Edward

Nos últimos dias, eu tinha flutuado entre a dor e a frustração das recentes descobertas e uma alegria incontrolável, que felizmente era o maior dos sentimentos. Nada se comparava ao que senti ao colocar os olhos na minha filha sabendo que ela era minha. Vê-la dormindo tinha sido a cena mais linda do mundo todo. Todas as palavras que eu conhecia, em várias línguas, não eram o suficiente. Nada que eu conhecia poderia servir como parâmetro.

Agora, eu estava no meio do caminho para a sala, imóvel, sentindo o peso do momento que se aproximava. Meus dedos tamborilavam contra a lateral da calça, um hábito inconsciente, reflexo da ansiedade que crescia no peito.

Durante anos, achei que conhecia a extensão da minha vida. Os desafios, as decisões, as perdas. Mas agora havia uma parte de mim que existia fora de tudo o que eu conhecia. Uma pequena pessoa que, em questão de segundos, entraria naquela sala e me olharia nos olhos sem saber quem eu era.

— Relaxa, cara — Emmett murmurou ao meu lado, dando um leve tapa no meu ombro — Ela é só uma garotinha, não um juiz pronto para te condenar.

Eu não respondi. Se tivesse que enfrentar um tribunal agora, seria mais fácil do que isso. E então, a campainha tocou.

Tentei respirar e me controlar enquanto ouvia a movimentação no cômodo ao lado, Carlisle estava conversando com ela. Quando ouvi a voz fininha falando papai e uma série de risadas, decidi que era minha vez de entrar.

Foi como se o mundo parasse. Eu tentei registrar cada detalhe dela, cada parte que estava à vista, como se fosse minha última tarefa neste planeta. Os cabelos ruivos tinham pequenos cachos nas pontas, passando um pouco das orelhas, os olhinhos curiosos eram verdes como os meus - e como os da minha mãe, lembrei - mas ela também se parecia muito com Bella, coisa que eu não tinha notado antes. Rápido demais, ela escondeu o rosto no pescoço de Carlisle.

Isso me deu um pouco de inveja porque era claro que ela o amava e confiava nele. Eu queria que ela me amasse e confiasse em mim também, a ponto de escolher o meu colo quando quisesse se esconder. Paciência, Edward.

Eu queria atravessar aquela sala e tocá-la, sentir que tudo aquilo era de verdade, e meus pés pareciam presos ao chão. Eu não sabia o que fazer. Respirei fundo e, tentando parecer menos um estranho e mais… acessível, me aproximei, ainda mantendo uma distância respeitável.

— Oi, Chloe — acenei, mas minha voz saiu mais rouca do que eu pretendia.

Ela piscou para mim. Os olhinhos curiosos viajaram do meu rosto até minhas mãos, até meu peito, como se estivesse tentando entender quem eu era. Meu corpo inteiro estava tenso, e eu tinha certeza de que todos na casa estavam segurando a respiração, esperando sua reação.

Então, Chloe inclinou a cabeça para o lado.

— Você?

Antes que eu pudesse verbalizar que não havia entendido sua pergunta, Bella se aproximou e a pegou de volta no colo.

Esse é o papai, amor.

Chloe piscou de novo, franzindo o nariz de um jeito adoravelmente confuso.

— Papai?

Meu peito se apertou, eu tinha certeza que todos conseguiam ouvir o barulho das batidas do meu coração. Bella sorriu, incentivando-a.

— Sim, querida. Ele é o seu papai, seu nome é Edward.

O pequeno rostinho dela se virou para mim outra vez. Desta vez, sua testa franzida demonstrava concentração, como se estivesse tentando ligar os pontos de uma informação que não fazia sentido. Adorável.

— Você papai? — ela balançou a mãozinha no ar.

— Sim — eu assenti lentamente.

Todos em silêncio. Eu acho que parei de respirar. Mas, como ela era filha de Bella, é claro que daria um jeito de me surpreender.

— Papai bonito.

Sua fala me pegou completamente desprevenido. Atrás de nós, Emmett soltou um ruído abafado de riso, mas eu só conseguia encarar aqueles olhos curiosos, absorvendo o significado de tudo isso. Ela não me afastou. Não chorou. Não se escondeu no pescoço da mãe. Ela me achou bonito.

Olhei para Bella, que estava com os olhos cheios de lágrimas. Nenhum de nós conseguia falar.

— Papai, você tem binquedo? — perguntou, começando a ficar impaciente. Percebi que ela tentava se soltar do colo de Bella, que apenas a apertava mais.

Engoli em seco e respondi da única forma que parecia certa naquele momento.

— Não tenho — murmurei — Mas… eu tinha quando era pequeno.

Novamente, ela se sacudiu no colo da mãe, que se abaixou e a colocou no chão, e era muito adorável a forma como ela caminhava em seu bumbum de fralda, procurando alguma coisa no canto da sala, um local cheio de brinquedos. Coisas de Esme, imaginei.

Então, sem aviso, ela voltou para o sofá, onde sua bolsa estava, e pegou um pônei de pelúcia, estendendo para mim.

— Toma, pega — disse, de forma simples.

Se meu coração já não estivesse em ruínas, esse seria o golpe final. Chloe estendeu o brinquedo para mim sem hesitação. O pônei parecia levemente gasto pelo uso, sua crina azul estava um pouco amassada e um dos olhinhos de botão estava ligeiramente solto, como se tivesse sido apertado muitas vezes por pequenas mãozinhas curiosas.

Eu não sabia o que fazer. Pegar o brinquedo parecia algo tão simples, mas minhas mãos estavam presas, incapazes de se mover. Chloe me olhava com expectativa.

— Aqui — disse, balançando o pônei no ar — Pega.

Minha garganta secou. Estendi a mão e peguei a pelúcia.

— Obrigado — minha voz saiu baixa.

Chloe sorriu. Um sorriso pequeno, quase tímido, mas que iluminou cada canto do meu ser de uma forma que eu jamais poderia descrever. Meu mundo nunca mais seria o mesmo.

— É meu. Devolve depois.

Eu assenti, sentindo um peso novo no peito. Ela não me conhecia direito. Não sabia o que eu significava para ela. Mas, de alguma forma, naquele instante, decidiu que eu podia segurar seu pônei.

— Qual o nome dele? — perguntei, segurando o brinquedo com cuidado.

Chloe inclinou a cabeça de leve.

— Pônei — respondeu, como se fosse óbvio.

Ouvi um ruído abafado atrás de mim e me virei a tempo de ver Emmett mordendo o lábio para não rir. Rosalie revirou os olhos e lhe deu um cutucão discreto. Esme, ao lado de Carlisle, estava sorrindo, os olhos brilhando com algo que parecia orgulho.

Bella se aproximou de nós, enquanto Chloe esticou as mãozinhas e apontou para o pônei.

— Ele gosta de história — ela disse.

Meu coração acelerou. Mordi o lábio, reunindo coragem para tentar algo novo.

— Posso contar uma história pra ele?

Chloe piscou para mim, processando a pergunta. Então, lentamente, assentiu e se sentou no chão. Meu peito se aqueceu.

— Vem — ela chamou, batendo as mãozinhas no tapete. Eu fui, é claro.

De perto, eu pude tomar nota de mais detalhes da minha filha: seu rosto tinha um formato redondo e os cachinhos na sua cabeça eram de duas cores, dependendo da luz que batia. Ela também era grande para sua idade, e eu imaginava que isso fosse graças à minha parte do DNA. Olhando de mais perto, ficou muito claro que qualquer um que a visse saberia que ela era minha. As semelhanças eram impressionantes. Cada centímetro dela era perfeito. Eu estava no céu.

Essa criança poderia fazer o que quisesse comigo. Se Chloe me dissesse que sua brincadeira favorita era me maquiar e cortar meu cabelo, eu aceitaria sem reclamar.

Bella se sentou e passou os braços ao redor de Chloe, beijando sua cabeça e olhando para mim, em expectativa. Mas, antes que eu pudesse começar, sua vozinha me interrompeu…

— Chloe segura o pônei — pediu e eu estendi a pelúcia para ela de novo — Papai conta história.

Meu peito congelou. Minha respiração parou. Eu não sabia se tinha ouvido certo. Bella piscou devagar, seus olhos encontrando os meus. Havia algo indecifrável ali. Algo silencioso. Algo poderoso e que me atingiu como um soco. Ela me chamou de papai conscientemente.

Ela segurava o pônei de pelúcia no colo e eu estava sentindo o peso simbólico daquele pequeno gesto. Chloe se acomodou no tapete entre mim e Bella, as mãozinhas pousadas sobre os joelhos, esperando. Ela queria ouvir uma história, e eu queria que ela ficasse ali. Queria que ela se sentisse segura comigo.

Minha garganta ainda estava apertada, a mente correndo em círculos sobre o que significava para aquela menininha de um ano e meio me chamar de papai — será que ela tinha plena consciência do que isso queria dizer?

— Tá bom — murmurei, ajeitando o pônei nas mãos dela como se ele fosse parte da história. — Então… o pônei corajoso estava andando na floresta quando encontrou uma garotinha muito especial…

Chloe arregalou os olhos, fascinada e levou a mãozinha ao peito.

— Eu?

Assenti devagar.

— Sim. E sabe o que o pônei disse quando viu a garotinha?

Ela mordeu o lábio, sacudindo a cabeça em um "não" animado. Me inclinei um pouquinho mais para perto.

— Ele disse…— fiz uma pausa dramática. — Oi, Chloe.

Chloe soltou uma gargalhada gostosa e cobriu o rosto com as mãos por um segundo, como se estivesse brincando de esconde-esconde. Ao meu lado, Bella estava olhando para mim, eu podia sentir, mas não conseguia olhar de volta. Não agora.

— E aí — continuei, tentando manter a voz leve — o pônei perguntou se a Chloe queria dar um passeio com ele.

Chloe largou as mãozinhas e se inclinou um pouco para frente, os olhos brilhando.

— Ela foi? — Bella perguntou.

— Hum…— levei a mão ao queixo, fingindo pensar.

Chloe balançou a cabeça, confirmando e Emmett, que observava do outro lado da parede, riu baixo.

— Você está cercado, cara. Aceita logo que não tem escolha.

Mal sabia ele que eu já havia aceitado minutos atrás.

— Emmett… modos! — Rosalie murmurou, mas eu ainda ouvi o riso divertido na voz dela.

— Chloe gosta de histórias assim — Esme acrescentou suavemente.

Eu absorvi isso, sentindo algo diferente crescer dentro de mim. Talvez eu estivesse fazendo algo certo. Talvez… só talvez…

— Então — continuei — O pônei e a garotinha saíram correndo por uma colina bem alta, bem verde. Mas de repente, sabe o que aconteceu?

Chloe arregalou os olhos de novo. Baixei um pouco a voz.

— Começou a chover.

Ela franziu o nariz.

— Muita?

— Muita chuva — fiz um barulho de trovão com a boca, só para ver sua reação.

Funcionou. Chloe arregalou os olhos e caiu na gargalhada novamente, jogando o corpinho para trás e batendo palminhas. E aí eu soube. Soube que estava perdido. Porque aquela risada era o som mais bonito que eu já tinha ouvido.

Quando Chloe se acalmou, ela se apoiou na perna de Bella para se levantar. Pegou o pônei do colo e, sem dizer nada, andou dois passinhos hesitantes até mim. E então, num gesto pequeno e desajeitado, escalou meu colo e se sentou ali.

Meu coração parou. Meu corpo ficou imóvel. Ninguém disse nada.

Bella ficou rígida ao meu lado, enquanto Chloe se aconchegou contra mim, segurando o pônei contra o peito e olhou para cima, piscando devagar.

E, como se fosse a coisa mais natural do mundo, murmurou:

— Mais história, papai.

Eu nem soube o que responder. Então, apenas respirei fundo e continuei. Porque eu sabia, naquele momento, que faria qualquer coisa para que minha filha sempre se sentisse segura assim.

Depois que Chloe se aconchegou no meu colo e eu terminei a história, ela começou a bocejar e logo foi levada por Esme para tirar uma soneca. Eu ainda conseguia ouvir o som distante da voz dela, meio arrastada de sono, enquanto Esme a levava para o seu quarto, que eu ainda não conhecia.

O silêncio entre mim e Bella era quase tão pesado quanto a conversa que eu sabia que estava por vir. Ela estava sentada no sofá à minha frente, os braços cruzados sobre o peito. Seu olhar estava fixo em um ponto invisível da sala, como se estivesse tentando organizar os próprios pensamentos antes de falar. Eu não a culpava, também não sabia por onde começar. Nessa hora, senti falta de Emmett, Rosalie e Alice, que tinham saído para a cozinha.

Passei a mão pelos cabelos, soltando um suspiro pesado. Eu ainda sentia o calor do corpinho pequeno de Chloe no meu colo. Ainda ouvia sua risada, sua voz infantil repetindo aquela palavra.

"Papai."

Meu peito apertou, e eu passei as mãos pelo rosto, tentando recuperar alguma sensação de controle.

— Você está bem? — a voz de Bella me fez levantar a cabeça.

Abri a boca para dizer que sim, que estava bem, mas as palavras não saíram. Porque eu não estava bem, e ela pareceu entender. Bella suspirou, apoiando os cotovelos nos joelhos.

— Eu sei que foi muita coisa para você.

Soltei uma risada curta, sem humor.

— Isso é um eufemismo.

Ela sorriu de leve. Por um momento, ninguém falou nada. Então, baixei a cabeça, olhando para minhas mãos.

— Eu não sei o que estou fazendo — minha voz saiu baixa.

Bella não respondeu imediatamente e eu respirei fundo, tentando organizar os pensamentos que pareciam estar em uma espiral fora de controle.

— Ela… me chamou de papai — continuei, minha garganta apertada — E isso deveria ser bom. Eu sei que é bom. Mas, ao mesmo tempo, me assustou tanto que eu mal consegui respirar.

Bella manteve o olhar fixo em mim, paciente.

— Eu passei anos achando que sabia exatamente quem eu era — murmurei — Um advogado. Um homem que sempre planejou cada passo da vida. Que tinha tudo sob controle. Nada me preparou para isso.

Soltei o ar em um suspiro cansado. Bella assentiu levemente, como se entendesse. Então, depois de um momento, sua voz saiu suave.

— Você não precisa ter todas as respostas agora, Edward.

Levantei os olhos para ela.

— Mas e se eu errar?

Bella suspirou, recostando-se no sofá.

— Então você aprende.

Franzi o cenho.

— Edward, ninguém nasce sabendo ser pai. Eu também não sabia ser mãe. E, sinceramente, às vezes ainda me sinto perdida — ela sorriu um pouco, um sorriso verdadeiro — Mas, como eu disse, Chloe não precisa de perfeição. Ela só precisa de você.

Meu peito apertou. Bella inclinou ligeiramente a cabeça.

— Você acha que eu não tive medo?

Engoli em seco. Eu não queria nem ter ideia de como ela se sentiu, sozinha.

— Eu tive — ela admitiu — Muito. Mas uma vez que olhei para aquela menininha nos meus braços, percebi que ela não precisava que eu soubesse tudo. Ela só precisava que eu estivesse ali. Que eu tentasse.

Respirei fundo. Eu nunca tinha pensado nisso dessa forma. Talvez porque, durante toda a minha vida, meu próprio pai nunca me deu essa liberdade de tentar e errar. Ele exigia perfeição. Sempre. Mas Chloe não precisava que eu fosse perfeito. Ela só precisava que eu estivesse lá.

Bella descruzou os braços e olhou para mim com sinceridade.

— Você já deu o primeiro passo, Edward. Ela já gosta de você.

Meu coração pulou no peito.

— Ela gosta?

Bella riu baixinho antes de responder.

— Se ela te deu o Pônei e sentou no seu colo? Sim. Isso significa que ela gosta de você.

Soltei uma risada trêmula, levando a mão à testa.

— Isso é uma loucura.

Ela sorriu.

— É. Mas é uma loucura boa.

Eu a observei por um instante, absorvendo o que ela estava me dizendo. Ela não estava me afastando. Ela estava me dando espaço. Eu não esperava por isso e talvez fosse exatamente do que eu precisava. Soltei um longo suspiro e passei a mão pelos cabelos.

— Então… o que eu faço agora?

— Você continua tentando.

Fiquei em silêncio por um momento. Então, assenti. Talvez eu não soubesse como ser pai. Mas, pelo olhar de Bella, pelo sorriso de Chloe, e pelo jeito como meu peito aqueceu quando ela se aconchegou em mim…

Talvez eu pudesse mesmo aprender.