Luisa POV ON
Enquanto caminhávamos de volta à cabine, minha mente estava em um turbilhão. Eu sabia que tinha me deixado levar, que quase pus a perder todo o tempo em que escondi meus sentimentos por Milo. Permitir que o ciúme transparecesse daquele jeito foi um erro que não podia me permitir cometer novamente.
"Foi só pelo disfarce" tentei me convencer, repetindo a frase como um mantra. "Ele precisava mostrar que estava acompanhado. Foi apenas uma demonstração profissional."
Mas, no fundo, a verdade era outra. Aquela mulher se insinuando para ele tinha mexido comigo de uma forma que eu não conseguia ignorar. Não era apenas o receio de que ela atrapalhasse a missão. Era mais do que isso, algo que eu tinha lutado tanto para reprimir desde o dia em que fui designada para essa missão ao lado dele.
Olhei para Milo, que caminhava à minha frente com seu andar seguro e despreocupado. Ele parecia não ter sido afetado por nada do que aconteceu. Isso me irritava e, ao mesmo tempo, me tranquilizava. Talvez ele não tivesse percebido o quanto aquele momento mexeu comigo. Talvez ele achasse que minha reação foi puramente parte do nosso disfarce.
Quando chegamos à cabine, ele abriu a porta e me deixou entrar primeiro, como sempre fazia. Sua cortesia habitual me trouxe um sorriso involuntário, mas eu o escondi rapidamente. Não queria que ele percebesse nada. Fui direto para a sacada, precisava da brisa do mar para esfriar minha cabeça.
A noite estava fresca, e o som das ondas batendo no casco do navio era tranquilizante. Cruzei os braços e encarei o horizonte, tentando me concentrar na missão. No que realmente importava.
Milo não demorou a se juntar a mim. Eu senti sua presença antes mesmo de ouvir seus passos. Ele parou ao meu lado, em silêncio, por alguns segundos, como se estivesse tentando entender o que se passava na minha cabeça.
— Está tudo bem? — perguntou finalmente, sua voz carregada de preocupação e um toque de curiosidade.
Virei-me para ele, forçando um sorriso.
— Claro, só estava pensando na missão.
Ele me encarou, seus olhos fixos nos meus, como se tentasse decidir se acreditava ou não na minha resposta. Depois, deu de ombros e se afastou, indo até o minibar para pegar uma garrafa de água.
Enquanto ele bebia, eu o observei discretamente. Ele parecia tão confiante, tão imperturbável. Mas eu sabia que essa calma era uma fachada. Milo era muito mais perceptivo do que deixava transparecer. Será que ele havia notado algo? Será que ele percebia o turbilhão que eu tentava esconder dentro de mim?
"Você precisa se controlar, Luisa," pensei, reprimindo-me. "Não é hora de deixar isso vir à tona. Não pode ser hora para isso."
Mas, mesmo me esforçando para me convencer, o fato era claro: eu estava começando a perder a batalha contra meus sentimentos por Milo. E isso me assustava. Mais do que qualquer missão ou adversário que já enfrentei.
Estava ainda na sacada, o vento trazendo um frescor que contrastava com o calor que parecia emanar de dentro de mim. O céu, pontilhado por estrelas, parecia se fundir com as águas escuras do mar, criando uma visão hipnotizante. Aqui, no meio do nada, era como se o mundo inteiro fosse só isso: céu, água e silêncio.
Por um instante, me permiti relaxar, mas os pensamentos não me deixavam em paz. Os olhares de Milo sobre mim mais cedo foram difíceis de ignorar. A intensidade com que ele me encarou, a forma como sua mão se demorou na minha cintura... A muito custo, consegui me manter indiferente, ao menos na aparência. Por dentro, era como se uma tempestade estivesse se formando.
"O que aquilo quer dizer?", me perguntei pela centésima vez. Minha mente começou a vagar, explorando mil possibilidades. Uma delas, a mais tentadora, mas também a mais perigosa, era a de que eu estivesse sendo correspondida. Que, talvez, Milo sentisse algo por mim além do que exigia a missão.
Mas... como acreditar nisso? Eu era uma mulher, sim, mas até dias atrás usava uma máscara que escondia meu rosto do mundo. Nunca pensei muito sobre minha aparência. Não sei se sou bonita ou não. Notei os olhares dirigidos a mim e a Milo no baile, mas aquilo significava algo de verdade? Ou era apenas a impressão de que formávamos um casal pelo contexto? Ainda assim, a dúvida permanecia.
Era irônico. Como amazona, eu era tão segura de mim mesma, da minha força e das minhas capacidades. Enfrentava adversários e desafios sem hesitar, confiante no que eu podia realizar. Mas como mulher... Ah, como mulher, eu era um emaranhado de inseguranças e dúvidas. O contraste era quase cruel.
Balancei a cabeça, tentando afastar aquele pensamento. Não podia me permitir acreditar que fosse possível. Quase impossível. Ele era Milo de Escorpião, um cavaleiro de ouro. Sempre tão seguro de si, tão descomplicado. Por que ele olharia para mim de outra forma?
Entretanto, por mais que tentasse afastar, o pensamento insistia em voltar, como uma onda teimosa que quebra na praia. E enquanto estava perdida nessa batalha interna, nem percebi que não estava mais sozinha.
A presença dele ao meu lado foi como um raio que me tirou do transe.
— Está tudo bem? — perguntou, sua voz baixa e suave, mas carregada de curiosidade.
Eu me virei rapidamente, surpresa. Milo estava ali, tão perto que pude sentir a leve fragrância dele misturada ao ar salgado do mar. Não fazia ideia de quanto tempo ele estava ali, me observando, mas o olhar dele era tão penetrante quanto antes, o suficiente para me deixar desconcertada.
— Sim, claro — respondi apressada, tentando soar casual. — Só estava aproveitando a vista.
Ele não disse nada por um momento, apenas olhou na mesma direção que eu. Mas, de alguma forma, o silêncio dele parecia dizer muito mais.
O silêncio entre nós parecia se estender por uma eternidade, apenas o som das ondas preenchendo o vazio. Mas, por dentro, minha mente fervilhava. Eu sabia que precisava falar algo, precisava dar algum tipo de explicação pelo meu acesso de ciúme mais cedo. Não podia deixar aquilo sem uma resposta, não com Milo ao meu lado.
Respirei fundo, ainda encarando o horizonte. Não tinha coragem de olhá-lo diretamente.
— Sobre mais cedo... — comecei, minha voz soando hesitante, quase abafada pelo som do mar. — Acho que devo me desculpar.
Milo não respondeu de imediato, o que só aumentou meu nervosismo. Eu sabia que ele estava me observando, sentia seu olhar me analisando, tentando entender minhas palavras.
— Eu... — continuei, forçando-me a organizar os pensamentos. — Aquilo foi apenas uma reação impulsiva. Fez parte do disfarce. Só quis reforçar a ideia de que somos... — parei, a palavra "casal" travando em minha garganta — casados.
Ainda sem olhá-lo, mordi o lábio, esperando alguma resposta. Nada. Apenas o silêncio. Arrisquei virar o rosto, encontrando-o com uma expressão indecifrável.
— Disfarce, hein? — ele finalmente disse, sua voz carregada com um leve tom de ironia.
Engoli em seco, incapaz de determinar se ele estava brincando ou tentando me provocar.
— Sim, disfarce — repeti, tentando soar firme. — Não podia deixar que alguém pensasse que você... ou eu... estivéssemos disponíveis.
Ele arqueou uma sobrancelha, seus lábios curvando-se em um sorriso que quase me fez perder o fôlego.
— Você foi convincente — disse, de forma enigmática.
Por um instante, pensei que ele fosse dizer algo mais, mas Milo apenas voltou o olhar para o mar, deixando-me com minhas próprias dúvidas. Eu sabia que precisava mudar de assunto, mas minha mente ainda estava presa na ideia de que ele pudesse estar lendo nas entrelinhas.
Voltei a olhar para a paisagem, tentando acalmar meu coração acelerado. Era sempre assim com Milo. Ele sabia usar as palavras como uma arma, um modo sutil de desarmar e confundir quem estivesse diante dele. Me perguntei se ele não tinha acabado de fazer isso comigo.
Ainda assim, agradeci internamente por ele não ter estendido o assunto. Era melhor deixar assim. Qualquer coisa além disso só traria mais complicações, e complicações eram a última coisa que precisávamos no meio daquela missão.
O som de uma batida na porta me fez respirar aliviada. O silêncio entre nós estava começando a ficar pesado demais, carregado de algo que eu não queria — ou não podia — encarar agora.
Milo se levantou, caminhando até a porta e abrindo-a. Do outro lado estavam os quatro agentes, com expressões sérias, mas não alarmadas.
— Podemos entrar? — perguntou Alexandros, com um tom formal.
— Claro — Milo respondeu, abrindo espaço para que entrassem.
Os agentes se acomodaram na pequena sala da cabine. Eleni foi a primeira a falar:
— Como vocês chegaram no ambiente da festa tropical logo depois que Ivan apareceu? Não tinham como saber que ele estaria lá.
Milo cruzou os braços, encostando-se na parede. Seu olhar era calmo, mas sério.
— Nós sentimos o cosmo dele — respondeu diretamente.
Os agentes trocaram olhares confusos, claramente sem entender do que ele estava falando. Nikos, sempre o mais cético, arqueou uma sobrancelha.
— Esse negócio de "cosmo" de novo... O que exatamente é isso?
Olhei para Milo, e ele fez um gesto para que eu explicasse. Tomei fôlego antes de começar.
— O cosmo é uma energia que todas as pessoas possuem, mesmo que não percebam ou desenvolvam. É como a centelha de vida dentro de cada um. Quando bem treinado, ele pode ser usado de diversas formas, como uma extensão das nossas habilidades.
— Espera, você está dizendo que todos temos isso? — perguntou Katerina, inclinando-se levemente para frente, intrigada.
— Sim — confirmei com um leve aceno. — Todos possuem cosmo, mas apenas algumas pessoas têm o treinamento necessário para despertá-lo ou controlá-lo.
— E nós também temos? — Nikos perguntou, ainda mais curioso.
— Sim, vocês também têm — respondi, com um sorriso leve.
Eleni parecia absorver cada palavra, mas foi Alexandros quem perguntou:
— Então, se vocês conseguem sentir o cosmo dos criminosos, por que eles não conseguem sentir o de vocês?
Troquei um olhar com Milo antes de responder, sabendo que aquela explicação exigiria um pouco mais de detalhes.
— A diferença está no controle — expliquei. — Os criminosos que vocês enfrentam têm cosmo, mas não o dominam completamente. É por isso que o deles é descontrolado e perceptível para nós. Por outro lado, Milo e eu temos total controle sobre o nosso cosmo. Isso nos permite ocultá-lo e agir sem sermos detectados.
Houve um momento de silêncio enquanto os agentes processavam aquilo.
— Então vocês podem sentir quando eles estão por perto, mas eles não têm ideia de onde vocês estão?
— Exatamente — respondeu Milo, com um sorriso discreto.
Eleni cruzou os braços, pensativa.
— Isso explica muita coisa. Especialmente como vocês conseguem se mover com tanta precisão.
Alexandros assentiu, mas sua expressão continuava séria.
— Certo. Mas isso também significa que vocês são nossa maior linha de defesa contra esses caras. Precisamos confiar totalmente no julgamento de vocês.
— E podem — garantiu Milo, com firmeza. — Estamos aqui para cumprir essa missão, e não vamos falhar.
— Bem, eu gostaria de dizer algo. — Comecei a falar de forma hesitante. — Talvez estejamos fazendo isso errado. Devíamos nos separar por turnos. Assim, um grupo poderia descansar enquanto o outro monitora.
Milo ergueu uma sobrancelha, me encarando como se ponderasse minha ideia. Continuei:
— Nós conseguimos perceber os criminosos por causa do cosmo, o que facilita nossa tarefa. Vocês poderiam descansar, principalmente à noite, para que estejam preparados para o dia seguinte.
Os agentes se entreolharam, avaliando minha sugestão. Nikos foi o primeiro a se pronunciar, balançando a cabeça levemente.
— Concordo até certo ponto — ele disse, cruzando os braços. — Dividirmos os turnos de manhã e tarde faz sentido, mas à noite... Todos precisam estar atentos. É nesse horário que geralmente ocorrem as movimentações mais suspeitas.
Os outros agentes assentiram, indicando concordância com a ideia de Nikos. Eleni acrescentou:
— Se estivermos descansados durante o dia, podemos nos preparar melhor para a noite. A vigilância noturna precisa ser em conjunto.
Milo e eu trocamos um breve olhar. Apesar de termos nossos próprios métodos de atuação, sabíamos que a missão precisava ser uma colaboração. Sem argumentar, apenas concordamos com a cabeça.
— Está decidido, então — disse Alexandros, com um tom conclusivo. — Amanhã começamos os turnos de dia, mas à noite continuamos juntos.
Com isso, os agentes se levantaram, prontos para partir.
— Vamos descansar também — disse Eleni, dirigindo-se a nós. — Amanhã será um dia longo.
— Boa noite — Milo respondeu, sua voz firme e educada.
Eu apenas assenti enquanto eles se retiravam, e a cabine voltou ao silêncio habitual.
Caminhei até a porta da sacada e a fechei lentamente, puxei a cortina, criando uma barreira entre o mundo lá fora e o que se passava aqui dentro.
— Vou tomar uma ducha — avisei, pegando minha camisola e uma toalha. O cheiro de bebida e cigarro ainda estava na minha pele, misturado ao perfume de Milo, que parecia persistir, mesmo depois de tanto tempo.
Quando retornei ao quarto, Milo já estava dormindo, seu corpo relaxado sob as cobertas, a respiração suave e regular. O ambiente estava quieto, o único som vindo do leve farfalhar das cortinas movidas pela brisa. Com cuidado, me deitei ao seu lado, para não acordá-lo.
Apaguei a luz do abajur, e logo em seguida fechei os olhos, permitindo que o cansaço finalmente me envolvesse. A sensação de estar ao lado dele, mesmo sem palavras, me trazia uma paz que eu não conseguia explicar. Em poucos minutos, o sono me dominou.
No dia seguinte, acordei com o som de movimentação no corredor. Algo estava acontecendo do lado de fora, e a curiosidade me fez abrir os olhos. Milo ainda estava ao meu lado, mas parecia ter acordado com o mesmo barulho. Ele se mexeu na cama, levantando-se com uma leveza que só ele possuía.
— Vou ver o que é — sussurrou, já se levantando e se vestindo rapidamente. Eu apenas assenti, fechando os olhos por um momento enquanto ele saía do quarto.
Alguns minutos se passaram até que Milo voltasse. Ele entrou silenciosamente no quarto, ainda com uma expressão atenta.
— Eram Alexandros e Eleni — disse ele, com uma voz baixa, mas firme. — Ficaram responsáveis pela ronda da manhã. Eles estavam indo acordar Nikos e Katerina para a troca de turno depois do almoço.
Eu olhei para o relógio na parede e me surpreendi ao ver que já eram quase 11 horas.
— Está ficando tarde. Acho que deveríamos nos preparar para o almoço — disse eu, olhando para Milo.
— Concordo — respondeu ele, assentindo. — Depois do almoço, podemos ir para a piscina. Podemos ficar lá fazendo a ronda enquanto aproveitamos o tempo.
A proposta me parecia perfeita. Estava cansada de ficar dentro do quarto, e a ideia de sair para um ambiente mais tranquilo e descontraído parecia exatamente o que precisávamos.
— É isso que vamos fazer então — sorri, aliviada por ter uma ideia mais concreta em mente. — Vou me arrumar, você também deve se preparar.
Ele apenas acenou com a cabeça, dando espaço para me vestir. Rapidamente, vesti um short e uma blusa, algo confortável e prático, mas também com a sensação de que eu estava preparada para qualquer situação. Por baixo, já estava usando meu biquíni.
Peguei uma bolsa e comecei a colocar o que seria necessário para o nosso tempo na piscina. Coloquei as toalhas, tanto a minha quanto a de Milo, o protetor solar, minha saída de praia, e os óculos escuros. Também peguei um chapéu, que sempre me dava um toque extra de proteção contra o sol e, quem sabe, até de disfarce. A bagunça no quarto já não parecia tão importante agora, com um plano simples em mente e a ideia de passar algum tempo fora da tensão que a missão nos trazia.
Quando terminei de me organizar, olhei para Milo, que estava se arrumando também. Ele ainda tinha aquela calma característica, mas eu podia ver a mesma determinação nos seus olhos. Estávamos em sintonia, como sempre.
— Pronto? — perguntei, agora com um sorriso mais tranquilo, esperando que ele confirmasse que estava tudo certo.
Ele olhou para mim, ajustando sua própria roupa, e respondeu com um leve sorriso.
— Pronto. Vamos nessa.
x.x.x.x.x
Após o almoço, caminhamos até a área da piscina. O sol brilhava intenso, aquecendo o ambiente, enquanto o som das conversas e das risadas preenchia o espaço. A brisa que vinha do mar suavizava o calor, tornando tudo um pouco mais agradável. Assim que chegamos, percebi que seria melhor não entrarmos na água imediatamente, já que tínhamos acabado de comer.
— Vamos ficar à sombra por enquanto? — sugeri, indicando um canto onde algumas espreguiçadeiras estavam posicionadas sob um grande guarda-sol.
— Boa ideia — Milo concordou, ajustando os óculos escuros enquanto me seguia.
Quando alcançamos as espreguiçadeiras, ele tirou a camisa, ficando apenas de bermuda, e foi impossível para mim não admirar o corpo dele. O físico bem definido de Milo parecia talhado à mão, como se cada detalhe tivesse sido esculpido com perfeição. O brilho da pele dele sob o sol e a forma despreocupada como ele se movimentava apenas intensificavam o impacto que ele tinha sobre mim.
Engoli em seco, tentando me concentrar em qualquer outra coisa que não fosse ele. Mas era inútil. Um misto de admiração, constrangimento e algo que eu preferia não nomear tomou conta de mim. Desviei o olhar rapidamente, rezando para que ele não tivesse percebido.
— Aqui parece bom — ele disse casualmente, como se o efeito que causava em mim fosse inexistente.
Coloquei a bolsa ao lado, tirando as toalhas e estendendo uma sobre a espreguiçadeira que escolhi. Tentei me ocupar com pequenos gestos: tirar o short e a blusa, ajustar a saída de praia, mas tudo parecia apenas amplificar minha consciência de que ele estava ali, tão próximo, tão… Milo.
Peguei o protetor solar e passei no rosto e nos braços, tentando parecer o mais natural possível. Depois, estendi o frasco para ele.
— Vai querer? — perguntei, sem olhá-lo diretamente.
— Claro, obrigado — respondeu, pegando o protetor e aplicando no peito e nos braços com a mesma naturalidade de sempre, enquanto observava o movimento ao redor. Como ele conseguia ser tão tranquilo?
Forcei-me a focar na missão, ajustando meu chapéu e sentando na espreguiçadeira.
— Aqui é um bom lugar para ficarmos de olho — comentei, tentando soar prática. — Não muito exposto, mas com uma visão ampla da piscina e dos arredores.
Ele assentiu, colocando os óculos escuros novamente.
— Concordo. Vamos ficar atentos.
Respirei fundo e me deitei, tentando relaxar, mas sem realmente conseguir. A presença de Milo sempre causava um turbilhão dentro de mim, mas ali, naquele momento, parecia mais difícil do que nunca ignorar o que eu sentia.
Depois de muito esforço, consegui finalmente acalmar meus pensamentos. Respirei fundo, deixando que a brisa do mar levasse um pouco da confusão que me dominava. O som das ondas e as risadas das pessoas ao meu redor me ajudaram a encontrar algum equilíbrio. Olhei ao redor, observando o ambiente. Havia casais de todas as idades, homens e mulheres solteiros, alguns conversando animados, outros mais discretos. Mesmo sem querer, podia sentir o cosmo de todos ali. Era tudo tão sutil, tão delicado, típico de pessoas que sequer imaginavam o poder que carregavam dentro de si.
Depois de algum tempo, meus olhos foram atraídos por um casal de idosos que se aproximava e se acomodava nas espreguiçadeiras próximas. O homem tinha os cabelos brancos bem penteados e um semblante tranquilo, enquanto a mulher, com olhos brilhantes e um sorriso contagiante, irradiava uma energia que parecia contradizer sua idade. Era fascinante. Apesar das rugas e dos sinais do tempo, havia algo neles que parecia intocado, jovem. Eles trocavam olhares e gestos tão carinhosos que me pegaram desprevenida. Era impossível não reparar na cumplicidade entre eles.
Enquanto eu observava aquele casal tão encantador, senti um olhar em mim. Quando virei levemente o rosto, percebi que Milo também os observava, mas, em seguida, seus olhos se encontraram com os meus. Era um olhar intenso, carregado de algo que eu não conseguia decifrar de imediato. Um brilho diferente. Meu coração acelerou, mas desviei o olhar rapidamente, temendo que ele percebesse o efeito que tinha sobre mim.
Minha atenção foi desviada quando a senhora, que parecia ser a mais extrovertida dos dois, se virou para mim com um sorriso acolhedor.
— Vocês parecem estar aproveitando — ela disse, cheia de energia. — Eu e meu Carlos já viajamos nesse cruzeiro algumas vezes. É um dos nossos preferidos. E vocês? É a primeira vez?
Demorei um instante para responder, ainda surpresa com a abordagem tão direta. Olhei rapidamente para Milo, que apenas sorriu de lado, como se me encorajasse a responder.
— Sim, é nossa primeira vez aqui — respondi, tentando soar casual. Depois de uma breve pausa, completei, quase sem pensar. — Estamos em lua de mel.
Assim que as palavras escaparam, senti o olhar de Milo em mim novamente, mas dessa vez não tive coragem de encará-lo. Ana abriu um sorriso ainda mais largo, claramente encantada com o que havia acabado de ouvir.
— Ah, que maravilha! — exclamou ela, cheia de entusiasmo. — Não há lugar melhor para isso. Meu Carlos e eu estamos casados há cinquenta anos, e sempre achamos que viajar juntos fortalece ainda mais o amor. Que vocês aproveitem muito essa fase.
Senti meu rosto esquentar enquanto agradecia, tentando ignorar o olhar que sabia que Milo ainda mantinha sobre mim. Ana continuava a falar, compartilhando histórias de viagens e aventuras que ela e Carlos viveram juntos.
De vez em quando, eu e Milo trocávamos olhares. Havia algo diferente no jeito como ele me olhava. Não era só carinho ou admiração, era algo mais profundo, mais intenso. E toda vez que nossos olhares se encontravam, eu sentia um frio na barriga e um calor no rosto.
Em determinado momento, Ana me olhou mais atentamente, como se estivesse avaliando algo. Então, com um sorriso curioso, ela comentou:
— Você tem um rosto tão jovem, minha querida! Nem parece ter a idade que diz ter.
Por dentro, meu coração deu um salto, mas mantive a compostura. Fazia sentido ela pensar isso. Embora meu disfarce me desse 25 anos, minha idade real era 18. Ser uma amazona exigia que eu estivesse preparada para qualquer situação, e antes de assumir essa missão, passei semanas ensaiando respostas para perguntas como essa. Mas, mesmo assim, senti uma pontada de nervosismo antes de responder.
Sorri de lado, fingindo descontração, e respondi com um tom brincalhão:
— Ah, é só o rostinho mesmo, senhora Ana! — fiz uma pausa dramática, tocando de leve no rosto. — O coração já é bem mais vivido, pode acreditar.
Ana soltou uma risada gostosa, enquanto Carlos balançava a cabeça, claramente achando graça da interação.
— Pois então cuide bem desse rostinho, viu? — Ana disse, ainda sorrindo. — Mas acho que quem vai cuidar mesmo é seu marido, não é?
Dessa vez, não consegui evitar e olhei para Milo. Ele estava com aquele sorriso sutil no rosto, mas algo no brilho de seus olhos parecia um misto de diversão e... admiração? Não sei ao certo. O olhar dele fez meu coração acelerar novamente, e por um breve momento, esqueci completamente como se respirava.
— Sempre com muito cuidado, senhora — Milo respondeu antes que eu conseguisse dizer qualquer coisa, sua voz firme, mas carregada de gentileza.
Ana pareceu ainda mais encantada, e eu senti meu rosto esquentar. Meu disfarce era perfeito, mas havia coisas que eu não podia controlar, como as reações do meu próprio corpo diante de Milo. Apertei as mãos sobre o colo, tentando me concentrar na conversa e ignorar o calor que subia por meu rosto.
Era engraçado como uma interação tão simples com aquele casal estava me fazendo pensar em coisas que, até pouco tempo, eu evitava. Talvez fosse o ambiente, talvez fosse o jeito apaixonado como Ana falava sobre sua vida com Carlos, ou talvez... fosse o jeito como Milo me olhava.
Depois de mais algumas histórias engraçadas compartilhadas por Ana e Carlos, eles se levantaram para se despedir.
— Foi um prazer conhecer vocês, queridos! — disse Ana, com um sorriso caloroso. — Aproveitem muito a viagem, e quem sabe nos encontramos de novo por aí.
— Com certeza, — respondi, sorrindo de volta, enquanto Milo acenava para eles.
— E lembrem-se: a juventude é para ser vivida! — completou Carlos com um tom brincalhão, enquanto se afastavam de mãos dadas.
Assim que eles partiram, Milo olhou para mim com aquele olhar que parecia enxergar além da minha máscara emocional e disse:
— Que tal aproveitarmos a piscina agora?
— Acho uma boa ideia, — respondi, tentando soar casual, mesmo sentindo meu coração acelerar levemente.
Enquanto eu tirava minha saída de praia, senti o tecido deslizar pela minha pele, revelando o biquíni que eu havia escolhido com tanto cuidado — discreto, mas com um toque elegante. Estava ajustando as alças quando senti um olhar queimar em minha direção. Não precisei erguer os olhos para saber que era Milo.
Respirei fundo, tentando ignorar a pressão daquele olhar, mas não resisti e olhei para ele. Seu olhar era intenso, quase desarmador. Ele não parecia se importar em disfarçar o quanto me observava, como se estivesse completamente à vontade em me admirar.
Aquilo me deixou ligeiramente desconcertada, mas, em um impulso, decidi quebrar o silêncio com uma provocação.
— Está gostando do que vê, Milo? — perguntei, com um sorriso divertido, tentando soar mais confiante do que realmente me sentia.
Para minha surpresa, ele não desviou o olhar. Pelo contrário, deu um passo na minha direção, cruzando os braços enquanto um sorriso lento e charmoso surgia em seus lábios.
— Sim, estou — respondeu, sem hesitar. — Você é linda, Luisa.
Aquelas palavras me atingiram como um golpe certeiro, fazendo meu coração disparar. Por um momento, fiquei sem reação, incapaz de esconder o rubor que subia pelo meu rosto. Ele havia sido tão direto, tão honesto, que eu não sabia se ria da minha tentativa de provocação ter saído pela culatra ou se ficava sem jeito pelo elogio inesperado.
— Bem… obrigada — murmurei, desviando o olhar para disfarçar meu nervosismo enquanto tentava fingir que aquilo não tinha me afetado.
Enquanto ele continuava de pé próximo a mim, aproveitei a oportunidade para desviar minha atenção. Mas, para meu azar — ou sorte —, foi impossível não reparar no corpo bem definido de Milo novamente. Sua confiança e naturalidade faziam tudo parecer quase hipnotizante.
Ele me pegou olhando, é claro.
— Agora sou eu que pergunto… está gostando do que vê, Luisa? — devolveu, com um sorriso provocador.
— Talvez. — Respondi, tentando soar indiferente, embora o calor em minhas bochechas traísse minha calma aparente.
Milo riu e, com um gesto casual, estendeu a mão para mim.
— Vamos, a água está chamando.
Com um último olhar cúmplice, seguimos para a borda da piscina. Mesmo quando a água morna me envolveu e trouxe um alívio momentâneo, o brilho no olhar de Milo permanecia comigo. Ele era um enigma — um que eu não tinha certeza se queria decifrar ou simplesmente me perder nele.
Luisa POFF
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Os dias a bordo do cruzeiro transcorreram de forma semelhante. Milo, Luisa e os agentes infiltrados mantinham uma rotina rigorosa, circulando pelos ambientes comuns do navio e permanecendo atentos a qualquer movimentação suspeita. Era um trabalho que exigia paciência e cautela, principalmente porque não podiam chamar atenção para suas presenças.
Sempre que um membro da Griffon Negro surgia, o grupo agia com extrema discrição. Observavam seus alvos à distância, registrando os movimentos e interações.
Entre os momentos de trabalho, havia também instantes de descontração. Durante as rondas, Milo e Luisa, muitas vezes, trocavam olhares ou pequenas observações, tornando a missão menos tensa. Ainda assim, ambos sabiam que precisavam manter o foco, pois a presença da Griffon Negro representava uma ameaça séria.
Em uma das ocasiões, enquanto observavam discretamente um dos líderes da organização interagir com outros passageiros no salão de festas, Milo murmurou para Luisa:
— Eles estão à vontade demais. Como se tivessem certeza de que não há ninguém os vigiando.
Luisa assentiu, mantendo os olhos fixos no grupo.
— É exatamente isso que me preocupa. Eles estão confiantes demais, como se já tivessem algo planejado.
A tensão crescente era inegável. Apesar de ainda não saberem qual era o objetivo final da Griffon Negro, Milo e Luisa sentiam que algo estava para acontecer.
Enquanto o tempo passava, a dupla mantinha a postura profissional, mas a convivência diária criava momentos inevitáveis de aproximação. Ambos sabiam que estavam em território perigoso, tanto em relação à missão quanto ao que sentiam um pelo outro. E, embora os dias seguissem iguais na superfície, havia uma corrente subjacente que prometia transformar tudo.
