"É sério isso?" Perguntei achando a situação meio duvidosa.

"Sim, anda logo." Blade respondeu aborrecido e sua voz ecoou até mim.

Estávamos em Manhattan, em um beco na região do Harlem. Na verdade, eu estava no beco, o Blade estava no fundo de um bueiro gritando pra mim. A tal Metrópole dos Monstros, parece que fica no subterrâneo de Nova York, então o melhor caminho para chegar é pelos bueiros.

A contragosto, eu desço as escadas até chegar ao esgoto.

"Esse lugar fede pra desgraça." Parecia que eu tinha entrado num banheiro de rodoviaria.

"Ainda que não tenho nariz." O simbionte se vangloriou.

"Vampiros também não tem olfato muito bom." Blade confessou.

"Vão a merda vocês dois." Pigarreei.

Eu tapei meu nariz e segui caminho atrás do Blade. Passamos alguns minutos andando até que ele parou subitamente em frente de uma parede qualquer. Sem dizer nada, ele deu um passo para frente e atravessou a parede. Por um momento pensei que isso fosse algum poder de vampiro, mas a parede era só uma ilusão. Ao atravessar ela fomos parar em um corredor largo cavado na terra. Haviam vigas de sustentação e até luzes, mas tudo parecia bastante improvisado. O corredor dava em vários outros menores, formando o que parecia ser um grande labirinto subterrâneo.

"Então" Comecei enquanto Blade nos guiava por aquele local escuso "Que tipo de lugar é essa Metrópole? É base secreta de alguma organização maligna de monstros que quer controlar o mundo ou algo do tipo?"

"Nem todos os monstros são malignos." Sua voz ficou séria, não com o tom irritado de antes, mas pesado como quem fala de alguém difícil. "A Metrópole é um refúgio, um abrigo. Ela acolhe todos aqueles que são marginalizados e oprimidos pelo mundo humano. Não são inimigos… pelo menos a maioria deles."

"Acho que faz sentido. Você é um vampiro também, mas é um herói… você não bebe sangue de pessoas né?" Perguntei receoso.

"Tenho sede como qualquer vampiro, mas só me alimento do sangue de animais, não de pessoas."

"Deve ser difícil lidar com esse tipo de desejo."

"Eu tive sorte, fui criado por pessoas boas, a maioria dos vampiros não tem essa sorte."

"Falando nisso, qual é a desse negócio de meio-vampiro? Tipo, seus pais são um humano e o outro vampiro?"

"Na verdade sim, mas não foi assim que adquiri a maldição. É uma longa história. Se fosse tão fácil criar seres como eu, os vampiros já estariam fazendo isso a eras."

Apesar do Blade passar uma primeira impressão de rabugento, e de falar sempre num tom monótono, até que é fácil conversar com ele. Ele é o tipo de pessoa que parece não ter nada a esconder e por isso consegue falar tranquilamente sobre tudo. Eu ainda tinha muitas dúvidas sobre a fisiologia dos vampiros, e algumas sobre sua história também, mas isso teria que esperar pois nós chegamos até uma…guarita? É a única forma que posso definir aquilo. Era uma cabine quadrada não muito grande que ficava conectada a um portão elétrico.

Chegando mais perto vivemos o guarda. Era um gárgula de pedra. A textura da sua pele (se é que dá pra usar essa palavra) lembrava muito uma pia de mármore. Sua cara era achatada, tinha um boca larga com presas à mostra, chifres enrolados e um par de asas. Ele não devia ter mais que 140 cm de altura e vestia um daqueles coletes de segurança amarelos e fluorescentes.

"Blade? O que diacho cê tá fazendo aqui?" O guarda perguntou com uma voz muito rouca.

"Fala aê, Basqud. Pode liberar nossa passagem?"

"Cê tá brincando, né? Sabe que tenho que chamar a chefe, né? E sabe que ela vai te matar, né?"

Diante da ameaça eu prontamente saquei minha espada e apoiei a lâmina sobre o ombro da criatura.

"A coisa não precisa ficar feia, amigo." Falei num tom ameaçador.

"Abaixa isso. Já disse que aqui é um lugar pacifico." Reclamou Blade, e com a mão empurrou meu braço pra longe.

Meus instintos e os do simbionte não estavam reagindo bem ao ambiente, mesmo assim acabei guardando a espada. Nessa situação precisa confiar no Blade

"Esse aí, tem espírito." Basqud elogiou, soltando uma gargalhada. "Então, como vai ser, senhor conselheiro?" Ele perguntou na direção do Blade.

O vampiro soltou um suspiro cansado antes de responder.

"Que seja, chama logo ela. Não dá pra ficar evitando ela pra sempre."

Com um sorriso zombeteiro, o gárgula obedeceu. Basqud virou-se para um telefone amarelo na parede da cabine, daqueles com uma rodinha pros números, e discou rapidamente uns três números. A ligação também foi rápida, parece que ele só teve tempo dizer o nome do Blade que a pessoa do outro lado desligou na hora.

"Eeeentão, quem é essa chefe? E o que ele quis dizer com conselheiro?" Perguntei ao Blade me aproximando.

"Você já vai descobrir." Ele respondeu sem olhar para mim, ao invés disso ficou encarando o túnel à frente, para além do portão.

Depois de uns 15 minutos, durante os quais eu fiquei jogando domínio com o Basqud enquanto o Blade encarava sério o horizonte, ouvi os sons de passos se aproximando velozmente. Levantei a cabeça para observar e vi um enorme lobo marrom vindo em disparada na nossa direção. O bicho tinha quase o tamanho de uma pessoa, devia até dar pra montar nele.

Ao se aproximar do portão, a fera saltou por cima dele na direção do Blade, com um ataque voraz direcionado a sua garganta. Blade foi mais ágil, ele estendeu o braço e agarrou o pescoço da criatura, segurando ela no ar e impedindo que se aproximasse o bastante para feri-lo.

"Não quero brigar, Lupina. Só vim atrás de informação." Blade tentou se explicar.

O lobo grunhiu e se transformou. Seus membros se alongaram e seu peitoral se tornou mais esguio, sendo possível discernir um macacão amarelo e curvas femininas. O rosto de lobo também deu lugar a uma expressão mais humana, apesar de ainda coberta por pelos. Era uma lobisomem.

Graças aos membros humanoides, agora ela tinha alcance para acertar o Blade, e foi o que ela fez. Em um movimento rápido suas garras acertaram o rosto dele, deixando um corte raso na lateral esquerda e arrancando tanto a máscara quanto o capuz.

Foi a primeira vez que vi o rosto do Blade. Ele é negro e tem dreads pretos penteados e presos atrás. O formato puxado de seus olhos revela a ascendência asiática, enquanto a cor vermelha revela o vampirismo latente. Sua expressão severa também deixava a mostra suas presas.

Irritado, Blade acertou um soco na barriga da lobisomem que a atirou contra o portão. Sem se abalar, ela investiu novamente e com um movimento giratório desferiu um chute potente na lateral do corpo de Blade, que defendeu com o braço.

Por mais que eu fosse adorar ficar assistindo um vampiro e uma lobisomem saindo na porrada, isso não seria muito interessante para nossa missão, por isso resolvi intervir. Estiquei meus braços pra frente e eles se transformaram em grandes massas negras que envolveram os corpos dos dois e os colocaram contra a parede.

"Chega disso!" Gritei "Não sei quem é você, mas o Blade disse que aqui era um lugar pacifico para conseguirmos informação. Por que vocês tão brigando?"

"Por que esse arrombado abandonou a gente sem mais nem menos, e deixou uma bagunça enorme pra trás." Respondeu a Lupina entre grunhidos.

"Você sabe que eu nunca quis fazer parte disso." Blade retrucou visualmente irritado.

"Eu realmente vou precisar que vocês sejam mais claros."

"Dá pra tirar essa gosma de mim?" A Lupina se debatia enquanto reclamava. "Quem diabos é você afinal?"

"Nós somos Barbárie." O simbionte se manifestou abrindo uma parte da minha máscara e nos apresentamos em uníssono.

Lupina reagiu com um careta confusa e consternada.

"Tá bom, tá bom. Deixa que eu explico." Interrompeu Basqud se aproximando. "Escuta, rapaz. Aqui na Metrópole existe um conselho com líderes de várias raças de monstros, e o Blade era o dos vampiros. A chefe tá brava porque ele largou o posto e eles tão até agora sem um substituto. Por causa disso tá rolando muita confusão entre os vampiros da cidade."

"Na moral, esse é um bom motivo pra estar irritado. Por que cê largou eles?" Perguntei pro Blade.

"Eles praticamente me obrigaram a pegar esse posto. Não gosto de politicagem." Blade estava aborrecido.

"Você é um otário que não sabe assumir responsabilidade." Xingou Lupina. "Vocês não vão entrar na Metrópole."

"Olha, o Basqud disse que tá rolando uma confusão com os vampiros da cidade né? Nós estamos investigando uns desaparecimentos vampirescos. Podemos nos ajudar." Assumindo um tom conciliador, eu tentei acalmar os ânimos.

"Por que eu devia te ouvir?" Retrucou Lupina.

"Porque a alternativa é eu matar você e o carinha de pedra aqui." Rosnei de volta, já estava perdendo a paciência.

"Qualé, jogamos dominó juntos." Basqud choramingou.

Observando com atenção, notei as orelhas caninas da Lupina caindo levemente e seus músculos relaxando sob o meu agarrão (nem me pergunto como é o tato dos tentáculos). Sua forma mudou novamente, deixando todas as características de lobo pra trás. Seu corpo ficou menor. Os pelos sobre o rosto recuaram para um penteado curto, de uma cor entre castanho e ruivo. Sua pele ficou mais clara e seus olhos se tornaram verdes.

Eu puxei meus braços de volta e coloquei os dois no chão.

De punhos cerrados, claramente tentando conter a raiva, Lupina encarou Blade.

"Resolva sua bagunça, e ficamos quites."

O vampiro respondeu balançando a cabeça.

"Libera eles." Ela ordenou ao Basqud. "E você, Barbárie, nunca mais ouse ameaçar a mim ou ao meu povo." Avisou com um olhar penetrante e nos deu as costas, voltando pelo túnel.

Basqud apertou um botão e o portão se abriu, permitindo que seguíssemos o caminho.

"Nada mal, bem persuasivo." Blade me elogiou quando ficamos sozinhos.

"Dizem que violência só gera mais violência, mas a disparidade no nível de violência faz qualquer um recuar." Refleti de forma séria. "Ela não veio pra matar, só pra tirar satisfação. Por isso recuou."

Talvez tenha sido a penumbra me enganando, mas podia jurar que o Blade sorriu nessa hora.

"Tem razão, a Lupina é do tipo que se deixa levar pelas emoções."

"Devem ser os instintos de lobisomem, né?" Perguntei curioso.

"Hm? Ela não é um lobisomem." Blade me corrigiu.

"Como assim? Ela se transformou na nossa frente." Reagi confuso.

"Você já viu um lobisomem antes? Eles só se transformam na lua cheia, não dá pra controlar isso."

"Então, como…"

"Ela é uma mutante."

"Ah… tem mutantes aqui também?"

"Eu te disse, a Metrópole é o lugar para todos aqueles que são descartados pela sociedade… E a propósito, chegamos" Blade levantou o braço e apontou para frente, onde luzes chegavam por uma abertura na caverna.

Ao sair da penumbra da caverna levou alguns segundos para meus olhos se acostumaram com a luminosidade. Quando consegui ver o que estava diante de mim, juro que meu queixo literalmente caiu.

Uma caverna colossal se abria à nossa frente, o teto tão distante que não podíamos enxergá-lo. Ao largo das paredes centenas de construções, que julguei serei casas, de variados tamanhos, formas e cores, se amontoavam em uma semicírculo descendente. Lá em baixo havia uma gigantesca praça, cercada por alguns prédios maiores com estilos arquitetônicos variando do gótico clássico ao brutalismo moderno. Ao fundo da caverna, na ponta oposta de onde estávamos, ficava um imponente castelo de tijolos negros.

No centro de tudo, no meio da praça, estava uma enorme fonte. Mesmo de longe dava pra ver várias pessoas nadando nela. Da conta uma estátua imponente nos encarava. A figura parecia feita de mármore, e empunhava uma espada apontada para o céu. Algo nela me era muito familiar…

"Pera… aquele é o monstro do Frankenstein?" Berrei pro Blade, apontando para a estátua.

"O próprio. Chamamos ele de Rei Frank. Foi quem fundou essa cidade."

"Eu tenho tantas perguntas…"

"Que vão ter que ficar pra depois." Ele me cortou secamente. "Vamos, temos que encontrar com o meu contato."

"Quem é ele, afinal?"

"Um velho amigo. Seu nome é Jamal Afari."