Um líquido quente escorria lentamente por suas costas, causando-lhe pequenos arrepios. Mesmo pressionando seu ombro contra a origem do fluido, ele não parava de escorrer. Não era incômodo nem desagradável, apenas... estranho.

Exausto, ele não tinha forças para resistir. Seu corpo, tomado pelo frio, agora se entregava ao calor que o envolvia. Atrás dele, uma presença firme e silenciosa o aquecia, afastando a morte que antes o abraçava. Caudas macias o embalavam, como ramos gentis segurando uma folha prestes a ser levada pelo vento.

Lá fora, o vento uivava como um lobo enfurecido, ecoando sua fúria pelas copas retorcidas das árvores. As nuvens enegrecidas reinavam sobre a floresta, negando até mesmo à lua o direito de se impor. Uma espessa camada de neve selava a entrada da caverna, isolando-os do frio congelante.

As orelhas sensíveis da criatura captavam os gemidos abafados que escapavam dos lábios dele — murmúrios sufocados, imersos em dor e sofrimento. Então, ela sentiu mãos frias se agarrando às suas caudas, como se ele temesse, profundamente, que ela fosse embora. Depois de tanto tempo vagando sozinho, o calor de um toque humano lhe parecia algo distante, quase esquecido.

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O silêncio fazia seus ouvidos zumbirem. Uma certa claridade espreitava a entrada da caverna — ou melhor, da toca — permitindo enxergar as pequenas nuances. A luz revelava um chão coberto por folhas e pelos, que juntos formavam uma espécie de "ninho" incrivelmente confortável. Raízes brotavam do teto, enquanto pedras e troncos firmavam as laterais para a cavidade não desabar. O odor da madeira envelhecida e da terra úmida envolvia o ambiente.

Sua cabeça latejava e cada músculo de seu corpo ardia em protesto. Mas nenhuma dor se comparava ao peso de ainda existir.

Debilitado e faminto, não conseguia se levantar. Seu estômago se revirou quando o odor de carne crua invadiu suas narinas. Seus instintos mais primitivos assumiram o controle.

Olhando para a entrada da toca, notou algumas fatias de carne dispostas sobre um punhado de neve, ao lado de uma tigela de leite. Dias sem se alimentar, ele apenas se preocupou em devorar o alimento oferecido.

Levando o líquido aos lábios, percebeu ainda estar morno, indicando que havia sido ordenhado recentemente — o que era curioso, já que o ambiente inóspito não deveria abrigar animais domésticos.

Ao terminar, limpou a boca com as costas das mãos e rastejou de volta para o ninho. Sua mente, consumida pela exaustão, concluiu que o melhor a se fazer era apenas descansar. Se ela quisesse tê-lo matado, teria feito na noite anterior.

Ele mal teve tempo de concluir sua reflexão.

Passos sutis ecoaram pelo covil, projetando uma sombra distorcida no interior da toca. Rapidamente, ele fingiu dormir, forçando suas pálpebras a permanecerem cerradas.

O mesmo aroma frutado da noite anterior pairava no ar, doce e envolvente, despertando sentimentos confusos.

Ajoelhando-se, ela pousou a mão sobre sua testa, sentindo o calor febril em sua pele. As garras afiadas roçaram suavemente, um toque hesitante, insatisfeito. Sua mão fria era imprecisa — os lábios fariam um trabalho melhor. Com um leve suspiro, ela sentiu a febre finalmente ceder.

O gesto o fez estremecer, como se seu corpo não soubesse como reagir àquele toque.

"Por que está fingindo? Sabe que não vou te machucar..." A voz era suave, sem qualquer tom de ameaça.

Exposta sua farsa, ele abriu os olhos, hesitante, como se temesse o que encontraria ao encará-la.

Seus olhares se cruzaram em um longo embate silencioso.

Ela era simplesmente linda, algo entre o exótico e o etéreo. Seus olhos dourados cintilavam na escuridão; pupilas elípticas e predatórias estudavam seus músculos rígidos. Marcas carmesim riscavam suas bochechas, lembrando os bigodes de um felino.

No topo de sua cabeça, um par de orelhas triangulares se exibia graciosamente. Atentas, elas reagiam conforme ele inspirava e expirava. A pelagem possuía a mesma tonalidade de seus cabelos, porém, a parte interna era de um branco aveludado, protegendo os canais auditivos.

Os cabelos escuros caíam livremente ao redor dos ombros, deslizando como seda até a cintura. Atrás dela, várias caudas volumosas balançavam no ar, movendo-se como um gato curioso.

O espesso manto de lã era suficiente para cobrir suas curvas, mas tinha dificuldades em acomodar seus seios. A peça, já desgastada, parecia ter sido confeccionada décadas atrás.

Por algum motivo, ele não demonstrava medo ao observá-la — seres humanos saudáveis deveriam instintivamente temer sua espécie.

Admirando sua beleza, ele quase se perdeu na ideia de que ela fosse apenas um delírio — tão etérea e perfeita que parecia irreal. Queria tocá-la, sentir sua presença, mas o medo de que fosse uma ilusão o paralisava, deixando-o ali, completamente imóvel.

A reação dele a tocou profundamente, e ela respondeu com um sorriso suave, quase tímido. Com um movimento gracioso, retirou uma mecha de cabelo que caía sobre o rosto, expondo seus olhos cintilantes que se fixaram nos dele.

Hesitante, ele permaneceu imóvel, os olhos fixos nela, mas o peso da dor o mantinha preso, como correntes invisíveis.

Ele respirava com dificuldade, produzindo grunhidos leves. As orelhas dela se contraíam a cada suspiro doloroso que ele dava.

Ao analisá-lo melhor, sua situação era preocupante, para não dizer desesperadora.

Seus olhos esverdeados estavam nublados, quase sem vida. A opacidade de seu olhar era como um espelho embaçado, refletindo uma alma quebrada e devastada pela culpa.

A túnica rasgada mal cobria seu corpo, deixando à mostra um peitoral marcado por cicatrizes profundas — testemunhos silenciosos de um passado sangrento. Cada marca era um lembrete cruel de suas ações, gravadas não apenas na carne, mas na alma, assombrando-o para sempre.

A pele pálida, quase translúcida, moldava-se sobre seus ossos, expondo as terríveis consequências da fome. Cada respiração, lenta e pesada, fazia suas costelas salientes se destacarem, como se seu corpo estivesse prestes a desabar.

Sua postura entregava sua vulnerabilidade; os ombros caídos, a cabeça baixa, como se estivesse à mercê de um julgamento iminente. A vergonha era palpável, como se temesse que cada olhar lançando sobre ele fosse uma condenação, mesmo que não houvesse palavras.

Ele havia testemunhado o próprio inferno e retornado para contar a história.

A cena a golpeou como um chicote.

"Vamos, diga alguma coisa... está se sentindo um pouco melhor?" O sorriso tímido desapareceu, dando lugar a uma clara expressão de angústia.

"Por quê?", murmurou, desviando o olhar. "Por que não me deixou morrer?"

"—!"

O som reverberou pelas paredes. Ele abaixou os olhos rapidamente e tocou a bochecha avermelhada — queimava de dor.

Ela agarrou o queixo dele, forçando seu rosto a encarar os olhos dela. "Nunca mais diga isso!", ela o apertou com mais força. "Entendeu? Nunca mais!"

Apesar de encará-la com a mesma intensidade, ele não conseguiu esconder as lágrimas de ódio.

Suas orelhas murcharam, e suas caudas caíram pesadas contra o chão, como se o peso da situação tivesse afetado até mesmo sua própria essência.

Ele abaixou a cabeça lentamente, fazendo a mão dela escorregar suavemente pelo seu rosto.

Ela tentou, em vão, encontrar as palavras certas, mas algo dentro dela já sabia o que ele precisava.

Ao se sentar ao lado dele, suas caudas o envolveram instintivamente, quase como um reflexo — ela nem percebeu.

Seu olhar irradiava uma combinação de arrependimento e preocupação. "Olha... me desculpe. Eu realmente não queria ter feito isso." Sua voz soou baixa, enquanto ela se esforçava para encontrar uma maneira de reparar o que parecia impossível de consertar.

"Você é uma raposa, não é?", ele cuspiu, sua voz carregada de desprezo. A raiva queimava dentro dele, impedindo-o de ceder ao aconchego dela.

"Sim?" Ela já sabia o que ele iria perguntar.

"Não consegue apagar minhas memórias? Sei que você pode!"

Ela ficou pensativa por um momento, como se estivesse pesando suas palavras. "Não. Mesmo que eu quisesse, estaria muito fraco para suportar o processo."

"Você não entende", sussurrou, a voz quase inaudível.

"Não entendo? Então me ajude a entender!"

"E isso importa? Você nem me conhece, está apenas desperdiçando seu tempo comigo."

A resistência dele estava desmoronando.

Ela apertou com força as folhas em sua mão, esmagando-as enquanto reunia coragem para falar. "Ontem, vi através da sua mente. Eu já sei de tudo..."

Um choque percorreu as costas dele, fazendo cada fibra de seu corpo se arrepiar.

"Carregar esse fardo sozinho só vai te afundar cada vez mais, até que não haja mais nada dentro de você."

A raposa sentiu no ar o cheiro amargo do medo, denso e sufocante.

As palavras o golpearam com força, deixando sua mente em silêncio. "Quem é você?"

Ela deu uma risadinha, passando os dedos pelos cabelos dele.

Ele não protestou.

"Está com medo de mim? Já te disse que não vou te machucar."

A represa rompeu; ele cedeu. Mordendo a língua para abafar os sentimentos, ele se aninhou contra ela, repousando a cabeça no aconchego de seu seio. Por um instante, o tempo pareceu parar, e ele se deixou envolver pelo calor que o fazia crer que poderia ficar ali para sempre.

Porém, o silêncio se tornava insuportavelmente constrangedor, e ele sentiu a necessidade de romper aquele vazio. "Você tem nome?"

Ela parou de acariciá-lo por um momento; tantos anos se passaram desde a última vez que seus lábios ousaram pronunciá-lo, a ponto de ela mal se lembrar dele. "Hmm, me chame de Ahri. E o seu? Sendo um monge, imagino que seja algo bem tradicional."

Ele ergueu o olhar, seus olhos hesitantes buscando os dela, como se procurasse algo que nem ele mesmo sabia definir. "Yishfar, mas pode me chamar de Yi, eu não ligo."

Ao ouvir aquele nome, um arrepio também percorreu sua pele, como se o destino lhe pregasse uma peça, eriçando toda a sua pelagem. "Yishfar... sua mãe deveria conhecer bem as estrelas para escolher esse nome."

Eles ficaram ali, em silêncio, apenas sentindo a presença um do outro.

Respirar parecia mais fácil, como se um fardo invisível tivesse se dissipado.

Ela poderia salvá-lo?

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Era começo da tarde. Na entrada da toca, duas martas curiosas reviravam as sobras do almoço, arrastando a carcaça da lebre de um lado para o outro, como se brincassem de cabo de guerra.

Ele jurou ter ouvido ela rosnar. Raposas e martas nunca foram grandes amigas.

Eriçando as caudas como um gato furioso, ela as expulsou dali. Aquele território já tinha dona.

O hóspede, que cochilava tranquilamente em seu colo, resmungou incomodado. "Hmm, vai sair de novo?"

"Sim." Ela apanhou um odre pendurado na parede e se dirigiu até o cesto nos fundos do covil. "Preciso resolver alguns assuntos importantes."

Ele teve que desviar o rosto para perguntar. "Vai demorar muito...?"

Distraída, ela trançava os cabelos em uma única mecha. "Creio que sim. Pretendo caçar. Estou de olho em um cervo que anda perturbando a vizinhança. Também quero ver se encontro lenha seca — vocês, humanos, são muito sensíveis contra o frio."

Imaginar uma mulher como ela caçando desarmada não era tarefa fácil. No entanto, suas garras e presas diziam o contrário.

"Quer que eu te ajude com a lenha?"

"O quê? De jeito nenhum!", gritou, irritada. "Você mal consegue ficar de pé... Se me desobedecer, vou te devorar!" Para deixar a ameaça clara, ela exibiu suas presas afiadas em um sorriso perigoso.

"Humph, pareço uma criança para você?"

"Ah, pode acreditar que sim. Aliás, quantos anos você tem? Não acredito que tenha feito tudo aquilo sendo tão jovem."

Seus ombros caíram, mas não foi por causa da piada sem graça. Algo a mais pesava sobre ele. "Faz um tempo que parei de contar. Acho que entre dezesseis ou dezessete, talvez um pouco mais."

Ela percebeu o deslize que havia cometido. Seu peito apertou com a culpa. "Entendo. Me desculpe."

Seus cabelos longos, antes soltos, agora estavam presos em uma única trança.

Ele olhou para ela com curiosidade. "Você parece ser um pouco mais velha do que eu."

"Hahaha, um pouco? Você está sendo generoso. Quando o mundo foi criado, certamente eu deveria ter sido uma das primeiras a aparecer."

A expressão dele era uma mistura de surpresa e espanto.

Preparada para enfrentar a neve, ela se virou, mas não antes de lhe dar um último olhar. "Não. Estou apenas brincando. Mas posso te garantir, vivi o suficiente para saber que posso te ajudar."

Ele hesitou por um instante, seus olhos presos aos dela — sua voz mais suave do que desejava. "Ahri, promete que irá voltar?"

"Prometo. Afinal, não se deve deixar um filhote sozinho por muito tempo."

"..."

Sozinho, ele se afundou entre as folhas e os pelos do ninho.

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O sol se despedia, mergulhando atrás das nuvens acinzentadas, levando consigo o calor do dia. A temperatura despencou e o vento congelante invadiu a entrada da toca, roubando o calor de tudo que tocava. Yishfar estremeceu, encolhendo os ombros numa tentativa inútil de se aquecer. Sua túnica fina e rasgada, não oferecia qualquer proteção contra o frio.

Na escuridão, apenas o som podia guiá-lo. O farfalhar das folhas e o uivo distante de um lobo solitário eram suas únicas referências. Apreensivo, ele aguardava o retorno da raposa — ela estava demorando mais do que deveria.

Com um impacto súbito, o chão tremeu, espalhando folhas e pelos por toda parte. Se não fosse por seus reflexos afiados, certamente teria se assustado. O som, que lembrava sacos de farinha caindo, na verdade, vinha de uma pesada coxa de cervo.

"Trouxe o jantar", disse com casualidade, como se aquilo não fosse grande coisa.

Ao tatear a enorme coxa do cervo — que mais parecia a de um alce — ele teve uma pequena noção do poder da criatura ao seu lado. "Como conseguiu arrastar isso até aqui? Ou melhor, como conseguiu caçar um animal desses?"

Ela largou o cesto de lenha no chão e retirou o odre de seu manto, entregando-o para ele. Ao se espreguiçar, suas costas estalaram alto. "Ah, você fala dele? Queria trazê-lo inteiro, mas minhas outras crianças também precisavam comer."

Era incrível como ele se impressionava com tudo o que ela dizia. "Outras crianças? Você tem filhos?" Foi a primeira vez que ele demonstrou interesse genuíno por algo.

Ela se agachou no chão, limpando a área para a fogueira. "Não, seu bobo. São apenas alguns lobinhos. Tenho cuidado deles há um tempo... a mãe foi morta por caçadores."

"Caçadores?" Ele franziu o cenho. "Sinto muito. Pensei que ninguém ousaria entrar nesta floresta."

O bosque era conhecido pelas lendas do velho espírito que o habitava; nenhum homem ousava pisar naquela terra. Contudo, com a escassez dos grãos das lavouras, a caça espalhava-se por todo o país, forçando-os a adentrar territórios antes proibidos.

"Ah, não precisa lamentar." Seu tom era leve, quase despreocupado. "Eles não farão mal a mais ninguém. Eu cuidei disso pessoalmente."

Ele ficou em silêncio, ponderando. Se ela lidou com os invasores sozinha e eles estavam mortos, era apenas questão de tempo até que uma expedição de resgate fosse enviada.

"Beba enquanto está quente." Ela suspirou tristemente. "Foi tudo o que me restou. Esses pequenos devoram tudo como se fossem filhotes de urso."

Utilizando sua magia, uma labareda emergiu do chão, iluminando toda a área ao redor.

Se aproximando do fogo, ele desatou a corda que vedava o odre, consumindo o conteúdo em segundos.

Ela lhe retribuiu com um sorriso satisfeito, seus olhos brilhando de aprovação.

As garras afiadas trabalhavam sobre a coxa, cortando os bifes com a precisão de uma navalha. Apesar do sangue que sujava tudo, a boca do jovem não parava de salivar. Limpando as mãos ensanguentadas nas próprias vestes, ela levou as fatias até o fogo.

Como se ele não estivesse ali, ela se despediu sem cerimônias, deslizando o manto de seus ombros e deixando-o cair ao chão antes de desabar no ninho. Seus cabelos se soltaram, caindo como uma cascata escura ao redor de seu rosto, e, com um movimento fluido, ela se enroscou em uma bola de pelos. Suas caudas, macias e volumosas, se entrelaçaram ao seu redor, formando um casulo aconchegante, isolando-a do mundo. "Estou exausta... o resto é com você", murmurou, os olhos se fechando lentamente. "Não deixe a carne queimar. Boa noite."

Havia muitas coisas que o incomodavam, e a quantidade de comida era uma delas.

"Ei, não vou conseguir comer tudo isso sozinho!"

Ela realmente havia exagerado. Acostumada a alimentar feras, não fazia ideia do apetite humano — para ela, aquilo era apenas uma porção modesta.

Sua pergunta permaneceu sem resposta. "Você me ouviu?"

Ela já havia adormecido.

"Droga", murmurou para si mesmo.

Satisfeito, ele enterrou o restante do cervo na neve e apagou a fogueira. Lenha seca era rara no inverno, e ela não havia se preparado — raposas da sua espécie não precisavam de fogo.

O frio o incentivou a superar sua timidez, ele precisava se aquecer quanto antes.

Se aproximando do ninho, cuidadosamente a cutucou algumas vezes, pedindo permissão para talvez se juntar a ela.

Ela abriu um dos olhos, observando-o em silêncio. Com um suspiro longo, afastou ligeiramente suas caudas, criando espaço ao seu lado. Sem dizer nada, apenas esperou.

"Tem certeza? Não quero te incomodar..." Sua voz vacilou, refletindo o frio e a ansiedade que o faziam tremer dos pés à cabeça.

Ela revirou os olhos, sem paciência, e o puxou para perto, envolvendo-o com suas caudas. "Seu bobo, não vejo você da forma que imagina." Seus braços também o embalaram. "Como já disse, para mim, você é apenas um filhote crescido. Nada além disso."

Sinceramente, ele se decepcionou. Mas, conforme seu fardo se desfazia no calor do afeto dela, percebeu que talvez ainda houvesse esperança para ele. Pela primeira vez em meses, ele se permitiu simplesmente existir, sem culpa, sem dor — apenas envolto na segurança daquela presença acolhedora.

Ele a interrompeu novamente. "Realmente acha que alguém como eu pode ser salvo?" Sua pergunta era simples, mas carregada de desespero.

Ela suspirou, as caudas se movendo lentamente. "Salvação não é um destino, Yishfar, é um caminho." Ela pousou uma das mãos sobre o peito dele, sentindo a batida fraca, mas persistente. "Se você ainda se pergunta isso, então já começou a trilhar esse caminho."

Ao fazê-lo relaxar seus músculos tensos, ela finalmente obteve a resposta que tanto desejava. "O passado não pode ser desfeito, mas o futuro ainda pertence a você."

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O crepitar da fogueira e o aroma inebriante da fumaça o despertaram. Com o corpo ainda se recuperando, ele se mexeu lentamente e lançou um olhar rápido ao redor, em busca de uma certa presença — mas ela não estava em lugar algum.

Próximo ao fogo, uma tigela repousava sobre as brasas, derretendo a neve até a transformar em água. Sobre um velho tronco de pinheiro, carne assada, leite e mel haviam sido deixados à sua disposição. O cesto de lenha, agora cheio, indicava que ela havia acordado cedo.

O simples fato de saber que alguém se importava com ele foi suficiente para aquecer seu rosto. Um calor inesperado, quase esquecido, espalhou-se por seu peito, confundindo-se com a angústia que carregava há tanto tempo.

Apesar de saber que ela retornaria, seu coração se apertou. A incerteza o corroía, trazendo um temor irracional à superfície.

Suas pernas estavam firmes — já podia caminhar. Levantando-se com cautela, ele alongou o corpo como fazia em seus dias de treinamento. A tensão cedeu levemente e, com um longo suspiro, sentiu seus pulmões finalmente se expandirem sem dor.

Na mão direita, carne assada, e na esquerda, um favo de mel — uma combinação e tanto. Após limpar as mãos sujas, ele se deliciou com a sobremesa. O odre, envolto em peles de iaque, deixava claro o que havia dentro dele. Apesar de nutrir dúvidas sobre a origem daquele alimento, ele preferia não arriscar ter sua teoria confirmada.

Por alguns minutos, ele permaneceu em posição de lótus, cruzando as pernas com a maestria de um monge. Fechou os olhos e concentrou-se, canalizando a energia recém-reconquistada para fazê-la fluir por sua pele. O chakra esverdeado, visível como uma aura translúcida, envolveu seu corpo, afastando o frio congelante. No entanto, sua resistência ainda era limitada — conseguiria mantê-la por apenas algumas horas antes que se dissipasse por completo.

Ele precisava sair. Por mais que o covil lhe proporcionasse abrigo e conforto, o silêncio opressivo e o ar viciado consumiam sua sanidade.

Assim que emergiu da toca, seus olhos foram atraídos pelas marcas profundas na neve — patas enormes afundavam no solo gélido, indicando uma presença recente. Mais adiante, o rastro do cervo arrastado permanecia intacto, um convite para segui-lo.

Ele tinha uma vaga noção de como seria sua verdadeira forma, uma sensação que se escondia nas sombras de sua memória. No fundo, sabia que não deveria temê-la. Mas alguma parte de si ainda tremia à ideia de encarar aquilo de frente.

Entre os pinheiros, o cheiro de sangue velho se intensificou, e não demorou para que encontrasse os restos da carcaça, espalhados como vestígios de um banquete noturno.

O que ele viu a seguir foi suficiente para fazê-lo cair de joelhos. Não por medo ou temor, mas porque o golpe da realidade o fez perceber o quão egoísta ele realmente era.

Pequenas figuras marrons e cinzas se destacavam entre as imensas caudas brancas. A dona delas não era outra senão uma imensa raposa branca, maior do que qualquer cavalo de carga. Ela repousava sob a proteção de uma cavidade rochosa, cercada por pinheiros. Aninhados em sua barriga, os lobinhos disputavam o alimento com a ferocidade de verdadeiras feras. Ao lado, a carcaça do cervo estava roída até os ossos, um lembrete cruel da vida difícil das montanhas, onde a sobrevivência era uma luta constante.

Apesar da distância entre eles, aqueles olhos de safira o hipnotizavam, irradiando uma aura azulada que se espalhava por sua face imponente. Sua respiração se condensava em densas nuvens de vapor, dissipando-se no ar gelado e acentuando sua presença majestosa. As orelhas triangulares estavam erguidas, apontadas diretamente para ele, avaliando cada um de seus movimentos. Se ela fechasse os olhos, ela se tornaria uma com a neve.

Ele não sabia quanto tempo havia se passado; seus joelhos estavam dormentes, seus dedos queimavam pelo frio e sua respiração era lenta. "Desculpe, não queria atrapalhar. Eu... vou voltar para a caverna", murmurou, a voz embargada.

De volta ao abrigo, ele se enfiou entre as folhas e os pelos, implorando silenciosamente que ela demorasse a retornar – ele não sabia como encará-la depois daquilo. A cena onírica permaneceu gravada em suas retinas, como um calor ardente que se recusava a ir embora.

Algo nela conseguiu restaurar o fluxo de seu chakra, dissolvendo bloqueios que ele acreditava serem permanentes. Após tudo o que enfrentou em batalha, jamais imaginou que voltaria a sentir sua energia circular livremente — como se a própria essência dela desafiasse as cicatrizes de seu passado.

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Era meio-dia, e uma brisa suave soprava pela floresta. Os pássaros estavam em silêncio, nenhum animal se movia, e o único som audível era o ranger dos pinheiros e o farfalhar das folhas.

Seu coração disparou. Algo estava errado — ela não conseguia sentir a presença dele em lugar algum.

Ao voltar para a toca, revirou o ninho em busca de Yishfar, mas ele não estava mais lá. O cheiro dele ainda impregnava o local, recente, mas esfriando. Seu estômago se revirou — havia apenas um único lugar onde ele poderia estar. E ela jamais queria ter que retornar para lá.

O penhasco oferecia uma vista privilegiada do Placídio. A capital de Navori se estendia abaixo, um mosaico vibrante de árvores e formações rochosas que, daquela altura, pareciam desafiar a própria realidade. No horizonte distante, o mar permanecia inabalável, eterno em sua vastidão.

Para o alívio dela, ele ainda estava lá.

Sentado sobre uma rocha, sua túnica cobria apenas as pernas, deixando seu tronco completamente exposto ao clima hostil. O poder que ela havia visto e sentido em sua mente estava ali, manifestando-se numa fraca aura esverdeada que o envolvia, fazendo pequenos galhos e folhas levitarem ao seu redor — ele meditava profundamente.

Sua forma humana não oferecia a mesma resistência ao frio que ele demonstrava. O gelo mordia a pele de seus pés descalços, uma dor lancinante que se intensificava a cada segundo. Sem outra escolha, seu corpo cedeu ao instinto, forçando-a a revelar sua verdadeira forma.

Ela pressionou seu enorme focinho contra suas costas, mas não obteve resposta. Suas caudas se agitaram, e as patas dianteiras sapatearam contra a neve — ela odiava ser contrariada.

Ele abriu os olhos e, ao se virar, lá estava ela, encarando-o com um olhar insatisfeito. Ao seu lado, seu manto de lã repousava, cuidadosamente dobrado sobre a neve.

"Me diga..." A voz saiu arrastada, pesada. "Mesmo depois de ter visto a podridão da minha mente, como ainda consegue vir atrás de mim? Sabe que não mereço isso... não mereço seu cuidado, sua presença, nada."

Relutantemente, ela se aproximou dele, mesmo que o abismo à sua frente congelasse suas costas. Sentada sobre as patas traseiras, suas orelhas captavam os longínquos murmúrios que ecoavam do centro da capital. Sons dispersos de vida, fracos e distantes, como ecos de um passado que não deveria mais existir. Se não fosse por ele, aquele lugar estaria em completo silêncio.

"Os rios não bebem sua própria água, as árvores não se alimentam dos frutos que produzem, o sol não brilha para si mesmo e as flores não espalham sua fragrância só para o vento. Viver para os outros é a lei da natureza. Todos nós nascemos para ajudar uns aos outros, mesmo que o caminho seja árduo... A vida é boa quando encontramos a felicidade dentro de nós, mas ela se torna infinitamente mais significativa quando nossa existência traz alegria aos outros." Sua voz reverberava tão forte quanto o vento.

Ele escutou em silêncio, permitindo que as palavras dela se infiltrassem em sua mente como gotas d'água caindo sobre uma pedra já desgastada pelo tempo. Lentamente, os tijolos que compunham as muralhas endurecidas de seu coração começaram a se desfazer, um a um, desmoronando sob o peso de sua presença.

"Senti você vasculhando minhas memórias naquela noite. Sei que viu os rostos de meus pais... Consegue se lembrar deles? Como eram?"

"Você era amado, Yishfar. Posso te garantir isso. Seus pais jamais teriam te abandonado. Foi o próprio monastério quem os afastou de você."

Ele cerrou seu punho esquerdo, que permanecia fora da visão dela.

"Malditos, eles arruinaram a minha vida. Passei minha infância inteira preso naquele templo, treinando, nunca pude sair. Meus colegas sempre me olhavam com desprezo, como se eu não fosse digno de estar ali. Mas eles pagaram. Ah, sim, eles pagaram. Todos eles." Sua voz tremia de raiva, cada palavra carregada de amargura.

"Não condene seus mestres tão rapidamente. Sem a proteção do monastério, você provavelmente teria sido raptado ou morto pelo inimigo. Era apenas uma questão de tempo até que seu poder fosse descoberto."

Ela ergueu as orelhas instantaneamente, captando passos leves que se aproximavam pela floresta.

"É exatamente isso que não entendo: essa maldição que você chama de poder. Eu gostaria de poder arrancá-la de dentro de mim, isso só me trouxe dor e sofrimento. Quando me entreguei a ela... bem, você sabe o que aconteceu."

"Conhecendo você, já sei que não importa o que eu diga; sua teimosia está presa ao passado. Só se libertará dessas correntes quando se perdoar. Não posso fazer nada a respeito disso, mas posso te ensinar a usar o seu poder."

O vento, soprando a seu favor, trouxe o cheiro inconfundível que ela aguardava. Entre o aborrecimento e a satisfação, deixou escapar um uivo curto e agudo, que ecoou pela floresta.

Ele seguiu o olhar dela para os pinheiros. "O que foi isso? Tem alguém lá?—

"Shh! Vista o meu manto, depressa!" A urgência em sua voz contrastava com a vulnerabilidade em seu olhar. Por um breve instante, a imponente raposa que sempre parecia no controle agora parecia... indefesa.

"Como assim?"

Ela o empurrou com a pata e ordenou, irritada: "Vai, seu bobo, faz o que estou mandando! Se eles sentirem seu cheiro, não vão se aproximar!"

Ele lançou o manto sobre as costas e se afastou. Seu coração pulsava acelerado, ele não fazia a menor ideia do que estava acontecendo. Por reflexo, sua mão direita se estendeu, tentando agarrar o punho de um sabre invisível.

Ele aprendeu cedo que as caudas revelavam suas verdadeiras emoções. Agora, elas abanavam como um cachorrinho feliz, enquanto ela soltava pequenos gritos agudos que lembravam risadas. O comportamento era, no mínimo, curioso.

Expirando aliviado, ele mal podia acreditar na cena que se desenrolava diante de seus olhos. "É sério isso?"

"SHHH! Mandei ficar quieto!" Era impossível não estremecer diante do tamanho da mandíbula. Se quisesse, poderia engoli-lo inteiro com uma única mordida.

Eles eram pequenos demais para serem chamados de "alcateia". Os dois primeiros, que lideravam a fila, ostentavam um pelo cinzento, enquanto os que vinham atrás exibiam tons de marrom. No total, eram cinco. Assim que deixaram a sombra protetora dos pinheiros, atravessaram a área aberta em disparada, desaparecendo sob ela no instante seguinte.

Ela deitou com naturalidade, apoiando a cabeça sobre as patas dianteiras. Ao exalar, uma densa nuvem de vapor se dissipou no ar frio — como se tudo aquilo já fizesse parte de sua rotina. "Está tudo bem agora. Pode sair se quiser..."

Emergindo de trás de um tronco, seu rosto avermelhado fazia uma terrível oposição ao branco da neve. "Quer que eu deixe vocês sozinhos?"

"Hahaha, tolo! Isso te incomoda?" Ela ergueu uma de suas caudas, revelando os pequenos corpos aninhados sob seu calor. Os filhotes se encolheram, frágeis e inocentes, mal percebendo o mundo ao seu redor.

A visão o fascinou. Seus olhos, arregalados em espanto, brilhavam com uma clareza surpreendente, tão intensa quanto o constrangimento irracional que o dominava. "Vistos assim, nem parecem tão perigosos..."

"É porque ainda não viu os dentes deles. São dolorosamente afiados", murmurou com um toque de diversão. "Vai em frente, sei que está morrendo de vontade de tocá-los. Apenas evite a cabeça, e eles não terão motivo para morder você."

Apreensivo, ele se aproximou, os olhos fixos nela, como se suplicassem por sua permissão.

Suas caudas, macias como algodões, pareciam se desfazer entre seus dedos, irradiando um calor reconfortante — mais intenso do que em sua forma humana.

Ao afastar a volumosa pelagem branca, foi recebido por pequenos corpos de tons acinzentados e marrons. Distraídos, não ofereceram resistência quando sua mão encontrou um deles. Escolheu um filhote de pelagem cinza clara, notavelmente mais pesado que os demais. Apesar de ser um filhote, seus músculos bem desenvolvidos contrastavam com a fragilidade de seus irmãos. A sensação era indescritível, como se ele estivesse tocando o próprio espírito da floresta.

"Ah, claro que escolheria justo esse aí", ela zombou, exibindo um sorriso afiado.

Yishfar não resistiu e deslizou a mão sobre a cabeça do filhote, sentindo a textura macia de sua pelagem. "Há algo de errado com ele?"

"Não... apenas é o único macho da ninhada. Teimoso e impulsivo." Ela suspirou, lançando um olhar exasperado. "Tenho certeza de que foi ideia dele me seguir até aqui. Assim como você, só me dá dores de cabeça."

Sua fisionomia antes melancólica, se transformou em uma alegria que a tempos ele não sentia. O passado poderia esperar. "Então está dizendo que tenho espírito de líder?"

Ahri soltou um suspiro teatral, balançando as orelhas. "Estou dizendo que você é um incômodo. Assim como ele."

O filhote, alheio à conversa, se aconchegou contra a mão de Yishfar, emitindo um som baixo e satisfeito. Yishfar riu baixinho. "Bom, se isso significa que sou persistente, vou levar como elogio."

Ela revirou os olhos, mas o brilho em seu olhar traía qualquer tentativa de irritação. "Persistência e teimosia são coisas diferentes, monge. Mas suponho que, de vez em quando, elas possam se misturar."

Ele deslizou os dedos entre os pelos do pequeno lobo, pensativo. "E você? Se irrita porque sou teimoso ou porque ainda não fui embora?"

Ela estreitou os olhos para ele, fingindo indignação. "Quem disse que eu me irrito?"

"Suas caudas e orelhas te entregam." Ele apontou, divertido, observando as pontas das orelhas se agitarem levemente.

Ela bufou, virando o rosto. "Você fala demais."

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Era o início de um novo dia, e o céu nublado impedia que os primeiros raios de sol penetrassem a densa floresta. Yishfar despertou com um sobressalto, fazendo a raposa, que dormia tranquilamente sobre suas costas, se remexer sonolenta.

Ele lutava contra a tentação de se virar para ela, temendo sua reação. No fundo, começava a suspeitar que ela fazia isso de propósito, provocando-o sutilmente para testar seus limites. Mas a verdade era que suas costas estavam grudentas, e a fome o corroía por dentro. Seu coração acelerou ao considerar a ideia — ceder aos próprios impulsos.

"Tudo bem? Parece agitado", disse ela preguiçosamente, levando a mão até o estômago dele. Seu toque era leve, mas carregava um peso que ele não sabia explicar. Ela era perspicaz demais para que ele pudesse esconder suas emoções. "Teve um pesadelo?"

Yishfar nunca foi acostumado com contato físico. O calor da palma dela contra sua pele era inquietante, mas o que realmente o desarmava eram as garras arranhando suavemente seu abdômen. Como se cada traço desenhasse um caminho direto para as sombras de sua mente, trazendo à tona sentimentos que ele tentou enterrar por toda a vida.

"Preciso sair... clarear a mente." Sua voz saiu baixa, quase um sussurro. "Está tudo uma bagunça e não consigo pensar em nada com clareza."

Com um cuidado quase reverente, ele tomou a mão dela entre os dedos e a afastou de seu estômago. O calor ficou para trás, mas a ausência foi sentida como uma ferida aberta.

Ela não era do tipo que desistia facilmente. Soltando um resmungo preguiçoso, afundou o rosto contra suas costas, recusando-se a deixá-lo ir. Suas caudas se enroscaram em torno de suas pernas como serpentes, enquanto seus braços o seguravam pela cintura, selando-o ali como uma predadora agarrando sua presa.

"Não desvie do assunto. Sei exatamente o que você quer." Sua voz era um sussurro sedutor, carregado de diversão. "Diferente da sua boca, sua barriga não mente para mim… Pode se virar, não vou te impedir."

Yishfar enrijeceu instantaneamente, o calor subindo pelo pescoço. Ele se debateu, tentando se soltar do aperto dela. "Está brincando comigo? Nem pensar! Não vou fazer isso!"

A resposta apenas fez com que ela risse. Seu peito subia e descia com a gargalhada, até que precisou apertar o abdômen, ofegante. "Hahaha! Como você se entrega fácil." Seu riso diminuiu, mas o tom zombeteiro permaneceu. "Não acha que já está grandinho demais para fazer isso ainda?"

Ele bufou, o aborrecimento evidente em sua voz. "Você é injusta. Está fazendo isso só para me provocar." Apertando levemente a mão dela, ele se virou, finalmente cedendo ao desejo de encará-la. "Mas, falando sério... estou com fome."

Os olhos dela tentavam se encontrar com os dele, mas ele já estava absorto em outras distrações.

"Está com fome, é?" Ela sorriu de maneira travessa, como se tivesse um plano em mente. "Acho que isso é uma desculpa muito conveniente."

Sua estratégia em provocá-lo desmoronou tão rápido quanto surgiu. Ela não esperava por aquilo. Por um breve instante, suas palavras sumiram e seu olhar oscilou entre a surpresa e a incerteza, como se, pela primeira vez, não soubesse como reagir. "Ei! O que pensa que está fazendo?!"

Com grande esforço, ele conseguiu manter a voz firme, sem deixar que qualquer hesitação transparecesse. "Por que ficou tão séria de repente? Afinal, não foi você que me chamou de filhote?"

"Não, Yishfar! Espere!"

"..."

Ela não tentou impedi-lo.

Deixando escapar um gemido abafado, suas garras se cravaram em seu ombro, enquanto sua mão esquerda o puxava para ainda mais perto, como se temesse que ele escapasse.

A sensação inebriante dissipou por completo a ardência em sua pele, substituindo-a por uma paz que nem a mais profunda meditação poderia oferecer. Seu corpo cedeu ao calor envolvente, e, sem hesitar, ele retribuiu o abraço, apertando-a contra si. A sonolência começou a dominá-lo, como se o próprio tempo desacelerasse ao redor deles.

Lentamente, suas garras começaram a se soltar de sua carne, como se relutassem em deixá-lo ir. A tentação de deslizar os dedos por seus cabelos a consumia, mas algo mais forte a impedia. Ela conhecia bem a barreira invisível que os separava — ele, um jovem mortal, efêmero como o vento, e ela, um espírito eterno, jamais poderiam desafiar o poder do tempo.

"Sua coragem é admirável." As garras dela roçaram suavemente contra a garganta dele, um toque ao mesmo tempo gentil e ameaçador. "Qualquer outro já teria perecido há muito tempo."

Ele não respondeu. Apenas fechou os olhos, deixando-se levar pelo momento.

"Gostaria que seus mestres vissem isso." Ela inclinou a cabeça, estudando-o com um misto de curiosidade e diversão. "Tem certeza de que foi o mesmo 'homem' que comandou um pelotão inteiro?"

A manhã passou num piscar de olhos, mas ela sabia que não podia ignorar suas obrigações por muito mais tempo. Seus outros filhotes a esperavam. Ainda assim, ao sentir o peso de Yishfar adormecido em seu peito, tão vulnerável e entregue, hesitou. Seu instinto dizia para se afastar, mas, por um breve instante, permitiu-se esquecer de tudo.

Ela passou os dedos levemente pelos cabelos dele, sentindo a respiração tranquila contra sua pele. Um suspiro escapou de seus lábios, carregado de algo que ela não queria nomear. Então, num sussurro quase inaudível, deixou escapar: "Tolo... só está tornando tudo ainda mais difícil para mim."

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Por razões que não conseguia explicar, ele dormiu até o entardecer. Como se estivesse em uma boa estalagem, encontrou a comida já pronta, esperando por ele. Espreguiçando-se, saiu da toca e, sem hesitar, foi procurá-la. Fazia tempo que não via um céu tão límpido — um azul profundo que cedia espaço à lua cheia, subindo majestosamente no horizonte.

Ao passar pelo covil dos lobos, percebeu sua ausência. Sua intuição o guiou para a clareira próxima ao penhasco — um lugar carregado de significados. Foi ali que ela o salvou, impedindo-o de se entregar ao vazio.

A caminhada foi longa, pouco mais de uma hora, mas, quando se aproximou do local, um canto doce cortou o silêncio da noite. Sua voz era suave, fluindo como um riacho cristalino, entoando uma antiga canção local, em um idioma que ele não ouvia há muito tempo.

Sob a luz prateada do luar, ela estava ali, em sua forma humana, cercada pelos filhotes. Alguns corriam ao seu redor, brincando animadamente, enquanto outros se aninhavam em seu colo, desfrutando do calor de sua presença. Com o olhar voltado para o céu, seus lábios moldavam versos há muito esquecidos pelo tempo.

Ela parecia etérea, quase intocável — como se a própria lua tivesse descido à terra para tomar forma. Ele se aproximou, atento a cada detalhe, sem perceber que suas orelhas aguçadas já haviam notado sua presença. Os filhotes, absortos na brincadeira, não notaram sua chegada, como se sua presença ali fosse tão natural quanto a da própria mãe.

Yishfar não conseguia esconder a euforia diante da cena; ele vivera a vida inteira esperando por momentos como aquele. No entanto, ao se sentar ao lado dela, algo o inquietou. Havia uma sombra em seu olhar, como se palavras não ditas pesassem em sua garganta. Sua expressão se transformou de imediato, como se uma onda de água fria tivesse apagado o fogo que ardia em seu peito.

"Yishfar, precisamos conversar... quero que seja honesto comigo." A voz dela soava suave, mas havia um peso oculto em suas palavras. Com dedos cuidadosos, acariciava o filhote marrom aninhado em seu colo, evitando encontrar os olhos dele. "Por que acha que minha espécie vive isolada nas florestas?"

Ele franziu a testa, a dúvida e o remorso se misturando em seu olhar, como se temesse ter feito algo errado. "Conheço pouco sobre raposas. O que sei vem de lendas e histórias." O filhote cinza, o mesmo que ele havia tocado no dia anterior, se aproximou, farejando sua mão com curiosidade. "Mas depois de conhecer você, aprendi que muitas delas são mentiras."

Ela suspirou, fechando os olhos por um instante, antes de finalmente encará-lo. "Não. O que você chama de mentira, certamente é verdade."

Acariciar o filhote já não parecia distraí-la. Seus dedos pararam e seu olhar encontrou o dele — um olhar que implorava silenciosamente para que ela não continuasse.

"Daqui a algumas semanas, eles irão embora. Meu corpo voltará ao normal… e quando isso acontecer, não sei se conseguirei resistir à sua energia." A voz dela tremeu levemente. "Ela está ficando mais forte a cada dia. Corro o risco de perder o controle e atacar você."

O silêncio entre eles se estendeu, denso como a névoa que contornava os pinheiros. O filhote cinza, alheio ao peso da conversa, aninhou-se ao lado de Yishfar, mas ele mal percebeu. Seus olhos estavam presos aos dela, tentando decifrar algo além das palavras.

"Você está dizendo..." Ele umedeceu os lábios, a hesitação nublando sua voz. "Que, no final, vai me matar como nas histórias?"

O coração dela apertou. "Estou dizendo que não posso garantir que não o farei."

Yishfar desviou o olhar para o céu, como se buscasse respostas nas estrelas. Seu peito subia e descia em um ritmo irregular, e então ele soltou uma risada baixa — não de humor, mas de algo que beirava a desesperança. "Engraçado. Acho que já aceitei isso há muito tempo."

Ela piscou, surpresa. "Aceitar o quê?"

Ele finalmente se virou para ela, sua expressão uma mistura de calma resignada e algo profundamente devoto. "Se for por suas mãos... não me importo."

O ar pareceu sumir dos pulmões dela. "Não diga isso."

"Mas é a verdade." Yishfar passou uma mão pelos cabelos, como se tentasse ordenar seus próprios pensamentos. "Eu sei que pode me matar. Sei que talvez não consiga se controlar. Mas o que isso muda?" Ele deu um riso seco. "Você não entende? Não tenho para onde voltar. Meu passado é só um rastro de sangue e poeira. Meu futuro?" Ele balançou a cabeça. "Seja o que for que me resta, ele está aqui. Com você."

Ela sentiu algo se contorcer dentro dela — uma dor que não deveria ser sua, mas que se entrelaçava a ela como raízes impossíveis de arrancar. "Você é um tolo." Sua voz era um sussurro. "Depois de tudo o que fiz por você... realmente acha que eu suportaria te perder?"

Ele não respondeu de imediato. Apenas a observou, como se tentasse gravar cada detalhe dela em sua memória. Então, suavemente, falou: "Acho que não quer que eu morra, mas também não quer que eu vá embora."

Ahri estremeceu. Ele estava certo.

"Agora, é sua vez de ser honesta comigo." A voz dele era quase uma súplica. "Diga-me, de verdade... quer que eu fique ou que eu vá embora?"

Ela abriu a boca, mas as palavras não saíram. Porque admitir a verdade significaria assumir que já havia ido longe demais.

Seus olhos deslizaram até os filhotes adormecidos, completamente inconscientes da tempestade invisível entre os dois. Ahri sentiu vontade de chorar — mas espíritos como ela não choravam. "Quero que viva." Ela finalmente disse, sua voz quebradiça. "E se ficar, não sei se poderei lhe dar isso."

Ele suspirou, passando a mão pelo rosto, frustrado. "Então me mande embora. Diga que não me quer aqui, e eu irei."

Ela abriu a boca para falar, mas as palavras ficaram presas em sua garganta.

O silêncio que seguiu foi sua resposta.

Yishfar sorriu tristemente. "Foi o que pensei."

Ahri fechou os olhos, tentando afastar o aperto sufocante em seu peito. Ele era um tolo. E o pior de tudo, é que ela também era.

Antes que ele pudesse se levantar, ela agarrou seu pulso, segurando-o com firmeza o suficiente para impedi-lo de partir. "Espere..."

Ele parou, o coração martelando no peito. Havia uma centelha no olhar dela — não de frieza, mas de hesitação.

"Sua estupidez ainda vai te matar um dia, e eu não pretendo carregar essa culpa." Sua voz era dura, mas o aperto em seu pulso era suave, quase relutante.

O vento soprou entre as árvores, trazendo consigo o farfalhar das folhas e o cheiro fresco da noite. Os filhotes, sentindo a mudança fria da atmosfera, se aconchegaram entre eles.

Ela respirou fundo antes de continuar, mantendo o olhar fixo no dele. "Se me jurar que irá embora quando eles desmamarem... então permitirei que fique."

Um sorriso teimoso brincava em seus lábios, impossível de conter. "Sabe tão bem quanto eu que esse juramento não será cumprido."

Continua...

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N/A: A canção que Ahri cantou sob o luar: Jonna Jinton – The Wolf Song