"Em 2025, minha meta é não ter metas!" Foi a primeira coisa que eu disse a mim mesma enquanto os fogos ainda brilhavam no horizonte e as pessoas brindavam. Eu simplesmente olhava para tudo aquilo com o mais completo tédio e falta de vontade para todo aquele espetáculo sem motivos reais.
Estava tentando ser sincera comigo mesma e com as convicções que eu construíra ao longo dos últimos 10 anos e, acredite, elas não foram nada boas. Sobretudo após traições de falsos amigos, difamações e pancadas que apenas a vida sabe dar, capazes de fazer muitos desistirem no meio do caminho... o que não foi o meu caso, pois decidi adotar uma postura fatalista e encarar as coisas como são.
O que havia de interessante em comemorar uma virada de um dia para o outro? Não fazia muito sentido comemorar como algo de suma importância o fato de que a Terra havia completado a sua volta em torno do Sol. Ela fazia isso todos os anos. Centenas, milhares, bilhares de anos... sempre a mesma coisa, sempre a mesma gravitação passando por transformações mais lentas e mais rápidas, assim como qualquer outro ser ou coisa existente.
Neste momento, muitos pensariam que eu estava com algum tipo de desespero latente me impedindo de ver toda a beleza ou que eu era apenas uma chata pessimista que não sabia aproveitar o momento. Porém, eu estava seguindo em frente e dizendo ao universo que não me apegaria mais às falsas promessas, nem às anotações feitas com letras cursivas em cadernos bonitos.
Eu me entregaria ao acaso e deixaria as coisas acontecerem. Foi esse o meu segundo grande pensamento. Creio que deve ter ocorrido por volta das 2h da manhã, não tenho certeza, e parecia extremamente libertador. Contudo, não foi! Essa ideia foi o estopim para que o caos tomasse conta e se estabelecesse nos dias que seguiram.
Logo nos primeiros dias, percebi que a falta de metas claras não me trouxera nada de bom ou promissor. A paz fora perdida, e eu estava com a estranha sensação de que sempre faltava alguma coisa: que eu caminhava em uma escuridão densa, sem possibilidades de encontrar uma saída ou qualquer objetividade no que estava fazendo.
Meu trabalho, minha escrita, meus livros e minhas músicas prediletas, antes locais de profundo refúgio e conquistas, começaram a parecer meras questões práticas sem o menor propósito. Eu olhava para as coisas que se acumulavam e me questionava por quais motivos eu ainda seguia fazendo aquilo.
E por não encontrar qualquer resposta devido à falta de propósitos, quase cruzei os braços e fechei os olhos para os reais motivos... a falta de direção tinha me dominado e começara a me perseguir até mesmo nos menores detalhes!
Eu não sabia mais o que ler, o que assistir, o que ouvir e o que comer. Tudo se tornara matéria para intermináveis perguntas e porquês sem respostas, enquanto eu ficava prostrada no sofá olhando para o teto sem saber o que fazer.
Minha consciência tentava encontrar alguma solução, dizendo que, talvez, seria interessante viver o momento ou descansar. Foi em um desses instantes perturbadores que me levantei e decidi sair sem rumo. Ia caminhar e pensar na vida, para dar um basta naquele torpor absurdo.
O dia estava nublado, de um céu cinza chumbo que anuncia a chegada da chuva, com o ar úmido e cheiro de chuva que alegra o coração de qualquer pessoa por pior que ela seja.
Com a cabeça longe e os pensamentos voando como folhas ao vento, passei sem perceber por um parque, onde crianças corriam e gritavam, cachorros brincavam com suas bolinhas e gravetos, casais ocupavam bancos envoltos nos silências confortáveis dos amantes.
Eu poderia dizer que me sentia como Morrissey ao cantar sobre infelicidade, mas não me via como uma criatura trágica ou vítima de um mal sombrio. Eu estava era me sentindo deslocada ao me ver cercada por aquela turba de vozes e situações simultâneas.
Isso foi simplesmente e abruptamente interrompido por algo completamente inesperado, ou até meio óbvio se eu estivesse prestando atenção no meu entorno: um cachorro fugiu da coleira e veio correndo na minha direção com uma expressão de felicidade.
De pelos escuros e desgrenhados, seus olhos brilhavam de curiosidade e transbordavam amor pela vida. Antes que eu pudesse reagir ao "invasor", ele pulou em mim, deixando minha calça jeans e minha camiseta marcadas por suas patas lamacentas de diversão.
– Quindim, pelo amor de Deus! – foi a primeira coisa que ouvi ser dita por uma voz que gritava de longe, segundos antes de observar uma mulher que corria em nossa direção com um semblante apavorado, vindo buscá-lo.
– Me desculpe, eu juro que o Quindim é bem comportado... eu não sei o que aconteceu com ele hoje – ela se desculpou, ainda preocupada, enquanto eu sorria e negava com a cabeça.
– Não tem problema, acho que esse mocinho veio lembrar como é correr loucamente.
– Quindim é desse jeito mesmo... nasceu para ir aonde o vento o leva – ela riu enquanto afirmava isso e afofava o cachorro que abanava o rabo ainda mais contente.
Por algum motivo estranho foi essa última frase que ficou ecoando na minha mente por horas. Ir para onde o vento leva. Eu tinha sido assim no passado e, naquele momento, percebi que certamente minhas resoluções foram o que tinham feito com que eu me perdesse da pessoa mais importante de todas para a minha existência: eu mesma.
Que mais do que não ter metas, a falta de compreensão e aceitação fora o maior motivo que me levara para tamanha falta de perspectivas. Talvez muitas das minhas projeções fossem irreais, talvez não, entretanto definitivamente não era sobre deixar se levar pelo acaso e, sim, voltar a me ver completamente aberta para aceitar o inesperado. Para aquela situação que simplesmente surge em nosso caminho, como o cachorro Quindim completamente bagunceiro correndo livremente, e que, no processo meramente caótico entre um pulo animado e a sujeira, consegue te arrancar uma risada sincera.
Foi ele o responsável por me fazer voltar para casa refletindo em relação ao ano que mal havia iniciado. Eu poderia dar uma chance e fazer com que fosse diferente. Bastava encarar cada dia como uma página em branco e um novo recomeço, todavia, nada mais seria feito ou visto como sem propósito.
O maior truque, certamente, não era abandonar as metas. Eu deveria aprender a transformá-las em algo mais fluido e empolgante. Algo que pudesse se modificar em formas e conteúdos conforme o vento soprasse.
Naquela noite eu abri meu caderno, falei com uma amiga no WhatsApp e escrevi:
Neste ano, vou voltar a escrever sobre tudo aquilo que mais amo. "O Destino nos Uniu" voltará a ser uma realidade, não mais uma mera lembrança.
