Eram 18 suspeitos que Grant, Mercedes e Santana conseguiram reunir entre saídas em patrulhas, levantamentos em bancos de dados criminais haqueados, e informações conseguidas diretamente das investigações policiais. Agora era preciso saber se a principal testemunha seria capaz de reconhecer a fotografia do serial killer. Santana passou uma mensagem para Rachel e explicou a necessidade de ela tentar reconhecer o tal cliente do restaurante. A diva concordou. Por esse motivo que Mercedes Jones estava com o carro de Santana Lopez em frente ao prédio em que Rachel morava em uma missão conflituosa. Ninguém confiava em Rachel Berry, no sentido de que ela fosse capaz de manter o sigilo. Santana, em particular, não gostava nada em saber que o segredo da dupla identidade que ela carregava estava nas mãos da colega de teatro para todo o sempre. Ainda assim, o trio precisava de Rachel Berry para conseguir tirar uma pessoa perigosa de circulação. Pior: o trio, em especial Santana, tomou para si a responsabilidade de protege-la e de treiná-la.

A jornalista mandou mensagem para a principal testemunha e sobrevivente dizendo que estava a esperando.

"Oi!" Kurt desceu do apartamento junto com Rachel, o que deixou Mercedes inquieta por um momento.

"Kurt, querido." A jornalista disse com certa dose de falsidade. "Como vai?"

"Tudo ótimo. Rachel disse que sairia contigo."

"Sim." Rachel interviu. "Eu disse que combinamos uma saída de garotas, e que não era da conta dele para onde."

"Achei que eu fizesse parte da turma." Kurt disse magoado.

"Em outra ocasião, Kurt." Rachel revirou os olhos e entrou no carro. "Não faça nenhuma cena, por favor. Eu vou estar segura."

Mercedes não sabia o que pensar de Rachel naquele momento. Todos eram atores, e por isso mesmo, mentirosos habilidosos. Mercedes acenou para o colega e começou a dirigir. O carro de Santana era antigo, ainda sem câmbio automático. O que fazia Mercedes ter dificuldades na condução do veículo.

"Tem certeza que você tem carteira de motorista?" Rachel se assustou com o terceiro solavanco que Mercedes dava no carro pelo péssimo controle de embreagem.

"Em um carro em condições normais, sim."

"Para onde vamos?"

"Para Stevenson, 304."

"Sério?"

"Pensou que seria algo diferente?" Mercedes lutava para manter o diálogo e se coordenar ao volante.

"Já que esse é um assunto de interesse dos vigilantes, eu pensei que a gente fosse para alguma espécie de batcaverna."

"Você anda lendo muito gibi."

"Ou conversando muito com Sam... digo, Sam Evans." Rachel se corrigiu não querendo confundir os apelidos entre Samuel e Santana.

"Mesmo?"

"Ele me manda muitas mensagens."

Mercedes estacionou o carro mal e porcamente, ocupando duas vagas. Foi um alívio, no entanto. Rachel chegou a pensar que morreria no trânsito. Ela nunca ouviu tantas buzinas direcionadas ao veículo em que se encontrava, e chegou a temer pela própria vida, não apenas por conta das barbeiragens de Mercedes, mas pelas respostas aos xingamentos que recebia. Havia tantos loucos no trânsito, que esse tipo de atitude costumava ser muito perigoso. Rachel acompanhou a amiga até o dormitório onde estava Santana sentava à mesa de trabalho checando o computador, e digitando em um teclado auxiliar.

"Berry." Santana disse sem olhar para a colega.

"Lopez." Rachel franziu a testa. "No outro dia, você me chamou pelo meu nome."

Santana a encarou e franziu a testa. Não tinha sequer percebido a mudança de nomes. Deve ter sio por causa dos diferentes propósitos. Naquele ia em específico, Santana estava em uma missão, porém em um ambiente muito mais relaxado.

"Isso não tem a menor importância. Você continua seno Rachel Berry, certo? Então, tanto faz se eu te chamo de Rachel ou de Berry."

"Você prefere digitar em um teclado auxiliar?" Rachel se aproximou da mesa de trabalho. "Finn também. Eu sempre achei estranho."

"Eu faço isso para não quebrar o computador quando eu digito mais forte sem querer. Um teclado auxiliar novo é muito mais barato do que um notebook novo." Santana não precisava se justificar, mas não viu mal algum em sanar a curiosidade da colega.

"San, eu penso que é melhor ir direto aos negócios." Mercedes interrompeu a interação.

"Certo, vá em frente."

"Espera aí. Mercedes também é um vigilante efetivo?" Rachel arregalou os olhos.

"Quem você acha que é o cérebro, Berry?" Mercedes revirou os olhos. "Por favor, sente no lugar de Santana."

Rachel obedeceu e observou enquanto as garotas se organizavam rapidamente. Ela já estava bastante convencida sobre os poderes extraordinários de Santana. Rachel também sabia das habilidades de investigação de Mercedes. Ela só não imaginava que a sua grande rival nos palcos fosse também ativa nesse negócio da vigilância.

"Nós conseguimos fazer alguns levantamentos baseados no seu retrato falado, e também no que eu lembrava." Santana explicou. "Infelizmente, eu sou uma péssima fisionomista, e o meu principal suspeito pode não ser realmente o principal suspeito."

"Quem é o seu principal suspeito?" Rachel ficou curiosa.

"Eu não vou te dizer para não te influenciar em nenhuma maneira." Santana colocou os arquivos em posição na tela do computador. "Aqui tem 18 fotografias de pessoas suspeitas. Olhe com calma e nos diga se algum ou nenhum deles foi o seu agressor. Respire fundo, tome o seu tempo."

Rachel começou a checar as fotografias, enquanto Santana, Mercedes aguardavam ansiosas por uma resposta. A polícia trabalhava com cinco suspeitos, entre eles um sujeito chamado Brody Weston, que era um modelo e ator que tinha ficha criminal por causa de prostituição. Santana, Mercedes e Grant incluíram outros 13 suspeitos baseados em leituras de um software de inteligência artificial, em pessoas que eram conhecidas e, por isso mesmo, suspeitas, e também por resultado de um breve levantamento feito por Grant e Santana nos bares e restaurantes que as vítimas frequentavam. Entre eles estava Frank Lennon, o namorado do ator em ascensão Blaine Anderson.

"É esse cara aqui." Rachel mostrou a foto do agressor. "Eu tenho certeza. Esse é o cliente do restaurante que sempre me dava boas gorjetas."

"Suspeito número 7." Santana leu o arquivo. "Hunter Clarington, 25 anos, engenheiro de som, faixa preta em karate... o que condiz com o fato de ele ser bom lutador..."

"O quê?" Mercedes estranhou. "Bom lutador?"

"Quando eu tirei o cara de cima de Rachel, nós brigamos, mas eu só pude ganhar porque eu usei a minha força, e ele definitivamente não esperava por isso. Esse tal de Hunter deve ser como... o meu parceiro... que consegue me dominar em uma luta quando eu não apelo para a minha força." Santana não tinha muito apreço pelos chamados treinos táticos que ela fazia com Grant, que incluíam movimentos de lutas marciais.

"Ele é um dos suspeitos sem ficha criminal." Mercedes observou. "Como o achou mesmo?"

"Essa foi uma indicação do meu companheiro. Esse sujeito trabalha na boate de Unique." Santana explicou. "Eu não sei o que esse sujeito fez para o meu companheiro desconfiar dele, além de bater com a descrição do retrato falado que Rachel fez."

"Quem é Unique?" Rachel ficou curiosa.

"Unique é uma cantora regular na boate Divas e Loucas, que fica dentro do complexo do Hotel Cassino Starr." Mercedes explicou. "Ela é incrível."

"Sim, é quase a sua irmã gêmea." Santana sorriu.

"Divas e Loucas não é uma boate gay?" Rachel franziu a testa.

"Sim. Já foi lá?" Mercedes perguntou.

"Não, nunca. Kurt já foi lá algumas vezes. Mas ele nunca comentou sobre essa Unique."

"Deve ser recalque." Santana permitiu-se sorrir um pouco.

"Você acha que Unique ou Marley podem estar em perigo?" Mercedes especulou.

"Difícil dizer. Acho que Unique está fora de cogitação se analisarmos o padrão das vítimas." Santana tinha muitas dúvidas. Ela mesmo não compraria as próprias teorias naquele instante, mas achava importante dizer o que pensava. "Todas as vítimas tinham em comum o fato de serem jovens, atraentes... exceto Berry... e por serem cantoras amadoras."

"Por que essa Unique não corre perigo?" Rachel perguntou.

"Porque, Berry, ela é uma mulher trans, acima do peso, e que não fez a mudança lá em baixo." Santana respondeu enquanto deu mais uma olhada no perfil. "Eu acho que Marley correria muito mais riscos do que Unique."

"Quem é Marley?" Rachel perguntou novamente, procurando ficar por dentro da conversa.

"Ela é uma nerd muito bonita que trabalha com computadores. Nas horas fora do expediente, ela às vezes canta em um bar que promove noites de microfone aberto para esses cantores indies." Santana franziu a testa por um momento. "Marley mora junto com Unique... eu não posso afirmar nada, mas é bem possível que Marley conheça esse Hunter."

"Eu não sei... não estou segura de que a gente precisa fazer esse desfecho. Esse caso tem interesse midiático, e a polícia está trabalhando nele. Eu penso que a gente deveria fazer uma denúncia anônima e observar se eles vão investigar o sujeito." Mercedes especulou. "Assim você não correria riscos, San. Tudo que você teria e fazer era ficar de olho em Rachel para garantir a segurança dela."

"Ou a gente poderia ter certeza que esse cara vai ser incriminado antes de entregar tudo de mão beijada para a polícia. Esse Hunter nem faz parte do quadro de suspeitos da polícia, por isso teríamos tempo para investigar."

"San, você acha que isso é o mais sábio?" Mercedes pressionou. "Ele pode fazer outras vítimas."

"Não é que eu não confie na identificação de Berry. Só que esse sujeito é inteligente. Ele não deixa rastros. Poderíamos fazer uma denúncia, Berry pode confirmar ele como o agressor, mas pode ser que a polícia não obtenha provas e seja obrigada a soltá-lo."

Mercedes entendeu o ponto de Santana. Rachel, por sua vez, não concordava com aquilo. Ela pensou consigo mesma: "E daí? Eu não faço parte desse time mesmo."

...

"Ótimo. Agora respire mais profundamente e deixe a energia fluir."

Quinn ouvia a voz melódica de Mike. Os dois estavam próximos ao córrego que passava no rancho, entre as árvores que formavam a pequena mata nativa. Quinn estava sentada em um tapete largo, em posição indiana, procurando esvaziar a mente enquanto fazia os exercícios de respiração. Ela não sabia se era coisa de sua cabeça, ou se aquilo tinha algum fundamento, mas ali, naquela que era a área mais fria da propriedade, Quinn pode sentir uma energia circundando o corpo dela, como se fosse uma leve brisa que caminhava sobre a pele da ponta dos dedos à ponta da cabeça e fazendo o caminho de volta. A micro empresária não tinha preocupações naquele momento. Beth estava na cabana do rancho junto com Elliott, que se mostrou ser um "tio" bem divertido. Grant e Santana também estavam no rancho. Mesmo que houvesse muitas questões a serem respondidas, Quinn sabia que poderia deixá-las para depois.

"Quinn, agora mantenha a respiração e abra os olhos lentamente."

Ao fazer o que Mike ordenou, ela se viu em uma situação inesperada e totalmente bizarra. Mike parecia que tinha uma áurea azulada em volta dele. Não era apenas isso. Quinn tinha provocado uma pequena geada com dois metros de diâmetro, sendo que ela estava no centro desse círculo.

"Eu fiz isso?"

"Yeah." Mike sorriu. "Esse é só o começo, olhos cinzas."

"Olhos cinzas?"

Calmamente, Mike saiu da posição e meditação e apanhou o celular que estava ao seu lado. Ele tirou uma foto de Quinn e mostrou o resultado em seguida. Quinn ficou impressionada porque seus olhos, que eram castanhos esverdeados, estavam cinzas claros. Ela se desconcentrou e foi como se desconectasse da energia.

"Agora seus olhos voltaram ao normal... que pena." Mike fingiu desapontamento, mas a verdade era que os resultados obtidos com a aluna dele eram extraordinários.

Mike e Quinn terminaram por se aproximarem porque ambos tinham poderes de projeção de energia, e isso, de certa maneira, os tornava parceiros. Grant tinha poderes basicamente mentais, ao passo que Santana e Elliott tinham poderes físicos.

"Eu produzi mesmo essa geada?"

"Yeap. Isso me leva a fazer a seguinte nota mental: levar casaco de frio quando for meditar com Quinn Fabray."

"Bobo!" Quinn sorriu e se levantou, satisfeita com os resultados. "Eu adoraria fazer outra rodada, mas é que estou com fome."

"Pode não parecer, mas a sua malhação agora foi pesada. O que você fez gasta muitas calorias." Mike também se levantou e enrolou os tapetes dele e de Quinn. "Outra nota mental: levar algumas barras de cereal quando for meditar com Quinn Fabray."

"Assim você me deixa encabulada."

"Que nada! Mas sério, como está se sentindo?" Mike perguntou enquanto os dois caminhavam para fora da área de mata em direção à cabana.

"Cansada e com fome... mas estou me sentindo incrível. Como se, pela primeira vez, tudo parecesse certo."

"Isso é muito bom. Com o tempo, quando você tiver mais domínio sobre a projeção de energia, você vai sentir necessidade de fazer isso em bases regulares. Será quando eu vou te ajudar a encontrar alguma atividade em que você possa empregar o seu poder."

"Igual ao que você faz no hospital?"

"Exatamente. Eu não curo as crianças. Eu escolho aquelas que passaram por cirurgias para acelerar o processo de cicatrização. Sempre tem duas ou três nessas condições."

"Por que crianças e não os adultos?"

"Porque uma criança reage mais rápido do que um adulto, ela se cura mais rápido. Isso faz com que as minhas ações não levantem suspeitas, e não se criem histórias sobre milagres no hospital. Não mais do que o usual, pelo menos."

"Mais do que o usual."

"Muita gente atribui a recuperação de alguém a um milagre. Gente que eu não visitei, entende? Geralmente são as pessoas isos acontece com pessoas mais fervorosas."

"E você acredita?"

"No quê?"

"Em Deus?"

"Existindo ou não, a gente precisa ter um."

"Por quê?"

"Para que a gente tenha freios. Você acredita em Deus?"

"Eu tive crises de fé em alguns momentos da minha vida, mas sim, eu acredito."

Elliott foi ao encontro dos dois com uma Beth chorosa nos braços dele. Quinn correu para a filha, preocupada com o que se passou. Beth tinha esfolado o joelho quando tropeçou no haras, enquanto tentava ajudar "tio" Elliott a cuidar dos cavalos. Mike sorriu para a garotinha e colocou a mão no ferimento. Uma sutil luz azulada apareceu em volta da mão dele, e em um minuto, não havia mais joelho esfolado.

"Pronto, querida. O dodói passou." Quinn a consolou e Beth se acalmou. "Seria muito bom que você estivesse por perto sempre que Beth vai ao parquinho." Quinn disse bem humorada para o amigo.

O quarteto parou em frente a nova sede do rancho, que estava praticamente finalizada, com as paredes revestidas, o telhado instalado, o piso colocado, e as instalações elétricas e hidráulicas prontas. Só faltava pintar, fazer alguns acabamentos e mobiliar. Santana e Grant estavam na frente do prédio, conversando alguma coisa que parecia séria, tanto que silenciaram quando os outros se aproximaram.

"Olha só Quinn nesta foto!" Mike mostrou a imagem da amiga que acabara de registrar.

"É sério isso?" Santana pegou o celular e ampliou a imagem para focar o olho em detalhes. "Meus olhos não mudam de cor."

"Os meus mudam às vezes. Ficam azulados." Mike explicou. "Isso me fez formular uma teoria."

"Qual?" Santana ficou extra interessada.

"Que pessoas dotadas de projeção de energia mudam a cor dos olhos quando os poderes estão ativos."

"Interessante." Santana se levantou e fez um rápido alongamento. Ela ainda não tinha dito para Mike e Elliott sobre Rachel Berry, muito menos para Quinn Fabray.

Grant trocou olhares com a parceira vigilante, como se quisesse dizer mentalmente que a conversa dos dois ficaria para mais tarde. Ele então sorriu para Quinn. A nova integrante do grupo era um colírio para os olhos. Mesmo com a política de não se envolver romanticamente com ninguém, ele não podia negar a si mesmo a atração que sentia pela micro empresária. Quinn era uma jovem mulher com beleza singular.

"Mike, você vai fazer o almoço hoje?" Grant perguntou.

"Claro." Ele voltou-se para Beth. "Quer me ajudar pequena? Podemos fazer sobremesas de chocolate."

A menina vibrou e provocou sorrisos em todos.

"Eu ajudo você, esqueleto mole." Santana se ofereceu. "Elliott?"

"Okay, vamos fazer um almoço em família hoje."

"Grant?" Santana olhou para o companheiro.

"Acho que prefiro cavalgar. Quinn, você gostaria de me acompanhar?"

"Claro! Faz tempo que eu não cavalgo." Olhou para Beth. "Docinho, não dê trabalho para os tios."

"Eu vou cuidar bem dela." Santana piscou para Quinn e ergueu Beth com facilidade, colocando a garotinha em seus ombros.

Quinn observou Santana correr com Beth sentada nos ombros dela, e sorriu com os gritinhos de regozijo da filha, que estava se divertindo muito. Ignorando o estômago que reclamava, a empreendedora seguiu Grant em direção ao estábulo. Os cavalos Dino, Grace e Frank estavam soltos no cercado ao lado do estábulo, onde ficavam para tomar um banho de sol, comer e fazer necessidades. Grant puxou Grace e Frank, o favorito dele, deixando Dino para um próximo passeio. Frank era um corcel marrom tido como o mais arisco do trio. Era o mais cavalgado por Grant, até por ser o único do grupo que sabia lidar e manejar Frank sem riscos de queda. Ele selou Grace e Frank com agilidade que impressionou Quinn, e em poucos minutos, os dois saíram cavalgando pela propriedade e para fora dela.

"Você cavalga muito bem." Grant elogiou.

"Estou sem prática, mas acho que é como andar de bicicleta."

"Seus pais te colocaram em aula de equitação?"

"Meu tio tinha um rancho. E você?"

"Esse rancho era do meu avô. Ele era um cara durão e perseverante, desses que fez dinheiro começando do zero. Ele não era muito bom em dialogar com a família, sabe? Meu avô foi especialmente duro e exigente na criação do meu pai e dos meus tios. Tinha pouca paciência com crianças, mas ele falava comigo. A gente conseguia conversar por meio da paixão pelos cavalos. Esse era o lugar favorito dele no mundo, e quando ele morreu, foi uma surpresa saber que ele deixou essa propriedade inteiramente para mim."

"Ele morreu faz tempo?"

"Faz três anos."

"Eu sinto muito."

"Obrigado." Grant direcionou os cavalos para fora do rancho e eles pegaram a estrada de cascalho que ligava as propriedades da região. "E os seus pais?" Grant perguntou por educação e para ter assunto, mas ele sabia muito bem sobre o passado de Quinn com base no dossiê que mandou fazer sobre ela.

"Minha mãe é filha de pastor e meu pai vem de uma família tradicional e falida. Você sabe? O velho dinheiro que vivia das aparências. Mas o meu pai é um homem muito esperto e conseguiu ganhar um bom dinheiro com os próprios méritos." Quinn disse sem entrar em detalhes, mas Grant ficou satisfeito com a resposta, porque ele sabia que ela dizia a verdade.

"O que aconteceu para você vir parar nesta cidade, tocando um quiosque de cafeteria na faculdade comunitária?" Ao ver a expressão fechada de Quinn, Grant tentou contornar. "Não estou julgando por qualquer coisa que tenha acontecido. Eu só estou curioso. Eu admiro qualquer pessoa que ande com as próprias pernas."

"Meus pais me expulsaram de casa, e eu precisei me virar sozinha no mundo."

"Posso perguntar a razão?"

"Eu engravidei de um rapaz pobre, para começar. Só que o problema não foi a minha gravidez, mas o que me levou a ficar grávida em primeiro lugar."

"Não compreendo." Grant não compreendia mesmo. Essa era uma informação que não se obtinha por meio de um dossiê expresso.

"Pânico gay. Eu dormi com um cara porque eu me apaixonei por uma menina. Meus pais até que tolerariam uma filha adolescente grávida. Mas eles não toleram uma filha adolescente grávida e gay." Quinn balançou a cabeça ao rememorar algo que ela não contou para ninguém. "Eles nem me propuseram para eu ficar no armário, ou me enviar para um daqueles lugares de cura gay. Eles simplesmente me descartaram."

"Isso é terrível! Eu sinto muito."

"Tudo bem. Não é que eu queira me justificar, mas não é que eu goste apenas de mulheres. Eu me adequaria mais na letra B, da sigla LGBTQ. Para ser sincera, eu consideraria uma vida no armário, se soubesse de antemão o que eu iria passar... de certa maneira, eu ainda estou no armário."

"O que aconteceu depois dos seus pais te expulsarem?"

"Eu morei um tempo com o pai de Beth, porque ele me ofereceu abrigo. Até que ele morreu em um acidente de carro depois que nós discutimos sobre os custos do pré-natal. Eu fiquei... arrasada... eu me senti responsável pela morte dele. A mãe dele pediu para que eu fosse embora, e eu simplesmente peguei minha mochila e parti."

"Não procurou mais a garota que você se apaixonou?"

"Kendra também estava no armário e tinha coisas a perder."

"Que merda!" Grant lamentou e estava sendo sincero. O dossiê mostrava por onde Quinn passou, mas os motivos que levaram a isso não eram claros. O coração dele ficou apertado quando soube os pormenores. "Por que você escolheu vir para esta cidade?"

"Porque eu poderia recomeçar do zero sem pessoas que me conheciam por perto."

"Você chegou a se relacionar com alguém após isso?"

"Sexo é uma moeda de troca quando se mora na rua, Grant. Sobretudo com um bebê. Eu tive... algumas vezes... para ter comida, ou um teto. Eu fiz por Beth. Para protege-la."

"Nunca pensou em entrega-la para adoção?"

"Mais de uma vez. Eu simplesmente não consegui entrega-la a ninguém. Mas Beth e eu nos separamos por um tempo. Um cara que eu precisei namorar me expulsou da casa dele, e eu tive de procurar um abrigo. A assistente social que visitava o local tirou Beth de mim e a colocou em um lar adotivo até que eu provasse ser capaz de me sustentar e dar um teto a ela. Levou um ano para eu conseguir recuperar a guarda da minha filha."

"Como?"

"Eu consegui um emprego fixo trabalhando como faxineira na firma do seu pai."

"Sério?" Grant fingiu surpresa.

"Eu trabalhava fazendo faxina pela manhã e servindo em uma cafeteria pelo resto do dia. Eventualmente, eu me tornei barista. Foi quando eu aprendi tudo que sei sobre café. Com o salário, eu consegui pagar o aluguel de um quarto, e comprovar que tinha dinheiro para pagar as minhas despesas e uma creche para Beth. Então, eu consegui ter a minha filha de volta. A assistente social ainda aparece de vez em quando."

"E a cafeteria?"

"Em meio a isso tudo, eu resolvi voltar a entrar em uma igreja e conheci Joe. Nós ficamos amigos de verdade. Um dia, eu identifiquei uma oportunidade e tive a ideia de montar um café expresso, mas não tinha capital. Conversei com Joe e ele falou com o pai dele. O pai de Joe entrou com o dinheiro e eu com a força de trabalho."

Grant e Quinn ficaram em silêncio por um momento. Aquele grupo de especiais possuía. Santana teve a infância e adolescência sem luxos, porém em uma família sólida e amorosa. Elliott é filho de mãe solteira e sofreu com ausências e certas privações. Mike e Grant vieram de famílias abastardas, porém com pais pouco amorosos. Quinn veio de uma família abastarda, porém tudo lhe foi tirado e ela precisou se reerguer da lama. Todos tinham idade entre 21 e 26 anos, sendo Grant o mais velho e Santana a mais jovem. Grant olhou para Quinn cavalgando calmamente em Grace. O pensamento dela estava longe por um momento, talvez ainda processando os momentos dolorosos que precisou passar e superar.

"Você venceu, Quinn." Grant rompeu o silêncio. "Eu fico feliz em ver onde você está agora após entender o que você precisou passar para chegar até aqui. Eu te respeito muito, Quinn, e passei a te admirar mais ainda."

"Obrigada."

Quinn foi surpreendida por um alto ronco no estômago, audível até mesmo para Grant e ficou sem jeito. Foi quando os dois decidiram dar meia volta em direção ao rancho.

"Você e Joe estão juntos?" Grant perguntou.

"Ele é apenas o meu sócio."

"Você namorou alguém mais sem... motivos de sobrevivência? Alguma garota?"

"Não... infelizmente eu não tenho tempo para isso. Não fiz nada que ultrapassasse a esfera platônica."

"Por exemplo?"

"Tenho uma cliente na faculdade comunitária. O nome dela é Rachel Berry. Ela não tem uma beleza convencional e muitas vezes consegue ser bem irritante, mas eu a acho super charmosa. Infelizmente, ela tem namorado." Quinn sorriu para Grant. "Eu também conheci um cara legal faz pouco tempo. Mas é preciso ver como as coisas vão caminhar." Quinn procurou ser enigmática. "E você?"

"Não tem ninguém na minha vida, romanticamente falando. Não quero me prender a ninguém agora." Grant soou um pouco mais ríspido do que precisava, provocando uma expressão de decepção em Quinn.

"Nunca tentou os meninos?" Ela disse procurando manter o diálogo.

"Eu não sinto a menor atração pelo mesmo sexo, muito menos tenho curiosidade. Olha que tenho grandes amigos dessa comunidade. Elliott é super gay. Santana é lésbica. Unique é uma mulher trans."

"Sim, eu conheço Unique muito bem. Ela é uma ótima amiga, e Beth a adora. Sabe o que é interessante? Eu e sua irmã nunca passamos de uma relação cordial de vizinhos. Eu sei de algumas coisas sobre Marley porque Unique me conta, como no que ela trabalha, e que ela gosta de cantar. Mas Marley e eu nunca conversamos."

"Marley não é realmente a minha irmã. Eu a considero como se fosse a minha irmã porque ela foi criada praticamente dentro da minha casa. A mãe dela foi nossa cozinheira. Eu a amo como se fosse minha irmã, e sou mais próximo a Marley do que com o meu próprio irmão de sangue. Mas nossas vidas são bem separadas."

"Entendo."

Eles chegaram novamente até o cocheiro, de onde Quinn desceu de Grace e foi direto para cabana, ao passo que Grant permaneceu para retirar a sela dos cavalos. Quinn se deparou com uma cena rotineira e caseira. Mike terminava o almoço, Elliott arrumava a mesa com a ajuda de Beth ao passo que Santana estava sentada no sofá verificando o celular dela. Quinn fixou o olhar em Santana. Desde o dia que ela a viu com Rachel Berry que tinha vontade de fazer algumas perguntas. Mas, por alguma razão, ela achava difícil se aproximar de Santana e iniciar uma conversa amistosa. Então, Quinn mantinha uma certa distância. Ela foi até Mike, experimentou um pouco da comida e achou fantástica.

...

"Por hoje é isso, meus amores. Espero que todos tenham se divertido tanto quanto eu. Voltaremos a nos ver semana que vem!"

Unique se despediu da plateia jogando beijos e gesticulando que o público estava em seu coração. Desceu do pequeno palco e foi direto para o camarim, onde podia beber uma água gelada e recuperar o fôlego. Apesar de Unique ter um camarim só para ela, as portas dificilmente se fechavam. Por isso as pessoas entravam e saiam dali para fazer elogios, tratar de negócios ou convidar para as saídas posteriores ao show.

A primeira coisa que Unique gostava de fazer ao chegar ao camarim após o show era de se livrar eram dos sapatos de salto. Depois, se livrava da peruca. O cabelo de Unique era alisado, e passava ligeiramente da altura dos ombros. Então ela ia para de trás do trocador e tirava o vestido, ou a fantasia, como as vezes chamava. A roupa que ela saía do teatro era muito mais mundana, mas nem por isso ela andava desarrumada. A última coisa que fazia era retirar a maquiagem, passar os produtos de hidratação de pele, retocar o batom e passar uma escova no cabelo. Pronto!

"Vamos para a Voilt." Uma das backing vocals disse ao entrar no camarim.

"Hoje eu estou só o bagaço." Unique suspirou. "Só quero pegar o taxi e ir para casa."

"Mas vai todo mundo. Gisele, Karen, Paul, Robbie, Zion…"

"Garota, hoje não dá. Mesmo que eu encontre o cara da minha vida, hoje eu não daria conta."

"Eu achei que eu fosse o cara da sua vida." Hunter entrou na conversa. "Que história é essa, Unique?"

"Você sempre será a minha paixão platônica preferida." Unique sorriu para o técnico de som da boate e o beijou no rosto. "Não vai sair com a turma?"

"Não, Alice está me esperando em casa."

"Alice é uma fofa. Aliás, faz tempo que ela não aparece."

"O médico disse para ela não se agitar muito por causa da gravidez."

"Verdade! Diga que eu manei um beijo para ela." Unique pegou a bolsa dela e saiu da boate.

A turma de amigos também curtiu o fim do expediente. A boate se transformava em um bar comum após os shows no palco. Aos sábados sempre havia discotecagem, e costumava ser o dia mais agitado, por ser relacionado com um dia de caça a uma boa transa. Mas como era domingo, o trabalho de Hunter Clarington basicamente era finalizado com o encerramento do show de Unique. Ele passou no escritório da administração da boate e pegou o pagamento semanal. O dinheiro da boate não o sustentava, por isso ele tinha outro trabalho em um estúdio de televisão, onde ele trabalhava no noticiário da manhã como operador de câmera.

Hunter saiu da boate em direção ao estacionamento com o dinheiro da semana em mãos. Parou por um momento e ficou com uma sensação incômoda de que estava sendo seguido. Olhou ao seu redor e não viu nada de anormal. Pegou a moto e foi direto para casa. Morava em um apartamento de um prédio modesto em um bairro de classe média. Alice não era uma ficção. A namorada de Hunter trabalhava como secretária em uma empresa de arquitetura e design de dois arquitetos bem requisitados. Era uma mulher bonita, magra, cabelos ruivos, traços delicados. Alice estava no quinto mês de gestação, mas ao contrário do que Hunter deixava a entender para os colegas, não havia nada de errado com ela ou com o bebê. Era uma gestação absolutamente normal.

"Oi babe." Hunter beijou a namorada. "Ainda acordada?"

"Nem são 11 da noite." Alice resmungou. "Como foi o trabalho?"

"Nada de novo. Unique te mandou um beijo."

"Obrigada. Gostaria mais dela se ela parasse de dar em cima de você."

"Não se preocupe. Ela não tem a menor chance." Hunter revirou os olhos e abraçou a namorada.

O que se passou pelo resto da noite naquele apartamento foi absolutamente mundano. Hunter tomou um banho, fez sexo com a namorada grávida e foi dormir. Do lado de fora do apartamento, Grant fazia alguns registros. Hunter parecia terrivelmente normal para ser um serial killer. Será que Rachel se enganou? Seria ela uma fisionomista tão ruim quanto Santana? Ou havia algum detalhe a mais que emperrava a conclusão deste caso? Ele deu uma rápida checagem em suas anotações, e pensou no que ele e Santana poderiam fazer para descobrir os podres de Hunter. Precisava traçar algumas estratégias.

Porém o raciocínio dele foi interrompido tão logo viu a polícia estacionar as viaturas em frente ao edifício.