Notas da autora

Aranya descobre...

A tribo Bi-Yi consegue...

No Vale demoníaco...

A-ji sente...

Capítulo 35 – Culpa opressora

- Eu temi que você usaria essa técnica considerando o ímpeto desses bastardos que foi inflamado pela captura do rei e das suas outras irmãs. Eu li que em um passado distante essa técnica foi executada. Porém, o seu ancestral usou um parente para jogá-lo no lugar dele, conseguindo assim ativar a formação.

- Mas...

- Parece que após ser fixada a formação não é necessário o sacrifício do invocador. Pode ser utilizado um substituto desde que este tenha alguma relação parental. Não necessariamente precisa ter sangue real. Se o seu ancestral teve êxito, você terá também.

- Então, foi isso... Por que ficou alarmado com a minha decisão mesmo sabendo disso?

- Porque eu temia não conseguir pegar o bastardo a tempo, além do fato de que a descrição dos acontecimentos naquela época podia estar errada, fazendo com que eu nunca desejasse colocar a prova. Por isso, eu me desesperei ao vê-la usar a técnica mesmo possuindo essa informação. Quando eu o capturei, o forcei a tomar uma porção para que confessasse a verdade porque eu desconfiava dele. No final, o que eu desconfiava se provou verdadeiro.

- O bastardo do meu tio possuí alguma culpa sobre o fato dos mestres de demônios nos acharem muito rápido, certo? – A princesa herdeira pergunta em tom de confirmação.

- Isso mesmo. Ele foi o responsável por fazer os bastardos nos encontrarem tão rápido, independente da distância que conseguíamos colocar entre nós e eles ao deixar pistas sem que soubéssemos. Por isso, eles nos rastreavam facilmente.

- Ele desejava ser o rei, né?

- Sim. O plano dele era eliminar nós dois e o seu irmão para que pudesse ascender como rei.

- Ele é um bastardo!

- O que eu não faria para ter desconfiado dele antes... – o irmão mais velho dela fala com nítida raiva em sua voz – Se tivéssemos descoberto antes, muitas vidas teriam sido salvas.

- Ele estava tão focado em desejar ser rei que ignorou o perigo imenso que os mestres de demônios representavam. Mesmo que tivesse tido êxito em seu plano, duvido que iria reinar como rei por algum tempo. Com certeza, o clã seria exterminado antes que pudesse desfrutar do seu título.

- Eu não duvido. Ele era um desgraçado cego pela cobiça.

- O que importa é que temos uma melhor chance de viver e com certeza, raramente seremos emboscados agora que ele foi eliminado por completo.

A fênix flamejante desaparece após um último canto, para depois, todos voltarem a se organizarem para a fuga.

Afinal, mesmo que tivessem eliminado com sucesso os perseguidores, podiam ser enviados outros e eles não desejavam correr esse risco.

Prontamente, todos os sobreviventes voltam a fugir para se distanciarem o máximo possível visando eliminar qualquer chance de rastreamento do bando por novos perseguidores após traçarem uma rota longe de qualquer aglomeração humana visível.

Há dezenas de quilômetros dali, quando a noite cai no Vale demoníaco, os amigos da segunda princesa de Dacheng adormeceram com a cabeça apoiada em cima de alguns pergaminhos após traçarem um plano para libertar o tritão sendo que eles haviam planejado os meios necessários enquanto corrigiam eventuais falhas que surgiam conforme elaboravam a estratégia para salvá-lo e devolver a sua liberdade.

A-ji desistiu de tentar dormir e se levantou em segredo da cadeira, saindo em seguida do local. O motivo dela não conseguir dormir foram as lembranças do que viu na prisão e a captura do belo jiaoren.

Após pegar a sacola outrora preparada com os medicamentos necessários para tratá-lo, ela saiu da moradia decidida a aproveitar o fato de que havia pouquíssimos mestres de demônios andando pelo local naquele horário ao mesmo tempo em que ocultava os medicamentos ao esconder dentro das suas roupas, mais precisamente dentro das mangas da sua roupa.

Conforme se afastava, a princesa observou que as duas servas designadas para ela haviam retornado e estavam se dirigindo para uma construção anexa à moradia destinada aos nobres porque a pequena cabana próximo da moradia imensa era destinado aos servos.

Quando os guardas da prisão avistaram a aproximação dela, eles saíram da leve sonolência que se encontravam instantes antes e prontamente, bloquearam a sua entrada, fazendo ela ficar irada.

Então, a jovem se lembrou de que os habitantes do Vale Demoníaco, com exceção do chefe deles, desconheciam o que acontecia no palácio e que, provavelmente, não sabiam que ela não detinha qualquer poder real ou influência ao contrário da sua irmã mais velha, a primeira princesa que também era a herdeira da coroa.

Portanto, para poder entrar ela resolveu usar o seu título, algo que raramente fazia por ser inútil, mas, que poderia ajudar naquele lugar:

- Como ousam me deter? Vocês sabem quem eu sou?

Eles olham de forma abobada para ela, para depois, prestarem atenção nas roupas vestes e calçado, identificando como sendo roupas nobres e ao erguerem os olhos para o rosto de A-ji, a jovem estufa o seu peito e finge imponência ao mesmo tempo em que buscava exibir uma face arrogante ao replicar com exatidão a forma como a sua irmã mais velha tratava os inferiores:

- Eu sou uma princesa da capital e filha legitima do rei e da rainha de Dacheng. Como escórias como vocês ousam bloquear o meu caminho?

Os olhos deles se arregalam e prontamente, caem de joelhos, implorando por clemência.

A jovem fala em voz de comando imersa em um misto de impaciência e arrogância, replicando assim com exatidão a reação que Ru Ling teria naquela mesma situação conforme testemunhou diversas vezes no passado:

- Abram a porta. Eu quero ver o prêmio da minha irmã.

- Alteza, pode ser perigoso. Esse monstro conseguiu ferir vários Mestre de demônios mesmo após uma sessão intensa.

- Eu tenho pulso oculto também e aprendi a usar os meus poderes. Além disso, não é uma prisão de alta segurança? Ou por acaso, é uma prisão patética?

- Não, vossa majestade. É de alta segurança.

- Claro que a senhora pode entrar, pedimos desculpas por nosso comportamento. – O mais jovem dos guardas fala de forma submissa ao mesmo tempo em que temia alguma punição.

Quando ela entra, fica horrorizada com o que vê e com muito custo impede que a bile dela vá para a sua boca porque a cena era grotesca e igualmente perturbadora, levando lágrimas aos seus olhos.

Afinal, todo o chão e paredes negras estavam tingidos de sangue, além de ver gravíssimas lesões no jiaoren.

A princesa levou as mãos a sua boca enquanto começava a ser tomada por uma dor imensa que a perfurava implacavelmente assim como uma culpa colossal que a oprimia brutalmente, fazendo-a se lastimar de não ter aceitado a sua morte na cabine do navio porque se tivesse aceitado morrer naquele momento, o tritão nunca a teria encontrado e consequentemente, nunca se aproximaria da terra e, portanto, não seria capturado.

Na visão da jovem foi culpa dela o sofrimento, a humilhação e a dor que o seu salvador estava passando, com a princesa mais nova jurando aceitar qualquer punição que ele quisesse dar a ela. Foi o seu egoísmo de querer ficar vivo que causou tudo aquilo. A culpa era um carrasco cruel e não dava trégua em seus pensamentos e coração.

Ao se recuperar parcamente, ela começa a se preparar para trata-lo.

Claro que quando separaram os medicamentos mais cedo naquele dia, eles esperavam estarem juntos dela para tratar o jiaoren usando o status de A-Ji como princesa para entrar na cela de pedra negra repleta de talismãs e selos que visavam selar o poder demoníaco do demônio preso naquele local.

Os seus olhos repletos de culpa e desolação observavam os vários ferimentos e o sangue que escorria profusamente das várias feridas em seu corpo, para depois, observar a enorme e imponente cauda que outrora era incrivelmente linda e que naquele momento após a tortura, perdeu completamente a sua força e beleza, fazendo com que ficasse pendurada por uma flecha dourada fincada na parede por onde saiam correntes negras cortantes que envolviam brutalmente a cauda ao mesmo tempo em que a comprimiam, fazendo verter mais sangue e ao olhar para a parte de cima foi tomada por mais dor e culpa ao ver que o cabelo prateado estava manchado de sangue enquanto era visível o seu rosto pálido e seus olhos entreabertos apenas pela imensa força de vontade que ardia em seu interior.

Os seus olhos eram azuis gelados quando chegou e durante parte da punição que assistiu antes de ser arrastada para fora pelos seus amigos.

Porém, naquele momento, os olhos haviam se tornado cinza opaco e sem foco ou espírito, como se estivesse quase morto. Era evidente que ele deve ter usado todas as suas forças para resistir e ferir o seu algoz que o humilhava e o machucava, confirmando assim o que um dos guardas disse a ela.

A-ji se recuperou e abaixou a cabeça olhando para o ferimento em sua cauda onde a corrente de ferro preto brotava e que se espalhava por toda a sua superfície, perfurando a sua carne e fazendo escorrer um líquido carmesim. Pelo estado da cela, o jiaoren havia perdido muito sangue e ela temia que ele morresse se não recebesse qualquer tratamento.

Em qualquer momento, seria perversidade ajudá-lo a ficar vivo porque sofreria novamente. Mas, como ela tinha esperança em seu plano de soltá-lo era necessário que ele sobrevivesse.

Por isso, estava decidida a tratá-lo ao mesmo tempo que esperava conseguir, em algum momento, fazer ele ganhar alguma força para poder fugir quando chegasse o momento de libertá-lo, com a jovem não se importando com o preço que pagaria porque, a seu ver, era tudo culpa dela e por isso, devia arcar com as consequências dos seus atos.