Capítulo 19 - A Fuga
O coração de Fleur congelou dentro do peito ao testemunhar a cena através da parede de vidro. Seus olhos encontraram Lucius, parado e encurralado no corredor à sua frente, como uma presa sem escapatória. Duas figuras avançavam em sua direção, varinhas erguidas, cada movimento carregado com a promessa de perigo iminente. Seus rostos estavam ocultos por grossos cachecóis de inverno, revelando apenas olhos sombrios que brilhavam com intenções malévolas. A tensão no ar era quase palpável, uma corrente elétrica que fazia cada fio de cabelo em sua nuca se arrepiar. Mesmo desarmado, Lucius mantinha-se firme, uma estátua de determinação que se recusava a ser esculpida pelo medo.
Então, algo chamou a atenção de Fleur: uma figura familiar parada no fim do corredor. Era Bruna Nichols, a jovem auror em treinamento que ela reconhecia por sempre estar ao lado de Ron Weasley. A presença de Bruna deveria ter trazido um lampejo de esperança, uma garantia de que a justiça prevaleceria. Mas o que Fleur viu fez seu sangue gelar ainda mais. Bruna estava imóvel, uma estátua de indecisão, observando sem sequer erguer a varinha para auxiliar Lucius. Seu olhar estava fixo na cena, mas havia algo vazio em seus olhos, como se estivesse presa em algum conflito interno invisível. Uma onda de frustração e desespero inundou Fleur. Bruna, cuja missão era proteger os outros, estava ali, paralisada enquanto Lucius enfrentava um perigo mortal.
Quando viu os dois atacantes começando a conjurar a maldição da morte, seu coração disparou em pânico, batendo como um tambor de guerra em seu peito. Lucius, preso no fundo de um corredor com paredes de vidro dos dois lados, fechou os olhos, resignado à sua sorte. Ele sabia, assim como Fleur, que não havia defesa contra a mais terrível das maldições. Os dois homens, com as varinhas apontadas para Lucius, começaram a pronunciar juntos: "Avada...". O som da palavra inacabada pairou no ar, pesada como chumbo. Fleur e Lucius estavam cientes de que, uma vez completa a maldição, não existia retorno.
…
A Ministra Wilma Dean e o auror Alvin Arcor estavam concentrados, suas varinhas apontadas para os dois grandes pilares do átrio. Enquanto eles tentavam conjurar o poderoso Feitiço Ímã, que poderia salvar o Ministério, os aurores ao redor se esforçavam para mantê-los protegidos. Feitiços cruzavam o ar em todas as direções enquanto os aurores bloqueavam os ataques com barreiras e contra-feitiços.
Invasores mascarados, seus rostos ocultos por cachecóis azuis, invadiam freneticamente o átrio. Alguns corriam para as escadas, tentando alcançar os outros andares, enquanto outros lançavam feitiços explosivos diretamente contra Wilma e Arcor, determinados a impedi-los de completar a magia.
Ron Weasley, após reorganizar rapidamente a divisão dos aurores para cobrir melhor as brechas na defesa, percebeu algo estranho no comportamento de Nicolas Havana, um auror jovem, mas que Ron sempre considerou extremamente leal. Havana, que estava na linha de frente ajudando a conter os invasores, de repente parou sua investida. Seus movimentos ficaram lentos e calculados, e seus olhos, anteriormente alertas, agora tinham um brilho frio e vazio.
Ron sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ele seguiu o olhar de Havana e, com horror, viu o auror se voltar diretamente para a Ministra Wilma Dean. Sem hesitar, Havana levantou sua varinha e a apontou para ela, ignorando completamente o caos ao seu redor. Ron percebeu naquele instante: Havana estava sob a Maldição Imperius.
Agindo rápido, Ron lançou um feitiço:
— Accio varinha! — A varinha de Havana foi arrancada de sua mão antes que ele pudesse lançar o ataque.
Ron não perdeu tempo. Voltando sua atenção para o conjurador à porta, ele gritou:
— Alguém detenha Havana! Ele está sob a maldição Imperius!
De repente, um grupo de pessoas, com os rostos cobertos por cachecois, conseguiu romper uma barreira lateral e avançou em direção ao interior do Ministério. Ron, dividido entre perseguir o homem que controlava Havana e parar os novos invasores, tomou sua decisão. Ele abandonou a perseguição e se lançou contra os invasores, determinado a impedir que tomassem o prédio.
— Não podemos permitir que eles se espalhem pelo prédio! — alertou. — Vocês dois, comigo!
Eles correram para interceptar o grupo invasor. Ron ergueu a varinha com destreza.
— Estupefaça!
Um dos invasores foi atingido em cheio, caindo inconsciente. Os outros hesitaram, mas logo retaliaram com feitiços de atordoamento. Ron desviou habilmente, rolando pelo chão e se protegendo atrás de uma coluna.
Ron se ergueu, mudando de posição rapidamente. Ele viu um grupo de três invasores se aproximando, suas varinhas erguidas para atacar em conjunto. Pensando rápido, Ron ergueu a varinha e conjurou:
— Confringo!
A explosão fez o chão tremer, separando os invasores e derrubando dois deles no impacto. Aproveitando a confusão, os aurores ao seu lado dispararam feitiços de contenção, amarrando os invasores antes que eles pudessem se recompor.
…
Ao chegar ao andar dos aurores, Bruna reduziu o ritmo, os passos tornando-se quase inaudíveis sobre o piso de pedra polida. O corredor estava mergulhado em uma penumbra inquietante, as luzes das tochas oscilando suavemente e lançando sombras trêmulas nas paredes. O som distante do tumulto nos andares inferiores chegava até ela como um sussurro abafado, mas ali, naquele espaço isolado, tudo parecia suspenso no tempo.
De repente, seus ouvidos captaram algumas vozes adiante. O coração acelerou em seu peito, aquele andar deveria estar vazio, quem quer que fosse estava invadindo. Com cautela, Bruna espiou pela esquina, mantendo-se oculta nas sombras.
A cena diante de seus olhos fez o sangue gelar em suas veias. Lucius Malfoy estava encurralado contra a parede oposta, completamente desarmado. Sua postura altiva habitual havia dado lugar a uma rigidez tensa, os olhos fixos nos dois indivíduos que o ameaçavam. Os homens, com rostos parcialmente cobertos por cachecóis azuis escuros, emanavam uma aura sinistra. Seus olhos, as únicas partes visíveis de seus rostos, brilhavam com determinação implacável.
A tensão no ar era quase palpável. Bruna observou, impotente, enquanto os agressores erguiam lentamente suas varinhas na direção de Lucius. O tempo parecia desacelerar, cada movimento acontecendo em câmera lenta. Lucius respirou fundo e fechou os olhos, como se aceitasse o destino que se aproximava.
As vozes dos homens começaram a entoar palavras que Bruna reconheceu imediatamente, as sílabas arrastadas carregadas de intenção mortal:
— Avada...
Um brilho esverdeado começou a pulsar nas pontas das varinhas, iluminando sinistramente o corredor escuro. Bruna sentiu um nó se formar em sua garganta, a náusea subindo rapidamente. Ela já havia presenciado a conjuração daquela maldição nos treinamentos. Mas ali, diante de uma execução real, seu corpo congelou.
"Faça alguma coisa!", gritava sua mente, mas seus músculos não obedeciam. As pernas pareciam feitas de chumbo, os braços pesados e inúteis ao longo do corpo. O medo a dominou completamente, uma onda avassaladora que a impedia de agir.
Lágrimas começaram a se formar em seus olhos, borrando a visão. A impotência era esmagadora. Lucius Malfoy, que havia comparecido ao Ministério por vontade própria para colaborar com a investigação, seria morto ali mesmo, e ela, uma auror em treinamento, não conseguia mover um dedo para impedi-lo.
…
Ao ver a Maldição da Morte ser conjurada em direção a Lucius, Fleur sentiu um frio cortante invadir cada fibra do seu corpo, como se, apenas por presenciar a maldição, sua própria energia vital estivesse sendo sugada. Lucius, com uma postura altiva, de olhos fechados aceitou seu destino com uma serenidade que a desesperava.
Ele precisava percorrer menos de cem metros de um corredor vazio, da sala de interrogatório até ela. Uma tarefa que parecia simples e livre de perigo. Nunca imaginaram que os manifestantes conseguiriam chegar até aquele ponto, rompendo a segurança dos aurores. E agora, Lucius morreria, porque ela subestimou o caos que as circunstâncias poderiam gerar.
Suas pernas fraquejaram, e o ar ao seu redor se tornou denso, quase impossível de respirar. No entanto, Fleur recusou-se a ceder ao desespero. Ela não iria simplesmente assistir à morte de Lucius sem lutar. Utilizando cada grama de autocontrole que possuía, forçou-se a encontrar uma calma interior que ela nem sabia ser capaz de alcançar diante de uma ameaça tão aterradora.
Seus olhos percorreram o ambiente, febris e rápidos, até se fixarem na porta ao lado dos atacantes. Ali estava sua única chance, a única oportunidade que poderia mudar o destino deles. Fleur soube naquele momento que agir era sua única opção, e ela o faria, mesmo contra o terror que pulsava ao seu redor.
Com um movimento surpreendentemente rápido, ela puxou a varinha que mantinha escondida em sua polaina e reunindo toda a energia que conseguia, ergueu a varinha. Com uma voz carregada de uma determinação feroz, gritou:
— Accio porta! — Fazendo um gesto vigoroso com o braço, como se pudesse, pela pura força de vontade, arrancar a porta de suas dobradiças.
A porta foi arrancada de seu marco com uma força implacável, e colidiu violentamente contra os dois homens. O impacto os arrastou para longe, interrompendo a conjuração mortal no último instante. A porta os atingiu com uma força devastadora, arremessando-os contra a parede de vidro que explodiu em uma chuva de cacos brilhantes. Seus corpos foram lançados para dentro da sala onde Fleur estava, derrubando tudo em seu caminho.
As escrivaninhas, antes posicionadas no centro do cômodo, foram violentamente empurradas até o fundo, esmagando papéis, livros e objetos que se espalharam em um rastro de destruição implacável. O cenário era de puro caos: fragmentos de vidro dançavam no ar como pequenos diamantes, enquanto móveis tombados e detritos espalhados pintavam a imagem de um campo de batalha.
Os atacantes, incapazes de completar sua conjuração, ficaram esmagados entre a porta e a escrivaninha, caindo desmaiados no chão. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor, quebrado apenas pela respiração pesada de Fleur. Ela sentiu as pernas fraquejarem, mas manteve-se em pé, alimentada pela adrenalina e pelo alívio que começava a inundar seu ser.
…
Bruna observava tudo à distância, paralisada pelo terror. O ar ao redor dela parecia congelar, cada segundo se alongando em um tormento interminável. E então, no último instante, ela presenciou quando uma porta ao lado dos atacantes foi arrancada de suas dobradiças com uma força devastadora, voando na direção dos homens.
O impacto foi imediato e brutal, a madeira colidiu violentamente com os dois, interrompendo a conjuração da maldição no exato momento em que seria lançada. O som reverberou pelo corredor, seguido por estilhaços de vidro que explodiram quando os corpos dos agressores foram arremessados contra a parede de vidro.
Bruna, ainda em choque, viu tudo acontecer como se estivesse presa em um pesadelo. A cena diante dela se desenrolava em câmera lenta: os corpos caindo no chão, a chuva de cacos brilhando sob a luz fraca, o som da destruição ecoando ao redor. A pressão opressiva da maldição da morte ainda pairava no ar, deixando-a tonta, o estômago revirando.
A náusea tomou conta dela. Então ela curvou-se, apoiando-se na parede, o corpo tremendo enquanto tentava conter o mal-estar. Mas era inútil. Bruna vomitou, o som ecoando no corredor agora silencioso, e fechou os olhos com força, tentando recuperar algum controle, enquanto a sensação de fracasso a atingia com força.
…
Lucius abriu os olhos, a surpresa e o alívio estampados em seu rosto, e então direcionou o olhar para dentro da sala. Lá estava Fleur, a varinha firmemente empunhada, e o rosto marcado por pequenos cortes, vestígios dos cacos de vidro que se estilhaçaram ao seu redor. Quando seus olhares se encontraram, a magnitude do que acabara de acontecer o atingiu como um golpe. Ela havia salvo sua vida, interrompendo uma maldição da morte, uma maldição que todos sabiam ser inescapável.
Lucius atravessou o buraco deixado pela porta, o coração martelando no peito, cada batida ecoando em sua mente. Quando finalmente alcançou Fleur, que o esperava, ainda ofegante, suas palavras escaparam antes que ele pudesse contê-las, carregadas de uma emoção intensa que ele mal conseguia controlar:
— Obrigado.
Fleur, com o nervosismo visível em seus olhos, tentou esboçar um sorriso, pequeno e hesitante.
— O prazer foi meu — respondeu, a voz soando firme, mas as mãos trêmulas revelavam seu estado interior. Apesar de sua tentativa de manter a compostura, o nervosismo borbulhava dentro dela.
Lucius, observando esses sinais, sentiu uma conexão silenciosa entre eles, um reconhecimento mútuo do medo e da adrenalina que ambos haviam acabado de enfrentar. Por um breve momento, o silêncio entre eles falou mais do que qualquer palavra.
O silêncio foi rompido abruptamente pelo som ameaçador de uma horda se aproximando, seus passos reverberando pelos corredores, aumentando a tensão que pairava no ar. Lucius, ainda lidando com o impacto de estar sem sua varinha, sentiu-se abalado. Azkaban o havia acostumado à sensação de impotência, de ter sua força e segurança arrancadas. Ele havia imaginado que ao sair de lá isso acabaria, para sempre, por isso mesmo, ser resgatado e depender de outra pessoa para sobreviver era uma experiência profundamente perturbadora e desconcertante para ele.
Ele quase pediu para Fleur lhe entregar a varinha, acreditando que deveria garantir sua segurança, mas a ideia logo lhe pareceu absurda. Contra todas as probabilidades, Fleur havia desafiado o impossível e parado uma maldição da morte, era evidente que ela poderia protegê-los e ele não iria ofendê-la oferecendo uma ajuda que ela não precisava.
Colocando a mão em seu ombro, ele se posicionou atrás dela, indicando que guiaria o caminho enquanto ela, com a varinha empunhada, cuidaria da segurança.
— Você cuida da nossa passagem, eu guio o caminho.
Era um pacto silencioso: ele conhecia o trajeto, ela os protegeria de qualquer perigo.
…
Ainda sentindo o gosto amargo em sua boca e a sensação fria do suor escorrendo pela têmpora, Bruna foi trazida de volta ao presente. Quando finalmente ergueu o olhar, sua visão ainda um pouco turva, percebeu uma figura se movimentando rapidamente pelo corredor.
Era Lucius Malfoy. Ele caminhava com urgência em direção à escada de incêndio, suas passadas firmes ecoando suavemente. Sua estatura quase ocultava completamente a pessoa que o acompanhava. Bruna notou que uma figura esguia e mais baixa permanecia próxima a ele, praticamente escondida pela silhueta de Lucius.
Mas antes que pudesse dar mais um passo, sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Um sussurro áspero soou atrás de si, tão próximo que pôde sentir o hálito frio na nuca. Era uma voz masculina, envelhecida pelo tempo. As palavras foram pronunciadas com uma calma aterradora:
— Estupefaça.
No instante seguinte, Bruna sentiu um impacto violento em suas costas. O feitiço a arremessou pelo longo corredor à sua frente, seus pés deixando o chão enquanto o mundo ao seu redor se transformava em um borrão de luzes e sombras. O ar escapou de seus pulmões em um arquejo surpreso.
Ela colidiu com o chão de mármore, deslizando por vários metros antes de parar. A dor explodiu em seu corpo, cada nervo gritando em protesto. Tentou mover-se, mas seus membros não respondiam, uma dormência pesada a envolvia. Sua varinha escapou de sua mão, girando para longe, fora de alcance.
Os sons ao seu redor começaram a se distorcer, tornando-se ecos distantes. O corredor parecia se alongar infinitamente, as paredes fechando-se ao seu redor. Tentou chamar por ajuda, mas nenhum som saiu de seus lábios.
…
Do lado de fora do Ministério, na Praça dos Feiticeiros, Alastor Moody estava sozinho, firme no campo de batalha. A multidão de manifestantes avançava com fúria implacável na direção das portas do Ministério. O caos era total, mas Moody, veterano de incontáveis batalhas, permanecia resoluto.
Seu olho mágico girava incansavelmente, absorvendo cada detalhe. Ele percebia que a situação era crítica: o domo de proteção estava quase inteiramente desfeito, e as enormes brechas no escudo permitiam que atacantes, com rostos cobertos, se infiltrassem em direção ao átrio. No entanto, o perigo maior estava nos conjuradores do lado de fora, os que estavam carregando a catapulta que atingiria o Ministério desprotegido. Sua missão era detê-los antes que eles atingissem seu alvo.
Moody se deslocava com firmeza e agilidade na direção da catapulta. Com a varinha da mão esquerda, Moody se defendia, desviando feitiços que eram lançados em sua direção. Sem precisar pronunciar uma palavra, ele bloqueava os ataques com movimentos rápidos e precisos. Cada feitiço que vinha em sua direção ricocheteava ou desaparecia em um brilho ofuscante. Sua experiência era evidente em cada ação, os reflexos afiados por anos de batalha.
Já com a varinha da mão direita, sua missão era ofensiva. Ele neutralizava qualquer pessoa que tentasse o impedir de chegar até a catapulta. Sua voz ecoava com firmeza:
— Estupefaça! — O feitiço disparou da varinha de Moody, atingindo três manifestantes simultaneamente, derrubando-os como bonecos.
— Petrificus Totalus! — Outro grupo ficou imediatamente imobilizado, as varinhas escapando de suas mãos enquanto caíam no chão, completamente paralisados.
Os feitiços de Moody não atingiam apenas um inimigo por vez, eram fortes o suficiente para incapacitar vários oponentes simultaneamente. Moody avançava com determinação implacável, sabendo que ele era a última barreira entre os conjuradores e a defesa da Ministra da Magia. Mas ele precisava ser ágil, pois o ataque da catapulta poderia ocorrer a qualquer momento.
…
Feitiços de todas as cores cruzavam o ar como raios descontrolados, enquanto o som estrondoso de explosões e feitiços colidindo reverberava pelas paredes de mármore do átrio.
No centro do tumulto, a Ministra Wilma Dean e o auror Alvin Arcor, estavam lado a lado, focados em uma missão crucial. Seu objetivo era ativar o Feitiço Ímã, a última linha de defesa do Ministério, capaz de atrair para o chão todas as varinhas e objetos mágicos não autorizados, neutralizando instantaneamente a ameaça. Mas para isso, precisavam agir em perfeita sincronia, operando dois pilares mágicos localizados no átrio.
Enquanto os manifestantes avançavam, os aurores mantinham uma linha defensiva ao redor de da Ministra e da Arcor, lutando com destemor para conter o avanço. Feitiços voavam de ambos os lados, e a tensão era palpável. A Ministra movia sua varinha em gestos precisos, murmurando as palavras necessárias para ativar o feitiço, enquanto Arcor replicava os movimentos e palavras no outro pilar.
Mircella, a assistente da Ministra, observava assustada de trás de um pilar, parcialmente escondida. O caos ao redor a deixava visivelmente abalada. Com a voz trêmula, ela se atreveu a dizer:
— Ministra, não acho que seja uma boa ideia se expor em meio a esse caos!
A Ministra lançou-lhe um olhar rápido, penetrante, mas cheio de determinação.
— Antes de ser política, sou uma combatente — declarou ela, a voz transbordando coragem. — E agora quero ver quem terá a ousadia de me acusar de estar dormindo enquanto tentam abalar o Ministério. Agora, por favor, pare de falar, não posso perder a concentração aqui.
As runas gravadas nas estruturas começaram a brilhar, respondendo à magia que começava a fluir. A energia dos pilares crescia, enquanto o ar ao redor vibrava com uma tensão elétrica. Eles sabiam que não faltava muito para completar a ativação, só precisavam resistir mais um pouco.
…
A adrenalina corria pelas veias de Fleur enquanto ela mantinha a varinha firme, conduzindo Lucius pelos corredores silenciosos do Ministério da Magia. Lucius, ainda abalado, mantinha a mão firme em seu ombro, guiando-a com determinação em direção à passagem secreta que ele conhecia de seus tempos como conselheiro do ministério. O ar estava carregado de tensão, e a sensação de perigo iminente não a abandonava. Mesmo assim, até aquele ponto, tudo seguia como o esperado.
Os corredores estavam vazios, reflexo do caos meticulosamente arquitetado. Zaino havia distraído os aurores, enquanto os manifestantes, inflamados por uma mentira engenhosa de Rita Skeeter, ampliavam o tumulto. Contudo, algo não se encaixava. Fleur sentia uma tensão no ar, uma ameaça que não fazia parte do plano. Seus instintos se confirmaram quando tremores reverberaram pelas paredes do Ministério, e Lucius, sem aviso, foi o alvo de uma Maldição da Morte. Fleur reagiu rápido, evitando o pior. Mas, o fato de uma maldição tão mortal ser lançada dentro do próprio Ministério deixava evidente: as coisas tinham saído completamente de controle.
— Estamos quase lá — sussurrou Lucius, inclinando-se próximo ao ouvido dela. Viraram em uma esquina, mas, antes que pudessem reagir, deparam-se com uma figura parada no meio do corredor.
Era um homem de cabelos grisalhos, com uma aparência impecável e uma longa capa que acentuava ainda mais sua figura exagerada. Seu cabelo, meticulosamente repartido, e o fino bigode torcido para cima contribuíam para sua aura cômica, lembrando uma versão caricata do Conde Drácula. Seus olhos se arregalaram ao ver a cena à sua frente: Fleur, com a varinha firme em riste, enquanto Lucius Malfoy, logo atrás, repousava uma mão protetora em seu ombro.
— Maurice Teles — murmurou Fleur, reconhecendo o vice-ministro da Magia.
O vice-ministro se recupera da surpresa inicial e, com uma expressão tensa, começa a abrir a capa para sacar sua varinha. Fleur, agindo com a rapidez de uma caçadora experiente, levanta sua própria varinha e dispara:
— Estupefaça!
…
Finalmente, os olhos atentos de Moody captaram o que procurava. Três figuras encapuzadas, afastadas da linha de frente, preparavam a catapulta mágica para desferir um novo ataque. Seu rosto endureceu em uma expressão de determinação ao fixar o olhar neles.
— Aí estão vocês... — murmurou para si mesmo.
Sem perder tempo, Moody retirou do bolso um anel de vidro colorido, uma joia mágica de poder singular. Esse anel amplificava feitiços explosivos, mas tinha uma limitação: era de uso único. Assim que cumpria sua função, virava cinzas, o que exigia precisão absoluta do bruxo.
Desta vez, porém, ele não podia simplesmente confiar em sua magia para se defender dos feitiços que vinham em sua direção. Pois toda a sua energia mágica estava sendo canalizada para algo muito maior: destruir aquela catapulta, antes que uma nova esfera fosse lançada. Moody, portanto, teve que se voltar para seus recursos práticos, improvisando com os itens que sempre carregava consigo.
Ao sentir o ar vibrar com a aproximação de um feitiço, ele rapidamente puxou uma pequena esfera metálica de seu casaco e jogou-a no chão. Instantaneamente, uma barreira mágica ergueu-se à sua frente, absorvendo a força do impacto e dispersando os feitiços com faíscas cintilantes. Outro ataque veio em seguida, e Moody, sem hesitar, retirou uma pequena placa de ferro encantada do bolso, segurando-a como um escudo improvisado. O feitiço atingiu a placa com um estrondo, mas foi dissipado, apenas forçando Moody a recuar ligeiramente.
Cada defesa era um jogo de tempo. Ele não podia desviar seu foco da tarefa principal. Suas defesas físicas serviam para mantê-lo firme, enquanto internamente juntava energia para seu próximo ataque. Os conjuradores, sem perceber o perigo iminente, continuavam carregando o dispositivo com a esfera brilhante, preparando-se para lançá-la.
Com a precisão inabalável de um bruxo veterano, Moody girou o anel de vidro ao redor de sua varinha, ativando o poder contido na joia mágica. Ele sentiu a energia acumulada pulsar em suas mãos, canalizando toda a sua magia para aquele único momento decisivo. Com um movimento firme, disparou o feitiço.
— Bombarda Maxima!
A magia explodiu de sua varinha com uma força avassaladora, cortando o ar em direção à catapulta. A catapulta se desintegrou em milhares de fragmentos, e os três conjuradores foram arremessados violentamente pelo ar. A onda de choque reverberou pelo campo de batalha, levantando uma nuvem espessa de poeira e espalhando destroços em todas as direções. A multidão vacilou, apavorada, pelo impacto esmagador da explosão que abalou o terreno e deixou o medo palpável no ar.
…
Um raio de luz vermelha atinge Teles em cheio, e ele desaba pesadamente no chão.
Lucius arqueia uma sobrancelha, ligeiramente impressionado com a rapidez e precisão do feitiço.
Fleur encarou o corpo inerte de Maurice Teles, e um calafrio percorreu sua espinha. A gravidade de sua ação a atingiu como uma onda fria. Ela acabara de nocautear o vice-ministro da Magia. Isso era um crime grave. Assim que ele acordasse, tanto ela quanto Lucius estariam em sérios apuros.
Engoliu em seco, mas não se permitiu demonstrar abalo. A situação exigia controle absoluto, e ela sabia que hesitar agora poderia custar caro.
— Ele viu nossos rostos — disse Fleur, mantendo os olhos fixos no corpo inerte do vice-ministro. Sua voz estava firme, mas havia uma tensão mal disfarçada. — Precisamos lançar um feitiço para que ele esqueça que nos viu. Um Obliviate de cinco minutos deve bastar.
Lucius inclinou levemente a cabeça, sua expressão marcada por uma paciência calculada, como se já tivesse considerado a falha naquele plano.
— Feitiços de memória só funcionam se a pessoa estiver acordada — corrigiu ele, o tom sereno, mas firme. — E acordá-lo com magia o deixaria desorientado por alguns minutos, até poder utilizar um feitiço de memória, e tempo é justamente o que não temos.
…
No átrio, um campo magnético começava a tomar forma, uma vibração quase imperceptível no ar ao redor deles. Alvin sentia a magia pulsando sob seus pés. Os gritos e explosões se aproximavam à medida que os manifestantes forçavam a linha defensiva mantida pelos aurores.
— Concentre-se, Arcor — disse a Ministra, sem desviar os olhos de seu trabalho.
Alvin lançou-lhe um olhar rápido, surpreso por ela ter notado sua hesitação. Endireitou-se, as mãos firmes em sua varinha, e concluiu os últimos gestos.
— Agora! — gritou a ministra, e ambos realizaram o último movimento do feitiço ao mesmo tempo.
…
Sem hesitar, Fleur se abaixou ao lado de Maurice Teles e ativou seus poderes de Veela. Uma aura sutil e envolvente irradiou dela. Com delicadeza, Fleur se inclinou mais perto, e sua voz, doce e reconfortante, fluiu como um sussurro irresistível:
— Acorde e olhe para mim.
Teles abre os olhos lentamente, e um sorriso enfeitiçado floresceu em seu rosto, como o de um marinheiro que acredita ter encontrado salvação nos braços de uma sereia, sem perceber que estava sendo puxado para as profundezas do mar. Seus olhos, cheios de fascinação, fixam-se nos de Fleur, presos na ilusão que ela havia criado. Mas antes que ele pudesse dizer ou fazer qualquer coisa, Fleur ergueu a varinha e murmurou, friamente:
— Obliviate.
Um brilho branco ofuscante emanou da ponta da varinha de Fleur e Teles desmaiou mais uma vez, sua expressão agora inerte.
Lucius observou a cena com um olhar entre a admiração e a cautela. Fleur se levanta com elegância, limpando as mãos em um movimento automático e controlado.
— Eficaz — comentou Lucius, arqueando uma sobrancelha novamente.
— Era o necessário — respondeu Fleur, sem qualquer traço de emoção na voz.
Eles retomam a fuga rapidamente, movendo-se com precisão em direção à passagem secreta. O silêncio preenchia o corredor, e apenas o leve eco dos sapatos deles cortava o ar tenso. Eles se aproximaram da entrada escondida, e Lucius empurrou a porta de pedra com um toque suave, revelando um túnel escuro e estreito.
Mas, antes que pudessem entrar no túnel, ambos sentiram um arrepio gelado no ar. Lucius lançou um olhar rápido e significativo para Fleur, sem precisar dizer uma palavra. Eles já haviam discutido isso no plano. Se as coisas saíssem de controle, o Feitiço Ímã de segurança do Ministério seria ativado, prendendo qualquer varinha não registrada ao chão. Lucius a havia alertado sobre isso e instruído exatamente como proceder.
Sem hesitar, Fleur atirou a varinha no chão, para o início do corredor longe da passagem secreta, essa era uma varinha clandestina que pertencera a uma bruxa falecida há mais de 50 anos. Sabiam que, ao fazer isso, evitariam que a varinha fosse associada a eles, deixando-a para ser presa ao solo sem causar maiores problemas.
…
Com o último movimento do Feitiço Ímã realizado pela Ministra e Arcor, uma onda de energia se espalhou pelo chão como um trovão, e os manifestantes que ainda resistiam sentiram o chão tremer sob seus pés. Aqueles que seguravam varinhas ou artefatos não registrados caíram, desmaiados, no mesmo instante, enquanto seus pertences eram puxados para o chão, presos por uma força invisível. Os poucos que ainda estavam conscientes, percebendo o que acontecera, largaram suas armas e correram em desespero, tentando escapar da ira dos aurores.
Arcor respirou fundo, seus olhos varrendo o átrio, que minutos antes estava à beira do colapso. Ele encontrou o olhar da Ministra por um breve momento. Ela assentiu, um reconhecimento discreto de seu sucesso.
— Bom trabalho, Arcor — disse Wilma, antes de voltar sua atenção para as próximas decisões.
Alvin respondeu com um aceno de cabeça, ofegante, mas satisfeito. Ele não era Moody, não tinha o mesmo vínculo com a Ministra, mas naquele dia, ele havia estado à altura do desafio.
…
Antes de fechar a porta secreta, Fleur lançou um último olhar ao corpo desacordado de Maurice Teles, que jazia no chão. A cena, por um breve momento, pareceu congelada no tempo. Ela se voltou para Lucius, seu rosto sereno, mantendo a mesma calma meticulosa de antes.
— Só um instante. Não podemos deixá-lo assim, desacordado, em meio a uma invasão no Ministério — explicou, sua voz suave, mas firme.
Lucius, em silêncio, não ofereceu objeções. Seu olhar, enigmático como sempre, era uma mistura de admiração silenciosa e uma provocação sutil. Seus olhos a seguiam de perto, observando cada gesto.
Fleur, sem hesitação, deixou que sua magia ancestral Veela fluísse por seu corpo, concentrando-se em Teles. Ela estendeu a mão na direção do vice-ministro e, em um sussurro quase hipnótico, murmurou:
— Acorde, desperto e em alerta.
Uma corrente de energia sutil, porém poderosa, irradiou de seus dedos, percorrendo o espaço até tocar o corpo inerte de Teles. O vice-ministro começou a se mexer, como se estivesse sendo puxado de um sono profundo, seus olhos lentamente se abrindo, o corpo já tentando se erguer.
Sem perder tempo, Fleur tocou o braço de Lucius com delicadeza.
— Vamos — disse ela, sua voz tranquila, mas urgente.
Sem mais palavras, eles atravessaram a porta secreta, deixando o caos para trás. O leve estalo da porta se fechando ecoou suavemente pelo túnel estreito e escuro, enquanto a escuridão os envolvia, engolindo qualquer vestígio do que haviam deixado para trás.
…
Rita Skeeter, prevendo o perigo iminente do Feitiço Ímã, havia tomado suas precauções. Antes de tudo começar, ela disfarçadamente guardara sua varinha em um compartimento secreto de sua bolsa, que ela deixara atrás da cabine telefônica. Agora, desarmada e sentindo o peso da fraqueza em seu corpo, Rita se ergueu lentamente, cada movimento exigindo esforço, enquanto seus olhos varriam a cena caótica ao seu redor, tomada por uma sensação de vulnerabilidade crescente.
A praça estava tomada por um mar de bruxos desacordados, presos ao chão, onde ficariam até que um auror viesse lhes resgatar de seu sono forçado.
Para o velho auror, os adolescentes que fugiam em pânico pareciam insignificantes. No entanto, Rita tinha visto os homens mais velhos desaparecerem, misturando-se à multidão, logo após lançarem a primeira esfera. Os jovens que ele confrontara, ao destruir a catapulta, eram meros ajudantes.
Rita, ainda tonta e com o corpo dolorido, caminhou com dificuldade pela praça até chegar a um cachecol, que um dos membros do grupo de atacantes deixara cair. Ajoelhou-se brevemente, pegou o cachecol e olhou ao redor, contemplando a cena de destruição e confusão.
Com esforço, enfiou a mão no bolso e tirou uma pequena máquina fotográfica. Para sua surpresa e alívio, o objeto, embora delicado, não havia se quebrado no impacto. Com um suspiro de satisfação, ela se dirigiu à grande estátua dos Três Feiticeiros no centro da praça. Cada movimento doía, mas Rita não se deixaria abater. Subindo com dificuldade até o pedestal da estátua, ela ergueu a câmera, apontando para o cenário de caos.
O clique da câmera ecoou pela praça silenciosa. Uma sensação de triunfo percorreu seu corpo enquanto murmurava para si mesma: "O próximo prêmio de jornalismo investigativo acaba de ter meu nome gravado nele."
…
Fleur e Lucius estavam no túnel imerso em uma escuridão opressiva. Sem suas varinhas, atravessar aquele caminho tornou-se uma tarefa perigosa.
— Essas luzes deveriam estar desligadas? — questionou Fleur, a voz carregada de preocupação enquanto seus olhos percorriam o ambiente mergulhado em sombras.
Lucius, estreitando os olhos na tentativa de enxergar algo na escuridão opressiva, respondeu em um tom ponderado:
— Não, não deveriam. Deve ser alguma nova medida de segurança implementada. — Ele fez uma pausa, considerando as opções. — Até podemos ativar as luzes de emergência, mas fazer isso provavelmente alertaria qualquer sistema de vigilância ou feitiço de proteção. Seria como gritar aos quatro ventos que há intrusos aqui.
A escuridão era tão espessa que eles mal conseguiam ver suas próprias mãos, e Lucius sabia que, sem enxergar, seria impossível guiá-los pelos labirintos das saídas secretas do Ministério.
Fleur soltou um suspiro profundo antes de falar, com a voz baixa e controlada:
— Vou usar minha magia Veela para fazer meu corpo brilhar, mas... pode ser que você fique um pouco... encantado com a minha presença.
No silêncio tenso, Lucius esboçou um sorriso que, mesmo no escuro, Fleur parecia perceber.
— Mais ainda? — ele murmurou, com uma provocação sutil na voz.
Fleur, porém, manteve um tom sério.
— Não estou brincando Lucius. Sem o seu anel de autocontrole, você pode experimentar um desconforto considerável. Principalmente quando o efeito dissipar.
A atmosfera leve desapareceu instantaneamente. Lucius ficou em silêncio por alguns instantes, refletindo sobre a advertência, antes de responder com uma voz controlada:
— Entendido.
Fleur fechou os olhos, murmurando palavras antigas em um sussurro que Lucius não conseguiu entender. Lentamente, seu corpo começou a emitir uma luz suave, um brilho prateado que iluminava os corredores ao redor deles.
As sombras que antes os envolviam dissiparam-se, revelando os detalhes das paredes e o caminho à frente. Lucius, ainda parado, ficou atônito diante da visão. Por um momento ele pensou que ela nem parecia feita de carne, parecia um ser mágico feito de pura luz.
Com a boca levemente entreaberta, ele murmurou, sem conseguir desviar o olhar:
— Quando eu a vi brilhar assim pela primeira vez, achei que talvez você fosse um anjo, enviada para redimir meus pecados. — Ele fez uma pausa, sua voz se tornando mais grave e cheia de reverência. — Mas agora você salvou a minha vida, e eu tenho certeza de que...
Antes que ele pudesse continuar, Fleur avançou com determinação, parando a poucos centímetros de distância. Seus olhos faiscavam com um brilho prateado que parecia vivo, enquanto sua voz, firme e contida, pronunciava-se com precisão:
— Pare agora.
Lucius parou imediatamente, o efeito da magia Veela cortando seu impulso de falar. Ele ficou imóvel, o silêncio entre os dois carregado de tensão.
— Lucius, isso é só a magia Veela falando através de você. Respire fundo e recupere seu controle — disse Fleur com uma calma firme, mas com uma autoridade cortante. — Não quero que diga nada do que possa se arrepender depois. Você já resistiu a magia Veela muito mais intensa vinda de mim, e tenho certeza que, mesmo sem o seu anel, é perfeitamente capaz de lidar com isso.
Lucius fechou os olhos por um instante, deixando escapar um suspiro pesado. A ausência do anel, que outrora lhe conferia equilíbrio, agora o tornava muito mais vulnerável à magia de Fleur, um feitiço ao qual, por pouco, quase se entregara completamente. Um lampejo de vergonha o atravessou, reprimindo as palavras que haviam quase escapado de seus lábios. Em silêncio, recompôs-se, e com um gesto firme, ergueu a mão, apontando adiante para a encruzilhada que os aguardava, como quem retoma o controle de seu próprio destino.
…
No átrio, após a turbulência acalmar e os últimos resquícios de caos serem contidos, a Ministra Wilma Dean aproximou-se de Ron Weasley. Havia um brilho de admiração em seus olhos escuros, e seu porte altivo refletia a confiança de alguém que comanda em meio às crises. Ela estendeu a mão com elegância, um gesto carregado de respeito genuíno.
— Senhor Weasley, sua trajetória sempre foi notável, muitas vezes associada a grandes figuras — disse ela, a voz firme, mas com um calor sutil. — No entanto, hoje o senhor mostrou que sua liderança e coragem brilham por si mesmas, sem ficar à sombra de ninguém.
Ron apertou a mão da ministra com firmeza, sentindo a força e a determinação que emanavam dela. Um senso de orgulho revigorante percorreu seu interior.
— A honra é minha, Ministra — respondeu ele com humildade. — Mas, ouvir isso vindo da senhora tem um significado muito especial. — Ele fez uma breve pausa, esboçando um sorriso. — Fiquei sabendo que compartilhamos a mesma casa em Hogwarts.
Um sorriso confiante curvou os lábios de Wilma Dean, e seus olhos brilharam com uma centelha de nostalgia.
— Vermelhos se reconhecem à distância — replicou ela, com um leve tom de brincadeira.
Por um momento, os dois compartilharam um entendimento silencioso, uma conexão que refletia exatamente o que a Grifinória representava: coragem, bravura e um senso inabalável de justiça. A Ministra recuou um passo, pronta para voltar às suas responsabilidades, mas antes de se afastar, lançou um último olhar de reconhecimento a Ron, dizendo com um leve sorriso:
— Continue assim, senhor Weasley. Continue assim, e talvez o Moody finalmente possa se aposentar.
A tranquilidade foi quebrada pela aproximação apressada de Gabriel Lourd. Ele se aproximou de Ron, estendendo a mão com um pequeno saco plástico de evidências contendo um anel brilhante em seu interior.
— Senhor Weasley, com licença — disse Gabriel, a voz hesitante.
Ron o observou com curiosidade e perguntou:
— Onde você estava, Gabriel?
As orelhas de Gabriel ficaram imediatamente vermelhas de vergonha, e ele abaixou os olhos antes de responder:
— Eu... fui petrificado ao pisar num papel enfeitiçado, senhor. Havana acabou de me despetrificar.
Ron manteve a compostura, apesar do leve sorriso que ameaçava aparecer.
— Isso explica por que não vi você por aí — disse Ron, com um toque de humor. — E o que é isso que você tem na mão? — perguntou, referindo-se ao saco plástico que Gabriel segurava.
Gabriel, ainda com as orelhas vermelhas de vergonha, estendeu o saco contendo o anel.
— Achei que o senhor deveria ver isso, senhor — disse ele, hesitante. — Encontrei esse anel atrás do pilar onde a ministra estava. Parece muito mais valioso do que as outras joias mágicas que encontramos até agora.
Ron pegou o saco e observou o anel com atenção, a testa franzida de leve.
— Com a nossa sorte, deve ser mais uma das joias Malfoy — murmurou, examinando o objeto com atenção redobrada. Ele puxou a lista de joias desaparecidas que Lucius lhe havia fornecido, e um nome imediatamente saltou aos seus olhos: Anel de âmbar, joia com efeitos oculares. Ele suspirou, cansado. Mais uma vez, Lucius Malfoy estava envolvido em uma trama perigosa, e agora cabia a ele descobrir o que era esse anel e como ele havia aparecido ali.
…
Movendo-se rapidamente, Fleur e Lucius acabaram em um subsolo esquecido, um depósito que parecia ter sido abandonado há séculos. O cenário era caótico e negligenciado: cadeiras quebradas, pianos destroçados, bicicletas enferrujadas e vassouras desgastadas estavam espalhadas entre caixas de materiais para decoração de festas, criando um ambiente de desordem e abandono.
Lucius, ainda sentindo o efeito da magia de Fleur, observava enquanto ela desativava a luminosidade ao redor de seu corpo e fechava a porta com um movimento firme, empurrando uma velha cadeira contra o batente para bloquear a entrada. O som seco da madeira batendo contra a pedra ecoou pelo espaço vazio, arrancando-o de seus devaneios e trazendo-o de volta à realidade. Sem conseguir esconder o constrangimento pelo que quase dissera, ele abriu um sorriso forçado e murmurou:
— Me desculpe pelo inconveniente.
Fleur parecia distante, com o olhar perdido em meio aos próprios pensamentos e a preocupação com Zaino. Seus olhos varriam o ambiente com cautela, observando os velhos canos de correspondência, enferrujados e pendendo em decadência. Mas ao ouvir Lucius, ela interrompeu sua vigilância e, com um sorriso culpado, o encarou diretamente.
— Lucius, nem pense em se desculpar comigo... — disse ela, com a voz firme, mas serena. — Não, quando meu plano quase custou a sua vida... — Um sorriso leve, quase triste, suavizou a tensão em seu rosto.
As palavras eram calmas, mas a culpa que ela sentia era evidente, impossível de disfarçar.
— Fleur, você não pode estar falando sério — disse Lucius, vendo que ela evitava seu olhar.
Ela se virou, apontando para os canos ao redor, evidentemente buscando uma distração.
— Qual deles? — perguntou, forçando a voz a soar controlada, enquanto a angústia continuava a pesar em seu peito.
Lucius ergueu a mão e apontou para um cano, meio escondido entre um pilar e a escada. Fleur seguiu o gesto dele, e antes que pudesse articular qualquer outra palavra, ouviu um suave sibilo. Um sorriso breve curvou seus lábios. Zaino estava a caminho.
O sibilo de Zaino ecoou pelo cano até que, com um som de descontentamento, o basilisco finalmente emergiu, deslizando com uma aura de poder que preenchia o ambiente. Fleur correu até ele, o rosto iluminado por um sorriso genuíno, e o abraçou com carinho, mesmo percebendo que o basilisco não compartilhava de seu entusiasmo com aquela demonstração de afeto.
— Só mais um pouquinho, Zaino — murmurou, com suavidade. — Prometo que é o último abraço.
Lucius observava em silêncio, recuperando aos poucos seu equilíbrio emocional, enquanto Fleur afagava o basilisco e deliberadamente evitava olhar para ele.
…
Rita, ainda cambaleando pelos efeitos dos ferimentos, segurava o cachecol, sentindo a textura áspera do tecido. Ela arfava levemente, tentando ignorar a dor que pulsava em cada movimento, enquanto rumava em direção ao ponto de encontro, onde Lucius e Fleur esperavam por ela.
Ela se lembrava claramente das instruções de Lucius antes de tudo aquilo começar. "Se os feitiços de segurança forem ativados, todas as portas internas se trancarão automaticamente. Você precisa chegar até a entrada escondida e abri-la por fora. Será a única maneira de sairmos sem sermos pegos."
Ela finalmente chegou ao ponto onde a porta de pedra escondida ficava, quase invisível para quem não conhecia seu segredo. Os olhos astutos de Rita, no entanto, encontraram o contorno sutil da entrada. Suas mãos deslizaram pelo anel que Lucius havia dado a ela, um artefato simples, não mágico, mas que funcionaria como uma requintada chave para abrir a porta. Então, apertando o anel contra a pedra com um gesto firme, a porta, com um suave clique, começou a se abrir, revelando uma fenda crescente por onde Lucius e Fleur poderiam escapar.
…
Enquanto acariciava a cabeça do basilisco, Fleur observou Zaino devorar a carne com avidez. Com um sorriso leve, ela murmurou com carinho:
— Pronto, você merece isso.
Zaino, alheio ao que acontecia ao redor, continuava a comer. Nesse momento, Fleur, com mãos hábeis e discretas, retirou o colar mágico que estava firmemente preso ao seu pescoço, escondido durante todo o confronto. A jóia estava completamente destruída. Com um suspiro, ela a estendeu para Lucius, seu olhar sombrio.
Lucius, evitando os olhos penetrantes do basilisco, tomou a pulseira com cuidado. A joia, que antes fora robusta, agora estava rachada e irreconhecível. Fleur quebrou o silêncio com uma voz trêmula:
— A jóia recebeu todos os feitiços que foram lançados contra Zaino, como você havia previsto... Mas, sinceramente, eu fiquei muito assustada.
Lucius examinava a peça destruída, seus dedos deslizando pelas marcas dos feitiços.
— Não havia motivo para temer — disse ele, a voz baixa, mas firme. — Os aurores jamais lançariam um feitiço letal contra um basilisco protegido por lei, dentro do Ministério, sobretudo em época de eleição. A pulseira era mais do que suficiente para conter feitiços de restrição... Apesar de terem sido muitos, veja, a jóia está completamente destruída.
Fleur, já sentindo a adrenalina se dissipar, suspirou, sua voz tremendo levemente.
— Sinto-me horrível por ter colocado vocês dois nessa situação — murmurou ela, a culpa evidente em seus olhos. — As coisas não saíram como eu planejei, e tanto você quanto Zaino poderiam ter se machucado gravemente, ou ainda pior.
Ela suspira, com a tensão à flor da pele.
— A princípio, pensei que Zaino jamais precisaria sair da mochila... — Sua voz falhou por um instante, como se a realidade estivesse pesando sobre ela. — Mas, quando vi Moody avançando em direção a ele... — Ela fechou os olhos brevemente, a respiração presa. — Tive medo... medo de que ele fosse capturado, trancafiado em algum lugar onde basiliscos são temidos... — Sua voz se tornou um sussurro trêmulo. — Mantido sedado... numa jaula pequena demais até para respirar. E a minha avó tendo que se envolver para resolver tudo, como se eu fosse uma inútil.
Ela ficou em silêncio por um instante, como se as palavras a tivessem exaurido.
— E você... — ela disse, a voz quebrada. — Achei que caminhar pelos corredores dos aurores, entre a sala de interrogatório e onde eu estava, seria seguro. — Uma pausa longa e dolorosa. — Mas você poderia ter morrido... sem sua varinha, sem defesa. E tudo isso porque eu acreditei que meu plano era perfeito.
Lucius, que até então permanecera em silêncio, deu um passo à frente, seus olhos intensos fixos em Fleur.
— Fleur, olhe para mim — pediu ele, sua voz suave, mas carregada de gravidade.
Fleur, que se esforçava para manter a compostura, sentiu a primeira lágrima ameaçar escapar. Lutando contra a emoção, ela abaixou-se ao nível de Zaino, tentando esconder sua fragilidade.
— Agora não, Lucius. Preciso colocar o Zaino de volta na mochila — disse, sem levantar o olhar, a voz trêmula, cheia de culpa. — Por que não verifica se consegue abrir a porta para sairmos?
Lucius observou o leve tremor nas mãos de Fleur enquanto ela acariciava a cabeça de Zaino. Com um suspiro, ele respondeu calmamente:
— A segurança do prédio foi acionada, com o Feitiço Ímã. A porta não vai abrir por dentro, a menos que a derrubemos É mais prudente seguir o plano e aguardar que Skeeter a abra por fora.
Fleur ainda movia os dedos acariciando suavemente a pele escamosa de Zaino, sussurrando para ele.
— Me desculpe, Zaino. Eu nunca mais vou lhe expor a algo assim, eu prometo. Volte para a mochila... Está tudo bem agora.
Obediente, o basilisco deslizou suavemente para dentro da mochila, enrolando-se com tranquilidade em seu interior. Fleur observou em silêncio, ainda incapaz de erguer o olhar para Lucius. O peso do que acontecera era esmagador, um fardo emocional que ela ainda não conseguia suportar.
— E me desculpe, Lucius — murmurou, com a voz quase quebrando. — Eu não imaginei que isso fosse acontecer.
Lucius, em silêncio, entendeu as mãos e, com delicadeza, segurou o rosto de Fleur, forçando-a a encará-lo. Seus dedos deslizavam suavemente sobre a pele dela.
— Fleur, você salvou a minha vida. — disse ele, a voz baixa, mas segura, tentando romper a distância que ela havia criado.
Surpresa pela proximidade, Fleur sorriu levemente, mantendo o olhar fixo nele.
— Você não precisaria ser salvo, se não fosse meu plano maravilhoso. — respondeu ela, com honestidade e um toque de vulnerabilidade.
Os polegares de Lucius deslizaram suavemente pelas maçãs do rosto de Fleur, seus olhos sérios e atentos aos dela.
— Se não fosse pela sua estratégia, eu jamais teria descoberto até onde meus inimigos estavam dispostos a irem por vingança. Eles planejavam me matar com uma Maldição Imperdoável, dentro do próprio Ministério. Se são capazes disso, não há limites para o que podem fazer. Agora, tenho tempo para me preparar, fortalecer minhas defesas — disse ele, fitando-a com uma mistura de respeito e admiração. Então continuou:
— E tudo isso me fez perceber, também, o quanto posso contar com você. Justamente em um momento em que pensava que não poderia contar com mais ninguém.
Ele fez uma breve pausa, como se ainda estivesse absorvendo tudo.
— Você é uma bruxa extraordinária, Fleur. Você parou uma maldição considerada imparável, apenas para me salvar — disse Lucius, a voz grave, carregada de uma emoção que ele raramente demonstrava. — E eu nem sei como começar a expressar o quanto estou impressionado... e agradecido.
Enquanto seus dedos acariciavam suavemente o rosto dela, Lucius a observava com um olhar profundo, como se estivesse diante de algo que ultrapassava sua própria compreensão. O toque dele, firme e ao mesmo tempo delicado, afastava as lágrimas que insistiam em cair, apesar de todos os esforços de Fleur para contê-las.
Fleur fechou os olhos por um instante, permitindo-se relaxar sob o toque gentil de Lucius, mas logo voltou à realidade. Com uma leve exalação, ela murmurou:
— Acho melhor você não dizer mais nada agora. Talvez ainda esteja sendo influenciado pela luz que conjurei com a magia Veela.
Lucius sorriu, mas antes que qualquer um pudesse dizer mais, um estrondo ecoou pela sala, quebrando o silêncio e trazendo-os abruptamente de volta à realidade.
A porta pesada se abriu com força, revelando Rita Skeeter. Ao fundo, o barulho ensurdecedor de uma multidão alvoroçada. Fleur e Lucius se afastaram de imediato, os sentidos alertas.
Rita entrou na sala com os olhos arregalados e um sorriso malicioso, claramente satisfeita por interromper o momento.
— E eu aqui, temendo por suas vidas, enquanto vocês estavam aí... namorando? — provocou ela, com sarcasmo.
Sem dar chance para resposta, virou-se rapidamente para Fleur.
— Tudo certo, Fleur? Decorou o mapa?
Fleur assentiu, discreta.
— E o basilisco, conseguiu recuperá-lo?
Fleur colocou a mochila nos ombros e respondeu:
— Isso é uma longa história, mas sim, ele está aqui, são e salvo.
Rita, impaciente, fez um gesto para que se apressassem.
— Quero saber cada detalhe depois, mas agora, vamos logo! Meu contato já preparou a lareira para sairmos dessa enrascada. — ordenou ela, apressada. Sem hesitar, eles a seguiram, prontos para a segunda fase do plano: transcrever o mapa.
