Aviso: Este capítulo contém uma breve menção a abuso infantil e perda dos pais no passado. Baseado no cânone dos quadrinhos.

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Os Bartons


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Sábado, 31 de outubro de 2015. Manhã.

Andar dos Hawkingbird.

Bobbi se olhava no espelho, alisando o tecido da fantasia de Psiquê, a qual finalmente tinha decidido usar. Pepper havia lhe enviado duas opções, mas a jovem mãe não conseguia se ver como Afrodite, a deusa da beleza… pelo menos, não mais.

Desde cedo, Barbara Morse sempre foi vista como perfeita – bela, inteligente, atlética – colocada em um pedestal. Todos assumiram que o sucesso para ela vinha naturalmente, que ela navegava pela vida sem nunca enfrentar dificuldades. Contudo, cada triunfo carregava o peso esmagador de uma expectativa crescente, a pressionando e sufocando. Ela sempre precisou atender aos altos padrões que os outros estabeleceram para ela, e os ainda mais altos que ela mesma se impôs. Qualquer coisa que não fosse perfeição parecia um fracasso. Para o mundo, ela era impecável. Para si mesma, estava a um passo de decepcionar a todos.

Passando a mão pela barriga, ela franziu a testa. O que há de errado comigo? Eu devia estar feliz… Eu estou feliz… O conflito fervia silenciosamente dentro dela, sua alegria como mãe misturada com um desconforto persistente. As mudanças pós-parto haviam remodelado seu corpo, fazendo com que ela se sentisse menos… atraente.

Ainda assim, o espelho contava outra história. O decote em V profundo destacava seu busto mais volumoso, enquanto a faixa roxa marcava sua cintura, realçando o tecido verde-mar que abraçava seus quadris… Suas curvas agora ainda mais sedutoras. O vestido na altura da coxa deixava suas pernas tonificadas à mostra, e as delicadas tiras de suas sandálias estavam amarradas ao redor de suas panturrilhas torneadas. Sua beleza clássica permanecia intacta; um aplique em formato de coque e longos cachos loiros caindo de um lado, presos por uma faixa esverdeada. A maternidade não havia roubado sua beleza – a havia aprimorado, embora ela ainda não estivesse pronta para ver isso.


Saindo do quarto do casal, Bobbi encontrou Clint no quarto do bebê, tentando acalmá-lo. Por um momento, ele apenas a encarou, encantado com a imagem dela. Mesmo com a fantasia colorida — ou talvez por causa dela — ela estava deslumbrante. Não demorou muito para que Francis choramingasse, estendendo os braços para a mãe assim que a viu. Frustrado e se sentindo impotente, o pai saiu silenciosamente do quarto, deixando-a acalmar o filho. Mas, para a jovem, o silêncio do marido pareceu frieza, indiferença.

Depois de se sentar para amamentar, ela ninou o bebê, que finalmente começou a se acalmar. À medida que o ambiente se tornava mais quieto, seus pensamentos se agitavam, até que as lágrimas começaram a escorrer. — Acho que seu pai não me quer mais… — sussurrou, a voz falhando.

Sem que ela soubesse, Clint estava parado na porta, segurando uma jarra de suco fresco. As palavras dela o atingiram como um golpe no peito e ele apertou o cabo de vidro. O que diabos eu estou fazendo? Seu coração se encheu de culpa, sabendo que tinha falhado com ela ao fazê-la se sentir assim. Respirando fundo para se recompor, ele se afastou, tentando acalmar a mente e encontrar uma maneira de consertar as coisas.

Alguns minutos depois, enquanto Bobbi colocava Francis adormecido no berço, Clint reapareceu na porta. Vestido com a fantasia de Cupido, ele mostrou uma flecha em forma de coração, dando a ela um sorriso sem graça. — Birdie… essas coisas não existem — brincou, com um toque de sinceridade. — Mas se existissem… eu teria sido flechado no dia em que te conheci. E todos os dias desde então.

Os olhos dela se arregalaram, refletindo sobre a aparência desajeitada e o peso das palavras dele. Quando seus olhares se encontraram, ela se surpreendeu vendo nele tanto amor quanto um desejo inconfundível. Antes que ela pudesse responder, ele atravessou o quarto e a tomou em seus braços, beijando-a profundamente. No momento em que seus corpos se tocaram, ela sentiu o calor do abraço dele e a certeza de que ela não era apenas uma mãe – mas sua mulher.

— Eu quero você… a toda hora, todos os dias… — sussurrou entre os beijos, sua voz carregada de reverência e de uma paixão quase incontrolável. Quando finalmente se afastou, ele beijou as mãos dela suavemente. — Me perdoe se alguma vez te fiz sentir o oposto. Você é o amor da minha vida, minha esposa e mãe do nosso filho. — A mão dele acariciou ternamente a barriga dela. — Qualquer coisa que me lembre disso… me faz querer você ainda mais.

Embora Clint tivesse crescido como órfão no interior, com pouca educação formal, sua habilidade incomparável como arqueiro vinha de seus extraordinários poderes de observação – ele conseguia ver o que ninguém mais via. Desde o começo, ele percebeu a luta de Bobbi para manter uma imagem de perfeição. E conquistou seu coração mostrando que ela não precisava daquilo com ele. Ela se lembrou da primeira vez que ele confessou seu amor por ela, depois que lutaram juntos contra uma gangue de bandidos, quando ela estava em seu pior momento – suja, sangrando, exausta. Ele disse que ela era linda. Ela disse que queria se casar com ele. E foi o que eles fizeram no dia seguinte.

Mais uma vez, ele percebeu a angústia dela. A respiração dela falhou ouvindo as palavras dele, mas ele não havia terminado. Ele se aproximou e segurou o rosto dela, os olhos transbordando de ternura. — Mas ouça, Birdie… Você é a mãe do Francis e eu não posso… eu não vou te afastar dele. Ele precisa de você. — Sua voz falhou, suas mãos tremiam. — Eu… eu tinha sete anos, Bobbi. Eu precisava da minha mãe também… e então ela foi tirada de mim.

O coração dela ficou apertado. — Ah, Clint… — Com delicadeza, ela ergueu a mão, tocando o rosto dele. — Eu não sabia… Sinto muito…

Ele balançou a cabeça e deu um beijo suave nela. — Você não tem nada pelo que se desculpar. Você… é… perfeita. — Os lábios dela tremeram, mas ele manteve o olhar fixo no dela, ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha dela. — Pra mim, pro Francis… você é tudo. Nunca duvide disso, por favor.

Com as testas juntas, a risada suave dela se misturou à tensão que havia entre os dois. A respiração dele aquecia a pele dela e ela sentiu o peso das palavras dele se assentarem… intensas, mas de alguma forma libertadoras. Ela percebeu que conhecia pouco sobre o homem com quem se casou, e que ainda tinham muito para compartilhar. Agora, ao ver a profundidade das cicatrizes de Clint, suas inseguranças pós-parto pareciam quase triviais em comparação.

— Você nunca me contou sobre sua infância… — Bobbi sussurrou, abraçando e apoiando a cabeça no peito dele.

As mãos dele tremiam levemente enquanto ele falava, revivendo memórias que ele geralmente mantinha enterradas. — Não há muito o que contar. Harold… ele era um covarde… um bêbado violento. Um dia, saiu dirigindo com minha mãe… e foi o fim. Eles não sobreviveram. O nome dela era Edith. — A voz dele falhou, a dor era evidente. — Me colocaram em um orfanato junto com meu irmão Barney. Ele tinha nove anos.

Ela o abraçou mais forte, como se pudesse absorver um pouco de sua dor.

— Barney sempre levou a pior… Minha mãe também… Ela tentou muito nos proteger. — O olhar dele ficou distante. — Meu avô dizia que Harold não era um verdadeiro Barton, mas, naquela altura, ele já estava em um asilo. Não podia fazer nada contra seu próprio filho.

Ela sempre soube que Clint escolheu nomear seu filho em homenagem ao seu amado avô, Francis Barton — o único membro da família que ele havia mencionado antes. Agora ela entendia por que ele nunca falou sobre o seu pai.

As mãos dele se fecharam em punhos, a fúria estampada em seu rosto. — Eu… eu o odiava, Bobbi. Odiava tanto. — A confissão o deixou visivelmente trêmulo, mas ele respirou fundo, relaxando um pouco enquanto passava as mãos nas costas dela, encontrando equilíbrio no calor dela. — Eu te prometo, nunca vou ser como…

— Clint, você não tem nada dele! — Ela o interrompeu, acariciando o rosto dele. — Eu não poderia ter escolhido pai melhor para o Francis.

Agora tudo fazia sentido. Conforme o filho crescia e exigia mais da mãe, o pai manteve certa distância, não querendo competir com o filho pela atenção dela. Seu silêncio nunca foi indiferença – era o trauma de um menino que perdeu a mãe muito cedo.

Os dedos dela se entrelaçaram nos cabelos loiros dele, puxando Clint para um beijo. Enquanto se abraçavam, a tensão entre eles se dissipou, dando lugar a um calor constante, uma promessa de que enfrentariam o que viesse pela frente… juntos.

— Eu só… quero que ele goste de mim, sabe? — Ele murmurou, uma vulnerabilidade quase infantil em seu tom.

Ela passou o polegar ao longo da mandíbula dele, falando suavemente. — Ele ama você. Ele ainda é pequeno, e eu sou a fonte de comida, né?

Ele sorriu de leve, quebrando sua tensão, enquanto respondia. — Difícil competir com isso.

— Mas confie em mim, — ela continuou, a voz cheia de certeza — à medida que ele crescer, você vai ver. Ele já tem aquele brilho nos olhos quando olha pra você, quando vocês brincam juntos. Eu vi a mesma coisa com meu irmãozinho e meu pai.

Abrindo um sorriso torto, ele relaxou os ombros, aliviando o peso sobre eles. — Você é incrível. Já te disse isso hoje?

Ela corou um pouco, sorrindo para ele, o coração aquecido pelas palavras dele.

— Eu não faço ideia do que estou fazendo na maioria das vezes, mas você? Você tira de letra! — Disse ele, com orgulho na voz. — Francis é abençoado em ter você. E eu sou muito sortudo por você ser maluca o suficiente pra estar comigo.

Ela soltou uma risadinha, as mãos deslizando até repousarem no peito dele. — Eu te amo — sussurrou, com a voz suave mas cheia de emoção.

Clint olhou para si mesmo, mostrando o próprio traje, com um sorriso divertido. — Olha pra mim! Eu jurei que nunca usaria essa coisa ridícula. Mas por você? Eu usaria todo dia. Faço qualquer coisa pra te mostrar o quanto eu te amo, viu? Todo santo dia. — Seus olhos brilharam enquanto se inclinava mais perto. — E sabe de uma coisa? Já nem ligo mais. Deixa eles rirem. Minha esposa é a mais linda de todas… e não tô falando só da fantasia, embora ajude.

Ela gemeu, cobrindo o rosto. — Não tô ridícula de minissaia?

— Com essas pernas? Birdie, você fica linda com qualquer coisa — brincou ele, com um tom descontraído e sincero. — Mas olha pra mim, eu também tô de minissaia.

O olhar de Bobbi percorreu o corpo dele, percebendo a maneira como a toga roxa curta caía sobre o peito tonificado e os ombros largos. As pernas, fortes e definidas, estavam à mostra, com sandálias gladiadoras subindo até os joelhos. Um calor logo se espalhou dentro dela enquanto o observava.

— Você está… sexy — admitiu ela, mordendo o lábio inferior.

A faísca nos olhos dele se intensificou. — Agora estamos falando a mesma língua...

Clint deu um passo mais perto, com o desejo em seu olhar, passando os dedos levemente pela cintura dela antes de capturar seus lábios em um beijo lento e demorado. O mundo ao redor deles desapareceu, o calor do seu corpo contra o dela acendeu algo profundo em seu interior. O beijo foi intenso, repleto de todas as promessas não ditas que ela até então não tinha percebido que precisava. Quando finalmente se separaram, as testas se tocaram e suas respirações se misturaram. Ela sorriu suavemente, sentindo o conforto dessa conexão.

O som de Francis se mexendo no berço os trouxe de volta à realidade, os lembrando da vida que construíram juntos. Ele sorriu com orgulho. O filho deles era a prova de que ele tinha construído uma família – recuperando algo que ele temia nunca conseguir.

Bobbi prometeu. — A festa está esperando. Mas depois, encontraremos um tempo… só nós dois, tá?

Clint riu baixinho, o brilho brincalhão voltando aos seus olhos. — Só nós dois, hein? — Ele se inclinou, os lábios roçando a orelha dela enquanto sussurrava. — Vou cobrar.

Ela riu, dando um beijo na bochecha dele. Enfim, o coração estava completo, em paz.

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Nota da autora: Para compensar o pai abusivo de Clint, criei um avô amoroso que incutiu nele orgulho pelo nome da família.

REFERÊNCIAS:

QUADRINHOS DA MARVEL:

Hawkeye & Mockingbird Vol 1 (2010) — Família de Bobbi.

Hawkeye: Blind Spot Vol 1 (2011) — Passado de Clint.