Luísa mal havia cruzado a porta do hotel quando avistou suas amigas juntamente com os meninos. Eles a aguardavam no saguão com sorrisos calorosos e olhares repletos de expectativa. Mesmo cansada e emocionalmente desgastada, o coração da escorpiana se aqueceu ao ver a lealdade delas. Ela havia passado por um dia tumultuado, cheio de altos e baixos, mas sabia que aquelas quatro estavam ali para ajudá-la a fechar a noite de uma maneira mais leve.
– A medalhista chegou! – disse Érika correndo em direção de Luisa, sendo acompanhada dos demais
— Sabíamos que você conseguiria! — disse Hina, os olhos brilhando de orgulho.
— Estamos tão orgulhosas de você, Lu. Foi incrível te ver lutar hoje — completou Calisto, com um sorriso largo.
Luísa sorriu, um pouco envergonhada com toda a atenção, mas sentindo o carinho no ar.
Eu não sei o que faria sem vocês... Esse dia foi tão difícil. Achei que tinha decepcionado todo mundo.
– Decepcionado? Você está brincando, né? Koga balançou a cabeça, incrédula. – Se você pudesse ver como a gente torceu por você, como vibramos! O ginásio inteiro percebeu o quanto você é incrível
– E tem mais, – Érika falou com um brilho travesso nos olhos – nós não vamos deixar essa noite acabar assim. Eu sei que você está cansada, mas... que tal uma comemoração? Só entre a gente, nada grandioso, mas algo para marcar sua conquista?
— Não sei... — Luísa começou, ainda processando tudo. – Eu estou tão cansada…
– Luisa, você merece comemorar, afinal você é medalhista de um campeonato mundial – foi Milo que disse enquanto se aproximava do grupo de amigas. – Que tal um jantar? O técnico já concordou em ir também.
Luísa olhou ao redor, vendo as amigas assentirem com empolgação. Elas claramente não iriam perder a chance de comemorar. Hina foi a primeira a falar.
– Sim! Precisamos ir a um lugar onde possamos comer bem e rir bastante! — disse ela, dando pulinhos de animação.
– Eu estou de acordo, só temos que descobrir agora em qual restaurante iremos – completou Koga.
– Deixem comigo! – Calisto disse isso e foi até a recepção, voltando logo em seguida.
Como a canceriana era fluente em italiano, ela conversou com os recepcionistas onde explicou tudo e eles indicaram um lugar. Já de volta onde estavam as amigas, ela ligou e reservou lugar para eles.
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O restaurante escolhido era um lugar aconchegante, com uma decoração rústica e mesas de madeira espalhadas pelo salão. As luzes suaves e o aroma de comida fresca criavam uma atmosfera acolhedora. O local era conhecido por servir pratos típicos da região, algo que todos queriam experimentar.
Ao chegarem, foram recebidos por um garçom simpático que os levou até uma grande mesa no centro do restaurante. Eles se acomodaram, com as meninas se sentando próximas a Luísa e os rapazes ocupando os assentos ao redor.
– Olha só, Luísa, você tem direito de escolher o primeiro prato! – disse Milo, passando o cardápio para ela.
– Eu? – Luísa riu. – Não sei nem por onde começar!
– Vamos começar com algo leve, tipo uns petiscos. Depois, partimos para a parte boa – sugeriu Koga, enquanto examinava o cardápio.
– Boa ideia! – Hina concordou, já olhando o menu com olhos brilhantes.
Depois de alguns minutos de discussão animada, decidiram pedir uma série de pratos típicos da região.
Enquanto esperavam a comida chegar, as conversas fluíam naturalmente, fazendo Luisa se dar conta que as amigas estavam certas em insistir por aquela comemoração.
A comida chegou logo depois, e o grupo se deliciou com os pratos fartos. A noite seguiu leve e cheia de brincadeiras, as conversas eram intercaladas com piadas de Máscara da Morte e risadas de todos. Até o técnico, que normalmente mantinha um perfil mais sério, estava relaxado e sorridente, apreciando a noite.
Em um momento de descontração, Hina levantou o copo de suco e propôs um brinde.
– À Luísa, pela medalha e por ser uma inspiração para todas nós!
Todos levantaram seus copos e brindaram juntos.
– E que venham muitas outras! – completou Érika, com um sorriso orgulhoso.
– Com certeza – disse Luísa, emocionada. – Obrigada, gente. Isso significa muito para mim.
Depois de uma noite repleta de risadas, comida deliciosa e momentos inesquecíveis, o grupo deixou o restaurante com as energias renovadas. As ruas da cidade estavam tranquilas, e a brisa da noite oferecia um alívio refrescante após um dia tão intenso.
Ao chegarem ao hotel, as meninas e Shion comunicaram Luisa que haviam conseguido reservas no mesmo hotel, o que deixou a escorpiana bastante feliz.
O grupo entrou no saguão e foi se dispersando, indo para seus respectivos quartos para se despedir da noite. Luísa, após um longo dia de emoções, finalmente sentia que poderia relaxar de verdade. Mas, enquanto ela se preparava para subir ao quarto, Milo se aproximou discretamente.
– Luísa, quer dar uma volta? Acho que ainda não estou pronto para ir dormir – sugeriu ele, com um leve sorriso.
Ela assentiu, sentindo uma calma especial quando estava ao lado de Milo. Ele sempre tinha algo sábio a dizer, algo que a fazia sentir-se mais centrada. Juntos, caminharam até a sacada do hotel, um lugar amplo com uma vista incrível para o céu noturno e as luzes distantes da cidade.
Quando chegaram à sacada, foram recebidos por uma paisagem deslumbrante. A lua cheia brilhava no céu, acompanhada por incontáveis estrelas, e o ar fresco da noite os envolveu como um abraço reconfortante.
Que noite linda… – comentou Luísa, olhando para o céu, fascinada pelas estrelas. – Parece um cenário de sonho.
– É mesmo – respondeu Milo, mas seus olhos estavam mais fixos nela do que no céu. Ele observava o jeito como a luz da lua tocava o rosto dela, destacando sua expressão serena e os traços delicados de seu rosto.
Por alguns minutos, eles ficaram em silêncio, apenas apreciando a vista e a tranquilidade da noite. Milo, que sempre fora confiante e determinado, agora se sentia nervoso, algo raro para ele. Estar sozinho com Luísa, depois de tantos momentos intensos nos treinos e na competição, fez com que ele percebesse algo que até então tentava ignorar.
Ele estava apaixonado por ela.
Era uma realização repentina, mas que fez total sentido. O escorpiano se deu conta de que, desde o início, havia algo diferente na conexão entre eles. Talvez fosse o jeito determinado de Luísa, sua força para superar as adversidades, ou a forma como ela nunca desistia, mesmo diante das maiores dificuldades. Ele havia tentado manter a relação estritamente profissional, mas naquele momento, debaixo da lua e das estrelas, Milo percebeu que seu coração estava envolvido muito além do que imaginava.
– Você parece pensativo – disse Luísa, quebrando o silêncio. Ela o olhou de lado, percebendo que algo se passava com ele.
Milo sorriu, um sorriso suave e ligeiramente nervoso, o que era incomum para ele.
– Estava pensando em como a vida gosta de pregar peças na gente, né? – a fala dele fez com que se voltasse totalmente pra ele – quem diria que depois daquela noite na boate, nossas vidas iriam se interligar desse modo.
– É verdade! – respondeu, ao passo que sua mente lembrava daquela noite e em como até então, vivia um momento de tristeza pelo término de um romance e depois disso, com tudo que vinha acontecendo, nem lembrava mais da tristeza e do traste do ex. – Quem diria que depois daquela noite você iria me treinar. Ainda bem que nossos amigos são testemunhas disso porque parece roteiro de filme – ela riu – se eu contar, ninguém vai acreditar.
Foi a vez dele concordar com a fala dela.
– Eu estou muito orgulhoso pelo que você fez hoje, Luísa.
– Obrigada, Milo. Você foi uma grande parte desse processo, sabia? Eu não teria conseguido sem a sua ajuda nos treinos e, claro, sem suas palavras de apoio.
O silêncio voltou a se instalar entre eles, mas desta vez havia uma tensão sutil no ar, algo não dito, mas que ambos sentiam. Milo respirou fundo, tentando encontrar as palavras certas.
– Luísa… – ele começou, com a voz baixa. – Eu nunca fui bom em dizer essas coisas, mas… desde que começamos a treinar juntos, desde que vi o quanto você se dedica e o quanto se importa com as pessoas ao seu redor… algo mudou em mim.
Ela o olhou, surpresa com o tom mais sério e profundo em sua voz.
– O que você quer dizer? – perguntou ela, o coração batendo mais rápido.
Milo hesitou por um momento, mas então olhou diretamente nos olhos dela, a lua iluminando seus rostos suavemente.
– Eu percebi que estou apaixonado por você, Luísa. – As palavras saíram sinceras e diretas, sem rodeios, como ele sempre foi. – Acho que venho sentindo isso há algum tempo, mas só agora percebi o quanto é forte.
O silêncio que se seguiu à confissão de Milo pairou no ar como uma névoa densa. Luísa sentia o coração acelerado, mas não de forma agradável como esperava. As palavras dele, tão sinceras e diretas, ecoavam em sua mente, mas junto com elas, vieram lembranças que ela tinha enterrado há algum tempo. Memórias de seu relacionamento passado começaram a invadir sua mente, trazendo à tona uma dor que ela pensava estar superada.
Ela olhou para Milo, tão perto e ao mesmo tempo distante. Ele parecia estar esperando uma resposta, mas a mente de Luísa estava em turbilhão. Sentia-se lisonjeada com a confissão; afinal, Milo era alguém especial, alguém que a entendia, a apoiava e que claramente se importava com ela. Mas, ao mesmo tempo, isso a fazia se sentir desconfortável. Milo era bonito, popular, e havia uma lista incontável de mulheres que se encantariam por ele com facilidade. Era impossível para ela não se lembrar disso.
De repente, uma insegurança tomou conta de seu coração. "Por que eu?", pensou. "Por que ele, com tantas outras opções, escolheria alguém como eu? Uma mulher que ainda carrega tantas cicatrizes, que mal conseguiu se reerguer depois de tudo que passou?"
Ela desviou o olhar, tentando disfarçar o aperto no peito. Lembrou-se de seu último relacionamento e de como havia se deixado envolver profundamente, apenas para ser magoada no final. Tinha prometido a si mesma que nunca mais passaria por isso. Nunca mais se deixaria vulnerável a ponto de ser destruída novamente.
– Luísa? – a voz de Milo quebrou o silêncio, suave, mas cheia de expectativa.
Ela respirou fundo e voltou a olhar para ele. Sua mente estava confusa, e a mistura de sentimentos era quase insuportável. Havia carinho por Milo, sem dúvida, mas havia também medo. Medo de se perder, de se machucar, de não ser o suficiente. E, no fundo, talvez ela estivesse projetando nele todas as dores que ainda não conseguira superar.
– Milo, eu... – começou, mas sua voz falhou. Ela precisava escolher as palavras com cuidado. Não queria magoá-lo, mas sabia que precisava ser honesta consigo mesma. – Eu não sei se consigo. Não agora.
Milo franziu o cenho, confuso, mas não a interrompeu. Ele esperava pacientemente, como sempre fazia.
– É que... tudo isso me pegou de surpresa – continuou ela, tentando organizar seus pensamentos. – E eu realmente me sinto lisonjeada. Você é uma pessoa incrível, Milo. E qualquer mulher teria sorte de ter alguém como você ao lado. Mas... eu não sei se consigo lidar com isso.
Ela mordeu o lábio, sentindo a confusão aumentar. As palavras fluíam, mas não expressavam completamente o que ela estava sentindo. Luísa olhou novamente para Milo, vendo o quanto ele era bonito, seguro de si, sempre tão confiante. Lembrou-se de todas as mulheres que, certamente, o desejavam e que poderiam estar ao lado dele sem tantas complicações, sem tantos medos. Aquilo a deixava insegura, sentindo-se inferior de alguma forma.
– Eu... – ela respirou fundo, sentindo um nó na garganta – eu não sou a pessoa que você imagina, Milo. Você me vê como alguém forte, determinada, mas... na verdade, eu estou cheia de dúvidas, cheia de inseguranças. Eu... já passei por coisas que me deixaram marcas, e... – Ela hesitou, lutando contra as lágrimas que começavam a surgir. – Eu simplesmente não sei se posso corresponder a algo assim, especialmente agora.
Milo a olhava com compreensão, mas ela podia ver que ele estava decepcionado. Não com ela, mas com a situação. Ele se aproximou um pouco mais, as mãos ainda próximas às dela, mas não tão perto a ponto de invadir seu espaço. Sua voz saiu calma e suave.
– Eu entendo, Luísa. Eu não quero te pressionar ou te fazer sentir de qualquer jeito que não seja confortável. Eu só precisava ser honesto sobre o que estou sentindo. Mas, se isso te machuca ou te traz mais dúvidas, eu prefiro que sejamos francos um com o outro.
Ela balançou a cabeça, sentindo um misto de alívio e tristeza. Alívio por ele ter sido tão compreensivo, mas tristeza por não ser capaz de corresponder àquele sentimento agora. O que mais a preocupava era que talvez ela nunca pudesse.
– É mais complicado do que parece, Milo. Eu preciso de tempo, preciso entender tudo o que está acontecendo dentro de mim. E... – ela fez uma pausa, encarando o chão para evitar o olhar dele – eu não quero te machucar, nem me machucar de novo. Já passei por isso antes, e não sei se conseguiria lidar com outro término, outro coração partido.
Milo suspirou, dessa vez com um olhar mais triste. Ele não queria pressioná-la, mas era claro que estava frustrado. Mesmo assim, a voz dele permaneceu suave e reconfortante.
– Eu entendo, Luísa. De verdade. Se você precisa de tempo, vou respeitar isso. A última coisa que quero é te forçar a algo que te traga mais inseguranças.
Ela sorriu tristemente, sentindo o peso da rejeição que acabara de dar. Não era exatamente o que queria, mas era o que precisava naquele momento. A confusão em seu coração não permitiria que ela entrasse em algo novo sem resolver os fantasmas do passado.
– Obrigada por entender – respondeu ela, finalmente.
Os dois ficaram em silêncio, ainda sob a luz suave da lua. Era um momento melancólico, mas de certo modo, necessário. Luísa sabia que, por mais que admirasse Milo, ela ainda não estava pronta para abrir seu coração novamente. Havia feridas que precisavam ser curadas, e, acima de tudo, havia um caminho de autoconhecimento que ela ainda precisava trilhar antes de dar um novo passo em direção ao amor.
Milo, embora desapontado, aceitou a decisão dela. Ele sabia que o tempo poderia curar as inseguranças de Luísa, e se o destino os aproximasse novamente no futuro, ele estaria pronto. Por ora, ele apenas desejava vê-la feliz e em paz consigo mesma.
Enquanto a noite avançava, Luísa voltou para o quarto com o coração apertado, mas também com a sensação de que havia tomado a decisão certa. Talvez, no futuro, ela estivesse pronta para algo mais. Mas, por enquanto, precisava focar em si mesma, em seu crescimento e em deixar o passado para trás.
