Como as brasileiras moravam no mesmo prédio, porém em apartamentos diferentes, elas decidiram que, a cada noite e aos finais de semana, as refeições seriam feitas na casa de uma delas.

Naquela noite, o jantar seria no apartamento de Luísa. Após um dia de estudos e atividades, Koga, Hina, Calisto e Érika chegaram, animadas para o jantar e as conversas que sempre acompanhavam essas noites. Mas, ao entrarem, ficaram surpresas ao verem Luísa sentada no sofá com os olhos marejados, limpando as lágrimas discretamente.

Preocupadas, as amigas se aproximaram. Érika foi a primeira a perguntar:

– Lu, o que aconteceu? Está tudo bem?

Luísa suspirou, forçando um sorriso trêmulo. Fez sinal para que se sentassem ao seu redor e começou a explicar:

– Eu estava falando com meus pais agora há pouco... Eles me ligaram para me parabenizar pela medalha e estavam tão felizes, tão orgulhosos. – Sua voz falhou por um instante, mas ela continuou. – Mas isso me lembrou de casa, de tudo o que deixamos para trás. Já faz três anos que viemos para a Grécia e, desde então, não voltamos ao Brasil nem uma vez.

As palavras de Luísa pareciam ecoar no coração das outras, que se entreolharam, agora visivelmente emocionadas. Calisto, sentindo as lágrimas se formarem, sussurrou:

– Nossa... eu também estou sentindo tanta falta de casa.

Hina enxugou uma lágrima que desceu rapidamente pela bochecha e murmurou:

– Às vezes me pergunto como todos estão lá, se as coisas mudaram... parece que deixamos uma parte de nós no Brasil.

Koga, geralmente mais reservada, respirou fundo, tentando disfarçar o quanto aquilo mexia com ela.

– Sabe, às vezes eu finjo que não sinto tanta falta, mas é só olhar as fotos da família que tudo volta com força. É duro estar longe.

Érika colocou uma mão no ombro de Luísa, a outra pegando a mão de Calisto.

– Acho que todas nós sentimos o mesmo, meninas. É muito difícil estar longe de quem amamos, de tudo o que conhecemos.

Luísa olhou para cada uma delas e, apesar da tristeza, encontrou um conforto profundo. Sabia que aquelas amigas estavam passando pelas mesmas emoções, as mesmas saudades, o mesmo desafio de estarem tão longe.

Depois de alguns momentos de silêncio emocionado, Hina sorriu entre lágrimas e disse:

– Mas, pelo menos, temos umas às outras. Isso também conta muito.

Calisto assentiu, abraçando Luísa e Koga ao mesmo tempo, como se tentasse incluir todas num abraço apertado.

– É verdade. Talvez não possamos voltar para casa agora, mas... vamos fazer desse lugar um lar, juntas.

Aquelas palavras trouxeram um novo ânimo, e elas foram até a cozinha preparar o jantar juntas, enchendo o apartamento de risos.

Enquanto preparavam o jantar, Érika trocou um olhar significativo com Hina, Calisto e Koga. As três pareciam hesitar, até que, finalmente, Érika resolveu quebrar o silêncio:

– Luísa, tem uma coisa que a gente precisa contar para você...

Ela, sem entender, olhou para as amigas, que pareciam um pouco nervosas.

– Contar o quê? Vocês estão me deixando preocupada!

Hina deu um passo à frente e sorriu, tentando aliviar a tensão.

– Sabe aquele dinheiro que estávamos juntando para voltar ao Brasil? Então... nós mexemos nele para cobrir as despesas do Mundial. Usamos para as passagens e hospedagem.

– Desculpa por não ter falado antes... mas iria estragar a surpresa – disse Koga enquanto cortava o tomate para a salada.

– Vocês não precisam se desculpar – respondeu a escorpiana, enquanto verificava o arroz. – Esse dinheiro é de vocês também.

– Mas nós estávamos juntando para podermos abrir nosso próprio negócio também, né? – comentou Calisto.

– Falando nisso, ainda não decidimos que tipo de empresa abriremos por aqui – lembrou Érika, enquanto pegava os pratos no armário.

Então, as meninas começaram a discutir sobre o assunto. Koga gostaria que fosse um restaurante, Hina achava que deveria ser um pet shop, Calisto pensou em uma loja de roupas, Érika em uma papelaria e Luísa em uma pastelaria.

Elas ficaram discutindo por mais algum tempo enquanto preparavam o jantar e, quando deram por si, já estava tudo pronto e se sentaram à mesa para aproveitar a deliciosa refeição, que tinha arroz, feijão, salada e carne de panela com batatas, bem ao estilo brasileiro.

As amigas jantaram em silêncio até que Koga sugeriu que poderiam aproveitar as férias da faculdade para visitarem suas famílias.

– Mas, antes, precisamos decidir que empresa vamos abrir – lembrou Luísa. – Como cada uma deu uma ideia diferente, acho melhor fazermos uma votação.

Hina foi até a sala, pegou um caderno, anotou as opções disponíveis e a votação começou.

A futura veterinária manteve sua sugestão do pet shop. Calisto manteve sua sugestão de uma boutique.

Porém, Koga e Luísa optaram pelo restaurante, o que fez com que Érika mudasse de ideia e concordasse com as outras duas pelo restaurante também.

– Ok, vamos abrir um restaurante. Mas que tipo de comida serviremos? Quem vai cozinhar? – perguntou Calisto.

– Eu posso cozinhar! – respondeu Koga.

– Tudo bem, amiga, sabemos que você é uma cozinheira de mão cheia, mas você não pode fazer tudo sozinha, né? Vai precisar de ajuda – explicou Érika.

– Nós a ajudaremos. Uma a auxilia na cozinha, duas ajudam a servir as mesas e anotar os pedidos e outra fica no caixa – disse Luísa.

– Mesmo que todas nós a ajudemos, ainda vai ficar bem puxado. Koga, lembra que você também tinha pensado em uma casa de bolos caseiros ou confeitaria? – lembrou Hina.

Koga pensou um pouco, procurando em suas lembranças em que momento tinha sugerido aquilo, até que se lembrou.

– Realmente, pensando melhor, acho que deveríamos abrir uma confeitaria com uma casa de bolos caseiros. Pelo que observei, aqui no bairro onde moramos não vi nenhuma loja dessas.

– Acho uma ótima ideia! – concordou Luísa. – E vocês, meninas, o que acham?

As outras garotas olharam para a escorpiana e sorriram, concordando com a sugestão.

– Precisamos pensar em um nome para a nossa empresa agora. Depois, veremos a parte burocrática de local, fornecedores e outros detalhes – disse Érika.

– Que tal Ki-Doçura, com o slogan "Doces feitos com amor e jeitinho brasileiro!"? – sugeriu Koga.

– Eu ameiiiiii! – disse Calisto com empolgação.

– Nós também gostamos muito! – disseram as outras três garotas.

Após decidirem sobre o nome e a empresa que abririam juntas, as cinco amigas cuidaram da limpeza da cozinha e se reuniram na sala para começarem a pensar nos doces que venderiam, como seria a decoração do local e tudo o mais.

Porém, elas haviam se esquecido de um detalhe: o dinheiro para investir nesse sonho. Lembraram que haviam usado o dinheiro para ir assistir à competição de Luísa na Itália, e o desânimo bateu.

Todavia, Luísa ainda tinha uma surpresa para contar para elas.

– Gurias, eu ainda não contei para vocês, mas nós temos o dinheiro.

– Temos? – perguntaram as quatro ao mesmo tempo.

– Sim! Eu recebi uma ligação do COB e vou ganhar uma premiação por causa da conquista da minha medalha – disse a escorpiana, animada. – E não é pouco, são 200 mil reais.

– Mas, Lu, esse dinheiro é seu! Você precisa dele para poder ajudar sua família! Eu e as meninas podemos trabalhar e juntar tudo de novo – disse Érika.

– Sim, amiga, eu e a Érika, por exemplo, podemos nos apresentar nos bares e restaurantes da cidade e ir juntando o que ganharmos – falou Calisto.

– Eu posso fazer hora extra no pet shop para ajudar também – disse Hina.

– E eu posso fazer doces e sanduíches para vender na faculdade – concluiu Koga.

– Meninas, esse dinheiro não é só meu, ele é nosso. Vocês também são a minha família, são como irmãs para mim. Sempre estão comigo em todos os momentos. Então, o sonho é nosso! – concluiu Luísa.

– Também amamos você, Lu! – disseram as meninas em uníssono.

– Mesmo assim, ainda faremos uns extras para podermos juntar mais e realizar esse sonho! – sentenciou Érika, que recebeu um olhar de apoio e concordância das outras.

– Ainda assim, meninas, não é necessário fazer isso; vocês podem repor esse valor utilizado depois que abrirmos a confeitaria – explicou a escorpiana. – Fora que temos que pensar na possibilidade de contratar pessoas para trabalhar, pois estaremos na faculdade durante o dia.

— Tem isso também. Por isso, pensamos que esse dinheiro extra que juntarmos seria de grande ajuda — sugeriu Koga. — Mas vamos por partes.

As cinco amigas se uniram num abraço carinhoso e depois retomaram o planejamento da empresa.

Foi então que Luísa lembrou que, no bairro delas, havia um ponto comercial para alugar. Elas combinaram de ir até lá no dia seguinte, após a aula, para dar uma olhada.

Depois de planejarem os primeiros passos para o negócio, as meninas começaram a conversar sobre a faculdade e o que fariam no fim de semana.

Hina contou que Shion a havia convidado para fazer trabalho voluntário num abrigo de animais que ele frequenta. Koga disse que iria ao mercado comprar ingredientes para fazer um sanduíche especial para Kanon, pois estava disposta a provar ao geminiano que seu lanche era melhor. Luísa planejava correr pelo parque e depois fazer compras no centro da cidade. Calisto mencionou que Máscara da Morte — ou melhor, Enzo — a convidara para almoçar numa nova cantina que abriu no centro.

Foi então que as amigas se viraram para Érika e perguntaram sobre os planos dela para o fim de semana.

A canceriana disse que iria para sua aula de música pela manhã, revisaria os últimos detalhes de sua parte do trabalho e depois se encontraria com Aiolos para pegar a parte dele e finalizarem juntos.

As quatro amigas trocaram um sorriso cúmplice e olharam para a violinista que, como sempre, começou a corar de timidez.

— E podemos saber onde a senhorita vai concluir o trabalho com o belo rapaz, hein? — perguntou Koga.

— Ora… eu… eu e ele vamos nos encontrar numa cafeteria perto da faculdade! Parem de me olhar com essas caras, por favor! Não é nada demais! É só um trabalho! — respondeu Érika na defensiva.

— Claro, amiga! Sabemos que é só um trabalho. Mas, mesmo assim, vamos te ajudar a escolher um modelito adequado para essa reunião, tá? — disse Calisto.

— Ai, vocês não têm jeito, né? Só pensam bobagem! Ele é só um colega de classe, só isso — insistiu Érika.

— Mas ele é um colega de classe bonitão, né, amiga? Um pedaço de mau caminho. A gente viu como as meninas da faculdade olham para ele, tá? — comentou Hina. — E eu também reparei no jeito que ele olha para você e posso dizer que ele não a vê só como uma colega de faculdade, não. Até o Shion já percebeu.

Érika ficou em silêncio com o comentário da amiga e, pensativa, perguntou-se: "Será? Não, não pode ser. Ele jamais olharia para mim dessa forma. Somos apenas colegas." Desviou esse pensamento e voltou ao assunto com as amigas, reafirmando que o encontro era apenas para finalizar o trabalho, pois a apresentação seria na semana seguinte e a nota era muito importante.

Depois, as amigas conversaram por mais um tempo sobre outros assuntos, se despediram e cada uma foi para a sua casa.

Alheio a tudo isso, Aiolos e seus amigos estavam se preparando para mais um show. Desta vez, seria uma despedida de solteira. Os rapazes aproveitaram o restante da tarde para ensaiar a nova coreografia e ajustar os detalhes de figurino e música, para que tudo saísse perfeito, como sempre.

Enquanto se arrumavam, os rapazes conversavam sobre seus planos para o fim de semana.

Shion mencionou o trabalho no abrigo ao lado de Hina, Máscara da Morte falou sobre o encontro com Calisto, Kanon sobre o encontro com Koga para experimentar o sanduíche que ela faria para ele, Milo comentou que ia dar uma volta no centro da cidade e Aiolos mencionou que se encontraria com Érika para concluir o trabalho da faculdade.

Shura, curioso como sempre, não deixou passar nada e perguntou aos amigos:

— E vocês dois? Quando vão convidar as chicas de vocês para sair, hein? Os outros três lá já se deram bem!

— Cuida da tua vida, cabrito! A Érika é só uma colega de faculdade. Estamos apenas fazendo um trabalho juntos, nada mais! — respondeu Aiolos, um pouco aborrecido.

— Mas eu vi o jeito que você olha para ela, tá? E não é como colega, não! — retrucou Shura, desviando de uma peça de roupa arremessada pelo sagitariano.

— Respondendo à sua pergunta, cabrito fofoqueiro, estou indo com calma com a Luísa, mas tentarei conversar com ela novamente e convidá-la para sair — respondeu o escorpiano.

Meia hora depois, os rapazes escutaram a movimentação no salão da boate, onde as convidadas já estavam se acomodando para aguardar o show.

Em seguida, eles tomaram posição em seus lugares e, minutos depois, as cortinas se abriram e a música tomou conta do ambiente, dando início a mais uma apresentação.