Capítulo 8 - A Pulseira Azul

A mansão Malfoy erguia-se majestosa sob o céu nublado, com suas torres altivas e paredes de pedra imponentes cercadas por jardins meticulosamente cuidados. Ao adentrar a mansão, o silêncio reinava absoluto nos longos corredores de mármore, onde os tapetes finamente tecidos abafavam qualquer som de passos. As paredes, adornadas com retratos ancestrais, pareciam observar cada visitante com olhos penetrantes.

Conforme se avançava pelos corredores iluminados por candelabros flutuantes, o ar tornava-se gradualmente mais denso, quase palpável com a história e a magia que impregnavam o lugar. Finalmente, uma porta pesada de carvalho maciço abriu-se, revelando a biblioteca, um santuário de sabedoria e mistério.

Dentro dela, o silêncio era profundo, quebrado apenas pelo som suave de uma caneta de pena que se movia magicamente sobre o pergaminho. Lucius havia encantado a pena para que transcrevesse, com precisão impecável, a lista do inventário para o grande quadro de conferência. As estantes de livros que cercavam a sala, repletas de tomos antigos e raros, pareciam vigiar cada movimento da pena, enquanto o fogo na lareira lançava sombras dançantes pelas paredes de pedra. Lucius permitindo que a magia realizasse a tarefa, observava cada detalhe com um olhar atento e crítico.

Lucius parou por um momento, soltando um suspiro enquanto consultava seu relógio de bolso. O tempo parecia escorrer lentamente na quietude da biblioteca. Fleur Delacour, que havia inicialmente se juntado a ele na tarefa de catalogação, notando que o trabalho tomaria mais tempo do que o previsto, retirou-se para tomar um banho e providenciar o jantar para ambos. No entanto, sua ausência já se estendia muito além do que Lucius esperava.

Por um instante, o crepitar do fogo na lareira foi o único som a preencher o ambiente, enquanto ele se perguntava o que poderia estar demorando tanto. Foi então que ele ouviu passos suaves ecoando no corredor. Lucius ergueu o olhar e viu Fleur entrando na biblioteca, segurando um saco de papel pardo de onde emanava um aroma delicioso de massa italiana. Ela parecia ligeiramente envergonhada, ciente do atraso.

— Eu espero que não tenha demorado muito — disse ela, com um sorriso de desculpas — Seu mordomo abriu para mim antes de ir embora.

Lucius arqueou uma sobrancelha, olhando para o relógio e depois para ela.

— Eu pensei que voltaria em 30 minutos, Fleur. Já se passaram quase duas horas.

Fleur, surpresa, lançou um olhar rápido para o relógio antes de voltar sua atenção para Lucius, com um sorriso ligeiramente tímido.

— Na verdade, levei uma hora e meia.

Lucius, mantendo a expressão séria, replicou com um toque de repreensão:

— Uma hora e trinta e dois minutos, para ser exato. O que, convenhamos, está mais próximo de duas horas do que de uma.

Fleur balançou a cabeça, deixando escapar uma risada suave.

— A massa demorou mais do que eu imaginava para ficar pronta. Aproveitei para visitar minha irmã, que mora ali perto, e achei que você não se importaria. — Ela fez uma breve pausa, como se ponderasse o que estava prestes a dizer, antes de continuar com um sorriso ligeiramente divertido. — Por coincidência, minha mãe e minha avó também estavam lá, visitando Gabriele, e, claro, não pude escapar de contar tudo sobre o incidente no Beco Diagonal e nossa... parceria. Elas exigiram todos os detalhes, sem deixar passar nada.

Fleur respirou fundo, como se ainda estivesse se recuperando da maratona de explicações, e então acrescentou com um toque de ironia:

— Depois disso, tive que passar em casa rapidamente para dar um alô ao meu basilisco, que, por sinal, estava bastante irritado com minha ausência prolongada. Considerando tudo o que fiz, 1 hora e 32 minutos é praticamente um recorde para tantas tarefas.

Lucius mal conseguiu processar as informações que Fleur havia dito. A palavra "basilisco" pairava no ar, ofuscando qualquer outra coisa. Ele arqueou uma sobrancelha, meio intrigado, meio divertido.

— Seu basilisco? Estou supondo que isso seja uma metáfora?

Fleur soltou uma risadinha enquanto colocava as caixas de massa sobre a mesa.

— Às vezes eu gostaria que fosse uma metáfora, mas não é. E hoje ele estava particularmente irritado por eu ter sumido por tanto tempo. Preciso manter nosso vínculo forte, ou então ele simplesmente não obedece meus comandos verbais.

Lucius ficou em silêncio por alguns segundos, tentando processar o que ela havia dito. A ideia de Fleur sendo dona de um basilisco era tão inesperada que ele precisou de um momento para compreender. Finalmente, ele perguntou, lentamente:

— Você tem um basilisco?

Ela sorriu timidamente, como se estivesse acostumada à reação.

— Não, Lucius, eu não tenho um basilisco. Possuir um basilisco é um crime previsto pelo Ministério da Magia. Eu sou apenas a guardiã temporária do Zaino, devidamente registrada, enquanto esperamos um lugar em uma colônia para ele.

Lucius sorriu, ainda incrédulo, sem ainda saber se Fleur estava brincando. Então ela continuou, parecendo se divertir com a reação dele:

— Na verdade, minha avó é registrada como a guardiã, mas cuidar dele se tornou parte do meu treinamento. E estamos indo muito bem, tirando alguns incidentes. Diria que Zaino é um perfeito guardião.

Lucius, ainda tentando assimilar a situação, comentou:

— Pensei que apenas ofidioglotas pudessem controlar basiliscos.

Fleur sorriu, corrigindo-o com paciência:

— Os ofidioglotas falam com serpentes; veelas, por outro lado, têm uma ligação profunda com a natureza de forma geral. Não controlamos basiliscos, nós nos comunicamos com eles e tentamos ajudá-los a entender como viver de forma mais harmoniosa em seu ambiente. Para as veelas, quanto maior a conexão com o animal, mais fácil é a comunicação. Mas com um basilisco é muito diferente, eles exigem atenção total. Não sei como é com os outros, mas com Zaino isso é levado ao extremo. Se eu ficar 24 horas longe dele, ele já começa a mostrar sinais de desobediência. Acho que, se eu me afastasse por uma semana, ele me ignoraria completamente.

Lucius a fitou profundamente, seus olhos estreitando-se enquanto tentava decifrar a verdade por trás das palavras dela.

— E não teme o olhar mortal do basilisco? Ou considera aventureiro ter que evitá-lo em cada esquina da sua própria casa?

Fleur soltou uma gargalhada.

— É por isso que as veelas são escolhidas para serem guardiãs de basiliscos. Podemos simplesmente instruí-los a manter os olhos fechados quando não estão em caça ou se defendendo. Além disso, Zaino é apenas um filhote; no máximo, ele conseguiria petrificar.

Havia algo na naturalidade com que Fleur falava que fazia Lucius questionar a improbidade daquilo.

— Guardiã de um basilisco, ensinando-o a se comportar na natureza — ele repetiu, degustando cada palavra como se procurasse uma falha na narrativa. Após um breve silêncio, ele acrescentou, com um suspiro de admiração: — Será que algum dia você deixará de me surpreender?

Fleur sorriu, sustentando o olhar de Lucius. Como sua avó havia lhe advertido, possivelmente Lucius perceberia o quanto ser reconhecida como uma bruxa habilidosa era importante para ela, e agora ela se dava conta de que ele poderia estar usando isso para fazê-la sentir-se valorizada e com isso tentar sugestiona-la. Ela conhecia muito bem a reputação de Lucius sobre manipular os outros para obter o que queria, e isso a fez ficar em guarda. Fleur mentalizou que precisava manter o foco em sua missão principal: descobrir a verdade sobre a mala deixada no momento do incidente e limpar seus nomes, não se deixar levar pelas palavras agradáveis de Lucius Malfoy.

Então ela acrescentou, com um tom mais sério:

— Mas a visita acabou sendo bastante produtiva para nossos interesses. Minha mãe comentou que os repórteres do Profeta Diário souberam de um rumor sobre Alastor Moody ter solicitado uma reunião com a Ministra da Magia, Wilma Dean. Dizem que ele pretende pressionar a Ministra para que a Gringotes entregue a lista completa dos itens que você retirou do seu cofre no dia do incidente.

Lucius suspirou, lançando um olhar de leve exasperação ao saco de papel pardo.

— Espero que essa situação se resolva rapidamente. Quando verificarem que não retirei nenhuma joia naquele dia, espero que a pressão sobre mim diminua. — Ele fez uma pausa, deixando escapar um suspiro de desagrado antes de acrescentar, com uma nota de ironia elegante em sua voz: — Será que podemos ter nossa refeição? Você me convenceu a liberar os empregados, e agora estou à mercê dessa fome inconveniente.

Fleur sorriu enquanto distribuía as massas.

— Você não é um bebê, Lucius. Pode pegar alguma coisa para comer quando tem fome. E, além disso, seus empregados não são seus brinquedos. Eles precisam descansar, dormir, namorar, sabe... viver suas vidas.

Lucius revirou os olhos, mas não pôde deixar de sorrir. Mesmo que ele não quisesse admitir, havia algo de refrescante na leveza com que ela encarava a vida.

Lucius abriu a caixa com elegância, e o aroma quente de uma autêntica massa à bolonhesa italiana se espalhou pela biblioteca, misturando-se com o cheiro da madeira antiga e dos livros. Ele inspirou profundamente, apreciando o perfume delicioso da refeição à sua frente. Com um gesto refinado, ele se sentou na grande cadeira à mesa da biblioteca, embora seu desconforto fosse evidente.

— Tem certeza de que não deveríamos ir até a sala de jantar e transpor nosso jantar para pratos apropriados? — perguntou ele, com uma leve nota de desaprovação em sua voz.

Fleur riu, o som claro e despreocupado enchendo o ambiente.

— Não, Lucius. Isso perderia todo o propósito de comer a massa na caixa. Além disso, você precisa se atualizar nas novas tendências bruxas. Não há nada mais moderno do que apreciar uma refeição de forma prática.

Lucius hesitou por um instante, mas logo cedeu, pegando os talheres de forma elegante. Ele enrolou um pequeno pedaço de massa e o levou à boca, provando com cuidado. Fleur observou atentamente, pronta para soltar um aviso.

— Cuidado, está quente — ela disse, um sorriso brincando em seus lábios.

Lucius fez uma pausa por um breve momento, sentindo o calor agradável da comida recém-preparada, antes de deixar que um leve sorriso se formasse em seus lábios.

— Realmente é superior ao que supunha — admitiu, sua voz carregada de uma satisfação contida.

Lucius perguntou, com uma curiosidade cuidadosamente controlada:

— Você mencionou que informou o clã Delacour sobre o que aconteceu entre nós no Beco Diagonal?

Fleur sorriu, um brilho misterioso em seus olhos.

— Quando estamos juntas, não somos o clã Delacour, somos o clã Jolie, o sobrenome da minha avó. E sim, contei tudo a elas.

Lucius ficou visivelmente tenso; ele não esperava que Fleur fosse contar sobre eles para sua família.

Fleur assentiu lentamente, esboçando um sorriso suave enquanto falava.

— Sim, a ligação entre as veelas e suas linhagens é algo profundamente enraizado. O núcleo da minha varinha, por exemplo, é formado por uma mecha do cabelo da minha avó, que, por sua vez, foi feito com o cabelo da avó dela. Além disso, todas as bruxas da nossa família deixam sua marca nas varinhas das mais jovens, o que nos conecta de maneira perpétua. Estamos unidas não só pelo sangue, mas também pela magia que flui através de gerações. Não conseguiria esconder nada delas, mesmo que quisesse — disse ela, enquanto exibia sua varinha, suas palavras ecoando a profundidade desse laço ancestral.

Lucius, intrigado, perguntou:

— Posso ver?

Fleur hesitou por um momento, sabendo o quão arriscado era entregar sua varinha a outra pessoa. No mundo bruxo, era algo completamente desaconselhável, especialmente para alguém com a reputação de Lucius Malfoy. Contudo, após um breve instante de reflexão, ela estendeu a varinha para ele com uma confiança cautelosa.

Lucius segurou a varinha com cuidado, notando as intricadas inscrições que cobriam sua superfície.

— Essas inscrições... são muito parecidas com as do meu anel — comentou, surpreso. — Nunca vi uma varinha assim.

Fleur, ainda um pouco tensa, relaxou um pouco e sorriu.

— Essas inscrições são votos de proteção de todo o clã da veela para a possuidora da varinha. Essas são da minha avó, da minha mãe, das minhas tias-avós, e essa aqui é da minha irmã. — Enquanto seus dedos mostravam as inscrições, eles tocaram os de Lucius, que sorriu com a proximidade.

Ele devolveu a varinha a Fleur com um gesto solene, segurando-a por um momento antes de entregá-la de volta.

— Espero que elas tenham ficado satisfeitas com os detalhes que forneceu — ele comentou, a ironia suave em sua voz acompanhada por um olhar penetrante, fazendo menção ao tempo que ela havia demorado.

Fleur riu suavemente, sentindo-se um pouco mais à vontade.

— Minha mãe gritou, ameaçou chamar os aurores, e depois meu pai. Minha avó ficou um tanto preocupada com o fato de eu estar tão próxima do infame Lucius Malfoy, mas, curiosamente, ela ficou bastante orgulhosa de eu ter colocado o Beco Diagonal para dormir. Já a minha irmã, bom, nem vale a pena mencionar o que Gabriele disse. Mas, após um chá de camomila e muita conversa, elas finalmente me deixaram partir.

Lucius sorriu, ligeiramente desconcertado:

— Imagino que sua irmã tenha sugerido uma maldição veela poderosa se eu a tentasse arrastar para as sombras.

Fleur soltou uma gargalhada vibrante, seu rosto se iluminando.

— Algo nesse nível. Você conhece Gabrielle?

Lucius deu de ombros, com um toque de ironia na voz:

— Não, mas estou começando a conhecer bem a irmã dela.

Fleur, querendo mudar de assunto, perguntou com um sorriso:

— E quanto à massa?

Lucius deu de ombros com uma expressão neutra.

— Ainda prefiro uma refeição completa, servida com os talheres apropriados. Mas admito que o sabor é realmente superior à maioria das massas que já provei. É uma alternativa interessante aos sanduíches improvisados quando se precisa de algo rápido e satisfatório.

Fleur abriu a boca para dizer algo, mas Lucius não percebeu. Seus olhos haviam se fixado na mesa de estudos, onde uma pulseira de lápis-lazúli repousava silenciosa, quase esquecida. Com um sorriso de satisfação sutil, ele se levantou, caminhando até a mesa com passos calculados. Pegou a joia com um gesto deliberado, enquanto sua mente já começava a planejar o próximo movimento.

— Enquanto você estava fora, encontrei algo que chamou minha atenção — disse Lucius, com um sorriso enigmático. Sem pressa, ele se aproximou de Fleur, pedindo licença com um gesto discreto, e começou a colocar a pulseira em seu pulso. — Essa jóia — explicou ele enquanto ajustava a pulseira em seu pulso — tem a capacidade de expandir feitiços de persuasão quando realizados sem varinha. Gostaria que você a aceitasse como um presente. Se puder, use-a nos próximos treinos, como um símbolo do meu agradecimento por sua ajuda durante esse período tão confuso e também para elevar o nível dos nossos duelos obviamente.

Fleur observou a joia em seu pulso, admirada com sua beleza e poder. A pulseira era deslumbrante, e o valor evidente a deixou hesitante. Com uma expressão séria, ela falou:

— Lucius, eu não posso aceitar.

Lucius se levantou, fixando seus olhos intensamente nos de Fleur, e declarou com firmeza:

— Não aceito uma recusa. Essa joia seria muito mais útil para você. Seus poderes de persuasão, como veela, são naturalmente usados sem varinha, então faz todo o sentido que você a tenha. Embora eu espere que meus feitiços sem varinha evoluam bastante, há limites para o que posso fazer. O único feitiço de persuasão que eu poderia tentar seria o "Imperio", e sinceramente, lançar uma Maldição Imperdoável sem uma varinha é algo que não acredito que chegarei a fazer. Portanto, essa joia estará em melhores mãos com você.

Ele fez uma breve pausa, deixando que suas palavras fossem absorvidas, antes de acrescentar com um tom mais suave, com uma pitada de flerte:

— Além disso, o azul da joia realça lindamente seus olhos.

Fleur, surpreendida pela sinceridade e generosidade de Lucius, observou a joia por um momento antes de finalmente sorrir, resignada.

— Você realmente não me deixa escolha, não é? — Ela disse, apreciando o toque da pulseira em seu pulso. — Obrigada, Lucius. Eu nem sei o que dizer.

Depois de observar a joia em seu pulso e aceitar o presente com um sorriso resignado, Fleur não pôde resistir a provocar Lucius.

— Mas talvez não seja uma boa ideia para você expandir meus poderes, Lucius — disse ela com um brilho malicioso nos olhos. — Se sem absolutamente nada eu já consegui vencê-lo, isso vai deixar a situação ainda mais complicada para você.

Lucius, inicialmente incrédulo, parou por um momento antes de soltar uma risada baixa e irônica.

— Delacour — começou ele, com a voz carregada de uma mistura de desafio e admiração — Da última vez, você me pegou desprevenido.

Ele se inclinou ligeiramente para mais perto, o olhar intenso fixo no dela.

— E não pense, por um segundo, que eu gostaria que você apresentasse uma partícula a menos do que é capaz. Eu quero experimentar tudo.

O ar entre eles parecia eletrificado, carregado de uma tensão que ia além das palavras. Era um desafio mútuo, uma promessa de que, nos próximos encontros, ambos trariam à tona o melhor de si. Fleur, ainda sorrindo, apenas assentiu, aceitando a provocação e deixando o momento se estender, ciente de que Lucius estava tão ansioso quanto ela para o próximo confronto de habilidades.