Após acertarem o horário com o corretor, Luísa, Hina, Koga, Calisto e Érika foram até o ponto comercial que haviam mencionado. Era uma construção simples, mas bem localizada no bairro. Ao entrarem, perceberam que o espaço tinha uma sala principal maior, uma sala menor, e um banheiro funcional, embora precisasse de alguns ajustes.
As cinco amigas exploraram o local com cuidado. Luísa analisava o espaço pensando na decoração, enquanto Hina media mentalmente a área disponível. Koga testava as portas e janelas, Calisto verificava o banheiro, e Érika já imaginava como poderiam otimizar o espaço para atrair mais clientes.
— Não é muito grande, mas acho que dá para fazer funcionar — disse Luísa, após terminar de examinar a sala maior.
— É verdade. E o tamanho é bom o suficiente para começarmos. Não dá para exigir algo perfeito logo de início — concordou Hina, olhando ao redor.
— Acho que a sala principal pode ser usada para colocar alguns balcões onde ficariam os produtos. Também dá para colocar umas mesas e cadeiras para os clientes que preferirem comer aqui — sugeriu Koga.
— Boa ideia! Na sala menor, podemos montar a cozinha, já que não precisa ser um espaço muito grande para preparar os lanches e sobremesas — completou Calisto, animada.
— E com uma boa pintura e algumas decorações simples, o espaço vai ficar bem acolhedor — disse Érika, sorrindo ao imaginar o lugar pronto.
Depois de conversarem por alguns minutos e tirarem fotos para referência, elas agradeceram ao corretor, explicando que dariam uma resposta em alguns dias. No fundo, já estavam quase decididas, mas queriam pensar um pouco mais sobre a logística.
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Mais tarde, já no apartamento de Koga, onde seria o jantar daquela noite, o assunto voltou à sala comercial.
— Não é muito grande, mas acho que dá para começarmos bem. É um lugar com potencial — repetiu Luísa, enquanto colocava os pratos na mesa.
— Concordo. E a localização é ótima. Dá para atrair um bom público da região e até de outros bairros — disse Hina, servindo as bebidas.
— O mais importante é que temos espaço para fazer algo funcional e organizado. Com os balcões e as mesas na sala principal, vai ficar perfeito para atender quem quiser comer no local. A sala menor serve direitinho como cozinha — reforçou Koga, enquanto ajustava os talheres.
— Sim, e a gente pode personalizar tudo com a nossa cara. Vai ficar incrível! — comentou Calisto, já empolgada com as ideias de decoração.
— Então... vamos fazer isso? Alugar o ponto? — perguntou Érika, um pouco hesitante, mas com os olhos brilhando de entusiasmo.
As quatro olharam umas para as outras, compartilhando um sorriso cúmplice.
— Vamos alugar! — responderam juntas, decididas.
A partir daquele momento, elas sabiam que tinham dado o primeiro passo para tornar o sonho delas realidade. O jantar daquela noite foi repleto de planos e risadas.
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O restante da semana transcorreu normalmente, e finalmente o sábado chegou. Pela manhã, Hina foi a primeira a se encontrar com o namorado. Shion havia a convidado para visitar a ONG de uma amiga, Mariana, que ele costumava ajudar. Sempre que possível, o ariano dedicava parte de seu tempo para atender os animais do abrigo, realizando pequenos tratamentos no local e encaminhando os casos mais graves ao hospital veterinário da Universidade. Além disso, ele participava regularmente de mutirões de castração, algo que admirava profundamente.
Quando chegaram ao abrigo, Hina ficou imediatamente encantada. Havia cães e gatos de todos os tamanhos, pelagens e idades. Alguns dos mais extrovertidos vieram recepcioná-los alegremente, abanando os rabos ou ronronando enquanto se esfregavam em suas pernas. Outros, mais tímidos ou assustados, permaneceram observando de longe, mas com olhares curiosos.
— Parece que você fez amigos novos, Hina — comentou Shion, sorrindo ao ver um gatinho preto tentando subir no colo dela.
— Eles são adoráveis! — respondeu ela, já se abaixando para acariciar o pequeno invasor.
Mariana, uma mulher gentil de olhos claros e cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo, se aproximou com um sorriso caloroso.
— Que bom que vocês vieram! Precisamos de ajuda com alguns dos nossos moradores na sala de enfermaria. Vou levá-los até lá.
Eles seguiram Mariana até uma sala modesta, mas organizada, que funcionava como uma pequena enfermaria. Lá, havia alguns gatos em gaiolas e cães em colchonetes, sendo monitorados após tratamentos recentes.
— Estes são os que precisam de mais cuidados no momento. Um dos cães teve uma infecção grave e está se recuperando, e temos dois gatinhos com problemas respiratórios que começaram a ser tratados há poucos dias.
Shion e Hina se prepararam para começar o trabalho. Shion colocou suas luvas e organizou os instrumentos, enquanto Hina o assistia e pegava os itens que ele precisava.
— Você realmente tem um talento para isso — comentou a aquariana, enquanto observava Shion examinar cuidadosamente um cãozinho com as patas enfaixadas.
— Eu faço o que posso. Eles só precisam de alguém que se importe, sabe? — respondeu ele, com um tom carinhoso, enquanto fazia carinho no cachorro que abanava o rabo, mesmo machucado.
Hina, por sua vez, pegou um dos gatinhos que espirrava levemente. Com a orientação do namorado, verificou sua temperatura e tentou deixá-lo mais confortável, falando com ele em um tom suave.
— Você está indo muito bem — disse Shion, olhando para ela com admiração.
— Acho que estou aprendendo com o melhor professor — respondeu ela, sorrindo, enquanto acariciava o gatinho, que agora ronronava baixinho.
O tempo passou rapidamente enquanto ambos se dedicavam aos animais. Mariana voltou mais tarde, trazendo lanches e agradecendo pela ajuda.
— Vocês dois são incríveis. Esses bichinhos têm muita sorte por terem encontrado pessoas como vocês.
Hina sentiu o coração aquecer com aquelas palavras, enquanto Shion apenas sorriu de forma humilde, sem tirar os olhos do trabalho. Para ela, aquele era um dos momentos mais significativos que já haviam compartilhado juntos. Ela amava ver o cuidado e a paixão que ele dedicava àqueles pequenos seres que precisavam tanto de ajuda.
Após deixarem a ONG, Shion sugeriu a Hina que almoçassem em um restaurante simples que ficava ali perto.
— É um lugar pequeno, mas a comida é deliciosa. Tenho certeza de que você vai gostar — disse ele, com um sorriso convidativo.
Hina aceitou prontamente, curiosa e ainda aquecida pela manhã produtiva que haviam passado juntos. Chegando ao local, notou que era realmente modesto, mas acolhedor. O aroma de comida caseira era irresistível, e o cardápio era variado e apetitoso.
Sentaram-se em uma mesa próxima à janela, e, enquanto esperavam pelos pratos, continuaram conversando sobre os animais e o trabalho que haviam realizado na ONG. Quando a comida chegou, ambos começaram a comer com entusiasmo, comentando sobre o sabor maravilhoso dos pratos.
Durante a refeição, Shion mencionou casualmente:
— Hoje à noite eu e os rapazes vamos apresentar a coreografia nova novamente. Acho que vai ser ainda melhor do que na estreia.
Hina levantou os olhos do prato e, após um momento de reflexão, decidiu perguntar algo que há muito vinha lhe intrigando.
— Shion, por que vocês escolheram esse tipo de trabalho? Quero dizer, você é tão sério, tão focado... Parece contrastar bastante com sua personalidade.
Shion suspirou, como se já esperasse por aquela pergunta. Ele colocou os talheres sobre o prato, cruzou as mãos sobre a mesa e olhou diretamente para ela.
— Eu sabia que você perguntaria isso uma hora ou outra. — Ele deu um sorriso leve antes de continuar. — A verdade é que todos nós somos órfãos, Hina. Crescemos no mesmo orfanato, e, quando completamos 18 anos, tivemos que sair de lá. Não tínhamos para onde ir, e cada um começou a trabalhar no que conseguia. Alguns faziam bicos, outros conseguiam empregos de meio período. Mas era tudo muito difícil, e, sinceramente, vivíamos apertados financeiramente.
Hina escutava atentamente, surpresa com aquela revelação.
— Então, um dia, surgiu a oportunidade da gente trabalhar como dançarinos. O salário é bom, e as gorjetas ajudam bastante. Além disso, como é apenas nos finais de semana, ainda tínhamos tempo para voltar a estudar e seguir outros sonhos.
Ele fez uma pausa, analisando a reação de Hina, que parecia absorver cada palavra com seriedade e empatia.
— No começo, foi estranho para todos nós. Mas, com o tempo, percebemos que não era apenas um meio de ganhar dinheiro. Era uma forma de sobrevivência, de construir algo juntos, como uma família.
Hina segurou delicadamente a mão dele sobre a mesa.
— Eu nunca imaginei que vocês tivessem passado por tanta coisa. Mas acho incrível como conseguiram se unir e encontrar um caminho. E, Shion, eu admiro muito a força e a determinação de vocês.
Ele sorriu, agradecido pelo apoio e compreensão.
— Obrigado, Hina. Isso significa muito para mim.
Eles continuaram a refeição, conversando sobre coisas mais leves, mas aquele momento deixou uma impressão duradoura em Hina. Ela enxergava Shion com ainda mais admiração, sabendo do quanto ele havia lutado para estar onde estava.
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À tarde, Calisto e Koga se encontraram com seus respectivos namorados. Koga, que havia convidado Kanon para seu apartamento, estava determinada a provar que seu sanduíche era, sem sombra de dúvida, superior a qualquer outro que ele já tivesse comido.
Assim que Kanon entrou, ela o recebeu com as mãos na cintura e uma expressão de confiança absoluta.
— Bem-vindo ao meu restaurante particular! Hoje, você será abençoado com o melhor sanduíche do universo.
— Melhor? Que ousada. Mas estou curioso para ver se é tudo isso mesmo — respondeu Kanon com um sorriso provocador, acomodando-se no sofá como um rei prestes a ser servido.
Koga marchou para a cozinha, concentrada, enquanto Kanon observava de longe, claramente se divertindo. A cena começou bem: ela cortava os ingredientes com precisão, grelhava o bacon e o frango como uma chef profissional e montava tudo com o cuidado de uma artista.
Porém, o momento "glorioso" chegou quando Koga tentou virar a frigideira com estilo para mostrar sua habilidade... e o pedaço de pão voou direto para o chão.
— Kanon! Isso é culpa sua! — gritou, apontando a espátula para ele como se fosse uma espada.
— Minha culpa?! Eu nem estou na cozinha! — respondeu ele, tentando segurar a risada.
— Sua energia é distraída, só pode ser isso! — Koga reclamou, pegando o pão com uma expressão indignada.
Não satisfeita, ela decidiu fazer outro pão. Só que, ao cortar o novo, derramou a mostarda por todo o balcão.
— Argh! — exclamou, limpando tudo com pressa.
Kanon, segurando o riso a todo custo, decidiu se levantar para "ajudar".
— Tem certeza de que sabe o que está fazendo? Porque, até agora, parece que o sanduíche está se preparando sozinho... para fugir!
— Kanon, se você não calar a boca, eu te sirvo pão seco! — ameaçou, mas não conseguiu conter um risinho.
Finalmente, o sanduíche ficou pronto, e Koga o colocou no prato como se fosse uma obra-prima. Com os braços cruzados e um olhar desafiador, esperou a avaliação.
Kanon pegou o sanduíche com toda pompa, deu uma mordida e mastigou devagar, enquanto Koga o encarava com olhos arregalados.
— E então? — perguntou, impaciente.
Kanon colocou o sanduíche no prato com calma, limpou a boca e declarou com a maior seriedade:
— Isso é...
— É o melhor, né? Fala logo! — Koga se inclinou na direção dele, ansiosa.
— ... um sanduíche — respondeu Kanon, com a cara mais neutra do mundo.
— Só um sanduíche?! — Koga quase caiu para trás.
— Brincadeira! Está incrível. Mas… sabe o que ficaria ainda melhor? — Kanon olhou para ela com um sorriso de canto.
— O quê?! — perguntou, já pensando em um tempero secreto que talvez tivesse esquecido.
Ele a puxou para perto e disse:
— Você sentada comigo, dividindo. Afinal, uma chef não pode ficar só na cozinha, né?
Koga tentou segurar a expressão séria, mas começou a rir.
— Bobo! Da próxima vez, eu te sirvo um pão com água!
Os dois caíram na gargalhada, e Kanon roubou mais uma mordida enquanto Koga fingia indignação, jurando que nunca mais cozinharia para ele — o que, claro, era uma mentira descarada.
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Máscara da Morte e Calisto decidiram aproveitar a tarde juntos em Atenas. Ele a levou até a Praça Monastiraki, um local vibrante e histórico, cercado por construções antigas, barracas de artesanato e cafés. No centro da praça, havia uma pequena fonte ornamentada, e as colinas do Partenon ao fundo criavam um cenário deslumbrante.
Enquanto caminhavam de mãos dadas, eles pararam para observar artistas de rua que tocavam música tradicional grega. Calisto, encantada com a atmosfera, puxou Máscara da Morte para perto da fonte, onde havia um banco de pedra sombreado por uma oliveira antiga.
Sentados ali, conversaram sobre assuntos leves, rindo e aproveitando o momento tranquilo. Calisto olhava para Enzo com carinho, admirando como ele parecia relaxado.
— Essa praça é incrível. — comentou Calisto. — Mas sabe o que eu queria saber de verdade?
— O quê? — ele perguntou, arqueando uma sobrancelha, curioso.
— Por que você tem esse apelido de Máscara da Morte?
Enzo congelou por um momento. Era raro alguém perguntar diretamente sobre isso, especialmente com a gentileza e a curiosidade genuína que Calisto demonstrava. Ele suspirou, apoiando os cotovelos nos joelhos e olhando para a fonte à frente.
— Bom... Não é exatamente um apelido que eu escolhi. — Ele começou, a voz carregada de algo que parecia ser uma mistura de constrangimento e nostalgia. — Quando eu era criança, no orfanato, eu não era o que você chamaria de "fácil de lidar".
Calisto inclinou-se ligeiramente para ele, incentivando-o a continuar.
— Eu batia nos outros meninos. Não porque gostava, mas porque... sei lá, parecia a única forma de me defender. — Ele deu uma risada seca. — Eu achava que se mantivesse todo mundo afastado, ninguém poderia me machucar.
Ele fez uma pausa, olhando para Calisto, que o escutava atentamente.
— Os outros começaram a dizer que eu era como uma "máscara da morte", alguém que trazia problemas e afastava todo mundo. E, no fundo, acho que eu gostava disso. Era melhor que confiar em alguém e me decepcionar.
Calisto sentiu o coração apertar ao ouvir aquilo. Ela segurou a mão dele, apertando-a levemente.
— E por que você confiou em mim? — perguntou ela, a voz suave.
Ele olhou para ela, a dureza habitual suavizando-se em um sorriso raro e sincero.
— Porque eu mudei, Calisto. Conforme eu fui crescendo, percebi que afastar as pessoas não é o melhor caminho para gente lidar com nossos problemas.
Eles se olharam por um momento que parecia suspenso no tempo. Depois, Máscara da Morte a puxou para um abraço apertado, enquanto ao fundo o som da música grega preenchia o ar. Por mais que ele ainda carregasse o apelido do passado, naquele instante, sentia-se apenas como Enzo, o homem que estava aprendendo a amar e ser amado.
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Luisa estava sentada em sua escrivaninha, o laptop aberto diante dela. Na tela, uma série de abas mostrava inspirações de decoração para a confeitaria: paletas de cores suaves, móveis aconchegantes e pequenos detalhes rústicos que conferiam charme ao ambiente. Ela queria algo simples, que trouxesse calor e convidasse os clientes a se sentirem em casa.
No entanto, sua mente insistia em vagar. A cada tentativa de focar nas ideias, um nome surgia em seus pensamentos: Milo. Era como se ele habitasse uma parte de sua mente que ela não conseguia silenciar.
Cansada de lutar contra isso, fechou o laptop com um suspiro e recostou-se na cadeira. De olhos fechados, deixou-se levar pelas lembranças, permitindo que as emoções viessem à tona.
Lembrou-se de como, ao chegar à universidade, seu olhar automaticamente o procurava. Era quase instintivo. Mas, ultimamente, ele não estava lá.
Ela recordou os dias em que sua busca terminava em frustração, quando não o encontrava nos corredores ou na biblioteca. Nessas ocasiões, um peso se instalava em seu peito, e a alegria que esperava sentir evaporava, substituída por uma tristeza silenciosa.
Nos treinos, a situação era ainda mais difícil. Ela esperava que ele aparecesse para assistir, com olhar atento e intrigante. Agora, o espaço onde ele costumava estar durante os treinos, parecia incrivelmente vazio, e Luisa se pegava distraída, esperando por uma presença que não vinha.
Ela suspirou, levantando-se da cadeira e caminhando até a janela. O céu da tarde estava pintado de azul, mas isso pouco lhe trazia conforto.
Fechou os olhos novamente e deixou os pensamentos fluírem. Milo preenchia cada um deles. Seu sorriso, seu jeito despreocupado e, ao mesmo tempo, profundamente atento, os momentos que passaram juntos... Tudo isso parecia gravado em seu coração.
Era inevitável. A ausência dele era um vazio difícil de ignorar. Cada dia sem vê-lo parecia mais longo, mais pesado. E, mesmo sem querer admitir, ela sabia a razão.
— Por que isso tinha que acontecer? — murmurou para si mesma, a voz trêmula.
Uma lembrança específica a atingiu com força. A confissão dele, a dor nos olhos quando ela recusou. Milo estava tentando respeitar o espaço que ela pedira, mas essa distância agora parecia sufocante.
Ela levou as mãos ao rosto, tentando conter as lágrimas que começavam a surgir. Mas a verdade era clara como nunca.
— Milo... você já está no meu coração, não é? — sussurrou, enquanto uma lágrima escorria por sua bochecha.
Aquele sentimento que ela tentava reprimir havia se tornado impossível de ignorar. Era mais do que saudade; era um vazio que só a presença dele poderia preencher. Milo não era apenas uma lembrança persistente. Ele era a peça que faltava, e Luisa, finalmente, estava pronta para encarar isso.
Ao admitir para si mesma que estava apaixonada por Milo, Luisa sentiu o peso de sua própria insegurança cair sobre seus ombros. E se ele ainda estivesse magoado? E se sua recusa anterior tivesse criado um abismo entre eles que agora seria impossível de atravessar? Esses pensamentos a deixavam inquieta, mas algo dentro de si insistia que ela não podia continuar evitando isso.
Respirando fundo, ela pegou o celular da mesa e abriu o aplicativo de mensagens. O nome dele estava ali, destacando-se como se esperasse por ela. Sua mão hesitou por um instante, mas ela sabia que não podia adiar mais. Precisava tentar, mesmo que isso significasse lidar com a possibilidade de rejeição.
Luisa: Oi, Milo. Tudo bem?
A mensagem foi enviada, e enquanto esperava, sentiu um frio no estômago. Ele poderia ignorar, poderia responder de forma fria ou até mesmo dizer que não queria mais falar com ela. Se fosse esse o caso, ela teria que aceitar as consequências das próprias atitudes.
A notificação de "digitando" apareceu, e o coração de Luisa bateu mais rápido. Alguns segundos depois, a resposta chegou.
Milo: Oi, Luisa. Estou bem, e você?
Ela mordeu o lábio. Ele parecia tão tranquilo, mas não sabia se isso era um bom sinal ou apenas a maneira dele de manter distância. Ainda assim, ela precisava continuar.
Luisa: Estou bem. Mas… eu preciso falar com você. É importante.
Do outro lado, Milo demorou um pouco mais para responder. O "digitando" apareceu e desapareceu algumas vezes, como se ele estivesse ponderando sobre o que dizer.
Milo: Claro. Quando e onde?
Luisa sentiu uma pontada de alívio, mas também de ansiedade. Ele não perguntou nada, não hesitou. Apenas concordou. Agora era sua vez de dar o próximo passo.
Luisa: Você pode vir ao meu apartamento?
Mais alguns segundos de espera, e então a resposta veio.
Milo: Posso, sim. Me manda o endereço.
Com as mãos trêmulas, Luisa digitou o endereço e enviou. Agora não havia mais como voltar atrás. A cada segundo que passava, a ansiedade crescia, mas ela sabia que precisava enfrentar esse momento.
Pouco mais de uma hora depois, o som do interfone ecoou pelo apartamento de Luisa, interrompendo os pensamentos que já estavam deixando-a cada vez mais ansiosa. Seu coração deu um salto, batendo tão forte que ela quase sentia o ritmo em seus ouvidos.
Respirando fundo, ela pegou o fone e tentou manter a voz firme:
— Quem é?
— Milo.
Aquela voz grave e calma a atingiu como uma onda, trazendo alívio e ao mesmo tempo aumentando seu nervosismo.
— Pode subir — disse, pressionando o botão para liberar a entrada.
Assim que desligou, sua mente começou a correr. Ela deu uma última olhada ao redor da sala, ajeitou os cabelos e se repreendeu mentalmente por estar tão nervosa. "É só Milo", pensou. Mas o coração insistia em discordar.
Quando o interfone tocou, Luisa sentiu o coração disparar como nunca antes. Suas mãos tremiam levemente enquanto autorizava a entrada de Milo. Caminhou até a porta, os passos pesados com a ansiedade que crescia a cada segundo. Ela respirou fundo, tentando se acalmar, mas era inútil. Sabia que aquele momento mudaria tudo.
Quando ouviu os passos no corredor, seu coração quase parou. A porta se abriu e lá estava ele, parado, tão imponente e ao mesmo tempo tão humano, com os olhos azul-escuros fixos nela. Milo parecia hesitar por um momento, mas quando o olhar deles se encontrou, a tensão se dissipou.
— Oi, Luisa — ele disse, a voz suave, mas carregada de emoção.
— Oi, Milo — respondeu ela, abrindo mais a porta e convidando-o para entrar com um gesto discreto.
Ele atravessou o limiar, e Luisa fechou a porta atrás dele, tentando não deixar transparecer o turbilhão que sentia por dentro. Milo olhou ao redor do apartamento de forma breve, mas logo voltou sua atenção para ela. Ele parecia ao mesmo tempo curioso e cauteloso, como se quisesse entender o motivo do convite, mas não quisesse pressioná-la.
— Você quer sentar? — perguntou ela, a voz baixa e trêmula.
Ele assentiu, indo até o sofá e se acomodando. Luisa ficou de pé por alguns segundos, nervosa, antes de decidir sentar-se ao lado dele. A distância entre eles parecia ao mesmo tempo pequena e imensa. Ela respirou fundo, buscando coragem, e então olhou diretamente para ele.
— Milo... Eu pedi para você vir porque... — Ela pausou, sentindo a garganta apertar. — Porque eu preciso dizer algo que talvez você não queira mais ouvir, mas é algo que preciso dizer mesmo assim.
Ele não respondeu de imediato, mas seus olhos buscaram os dela com intensidade.
— Diga, Luisa. Estou aqui para ouvir.
Ela engoliu em seco e deixou as palavras finalmente fluírem.
— Eu estava errada, Milo. Errada em afastar você, em negar o que sinto. — Sua voz tremia, mas ela continuou. — Porque a verdade é que eu... eu não consegui parar de pensar em você. Em como você sempre esteve ao meu lado, em como tudo parece vazio sem a sua presença.
Milo piscou, claramente surpreso com as palavras dela, mas ficou em silêncio, permitindo que ela continuasse.
— Eu sei que o que fiz te magoou. Sei que talvez você ainda esteja chateado comigo. E se estiver, eu vou entender, porque a culpa é minha. Mas... eu não podia mais guardar isso para mim. Eu te amo, Milo. E não importa se você decidir que não quer seguir em frente comigo. Eu só precisava que soubesse.
A confissão pairou no ar como uma onda de calor. Milo parecia absorver cada palavra, seus olhos brilhando com algo que ela não conseguia definir completamente. Ele então se inclinou para frente, segurando delicadamente as mãos dela nas suas.
— Luisa... — começou ele, a voz suave, mas firme. — Você não imagina o quanto esperei para ouvir isso. Eu sei que você teve seus motivos, que precisou de tempo. E acredite, eu nunca deixei de esperar, nunca deixei de acreditar que, no fundo, você sentia o mesmo.
Ela sentiu as lágrimas brotarem nos olhos, mas elas não eram de tristeza, e sim de alívio.
— Eu sinto muito por ter te machucado, Milo.
Ele sorriu levemente e levou uma das mãos até o rosto dela, secando uma lágrima solitária que escorria.
— Não importa mais, Luisa. O que importa é que estamos aqui, agora. E que finalmente podemos viver isso juntos.
Antes que ela pudesse responder, Milo se inclinou devagar e a beijou. O toque era suave, mas cheio de emoção, como se ambos estivessem colocando tudo o que sentiram durante aquele tempo de distância naquele único momento. Luisa sentiu o coração acelerar ainda mais, mas agora era de pura felicidade.
Quando o beijo terminou, eles se olharam, ainda tão próximos que podiam sentir a respiração um do outro.
— Eu amo você, Luisa — disse ele, a voz firme e sincera.
Ela sorriu, um sorriso que parecia iluminar todo o ambiente.
— Eu também te amo, Milo.
Ele a puxou para mais perto, abraçando-a como se nunca mais fosse soltá-la. E naquele momento, Luisa soube que não havia mais espaço para dúvidas ou medos. Finalmente, eles estavam onde deveriam estar: juntos.
Milo ainda a segurava em seus braços, como se temesse que, ao soltá-la, ela desaparecesse. Luisa apoiou a cabeça em seu peito, sentindo o calor reconfortante de seu corpo e ouvindo o ritmo constante de seu coração. Era uma melodia que acalmava todas as tempestades que havia dentro dela.
— Eu sinto que esperei por esse momento por tanto tempo... — disse ele, quebrando o silêncio com um tom baixo e sereno.
Ela sorriu contra seu peito, fechando os olhos para aproveitar aquele instante.
— Eu também. E agora que chegou, parece tão... surreal.
Ele afastou o suficiente para olhar nos olhos dela, mas sem desfazer o abraço. Seu sorriso era suave, quase tímido, mas os olhos brilhavam de um jeito que ela nunca tinha visto antes.
— Sabe o que é engraçado? — disse ele. — Mesmo antes de você admitir o que sentia, eu sabia. Sempre soube. Só não queria te pressionar.
— Sabia? — Ela arqueou uma sobrancelha, fingindo indignação. — Você é tão convencido assim?
— Não é convencimento. — Ele riu suavemente. — Era esperança. E talvez um pouco de intuição.
Ela deu um leve empurrão em seu peito, rindo junto.
— Você é impossível, Milo.
— E você é teimosa, mas acho que isso nos torna perfeitos um para o outro.
Eles riram, e a leveza do momento era como uma brisa fresca após um dia quente. Milo acariciou o rosto dela, seus dedos traçando linhas invisíveis em sua pele, como se quisesse memorizar cada detalhe.
— Eu amo o jeito que você ri — disse ele, com um brilho brincalhão nos olhos. — E amo como você tenta fingir que é séria o tempo todo, mas seus olhos sempre entregam o que sente.
Ela sentiu as bochechas corarem, mas o calor daquele elogio não era desconfortável. Era doce, como o próprio Milo.
— E eu amo como você consegue ser tão intenso e ao mesmo tempo tão carinhoso. — Ela o encarou com uma sinceridade que fez o sorriso dele crescer.
Ele a puxou para mais perto, como se as palavras dela fossem um convite para outra confissão.
— Luisa, eu prometo que vou te fazer feliz. Não importa o que aconteça, eu sempre estarei ao seu lado.
Ela sentiu os olhos se encherem de lágrimas de novo, mas não se importou.
— Eu sei, Milo. E eu prometo o mesmo.
Eles se abraçaram de novo, e o silêncio que se seguiu não era vazio. Era cheio de promessas, de sentimentos, de algo que finalmente florescia entre eles
