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Oração ao tempo - Caetano Veloso


Capítulo 17 – O tempo

Não contente Arlene repetiu: "um brinde a família!".

Todos aplaudiram, mas Cuddy sentiu-se muito deslocada. E House percebeu.

Rachel, sem amarras, abraçou o menininho e a cena fofa foi fotografada por todos. Pareciam realmente dois irmãos.

Logo Cuddy fez questão de ajudar a cortar o bolo e distribuir para os convidados.

"Eu quero bolo!". Karl disse.

"Você terá o primeiro pedaço porque é o aniversariante". Cuddy respondeu amorosamente.

"É chocolate?". O menino só gostava de doces que tivessem chocolate. Mas House tentava evitar o consumo de muito doce, é… ele estava sendo um pai atencioso.

"Sim, é de chocolate". Cuddy respondeu.

"Então eu quero!".

Ela riu e entregou um pedaço de bolo para ele.

Karl se lambuzou todo com o chocolate e ficou com o rosto e boca sujos.

"Seu filho está correndo por aí com o rosto sujo de chocolate". Wilson disse rindo.

"Ele é criança… deixa ele ser feliz".

"Ok papai". Wilson respondeu vendo uma tensão no semblante do amigo. "O que houve?".

"Nada".

"Vamos House! Eu sei que houve algo".

"Karl não tem uma mãe".

"Eu… sinto muito". Wilson estava confuso, por que isso agora?

"Como eu vou conseguiu suprir o que uma mãe representaria pra ele?".

"Em sua defesa você está fazendo seu papel muito bem".

"Mas não o papel de mãe".

"Meio pai… meio mãe…".

"Eu não sou doce, atenciosa e meiga".

Wilson já tinha visto House passando a mão no cabelo do menino de forma carinhosa, presenciou um ou dois abraços. Ele sabia o que House dizia, mas ele estava longe de ser um ser humano duro e sem sentimentos.

"Bom… deixe seu lado feminino vir à tona".

"Não é assim que funciona. É diferente".

"Eu sei".

Logo foram interrompidos pelo movimento dos convidados.

Ao final da festa eles foram pra casa. Karl dormindo profundamente no carro de tão cansado e Rachel falando sem parar sobre tudo o que havia acontecido na festa.

"Ela tem uma boca nervosa". House comentou e Cuddy riu.

Mas a menina se deu por vencida tão logo chegaram em casa e também seguiu o caminho do sono profundo.

"Minha mãe sempre causa… desculpe por isso. Eu não a convidei por uma razão". Cuddy dizia no quarto enquanto eles se despiam das vestes que usaram na noite.

"Arlene será sempre Arlene".

"Eu não quero ocupar um lugar que não me pertence na vida de Karl. Sei que Lydia partiu há pouco tempo…". Cuddy finalmente disse pra ele o que a estava perturbando.

House nada respondeu.

"Não quero me sentir uma impostora nessa posição e nem deixar vocês desconfortáveis".

"Você não está fazendo isso".

"Eu amo você e Karl… é tão fácil se apaixonar por uma criança… mas ele é tão novo e não entende nada… não quero confundir a cabecinha dele".

"E o que você sugere?".

"Não sei…". Ela respondeu com sinceridade.

"Eu acho que será natural você acabar suprindo uma ausência materna". House respondeu com tranquilidade a surpreendendo. "Assim como eu acabo sendo uma figura paterna para Rachel".

"Você está dizendo que está bem com isso?".

"Eu estou dizendo que é assim que eles nos verão por razões óbvias".

Cuddy se surpreendeu mais uma vez com a mente lógica e madura de House para abordar esse tema.

"É inevitável. Temos que deixar isso se desenrolar naturalmente". House concluiu sua argumentação.

"Sim. Você tem razão".

"Arlene força as situações, mas… não precisamos que ela nos confunda".

"Você tem razão". Ela sorriu.

Então eles escovaram os dentes e deitaram abraçados e exaustos até que o sono os embalasse.


O tempo passou e o ritmo da vida deles deixava cada vez mais claro que eram uma família. House e Cuddy acabaram vendendo seus imóveis para comprar juntos um maior para acomodar com mais conforto a todos. Eles não conversaram sobre casamento ou sobre morar juntos, simplesmente aconteceu naturalmente.

House ajudava Rachel com as lições de casa e era uma companhia muito divertida para as brincadeiras. A menina sorria muito ao lado dele. Cuddy dava o carinho e atenção que Karl precisava. O menino se apegou mais e mais a ela. E vice versa.

Os irmãos do menino vieram mais uma vez para vê-lo ao longo daquele ano. House viajou com o filho uma vez para Seattle para visitá-los. No hospital, Cuddy tentava maneirar com a demanda de trabalho tendo em vista que precisava voltar pra casa e cuidar dos três que a aguardavam. A vida transcorria bem. Eles se davam bem. Era um lar amoroso e divertido.

Os problemas de casal aconteciam, mas eles tratavam de outra maneira. Conversavam. Nunca mais Cuddy expulsou House de sua casa ou de sua cama quando tinham um atrito, e House não fugia para a bebida ou para qualquer droga. Pelo menos ele não precisou mais disso até o momento. Mas quanto tempo transcorreu desde a festa de Karl? Um ano e meio? Ainda era recente e eles estava descobrindo a vida juntos.

Naquele dia eles foram para a cama exaustos depois de um dia corrido. Todas as obrigações no hospital somadas as obrigações em casa. Karl estava particularmente agitado e Rachel especialmente carente. Aliás, quando ouvia Karl chamar House de pai, Rachel se sentia carente e fazia algo para chamar a atenção. Cuddy percebeu isso e conversou com a filha.

"Rachel, você quer que House seja seu papai?".

Os olhos da menina se iluminaram. "Ele pode ser meu papai?".

"Se você quiser… claro que sim. Sei que ele amaria isso".

"Eu quero!". A menina respondeu mais que depressa. Então Cuddy conversou com House que sentiu seu peio apertar. Rachel, a menina mais legal da Terra, o escolheu como pai? Alguma coisa certa ele devia estar fazendo.

E desde então, toda vez que Karl o chamava de pai, a menina o chamava também.

Na primeira vez House sentiu-se esquisito, mas depois gostou. Gostou muito daquilo. Ele também estava desenvolvendo seu lado paterno a cada dia. Ele já demonstrava publicamente seu lado carinho com as crianças. Beijos e abraços ficavam mais e mais frequentes. E ele começou a sentir-se muito ligado aquelas crianças. Em uma ocasião Karl ficou doente, uma gripe apenas, mas House quase surtou. Cuddy tentou acalmá-lo. "Ficamos assim mesmo quando nossos filhos adoecem. Queremos protegê-los. Nós esquecemos da razão. É natural". Ela achou fofo. Ele achou desesperador.

"Mas eu sou um médico. Não posso me esquecer disso toda vez que meu filho adoece".

"Por que você acha que um médico não deve tratar de sua família? Para evitar esse conflito tão natural do ser humano".

House estava aprendendo muito sobre sentimentos…

Mas voltando aquela noite. Eles estavam exaustos após um dia cheio com as crianças exigindo toda a atenção, pois desfrutavam de uma energia infinita.

"Por isso é melhor ter filhos mais jovem. E com as duas pernas boas". House comentou fazendo Cuddy rir.

"Você precisa levar Karl ao cabeleireiro". Ela disse.

"Ok". O cabelo do menino estava mesmo ficando comprido.

"Por mais que eu ache lindo aqueles cabelos, ele precisa de um corte".

"Levo ele terça-feira à noite. Wilson desmarcou o pôquer".

"Ah é?".

Cuddy agradeceu silenciosamente por isso. Ela não gostava do grupo de pôquer dele e de Wilson. Os sujeitos não eram boas companhias e House sempre bebia demais quando ia jogar.

"Aparentemente ele tem um encontro quente".

"Que bom!".

"Depende… sendo Wilson…".

"As crianças virão no final de semana?". Cuddy mudou de assunto se referindo aos irmãos de Karl.

"Se nada mudou…".

"Você comprou o presente de Ben?". O aniversário do garoto havia acontecido dias atrás, claro que ninguém da família House foi convidado. Mas eles mesmos fariam um bolo com velas para o menino.

"Eu… posso ter me esquecido".

"House!". Ela chamou a atenção dele enquanto colocava uma linda camisola de seda.

"Eu compro amanhã".

"Você vai ao shopping em pleno domingo?".

"Eu penso em algo".

Ela olhou desconfiada pra ele.

"Sempre podemos comprar on-line".

"Ah, isso é mais como a sua cara". Ela sorriu subindo no colo dele.

"Você se vestiu para eu te despir?".

"É sempre mais emocionante assim".

Ele sorriu, House amava essa mulher.

Então começaram a se beijar, a mão dele vagou para a bunda dela imediatamente.

De repente ouviram batidas na porta e pararam bruscamente.

"Quem é?".

"Eu…". A voz era de Karl.

Cuddy foi abrir. "O que houve, Karl?".

"Eu sonhei com a mamãe".

As vezes isso acontecia. O menino perguntava por Lydia. Pouco, mas acontecia mais e mais atualmente. House explicava que Lydia estava morando em outro lugar e que sempre pensava nele. Era estranho explicar isso para uma criança tão pequena. Cuddy tentava ajudar dizendo que Lydia o amava muito e que sempre estaria por perto, no coração de Karl.

"Oh querido, vem cá". Cuddy o abraçou e o menino retornou o abraço com tanta força que ela se derreteu.

"Vem comigo e com seu pai. Deite-se um pouco com agente".

O menino subiu na cama e estava pensativo.

"O que foi?". House percebeu.

"A tia Rose pediu pra darmos uma coisa pra mamãe". O menino falou se referindo a professora da creche. Estava próximo do Dia das Mães e provavelmente o menino fizera alguma arte para as mães.

"E o que ela pediu pra você entregar para a sua mãe?". House perguntou.

"Vou pegar!". O menino saiu tão rápido da cama e foi buscar algo no quarto dele.

Cuddy olhou para House com o semblante emotivo. House sabia que ela estava prestes a chorar. Ela sempre ficava emocionada quando Karl demonstrava a falta da mãe. Então House a abraçou e a puxou para junto dele. Ela se deixou cair em seu peito.

Karl voltou correndo. "Aqui!". Era um coração de papel com os dizeres: "mamãe".

"Podemos levar para sua mãe". Cuddy disse referindo-se ao túmulo de Lydia.

"Ou eu posso pedir pra entregar pra ela onde ela estiver". House ofereceu querendo aliviar a dor do filho.

"Não". O menino não concordou.

"Não?". House estranhou.

O menino balançou a cabeça.

"Então o que você prefere fazer?". House perguntou.

"É pra ela". Ele estendeu a mão entregando para Cuddy.

"Pra mim?". Ela se surpreendeu.

"Sim!"

House não esperava por essa e nem se moveu.

"Karl… obrigada!".

O menino sorriu. Cuddy, que estava perto de chorar, não conteve as lágrimas. "Posso te dar um abraço? Isso é lindo!".

O menino a abraçou novamente.

"Obrigada".

"Acho que vou…". O menino disse e saiu correndo tão rápido que nem deu tempo de se despedir.

"Eu… não sei o que dizer". Cuddy falou encabulada.

"Não diga nada então".

"Não é melhor irmos ver se ele está bem?".

"Não, ele ficará bem. Os Houses são resilientes".

Ela sorriu ainda com lágrimas caindo por seu rosto.

"Agora venha aqui ou eu terei que te buscar. Lembre-se de que fomos interrompidos".

Ela sorriu. "Estou em um momento fofo. Espere…".

Ele a puxou. Ela riu e caiu sobre ele.

"Nossa vida sexual precisa de tanto cuidado quanto as crianças". Ele brincou.

"Imagina se tivéssemos um recém-nascido…".

"Ainda bem que não temos".

"Ainda bem?". Ela olhou pra ele magoada.

"O que foi?".

"Talvez tenhamos um em breve?".

"O que você? … não!".

Ela sorriu.

"Cuddy… me diga que é mentira".

"Que tal depois… antes podemos cuidar do bebê que é nossa vida sexual". E ela se esfregou nele o provocando.

"Não conseguirei ter uma ereção com essa dúvida".

"Ah você conseguirá… eu te conheço".

"Cuddy…".

Ela sorriu de forma maliciosa e continuou sua saga até dar a ele uma ereção.

"Eu te disse…".

"Ok, podemos seguir aqui, mas depois…".

Ela o beijou com força e ele esqueceu qualquer coisa entregando-se a ela como sempre fazia, e sempre faria.

Continua...