseguiam disfarçar o vazio que ela sentia.
Na tarde anterior, Angela havia ligado, algo que Bella sempre achava revigorante. Sua amiga tinha uma energia prática, um jeito de transformar qualquer conversa em algo útil. Elas falaram sobre trivialidades por um tempo até que Angela tocou no assunto.
– Você parecia... diferente ontem – comentou – Mais viva.
Bella hesitou.
– Diferente como?
– Não sei. Mais leve. Acho que faz tempo que não vejo você assim.
Bella desviou o olhar para a janela, o telefone preso à orelha. Ela sabia a que Angela estava se referindo. A noite no pub tinha sido um alívio inesperado, um rompimento com a monotonia que ela vivia diariamente.
– Foi bom sair da bolha, eu acho – respondeu, tentando soar casual.
Angela riu. – Então faça isso de novo. Você merece. Pare de se esconder nesse castelo e vá viver um pouco.
Bella mudou de assunto rapidamente, mas a conversa ficou em sua mente o resto do dia. E agora, enquanto ela olhava pela enorme janela da sala, observando a cidade que nunca dormia, sentia-se presa entre duas forças: o conforto familiar, porém sufocante, de sua vida, e a possibilidade tentadora de algo novo.
O silêncio foi quebrado pelo som de uma mensagem no celular. Ela o pegou da mesa de mármore, vendo o nome de James aparecer na tela.
J:Reunião até tarde. Não me espere para o jantar.
Bella soltou um suspiro pesado. Ela sabia que a mensagem era prática, mas não pôde deixar de notar a frieza implícita, a rotina que havia se tornado normal para eles. Colocou o telefone de volta no lugar e caminhou até o closet, passando os dedos pelas roupas alinhadas e os sapatos perfeitamente organizados.
Enquanto olhava para os vestidos caros e os acessórios luxuosos, sentiu uma pontada de ironia. Tinha tudo o que muitas pessoas sonhavam, mas nada do que realmente queria. Foi então que seus pensamentos voltaram para o pub — aquele lugar simples e acolhedor que, por algumas horas, fez o mundo parecer menos complicado.
– Por que não? – murmurou para si mesma, pegando uma jaqueta casual e um par de botas que raramente usava.
Desceu pelo elevador e saiu sem avisar ninguém, algo que, para ela, já era uma pequena rebeldia. Ao entrar no carro, deu o endereço do pub ao motorista e se recostou no banco.
Havia algo libertador naquela decisão. Ela não sabia exatamente o que buscava ao voltar, mas, por ora, o simples ato de seguir seu instinto era suficiente.
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O carro avançava pelas ruas de Manhattan, deixando para trás a opulência das avenidas largas e bem iluminadas. Enquanto observava a cidade passando pela janela, Bella sentia o coração bater mais rápido, como se estivesse fugindo de algo — ou correndo em direção a alguma coisa. O motorista, discreto como sempre, não fez perguntas, mas a olhou pelo retrovisor por um breve momento, talvez estranhando o fato de novamente irem para destino incomum para alguém como ela.
Quando o veículo parou em frente ao pub, Bella hesitou. As luzes quentes que escapavam pelas janelas de vidro embaçadas pareciam convidativas, mas havia também o peso da dúvida. E se aquilo fosse um erro? Um impulso tolo?
Mas antes que pudesse racionalizar demais, abriu a porta do carro e saiu. Sentiu o vento frio da noite bater em seu rosto, algo que a fez se sentir viva. Respirou fundo e entrou.
O ambiente estava mais movimentado do que na noite anterior, mas ainda carregava o mesmo charme acolhedor. A música era diferente, mais animada, mas ainda assim agradável. Bella parou por um momento perto da entrada, deixando o som e as vozes a envolverem. O cheiro de madeira, cerveja e algo levemente doce preenchia o ar.
O homem estava atrás do balcão novamente, concentrado em servir dois clientes ao mesmo tempo, com a mesma habilidade tranquila que ela havia notado antes. Ele não a viu de imediato, o que deu a Bella tempo para se aproximar discretamente. Ela escolheu uma mesa próxima ao balcão, mas não diretamente à vista dele, e sentou-se, tentando não parecer deslocada.
A garçonete, uma jovem de cabelos cacheados e sorriso simpático, se aproximou.
– Boa noite! O que vai ser hoje?
Bella pensou por um momento, mas antes que pudesse responder, a garçonete acrescentou:
– Temos uma ótima seleção de vinhos, ou você pode pedir algo especial no balcão. O Edward faz uns drinques incríveis.
– Edward, hein? – Bella repetiu com um pequeno sorriso.
– É, ele tem um talento com bebidas – respondeu a garçonete, piscando de maneira cúmplice antes de se afastar para atender outra mesa.
Bella ficou ali por alguns minutos, observando o movimento. Pensou em simplesmente pedir algo e ir embora depois de um tempo, mas quando seus olhos encontraram os de Edward — finalmente — ela soube que não poderia sair sem falar com ele.
Ele terminou de atender um cliente e se aproximou do lugar onde ela estava sentada, apoiando-se casualmente no balcão enquanto olhava para ela.
– Você voltou – disse, a voz baixa, mas suficientemente clara para ser ouvida apesar do burburinho ao redor.
Bella deu de ombros, tentando parecer indiferente.
– Digamos que sua reputação como bartender me deixou curiosa.
Edward riu, o som leve e despretensioso.
– Bem, espero não decepcionar. O que vai ser hoje?
Ela pensou por um momento.
– O mesmo de ontem... ou talvez algo novo?
– Eu estava esperando por isso – disse ele, pegando os utensílios e começando a trabalhar em algo sem explicar. Bella observava os movimentos dele, precisos e quase hipnotizantes.
Enquanto ele preparava o drinque, levantou o olhar rapidamente e perguntou:
– Qual é o seu nome? Não tivemos a chance de nos apresentar ontem.
Bella hesitou por um breve momento antes de responder:
– Bella.
Ele repetiu o nome em um tom quase pensativo, enquanto colocava uma rodela de laranja no copo.
– Combina com você.
Ela sorriu de leve, mas antes que pudesse dizer algo, viu os olhos de Edward desviarem por um instante para sua mão esquerda, onde o brilho da aliança dourada chamou sua atenção. Ele não fez qualquer comentário, mas o gesto breve foi suficiente para que Bella sentisse o peso daquele anel mais uma vez.
Edward terminou de preparar o drinque, colocando o copo na frente dela com um pequeno sorriso.
– Surpresa.
Bella experimentou e sorriu.
– Dessa vez, ainda melhor.
Edward inclinou a cabeça, satisfeito, mas antes que pudesse dizer mais, um cliente chamou por ele.
– Vou voltar – prometeu, afastando-se
Bella ficou ali, sentindo o sabor do drinque e absorvendo o ambiente. A cada minuto que passava, o pub parecia menos um refúgio temporário e mais um lugar onde ela poderia ser apenas ela mesma — sem rótulos, sem expectativas.
Enquanto Bella observava o pub do canto onde estava sentada, um detalhe chamou sua atenção: um quadro na parede ao lado do balcão, com uma foto em preto e branco. A imagem mostrava um homem jovem, sorrindo ao lado de uma placa de madeira onde se lia "Inauguração do Edward's Pub". Ao lado da foto, um pequeno texto descrevia brevemente a história do lugar:
"Fundado em 2015 por Edward Cullen, este pub nasceu do desejo de criar um espaço onde as pessoas pudessem relaxar, serem elas mesmas e desfrutarem de boa música e bons momentos. Aqui, cada detalhe foi pensado com carinho para que cada visitante se sinta em casa."
Bella leu o texto atentamente, quase sem perceber que prendia a respiração. "Edward's Pub". Então, o lugar levava o nome dele. Era mais do que um trabalho; era uma parte de quem ele era.
Enquanto refletia sobre isso, a garçonete que a havia atendido antes apareceu novamente, trazendo guardanapos para a mesa ao lado. Notando a direção do olhar de Bella, sorriu.
– Impressionante, não é?
– É o dono? – Bella perguntou, gesticulando levemente para o quadro.
– Sim. – A garçonete assentiu, apoiando a bandeja no quadril. – O Edward começou esse lugar do zero. Foi uma história bonita, sabe? Ele queria que fosse mais do que um pub. Acho que conseguiu.
Bella voltou os olhos para a foto. Edward estava tão jovem ali, com o mesmo sorriso descontraído que ela havia visto nele na noite anterior. Algo sobre a história do lugar e a simplicidade do propósito de Edward a tocava de uma maneira que não sabia explicar.
– Ele parece... – começou, mas hesitou, procurando as palavras certas. – Alguém que se importa com o que faz.
– Ele é assim mesmo – respondeu a garçonete, com um sorriso sincero. – Um dos melhores.
Antes que Bella pudesse continuar, ouviu a voz de Edward se aproximando. Ele havia terminado de atender no balcão e agora caminhava em sua direção com aquele jeito tranquilo e confiante.
– Bela escolha de mesa – comentou, puxando conversa ao se aproximar. – Gosta da vista para o palco?
Bella riu levemente, sentindo-se flagrada em seus pensamentos.
– Parece o melhor lugar da casa.
Edward ergueu uma sobrancelha, divertido.
– Acho que é mesmo.
Bella permaneceu em silêncio, deixando o ambiente se infiltrar em suas defesas. Era estranho como o simples som de risadas, o murmúrio de conversas e o dedilhar suave do violão da banda ao fundo a faziam sentir-se... menos só. Ela passou os dedos pela borda do copo, quando ouviu a voz de Edward novamente.
– Posso?
Ela levantou os olhos e apontou para a cadeira à sua frente, com um sorriso descontraído no rosto.
– Claro – respondeu, endireitando-se na cadeira.
Edward sentou-se, apoiando um braço casualmente sobre o encosto e o outro no joelho, parecendo à vontade, mas atento.
– Gostou mesmo do drinque ou foi só educação? – perguntou, inclinando-se ligeiramente em direção a ela.
Bella riu, balançando o copo de leve. – Gostei de verdade. Acho que você tem um talento especial para isso.
– É bom saber. – Ele a observou por um momento, como se ponderasse algo antes de continuar. – Então, Bella, o que te trouxe de volta?
Ela hesitou, desviando o olhar para o copo. Não queria revelar mais do que deveria, mas também sentia que esconder tudo seria um desperdício.
– Precisava de um lugar diferente – disse, escolhendo as palavras com cuidado. – Algo que não fosse tão... previsível.
Edward assentiu, como se entendesse sem necessidade de explicações adicionais. – Às vezes, mudar o cenário é o suficiente para clarear as coisas.
– E você? O que faz na vida? - perguntou o homem curioso.
Bella desviou o olhar, sorrindo de forma vaga. – Nada tão interessante quanto você, eu acho.
— Isso é difícil de acreditar.
Ela riu, mas o som parecia distante, quase melancólico.
– Digamos que meu trabalho é mais sobre manter aparências do que sobre criar algo genuíno.
Edward permaneceu em silêncio por um momento, mas sua expressão era de compreensão, não de julgamento. Ele parecia querer dizer algo, mas optou por mudar de assunto.
– E além de drinques bem-feitos, tem algo mais que te faz querer voltar?
Bella olhou para ele, o coração acelerando ligeiramente com o tom leve, mas carregado de intenção.
– Talvez – respondeu, jogando a resposta de volta para ele com um sorriso pequeno.
Edward sorriu de volta, mas antes que pudesse responder, a banda começou a tocar uma música mais animada. Ele olhou para o palco e depois para ela.
– Gosta de música ao vivo?
– Sempre gostei – admitiu Bella. – Especialmente quando é algo espontâneo assim.
– Então você está no lugar certo. – Ele fez um gesto com a cabeça em direção ao palco. – Essa banda toca aqui há anos. São bons.
– Dá para perceber – disse ela, inclinando-se levemente para ouvir melhor.
Edward pareceu relaxar ainda mais, como se estivesse satisfeito com a resposta. Ele a observou enquanto ela ouvia a música, e por um instante, Bella sentiu que estava sendo vista de uma forma diferente, como se Edward estivesse enxergando algo que ninguém mais via.
– Vou pegar mais uma rodada para nós – disse ele, levantando-se da cadeira com um sorriso fácil. – Algo especial desta vez.
Antes que Bella pudesse responder, ele já estava caminhando em direção ao balcão, deixando-a sozinha com a música e seus pensamentos. Ela olhou ao redor, para as pessoas, para o ambiente vibrante e acolhedor, e percebeu que estava começando a se sentir confortável ali, como se aquele lugar pudesse ser mais do que apenas uma fuga temporária.
Quando Edward voltou, trazendo dois copos com drinques de cores vivas, ela percebeu que algo estava mudando. Lentamente, mas de forma irreversível. Enquanto Edward colocava os drinques na mesa, Bella observou suas mãos firmes e precisas, o jeito como ele parecia em completo controle de cada movimento. O drinque diante dela tinha um tom dourado, decorado com uma casca de limão em espiral que flutuava na superfície.
– Este é especial – disse ele, puxando a cadeira novamente. – Chama-se "Golden Hour".
Bella pegou o copo, apreciando o aroma cítrico antes de provar. O sabor era equilibrado, com uma mistura de doçura e acidez que fazia cada gole parecer único.
– Perfeito – ela disse, erguendo o copo em um gesto de aprovação.
Edward sorriu, satisfeito.
– Fico feliz que tenha gostado.
Por um momento, eles ficaram em silêncio, apenas aproveitando a música ao fundo e o ambiente descontraído do pub. Bella sentia-se menos tensa, como se o peso do dia estivesse lentamente se dissipando.
– É engraçado – começou ela, girando o copo entre os dedos. – Eu nunca imaginei que um lugar como este existisse em Manhattan.
Edward inclinou a cabeça, interessado.
– Por quê?
– Parece mais... autêntico – ela explicou, tentando encontrar as palavras certas. – Não tem aquele ar pretensioso que muitos lugares têm. É como se cada detalhe aqui fosse feito com intenção, não para impressionar, mas para acolher.
Ele riu, o som leve e genuíno.
– Esse é o maior elogio que eu poderia receber. Era exatamente o que eu queria quando comecei.
Bella olhou para ele, genuinamente curiosa.
– Como foi abrir um lugar assim? Deve ter sido um desafio, especialmente em uma cidade tão competitiva.
Edward deu de ombros, como se o esforço tivesse valido cada segundo.
– Foi difícil, mas gratificante. Eu sabia o que queria criar, e tive sorte de encontrar pessoas que acreditaram na ideia. É mais do que um negócio para mim. É uma extensão de quem eu sou.
As palavras dele ressoaram profundamente em Bella. Ela pensou em como sua própria vida parecia tão distante dessa autenticidade. Tudo nela parecia ter sido moldado pelas expectativas dos outros, como uma peça em uma vitrine impecável, mas sem substância real por trás.
– Deve ser bom – murmurou ela, mais para si mesma do que para ele. – Fazer algo que realmente importa.
Edward a observou atentamente, como se tentasse decifrar os pensamentos por trás de suas palavras.
– E você, Bella? O que te importa?
A pergunta a pegou de surpresa. Ela desviou o olhar, buscando uma resposta, mas a verdade era que nem ela mesma sabia.
– Acho que ainda estou tentando descobrir – admitiu, a voz baixa.
Edward assentiu, como se entendesse perfeitamente.
– Não tem problema. Às vezes, o processo de descoberta é tão importante quanto o destino.
Bella ergueu os olhos para ele, encontrando conforto em suas palavras. Havia algo em Edward que a fazia sentir que, pela primeira vez em muito tempo, ela podia ser sincera, mesmo que fosse apenas um pouco.
– Obrigada por isso – disse ela, levantando o copo em um pequeno brinde.
– Pelo drinque? – ele perguntou, divertido.
– Por mais do que isso – respondeu Bella, sorrindo de leve.
Eles brindaram, o som suave dos copos ecoando entre eles, e voltaram a se perder na conversa e no ambiente acolhedor do pub. A cada minuto que passava, Bella sentia-se menos como uma espectadora de sua própria vida e mais como alguém prestes a começar um novo capítulo.
E talvez, só talvez, aquele pub fosse o lugar onde tudo começaria.
