Lábios repuxados, olhos dourados que sempre me analisavam como se pudesse descobrir todas as minhas imperfeições.

Nariz empinado e braços protegendo a barriga, como se estivessem cruzados, poderia pensar que iria receber um sermão da garota a minha frente.

Mas sua risada era o suficiente para entender que estávamos tendo um suntuoso jantar e que não iríamos brigar.

Não agora, mesmo sendo uma coisa que gostávamos de fazer bastante desde que nos conhecemos, - ainda sinto dores nas costas devido a esse ser minúsculo.

Um ser que não parecia ter medo de nada, era tão capaz e suas palavras insinuavam isso, mas sei que não era assim, existia alguma coisa inibindo seus sentimentos, a fazendo se tornar fria.

Porém, o riso que não escutava há anos nessas paredes descascadas ou o cheiro delicioso desse ensopado com pedaços tão gordos de carne, que me fez esquecer o meu pedido de antes.

Fez que essa casa não fosse tão sombria e fria quanto antes, mesmo que nada tenha mudado além dessa coisinha e pela comida.

Até mesmo deixei de comer carne ao molho branco, - uma perda -
mas nesse momento estou tentando retomar a conversa que Tigris e Lady-Vó não paravam de rir.

Entretanto, era difícil, parece que algo estava me puxando para ficar quieto e vê-la rir, como se fosse algo do além... Não deveria sentir isso.

Não deveria irritá-la para ver suas bochechas inflarem ou gostasse que chutasse a minha canela para ver aqueles olhos tão irritados.

Poderia ficar assim até que entendesse essas manchas douradas em meu coração, o que iria durar para sempre.

_ Coryo era a minha cobaia. - Pisquei algumas vezes e balancei a cabeça, aquilo não deveria ser contado.

_ Não acham que o ensopado está maravilhoso? A gordura está medida certa e está bem encorpado, mas os pedaços de carne estão divinos e...

Parei de falar quando percebi que elogiei a garota a minha frente, transformando suas pálpebras inferiores em rubis pequenos.

Isso era uma novidade, não sabia que esse serzinho poderia sentir vergonha com alguns elogios.

Cada segundo que passa quero abrir sua cabeça e desvendar cada pedacinho de sua mente, para saber se ela sentiria mais alguma emoção comigo.

Vai ser muito interessante saber sobre esses sentimentos escondidos atrás de várias camadas de acidez e petulância.

_ Não tente me elogiar para mudar de assunto. Por favor, Tigris, continue. - Revirei os olhos, tentando pensar em alguma coisa para fazer minha querida prima calar a boca.

Mas não foi preciso de tanto neurônio, já que seus olhos apenas viram minha aflição e se contentou.

_ Fazia vários ternos e ficava tão fofos, infelizmente já tínhamos vendido nossa câmera fotográfica, se não, teríamos várias fotos.

Sua felicidade não se esvaiu, mas a minha despencou, já que se não fossemos tão inúteis na época, tudo poderia ser diferente.

A garota não estaria aqui, não precisaríamos abaixar a cabeça e sorrir para pessoas incompetentes, como o reitor.

Podíamos ter várias coberturas pela Panem, mas tínhamos que se contentar com essa por esse momento.

_ Você pode ser a nossa estilista, então estarei ainda mais bonita com suas roupas. - Sua voz penetrou meus ouvidos, a fazendo a olhá-la. _ Senhora, Coriolanus disse que você gosta de doces, comprei alguns.

Lady-Vó secava a boca no guardanapo, como se estivesse em um banquete com o presidente de Panem, não que não estivesse com o futuro presidente, mas isso poderia demorar um pouco.

Seu olhar caiu na garotinha e sei que ela não desgostava da presença da intrusa, mesmo sendo um tributo e do distrito.

Seu sorriso foi amável e bateu as mãos, como se não pudesse esperar que todos terminassem a comida para que pudéssemos degustar o chocolate que poderia derreter na boca apenas por encostar em nossas línguas.

Parei de olhar as pessoas e voltei a comer, saboreando cada colher como se fosse a última de minha vida.

Era divino, o aroma e o sabor, tudo era perfeito e quase me fez chorar por provar algo tão bom em todos os anos de minha vida.

Poderia até mesmo parar de chamá-la de pequena, coisinha, minúscula ou outras palavras que a colocava abaixo de mim, - algo que já estava.

Limpei a boca e juntei a louça uma em cima da outra, as carregando para pia para que pudesse lavar mais tarde.

Peguei a caixa de bombons e me aproximei com ela, a colocando na mesa vazia.

O laço foi desfeito e não perdi tempo olhando a ansiedade nesses rostos, apenas levantei a tampa e mostrei lindos bombons decorados.

Havia bombons perfeitos de rosas e alguns tinham damasco e pétalas cristalizadas, parecendo cristal puro.

Já poderia sentir o sabor em meus lábios sem precisar tirar um da caixa.

A primeira a pegar foi a Lady-Vó, como se sua educação estivesse sido extinta há décadas e nada pudesse impedi-la de provar o doce.

Seus lábios franzidos cobriram o quadradinho e seu gemido de aprovação me fez ficar atordoado, era tão bom assim?

Peguei o chocolate com a pétala de açúcar, desgastando a perfeita combinação de açúcar com o cacau, mas a explosão de sabores ficou mais intensa quando percebi que o bombom era de pimenta.

Não ardia tanto, mas acrescentou algo inimaginável em meu paladar, fazendo que o doce não fosse apenas algo mísero, mas autêntico.

Perfeito, simplesmente perfeito!

Não percebi quando todos já estavam com o chocolate em mãos, aprovando o sabor com veemência.

_ Posso morrer feliz. - Suas bochechas estavam vermelhas.

_ Não diga besteiras, Tigris. - Revirei os olhos. _ Você vai provar muitas outras coisas, iguarias que nem mesmo sei o nome. - O chocolate derretia em seus dedos enquanto ria.

Queria gravar esse momento e vê-lo quando mais precisasse, mas tudo que sinto é um pouco de agradecimento da Juníper.

Seu olhar caiu nos meus, fazendo que a caixa de bombons não fosse tão interessante quanto ela.

Seus lábios se mexeram, dizendo uma frase que não precisava de voz para saber. Ela precisava ir, precisava voltar para o zoológico.

Concordei e acenei para a entrada, fazendo que Tigris também observasse a nossa interação sem dizer muito, apenas tinha um brilho estranho em seu olhar.

A garota levantou-se e não continuava vestindo as roupas de minha mãe, mesmo não sendo parecida ou tendo um corpo idêntico, aquilo ficou bem nela.

Acho que se ela descobrisse que quem encontrou aquelas roupas e a separou para que fossem usadas, iria me jogá-las em meu rosto.

Levantei-me e a Lady-Vó apenas nos observou, mas não falou nada que pudesse me constranger no momento.

Sei que ela não aceitou tão bem quanto aparenta, a única que está levando isso tão bem era a Tigris.

Não gostava de sentir impotência, estávamos sendo bancados e isso era ultrajante, mas não podíamos fazer nada além de concordar e sorrir.

Juníper já deve ter percebido que se perder esse cartão ou a importância para o presidente, iríamos nos livrar dela.

Essa coisinha era inteligente...

Peguei a cesta que separei para que ela desse a Lucy, já que garota me pediu comida antes que fosse levado para o carro do presidente, me fazendo perder aulas importantes.

Respirei fundo e abro a porta, saindo por ela.

Sua voz suavizou quando fez suas despedidas com as duas e ficou ao meu lado para que fossemos embora.

O vestido de antes estava em seu corpo e ela parecia mais uma pessoa qualquer, do que aquela mulher que acabei vendo mais que deveria.

Mesmo sendo desnutrida, com seios fartos e cintura tão estreita que minha mão poderia agarrá-la sem dificuldade, ela não era tão feia.

_ Tem alguma coisa no meu rosto? - Tocou nele e neguei. _ Então o que foi? - Aproximei-me, sentindo o cheiro refrescante de sua pele.

Senti isso por um dia e poderia estar viciado com seu aroma, o que fazia todos esses segundos sufocantes.

_ Nada, apenas que deveríamos ir. - Concordou e desceu os primeiros degraus e a segui. _ Quando você voltar, já teremos um elevador funcionado.

_ E uma casa completa. - Sim. _ As roupas irão chegar mais tarde, ou amanhã. - Sua voz me fazia cócegas.

Mas seus cabelos ondulados despencavam como cascatas em suas costas, a única coisa que dava para ver no momento.

Eram bonitinhos.

_ Realmente gostou do ensopado? - Não parou e continuou descendo.

_ Sim, espero que na próxima seja o meu bife. - Riu. _ Acho que te devo algumas respostas.

_ Sobre sua vida? - Resmunguei e parecia que os degraus não acabavam. _ Estou louca para descobrir mais sobre você, Coriolanus.

_ Para me chantagear?

_ Talvez, quem sabe? - Sei que ela não faria isso sem um bom motivo. _ Já sei o motivo de sua familiar ir à falência e que é um bom primo e neto

_ Sou ótimo em tudo que faço. - Não falou.

Continuamos descendo e descendo, até que as palavras que ela queria ouvir saindo de minha boca, saíram.

_ Os Jogos estão passando por mudanças constantemente e isso afetou a Academia. - Parou no último degrau e me olhou.

_ Isso é verdade, já que vocês só colocavam a gente em uma arena e nos diziam para correr, esconder e morrer. - Parei ao seu lado. _ Não que isso seja um problema de fato, até gostei de vê-los morrer.

Seu sorriso era estranhamente encantador, nem parecia que estava dizendo palavras tão mórbidas e que fazia meu coração pular de jeito estranho.

_ Mas o que tudo isso significa, Coriolanus? - Ofereci meu braço e ela aceitou como da primeira vez.

Demos mais alguns passos, passando pela porta e vimos a Corso novamente, magnífica como antes.

_ Um homem que me odeia com todas as forças disse que mesmo se eu vencesse, não teria nada para comemorar. - A conduzi pelo passeio, indo na direção oposta de mais cedo.

_ Vencesse os Jogos? - Acenei. _ Então se eu não estivesse aqui, você tentaria fazer a Lucy vencer apenas para ganhar o seu prêmio, contudo, você não receberia o prêmio.

_ Minha família ficaria pior que já estava e iria me ajoelhar para me casar com alguém que desgosto. - Cerrei meus dentes, não sabia o motivo ainda estar contando isso tudo para ela.

A garota era uma estranha que conheci menos de um dia, mas essa garota que está ajudando minha família com propósitos ocultos.

Não me importo se ela vai me trair alguns dias depois, ou vai me chantagear com essas informações, já que minha boca parecia ter vontade própria.

Ou apenas estava me sentindo a vontade com a menina que parecia me odiar, mas existia uma certa curiosidade em seu ser.

Como se estivesse a dizendo para continuar ao meu lado, mesmo que sua raiva cresça com o passar dos minutos.

_ Sou sua heroína? - Apreciei sua voz em meu ouvido, como se fosse o canto mais bonito dos pássaros que não ouvia mais.

Ela não era minha heroína, era uma coisa que ainda não sabia dizer o que era, e acho que fiz bem em amarrar aquela corda em seu pulso.

Ou essa interação não estaria acontecendo de uma forma tão magnânima.

_ Não, você não quer vencer. - Respirou fundo. _ Se você quisesse, poderia fazer tudo por você. - Seus lábios foram mordidos e os pequenos caninos saíram.

_ Não posso matar a Lucy, então prefiro me fingir de morta e nunca mais aparecer na sociedade. - Idiota.

Viver nas sombras apenas por salvar alguém que ela apreciava... Como ela poderia ser tão idiota nesse quesito?

Poderia fazer qualquer coisa para a minha família, mas nunca me transformaria em um ninguém por eles.

Deveria explicar que sua vida seria um inferno se ela fizesse isso? Ou apenas posso deixá-la fazer o que tiver vontade, já que não me importava tanto com isso.

Parei de observar seus lábios e constatei seu olhar no céu, havia poucas estrelas, mas tinha.

_ Gosta das estrelas? - Poderia ver todas as constelações em seus olhos.

_ Gosto de muitas coisas nessa vida, estrelas, água e a Capital são umas delas. - Estalou a língua no céu da boca. _ O que você gosta além de ternos, comida e de sua família? - Pisquei algumas vezes sem poder responder.

_ Não sei. - Parou de falar, mas não gostei. _ Sabe aquela estatua que passamos? - Olhou para trás, mas já estávamos longe.

_ O que tem ela? - Seu nariz estava ficando vermelho e percebi que estava fazendo frio.

Parei de andar, a fazendo ficar sem entender, apenas tirei meu blazer e coloquei em seus ombros, a protegendo do vento que vinha de todas as direções possíveis.

O vermelho não ficava bom nela, mas isso não importava no momento.

_ Obrigada. - Acenei e continuei andando pelas ruas, carregando a cesta que não estava tão pesada quanto pensei que estaria.

_ Respondendo sua pergunta, foi ali que vi o primeiro canibalismo acontecer. - Não parecia afetada. _ Tigris e eu vimos caixas no beco...

_ Pela cobertura? - Resmunguei.

_ Não tinha nada, mas quando estávamos voltando, vimos uma pessoa comendo a outra que estava morta. - As imagens estavam frescas em minha mente.

Nem mesmo as luzes, o cheiro de gasolina ou o vento que passava por nós iria desfazer as imagens de minha infância.

Aquele foi o dia que aprendi o que um ser humano faria quando a sua fome não fosse saciada.

Os seres humanos são loucos, apenas que sua loucura estava na faixa de limite, tentando desesperadamente não ultrapassar a linha.

_ Vocês conseguiram voltar para casa? Ou ficaram ao lado de fora?

_ Conseguimos. - Dessa vez minha voz que se foi.

_ O que fará com o seu reitor? - Suas mudanças de assunto sempre são bem-vindas, quase sempre.

Atravessamos a rua e a luz amarela se foi, dando a lua a passagem para nos guiar pela escuridão de algumas quadras.

Seu aperto em meu braço ficou maior, quase me fazendo entender que tinha medo do escuro, mas sei que não tinha.

Apenas não queria cair em algum lugar íngreme que seus olhos não puderam ver.

_ Nada, ele é o reitor, suas palavras são como lei. - Bufou. _ O que você faria?

_ O mataria. - Não parecia estar brincando.

_ Posso ir para a forca.

_ Só se você deixar. - Vi um pequeno vislumbre de sorriso. _ Para matar uma pessoa sem deixar vestígios precisa entender sua rotina, suas comidas preferidas e bebidas, tudo.

_ Veneno? - Concordou, fazendo algumas mechas de seu cabelo ondulado cair em seu rosto. _ Como?

Não que eu fosse fazer isso, mas seus pensamentos eram uma coisa interessante de se pensar e eram tão vívidos, que diziam que ela já fez isso.

_ Até um alfinete pode estar contaminado com veneno, a pessoa pode inalar ou ingerir, não é tão difícil.

_ Já fez? - Deu de ombros. _ Então já fez.

_ Não crie suposições, sou uma boa garota. - Ri, ela não era nada disso. _ Contudo, se você tiver algum problema, pode me dizer.

_ Vai começar a matar todas as pessoas que me fizeram mal? É uma lista bem grande. - Revirou os olhos. _ Ainda não gosto de pensar em matar pessoas.

Paramos perto do portão dos fundos do zoológico, o que me fez perceber que o caminho não era longo o suficiente para isso.

Queria saber se ela realmente já matou alguém, ou os seus pensamentos eram tão críveis que apenas me deixei levar por essa garota.

_ Você foi o primeiro que não me olhou com certa estranheza. - Desfez nossos braços unidos e ficou a minha frente. _ Para que você não confunda as coisas, apenas estou tentando ajudar você, já que vai me ajudar.

_ Você sempre gosta de pagar na mesma moeda, não é? - Abaixou a cabeça, me impedindo de vê-la completamente.

_ Se as pessoas me fizeram o mal, devem cair como elas queriam que eu caísse. - Sua voz era gélida e monótona. _ Obrigada por me acompanhar, Coriolanus. - Tentou tirar o blazer, mas apertei seu ombro.

Encostei minha testa na sua, a fazendo me olhar com aqueles malditos olhos.

Não sabia como respirar ou como desfazer esses batimentos descontrolados em meu coração.

Apenas queria dizer aquilo que não tinha contagem de dizer para ninguém, nem para Tigris.

_ Ele toma morfina. - Confidenciei. _ Não sei o motivo, mas sempre o chamo de Chapa. - Suas sobrancelhas arquearam em um riso frouxo.

_ É mais fácil. - Sussurrou e seu hálito quente viajou para os meus lábios. _ O que mais quer falar?

_ Quando nos encontrarmos... - O que estou dizendo? _ Me dê um apelido descente.

_ Coryo? - Zombou e quase apertei sua bochecha. _ Não prometo nada, Coriolanus. - Tirou o blazer e me entregou. _ Não quero vê-lo por pelo menos dois dias.

_ Dois dias é pouco, não desejo nunca mais vê-la. - Dei a cesta a ela.

_ Sim, por favor, meus olhos já viram feiura demais por um dia. - Deu alguns passos para trás, mas desviou seu olhar.

Coloquei minhas mãos no bolso e a vejo se virar para ir até os Pacificadores que estavam cuidando daquele lugar.

Provavelmente já sabiam que a garota iria voltar, já que nem mesmo perguntaram o motivo dela está ali, ou o porquê dá cesta em suas mãos.

Apenas abriu e a deixou ser encarcerada como deveria estar várias horas atrás.

Suspirei e observei o ser que estava fascinado...

Juníper Ever será a minha ruína, ou a minha glória.