Esme
Desde a infância e mais ainda na adolescência, eu e Elizabeth éramos melhores amigas. Eu a adorava, a via como um espelho. Ela era linda, com os olhos verdes e o cabelo ruivo. Eu fiquei com o cabelo castanho e os olhos azuis, mas ela dizia que eu era a mais bonita.
Um dia, ela veio para casa com um namorado. Seu nome era Edward e ele era um britânico que tinha acabado de se formar em direito na Universidade de Seattle. Rico, um pouco excêntrico, mas ele a tratava bem e isso era o que me importava. Alguns meses depois, ele me apresentou ao seu irmão e éramos duas caipiras de cidade pequena apaixonadas por homens Cullens.
O resto da história foi se desenrolando com rapidez. Elizabeth e Edward se casaram quando ele quis voltar à Londres, para assumir um escritório cujo pai era sócio. Poucos meses depois, ela veio me visitar e trouxe a notícia de que estava grávida. Nós pulamos abraçadas pela sala de estar, e caímos no tapete enquanto fazíamos planos para aquele bebê que já era tão amado.
Eu e Carlisle nos casamos um pouco antes da chegada da criança que mudou nossas vidas. Nós voamos para Londres para encontrar um pequeno pacotinho de mantas azuis nos braços da minha irmã. Era um menino, uma cópia da mãe que ganhou o nome do pai. E foi exatamente em algum momento por aí que as coisas mudaram.
Elizabeth passou a vir para Forks com uma certa frequência, sempre acompanhada por babás, mas nunca pelo marido. Ela se queixava sobre ele estar mudando, o que logo era esquecido quando o pequeno ruivinho de olhos verdes dava um sorriso. Deus, eu estava completamente apaixonada por aquela criança enquanto o via crescer.
Quando Edward - o meu sobrinho - tinha seis anos, as coisas ficaram difíceis. Minha irmã estava doente, e ninguém conseguia descobrir a causa. Ela veio nos visitar depois de alguns meses e o que vi foi assustador. Não era mais a linda e cheia de vida Elizabeth que eu conhecia. No lugar dela, estava uma mulher magra, pálida, cansada, que não tinha mais brilho nos olhos. O diagnóstico tirou o pouco de esperança que nós poderíamos ter: Linfoma de Hodgkin, uma doença que começava no sistema linfático e se espalhava rapidamente pelos órgãos de forma agressiva. Ela ficou conosco por pouco tempo depois disso.
Desde a morte da minha irmã, eu tentei proteger Edward do próprio pai. Eu não entendia como aquele homem havia mudado tanto em tão pouco tempo, mas definitivamente não era o mesmo com quem Elizabeth se casou.
Nos primeiros anos de casamento e da vida do filho, Edward - o pai - ainda era uma boa pessoa. Ele era presente, demonstrava afeto, cuidava da família. Entretanto, quando Elizabeth adoeceu, ele se transformou, se fechou em si mesmo e em todas as vezes que tentamos furar essa bolha ele piorou ainda mais, afastando até o próprio irmão.
Antes de partir, minha irmã nos fez prometer que cuidaríamos de Edward. E nós tentamos, ficando lá e cá na maior parte do tempo, fazendo viagens, acompanhando a escola, depois a faculdade, trazendo ele para Forks nas férias, mantendo contato e tentando monitorar o que acontecia na vida dele, para evitar ao máximo que ele se tornasse uma miniatura do pai.
Por isso, eu e Carlisle recebemos com estranheza e choque a informação de que ele lavou as mãos quando Bella descobriu a gravidez. Não era esse o Edward que havia saído daqui menos de dois meses antes, totalmente apaixonado e em sofrimento por ter que deixar a namorada. Mas nós vimos as mensagens e vimos o desespero de uma garota que foi abandonada à própria sorte no momento em que mais precisava de um parceiro.
Eu quis entrar no primeiro avião e trazer aquele garoto pelas orelhas, gritando com ele por todo o caminho até aqui, mas fui impedida por Bella. Ela me implorou para não fazer nada e manter o silêncio. Foi muito difícil, mas respeitamos porque aquela era uma escolha dela, e não nossa.
O que poderíamos fazer era manter a proximidade que nos fosse permitida, e fomos surpreendidos quando ela nos convidou para sermos guardiões - ou padrinhos - de Chloe. E quanta alegria aquela garotinha nos trazia - quase a mesma que eu senti mais de vinte anos atrás, com o pai dela.
Agora, Edward estava na varanda da minha casa repetindo que não sabia de nada. Eu só conseguia pensar em uma razão para aquilo, e era ruim demais, até mesmo para ele. Minha irmã, onde quer que estivesse, não merecia que o próprio marido tivesse afastado o filho de sua família.
— Carlisle, qual é a chance do seu irmão ter alguma participação nisso? — perguntei, tentando manter a voz baixa para que ninguém mais ouvisse.
— Você acha que ele seria capaz? — devolveu — Separar Edward de um filho?
Meu marido era muito bonzinho com o irmão, mas eu não. Não depois dele ter deixado a minha irmã doente à própria sorte.
— Querido, ele foi capaz de coisas muito piores, imagine o que faria para manter Edward sob as amarras dele? Ter um filho o manteria aqui, talvez ele até quisesse se casar. Isso acabaria com qualquer controle que ele pudesse ter sobre o garoto.
Carlisle ficou pensativo por um instante, antes de suspirar e começar a falar.
— O que faremos, então? Não podemos contar tudo para ele aqui, sem que Bella saiba. Também não podemos arriscar que ele pegue o carro e vá até a casa dela agora, porque isso significa encontrar Chloe.
Ele tinha razão, mas eu não sabia por quanto tempo mais conseguiria esconder a verdade, não com Edward ali. Já tinha sido difícil o suficiente recebê-lo sem dar com a língua nos dentes, e eu precisava me policiar para não falar nada por engano.
— Edward tem um filho?
Uma Rosalie muito pálida, mais que o normal, estava na porta da cozinha, com os olhos arregalados. Lá se foi minha tentativa de manter a discrição.
— O quanto da conversa você ouviu? - perguntei, resignada.
No Reino Unido não ensinavam que era falta de educação ouvir atrás da porta? É claro que ela tinha ouvido tudo.
— Praticamente tudo — admitiu, entrando na cozinha — Trabalhei com o Edward Pai e sei que era seu irmão, doutor Carlisle, mas o próprio Diabo deve ter ficado com medo quando esse homem fez a passagem. Ele era perfeitamente capaz de esconder isso e, se acreditam em coincidências, nós falamos sobre essa capacidade no carro vindo para cá.
A garota era sagaz.
— Eu percebi que algo não estava batendo na história quando Edward disse que Isabella sumiu sem dar explicações, então questionei. Ele disse que foi bloqueado por ela em uma noite em que brigou com o pai em uma festa do escritório, que acordou e não conseguiu mais encontrá-la. Isso faz algum sentido para vocês?
O cenário começava a se desenhar na minha cabeça.
— Isso é muito diferente do que nós vimos — Carlisle respondeu — Eu li as mensagens no celular de Bella, era o número de Edward enviando. Foi ele quem a dispensou grávida.
A garota fez uma expressão confusa.
— Não, isso não é possível. Ele tinha nos mostrado fotos de Bella naquele dia, tinha planos de voltar para cá. Como ele poderia mudar de ideia tão rapidamente? Nós convivemos diariamente pelos últimos anos, eu tenho certeza que Edward não teria deixado um filho para trás assim.
Agora sim eu conseguia reconhecer meu sobrinho naquela fala e tinha certeza do que tinha acontecido. Meu cunhado era um demônio, ele tinha sorte de estar morto agora, senão eu mesma seria capaz de fazer esse trabalho.
— Você disse que houve uma briga, certo? — perguntei e ela assentiu — Como foi essa briga?
— Foi feia, os dois gritaram um com o outro na frente dos clientes e dos outros funcionários do escritório. Era uma comemoração, mas Edward Pai estava mais interessado em exibir o filho brilhante como um troféu, dizendo a todos que ele estava se preparando para assumir o escritório — eu conseguia visualizar a cena, revirei os olhos para aquilo — Em algum momento Edward se cansou disso e veio beber conosco, mas o pai se irritou e começou a dizer palavras horríveis para ele ali mesmo. Daí para a briga foram segundos, com ameaças, um caos… Nós levamos ele para casa um pouco depois disso.
Rosalie explicou que meu falecido cunhado havia ameaçado acabar com a vida de Edward se ele não se comportasse como o esperado. Esse esperado, obviamente, incluía estar cem por cento presente em Londres, cuidando do escritório e sendo uma versão dele. Não me surpreendia, de maneira alguma.
Eu não precisava de muito tempo para pensar e chegar à conclusão de que tinha dedo dele naquelas mensagens que Bella recebeu. Como ele havia feito isso, eu não sabia, mas tinha certeza da sua participação.
— Agora, deixem-me entender uma coisa: Edward está lá fora sem saber de nada disso, e vocês sabiam o tempo todo que ele tem uma filha? — a garota loira perguntou, com acusação na voz.
E lá vamos nós. Eu e Carlisle assentimos, confirmando.
— E por quê ninguém nunca foi atrás dele para confrontar sobre isso? Vocês simplesmente aceitaram que o sobrinho de vocês deixou uma namorada grávida para trás?
— Nós respeitamos o pedido de Bella. Ela recebeu mensagens dele dizendo que não queria ser envolvido, e seguiu com essa informação. Nós adoramos a criança, mas ainda é filha dela — respondi.
Rosalie estava chocada e eu não conseguia julgá-la, porque todos nós ficamos assim em algum momento dessa história. Ela tentou resumir ao nos dar mais detalhes da relação de Edward com o pai nos últimos anos - quando estivemos mais distantes - mas estávamos ficando sem tempo. Logo, ele não aguardaria mais no jardim e teríamos que responder de alguma forma. Ele havia voltado por Bella, no final das contas.
— Bem, o que vamos dizer para ele? A última coisa que Edward é, é burro. Ele vai perceber que estamos escondendo algo.
— Consiga uma forma de distraí-lo, só até amanhã — pedi — Eu conversarei com Bella e daí decidimos o que fazer. Não podemos passar por cima dela.
Como se algo estivesse à espreita, esperando o momento de agir, o celular de Carlisle tocou em cima da mesa.
— Sim, Bella? O que houve? Detalhe, por favor.
Não era comum que ela ligasse àquela hora da noite. Uma luz de preocupação se acendeu na minha cabeça.
— Certo, é melhor que eu consiga examiná-la mesmo. Posso chegar aí em quinze minutos — e desligou — Chloe está com febre desde ontem, ela não quis ligar antes porque sabia que Edward estaria aqui. Eu vou até lá dar uma olhada nela — ele explicou rapidamente, já se movendo para pegar sua maleta.
Nós duas ficamos na cozinha enquanto ele saía, pensando em como voltar para a varanda e explicar o que tinha acontecido ali.
— E então, o que podemos beber para nos distrairmos aqui? — a loira perguntou.
Ingleses, pensei, com esperança de que uma cerveja fosse o suficiente para distrair meu sobrinho até amanhã.
