Capítulo 20 - A Reunião
No luxuoso apartamento de Rita Skeeter, cedido por Lucius, o trio foi aparecendo um a um pelas chamas verdes da lareira. Rita surgiu primeiro, ajeitando os cabelos loiros com dedos ágeis enquanto seus olhos calculistas percorriam o ambiente que nunca se cansava de admirar, apreciando a sofisticação que refletia perfeitamente seu gosto refinado.
Em seguida, Fleur emergiu, seus olhos rapidamente captando a decoração impecável em tons dourados.
Por último, Lucius Malfoy, o antigo proprietário, surgiu com um ar de superioridade contida. Seu olhar afiado varreu o ambiente, observando as pequenas modificações que Rita havia feito no apartamento que um dia fora dele.
Assim que chegaram, Fleur imediatamente começou a tirar Zaino da mochila.
Rita, atenta à movimentação, interrompeu de maneira firme:
— Me desculpe, Fleur, mas eu não me sinto segura com um basilisco andando pela minha casa.
Fleur lançou um olhar paciente, embora determinado, antes de responder:
— Rita, eu peço para ele fechar os olhos. Zaino está muito estressado e precisa se esticar.
No entanto, Rita não cedeu:
— Que ele vá se esticar no banheiro, então.
Fleur suspirou, aceitando a proposta com uma leve hesitação:
— Tudo bem, vou preparar a banheira e adicionar um óleo de banho para que ele possa relaxar. Onde fica o banheiro?
— É a última porta no fundo do corredor — respondeu Rita.
Fleur assentiu, pegou sua mochila e disse suavemente:
— Já volto.
Ela se afastou em direção ao banheiro, carregando a mochila com Zaino cuidadosamente guardado dentro. À medida que sua silhueta desaparecia no corredor, Lucius e Rita permaneceram na sala, envoltos em uma atmosfera silenciosa.
Assim que Fleur sumiu de vista, Rita retirou o casaco, revelando uma regata fina, e colou um adesivo verde em seu ombro, com uma expressão de dor.
— O que houve? — perguntou Lucius, observando a careta de dor que ela fazia ao menor movimento.
Rita tentou dar de ombros, mas a dor a impediu, e sua expressão de desconforto se intensificou.
— Fui jogada contra a parede pela cúpula de defesa da Ministra — ofegou Rita, segurando o lado do corpo com uma careta. — Acho que luxei alguma coisa.
Lucius, com os olhos brilhando de impaciência, estendeu a mão com uma autoridade natural.
— Dê-me sua varinha, Skeeter. Eu sei como tratar ossos fraturados.
— Minha varinha está presa no chão, com o Feitiço Ímã, imagino que no final da tarde eu já possa buscá-la — respondeu Rita, mal-humorada.
Lucius ergueu uma sobrancelha, intrigado.
— Mas você não tem uma varinha reserva?
Rita bufou, incrédula.
— O senhor tem ideia de quanto custa uma varinha reserva?
Lucius a encarou, ainda incrédulo.
— E a varinha de seus pais? Não as guardou nem como lembrança?
Rita deu um sorriso cínico.
— Como acha que sobrevivi depois que meu nome foi arrastado na lama? Matérias sobre piqueniques e feiras do pêssego não sustentam uma casa.
Sem mais palavras, Lucius deslizou a mão por dentro de suas vestes e retirou uma pequena carteira de ouro. De dentro, puxou um frasco minúsculo, cheio de um líquido âmbar, oferecendo-o a ela em silêncio.
— Beba isso. Não é suficiente para colar ossos, mas vai amenizar o desconforto até que você chegue ao hospital.
Rita pegou o frasco com dedos trêmulos e, sem pensar duas vezes, esvaziou seu conteúdo de uma só vez. Um suspiro de alívio escapou de seus lábios enquanto a dor lentamente cedia. Então, seu olhar, sempre astuto, pousou sobre Lucius com uma curiosidade velada.
— Isso vai ajudar — murmurou, mais calma, mas os olhos continuavam avaliando-o, como se ainda calculasse suas intenções.
— Sempre tão eficiente, Sr. Malfoy — comentou, seu tom começando a mudar, a familiar malícia voltando a brilhar em seus olhos. — Aliás, conto os dias para publicar sua história.
Lucius ergueu uma sobrancelha, mas não interrompeu. Rita continuou, aproveitando a oportunidade:
— Uma verdadeira reviravolta do destino — disse ela, com um sorriso provocador. — Mal retornou ao mundo bruxo e já arrebatou o coração de uma Veela de sangue puro, vinda de uma família de prestígio. E como se isso não bastasse, controladora de um basilisco... — Rita fez uma pausa dramática, seus olhos fixos nos de Lucius. — Muitos diriam que o senhor lançou um feitiço poderoso para garantir um par que parece moldado à sua exata concepção de perfeição.
Lucius, inabalável, respondeu com um toque de ironia:
— Lançar um feitiço, Skeeter? Acredite, algumas pessoas simplesmente têm o que é necessário para atrair os melhores.
Rita manteve seu sorriso provocador ao retrucar:
— Sem dúvida, a jovem Delacour é o crème de la crème. Por isso mesmo é tão curioso que seu ex-marido seja um Weasley. Parece que, nos assuntos do coração, os critérios de escolha são… misteriosos.
Lucius balançou levemente os ombros, com um ar tranquilo.
— Creio que, entre todos os bruxos, talvez eu seja o último que poderia julgar o passado de Fleur ou suas escolhas anteriores.
Por um breve instante, Rita hesitou, analisando as palavras de Lucius. Seus olhos astutos tentaram decifrá-lo, buscando entender se havia um jogo sutil ou algo mais profundo em sua postura.
— Só isso? Nenhuma piada sobre os Wesley? Nem uma cara de superioridade? Será que o senhor realmente mudou, senhor Malfoy? Será que Azkaban fez do senhor um homem transformado?
Lucius sorriu com serenidade.
— Eu não diria que sou um homem completamente diferente, Rita. Não acredito em mudanças que apagam a essência de alguém. Mas Azkaban me deu tempo para refletir. A maior lição que aprendi é que o verdadeiro sábio evita os holofotes e as tempestades.
Rita soltou uma risada breve, bastante divertida.
— Fala o homem que acabou de se envolver em um plano com um basilisco no Ministério da Magia — disse Rita, inclinando-se para frente com os olhos brilhando de malícia.
Ela parou por um instante, avaliando Lucius com cuidado antes de continuar, mais séria desta vez.
— Mas, considerando que sua aparente mudança seja verdadeira, vou lhe dar um voto de confiança e lhe compartilhar algumas suspeitas relativas a este apartamento.
Antes que Rita pudesse continuar, Fleur voltou à sala com um sorriso satisfeito:
— Seu banheiro é enorme, Rita! Zaino está muito bem instalado na banheira.
Rita ofereceu um sorriso maroto em resposta, mantendo seu tom espirituoso:
— Sim, aquela banheira é praticamente uma piscina. Sempre me pergunto que tipo de festas aconteciam aqui.
Lucius, incrédulo com o comentário de Skeeter, arqueou uma sobrancelha e replicou friamente:
— Não tenho certeza ao que você se refere, Skeeter, mas talvez fosse mais útil especular menos e entregar logo o mapa para que Fleur transcreva o que memorizou do original.
Rita soltou uma risada suave, mas obedeceu, tirando de sua bolsa um pedaço dobrado de pergaminho. Com cuidado, ela o abriu na mesinha de centro à frente do sofá e entregou uma caneta a Fleur.
Fleur, focada, fechou os olhos por um momento, permitindo que cada detalhe do mapa se fixasse em sua mente. Após alguns segundos, ela abriu a mochila, retirou os óculos e os colocou com precisão.
Com um cuidado metódico, começou a transcrever as informações para o papel. Seus movimentos eram graciosos e precisos, enquanto o silêncio da sala era pontuado apenas pelo som suave da caneta deslizando sobre a página, transformando pensamentos em palavras com uma fluidez impecável.
Lucius a observava com uma suavidade, aproximando-se com a gentileza de quem está disposto a interromper aquele momento apenas para oferecer um gesto de cuidado.
— Posso lhe preparar algo, Fleur? — sua voz era baixa, quase um sussurro, para não quebrar o fluxo de sua concentração. — Um chá, talvez, para relaxar?
Sem desviar os olhos do mapa que tomava forma sob seus dedos, Fleur sorriu, um sorriso pequeno e agradecido.
— Um chá seria perfeito, Lucius. Obrigada!
Lucius, com um brilho de cumplicidade nos olhos, não resistiu à curiosidade.
— Algum sabor em especial?
Fleur ergueu os olhos por um breve segundo, sua expressão suavizada por um toque de timidez, antes de responder com delicadeza:
— Me surpreenda.
Antes que ele pudesse sequer se mover para atender o pedido, uma voz cortante e familiar quebrou o encanto do momento.
— Antes que pergunte onde guardo o chá, senhor Malfoy, lamento informar que aqui só tenho café — disse Rita, enquanto o observava com seus olhos sagazes.
Lucius olhou para Rita com uma expressão de incredulidade, como se a ideia de alguém viver sem chá fosse quase um ultraje.
— Talvez seja hora de rever seus níveis de cafeína, Skeeter — replicou ele, com uma mistura de reprovação e ironia.
Rita apenas deu uma risada curta, balançando a cabeça, sempre pronta para uma resposta espirituosa.
— Estou guardando os chás para a aposentadoria.
Mas Lucius, sem perder o fio de sua intenção, voltou seu olhar para Fleur, determinado a satisfazer seu desejo.
— Há uma casa de chás não muito longe daqui. Eu poderia ir e trazer algo que lhe agrade.
Fleur, com um gesto suave, tocou a mão de Lucius, seus dedos pousando levemente sobre os dele.
— Não precisa, Lucius. Não quero dar-lhe esse trabalho.
Lucius inclinou a cabeça, como se fosse difícil conter o ímpeto de agradá-la.
— Não seria trabalho algum, Fleur. Qualquer coisa pela minha salvadora.
Fleur riu baixinho.
— Lucius, não quero que você se sinta em dívida comigo. Somos um time. E além disso — ela fez uma pausa, sorrindo — Posso tomar café, não é problema.
Lucius hesitou por um momento, sua cabeça ligeiramente inclinada, como se confessasse uma fraqueza velada.
— Mas, infelizmente, não sei fazer café.
Rita, levantou-se de seu assento, como se estivesse esperando a deixa perfeita.
— Ok Malfoy, pare de rondar Fleur e venha, vou lhe ensinar a fazer um café decente.
Fleur, rindo suavemente, olhou para Lucius com uma expressão que mesclava diversão e cumplicidade.
— Pode ser útil aprender a fazer café, Lucius — comentou ela, num tom leve e brincalhão.
Lucius, ainda tentando desvendar mais sobre Fleur, numa tentativa discreta de mostrar sua gratidão, perguntou:
— E como você gosta do seu café?
Fleur suspirou, tirando os óculos para olhar diretamente para Lucius.
— Lucius, eu sei que está tentando me agradar, mas preciso transcrever tudo enquanto ainda está fresco na minha mente.
Lucius sentiu um leve desconforto com a resposta, percebendo que ela tinha razão. Ele sempre desprezou a inconveniência nos outros, mas agora percebia que havia caído na mesma armadilha. Fleur, notando o embaraço, suavizou a tensão com um sorriso.
— Mas, se quer saber, gosto do meu café quente, forte e bem doce. Se forem torrões pequenos, seis. Se forem grandes, quatro.
Lucius levantou as sobrancelhas, surpreso.
— Tudo isso?
Fleur sorriu, com um toque de diversão.
— Eu gosto bem doce. Agora, vá fazer o meu café!
Rita Skeeter, sempre pronta para uma provocação, aproveitou a oportunidade:
— Dizem que as preferências de café revelam muito sobre a vida sexual de uma pessoa.
Fleur lançou um olhar incrédulo e impaciente para a repórter.
— Sério, Rita? Será que eu não fui suficientemente explícita sobre a importância de transcrever tudo imediatamente? Desse jeito, eu nunca vou terminar esse mapa.
Rita soltou uma risada divertida, levantando as mãos em um gesto de rendição.
— Tudo bem, Fleur, parei por aqui — disse ela, ainda rindo. — Eu que trabalho com sua mãe, sei muito bem como não é sensato irritar uma Veela. Não quero descobrir o outro lado do seu temperamento!
Fleur balançou a cabeça, soltando um suspiro cansado, mas com um leve sorriso no rosto.
Lucius, visivelmente exasperado, balançou a cabeça, encerrando a conversa com firmeza.
— Vamos, Skeeter. Deixe Fleur trabalhar em paz.
Sem esperar resposta, ele se dirigiu à cozinha, decidido a preparar a bebida. Rita, observando-o com atenção, permitiu que seu olhar retornasse a Fleur, que seguia transcrevendo horários, nomes e setas com uma precisão impressionante. A dedicação e a habilidade de Fleur provocaram um lampejo de curiosidade em Rita. Incapaz de esconder sua admiração, lançou a pergunta com um toque desafiador:
— Quanto do mapa ela conseguiu memorizar?
Lucius, voltou a olhar Fleur, agora completamente imersa em seu trabalho, então ele esboçou um sorriso sereno, carregado de admiração.
— Tudo.
