Capítulo 3
I keep these longings locked
In lowercase inside a vault
Someone told me there's no such thing as bad thoughts
Only your actions talk
A chuva batia forte contra as janelas da cobertura, criando uma melodia constante que preenchia o silêncio da sala. Bella estava sentada no sofá de couro, abraçada a uma manta de lã, com uma taça de vinho esquecida na mesa de centro. O apartamento, normalmente impecável, estava um pouco bagunçado—papéis espalhados, livros empilhados em um canto, e uma blusa de James jogada descuidadamente sobre uma das poltronas.
Ela havia passado o dia tentando trabalhar, revisando contratos que James lhe pedira para analisar, mas sua mente insistia em vagar. A lembrança do encontro no café ainda a incomodava, e a presença de James parecia uma constante emaranhada de conforto e desconforto. Era fácil estar com ele. E, ao mesmo tempo, era sufocante.
O barulho da porta se abrindo a trouxe de volta à realidade. James entrou, trazendo consigo o cheiro de chuva e o charme que parecia sempre acompanhá-lo. Ele tirou o casaco molhado e o pendurou ao lado da porta antes de caminhar até ela com um sorriso tranquilo.
— Trabalhando duro? — ele perguntou, olhando para os papéis espalhados pela mesa.
— Tentando — respondeu Bella, sem muita convicção.
James se sentou ao lado dela no sofá, pegando sua taça de vinho e dando um gole antes de devolvê-la à mesa. Ele a observou por alguns segundos, como se tentasse decifrá-la, e então perguntou:
— Está tudo bem? Você parece... distante.
Era a segunda vez que ele a confrontava com essa percepção em menos de 24 horas, e Bella sentiu uma pontada de culpa. Ela sabia que estava distante, mas como explicar algo que nem ela entendia completamente?
— Só estou cansada, acho — ela mentiu, desviando o olhar.
James não parecia convencido. Ele passou o braço ao redor dela, puxando-a para mais perto, e Bella se deixou levar, encostando a cabeça em seu ombro. Ela fechou os olhos, tentando se sentir presente, tentando encontrar conforto naquele momento.
Mas, em vez disso, sua mente a traiu novamente. Não era James que ela via em sua mente. Era Edward. Seus olhos intensos, o jeito como ele parecia enxergar além das camadas superficiais que ela usava para se proteger. A lembrança de Edward era tão nítida que quase parecia palpável, e isso a deixava apavorada.
James a beijou no topo da cabeça, um gesto carinhoso e familiar, mas que de alguma forma parecia errado.
— Sabe o que eu acho? — disse ele, com um tom brincalhão. — Você precisa de uma pausa. Por que não saímos no fim de semana? Só nós dois. Uma viagem rápida. Pode ser divertido.
Bella abriu os olhos, tentando focar no que ele estava dizendo, mas sua mente estava presa na sensação de estar dividida entre dois mundos.
— Talvez... — ela começou, mas sua voz soou hesitante.
James a inclinou suavemente para trás, fazendo com que ela o olhasse nos olhos. Ele sorriu, um sorriso que sempre parecia calculado para encantá-la, e passou os dedos pelos cabelos dela.
— Você sabe que eu só quero que você seja feliz, certo? — ele disse, e sua voz era baixa, quase um sussurro.
Bella assentiu, mas as palavras dele a atingiram como um peso. O que era felicidade, afinal? Era isso que ela deveria sentir? Ou era o fogo incontrolável que queimava dentro dela quando pensava em Edward?
James inclinou-se e a beijou, lento e cuidadoso, mas Bella sentiu um nó se formar em sua garganta. Ela tentou focar nele, na sensação, no momento, mas o peso da culpa e da confusão a esmagava. Quando ele a puxou mais para perto, ela se forçou a corresponder, a se entregar àquele momento.
Mas, em sua mente, ela não estava ali.
Ela estava em uma floresta densa, perdida em um labirinto de pensamentos, e a sombra de Edward estava em todos os cantos. Bella sentiu os dedos de James em sua pele, mas era como se fosse o toque de outra pessoa que ela desejava. Uma que ela nunca tivera, mas que parecia gravada em sua memória de uma forma cruel e inescapável.
Mais tarde, enquanto James dormia profundamente no quarto, ela estava sozinha sentada no sofá, Bella encarava a taça de vinho em suas mãos. O líquido rubro refletia o lampejo das luzes da cidade, mas não a distraía do turbilhão de emoções que a consumia. Ela tentava focar em qualquer coisa—nos papéis espalhados sobre a mesa, nas mensagens não respondidas no celular, no som ritmado da chuva. Nada funcionava.
Era o olhar dele que retornava, sempre ele. Edward.
Uma memória se formava nitidamente em sua mente, como um sonho recorrente. A intensidade de seus olhos, o magnetismo quase cruel que ele exercia sem esforço, e a sensação esmagadora de estar completamente vulnerável diante dele. Era absurdo, ela sabia. Não havia nada entre eles, nada além de olhares que pareciam durar mais do que o normal e palavras trocadas em um subtexto que ela não sabia como decifrar. Mas o que não acontecera na realidade parecia ganhar vida em sua mente, de forma crua, avassaladora.
O peso de seus próprios pensamentos tornou-se insuportável. Ela precisava sair, respirar, fugir de si mesma.
Sem pensar demais, Bella se levantou, jogou um casaco sobre os ombros e pegou as chaves. Seus passos a levaram até o elevador e, em seguida, para a rua molhada. Não tinha destino, mas seus pés pareciam saber para onde ir.
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Quando ela abriu a porta do lugar, o som abafado de conversas e música ao vivo a envolveu como um cobertor, abafando o caos interno. Era pequeno, acolhedor, com paredes escuras e uma iluminação que mais escondia do que revelava. O cheiro de madeira envelhecida misturava-se ao aroma de cerveja e tabaco, trazendo uma familiaridade que a fez relaxar por um momento.
Bella encontrou um banco vazio no bar e pediu uma dose de uísque, algo que não costumava beber, mas que parecia adequado para a noite. Observava as pessoas ao redor—grupos de amigos rindo, casais trocando olhares cúmplices, estranhos que pareciam perdidos em seus próprios mundos. Por um instante, ela se sentiu invisível, e isso era reconfortante.
Ela segurava o copo com força, o líquido queimando sua garganta de maneira agradável. Foi quando percebeu que, inconscientemente, estava olhando para o outro lado do bar, procurando. Por ele.
Edward não estava lá, o que a deixou frustrada. Mas o simples fato de ela ter esperado sua presença a fez estremecer. Ela desviou o olhar rapidamente, como se alguém pudesse ler seus pensamentos.
"Isso não significa nada," pensou, tentando se convencer. "É só cansaço. Só carência."
Mas mesmo enquanto seus dedos traçavam os contornos do copo, sua mente recriava cenas que nunca haviam acontecido. Ela imaginava a presença dele ao seu lado, o timbre grave de sua voz sussurrando algo que só ela ouviria. As fantasias tomavam conta, detalhadas, vívidas, tão reais que ela podia sentir o calor de sua pele, o peso de suas mãos. Era como se ele estivesse ali, tão perto que ela quase acreditava.
E, no entanto, tudo estava trancado dentro dela, como um segredo que não ousava sair. Ela não tinha feito nada. Seus pensamentos não eram crimes, dizia para si mesma. Mas por que eles pareciam tão definitivos? Por que pareciam compromissos que ela já havia feito, juramentos silenciosos que carregava com culpa?
O bartender a interrompeu ao perguntar se ela queria mais uma dose. Bella balançou a cabeça, recusando. Suas mãos tremiam um pouco, e ela as escondeu no bolso do casaco.
Não podia ficar ali. O ambiente, que antes era acolhedor, agora parecia sufocante. O ar estava pesado, e a sensação de ser observada, mesmo que fosse por sua própria consciência, era insuportável.
Ao sair do pub, o vento frio da noite e as gotas de chuva em seu rosto a trouxeram de volta à realidade, mas não o suficiente. Bella caminhou pelas ruas quase desertas, tentando se livrar das imagens que não a deixavam em paz.
Ela sabia que não poderia continuar assim. Sabia que algo em sua vida estava à beira de um colapso, mas não sabia como impedir. A única certeza que tinha era que, naquele momento, ela se sentia dividida entre quem era e quem talvez quisesse ser.
E Edward continuava sendo o nome que ecoava em sua mente, como uma melodia que ela não conseguia esquecer.
A chuva havia diminuído para uma garoa fina quando Bella finalmente parou de andar. Estava a algumas quadras de casa, encostada em uma fachada de vidro de uma loja fechada, observando o reflexo pálido de si mesma. Seu rosto parecia cansado, os olhos opacos e os lábios contraídos em uma linha fina, como se até mesmo sorrir fosse um esforço impossível.
O vazio que o pub deveria preencher havia se transformado em uma tensão incômoda, e o silêncio da rua só piorava sua inquietação. Ela passou os dedos pelos cabelos úmidos, puxando-os para trás como se tentasse afastar os pensamentos com o mesmo gesto. Não funcionou.
Edward. Seu nome parecia sussurrar em sua mente, vindo de um lugar que Bella queria ignorar, mas não conseguia.
Ela tentou racionalizar. Talvez fosse porque ele representava algo que ela sentia falta—o desconhecido, o proibido, o inexplorado. James era segurança, estabilidade, algo concreto e palpável. Edward, por outro lado, era... caos. A lembrança dos breves encontros entre eles provocava algo visceral, uma mistura de curiosidade e desejo que Bella não sabia como controlar.
A lógica dizia que não havia nada ali, nada além de olhares e diálogos triviais. Mas seu corpo e sua mente teimavam em discordar, fabricando histórias que a deixavam sem fôlego e, ao mesmo tempo, cheia de culpa.
De repente, uma buzina soou, quebrando o silêncio. Bella se assustou, voltando ao presente. Um táxi passava devagar, o motorista olhando para ela como se oferecesse uma carona. Ela hesitou por um instante antes de levantar a mão. Não queria continuar andando, tampouco queria ir para casa, mas não sabia para onde mais poderia ir.
Assim que entrou no táxi, deu seu endereço ao motorista e se afundou no assento traseiro. As luzes da cidade piscavam através da janela embaçada pela chuva, refletindo seu estado de espírito fragmentado. A tensão interna era tão palpável que Bella mal percebia o trajeto, até que o carro parou em frente ao prédio.
Ela pagou a corrida e subiu, sem pressa. O corredor estava vazio, e o som de seus passos ecoava, reforçando a solidão. Assim que entrou no apartamento, a familiaridade do lugar não trouxe o conforto que esperava. O silêncio ali dentro era ensurdecedor.
Jogando o casaco sobre uma cadeira, Bella foi direto ao banheiro. Precisava de um banho, algo que lavasse não só a sujeira física, mas também o peso que carregava. A água quente descia sobre seus ombros enquanto ela fechava os olhos e respirava fundo, tentando acalmar o coração que parecia bater descompassado desde que saíra de casa.
Mas mesmo ali, no calor relaxante do banho, as imagens vinham sem controle. Ela se via com Edward, em cenários que nunca aconteceram, mas pareciam reais o suficiente para a água não apagar. A maneira como ele a olharia, como suas mãos poderiam tocar sua pele, a forma como ela se renderia sem resistência. Cada detalhe era tão vívido que Bella sentiu o ar faltar.
Desligou o chuveiro abruptamente, como se o som da água fosse uma distração. Enrolou-se na toalha e caminhou até o quarto, onde se jogou na cama sem nem se preocupar em se vestir.
Deitada ali, com o teto como única testemunha, Bella se deixou ser consumida pela culpa. Ela não era ingênua; sabia que seus pensamentos eram perigosos, que traíam algo muito mais profundo do que James ou Edward poderiam entender. Era ela mesma que estava se perdendo, afundando em fantasias que a faziam questionar sua própria moralidade.
Por que Edward? Por que alguém com quem ela mal trocara palavras? James era o óbvio, a escolha certa. E, no entanto, era o rosto de Edward que a visitava nos momentos mais íntimos, os cenários com ele que faziam sua respiração pesar.
Bella cobriu o rosto com as mãos, como se isso pudesse afastar o turbilhão. Não podia continuar assim. Não podia permitir que uma presença tão efêmera tomasse conta de seu coração e mente desse jeito. Mas as certezas que ela repetia para si mesma pareciam frágeis, quebrando-se sob o peso de seus desejos não ditos.
A manhã chegou, mas Bella não tinha certeza se havia realmente dormido. A sensação de inquietação persistia, ecoando as sombras da noite anterior. Ela se arrastou para fora da cama, tentando ignorar o cansaço emocional que parecia pesar mais do que o físico.
Com uma xícara de café nas mãos, sentou-se no sofá da sala, observando a luz do sol espreitar pelas cortinas. O apartamento estava silencioso, como de costume, mas sua mente estava uma bagunça. Ela não conseguia afastar as memórias — ou seriam fantasias? — da noite passada.
Enquanto tentava organizar seus pensamentos, o som de uma notificação interrompeu sua introspecção. Era uma mensagem de Angela.
— Vamos sair hoje à noite? No pub, claro. Estou precisando de uma distração.
Bella hesitou. A última coisa que queria era voltar para o lugar que havia se tornado sinônimo de caos interno. Mas talvez Angela estivesse certa. Talvez sair fosse melhor do que ficar sozinha em casa, se afogando em pensamentos e arrependimentos.
— Que horas? — respondeu, com uma simplicidade que mascarava sua hesitação.
Angela respondeu quase imediatamente.
— Às oito. Te encontro lá!
Bella suspirou. Já estava feito. Agora, só precisava convencer a si mesma de que isso era uma boa ideia.
A noite chegou mais rápido do que Bella esperava. Enquanto se arrumava, escolheu um vestido simples, mas elegante, que combinava com o clima descontraído do pub. Passou um batom suave e prendeu o cabelo de maneira despretensiosa. Olhando-se no espelho, tentou encontrar confiança em sua imagem, mas ainda parecia um pouco perdida.
Quando chegou ao pub, Angela já estava lá, acenando de uma mesa próxima ao balcão. O local estava cheio, o som de risadas e conversas abafando qualquer vestígio de silêncio.
— Você veio! — Angela disse com entusiasmo, levantando-se para abraçá-la. — Precisamos de uma noite de garotas.
Bella sorriu, sentando-se.
— Parece que todo mundo teve a mesma ideia.
Angela riu, gesticulando para o ambiente lotado.
— Sim, acho que esse é o charme daqui. Sempre movimentado, sempre algo acontecendo.
Bella sabia exatamente o porquê. O pub tinha um ar magnético, quase como seu proprietário. Seus olhos vagaram, procurando Edward involuntariamente. Ele estava no balcão, conversando com a equipe, mas mesmo à distância, sua presença era inegável.
— Ele está aqui — Angela comentou, com um tom casual.
Bella tentou disfarçar, mas não conseguiu evitar a pergunta:
— Quem?
Angela revirou os olhos, divertida.
— Você sabe quem. Edward. Ele praticamente mora aqui, não é?
Bella deu de ombros, desviando o olhar.
— É o trabalho dele. Faz sentido.
Angela não respondeu, mas sua expressão dizia tudo. Ela sabia que havia algo ali, mesmo que Bella não estivesse pronta para admitir.
Elas conversaram por algum tempo, enquanto bebiam seus coquetéis. Bella tentou se concentrar, mas sua atenção era constantemente puxada para Edward. Ele parecia tão à vontade no ambiente, comandando o espaço com uma naturalidade que ela achava desconcertante.
E então, como se sentisse o peso de seu olhar, Edward ergueu os olhos. Seus olhares se encontraram, e o mundo ao redor de Bella pareceu silenciar. Foi apenas por um instante, mas foi o suficiente para que seu coração disparasse.
— Vai lá falar com ele — Angela sugeriu, cortando o momento.
Bella balançou a cabeça rapidamente.
— Não tenho nada para falar.
Angela riu.
— Claro que tem. Além disso, você está olhando para ele como se quisesse resolver um mistério.
Antes que Bella pudesse protestar, Angela levantou-se, indo buscar mais bebidas no balcão. Bella ficou sozinha na mesa, sentindo-se exposta.
Foi nesse momento que Edward começou a se aproximar. Ele movia-se com uma calma deliberada, os olhos fixos nela como se o restante do pub não existisse. Quando chegou à mesa, inclinou-se levemente.
— Bella — ele disse, sua voz baixa e rouca. — Que bom te ver de novo.
Ela engoliu em seco, tentando ignorar o nervosismo.
— Oi, Edward. Você parece ocupado.
Ele deu um sorriso de canto, aquele que parecia guardado especialmente para desarmá-la.
— Sempre estou. Mas sempre tenho tempo para clientes especiais.
Antes que ela pudesse responder, Angela voltou com os copos.
— Ah, vocês já se encontraram! Vou deixar vocês conversarem — disse ela, piscando para Bella antes de desaparecer para cumprimentar outra pessoa.
Bella lançou um olhar acusador para a amiga, mas Edward parecia achar graça. Ele se sentou na cadeira que Angela desocupou, relaxado como se fosse a coisa mais natural do mundo.
— Está se divertindo? — perguntou, com um tom curioso.
Bella assentiu, tentando parecer indiferente.
— Sim, Angela sempre sabe como animar uma noite.
Edward inclinou a cabeça, estudando-a.
— Você não parece tão animada assim.
Ela suspirou, sentindo a barreira de sua resistência começar a ceder.
— Talvez seja só cansaço.
Ele ficou em silêncio por um momento, como se ponderasse algo. Então, inclinou-se ligeiramente para mais perto, sua voz quase um sussurro.
— Ou talvez você esteja pensando demais.
O comentário a pegou de surpresa, e Bella sentiu o calor subir em seu rosto. Edward parecia ter uma habilidade irritante de enxergar através dela.
— Você está insinuando que eu penso demais? — ela retrucou, tentando recuperar o controle.
Edward riu baixinho, o som enviando um arrepio por sua espinha.
— Não é uma crítica. Só uma observação.
Eles continuaram conversando, o ambiente ao redor deles se tornando um borrão. Bella sentia o magnetismo de Edward, uma força quase tangível que a puxava para mais perto. E, embora soubesse que deveria resistir, ela não queria.
Enquanto a conversa entre eles fluía, Bella não podia ignorar o fato de que havia algo diferente no ar. O modo como Edward a olhava, com uma intensidade que parecia desafiá-la a desviar o olhar, fazia seu coração bater mais rápido. Ela tentou se convencer de que era apenas sua imaginação, que ele não tinha segundas intenções, mas cada detalhe parecia contradizer essa tentativa de racionalização.
Edward estava relaxado, mas sua postura era controlada, como se cada gesto fosse intencional. Ele brincava com o copo em suas mãos, os dedos longos traçando a borda de vidro de maneira quase hipnotizante. Bella não podia deixar de perceber — ou de se sentir atraída por isso.
— Você parece distraída — comentou ele, arqueando uma sobrancelha.
Bella piscou, trazendo-se de volta ao momento.
— Só pensando em como Angela tem o talento de desaparecer quando quer.
Edward riu, um som grave que a fez estremecer.
— Talvez ela saiba que você precisa de um momento para relaxar.
— Relaxar — repetiu Bella, rindo sem humor. — Acho que esqueci como fazer isso.
Ele inclinou-se ligeiramente para frente, apoiando os braços na mesa. A proximidade entre eles diminuiu o espaço pessoal de Bella, tornando a tensão no ar ainda mais palpável.
— Talvez você só precise de um pouco de prática — disse ele, a voz baixa e cheia de algo que ela não conseguia identificar — ou talvez não quisesse.
Bella sentiu o calor subir pelo pescoço, espalhando-se pelo rosto. Seu instinto dizia para recuar, mas, estranhamente, ela permaneceu onde estava, quase como se fosse magnetizada por ele.
— Você sempre fala assim com seus clientes? — perguntou ela, tentando soar descontraída, mas sua voz saiu um pouco mais hesitante do que pretendia.
Edward sorriu, o tipo de sorriso que parecia guardar segredos.
— Nem todos os clientes — respondeu, sem desviar o olhar.
A intensidade de suas palavras fez algo dentro de Bella se revirar. Ela deveria mudar de assunto, deveria levantar-se, deveria encontrar Angela e encerrar essa conversa antes que algo escapasse de seu controle. Mas ela não fez nenhuma dessas coisas.
Em vez disso, ela permitiu que o silêncio se instalasse entre eles, carregado e denso. O pub continuava cheio, mas tudo parecia distante, como se o mundo ao redor tivesse desaparecido.
— Edward… — começou, mas sua voz falhou. Ela não sabia o que queria dizer, ou talvez soubesse, mas estava com medo de admitir.
— Sim? — ele respondeu, inclinando-se ainda mais para ouvir.
Bella olhou para ele, absorvendo cada detalhe: o brilho em seus olhos, a forma como sua mandíbula relaxava quando ele a observava, como se estivesse completamente presente no momento. Ela sabia que isso era perigoso. Não apenas pela proximidade, mas porque, por um breve momento, ela cogitou o impensável.
Se Edward quisesse, seria tão fácil. Bastava ele fazer o movimento certo, e ela cederia. A ideia a atingiu como um golpe, roubando-lhe o ar. Que tipo de pessoa ela era para sequer considerar isso?
Ela desviou o olhar, lutando para recuperar o controle.
— Eu… preciso encontrar Angela — disse abruptamente, levantando-se tão rápido que quase derrubou a cadeira.
Edward não tentou detê-la, mas seu olhar permaneceu fixo nela, como se ele soubesse exatamente o que estava acontecendo dentro de sua mente.
— Não vá muito longe — disse ele, sua voz baixa, mas firme.
Bella sentiu o impacto de suas palavras como uma corrente elétrica. Ela forçou-se a virar as costas, andando em direção ao bar onde sabia que Angela provavelmente estaria. Mas mesmo enquanto se afastava, a sensação da presença de Edward permanecia, como se ele tivesse deixado uma marca invisível nela.
E no fundo de sua mente, ela sabia que, se houvesse outra noite como essa, ela talvez não tivesse forças para resistir.
Bella encontrou Angela no bar, rindo com o barman enquanto segurava um novo drink em mãos. A visão da amiga em sua leve despreocupação contrastava brutalmente com a tempestade que Bella sentia dentro de si. Ela se esforçou para recuperar o equilíbrio, adotando um sorriso casual enquanto se aproximava.
— Você sumiu — comentou Bella, a voz um pouco mais firme do que esperava.
Angela virou-se, radiante.
— Ah, desculpe! Estava tentando negociar um drink de graça — brincou, erguendo o copo como se fosse um troféu.
Bella forçou uma risada.
— Conseguiu?
— Obviamente. — Angela deu de ombros, inclinando-se contra o balcão. — Você parecia estar bem entretida. Fiquei fora do caminho.
A insinuação na voz da amiga foi sutil, mas Bella sentiu o peso dela.
— Estava só conversando — respondeu rapidamente, talvez rápido demais.
Angela ergueu as sobrancelhas, mas não pressionou. Em vez disso, virou-se para o barman e pediu outra rodada de drinks para elas duas. Enquanto ele preparava, Angela olhou para Bella, inclinando-se ligeiramente.
— Ele tem uma energia, não tem? — comentou casualmente, mas seus olhos observavam Bella atentamente.
Bella sentiu o rubor subir novamente, mas balançou a cabeça.
— Quem?
— Edward — Angela disse, como se fosse óbvio. — Ele tem uma presença… é quase intimidante.
Bella desviou o olhar, tentando esconder o desconforto.
— Você acha?
— Absolutamente. — Angela sorriu. — E não adianta fingir que não percebeu. Vi como ele te olhava.
Bella sentiu seu estômago se revirar. Ela abriu a boca para negar, mas as palavras ficaram presas. O que poderia dizer? Que o olhar de Edward a afetava de maneiras que ela não conseguia explicar? Que, por um breve momento, ela havia considerado jogar tudo para o alto por causa de um desejo impossível?
— Angela, ele é só… um conhecido — murmurou, finalmente, tentando encerrar o assunto.
A amiga deu de ombros, como se aceitasse a resposta, mas o brilho divertido em seus olhos dizia outra coisa. Felizmente, o barman entregou os drinks naquele momento, desviando a atenção de Angela.
Bella pegou o copo e tomou um gole, esperando que o álcool ajudasse a acalmar seus nervos. Mas, ao invés disso, a lembrança de Edward se inclinando sobre a mesa voltou com força total. A maneira como ele a olhava, como se pudesse ver além de todas as camadas que ela construíra ao longo dos anos.
— Você está bem? — Angela perguntou, franzindo a testa ao notar a expressão distante de Bella.
— Sim — respondeu rapidamente, forçando um sorriso. — Só um pouco cansada.
Angela aceitou a desculpa e começou a falar sobre o barman e como ele lembrava alguém que ela conhecia, mas Bella mal ouvia. Sua mente estava presa no instante que passara com Edward.
Quando finalmente decidiu que precisava de ar fresco, Bella se levantou.
— Vou dar uma volta lá fora — disse para Angela, que assentiu sem questionar.
O ar noturno estava frio, mas Bella o recebeu como uma espécie de alívio. Ela caminhou até a lateral do pub, onde as luzes eram mais fracas e as vozes do interior soavam como um eco distante. Encostou-se na parede, fechando os olhos e inspirando profundamente.
Por que Edward tinha esse efeito sobre ela? Ele era apenas um homem, mas, de alguma forma, fazia com que tudo dentro dela parecesse instável. E, pior, ela sabia que era mais do que simples atração. Era o que ele representava — algo que faltava em sua vida e que ela nem sabia que desejava.
A sensação de culpa a invadiu novamente. Não era justo com James. Não era justo com ninguém. Mas, mesmo enquanto tentava se convencer disso, ela não podia negar a verdade: se Edward quisesse, ela não sabia se seria forte o suficiente para dizer não.
Bella mal percebeu o som da porta do pub se abrindo até que passos suaves se aproximaram. Virou-se devagar, o coração disparando antes mesmo de confirmar quem era.
Edward.
Ele parou a poucos metros dela, o rosto iluminado por uma combinação de luz amarelada do pub e sombras que dançavam ao seu redor. Por um momento, eles apenas se olharam. Não havia necessidade de palavras; a tensão no ar era palpável, quase sufocante.
— Fugindo da festa? — ele perguntou, a voz baixa e ligeiramente rouca, como se estivesse guardando algo para si.
Bella tentou rir, mas o som saiu fraco.
— Só precisava de um pouco de ar.
Edward assentiu, encostando-se na parede ao lado dela, mas mantendo uma distância cuidadosa. Apesar disso, Bella podia sentir sua presença, uma energia que parecia puxá-la para ele, mesmo que ele não estivesse se movendo.
— É um lugar movimentado — ele comentou, olhando para o horizonte. — Difícil encontrar espaço para respirar lá dentro.
— Sim — ela concordou, mas não conseguiu evitar que sua atenção voltasse para ele. Edward parecia à vontade, mas havia algo em sua postura, na forma como mantinha as mãos nos bolsos, que sugeria que ele também sentia a mesma corrente invisível que Bella.
— Você parece… distante — ele observou, virando-se para ela. Seus olhos capturaram os dela, e Bella sentiu como se estivesse sendo desvendada.
— É muita coisa para processar — ela admitiu, sem saber ao certo o que queria dizer. Era uma meia verdade, mas servia.
Edward inclinou a cabeça, os olhos ainda fixos nela.
— Se precisar de alguém para ouvir, eu sou um bom ouvinte.
As palavras eram simples, quase inofensivas, mas o tom… havia algo nele que fez o estômago de Bella se apertar. Ela abriu a boca para responder, mas nada saiu. Ele estava tão perto e, ainda assim, mantinha uma barreira invisível, como se esperasse que ela fosse a primeira a atravessar a linha.
— Obrigada — ela disse finalmente, tentando recuperar o controle da situação. — Mas estou bem. Só… um pouco perdida nos meus pensamentos.
— Pensamentos podem ser traiçoeiros — ele disse, mais para si mesmo do que para ela.
O silêncio que se seguiu era pesado, carregado de algo que nenhum dos dois parecia disposto a nomear. Bella sentiu o peso da culpa apertar seu peito novamente. Ela não deveria estar ali, sozinha com ele. Não deveria estar permitindo que esses momentos existissem.
— Eu devo voltar — murmurou, mas não se moveu.
Edward deu um passo para o lado, como se lhe desse espaço para sair, mas não tentou esconder o brilho intenso em seus olhos.
— Se precisar de ar de novo, sabe onde me encontrar.
A sugestão estava ali, nas entrelinhas. Não era um convite direto, mas deixava claro que ele estava disposto a esperar por ela.
Bella finalmente conseguiu se afastar, mas cada passo em direção à porta parecia uma batalha. Quando voltou para o interior do pub, Angela a olhou curiosa, mas não disse nada.
Enquanto se sentava novamente e fingia se interessar na conversa da amiga, Bella não conseguia afastar a sensação de que, de alguma forma, já havia cruzado uma linha. E o pior de tudo? Parte dela queria atravessá-la de vez.
Bella permaneceu ali, sentada ao lado de Angela, tentando se concentrar nas vozes e risadas ao redor. Sua amiga falava sobre algo — um novo projeto no trabalho, um passeio que planejava no fim de semana — mas Bella só ouvia fragmentos, assentindo de vez em quando para fingir interesse. Na realidade, sua mente estava do lado de fora, naquele breve instante que acabara de compartilhar com Edward.
Sentia o coração ainda acelerado, como se seu corpo não soubesse diferenciar o perigo imaginário da segurança daquele pub acolhedor. Cada parte dela clamava por respostas que não viriam com facilidade. E, mais do que isso, havia a realização inquietante de que, se Edward tivesse dado um passo adiante, se tivesse se aproximado mais, ela não sabia se teria forças para recuar.
— Bella? — A voz de Angela cortou seus pensamentos, trazendo-a de volta. — Você está me ouvindo?
— Desculpe — disse Bella, forçando um sorriso. — Minha cabeça está em outro lugar hoje.
Angela ergueu a sobrancelha, mas não insistiu. Em vez disso, resolveu mudar de assunto, apontando discretamente com o queixo para a direção do balcão. Bella seguiu o olhar da amiga e viu Edward retornando ao interior do pub. Ele estava conversando com um dos funcionários, mas, mesmo de longe, Bella sentia o magnetismo que emanava dele. Quando ele se virou de perfil, a luz fraca do ambiente delineou sua figura de um jeito que a fez prender a respiração.
Houve um momento em que Bella temeu que Angela comentasse algo. Mas a amiga apenas sorriu de canto, como se entendesse mais do que dizia, e voltou a falar sobre amenidades. Bella ouviu um pouco, tentando acalmar as sensações que agitavam seu corpo.
Em algum ponto, Angela precisou se ausentar — talvez para ir ao banheiro, talvez para falar com outro amigo. Bella ficou sozinha à mesa, lutando contra a vontade de olhar para Edward novamente. Mas essa luta era inútil. Como se atraída por um ímã invisível, seus olhos o encontraram. E, para seu desespero, ele também a estava observando.
Os olhares se cruzaram e, por um segundo, não havia mais ninguém ali. O som do pub pareceu diminuir, as luzes se fizeram mais suaves, e Bella teve certeza de que Edward podia ver cada incerteza escondida nela. Seus lábios curvaram-se em um sorriso mínimo, enigmático, que a fez desviar o olhar, o rosto aquecendo numa mistura de vergonha e desejo reprimido.
Ela precisava pensar. Precisava entender o que estava fazendo. Ao mesmo tempo, parte dela dizia que já era tarde demais — uma conexão havia sido criada, mesmo que tênue, e não havia como fingir que nada acontecia dentro dela.
Angela voltou, sentando-se com um ar mais sério. — Você está bem, Bella? De verdade? — perguntou, a voz baixa para que ninguém mais ouvisse.
Bella hesitou, mordendo o lábio inferior. Queria dizer que sim, que estava tudo ótimo, mas a palavra morreu antes de ser dita. Como poderia afirmar isso quando seu coração insistia em pular ao menor vislumbre de Edward? Como dizer que tudo estava normal quando ela sentia o peso de uma transgressão não cometida, mas tão próxima de acontecer?
— Estou… confusa — admitiu, quase num sussurro.
Angela pousou a mão sobre a dela, apertando de leve. — Você sabe que estou aqui, certo? Sem julgamentos.
Bella assentiu, sentindo um nó na garganta. Sentia-se grata por Angela estar ali, mas também temia que nenhuma ajuda externa pudesse salvá-la de si mesma. Levantou o copo, tomando um gole longo da bebida, tentando afogar as chamas que dançavam em seu interior.
O resto da noite prosseguiu de forma estranha. Bella alternava entre escutar Angela, responder mecanicamente e se perder na tentativa de não olhar novamente para Edward. Por vezes, ela falhava, e cada vez que seus olhos se encontravam — mesmo que brevemente — era como um lembrete: a porta estava entreaberta, e só dependia dela atravessar para o outro lado.
Quando a música no pub mudou para uma melodia mais suave, Bella sentiu algo dentro de si se partir em mil pedaços. Ela não sabia o que desejava mais: o alívio de uma decisão clara ou a emoção perigosa de manter esse jogo indefinido por mais um tempo. A única certeza era que o fogo que Edward acendia dentro dela não seria apagado facilmente.
A noite já se anunciava tardia quando Angela terminou seu último drink. O pub começava a esvaziar, as conversas diminuíam e a música ao fundo ganhava contornos mais suaves, quase melancólicos. Bella, imersa em seus próprios pensamentos, percebeu o alívio que sentiu quando Angela sugeriu irem embora. Ela não resistiu, apenas assentiu, reunindo a bolsa e o casaco com movimentos lentos, como se temesse partir daquele lugar que, de alguma forma, a havia prendido num feitiço difícil de desfazer.
Quando saíram, o ar fresco da rua as envolveu. O contraste com o ambiente aquecido e cheio do pub era forte, mas reconfortante. Angela indicou que poderiam ir caminhando — não era longe, e a noite estava surpreendentemente calma. Bella agradeceu em silêncio essa escolha, pois precisava de tempo, de passos contados, para ordenar o caos dentro de si.
As duas andaram em silêncio por um ou dois quarteirões. A cidade, iluminada pelos postes e luzes de apartamentos, parecia mergulhada num estado de suspensão. Não havia pressa, não havia multidões. Apenas o som discreto dos saltos tocando o asfalto molhado, um ou outro carro ao longe. Angela manteve-se à espera, sem pressionar, dando espaço para que Bella falasse quando estivesse pronta.
Em certo ponto, Bella não suportou mais o peso do que carregava dentro de si. Parou ao lado de uma vitrine apagada, a cabeça inclinada, os cabelos caindo pelos ombros. Angela parou um passo adiante, girou nos calcanhares e a encarou com um olhar cheio de compreensão.
— Ang… — Bella começou, a voz engasgada. — Eu não sei o que estou fazendo.
Angela aproximou-se lentamente, ficando de frente para ela. Não havia julgamento, apenas preocupação.
— O que aconteceu lá dentro? Você não tirava os olhos dele.
Bella mordeu o lábio, as palavras emergindo trêmulas.
— Esse homem… Edward. Eu não sei por que me sinto assim. Não fiz nada, não houve nada de explícito, mas… — Ela hesitou, sentindo as lágrimas ameaçarem.
— Quando estou perto dele, é como se tudo o que considero certo e seguro desmoronasse. É como se eu quisesse… quisesse coisas que jamais imaginei querer fora do meu casamento.
Angela inspirou fundo. Passou o braço ao redor dos ombros de Bella, puxando-a para um abraço suave.
— Querida, você não está sozinha. Esses sentimentos… podem acontecer. Mas o que exatamente você sente? É atração? Curiosidade? Falta de algo?
Bella fechou os olhos, buscando as palavras certas.
— É mais do que atração física. É como se ele representasse algo que eu perdi e nem sabia. Uma emoção nova, um desejo proibido. Se ele quisesse, eu não sei se teria forças para dizer não. E isso me assusta. Por que eu amo o James, entenda. Eu amo. Mas ao mesmo tempo… me sinto culpada por sequer cogitar entregar meu corpo, meu coração, a alguém que não é meu marido.
Angela a segurou firme, os dedos acariciando seus cabelos em um gesto de consolo.
— Você não é a primeira pessoa no mundo a se sentir assim. Nem será a última. Não faz de você uma pessoa má. Significa que talvez haja algo faltando na sua vida agora. Não é uma sentença, mas um sinal.
Bella levantou o rosto, olhando a amiga nos olhos. A rua estava deserta, as luzes projetando sombras alongadas no asfalto.
— E o que eu faço com isso? Como lido com essa… falta? Essa fome de algo indefinido?
Angela sorriu com ternura.
— Você precisa se entender primeiro, Bella. Refletir sobre o que você quer da sua vida, do seu relacionamento com o James. Talvez seja uma crise, talvez um despertar. Mas, antes de pensar em Edward, pense em você. Por que essa atração te balança tanto? Por que essa sensação de vazio?
Bella piscou, contendo o choro.
— Porque eu sinto que algo em mim se apagou. Algo que eu nem lembrava que existia. E quando estou perto dele, é como se aquilo acendesse de novo, me lembrando que há uma parte de mim viva, pulsante, que eu ignorei por tempo demais.
Angela beijou a testa da amiga, num gesto maternal.
— Então comece por aí. Não tome nenhuma decisão precipitada, não se culpe além do necessário. Mas não finja que não está acontecendo. Olhe para dentro, descubra o que realmente quer. E só então, quando estiver pronta, faça o que tiver que fazer, seja manter seu casamento fortalecido, seja buscar novas respostas.
Bella fungou, enxugando discretamente as lágrimas.
— Obrigada, Ang. Não sei o que faria sem você.
Elas voltaram a andar, dessa vez abraçadas, dividindo o calor uma da outra. Cada passo parecia mais firme, mesmo que as incertezas continuassem a rondar a mente de Bella. Pelo menos agora ela tinha um lugar para começar: a própria alma. O ruído distante de um carro cortou o ar, e a cidade continuou testemunha silenciosa de seu conflito interno.
Ao chegarem à porta do prédio de Bella, as duas se despediram com um abraço apertado. Angela partiu, deixando Bella a sós com seus dilemas. A cobertura a esperava, o silêncio do lar, o cheiro familiar dos móveis, dos lençóis e, em algum lugar daquela rotina, a presença de James. Bella fechou a porta atrás de si e encostou-se na madeira fria, respirando fundo.
Não havia respostas imediatas. Mas havia honestidade. E talvez isso fosse o primeiro passo para finalmente descobrir como lidar com o fogo que Edward acendera dentro dela.
Quando Bella entrou em casa, encontrou tudo mergulhado em um silêncio quase irreconhecível. Era como se o lugar não a reconhecesse mais; ou talvez fosse o contrário. Ela deixou o casaco no encosto da poltrona, retirou os sapatos com um suspiro pesado, sentindo o cansaço físico e emocional acumulados na noite. A solidão da cobertura, geralmente acolhedora e previsível, parecia agora um eco vazio do que ela já fora.
Passou pela sala, acendeu apenas uma luz suave e foi até a cozinha, buscando um copo d'água para acalmar a sede que nem sabia se era real ou fruto do turbilhão emocional. O silêncio dizia que James ainda não havia voltado. Era tarde, e ele provavelmente resolvera dormir em outro canto do apartamento, ou ficara até mais tarde no escritório, ou se perdido em mais um compromisso de trabalho. Bella não sabia ao certo — e, estranhamente, não tinha energia para se importar.
Após beber a água, caminhou para o quarto. O espelho refletiu sua imagem: uma mulher com os cabelos levemente bagunçados, maquiagem sutil já desgastada, e um olhar dividido entre culpa e curiosidade. Sem pensar muito, pegou o celular que havia largado sobre a cama e sentou-se na beira do colchão, as pernas dobradas, o brilho da tela iluminando seu rosto.
Ela hesitou, o polegar pairando sobre o ícone da rede social. Sabia o nome dele, era impossível não saber, mas nunca havia procurado antes. Um ato tão simples — digitar um nome na barra de busca — agora parecia carregar um peso monumental. As palavras de Angela ainda ecoavam em sua cabeça: "Não se culpe além do necessário." E no entanto, mesmo sem ter consumado qualquer traição, Bella sentia-se prestes a ultrapassar uma barreira invisível.
Digitou: Edward Cullen. A sugestão apareceu imediatamente. Havia um perfil, uma foto discreta, e Bella sentiu o coração disparar como se ele estivesse ali, observando cada movimento seu. A conta era pública, algumas fotos de lugares, do pub, de paisagens urbanas. Nada muito íntimo, nada que realmente denunciasse quem ele era por trás daquela persona que habitava suas fantasias.
O dedo rolava pela tela, mas ela não tocava em "seguir". Parecia uma linha tênue, mas significativa. Seguir significava assumir que ela queria mais: mais proximidade, mais conexão, mesmo que fosse apenas virtual. Não seguir seria manter o controle, guardar para si aquele fogo ardente que a consumia em silêncio.
Levantou a cabeça, encarando o quarto na penumbra. O relógio no criado-mudo marcava horas avançadas. James não estava ali para notar seu dilema, e isso talvez tornasse tudo ainda mais tentador. Era uma escolha que só ela veria. Mas ela mesma sabia, e isso bastava para sentir a culpa roçar sua pele como um lençol frio.
Inspirou fundo, hesitou por um longo minuto, o quarto mergulhado no som de sua própria respiração. Então, com um movimento quase mecânico, saiu da página sem segui-lo. Desligou a tela do celular, largando-o ao lado do travesseiro. Não. Não dessa vez. Não naquela noite. Ela não estava pronta para cruzar essa linha, não ainda. Talvez fosse só uma questão de tempo, mas por enquanto preferia deixar o desejo sem rosto no ar, pairando entre o real e o imaginado.
Deitou-se, encarando o teto. A imagem de Edward povoava sua mente como um fantasma delicado: o jeito que o olhar dele a despia sem tocá-la, as palavras ambíguas que pareciam guardar segredos. Talvez o simples fato de não tê-lo seguido fosse um lembrete de que ela ainda tinha controle, mesmo que frágil, sobre a própria narrativa.
A noite avançou aos poucos. Bella ouviu o barulho suave da porta da frente — James voltando ou se movimentando pela casa. Não fez menção de sair do quarto. Não queria explicações, não queria confrontos. Pelo menos não agora. Preferia ficar sozinha com seus pensamentos, estudando o fogo que ardia em seu peito, analisando as rachaduras que começaram a surgir em seu mundo tão bem estruturado.
Enquanto o ruído dos passos distantes de James se dissolvia no silêncio, Bella fechou os olhos. Ela não sabia o que faria no futuro, não sabia se um dia teria coragem de ir além desse flerte mental. Por ora, mantinha-se nesse limiar inquietante: desejando, temendo, contendo-se. Talvez amanhã a luz do dia trouxesse alguma clareza, ou talvez apenas mais dilemas.
No escuro, Bella decidiu que a honestidade consigo mesma seria seu próximo passo. Não poderia continuar se escondendo de suas próprias emoções. Queria entender porque Edward a despertava dessa forma, queria desvendar o que estava faltando em sua vida, no seu casamento, e se era justo culpar o outro homem por isso.
Ao menos uma coisa estava clara: suas decisões a partir dali importariam muito. E, no silêncio cúmplice da madrugada, Bella dormiu sem saber ao certo se havia ganho ou perdido a batalha daquele dia, apenas ciente de que ainda tinha escolhas a fazer.
