_ Eu que deveria estar com raiva, Snow. Você me viu nua e não o oposto. - Apertei seu braço que me ofereceu de bom grado, algo que me fez estranhar na hora.

Sua voz não saiu, o que me fez continuar observando ao nosso redor e vivenciar uma avenida repleta de carros de luxo com pessoas esnobes.

Sabia o nome dessa avenida, era a Corso, a avenida tão grande que poderia conter vários carros militares para desfile.

O que não tinha há anos, mesmo assim, era bem maior que o distrito.

_ Não estou com raiva. - Seu rosto se aproximou do meu para falar, me fazendo sentir o cheiro de gel pós-banho.

_ Então por que está assim? - Ficou indeciso. _ Se não vai falar, continue...

_ É que me sinto mal por fazer você pagar tudo. - Revirei os olhos.

_ Sei que é mentira.

_ Sim, é mentira, não me importo com isso. - Mesmo o conhecendo por poucas horas, já sabia seus pensamentos mais íntimos.

O que não era ruim de fato, apenas me fazia ter mais curiosidade para desvendar sua cabeça loira, ou ficar com raiva com mais frequência.

Então para que isso não ocorresse, parei de prestar atenção nele e observei as lojas que mostravam a vitrine repletas de roupas e acessórios que nunca pensei em ver.

Eram tão estranhas e coloridas que deveriam estar no circo, se existisse ainda.

Mas a loja de ternos me fez parar e se aproximar, para ver um terno de três peças na cor vermelha, algo que ficaria bonito no corpo magro da pessoa ao lado.

Era tão completo que até mesmo pude visualizar como ele ficaria... Acho que estou enlouquecendo.

_ Você ficaria horrível nesse terno. - Sim, estou enlouquecendo. _ Diferente de mim, é claro.

_ É um terno masculino, você pensou que era para quem? - Zombei, o puxando para entrar na loja. _ Se não quiser, posso comprar para a primeira pessoa que aparecer.

O sininho soou e uma mulher de terninho sobe medida apareceu, mostrando um amplo sorriso e postura impecável.

_ Irritante. - Sussurrou e sorriu, como se nunca tivesse dito nada.

_ Boa tarde, senhor Snow. - Cumprimentou o único que sabia o nome. _ Boa tarde, senhorita. - Até que era educada.

Apontei para o terno vermelho e empurrei o meu parceiro que colocou a máscara antes mesmo de entrar nesse lugar.

A mulher nem mesmo pensou duas vezes antes de olhar para as prateleiras repletas de ternos e pegar o terno lacrado.

Snow se aproximou do terno com as mãos suando em antecipação, como se desejasse usar aquelas coisas agora.

_ Experimente e qualquer coisa me chame. - O garoto foi até o provador dos fundos e comecei a observar a loja que não era pequena, mas não era gigante.

As cores eram escuras para combinar com as peças que existia, mas isso não me impediu de observar o balcão que continha abotoaduras e outros acessórios.

Mas era tão estranho estar aqui e escolhendo essas coisas justamente para ele, que até me deu vontade de sair e deixá-lo sozinho, algo que não fiz.

A mulher me observava com atenção, se perguntando quem eu seria e o porquê de estar sendo acompanhada pelo grande herdeiro Snow.

Entretanto, não sabia se era profissionalismo ou decência, mas não perguntou.

_ Acho que não precisa de ajuste. - Olhamos para aquela direção e um mar revolto se fez em minha cabeça, com raios e trovões.

Ele não estava bonito, não mesmo, mas a cor lhe caia muito bem e o definia com algo que desconheço a palavra no momento.

Era como se o garoto irritante se transformasse em alguém diferente, com ambições ocultas em seus olhos azuis-claros.

Pensei que pudesse conhecê-lo, mas vejo que estou apenas na ponta do iceberg ainda, algo que posso acabar congelando quando estiver no final dele.

Seu olhar me fez prender a respiração e engolir a pouca saliva que havia em minha boca.

_ O que acha? - Seu sorriso esnobe acabou com o encanto.

_ Não está ruim. - Voltei a minha atenção para a mulher que babava por ele. _ Poderia me dar um par de sapatos, aquele está horrível como o homem.

_ O quê? - Piscou algumas vezes. _ Sim, claro.

Correu até um lugar dos fundos e nos deixou a sós, o fazendo se aproximar de mim com aquele jeito galante de antes.

_ Por que não pode falar que estou bonito?

_ Porque não está, mesmo assim, vou comprar isso para você ou terei alguém chorando na barra da minha saia. - Bufou. _ O quê? Acha que está bonito?

_ Não acho, tenho certeza. - Piscou. _ Quero os acessórios também.

_ Virei banco? - Olhou-me de cima a baixo e concordou. _ Sua personalidade é horrível, ainda bem que a esconde.

Cruzei os braços e não esperamos por muito tempo.

A caixa apareceu, me fazendo perceber que a mulher era tão boa no serviço que nem precisava da numeração ou ela era uma stalker.

O garoto pegou a meia que a mulher deu e voltou para o provador, como se estivesse correndo para que não pudéssemos ver as suas meias.

Era bem provável que seja isso mesmo...

_ Vocês entregam? - Concordou. _ Certo, quero todos os ternos, sapatos e acessórios que podem ficar bem nele.

_ Tudo? - Gaguejou e acenei. _ Tudo bem. - Pegou um caderninho e começou a escrever alguma coisa.

Quando terminou, o homem apareceu novamente, fazendo que o sapato social preto ficasse melhor do que aquelas desgastados.

Mas não falei nada e continuei observando a mulher que calculava e sussurrava alguma coisa de comissão.

_ Qual seria a forma de pagamento? - Aproximou com o caderninho em mãos.

Peguei o cartão e mostrei, a fazendo arregalar os olhos em pânico. Esse cartão era tão precioso assim?

A mulher pegou o cartão com as duas mãos e anotou o valor da compra e os números do cartão.

Cutuquei a costela do Snow, o fazendo me olhar e aproximar o seu rosto do meu.

_ Como funciona isso? - Sussurrei.

_ Antigamente poderia ter maquininhas, mas tudo se perdeu com a guerra. - Sabia disso. _ Agora a pessoa precisa anotar e ir até o banco para receber os valores.

_ E se a pessoa não tiver nada? - Sorriu e o hálito quente acariciou meus lábios.

_ Não funciona assim, apenas algumas pessoas de toda a Capital têm esse cartão e o cartão preto é apenas do presidente. - Então ele não tem esse cartão.

_ Obrigada. - Não ficou surpreso e apenas acenou.

A mulher devolveu o cartão e nem mesmo pediu o endereço, acho que todos sabem onde ele mora.

_ Tudo será entregue em poucas horas. - Foi respeitosa. _ Por favor, volte sempre. - Sorriu, entregando uma sacola para o Snow colocar a roupa antiga.

_ Voltaremos. - Puxei o garoto e fomos embora da loja.

Mas não reclamou ou insistiu em voltar para ter seus acessórios, provavelmente entendeu as palavras da atendente.

O que me poupava um tempo para explicar ou ter um pouco de vergonha, já que não deveria ter gastado uma fortuna apenas para vê-lo sorrir.

Respirei fundo, enquanto continuava andando pela avenida que nunca acabava.

Minha mão foi tomada e um calafrio quase me paralisou, era estranho e não gostei do sentimento.

Mas o meu braço foi colocado no dele, fazendo que nossas posições fossem iguais a de antes.

_ Vamos morar juntos. - Sim, iríamos. _ Mas ainda não sei nada sobre você.

_ Você quer saber? - Estranho.

_ Sim, poderia me falar sobre sua infância? - Pensei um pouco.

Ele estava certo, para termos um pouco de harmonia entre nós, mesmo não gostando dele ou de sua presença, precisávamos saber com quem estávamos lidando.

O garoto poderia ser bonito, fofo, - às vezes - irritante e esnobe, mas poderia ser um assassino ou um assediador.

_ Apareci no Distrito 12 com dez anos. - Não perguntou o motivo. _ Fui chamada de bruxa e estranha com onze, comecei a trabalhar faltando poucos meses para o meu aniversário.

_ Onde você trabalhava?

_ Uma padaria. - Sorri. _ O senhor era gentil e me deixou limpar a padaria por alguns trocados. - Franziu o cenho.

_ Pensei que todos a odiassem, já que na colheita você disse isso.

_ Bom, me vestia de garoto e a sujeira do meu rosto fazia isso ser coerente. - Parou e me observou, rindo de algo que não sabia no momento.

Ficamos assim por alguns segundos até que suas bochechas ficassem vermelhas e lágrimas deslizasse pelos seus olhos.

Não sabia que a minha vida poderia ser tão hilária para esse idiota de terno.

O puxei para que continuássemos andando e foi um pouco difícil, já que o ar de seus pulmões havia se ido com o riso alto e potente.

Quase me fazendo seguir sua risada pitoresca.

_ Acabou? - Secou as lagrimas.

_ Por favor, continue a sua história. - Até os lábios ficaram vermelhos.

_ Com doze tive a vontade de ir para os jogos. - Foi bem antes disso. _ Mas nunca fui chamada, até o presente momento.

_ Por que queria ir? - Não é óbvio?

_ Queria viver na Capital, mesmo sabendo que era raro ter um sobrevivente, queria isso.

_ E por que você acha que eles iriam aceitá-la? Você seria um tributo, uma ralé. - Tinha razão.

Mas tinha a resposta para isso há anos, o que só me fez ter mais coragem e ansiedade para vir aqui, como se tudo pudesse mudar quando meus pés batessem nesse chão.

_ Você viu como o presidente me tratou ou até mesmo a senhora Gaul. - Acenou. _ Isso seria o meu passe livre para viver aqui, bom, já está sendo.

_ Você não conseguiria vê-los...

_ Iria até a Academia, entraria no laboratório, diria tudo que sou capaz de fazer e iria barganhar a minha estadia aqui. - Paramos mais uma vez, mas dessa vez tínhamos que atravessar a rua.

Já podia ver o mercado que continha poucas pessoas saindo e entrando, o que era bem melhor do que um lugar cheio.

_ Como sabe sobre tudo isso? - Meus pensamentos se foram.

_ Pacificadores gostam do bar onde a Lucy canta, então posso conversar com eles quando estão bêbados. - Dou de ombros e atravessamos a rua. _ Apenas que tudo já estava planejado, cada passo e cada palavra, tudo.

_ Você faria qualquer coisa para viver aqui? Ainda não entendo o porquê.

_ Casaria até com a árvore se fosse preciso. - Mordi o interior da minha bochecha. _ As pessoas me odeiam naquele lugar, Snow...

_ Coriolanus. - Fiquei sem entender. _ Me chame de Coriolanus. - Apertei seu braço e não falei por alguns segundos. _ Continue.

_ Você gosta de mandar. - Sussurrei, sabendo que escutaria.

_ Sim, você já sabia disso. - Resmunguei. _ Continue.

_ Não quero viver num lugar que sou odiada, mesmo que aqui fosse a mesma coisa, pelo menos teria dinheiro, comida e um lugar para pertencer.

Mesmo sabendo suas próximas perguntas e respostas tão ácidas quando veneno, não queria quebrar essa esperança infantil do meu coração.

Era a única coisa que sobrava de minha infância.

_ Não posso julgá-la nesse momento. - Fiquei surpresa. _ Faria de tudo para que minha família tivesse a antiga riqueza, até me casaria com a pessoa que sempre me esnobou.

_ Somos iguais nisso. - Mas tão diferentes. _ O que precisamos comprar? - Mudei de assunto sem pensar duas vezes.

Ele não foi igual a Tigris, que franziu o cenho por mudar tão repentinamente, mas parecia aliviado e até agradecido.

Talvez fossemos mais parecidos do que pude imaginar...

_ Tudo. - Entramos no mercado e era bem confortável e fresco.

_ Tudo, tudo? - Riu e falou, enquanto nos aproximávamos do carrinho de compras.

_ Tudo, tudo e tudo. - Era algo tão idiota, mas que rendeu lábios repuxados e uma alegria no finalzinho do meu coração.

Deixei seu braço para que ele pudesse conduzir o carrinho, já que ele sabia o que deveria comprar ou não.

As prateleiras estavam sendo preenchidas por pessoas que trabalhavam aqui, o suor era constante, mas nada que impedisse as pessoas de andarem por aqui.

Já que a maioria das pessoas que estavam comprando mantimentos não eram os ricos de Panem, mas os empregados deles.

O que faria o Coriolanus sentir vergonha, mas tudo que vejo é um garoto que dizia o quão gostoso era determinada coisa.

Não preciso nem perguntar se ele gostava de comer, apenas ouvi-lo já era o suficiente.

Ele descrevia até se a batata que comeu ontem à noite era borrachuda, temperada ou aguada, se tinha a combinação correta de sal ou apenas estava no ponto certo.

Era um especialista e dizia com precisão quais eram as coisas que parou de comer.

Porém, quando chegamos no amplo corredor de verduras e frutas, sua voz sumiu.

_ Não sabe escolher? - Resmungou. _ Vamos, vou te ajudar. - O conduzi até os tomates. _ Primeiro você vê se eles têm algum machucado. - Mostrei alguns. _ E quando não tem, você precisa ver a consistência, se estão duros, moles ou no ponto.

O saquinho estava em sua mão e escutava com atenção, me fazendo falar ainda mais.

_ As batatas não podem ter brotos ou estarem esverdeadas, elas contêm toxinas. - Apontei para algumas batatas. _ Precisam estar lisas e sem imperfeições.

Colocou as batatas que escolhi no carrinho, junto com os tomates e outras coisas que ele viu pelo caminho até aqui.

Fui até o repolho e seu rosto ficou estranho, como se apenas ver o repolho fosse sua sentença de morte.

Até que me lembrei que as únicas coisas que comiam eram feijões, sopas, batatas e repolho.

O que me fez mudar a direção para a abóbora, fazendo seu rosto ficar feliz de novo.

Era uma criança quando o assunto era comida, o que me fez segurar o riso para que isso não fosse motivo de implicância.

_ Você foi muitas vezes à feira? - Discordei. _ Então como sabe tantas coisas sobre isso? - Pegou um limão.

_ Bom, aprendi com as pessoas e esse ensinamento é válido até hoje. - Dei de ombros e peguei a abóbora, entregando a ele. _ A Lucy foi uma dessas pessoas.

_ Você é muito amiga dela, não é? - Peguei alface, sem explicar muito sobre ele.

_ Posso dizer que ela é a minha única amiga. - Continuei entregando as coisas para ele. _ A considero como uma irmã. - Encostou-se no balcão das verduras.

Muitas pessoas pensavam até mesmo que éramos namoradas, algo que era inacreditável por muitas razões.

Mas se gostássemos uma da outra nesse sentido, acho que não seria tão ruim assim, apenas que não tenho olhos para mulheres, o que me trouxe alguns transtornos.

Os transtornos foram adversos, mas que pude resolver apenas com um copo e uma faca, sou boa em quebrar coisas.

_ Posso imaginar. - Comentou. _ Tigris é minha irmãzinha, mesmo que ela seja mais velha por três anos.

Não falei e deixei mais uma vez o assunto morrer, gostava de conversar com a minha cabeça e ter interações tão rasas que ninguém poderia me considerar uma conhecida.

Continuei pegando saquinhos e colocando todas as verduras e vegetais que tinham aqui, qualquer coisa era colocada, menos repolho.

Coriolanus me seguiu com o olhar, pensando em coisas que não dava para descobrir com seu rosto estoico.

Apenas que seus olhos queimavam a minha nuca, mesmo que ela estivesse tampada pelos meus cabelos.

O carrinho me seguiu e nossas palavras continuaram em nossa boca, até que algo saiu de minha boca, me fazendo brigar internamente.

_ Contei sobre a minha vida...

_ Nem tudo, você contou algumas coisas e ainda não sei sua cor favorita, ou seu hobby. - Direcionou o carrinho para os frios, fazendo que o seguisse de perto.

_ Não tenho uma cor favorita. - Nunca pensei nisso. _ Gosto de nadar. - Sorri e seu olhar caiu em meu rosto. _ Sempre que saia da padaria corria para a floresta e me jogava no lago, amava aquela sensação.

Infelizmente o chuveiro não era tão bom quanto o lago, mas poderia sanar um pouco a minha saudade daquele lugar.

Mesmo querendo correr e procurar uma cachoeira, uma piscina natural, ou entrar de cabeça na fonte que ficava ali perto, sei que não poderia.

Ainda sou uma jogadora...

_ O que você sente? - Segurou o carrinho, enquanto me observava a pegar as bandejas de carne.

Não vi o preço, apenas vi se não tinha muita gordura ou se iria vencer, quase o induzindo a pensar que não iria responder.

_ Minha cabeça fica vazia e o sentimento de alegria é muito grande para ser contido. - Coloquei as bandejas no carrinho. _ E você? Cor favorita ou hobby?

_ Não tenho uma cor favorita, mas fico bem com qualquer cor. - Metido. _ Mas gosto de descrever a comida, posso até virar um chef por isso.

_ Então comida é seu ponto fraco. - Concordou. _ Sabe cozinhar? - Ficou pensativo e seu cabelo caiu no rosto de novo.

Mesmo que eu quisesse dizer para cortá-lo, não fiz, era um visual imaturo e dizia muita coisa sobre si. Ele ainda não cresceu e não era aquilo que seus pensamentos tentavam fazê-lo ser.

Claro, sua máscara já está trincada, mas ainda existia muitas pedras no caminho para serem jogadas, até que a máscara fosse quebrada.

Talvez esse Coriolanus de agora não existisse em alguns dias, ou meses... Isso faz algum sentido? Ou apenas estou sendo paranoica de novo?

_ Sei fazer o básico. - Tigris deve ter ensinado. _ Você com certeza sabe.

_ Sim, antes de tudo acontecer comigo, o Bando me ensinou a pescar, saber qual planta ou fruta pode ser comida, e cozinhar.

Mesmo que depois tudo eles só quisessem se distanciar o mais rápido de mim... Tudo bem, isso é passado.

Fomos para outra parte do mercado, fazendo que o carrinho ficasse lento por tanta coisa dentro.

Mas não fui capaz de sair de perto dele e pegar outro carrinho, não que não pudesse, apenas que seus olhos me faziam continuar ao seu lado.

_ Estranho. - Sussurrei, enquanto pegava massa de tomate. _ Bom, claro que depois de um ano a minha preguiça ficou maior e apenas parei de pescar, ou de saber dessas coisas.

_ Por quê? - Sorri e não falei, apenas dei alguns passos para pegar macarrão.

Entretanto, meu pulso foi preso por uma mão calejada e áspera, como se suas mãos não fossem usadas apenas para escrever e redigir.

_ Perguntei o motivo. - Meu pulso era tão pequeno assim?

_ Não é grande coisa. - Observei seus olhos transbordando de curiosidade. _ Apenas que as pessoas daquele lugar me jogavam comida, então fiquei com preguiça de correr atrás disso, e apenas deixei assim.

Puxou meu pulso, fazendo meus pés tropeçassem um no outro quase colidindo com seu corpo, o que seria um vexame.

Porém, não tive coragem de erguer meus olhos e sentir aquele olhar de antes, como se um maremoto estivesse acontecendo em minha cabeça.

Apenas constatei que o terno não era interinamente vermelho, a camisa era preta e o colete era uma cor menos forte que o vermelho real.

A gravata estava torta, mas não falei ou apontei.

_ Está dizendo que deixava esses...

_ Selvagens? - Não ergui meu olhar.

_ Podemos colocar dessa forma. - Suspirou. _ Você pelo menos reagia? - Neguei. _ Por quê?

_ Era comida de graça e poupava meu tempo, e... - Não sinto dor, então não me machucava. _ Já passou. - Apertou meu pulso. _ Por que você se importa? Nos conhecemos hoje.

_ Mesmo se a gente se conhecesse a segundos, ou décadas, não importaria, já que ainda sou humano e tem certas coisas que ainda desprezo. - Levantou meu queixo.

O silêncio do corredor, mas os sons altos do meu coração, me fez querer fugir e me esconder.

Mas apenas fiquei aqui, vendo suas próximas ações.

_ Você é estranho. - Levantou a sobrancelha e concordou.

_ Nunca disse que não sou, mas você é ainda mais estranha, o que me deixa... - Não completou a frase e soltou meu pulso.

Empurrando o carrinho para sair da minha visão.

O que ele iria falar?