Capítulo 1 – Sem caminho de volta

Depois da tempestade House cogitou se entupir de Vicodin, álcool e algumas coisas mais, porém se limitou a ligar sua moto, apesar da intensa dor em sua perna, e sair sem rumo. Ele rodou as ruas de Nova Jersey por algum tempo, horas? Minutos? Ele não tinha certeza, apenas caiu em si quando se viu em frente à casa de Wilson. Mas demorou a chamar, pois chamá-lo e dar a notícia do rompimento de seu relacionamento seria o mesmo que assinar um documento atestando sua falha. Assinar uma declaração de infelicidade eterna, já que Cuddy era sua última esperança de felicidade: a garota da faculdade, a jovem que se encantou com ele desde cedo, que lhe deu um emprego, que aguentou suas insanidades, que sentia atração por sua "loucura". Isso era como se toda a esperança de encontrar alguém se dissipasse da face da Terra. Bater à porta era declarar a incompetência suprema, o luto irrevogável, a dor que não cessaria. Porém o tempo venceu e sua força cedeu, ele bateu à porta.

"Ei... você não está com Cuddy?".

Ele entrou sem justificar-se, deixou-se derrabar no sofá aconchegante e ainda quente e deu a noticia fatal. Falar em voz alta tornou tudo real, estava de fato acontecendo.

Wilson obviamente ficou chocado, irritado, frustrado e preocupado.

"Você está chapado?".

"Eu tomei um único Vicodin quando pensei que ela estava morrendo".

"Nada depois disso?".

"Talvez eu devesse ter me entorpecido".

House ia levantando disposto a sair dali o quanto antes, mas Wilson o impediu.

"Durma aqui! Você não devia sair por aí assim".

"O que eu tenho a perder?".

"Eu falarei com ela amanhã, ela vai reconsiderar. Dê um tempo! E... tente dormir um pouco".

Mas House não conseguiu pregar o olho naquela noite. Apesar do Vicodin. Ele ficou acordado e relembrou todo o relacionamento desde o início quando ele previu que sofreria, que tudo terminaria mal. Não foi uma surpresa depois de tudo, mas... ele se iludiu. Ele gostou daquela vida com ela, de ter alguém que amava ao seu lado. E ele estava miserável agora e não entendia como não estava se afogando em álcool ou drogas. Talvez houvesse esperança dela reconsiderar? Cuddy era teimosa e ele sabia disso, mas algo o impedia de se afundar de vez. Algo que ele desconhecia e tinha medo de tentar descobrir.

No dia seguinte Wilson seguiu com seu plano e foi falar com ela, mas Cuddy estava irredutível. Intransigente. Forte como uma leõa.

"Você está sendo teimosa".

"Eu estou sendo racional, coisa que deveria ter sido antes para nem começar com essa história".

"Você cospe no prato que comeu e se lambuzou?".

Cuddy olhou chocada para ele, "você está sendo machista e vulgar".

"Escuta Cuddy... ele pode fazer melhor".

"Por um momento penso que você é House disfarçado de Wilson".

"Cuddy, dê uma chance...".

"Eu dei uma chance, Wilson. Duas... Três... Dez... Mil".

"Você o ama!".

"Eu não nego isso, mas não podemos ficar juntos. Não somos feitos para ficarmos juntos".

"Você nem tentou de verdade".

"Eu entendo sua frustração pelo seu amigo, mas eu não vou mudar de ideia".

Wilson respirou fundo. "Você vai reconsiderar".

Cuddy sabia que havia sido muito difícil tomar aquela decisão, mas ela fez isso por ela, por Rachel. Ela merecia mais, mesmo que doesse, ninguém cresce sem dor, sem contrariedades. Ela sabia disso. Sempre soube. "Como ele está?". Ela se deu o direito de baixar a guarda por um momento.

"Como você pensa que ele está?".

"Ele se drogou? Dormiu com prostitutas?".

"Não. Ele só tomou um único Vicodin, pois pensou que você estava morrendo".

"Você se drogou quando Amber estava morrendo?".

"É diferente...".

"Não, não é diferente".

"Mas eu quis fazer isso. Eu surtei".

"Mas não fez".

Wilson percebeu que seria pior insistir. Cuddy se fortalecia quando alguém questionava suas opiniões e ações.

"Ok. Mas você está cometendo um erro. Não se dá as costas para um grande amor".

"Não dei as costas, só vivi e percebi que sempre o amarei, mas não juntos como um casal".

Wilson não respondeu mais, saiu e esquivou-se pelas paredes do hospital, afinal, ele não sabia como dizer isso para o amigo.

Mas ele não precisou falar, assim que entrou no hospital House invadiu a sala da ex-namorada.

"Oi!". Ele tentou trazer normalidade, apesar de nada estar nem perto de normal.

"Como você está?". Ela se preocupou tentando olhar nos olhos dele, que estavam distantes, em busca de um sinal de torpor.

"Você já repensou?".

Cuddy respirou fundo e se levantou, chegou perto de House, pegou na mão dele e o direcionou até o sofá. Sentaram-se.

House tinha certeza de que ela ia assumir que se precipitou, mas que exigia alguns termos para reatarem. Ele até havia passado a camisa naquele dia, usado o perfume que ela mais gostava".

"House... Eu não vou reconsiderar".

"Por quê? Nós somos bons juntos!".

"No sexo com certeza, no resto...".

"No resto também. Em tudo!".

"House... Você está bem? Sóbrio, quero dizer...".

"Estou ótimo! Nunca estive melhor!". Ele foi sarcástico.

"Você usou algo?". Ela olhou profundamente nos olhos dele a procura de algum sinal.

"Não! Fique tranquila".

"Você não consegue absorver a dor sem subterfúgios...".

"Oh, você pensa muito pouco de mim. Você não sabe quanta merda eu já aceitei nessa vida".

Ela respirou fundo e nada respondeu.

"Você é tão teimosa!". Ele a acusou.

"Podemos ser amigos".

"Amigos? Você acha mesmo que eu quero ser seu amigo?".

Cuddy sentia seu coração acelerado no peito, ela o amava, mas estava certa de sua decisão. Ela estava sendo sensata, firme, decidida. Uma mulher não chega a lugar nenhum se não tiver essa conduta na vida, e ela aprendera isso desde muito cedo.

"Cuddy... quando eu olho pra você eu quero te beijar, te abraçar, meu corpo reage de maneira nada amigável a aproximação do seu".

"Eu sei disso, mas podemos controlar isso e acostumar com algo diferente. Não somos animais".

"Fale por você. Se você consegue se controlar obviamente não sente o mesmo por mim".

"Eu não deixei de te amar".

"Que maneira estranha de amar então".

"Mas eu posso transformar desejo e atração em uma amizade bonita".

House estava irritado, a vontade que tinha era de atacá-la a força para provar que ela estava errada, mas não. Ele preferiu se afastar. Levantou-se do sofá o mais rápido que pode. "Boa sorte com isso então, e é ótimo que tenha essa 'habilidade'".

Naquele momento House sentiu uma dor pungente na boca do estomago, e a verdade ficou clara como neve: Cuddy nunca o amou e o desejou como ele fazia por ela. Isso doeu. Doeu muito.

Cuddy não respondeu, não iria adiantar. Ela o viu sair irritado de sua sala e era isso. Estava selado definitivamente o fim. Doía muito, profundamente, mas ela iria resistir por ela mesma e por Rachel. Ninguém a veria chorar no hospital, fora de lá ela poderia entrar em pratos, como aconteceu na noite anterior, mas não lá. Jamais.


Nos próximos dias House teve gana de usar Vicodin, beber e fumar tudo o que podia encontrar, mas resistiu a maior parte das drogas e só se entregou ao álcool. No trabalho ele evitava Cuddy como um fugitivo evita a policia, e quando seu expediente terminava, o bar era parada obrigatória.

Cuddy também o evitava, talvez fosse melhor dar um tempo para eles. Ela era forte e resistente durante todo o dia, mas a noite ela desabafa em lagrimas quando Rachel ia dormir.

No hospital os rumores começaram, eles não estariam mais juntos? Nunca mais foram vistos juntos, na verdade House estava com o semblante péssimo e Cuddy mais e mais dura, mais e mais difícil de lidar. Wilson não falou sobre o término e o time de House não ousou perguntar.

Naquela noite Wilson o encontrou no bar próximo ao hospital, House já estava embriagado, ele nunca foi muito resistente para bebida de qualquer maneira. Se embriagava facilmente.

"Você não pode continuar assim".

"Eu estou limpo. Um único Vicodin foi suficiente para terminar tudo, na verdade, foi a desculpa perfeita pra ela, já que com certeza ela não sabia como dar um fim ao que tínhamos".

"Você precisa sair um pouco daqui, ver gente".

"Eu vejo gente o dia todo no hospital, eu preciso não ver gente".

"Você entendeu o que eu quis dizer... ver pessoas diferentes".

"Eu não quero ver pessoas, eu quero ficar sozinho".

"Você fica o dia todo no hospital com ela lá... isso não está te ajudando".

"Oh sério? Gênio!".

"Há uma conferencia médica em Miami, irei sexta-feira e você pode ir comigo".

"Que convite tentador. Uma conferencia médica. Você sabe como amo essas coisas. Irrecusável". Ele zombou enquanto bebia mais um gole de uísque.

"Melhor estar em frente à praia do que passar o final de semana bêbado e sozinho".

"Ou com prostitutas".

"Você não chamou nenhuma desde...".

"Como você sabe?".

"Você não quer dormir com ninguém porque senão vai ser real".

"É real! Eu não chamei porque estou sem grana". Ele tentou disfarçar. "Estava desacostumado a guardar dinheiro para esse tipo de coisa".

"Então... que tal Miami? Mulheres lindas de biquíni... Olhar é de graça".

House bebeu mais um gole pensativo. "Conferência de Oncologia?".

"Não, conferência sobre cuidados paliativo".

"Coisa do seu povo que não consegue evitar a morte de 80% do seu povo".

Wilson respirou fundo, ele não iria se irritar. "Cuidados paliativo são empregados em qualquer especialidade".

"Mais em Oncologia. Eu tenho os números no meu bolso da outra calça".

"Você não precisa ir a nenhuma palestra, pode ficar na praia ou no hotel".

"Uh... porque esse tema é mesmo muito estimulante. Nada depressivo para um sujeito que terminou agora o seu relacionamento".

Wilson riu.

"Menos depressivo, porém, do que estar as voltas com sua ex-namorada todos os dias desfilando como se nada tivesse acontecido...".

"Então isso é um 'sim'?".

"Se minha chefa me liberar...".

"Ela vai". Wilson assegurou.


No dia seguinte Wilson foi falar com Cuddy, ela estranhou já que ele também a estava evitando depois de tudo.

"Apareceu? Pensei que ia me cortar de suas relações porque eu terminei com o seu amigo".

"Não estou te excluindo, estive ocupado".

"Ok...". Ela fingiu que acreditou.

"Cuddy, eu vim para pedir que libere House para que ele me acompanhe na conferência em Miami".

"House em uma conferência?". Ela riu.

"Será bom".

"Cuidados paliativos? House?".

"Cuddy seja razoável, você sabe que será bom pra ele estar longe".

"Ele tem pacientes, eu não posso fechar o departamento".

"O departamento não precisa ser fechado, ele tem um time. Ele estará conectado remotamente".

Cuddy bufou. "Você sabe que House vai ser a desgraça dessa conferência, não sabe? Eu preciso prezar pela imagem do hospital".

"Ele vai se comportar, eu assumo a responsabilidade".

"Você vai drogá-lo e trancá-lo no quarto?".

"Eu só preciso que você o libere, deixa o resto comigo".

"Eu não sei...".

"Você está sendo mesquinha e irracional aqui. Você terminou com ele, você agiu como se um ano de relacionamento não fosse nada...".

"Por mais que eu tenha um vinculo pessoal com você, Wilson", Cuddy o interrompeu. "Não te dou o direito de me ofender ou julgar minhas decisões".

"Desculpe". Ele percebeu que se excedeu.

"Sei que você o ama e se preocupa com ele, mas nunca se esqueça de que eu também me preocupo, só não posso viver uma vida por ele. Eu tenho que viver por mim, pela minha filha, e preciso de um parceiro que me acompanhe, pois eu mereço isso. Eu mereço mais".

"Ok, você tem suas razões e não cabe a mim ser o juiz".

Ela concordou com a cabeça. "No mais... ele se drogou e apareceu na minha casa sem considerar que havia uma criança lá".

"Um Vicodin Cuddy. Um único comprimido quando pensou que você estava morrendo".

"É o que ele diz. Tenho uma filha, não posso expor ao mundo insano dele".

"Ele está sendo maduro, ele está encarando as coisas sem fugir para as drogas". Wilson ocultou a questão do álcool. "Você está fingindo que nada aconteceu e tocando sua vida como se o que tiveram não fosse nada".

"Isso é para me ferir?".

"Não. Isso é a realidade".

"Eu estou sofrendo. Muito. Se não falo sobre isso não significa que não dói".

Wilson percebeu que aquilo não levaria a nada. "Então ele vai a conferência comigo e você ficará um tempo sem vê-lo. Será bom para ambos".

Cuddy fingiu que não ouviu, foi até sua mesa, abriu o laptop e falou sem olhar para Wilson.

"É totalmente sua responsabilidade. E o hospital não vai pagar a passagem, a estadia, ou qualquer despesa dele".

"Ok".

Ela olhou pra ele querendo dar inúmeras respostas, alertá-lo sobre tudo o que podia dar errado, mas conteve-se.

"Partiremos sexta-feira". Wilson a informou.

Wilson saiu e Cuddy sentiu-se péssima. Ela não era a vilã, mas estava sendo tratada como se fosse. Ela tinha direito de terminar qualquer relacionamento que quisesse, sobretudo se alguém não estivesse lá por ela, se alguém se drogasse. Ela era a vitima e não a algoz. Isso era insano. De repente ela sentiu uma lagrima se formar e correu para o banheiro antes que alguém a vise assim.

Continua...