Milo POV ON

Na manhã seguinte, antes mesmo de o sol nascer por completo, me encontrei de pé no salão de lutas do Templo de Escorpião, com o olhar perdido na linha do horizonte. A vastidão do céu começava a se tingir com o brilho suave do amanhecer, um espetáculo que misturava tons de dourado e laranja. Aquela luz serena espalhava sombras delicadas pelo templo, como se todo o mundo ao meu redor ainda estivesse desperto, em paz.

Eu sabia que esse momento de tranquilidade era passageiro, que logo a missão que nos aguardava cairia sobre nós. E, enquanto observava o céu, um pensamento insistente se tornou inevitável. Esta não era uma missão qualquer. Mais uma vez, parecia que o destino estava nos empurrando para uma batalha maior, um conflito que talvez fosse além de qualquer entendimento. Mesmo depois de termos enfrentado deuses e sacrifícios inimagináveis, aqui estávamos novamente, confrontando uma nova ameaça — criminosos que, de algum modo, também utilizavam o cosmo.

A ironia disso tudo não me passava despercebida. Havia sido um longo caminho até aqui, cada batalha lutada, cada sacrifício feito no Muro das Lamentações. Morrermos ali, por Athena, pela paz, deveria ter sido nosso fim, nosso último ato de devoção. Mas agora estávamos diante de uma ameaça diferente, não de deuses, mas de homens, de criminosos. E, ainda assim, a presença do cosmo nesses inimigos comuns tornava tudo mais obscuro, mais inquietante.

"Criminosos... usando cosmo", pensei, um riso incrédulo escapando dos lábios. Talvez eu desejasse descanso, uma trégua verdadeira, mas o destino parecia sempre sussurrar a mesma verdade: a paz nunca viria realmente para nós. Não enquanto houvesse algo a proteger.

A nova missão trazia uma responsabilidade pesada, mas eu sabia que não enfrentaria tudo sozinho. Luisa estaria ao meu lado. Mesmo sem termos falado muito sobre isso, havia uma sensação de confiança entre nós. Ela era uma guerreira hábil, alguém em quem eu sabia que podia confiar. Mas, mesmo sabendo disso, a ideia de nos passarmos por um casal trazia uma estranha inquietação, uma aproximação que parecia ultrapassar a linha do dever.

Ao observar o horizonte que se iluminava cada vez mais, outro pensamento, um que vinha e voltava nos últimos tempos, tomou conta de minha mente. Desde que Athena revogou as antigas leis, algo mudou em nosso mundo. Uma nova liberdade passou a permear o Santuário. Finalmente, poderíamos ver o rosto das amazonas, descobrir o lado humano por trás das guerreiras. Shina e Marin não hesitaram em abandonar as máscaras, revelando uma parte de si mesmas que, até então, parecia reservada ao desconhecido. Mas Luisa... ela continuava a usá-la. Por quê?

Sempre considerei as máscaras um símbolo de opressão, uma tradição que forçava as mulheres a esconderem sua identidade, como se precisassem comprovar seu valor por trás de um véu. Acreditei que, uma vez livres dessa obrigação, todas escolheriam abandonar esse símbolo de submissão. No entanto, Luisa persistia. Isso significava que eu estava errado? Que a máscara tinha um significado que eu nunca compreendi completamente?

Lembrei-me das palavras dela, quando disse que a revogação da lei trouxera alívio. Uma afirmação que parecia contradizer sua escolha de continuar usando a máscara. Se aquilo a aliviava, por que se manter presa a ela? Será que existia um fardo que ela ainda carregava, algo que não conseguia — ou não queria — deixar para trás?

Outro fragmento da conversa, mais sombrio, também voltou à minha memória. Quando Luisa mencionou minha morte e a dos outros Cavaleiros de Ouro no Muro das Lamentações. Suas palavras foram ditas de forma generalizada, mas algo em seu tom, no modo como ela pronunciou, me fez sentir que falava diretamente para mim. Eu disfarcei na hora, evitando explorar esse tema, mas agora essa lembrança permanecia.

Por que essa questão parecia pessoal para ela? O que Luisa guardava tão profundamente em seu coração?

Luisa sempre foi um mistério para mim. Desde que chegou ao Santuário, manteve-se distante, quase fria, com uma reserva emocional que a fazia parecer impenetrável. Como se a máscara fosse mais do que um item físico, mas uma barreira que ela mesma construíra. Mas, por trás dessa fachada imutável, eu sabia que havia mais, algo escondido que poucos conseguiam ver.

Porém, houve momentos em que percebi um vislumbre de um lado diferente dela. Algumas vezes, ao cruzar o Templo de Touro, eu ouvi Luisa conversando com Aldebaran. Não entendia o que diziam — o português é uma língua desconhecida para mim —, mas o tom, a leveza do riso, a naturalidade... eram diferentes. Era como se, ao lado dele, Luisa pudesse ser ela mesma, sem filtros. A amizade entre eles parecia profunda, e isso me fez pensar se havia, ali, um sentimento que o tempo ou as leis antigas haviam suprimido.

A conexão entre os dois era óbvia, uma intimidade que transcendia as convenções do Santuário. E, ainda assim, eu me perguntava: seria apenas amizade? Ou havia algo mais, algo que, por causa das responsabilidades e das leis, nunca teve a chance de se desenvolver?

Enquanto pensava nisso, percebi que seria bom conversar com Aldebaran sobre a missão. Ele se tornara um grande amigo, e não queria que houvesse qualquer mal-entendido entre nós.

A essa altura, o amanhecer já havia cedido lugar à luz do dia. O céu, antes pintado pelos tons suaves do alvorecer, agora resplandecia em azul, iluminando o Templo de Escorpião e cada pedra ao redor com um brilho claro e forte. A serenidade do amanhecer havia dado espaço a uma nova energia, e eu sabia que estava na hora de me preparar. As reflexões que haviam me acompanhado até ali pareciam se dispersar como névoa ao sol, pois em breve teria que ir até o Décimo Terceiro Templo.

Coloquei minha armadura dourada que carregava o peso e a honra do meu dever. O som do metal se ajustando em mim trouxe a familiaridade da rotina, um lembrete do caminho que, vez após vez, eu escolhia trilhar. Cada peça reluzia sob a luz matinal, como se estivesse pronta para enfrentar qualquer ameaça, qualquer responsabilidade que a missão exigisse.

O encontro com os chefes de polícia, marcado no dia anterior, seria no Templo de Athena. Porém, antes, esperaria Luisa aqui em meu próprio Templo, como havíamos combinado. A presença dela, além de necessária, parecia trazer uma certeza de que ambos estávamos preparados para o que quer que estivesse por vir.

Com a armadura ajustada e o cosmo repousando em mim, eu me postei diante da entrada do Templo, observando o caminho que conduzia às outras casas zodiacais. O silêncio ainda dominava o Santuário, um raro momento de quietude que em breve se dissolveria na movimentação do dia. Me perguntei se Luisa também estaria imersa em seus próprios pensamentos, lidando com o peso da responsabilidade que estávamos prestes a assumir.

Quando o sol já estava alto no céu, senti o cosmo de Luisa se aproximando. Era suave e determinado, como sempre, mas agora havia algo a mais — um toque sutil de ansiedade que parecia misturar-se à sua presença.

Aquela leve hesitação, quase imperceptível, me fez refletir. Luisa sempre fora uma figura sólida, de gestos firmes e palavras contidas, então sentir um fio de inquietude em sua aproximação era algo incomum.

A luz do sol atravessava o salão, criando sombras e lançando uma calma dourada ao redor, como se o próprio lugar estivesse à espera dela. Encostei-me em uma das colunas, meus olhos fixos na entrada. Estava pronto para receber a parceira que o destino havia colocado ao meu lado para essa missão.

Quando Luisa surgiu após a Casa de Libra, envolta pelos primeiros raios de sol que atravessavam o horizonte, meu olhar ficou preso nela, incapaz de desviar. Cada detalhe de sua chegada parecia orquestrado para capturar minha atenção. A luz banhava sua armadura de Apus, tornando-a reluzente, quase etérea, como se o próprio sol a exaltasse em um brilho prateado. Ela vinha na minha direção com uma firmeza suave e inconfundível, um contraste que sempre admirei em sua postura.

Então, em um instante que me atingiu como um impacto súbito, percebi que ela estava sem a máscara.

Meu corpo se enrijeceu, e o mundo pareceu silenciar ao meu redor. Eu senti uma onda de expectativa, um anseio que nunca havia admitido a mim mesmo, mas que agora tomava forma diante de meus olhos. Luisa sem a máscara — era como se finalmente eu estivesse prestes a descobrir um segredo cuidadosamente guardado, um lado dela que ela nunca mostrara a ninguém. Cada passo dela diminuía a distância entre nós, trazendo consigo uma intensidade que eu não podia controlar.

Quando Luisa parou em frente a mim, nossos olhares se cruzaram, e tudo que eu conseguia fazer era encará-la. Eu sentia que não estava preparado para o que via. Meu rosto, geralmente controlado e impassível, cedeu à surpresa que agora se estampava em minha expressão. Meu olhar, antes fixo de forma discreta, começou a percorrer cada traço de seu rosto. Era uma descoberta em cada detalhe, uma beleza que não dependia de nenhum ornamento ou mistério, mas que era forte em sua própria autenticidade.

Ao me deter nos olhos de Luisa, um novo turbilhão de sensações me atingiu. Seus olhos azuis-claros eram de uma profundidade quase impenetrável, e uma metáfora surgiu em minha mente — como um oceano. Um oceano vasto e enigmático, com águas calmas que escondiam mistérios desconhecidos. Um oceano que podia ser deslumbrante e avassalador ao mesmo tempo, como se, ao olhá-los, eu fosse tragado por uma força invisível. Eu mal podia respirar, tamanha a intensidade daquele momento.

Percebi, então, que talvez estivesse sendo indelicado. Eu me deixara levar pela surpresa e pela intensidade daquele momento, absorvido na visão de seu rosto de um jeito que, agora, soava inadequado. Luisa, ainda sem dizer nada, virou o rosto para o lado, desviando o olhar. A curva de sua expressão demonstrava um desconforto sutil, um incômodo que se refletia na leveza com que ela respirava e na forma como ela parecia estar tentando se afastar daquela situação.

Uma pontada de constrangimento tomou conta de mim ao perceber o quanto havia me demorado. Eu, que costumava controlar tão bem minhas expressões e palavras, ali estava, exposto. A surpresa e o fascínio que me consumiam desde o momento em que a vi sem a máscara estavam, agora, claramente estampados em meu rosto. E, em vez de disfarçar, minha voz traiu a surpresa e a emoção.

— Me desculpe... — consegui dizer, com a voz um pouco trêmula, esforçando-me para manter a compostura.

Luisa murmurou um "tudo bem" quase inaudível, sem encarar-me diretamente. Era como se ela estivesse tentando dissipar o clima que se formara entre nós, tentando dar outro rumo à conversa antes que o silêncio se estendesse demais.

— Bom… vamos indo até o Décimo Terceiro Templo. Já está quase na hora da reunião, não é? — sugeriu ela, com uma expressão que indicava seu desejo de focar no motivo real daquela manhã.

Assenti, tentando ao máximo respeitar seu espaço e me recompor do turbilhão de sensações que ainda ressoavam em mim. Começamos a caminhar lado a lado, e o som suave dos nossos passos ecoava pelo chão de pedra do salão.

Ao nos aproximarmos do grande salão onde Athena e o Grande Mestre nos esperavam, pude sentir um leve estremecimento vindo do cosmo de Luisa ao meu lado. A sensação foi breve, mas percebi que ela respirava fundo antes de dar os últimos passos até a entrada.

Ao entrarmos, vi o olhar de surpresa de ambos ao notar a mudança de Luisa. Athena, no entanto, parecia mais do que apenas surpresa. Havia um brilho sutil de felicidade em seus olhos, um orgulho silencioso ao vê-la ali, finalmente livre daquela barreira que a máscara representava. Parecia uma aprovação silenciosa, quase como se Luisa tivesse dado um passo em direção a algo maior, uma escolha pessoal que Athena acolhia com compreensão e encorajamento.

O Grande Mestre, ao lado, manteve sua expressão neutra, mas pude notar que ele também respeitava a decisão de Luisa. Ele lançou-lhe um breve aceno, reconhecendo sua presença e sua escolha com a mesma dignidade serena que sempre demonstrava.

Athena, então, com um leve gesto, indicou a sala ao lado, onde os chefes de polícia já nos aguardavam. Ao atravessarmos a porta, senti uma mistura de orgulho e admiração, percebendo a força de Luisa ao tomar essa decisão. Meu coração ainda batia ligeiramente acelerado, uma emoção nova e intensa que eu ainda tentava entender enquanto seguíamos juntos para a reunião.

Durante a reunião, os chefes de polícia foram direto ao ponto, sem rodeios. Preferiram realizar as discussões ali, no Templo, em vez de na delegacia, pois havia o risco de espiões infiltrados. Era necessário um nível máximo de discrição para que tudo ocorresse perfeitamente. A missão tinha que ser precisa, e cada detalhe importava para que pudéssemos, enfim, desmantelar a Griffon Negro.

Eles começaram a mostrar fotos dos criminosos que estaríamos enfrentando no cruzeiro. Rostos marcados, conhecidos por atividades ilícitas ao redor do mundo. Enquanto cada uma das fotos era exposta, eles explicavam sobre os alvos potenciais: magnatas, políticos e figuras influentes, todos com ligações em negócios discretos, mas lucrativos. Eram pessoas que interessavam à organização, seja pela importância financeira, seja pelo impacto que causariam caso fossem comprometidas.

No fim da reunião, o chefe grego, me estendeu um cartão de visita. – Vocês vão precisar visitar Helena Argyros, – ele disse. – Ela é dona de uma joalheria famosa aqui na cidade e uma parceira nossa em missões como esta.

Olhei para Luisa, notando sua expressão curiosa, e Stavros continuou: – Vocês precisarão de alianças, para passarem como um casal. Helena é a pessoa certa para isso. Ela vai ajudar vocês a escolherem as joias ideais, incluindo alianças de casamento e outras peças especiais para Luisa, que vão compor o disfarce com elegância.

Assenti, compreendendo o que isso significava. A cada detalhe daquela missão, tudo parecia se tornar mais real.

Após as instruções finais e algumas despedidas formais, saímos da sala e deixamos o Décimo Terceiro Templo, caminhando em silêncio de volta pela rota até a Casa de Escorpião.

Quando finalmente chegamos à Oitava Casa, senti que era o momento certo para propor o próximo passo. Olhei para Luisa, ainda séria e reflexiva após a reunião, e perguntei: – Luisa, que tal irmos à joalheria amanhã? Assim podemos cuidar também das roupas, já deixamos essa parte do disfarce resolvida e depois focamos nos demais preparativos.

Ela me olhou, parecendo pensar por um momento, mas logo concordou com um aceno leve. – Sim, acho uma boa ideia. Quanto mais cedo resolvermos essa parte, mais tempo teremos para os outros detalhes.

Com a concordância dela, senti uma satisfação silenciosa por ver o plano tomando forma.

– Então, até amanhã, Milo – ela disse, a voz suave, mas determinada.

– Até amanhã, Luisa – respondi, permitindo que um sorriso surgisse em meu rosto. – Descansa bem. Vamos precisar de toda a energia.

Ela assentiu e começou a se afastar. Observei enquanto ela desaparecia na distância, sua silhueta brilhante na luz da manhã que agora preenchia os salões.

Fiquei mais um instante ali, ainda absorvendo as instruções, mas também a inesperada proximidade que estávamos cultivando. Depois, deixei escapar um suspiro e me voltei para o templo, já me preparando mentalmente para o dia seguinte.

x.x.x.x.x

Já estava no meio da tarde quando cheguei no Templo de Touro. Havia enviado mensagem via cosmo para Aldebaran, dizendo que precisava conversar com ele. A conversa que eu vinha planejando desde cedo agora parecia inevitável. Depois dele aceitar, aqui estou eu.

Assim que cheguei ao Templo de Touro, Aldebaran já estava à minha espera, com seu habitual sorriso aberto e aquele jeito tranquilo que sempre transmitia confiança.

– Milo! Que bom vê-lo! – Ele me cumprimentou com um aperto de mão firme e, em seguida, fez um gesto para que eu o acompanhasse até a área mais reservada de seu templo.

Caminhamos lado a lado até uma sala privativa, um local onde poderíamos conversar longe de qualquer distração. Lá, ele me ofereceu uma cadeira, e eu me acomodei. Por um momento, observei o ambiente ao redor, o estilo simples e acolhedor que Aldebaran sempre preferia. Era uma expressão clara de quem ele era: direto, sem ostentação, mas com uma presença que não podia ser ignorada.

Respirei fundo e, sem rodeios, comecei a falar. – Aldebaran, vim aqui porque quero te contar sobre a missão que eu e Luisa vamos realizar. – Fiz uma pausa, ponderando sobre as palavras antes de prosseguir. – Ela e eu vamos precisar nos infiltrar em um cruzeiro... como um casal recém-casado.

Eu esperava alguma reação de surpresa, talvez um comentário sarcástico, mas Aldebaran permaneceu em silêncio, os olhos fixos em mim, com uma expressão que misturava atenção e compreensão.

Aquela pausa entre nós foi suficiente para me fazer perceber o que realmente me trouxe até ali. Não era só o fato de precisar compartilhar sobre a missão; havia algo mais, algo que me incomodava desde que fui designado para esse disfarce ao lado de Luisa.

– Aldebaran – comecei novamente, agora com um tom mais sincero, – decidi te contar sobre isso porque... sei que você e Luisa são próximos. Não quero que essa missão, ou a forma como precisaremos agir, cause mal-entendidos entre nós.

Ele ergueu uma sobrancelha, mas seu rosto ainda mantinha aquele ar compreensivo e atencioso. A proximidade entre Aldebaran e Luisa era conhecida entre todos nós — os dois compartilhavam uma amizade genuína, algo raro de ver por aqui. Sempre foi evidente a confiança que Luisa depositava nele, e, pelo que eu via, Aldebaran também a considerava com respeito e carinho. Não pude deixar de pensar que ele talvez soubesse algo mais sobre ela, algo que eu não conseguia desvendar.

– Então é por isso que a Luisa resolveu tirar a máscara – Aldebaran murmurou, quase para si mesmo, mais uma reflexão solta no ar do que uma resposta para mim.

Ele pareceu pensativo por um momento, como se algo se encaixasse em sua mente. Depois de alguns segundos de silêncio, ele voltou-se para mim, seu olhar avaliador e ao mesmo tempo compreensivo.

– Imagino que tenha me contado isso por causa da proximidade entre eu e Luisa – disse ele, e percebi o leve sorriso no canto de seus lábios, aquele tom que só alguém de confiança usaria.

Inclinei a cabeça, retribuindo o sorriso, tentando esconder qualquer hesitação que pudesse transparecer.

– É, algo assim — respondi, ainda me perguntando se realmente era apenas pela proximidade ou se havia algo mais que eu queria entender ao procurá-lo.

Aldebaran permaneceu em silêncio por um momento, como se estivesse juntando as palavras certas. Então, sua voz saiu mais baixa, quase como uma confidência:

– Sabe, Milo, Luisa e eu sempre tivemos um vínculo forte. A considero como uma irmã. Fui eu quem levei comigo para o meu local de treinamento, no Brasil. Treinamos juntos no mesmo lugar e tivemos o mesmo mestre.

Eu o escutava com atenção, absorvendo cada palavra enquanto ele continuava, revelando detalhes que eu jamais teria imaginado sobre Luisa.

– Quando a encontrei, ela era só uma garotinha, morava em um orfanato administrado por freiras católicas. – Aldebaran suspirou, como se ainda pudesse sentir a revolta que aquelas memórias lhe traziam. – Elas… a tratavam de uma maneira terrível, Milo. Ela sofria punições porque enxergava coisas que mais ninguém conseguia ver. As freiras achavam que era algo demoníaco e acreditavam que "purificá-la" era a única solução.

Ele balançou a cabeça, parecendo se perder por um momento nas lembranças. Sua voz ficou sombria enquanto contava as condições que Luisa suportava.

– Quando acreditavam que estavam "salvando" Luisa, na verdade a trancavam em um porão, por dias às vezes, sem comida ou água. Diziam que o jejum a curaria dos "demônios" – Aldebaran falou com amargura. – Ela precisou amadurecer rápido, e aprendeu, desde cedo, a esconder muito do que vivia. Foi esse passado que moldou a pessoa que ela se tornou hoje.

Sentia cada palavra como se pesasse sobre mim. Saber que alguém tão forte como Luisa trazia uma história dessas, algo que nunca poderia ser apagado... Agora, as camadas dela começavam a fazer mais sentido.

– Eu nunca perguntei diretamente sobre esses acontecimentos, mas sempre compreendi que ela guardava muito dentro de si. Mas aquelas freiras nunca entenderam o que Luisa realmente carregava. Esse dom dela, Milo, é algo extraordinário. Afinal... – ele sorriu com orgulho – Luisa foi a primeira a vestir a Armadura de Apus desde as eras mitológicas.

Fiquei em silêncio, deixando que as palavras de Aldebaran ressoassem em minha mente. Eu me encontrava absorto, refletindo sobre tudo o que ele acabara de compartilhar.

Então, era isso… o que moldara Luisa. Aquela seriedade, o silêncio com que carregava tudo, o olhar que, agora entendo, revelava mais do que eu havia percebido até então. A máscara, que eu julgava apenas como um escudo de guerreira, também era uma barreira de proteção, construída sobre experiências dolorosas que ela carregava desde pequena.

Me peguei pensando em como Luisa guardava sua própria história tão cuidadosamente, como se compartimentasse cada dor e lembrança. Afinal, aprendera a sobreviver assim. Ela não apenas era uma amazona poderosa, mas alguém que fora forjada nas profundezas de experiências difíceis, uma fortaleza que ela mantinha erguida, possivelmente sem perceber o peso que isso lhe impunha.

Enquanto eu recordava o momento em que vi seu rosto pela primeira vez, sem a máscara, uma nova compreensão se revelava. Aqueles olhos, o mistério que neles residia... agora me parecia claro o porquê daquela profundidade, daquele brilho que me lembrava o oceano. Era um olhar que escondia segredos e histórias que eu mal começava a compreender.

Ao mesmo tempo, senti um respeito ainda maior por ela, como se parte de mim reconhecesse a força de caráter e a coragem que era necessária para carregar tanto.

Aldebaran notou minha expressão pensativa e soltou um leve sorriso, como se estivesse trazendo uma luz àquela atmosfera de reflexão.

– Sabe, Milo – ele começou, a voz grave, mas carregada de uma ternura fraterna – apesar de tudo o que ela passou, Luisa é uma verdadeira vencedora. Essas experiências ruins poderiam ter moldado ela de um jeito muito diferente, mas… veja só quem ela se tornou.

Parei para ouvir, observando como ele falava dela com tanto orgulho.

– Ela é alguém com um senso de justiça impressionante, fiel e leal aos seus ideais. Uma escorpiana nata – Aldebaran completou, deixando escapar um brilho nos olhos, como se relembrasse algum momento específico.

Aquela última frase me pegou de surpresa, e, sem conseguir evitar, levantei as sobrancelhas.

– Escorpiana? – repeti, surpreso. Eu não sabia desse detalhe. Nunca tive a chance de perguntar para ela.

Aldebaran soltou um riso leve ao notar minha reação, e aquela peça, quase como um último enigma, pareceu encaixar tantas outras no quebra-cabeça. Agora, muitas coisas faziam mais sentido. Havia algo em sua postura, aquela intensidade e lealdade inabalável, que agora eu compreendia de uma forma nova.

Aldebaran soltou um suspiro ponderado, como se, de repente, enxergasse algo que sempre esteve ali, mas ainda fora de alcance.

– Apesar de toda essa proximidade com Luisa, tem muita coisa sobre ela que… eu também não conheço – admitiu, sua voz mais baixa, quase um murmúrio pensativo. – Nunca entendi, por exemplo, o porquê dela ter mantido a máscara por tanto tempo, mesmo depois da revogação da lei. Eu achava que seria uma das primeiras a abandoná-la.

Ele desviou o olhar por um instante, como se tentasse encontrar respostas nas próprias palavras.

– Mas talvez a resposta para essa pergunta esteja bem diante dos nossos olhos, e simplesmente não a vimos ainda.

Essas palavras ficaram ecoando na minha mente, e senti que Aldebaran havia tocado em algo essencial. O que quer que estivesse por trás daquela máscara era, sem dúvida, algo muito mais profundo, algo que provavelmente ia além de uma simples regra do Santuário.

A conversa continuou por mais algum tempo, e a atmosfera permaneceu tranquila e sincera. Aldebaran me contou algumas histórias engraçadas de suas primeiras impressões sobre Luisa quando ela começou a treinar, e eu acabei rindo, imaginando a amazona de Apus como uma jovem aprendiz cheia de curiosidade e determinação, ainda construindo sua força e resiliência.

– E ela sempre teve esse senso de justiça aguçado, sabe? – Aldebaran comentou. – Desde pequena, nunca gostou de injustiça.

Eu sorri, assentindo. Era fácil ver essa característica nela, mesmo agora.

– Então, obrigado por confiar em mim com isso, Aldebaran. Vou ter isso em mente na missão – disse, finalmente me levantando para partir.

Ele se levantou também, me acompanhando até a saída.

– Cuide bem dela, Milo – Aldebaran murmurou, sua voz carregada de uma seriedade afetuosa que me fez sentir o peso de sua amizade com Luisa. – E cuide-se também.

– Pode deixar. Obrigado por tudo.

Apertamos as mãos em uma despedida silenciosa, e, enquanto deixava o Templo de Touro, senti que algo havia mudado dentro de mim. Tinha agora um novo respeito, uma admiração ainda maior por Luisa e por tudo o que ela havia enfrentado. Ao seguir de volta para o meu próprio templo, percebi que talvez a missão fosse apenas uma pequena parte da jornada que estávamos prestes a encarar juntos.

Milo POFF