Dois dias se passaram desde a competição na Itália e o jantar de comemoração. O calor e a paisagem da Grécia acolheram Luísa e suas amigas de volta, trazendo com eles o ritmo tranquilo da vida cotidiana. O burburinho das ruas antigas, o cheiro do mar, e a familiaridade do campus da universidade ajudavam a restaurar a normalidade que tanto precisavam após os intensos momentos que viveram.

Luísa caminhava pelos corredores, agora em um ritmo mais calmo, cercada por Hina, Érika, Koga e Calisto. As aulas tinham voltado, e a rotina de estudos ocupava novamente seus dias. A medalha de prata que conquistara na competição ainda era motivo de orgulho, mas a agitação inicial havia passado. Agora, ela estava focada no futuro, em continuar crescendo como atleta, deixando para trás a confusão emocional que sentira nos últimos dias.

— Eu ainda não acredito que você trouxe uma medalha da sua primeira competição oficial — comentou Hina, sorrindo enquanto ajustava a mochila no ombro. — Já posso imaginar quando for a próxima... vai trazer o ouro dessa vez, hein!

– Exatamente – concordou Érika, piscando para a amiga. – E nós estaremos lá novamente para te apoiar, como sempre!

Luísa sorriu, ainda sentindo o calor da amizade delas. As palavras de incentivo ajudavam a afastar os pensamentos nebulosos que, vez ou outra, tentavam reaparecer. Ela estava grata por ter amigas que a apoiavam tanto, especialmente em momentos difíceis. No entanto, ainda não havia falado com ninguém sobre o que aconteceu entre ela e Milo na sacada naquela noite.

Enquanto o grupo caminhava em direção ao prédio principal para mais uma aula, Luísa deixou-se perder por um momento nas lembranças dos últimos dias. As emoções intensas da competição, o momento de confusão com Milo e, claro, o retorno à Grécia, tudo parecia ter acontecido tão rápido. Era como se tivesse sido jogada em um redemoinho de sentimentos e, finalmente, estivesse encontrando o equilíbrio novamente.

– Ei, Terra chamando Luísa! – chamou Calisto, estalando os dedos na frente do rosto da amiga, rindo. – Você está com essa cara de quem está em outro planeta faz uns bons minutos. Algum segredo para compartilhar?

– Hã? – Luísa riu, tentando disfarçar o leve constrangimento. – Desculpa, estava só... pensando na vida.

– Algo te incomodando? – perguntou Koga, com uma expressão de preocupação. – Sabe que pode falar com a gente sobre qualquer coisa, né?

Luísa hesitou por um segundo, mas então balançou a cabeça, afastando o pensamento.

– Não é nada demais.

As amigas continuaram caminhando, conversando sobre as provas que precisariam fazer na semana seguinte.

Luísa, no entanto, não podia negar que, de tempos em tempos, seus pensamentos voltavam a Milo. Desde aquela noite, não haviam se falado com a mesma frequência. O escorpiano parecia respeitar o espaço que ela pedira.

Ela sabia que, eventualmente, precisaria confrontar o que sentia. Milo era alguém que tinha entrado em sua vida de maneira inesperada e que, de certa forma, havia deixado uma marca. Mas, por ora, preferia focar em si mesma, nos seus estudos, nas suas amizades, e nos seus objetivos. Precisava de tempo para curar as feridas antigas antes de abrir espaço para algo novo.

– Bom, hora da aula – anunciou Hina, se dirigindo até uma das salas.

As outras meninas fizeram a mesma coisa, cada uma se dirigindo até suas respectivas salas.

Érika chegou até sua sala e sentou-se no lugar que sempre costumava ficar. Pouco depois, ela viu Aiolos entrar. Ele caminhava com sua postura calma e segura, procurando um assento. Quando seus olhos encontraram os de Érika, ele acenou com um leve sorriso e, para a surpresa dela, decidiu sentar-se ao seu lado.

Conforme a aula seguia, Érika tentou manter o foco, mas a presença de Aiolos ao seu lado a deixava um pouco distraída. Ela precisava falar com ele sobre o trabalho que tinham que entregar, mas o contexto da aula não parecia ideal para uma conversa. Mesmo assim, ao final de um dos intervalos de explicação do professor, ela resolveu aproveitar o momento.

– Aiolos... – começou ela, virando-se levemente para ele. – Você teria um tempinho depois da aula? Precisamos conversar sobre aquele trabalho que temos que entregar.

Aiolos, que estava concentrado no que o professor dizia, virou-se para ela com um sorriso compreensivo.

– Ah, claro. Podemos conversar depois, sim. Eu estava pensando nisso também – ele respondeu, com sua voz tranquila.

— Isso seria ótimo! — disse Érika.

O breve diálogo foi interrompido quando o professor retomou a explicação, Érika tentava manter a concentração, mas sua mente vagava involuntariamente para Aiolos. Sentado ao seu lado, ele copiava as anotações no caderno com calma, totalmente focado no que fazia. A seriedade e responsabilidade dele sempre chamavam sua atenção. Ele era o tipo de pessoa que transmitia segurança em cada gesto e palavra, sempre disposto a ajudar os outros e manter a calma em qualquer situação.

Além disso, Érika não podia negar o quanto Aiolos era atraente. Sua postura impecável, os traços fortes e o olhar determinado faziam dele um homem muito atraente. O cabelo castanho-escuro, que caía suavemente sobre os ombros, e aquele sorriso gentil que parecia surgir nos momentos mais inesperados, faziam com que ele fosse ainda mais charmoso. E então havia sua voz – grave, serena, sempre transmitindo uma confiança que a deixava quase hipnotizada quando ele falava.

Ela também se deu conta que ele era alguém com quem se podia contar, sempre disposto a dar apoio.

Perdida em pensamentos, Érika percebeu que seu coração acelerava ao lembrar de alguns momentos em que Aiolos havia sido gentil com ela. Como nas vezes que ele passava horas ao seu lado, explicando os conteúdos que tinha dificuldade, sem nunca demonstrar impaciência.

Sem perceber, uma leve cor começou a subir por seu rosto. "Ele é mesmo incrível..." pensou, e quanto mais se dava conta disso, mais seu rosto esquentava. Seu coração batia mais forte ao lembrar-se do quanto Aiolos era carismático, mesmo sem se esforçar para isso. A maneira como ele a olhava, mesmo que de forma casual, parecia sempre carregar algo de especial, algo que ela não conseguia exatamente descrever.

Ao notar o próprio rubor, Érika desviou o olhar para o caderno, tentando voltar à realidade da aula. Sentia-se um pouco boba por deixar os pensamentos sobre Aiolos tomarem conta daquele jeito, mas era inevitável. Ele era, de fato, tudo o que qualquer pessoa admiraria – sério, responsável, atencioso... e bonito, claro.

"Calma, Érika. Foque na aula," ela disse a si mesma em pensamento, mordendo de leve o lábio para evitar que o rubor aumentasse ainda mais. Mas, mesmo assim, o sorriso tímido não deixava seu rosto enquanto ela continuava escrevendo, sentindo uma mistura de timidez e admiração florescendo em seu peito.

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Kanon e Koga estavam sentados em uma das mesas no pátio da academia, aproveitando o intervalo para fazer um lanche. O ambiente era descontraído, e os dois conversavam casualmente sobre as aulas. Entre uma mordida e outra no sanduíche que havia comprado, Kanon soltou um elogio distraído.

– Esse lanche aqui está realmente ótimo – disse ele, mastigando com satisfação. – Faz tempo que não como algo tão bom assim.

A virginiana, que estava do outro lado da mesa, ergueu uma sobrancelha ao ouvir o comentário. Ela estava mordendo um pedaço de fruta e, por um segundo, seu olhar se estreitou, como se algo a incomodasse no elogio que ele fez.

– É mesmo? – disse ela, em um tom um pouco mais seco do que o habitual.

Kanon não notou de imediato o tom dela e continuou comendo, completamente alheio ao desconforto que acabara de causar.

– Sim, é realmente bom. O tempero, o ponto da carne... Tudo perfeito – ele acrescentou, sem perceber que Koga começava a ficar levemente irritada.

Ela então largou a fruta na mesa e cruzou os braços, encarando Kanon com um olhar firme.

– É porque você ainda não provou o que eu faço – disparou, sem esconder a leve irritação na voz.

O geminiano, finalmente percebendo o tom, olhou para ela com surpresa. Ele não esperava essa reação e levou um segundo para processar o que estava acontecendo.

– O quê? – perguntou ele, um pouco confuso.

– Eu disse que você ainda não provou o que eu faço. Aí sim você vai entender o que é um lanche de verdade – respondeu Koga, agora com um meio sorriso provocador, mas ainda com aquele toque de desafio no olhar.

Kanon piscou algumas vezes, assimilando o que ela disse. E então, ele riu, se dando conta de que havia pisado em um território delicado sem querer.

– Ah, então é isso? Você acha que consegue superar esse lanche? – perguntou ele, entrando no jogo e arqueando as sobrancelhas com interesse.

Koga inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos na mesa.

– Tenho certeza – afirmou ela, confiante. – Se eu fizer um lanche pra você, vai esquecer completamente esse aí.

Kanon sorriu, claramente se divertindo com a situação.

– Ok, ok. Desafio aceito – disse ele, com o olhar divertido. – Mas não se ofenda se eu continuar gostando desse lanche também, hein?

– Vamos ver — respondeu Koga, com um olhar determinado. – Quando eu fizer um lanche, você vai mudar de opinião.

A tensão leve que se formara entre eles logo se dissolveu em um clima de brincadeira, e Koga relaxou um pouco, satisfeita por ter colocado Kanon em seu lugar, mesmo que de maneira descontraída. Kanon, por outro lado, estava curioso para saber se Koga realmente era tão boa na cozinha quanto ela estava insinuando.

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Calisto aproveitava o intervalo em um jardim mais afastado. Era um lugar tranquilo, cercado de árvores e flores, perfeito para quem queria um momento de paz entre as aulas. Ela estava sentada em um banco de pedra, apreciando a brisa suave e folheando um livro de anotações. À sua volta, o som das folhas balançando ao vento criava uma atmosfera quase mágica.

De repente, sentiu uma presença familiar se aproximando. Antes mesmo de olhar, já sabia quem era. Máscara da Morte tinha uma maneira de chegar sem fazer barulho, como se fizesse parte do ambiente ao seu redor. Ele se aproximou com um sorriso característico no rosto, aquele ar brincalhão que ela já conhecia tão bem.

– Achei que ia te encontrar aqui – disse ele, parando à sua frente.

Calisto ergueu os olhos, uma expressão de surpresa suave no rosto, embora no fundo já soubesse que ele apareceria.

– E como você sabia? – perguntou ela, com uma leve provocação na voz.

– Tenho meus segredos – respondeu ele, inclinando-se um pouco, como se fosse compartilhar algo conspiratório.

Ela riu, balançando a cabeça. Havia algo na maneira descontraída de Máscara da Morte que sempre a fazia relaxar, mesmo quando ele parecia estar brincando o tempo todo. Ele se sentou ao lado dela no banco, suas pernas quase se tocando, e por um momento ambos ficaram em silêncio, apenas aproveitando a presença um do outro.

– Gostei desse lugar – comentou ele, olhando ao redor. – Bem... tranquilo.

– É um dos meus favoritos – respondeu Calisto, agora com um sorriso suave. – Gosto de vir aqui quando preciso de um tempo longe de tudo.

– E eu estou atrapalhando sua paz? – perguntou ele, a voz mais baixa, mas ainda carregando aquele toque de brincadeira.

Calisto olhou para ele, um sorriso brincando em seus lábios.

– Talvez um pouco — disse ela, em tom provocativo. – Mas acho que posso abrir uma exceção.

Ele soltou uma risada baixa e então, inesperadamente, pegou a mão dela com uma suavidade que ela não esperava, entrelaçando os dedos aos seus. O gesto era simples, mas o calor da mão dele na dela a fez sentir um conforto estranho, um tipo de segurança que não sabia que precisava.

– Eu não sou muito de ficar parado, mas... com você, parece que o tempo desacelera – ele murmurou, olhando para o horizonte, mas claramente falando com ela.

Máscara da Morte olhou para ela com um brilho nos olhos, como se estivesse estudando cada expressão dela.

Calisto sentiu seu coração acelerar com aquelas palavras, inesperadamente doces. Ela olhou para o céu por um momento, sentindo o calor do sol em seu rosto e o conforto da companhia ao seu lado.

– Você pode ficar aqui o tempo que quiser – disse ela, baixinho, apertando levemente a mão dele.

Ele se inclinou um pouco mais para perto dela, tão próximo que ela pôde sentir a respiração dele, suave e constante. E, de forma natural, ele a puxou delicadamente para mais perto de si, como se fosse a coisa mais simples do mundo. Calisto encostou a cabeça no ombro dele, deixando-se relaxar.

– E você ainda diz que atrapalha minha paz... – murmurou ela, com um sorriso no rosto.

– Talvez eu esteja trazendo um tipo diferente de paz – ele sussurrou de volta, um sorriso em seus lábios.

Os dois ficaram ali, apenas aproveitando o momento, em um dos cantos mais tranquilos da universidade, onde o mundo parecia ter parado apenas para eles.

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Luisa, Hina, Calisto e Koga estavam reunidas perto do portão principal da academia, aguardando por Érika para que pudessem finalmente ir embora. O dia de aulas havia sido longo, e todas estavam ansiosas para chegar em casa e descansar. Hina, com a mochila pendurada em um ombro, olhava para o relógio pela terceira vez, enquanto Koga cruzava os braços, visivelmente impaciente.

– Onde será que ela está? – perguntou Hina, franzindo a testa. – Já passou um bom tempo desde que a aula terminou.

Luisa estava encostada em uma das colunas próximas ao portão, observando o movimento ao redor, mas sem mostrar tanta impaciência quanto as amigas.

– Ela deve estar conversando com alguém – disse Luisa com um leve sorriso. – Talvez Aiolos?

Koga, que estava sentada em um degrau próximo, deu de ombros.

– Se for isso, aposto que ela vai chegar toda corada – provocou Koga, fazendo Hina soltar uma risada.

– Eu não duvido – concordou Calisto, brincando.

Foi então que Érika apareceu correndo pelo corredor em direção ao grupo. Ela estava com a respiração um pouco ofegante, claramente apressada, e assim que chegou perto delas, soltou um suspiro cansado.

– Desculpem a demora, meninas – disse ela, ainda recuperando o fôlego. – Estava conversando com Aiolos sobre o trabalho que a gente precisa entregar. Não vi o tempo passar.

As quatro a olharam com um sorriso cúmplice, trocando olhares.

– Conversando com Aiolos, hein? – disse Koga, com uma leve malícia no tom. – E como foi? Esclareceram tudo sobre o trabalho... ou falaram sobre mais alguma coisa?

Érika imediatamente corou, assim como Koga havia previsto. Ela olhou para o lado, tentando disfarçar o rubor que subia em suas bochechas.

– A gente só falou do trabalho! – respondeu Érika, um pouco defensiva, mas com um sorriso tímido no rosto. – Ele é bem sério, vocês sabem.

Hina deu uma risadinha e passou o braço ao redor dos ombros de Érika.

– A gente sabe, sim. Mas dá para ver que você ficou um pouquinho nervosa.

Érika suspirou, mas acabou rindo junto com as amigas.

– Talvez um pouco – admitiu ela, enquanto ainda tentava não corar mais. – Aiolos é tão... centrado e focado. É difícil não ficar um pouco intimidada. Além de todo o resto, claro.

– Eu diria que ele é muito mais que só centrado – comentou Luisa com um sorriso de canto, tentando não rir ao ver a expressão de Érika.

– Eu também – completou Calisto. – Mas o importante é que você conseguiu resolver o trabalho, né?

Érika assentiu, ainda com um leve sorriso tímido.

– Sim, resolvemos. E agora podemos ir para casa – disse ela, mudando o foco da conversa.

Elas se despediram da academia, finalmente seguindo o caminho de volta para casa, enquanto Érika tentava ao máximo evitar mais provocações das amigas sobre Aiolos. Mesmo com as brincadeiras, o clima entre elas era leve e divertido, como sempre.