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Banquete dos Deuses


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Andar do Restaurante, Sala de Jantar Privativa. Meio-dia.

O ambiente parecia ter saído diretamente do Monte Olimpo: pilares de espuma erguiam-se elegantemente até o teto, formando uma rotunda grandiosa. Um céu azul mediterrâneo era projetado nas paredes, misturando-se harmoniosamente com a luz dourada que atravessava as amplas janelas de um dia de outono fresco em Nova York. De tempos em tempos, um cavalo alado surgia no ar, galopando entre pássaros coloridos — um toque encantador que dava vida à cena. Arranjos com brinquedos temáticos decoravam a mesa impecavelmente preparada, coberta com toalhas brancas e douradas e salpicada de pétalas de flores. Tigelas de uvas, figos e pães pita recém-assados estavam dispostas artisticamente, deliciosamente convidativas.

Com eficiência e tranquilidade, Anna Ameyama, a talentosa chef da Torre, colocava os toques finais na mesa de bufê posicionada sob uma pérgola decorada com heras e flores. O aroma quente e apetitoso dos sanduíches gregos de cordeiro misturava-se ao doce perfume das sobremesas de massa folhada regadas a mel, numa fusão irresistível de fragrâncias e sabores.

Havia uma música ambiente suave, tocada por uma lira, quando os anfitriões entraram juntos, com fantasias que combinavam perfeitamente com a cena. Tony caminhou em direção à cabeceira da mesa, quase irreconhecível como Zeus, com peruca e barba brancas, túnica roxa escura e um traje musculoso incrivelmente realista.

— Tenho que admitir, minha rainha Hera — disse ele, gesticulando para o ambiente com seu cetro dourado em forma de raio — isso está mais do que perfeito.

Em sua túnica rosa brilhante e com uma longa peruca loira, Pepper estava muito elegante e graciosa.

— Um teste para as festas de aniversário deles, certo?

— Aniversários já? E eu sou o exagerado...

— Preparação é a chave. Mas também gostei. — Ela arrumou uma pétala de flor da mesa com delicadeza. Um olhar nostálgico surgiu em seus olhos enquanto se lembrava das muitas celebrações que haviam planejado juntos.

Com uma bandeja de aperitivos e vinho, a chef se aproximou, cumprimentando-os carinhosamente.

— Acho que os olímpicos aprovariam.

— Você tá linda, Anna — disse Pepper, envolvendo a jovem de 25 anos em um abraço.

Vestida como Deméter, a deusa da colheita e da agricultura, ela usava um longo vestido verde-oliva, adornado com flores e frutas nas alças. Seu cabelo preto liso estava preso com uma tiara de plantas, incorporando o espírito da ocasião.

— Você também, Dona Pepper. E obrigada pela fantasia. Adorei.

— Tá tudo impecável, garota — elogiou Tony, pegando um charutinho de uva da bandeja.

— Escolhi vinhos gregos antigos para manter a autenticidade. Que tal começar com um Assyrtiko, Seu Stark?

O casal brindou, e Tony exclamou — Um espetáculo! Seu tio Jarvis ficaria orgulhoso.

Edwin Jarvis havia dedicado sua vida aos Starks e, após sua morte, Tony cuidou da irmã viúva do mordomo, Charlotte. Agora, a neta dela carregava esse legado com orgulho, atendendo às necessidades únicas dos Vingadores como uma das poucas pessoas que sabiam da existência dos bebês do grupo.

— Só estou fazendo o meu trabalho, chefe — respondeu com modéstia.

Experimentando queijo feta coberto de mel, Pepper sorriu, satisfeita.

— Você realmente se superou, Anna.

— Fico feliz que tenham gostado — respondeu a chef com um sorriso, recuando enquanto os primeiros convidados começavam a chegar.

— Ei, não vão começar sem a gente! — Bruce chamou, ajustando o manto cinza-escuro que caía sobre sua túnica. A peruca azul que usava como Hades reluzia sob a luz.

— O rei do Olimpo dá as boas-vindas ao meu irmão do submundo e à sua deslumbrante rainha — disse Tony com um gesto teatral. — Minha cara Perséfone, você está eternizando a primavera.

Betty sorriu timidamente. Seu vestido rosa-claro caía suavemente enquanto ela ajeitava uma mecha da peruca loira atrás da orelha.

— Obrigada. Mas acho que o crédito vai para sua esposa por escolher essas fantasias. Vocês estão perfeitos!

As duas mulheres se abraçaram com afeto, trocando elogios.

— Você tá absolutamente incrível. — Pepper disse com um sorriso travesso — E os bebês vão adorar a peruca brilhante do tio.

— Vou mandar as reclamações diretamente para você — Bruce brincou, provocando risos dos outros enquanto beijava a bochecha dela. — Você tá linda.

Após serem recebidos por Anna com mais bebidas e aperitivos, os casais começaram a circular pela sala, admirando a decoração cuidadosamente planejada. A área de recreação, com brinquedos macios inspirados em Hércules da Disney, estava pronta sobre um colorido tapete em formato de nuvens e estrelas, esperando pelos pequenos.

— Olha só! — exclamou Betty, inspecionando a variedade com um sorriso encantado. — Como conseguiram reunir todos os personagens? Fui à loja da Disney lá embaixo mas eles disseram que o filme é antigo. Só encontrei os Blu-rays, que já dei para a Natasha e a Bobbi.

— É, tive que fazer um pedido especial — respondeu Pepper, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

Tony deu um sorriso convencido. — O Bob ajudou? Espero que você não tenha me comprometido a fazer publicidade pros filmes dele.

— Eu jamais faria isso com você, né? Mas ele nos convidou de novo para a próxima estreia ou algo assim — convidou toda a equipe.

— Depois daquele fiasco do Ultron? Passo, obrigado — murmurou Bruce, balançando a cabeça. — Deviam me pagar mais por terem difamado minha imagem.

— Têm várias histórias boas nos quadrinhos. Não entendo por que não usaram isso para criar um enredo melhor — ponderou Betty, com uma pitada de desapontamento.

Pepper deu de ombros. — Pelo menos arrecadaram bastante dinheiro para nossas instituições de caridade.

Desde o primeiro filme do Homem de Ferro, os direitos de licença de Tony eram distribuídos a diversas causas beneficentes. Com o tempo, todos os Vingadores fizeram acordos semelhantes. A franquia havia arrecadado bilhões de dólares, gerando milhões para os super-heróis verdadeiros.

Eles se sentaram à mesa, e Tony riu, inclinando-se para trás.

— Para uma inteligência artificial, o Ultron era mesmo burro. Tantas formas mais fáceis de destruir o mundo, né, JARVIS?

Houve uma breve pausa antes que a voz suave e educada da IA respondesse:— De fato, Mestre. Se eu tivesse tal intenção, detonaria todos os arsenais nucleares do mundo simultaneamente. No filme, mesmo sem os códigos de lançamento, Ultron poderia simplesmente ter enviado seus robôs para disparar os mísseis manualmente, neutralizando sistemas de segurança digitais com acesso físico. Sem necessidade de construções complexas ou materiais exóticos para atingir um evento de extinção global.

Os quatro se entreolharam. Bruce arregalou os olhos e virou-se para seu amigo.

— Ele pode fazer isso?

Tony acenou com a mão, despreocupado. — Relaxe. Diretrizes básicas. Nada de apocalipse por conta dele.

— Exatamente. Minha programação proíbe qualquer ação desse tipo, Senhor Banner — JARVIS respondeu, adaptando-se à diretriz recente de tratar todos os residentes e seus cônjuges de maneira mais informal, a não ser em contextos profissionais. — Além disso, o raciocínio de Ultron é inerentemente ilógico. Não se pode alcançar a paz para a humanidade erradicando-a. Como ocorre na maioria das representações fictícias de IA, sua caracterização foi excessivamente humana e, portanto, falha.

— Ainda bem, JARVIS. Você deveria ser consultor desses filmes.

— Não seria recomendável, senhor. Para começar, eu vetaria a própria existência de Ultron. A premissa é tão enganosa quanto o enredo de O Dia da Independência — um vírus de computador humano infectando uma rede alienígena. De forma semelhante, se o Mestre Stark pudesse acessar um sistema extraterrestre, compreender a linguagem ou código deles seria tão complexo quanto descrito no filme A Chegada. Tal código teria então que ser adaptado e reescrito em linguagens de programação terráqueas antes que pudesse ser integrado em nossos sistemas.

A IA então explicou — Tome um smartphone como exemplo: um aplicativo feito para Android não rodará em um iPhone, e vice-versa. A ideia de que esse código alienígena poderia ser facilmente transferido e executado em qualquer computador da Terra é exponencialmente menos plausível.

Tony sorriu, girando sua taça de vinho.

— Eu sou um gênio, mas até eu tive dificuldade de engolir essa.

Bruce não conteve uma risada.

— Então, todos concordamos que Era de Ultron foi um fracasso — disse Betty, levantando uma sobrancelha.

— De fato, Senhora Banner — JARVIS continuou, imperturbável — No entanto, como você astutamente observou, os quadrinhos e desenhos animados da Marvel já usaram IA com ideias muito mais inteligentes antes — como o Armagedom nuclear de Ultron. No entanto, tal enredo, embora logicamente sólido e adequado para um episódio de TV de 23 minutos, seria muito curto para sustentar um longa-metragem e provavelmente muito sombrio e simplista para o cinema dramático — um potencial desastre de bilheteria.

Pepper soltou uma gargalhada.

— Definitivamente não seria material para um blockbuster.

A conversa foi interrompida pela chegada de Sam, cujo traje de Hermes chamou a atenção de todos. As cores branca e dourada reluzente da fantasia destacavam sua pele morena, enquanto a túnica curta e ajustada evidenciava sua forma atlética.

As mulheres presentes assobiaram, enquanto Tony fingiu irritação.

— Faltou pano para a roupa dele?

Imperturbável, o jovem de 23 anos abriu um largo sorriso e incorporou o personagem. Com um cajado alado adornado por duas serpentes entrelaçadas e miniaturas dos deuses, ele fez uma reverência dramática. As asas em seu capacete dourado brilhavam levemente a cada movimento, assim como as dos seus calçados azuis.

— O mensageiro dos deuses está ao seu serviço, esplêndida rainha Hera.

— Exibido — murmurou Tony, embora o sorriso em seus lábios denunciasse sua diversão.

— Não me diga que tudo isso é só para a gente — Pepper comentou, dando um beijo em sua bochecha.

— Eu… Eu tenho outra festa depois — Sam respondeu, um pouco sem graça. — Mas vocês estão incríveis.

Após cumprimentar Bruce e Betty, ele foi recebido por Anna, que apareceu com uma bandeja em mãos.

— Aqui, Hermes. Você merece uma Mythos.

— A própria deusa da perfeição culinária — agradeceu Sam, abrindo a garrafa de cerveja grega e tomando um longo gole.

A chef sorriu.

— Bajulação pode render mais cerveja.

— Então vou continuar. Correr por aí entregando mensagens divinas dá muita sede.

Satisfeita, mas sempre focada, Pepper voltou-se para ele com curiosidade.

— Então, a que horas o mágico vai chegar?

Sam congelou no meio de um gole, quase engasgando com a cerveja. Sua mente entrou em alerta. O mágico. Ele tinha prometido cuidar disso uma semana atrás. Mas… Eu não contratei ninguém!

— Ele… deve chegar… logo — conseguiu dizer, as palavras saindo rápidas demais. O pânico começava a invadir sua voz.

O olhar de Pepper ficou sério, a suspeita evidente em seu rosto. Ela lançou um breve olhar para Tony, que levantou uma sobrancelha, e depois voltou a encarar Sam.

— Logo?

— Sim. Eu… vou, hum… encontrá-lo… lá embaixo. Para garantir que ele não se perca, sabe?

Sem esperar uma resposta, ele disparou em direção à porta, o coração batendo forte.


Elevador Expresso Privativo dos Vingadores.

Dentro de um dos elevadores reservados exclusivamente para a equipe, Sam se apoiou contra a parede, respirando de forma irregular.

Vou ser demitido, pensou, sentindo a ansiedade crescer no peito. Por que eu não fiquei de boca calada?

Ele fechou os olhos, lembrando de todas as vezes que provocou os Vingadores mais velhos sem piedade. Steve normalmente o defendia quando Tony ficava irritado, mas depois de todo o sarcasmo que ele andou soltando…

Ninguém vai me salvar dessa.

Como já planejava ir ao QG da SHIELD naquele dia, Sam se oferecera para uma tarefa simples: conversar com a agente Margot Lang sobre contratar o marido dela, um mágico conhecido como "O Próximo Vingador". Ele já havia feito apresentações familiares para outros funcionários e tinha um histórico impecável, além de ter sido rigorosamente avaliado pela agência. Acostumado a lidar com acordos de confidencialidade, era a escolha ideal para entreter os bebês dos Vingadores — um segredo ainda mantido a sete chaves do público.

Mas tudo mudou quando ele a viu.

Leila Taylor. Um único olhar para aqueles olhos escuros e lábios carnudos familiares, e tudo o que ele achava que havia superado voltou à tona com a força de um trem descarrilado.

A história deles não havia sido longa, mas fora intensa — namorados do ensino médio, o primeiro amor. Ela se mudou para o oeste para estudar jornalismo, ele ficou para cursar engenharia, perderam o contato e a conexão. Pelo menos, era o que ele pensava.

Vê-la novamente o deixou completamente fora de órbita. Passaram o resto do dia colocando a conversa em dia, retomando uma relação que parecia ter ficado em suspenso, intacta, como se nunca tivessem se afastado. Desde então, os dois estavam se vendo, embora ele ainda não soubesse como definir o que estava acontecendo.

Mas, naquele dia, ele nunca chegou ao escritório. E essa única indulgência agora o havia colocado em uma enrascada monumental.

Como vou explicar isso?

Se ele conseguisse sobreviver ao dia, ainda tinha planos de ir à festa do Dia das Bruxas do bairro com Leila para descobrir o que exatamente havia entre eles. Se…

O som do elevador parando o fez endireitar-se abruptamente, como se tivesse levado um choque. Ele não tinha tempo a perder.

Alguma das lojas no térreo da Torre tinha que ter algo — qualquer coisa — que pudesse ser transformada em entretenimento. Pior cenário? Plano B.

Lembrando das histórias de sua irmã sobre shows infantis, ele pensou: Fantoches. Sua dignidade estava por um fio, dependente de um milagre para salvar sua pele.

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Nota da autora: Escrever é um trabalho solitário, um verdadeiro ato de amor. Só podemos crescer e encontrar motivação com feedback. Suas opiniões são sempre muito importantes para mim, então, por favor, sinta-se à vontade para deixar um comentário.


REFERÊNCIAS:

Trivia: James D'Arcy (que interpretou Edwin Jarvis na série Agent Carter em 2015) tem uma irmã chamada Charlotte.

QUADRINHOS DA MARVEL:

Captain America Vol 1 (1971) #139 — Leila Taylor (primeira aparição)

Sensational Spider-Man Vol 2 #24 (2006) — Jarvis tem uma irmã, nome desconhecido.

TEST Kitchen Infinity Comic Vol 1 (2022) — Chef Anna Ameyama, sobrinha de Jarvis.

#2 — [Tony] Então, o que você diz, garota?! Pronta para fazer mágica de dar água na boca para mim?

#3 — [Anna] Só fazendo o que você pediu, chefe.

DESENHOS ANIMADOS DA MARVEL:

Avengers: Earth's Mightiest Heroes (2011) 1x23 "The Ultron Imperative" — Armagedom nuclear de Ultron.