Agradeço os comentários e feedbacks, como sempre digo, eles são muito importantes para que a motivação de escrever esteja lá. Vocês nem fazem ideia.

Só... continuem!

Primeiro capítulo do ano com mais de 4.5k palavras. Aproveitem!


Capítulo 13 – A dança do palhaço triste

No dia seguinte era sábado e House foi até a casa de Wilson. Ele precisava sair de casa, se distrair, caso contrário ficaria louco. Pois sexo com Cuddy sempre era surreal, era mais do que ótimo. Ela não era nada tímida, pelo contrário. Os dois eram seres muito sexuados e compartilhavam uma química absurda e nunca poderia ser ruim ou deixar de lembrá-lo o quanto ele a desejava. Mas ele sentia falta de algo que não era físico, ele sentia falta da conexão com ela, da conexão emocional. O que deixava tudo ainda mais extraordinário era o desejo somado ao envolvimento emocional. Ele não era romântico a ponto de negar sexo bom se não houvesse intimidade emocional, mas... ele sabia que o que eles tiveram no passado não era simples e nem fácil de se repetir com alguma outra pessoa: Amor aliado a intenso desejo.

Estaria ele capaz de sentir essa conexão novamente? De se entregar ao amor como fizera durante o namoro com ela? Ou o medo era maior e rompeu essa abertura?

Essas eram dúvidas que o atormentavam. Ele não duvidava de que a amava, isso não. Mas estaria ela interessada em reatar o relacionamento com ele apenas por uma ilusão de um mundo com o papai House? Ele seria capaz de se entregar por inteiro a uma relação? Eles teriam capacidade de fazer diferente dessa vez?

Ele amava tudo nela: como ela sorria, o movimento de suas pálpebras enquanto ela dormia, como sua garganta engolia os alimentos, sua voz ao amanhecer, sua pele macia e suave, o aroma de seu creme hidratante corporal, seu hálito de menta após escovar os dentes e ir para a cama, como ela olhava para ele o fazendo sentir-se o último homem interessante no universo, como seu corpo se aconchegava ao dele. Não era só sexo. Apesar disso ser muito.

"Vamos levar Karl até o parque?". House se apressou a convidar Wilson tão logo o amigo abriu a porta.

"Você sabe que nós iremos parecer um casal com um filho?".

"Que se foda! Eu não posso deixar o menino no videogame o dia todo, e se tiro o videogame dele, ele derruba a casa com tanta energia".

"Não fale assim perto do menino. Não diga palavrões". Wilson sussurrou.

"Ele está interessado no jogo, nem está ouvindo. As vezes ele se abstrai de tudo ao redor e foca só em alguma coisa que está vendo ou fazendo. Será que ele é autista?". House perguntou curioso.

"Então o pai dele é também".

House franziu a testa pensativo.

"Me deixe só colocar minha bermuda".

Alguns minutos depois, Wilson voltou com uma bermuda cáqui e uma camisa polo por dentro da bermuda.

"Agora sim vão pensar que somos um casal gay, e que você é o passivo".

"Cala a boca!".

"Vamos logo então, tio Wilson!".

Karl olhou para cima e sorriu. "Vamos ao parque?".

"Tá vendo? Eu falei... acho que vou testá-lo".

"Ele não é autista. Está focado nesse videogame portátil. É melhor eu trocar a bermuda?".

"Pelo menos tira essa camisa de dentro da calça".

"Não tem nada demais em um homem querer me vestir bem e não... assim...".

"O que tem minha roupa?". House estava com uma bermuda branca longa, um tênis azul claro e uma camiseta preta com desenho de caveira. "Estou com roupa de parque".

"Você vai para um parque de Heavy Metal?".

"Como você é careta. Parece não um tio, mas um vovô!".

"Ok... Vamos!". Wilson tirou a bermuda de dentro da bermuda.

Foram. Karl ficou brincando no playground (House tirou o videogame dele) enquanto House puxava o assunto que o atordoava.

"Eu… eu posso ter ido jantar na casa de Cuddy ontem".

"Sério? Isso é bom, não é?".

"E posso tê-la beijado".

"Uau!".

"E talvez… possamos ter... feito sexo".

"Vocês transaram?".

"Mais alto pra que o som chegue até a casa de Arlene".

"Vocês transaram?". Wilson repetiu em tom de voz baixo.

House acenou com a cabeça.

"Uau! O que isso significa exatamente?".

"Significa que eu introduzi meu pênis na vagina…".

Wilson fez cara de nojo. "Você me entendeu".

"Não sei… não sei o que isso significa". Ele respondeu desanimado.

"Vocês estão juntos novamente?".

"Não".

"Ela não quer?".

"Ela disse que sim".

"Então… era tudo o que você queria".

"Não assim".

"Assim como?".

"Ela está confundindo. Ela está sentindo compaixão por mim por conta de toda a coisa com Karl".

"Ah sim… porque isso explica tudo. Cuddy tirar a roupa por piedade".

"Eu sei que existe atração física, não nego isso".

"House… ela te ama! Ela está apaixonada. Ela se precipitou em terminar o relacionamento de vocês. Ela está querendo voltar. O quão complexo pode ser isso?".

"Absurdamente complexo".

"Por quê?".

"Eu não sei se a razão dela querer voltar é a razão certa".

"E você se tornou um justiceiro do amor agora?".

"Eu… eu sei bem o que passei. Não quero me iludir novamente".

"Ela mudou. Você mudou".

"Será tão rápido e simples assim?".

"Tanta coisa aconteceu com vocês. A dor, as experiências mudam as pessoas. Podemos amadurecer dez anos em um mês".

"Você é sempre muito otimista".

"Nesse caso eu vejo duas pessoas que se amam. Dois pais solteiros que querem estar juntos na vida um do outro e de seus filhos. Sofrendo por amor e solitários. Não é tão difícil assim concluir o que deveriam fazer".

"Eu não sei se posso confiar mais nela. Em nós".

"Você acha que ela vai te largar novamente?".

Ele não respondeu.

"Você acha que ela pode despertar e perceber que o homem por quem ela é apaixonada há tantos anos não a interessa mais?".

"Não isso... Mas ela pode me dar um pé na bunda outra vez. Fácil, fácil. Como ela fez antes".

"Ela não fará mais isso".

"Por que tenho um filho agora?".

"Porque ela sofreu e sofre com o que aconteceu. Ela aprendeu. Ela repensou".

"Talvez eu seja melhor sozinho...".

Wilson começou a aplaudir e muitas pessoas que passavam olhou pra eles sem entender.

"Você está louco?".

"Parabéns pra vocês. Os dois têm o dom do drama. Quando um se aproxima o outro se afasta, vocês travam uma dança insana. A dança do palhaço triste".

House não respondeu.

"Ela te ama. Larga de ser estúpido e seja feliz! Se não por você... por Karl".


O final de semana de House foi reflexivo e em função de Karl. Cozinhar para eles, brincar com o garotinho, dar banho, etc..

Ele e o irmão Ben se conectavam para jogar videogame com frequência. Mas o pai de Ben não podia nem imaginar, afinal, ele odiava House e Karl. As vezes House entrava na brincadeira e jogava com eles, os meninos amavam isso, House era muito bom no videogame e divertido. E, para que o pai de Ben não descobrisse de quem se tratava, eles se deram apelidos gamers. House era o Falcão, Karl era o Gavião e Ben era o Águia.

O videogame também ajudou House a se distrair durante esses dias. Por isso as crianças são mais felizes, ele pensou.

...

O final de Cuddy não foi diferente, ela queria ligar pra ele, mas se conteve. Ele precisava desse tempo. No final quem ligou não foi House, mas sua mãe.

"E aí? Transou?".

"Mãe!".

"Deixe de bancar a puritana".

"Eu não vou falar sobre minha vida sexual com você".

"Ah então você transou! Graças a Deus deu alguma ação para sua vagina".

"Ok, estou desligando".

"Não desligue! Quero saber se você virá amanhã com Rachel para o aniversário de John". Esse era o cunhado de Cuddy.

"Eu provavelmente irei".

"Provavelmente?".

"Se você for ficar me envergonhando na frente de todos, eu prefiro ficar em casa".

"E quando falar sobre sexo é te envergonhar? Você faz isso há anos, já passou por tantos...".

"Exatamente por isso eu não sei se irei".

"Você tem vergonha de sua própria mãe?".

"Mãe, eu estou de saída nos falamos mais tarde".

"Você sempre faz isso".

"Tchau mãe!".

E ela desligou. Em seguida Rachel se aproximou.

"Mamãe eu quero ver House e Karl".

Ela sorriu. "Eu também quero".

"Vamos a casa dele?".

"Hoje não. Hoje vamos fazer coisas de mamãe e filhinha".

"O que?".

"Unhas?".

"Oba!". A menina amava fazer as unhas com a mãe. Claro que Cuddy passava esmalte incolor nela, mesmo a menina já querendo os vermelhos.

O domingo demorou a passar e Cuddy deu uma rápida passada na casa da mãe. Por sorte havia duas amigas da senhora para distraí-la, e Cuddy foi deixada de lado. Até certo ponto...

"Mamãe me disse que você anda tendo intimidades com House".

Cuddy suspirou.

"Mas o que é isso entre vocês?".

"Eu adoraria poder te dizer".

"Vocês só estão... ficando?".

"Eu não quero só ficar com ele, eu realmente espero que ele queira algo oficial e sério".

"Você o largou e agora se arrependeu?".

"Muita coisa mudou, Julia".

"Ele é um pai agora, mamãe me contou".

"Claro que ela te contou".

"Ele não está mais nas drogas?".

"Era Vicodin, um medicamente para dor, não exatamente heroína ou cocaína". Cuddy tentou defendê-lo. "Mas ele não está usando Vicodin".

"Porque agora ele tem um filho e é um homem responsável".

"Sim".

"Mamãe falou que o menino é loiro como o Thor".

Cuddy riu. "Ele é loiro sim. Ele é uma graça de menino. Muito educado".

"Vejo bem".

"O quê?", Cuddy perguntou curiosa.

"Você está apaixonada por ele também".

Cuddy sorriu e foi salva pela chegada dos sobrinhos e Rachel que corriam pela casa. Por algum tempo.

"Voltando aquele assunto".

"Julia, não tenho muito o que dizer sobre isso".

"Eu queria te apresentar Edward, amigo de John".

"Não, por favor".

"Mas vejo que você está decidida em voltar com House".

"Eu estou sim". Ela respondeu segura. "Não quero conhecer mais nenhum homem, porque eu já tenho certeza sobre qual homem me faz feliz".

"Ok, espero que ele pense assim também".

"É... eu também". Ela falou com voz baixa, apenas para si mesma.


Segunda-feira finalmente chegou, e com ela o ápice da expectativa do reencontro.

Cuddy demorou quase o dobro do tempo usual para se vestir. Ela queria estar bonita, sexy, sem parecer que havia passado horas se vestindo. O que foi por si só um desafio. Mas ela só pensava nele. Seu coração batia como a de uma adolescente. Sexo com ele foi bom, mas sempre foi assim. Eles tinham química, a anatomia entre eles era perfeita, eles se encaixavam. Mas atualmente ela enxergou o outro lado, o potencial homem mais maduro para o relacionamento que ela tanto desejava. Era House ainda, com todas as suas infantilidades e características, mas havia um toque de responsabilidade. Karl trouxe isso pra ele, e ela estava encantada pelo conjunto todo.

Ela amava House e isso não chegava nem perto de estar relacionado apenas ao fator físico. Ela o achava muito sexy e atraente de absolutamente todas as maneiras possíveis. A mente dele provocava cocegas em seu corpo, formigamento em sua alma, ela nunca chegou nem perto de sentir isso com ninguém. Mas não era só físico, e será que o sexo entre eles estragou tudo? Será que ele pensava que ela o estaria usando para aliviar seus desejos? Não era isso, absolutamente. E ela precisava deixar isso claro pra ele de uma vez por todas.

Ela chegou na hora habitual, alguns minutos depois estava saboreando o seu café da manhã no restaurante do hospital quando Wilson apareceu.

"Está sozinha?".

"Você vê alguém sentado comigo?".

"Não precisa ser rude…".

"Eu não estou sendo rude. Fiquei preocupada com meu estado mental realmente". Ela foi sarcástica.

"Você aprendeu algumas coisas com House". Ele se sentou.

"Inclusive… diga o que você tem a dizer sobre o sexo que fizemos".

"Eu… eu…".

"Não precisa enrolar".

Ele respirou fundo. "O que é isso entre vocês?".

"Eu queria que fosse oficial. Um relacionamento".

"Ele está confuso".

"Eu sei… mas não deveria estar. Eu o amo!".

"Você há de convir que ele meio que tem razão depois de tudo".

"As coisas mudaram. Ele mudou. Eu mudei. Tenho feito terapia desde então e estou em contato com meus desejos, minhas necessidades".

"Ele pensa que você está iludida pela chegada de Karl".

"Eu não estou me iludindo. E nem estou interessada em reatar com ele apenas por Karl".

"Eu penso que sexo não é o caminho, Cuddy. Acho que precisa mais de diálogo. O sexo pode só confundir mais".

"E eu penso que eu tenho que ter essas conversas diretamente com House". Ela se levantou levando consigo seu suco de laranja.

"Eu só quero ajudar".

"Obrigada pela tentativa".

"Ele acha que não pode mais confiar em você".

"Ele te disse isso?". Ela pareceu extremamente magoada.

"Ele meio que insinuou algo assim". Wilson não sabia se havia falado demais.

"Nós nos conhecemos há tanto tempo... Como ele pode não confiar mais em mim?". Esse fato tinha sido como uma flechada em seu coração.

"Olha Cuddy... Cabe a você provar isso pra ele. Sabe como House é... quando ele sofre ele só quer fugir da dor".

"Eu não sou a dor pra ele fugir de mim".

"Talvez ele te veja e sinta a dor da separação ainda".

Cuddy saiu de lá muito frustrada, com certeza o dia não seria como ela havia desejado. As coisas não seriam tão simples. Mas também… nunca foram simples entre eles.

...

Perto do almoço ela resolveu ir até House. Respirou fundo, retocou a maquiagem, ajustou sua roupa, criou coragem.

"Olá". Ela entrou na sala quando o viu sozinho. Ela tentava disfarçar o tremor em sua voz.

"Olá". Ele a cumprimentou. Seu coração foi à boca.

"Eu queria falar com você".

"Uh…".

"Eu não sei qual impressão eu te passei, mas… eu não quero sexo por sexo. Não quero ir a você quando estiver com desejo apenas, eu realmente quero estar com você em todos os momentos, todos os dias. Quero participar da sua vida e que você participe da minha".

Ele não esperava por isso, mas pensou em Wilson intrometido.

"Sexo com você sempre foi muito bom, não é surpresa. Mas eu quero mais. Eu quero você por inteiro. Eu quero uma família com Rachel e Karl. Quero dividir minha vida com você. Eu amo quem você é de forma integral. Amo sua companhia. Você me faz mais feliz. Me faz melhor".

Ele respirou pesadamente tendo dificuldade em sair da parte do sexo. Sua mente ficou presa naquilo. Ele tinha mil piadas e seu ego massageado queria dizer muitas coisa, mas ele se controlou. "E… o que faz você pensar que eu mudei? Eu posso ser o mesmo bastardo egoísta de sempre. O cara que tem um filho mas que continua egoísta e egocêntrico".

"Impossível um filho não nos mudar em nada, mas… eu não quero que você mude. Não completamente".

"Oh, já estivemos lá antes e eu sei que isso não é real".

"Eu quero que seja como você é, só precisamos de algumas adaptações. De minha parte também. Eu não quero agir com você como fazia antes. Você merece mais".

Isso o surpreendeu.

"Você merece alguém que te valorize mais, que te respeite mais. E eu quero ser esse alguém. Eu estava enganada e também imatura sobre nosso relacionamento".

"Prossiga".

"Te mandar pra fora da minha casa sempre que algo acontecia era uma maneira de me defender, mas sem pensar em você. Também era egoísmo. Eu também sou egoísta e egocêntrica afinal. Acho que ambos teremos que trabalhar isso. E gostaria que fosse juntos".

"Eu posso ter uma recaída eventualmente. Não quero, mas a possibilidade está lá". Ele falou tenso.

"Eu sei, e se acontecer novamente, eu não o abandonaria assim. Trabalharíamos juntos nisso".

"Você diz isso agora".

"Eu digo isso porque é o que eu sinto e penso hoje. Você amadureceu, e eu também".

Eles se encararam por alguns segundos.

"Escuta House", ela continuou. "Eu te amo com tudo o que há em mim. Sempre foi assim e sempre será. Eu não quero lutar contra isso, eu quero abraçar isso com todas as minhas forças. Quero viver isso intensamente".

"Você não lamenta me amar?". House se lembrou do passado.

"Não! Eu quero te amar a cada dia mais e mais. Sem mais jogos, eu estou aqui com o coração completamente aberto e desarmado. Eu quero ser digna da sua confiança como sempre fui".

Ele olhou desconfiado. Como ele queria acreditar nisso. Ela com certeza estava sendo sincera, mas isso não poderia mudar amanhã? Era o que ela queria, mas talvez não o que ela necessitasse a médio prazo.

"Eu me machuquei muito em todo esse processo de separação também. E eu não quero mais sentir essa dor novamente". Cuddy continuou.

"Foi você quem terminou".

"Eu sei, eu sei e não estou aqui negando nada. Mas eu estava fragilizada com tudo: a cirurgia, o medo, Rachel...".

"E você me colocou pra fora de sua vida como se eu não significasse nada".

"Sim, foi um erro lamentável que me arrependo diariamente. Você sempre valeu muito pra mim, nunca foi algo descartável. Eu errei e peço desculpas".

Novamente trocaram um olhar profundo, mas foram interrompidos pela chegada do time dele.

"Depois continuamos essa conversa". Ela disse enquanto o encarava novamente antes de sair.

Sem mais jogos, ela só queria colocar as cartas na mesa e expor seus sentimentos. Ele podia fazer o que quisesse com aquilo, mas ela não perderia nem mais um dia de vida.

A coisa toda com Lydia também trouxe uma urgência para ela. A fez refletir muito sobre a fragilidade da vida.

"Uau! Tanta tensão que eu engravidaria só com a energia dessa sala".

House olhou para Chase. "Você não tem útero, tem?".

"Modo de falar".

"Eu sempre desconfiei... Sua pele... sua feição... seu cabelo... suas unhas...".

"Ei, eu sou homem. E o que tem minhas unhas?".

Mas Chase sofreu bullying por um longo tempo, não apenas por House e seu time, mas alguém vazou para todos no hospital que ele era um homem transexual.

...

House ficou extremamente pensativo. Ele não viu mais Cuddy pelo resto do dia, mas só de pensar nela seu coração acelerava. Ele estaria se apaixonando novamente? O medo tomou conta dele. Ele havia sofrido muito por aquela mulher e, com tudo, havia bloqueado seu coração. Ou pensado que sim. Ter uma vida com ela era tudo o que ele havia desejado. Mas seriam os dois capazes de fazer um relacionamento funcionar? Ou apenas infringir mais dor um ao outro?

Ele buscou Karl na creche e o levava pra casa enquanto o garotinho falava sem parar.

"Eu chutei a bola que voou na cara do Ryan". E o menino ria alto. A cada dia ele se soltava mais com o pai. Ele se divertia.

"Ryan o menino monstro?".

Karl ria alto. "Sim!".

Houve um episódio em que Ryan caiu sobre uma poça de lama e entrou na sala com o rosto todo sujo. Karl contou para House rindo muito e House o apelidou de menino monstro.

"Vamos parar no supermercado". House avisou. Saiu do carro com o filho, pegou na mão dele e entraram no estabelecimento. Mas House se distraiu por um segundo e Karl desapareceu.

Ele ficou em pânico, procurando em todos os lugares. "Karl! Karl!".

Nada!

O pânico se instalou definitivamente nele.

Depois de alguns minutos de desespero ele encontrou Karl olhando a prateleira de doces.

"Karl você não pode desaparecer de perto de mim". Ele abraçou o menino.

"Desculpe papai!".

Foi a primeira vez que ele ouviu o garoto o chamando por aquele nome. Foi estranho, mas bom. Ele gostou. E ele o abraçou novamente. "Por favor, não faça mais isso. Não desapareça assim de perto de mim".

"Eu quero chocolate".

"Ok, pode escolher um".

"Só um?".

"Um tablete está bom, Karl. Olha o seu tamanho". Ele sorriu.

Cuddy tinha razão, seria impossível não mudar quando se experimenta a paternidade.

...

Naquela mesma noite os irmãos de Karl vieram para a janta. A ex-cunhada de Lydia os levou até lá e avisou que os buscaria em algumas horas. Ela não queria privar a convivência dos irmãos. Apesar do pai não ser a favor. Inclusive, eles estavam temporariamente na casa dela, logo mudariam definitivamente para a casa do pai no Arizona.

"Eu não quero ir". Ben reclamou.

"É o seu pai".

"Ele é chato!".

"Vocês podem voltar pra ficar com a tia de vocês eventualmente. Podem ver Karl".

"Posso ler algum livro dessa estante?". Gina perguntou para House.

"Você gosta mesmo de medicina".

"É legal".

House sorriu. "Vou te dar um livro pra você levar e decorar".

Ele entregou pra ela um livro de anatomia e fisiologia.

"Eis o começo de todo o médico. Saber tudo o que pode sobre o corpo humano".

Os olhos da menina brilharam. "Obrigada".

"Quando você vier pra cá eu vou perguntar coisas… quero ver se saberá me responder".

"E eu? O que eu posso levar?". Ben perguntou ansioso.

"Vejamos… que tal esse jogo?". House entregou pra ele um jogo de vídeo game que o menino adorava. "Eu quero que tenha zerado o jogo quando voltar aqui".

"Uau! Sim! Você é muito legal, cara".

House riu. Por alguma razão ele havia se apegado aquelas crianças também. Ele pensou que Lydia gostaria disso e sorriu.

"Você é legal com eles". Eleonor falou.

"Você pode escolher alguma coisa também".

"Não precisa".

"Você já é tão madura espiritualmente a ponto de não querer coisas materiais? Tipo... você é a reencarnação do Buda?".

Ela riu. "Não, eu ainda quero muitas coisas".

"Eu sinto muito por tudo isso. Eu sei que é uma droga ficar sem a mãe. Ter que se mudar. Seus irmãos são pequenos e não entendem como você".

A menina estava distraída. "Se você ofereceu… posso ficar com isso?". Ela apontou para um bloco de receituário médico.

"Você quer drogas ilícitas e vai usar meu receituário?".

"Não exatamente…".

"O que está acontecendo?".

"Eu… tenho tido dificuldades pra dormir".

House respirou fundo. "Você passou por muita coisa e se drogar não é o caminho. E eu entendo sobre o que digo. Acredite em mim".

"Eu só quero dormir".

"Vamos fazer assim… eu vou te receitar uma indicação para um psicólogo. Ele vai te ajudar para que você não precise recorrer a nada que se arrependa depois".

A menina baixou a cabeça.

"Eleonor, as drogas são uma fuga temporária, que te prendem muito mais profundamente do que pode imaginar. Você tem tanta vida e potencial pela frente, você merece ser feliz e ser livre".

Ela concordou com a cabeça e House escreveu um encaminhamento para um tratamento psicológico. "Entregue a sua tia, ok?".

"Tudo bem".


"Ei, como foi o dia ontem?".

"Normal… uma adolescente me pediu drogas e jantei macarrão com queijo em uma mesa rodeado de crianças".

"Quem te pediu drogas?". Wilson estranhou.

"Cuddy veio conversar comigo". Ele disse pensativo mudando de assunto.

"E?".

"E eu tenho um paciente".

"House, não se começa uma coisa e depois interrompe".

"Paciente morrendo!". Ele ignorou Wilson.

"Quem te pediu drogas?". Wilson gritou e todos olharam.

Wilson sorriu sem graça. "É medicamento... medicamento lícito. Regulado. Nada controlado...". Ele tentou disfarçar e saiu rapidamente dali.

...

House pensou a noite toda em Cuddy, nos dois… em Karl o chamando de pai. Em como as coisas mudaram em tão pouco tempo. Era perturbador, mas ele não estava agindo como se estivesse perturbado. Era como se ele estivesse bem com as mudanças.

House sentiu falta de Nolan. Alguém pra falar e entender o que se passava com ele. Então ele não hesitou, ligou para o médico.

"House? Aconteceu alguma coisa?".

"Aconteceu tudo!".

"São onze horas da noite".

"Eu pago hora extra".

"Ok… só me deixe ir para outro cômodo".

E House falou sobre todas as mudanças recentes.

"Uau! Sua vida deu uma verdadeira guinada".

"Eu diria que foram algumas guinadas".

"Sinto muito por Lydia".

"É… pois é".

"E o que você pensa sobre a declaração de Cuddy?".

"Não sei".

"Você não a ama mais ou é o medo de sofrer novamente?".

"Acho que a segunda opção".

"Quando buscamos a felicidade, quando vivemos, não podemos nos colocar sempre em um local seguro. O risco faz parte da experiência humana".

"Eu devia saber que falaria coisas filosóficas".

Nolan riu. "A psicologia é uma ciência humana".

House fez som de vômito.

"E, por mais que você tente ser imune a humanidade, você é um de nós. E assim como nós, você precisa de outras pessoas".

"Eu terei Karl agora, por um longo tempo provavelmente".

"E isso não tira a possibilidade de dividir sua vida com mais alguém que ame".

"Você está do lado dela?".

"Eu estou do seu lado".

"Ela me machucou. Muito".

"Ela também se machucou e, pelo que te disse, repensou".

"Eu não a machuquei, ela terminou comigo".

"Quantas vezes ao longo desses anos você a machucou? Machucar alguém diz mais sobre nós do que sobre o outro. As vezes reagimos ao medo, ao risco e isso trás consequências ao outro, não significa que falta amor".

House respirou fundo. Ele machucou Cuddy muitas vezes, mas nunca faltou respeito e amor. Nunca.

"Cuddy estava com medo. Ela reagiu apenas sem pensar. Reagiu ao medo de morrer, ao medo de te ver envolto ao Vicodin novamente, com medo de expor sua filha".

Fazia sentido, mas ainda assim o medo poderia estar lá ainda e tudo se repetir?

"E o que me diz que ela não reagirá a esse medo novamente?".

"Você me disse que ela está fazendo terapia?".

"Wilson disse que sim".

"Já é um ótimo começo. No mais, a vida trás incertezas. Não temos como controlar tudo".

"Diga isso a ela".

Nolan riu.

"Eu não sei. Penso que ela está mais encantada com o fato de eu ser um pai do que comigo".

"E por que ela não pode estar encantada com isso também? Somos um pacote. Você é um namorado, um pai, um médico, um amante…".

"Amante muito bom, anote isso, ela mesma confirmou essa informação, não é apenas meu ego falando".

Nolan ignorou o comentário. "Ela pode estar encantada com vários aspectos seus. O fato de ser um pai também pode sim contribuir e isso não é ruim".

Ele respirou fundo.

"No mais, você a conhece há tantos anos, não é como se a conhecesse desde que começaram a sair. Isso, posso dizer que é estável. A relação longa que vocês mantém".

House pensou nisso e era algo tão óbvio, mas ele nunca havia parado para refletir a respeito.

"Mas me fale sobre Karl". Nolan pediu, percebendo que o assunto sobre Cuddy precisava de um tempo para House assimilar tudo o que foi conversado.

E House falou sobre o filho e, depois de quinze minutos, percebeu que estava parecendo um pai coruja tradicional.

"Eu estou falando como um pai alienado, certo?".

Nolan sorriu. "Você está falando como um pai. Ponto".

"Eu sempre critiquei essa cegueira paternal".

"Faz parte do pacote de pai".

"Cansei dessa teoria de pacote".

Nolan riu.

A conversa de pouco mais de duas horas fez bem a House. Ele conseguiu relaxar um pouco depois disso e decidir o que faria no dia seguinte.

Continua...