Chegamos ao restaurante pouco tempo depois, um lugar sofisticado, com uma vista privilegiada para o mar e mesas bem decoradas com talheres prateados e cristais impecáveis. O ambiente era refinado, mas não exagerado, com um toque de charme mediterrâneo. Assim que nos sentamos, uma jovem atendente trouxe os cardápios, deixando-nos à vontade.
Abri o menu e comecei a analisá-lo, mas logo percebi Luisa com um olhar confuso. Ela lia as descrições dos pratos com o cenho franzido, e por vezes balançava a cabeça ou fazia caretas discretas.
— Algum problema? — perguntei, contendo um sorriso ao vê-la visivelmente perdida no meio das opções.
— Ah, é que... O que é isso? — apontou para o cardápio. — Parece mais um texto de poesia do que uma lista de comida.
Eu ri, pegando o menu dela para ajudar. Passei os olhos pelas opções e entendi sua confusão. Os nomes eram realmente extravagantes: "Tournedos de boeuf ao molho de vinho trufado", "Pato confitado com redução de laranja", e "Risoto de camarão com açafrão espanhol", entre outros pratos que pareciam mais títulos de obras de arte do que comida.
— Tudo bem, vamos por partes. Esse aqui é um filé de carne com molho de vinho — expliquei, apontando para o primeiro.
— Tá, mas o que é tournedos? — perguntou, inclinando a cabeça, desconfiada.
— Basicamente, é um filé alto, mais refinado.
— Hm... E isso aqui? — apontou para outro prato, "Coquilles Saint-Jacques gratinées".
— São vieiras gratinadas. Tipo frutos do mar.
— É oficial. Sou brasileira demais para isso — brincou, rindo. — No fundo, o que eu queria mesmo era um prato simples: arroz, bife e batata frita.
A frase me pegou de surpresa, e eu ri com vontade, a ponto de algumas pessoas das mesas próximas nos olharem curiosas. Luisa riu junto, parecendo mais descontraída.
— Tenho certeza de que o chef aqui pode fazer isso, se você pedir — comentei, ainda rindo.
— Acho que ele ia me expulsar do restaurante... — respondeu, balançando a cabeça.
Depois de mais algumas explicações, Luisa finalmente optou por algo mais familiar.
— Vou ficar com salada grega e filé de peixe — anunciou, com um suspiro aliviado.
— Boa escolha — comentei, escolhendo um prato de cordeiro para mim.
A atendente voltou, anotou nossos pedidos e se retirou com um sorriso profissional.
Enquanto esperávamos a comida, Luisa olhou pela janela, relaxando aos poucos.
— Pelo menos agora eu sei o que estou comendo. E obrigada por não me julgar.
— Julgar? — sorri. — Eu só estou impressionado que você não pediu arroz e batata frita de verdade.
— Sabe, eu tenho uma pergunta — começou, apoiando o cotovelo na mesa e o queixo na mão.
— Diga.
— Como você sabe tanto sobre esses pratos? — perguntou, arqueando uma sobrancelha. — Não me leve a mal, mas você não parece o tipo de cara que passa tempo lendo cardápios sofisticados.
Eu sorri, cruzando os braços e inclinando-me um pouco na direção dela.
— E o que eu pareço, então?
— Ah, sei lá... O tipo que come rápido, e que prefere um prato simples a um jantar cheio de frescuras — respondeu, com um brilho divertido no olhar.
Eu ri, balançando a cabeça.
— Você não está tão errada. Mas vou te contar um segredo: uma vez, enquanto esperava Camus na casa dele, acabei explorando a pequena biblioteca que ele tinha. Entre os livros sérios e filosóficos, encontrei um de receitas.
— De receitas? — perguntou, incrédula, arqueando ainda mais a sobrancelha.
— Sim — confirmei, rindo. — Não me pergunte por que, mas fiquei curioso e comecei a folhear. E o pior de tudo? Acabei lendo boa parte dele.
Luisa levou a mão à boca para abafar uma risada.
— Você? Lendo um livro de receitas? Isso é inesperado.
— Pois é. Na época, achei que tinha sido perda de tempo, mas hoje vejo que não foi. Pelo menos me ajudou a decifrar cardápios como esse — admiti, apontando para a mesa.
Ela me olhou por um instante, como se estivesse tentando imaginar a cena.
— De todas as coisas que imaginei que você faria no tempo livre, estudar receitas definitivamente não estava na lista.
— Bem, é o que acontece quando você se entedia e não tem muito o que fazer — comentei, rindo. — Mas confesso que aquele livro foi mais útil do que eu esperava.
Luisa sorriu, balançando a cabeça.
— Agora eu fico pensando: será que Camus sabe disso?
— Espero que não. Ele já acha que sou imprevisível. Se souber disso, nunca vai me deixar em paz — brinquei.
Ela riu, relaxando um pouco mais. O momento era tão natural que, por alguns instantes, a tensão da missão parecia algo distante.
Enquanto almoçávamos, o restaurante parecia ganhar um ar ainda mais encantador. Uma suave melodia começou a preencher o ambiente, vinda de duas violinistas e uma pianista que haviam começado a tocar em um pequeno palco. O som era delicado, envolvente, e parecia capturar a atenção de todos ali, incluindo Luisa.
Notei que ela olhava para as instrumentistas com um misto de admiração e algo mais... Talvez saudade? Seu olhar estava perdido, como se a música a tivesse transportado para outro lugar.
— Está tudo bem? — perguntei, curioso.
Ela piscou algumas vezes, como se estivesse voltando à realidade, e olhou para mim com um sorriso meio tímido.
— Ah, sim. Desculpe, eu só... isso me fez lembrar do orfanato.
— Do orfanato? — repeti, inclinando-me levemente para ouvi-la melhor.
— Sim — ela continuou, sua voz suave, mas carregada de emoção. — As irmãs lá eram muito dedicadas, apesar de tudo. Elas nos ensinavam várias coisas, inclusive música. Eu tive aulas de piano enquanto estive lá.
Eu levantei as sobrancelhas, surpreso.
— Você sabe tocar piano?
Ela riu baixinho, balançando a cabeça.
— Sabia, talvez. Faz tanto tempo que não sei se ainda lembro. Desde que saí do orfanato, nunca mais toquei.
Houve um momento de silêncio entre nós enquanto eu digeria aquela informação. Era difícil imaginar Luisa, a amazona tão forte e disciplinada, sentada em frente a um piano.
— Isso realmente me pegou de surpresa — confessei.
Ela deu de ombros, um sorriso suave nos lábios.
— O orfanato teve seus momentos difíceis, mas também teve coisas boas. As aulas de música eram uma delas. Eu adorava tocar, mesmo que não fosse tão boa.
— Aposto que você era excelente — comentei, sincero.
Ela sorriu, mas dessa vez havia um toque de melancolia no olhar.
— Talvez um dia eu descubra se ainda sei.
A melodia continuava preenchendo o ar ao nosso redor, e por um momento, deixei-me imaginar Luisa em outro contexto, longe das responsabilidades e lutas do Santuário. Talvez em um salão iluminado, tocando piano com a mesma delicadeza que mostrava agora ao falar sobre seu passado.
— É engraçado como certas coisas ficam com a gente, mesmo quando o tempo passa, não é? — comentei, olhando para as instrumentistas.
Ela assentiu, concordando, mas antes que pudesse responder, a atendente voltou com nossa sobremesa, interrompendo momentaneamente o momento de nostalgia.
Apesar do momento melancólico, terminamos a sobremesa em silêncio, ambos imersos em nossos pensamentos. A música continuava a preencher o restaurante, agora com uma melodia mais animada, mas ainda assim suave. Permanecemos sentados por mais alguns minutos, observando o pequeno concerto e aproveitando aquele raro instante de tranquilidade.
Depois de um tempo, Luisa olhou para mim e sorriu.
— Acho que podemos ir.
Assenti, levantando-me primeiro e puxando a cadeira dela em seguida. Caminhamos de volta para o quarto em um ritmo calmo, aproveitando os corredores do navio que, naquele momento, estavam menos movimentados.
Quando voltamos ao quarto, Luisa tirou os sapatos e sentou-se na beira da cama, o olhar distante, pensativa. Eu me acomodei na poltrona, cruzando os braços enquanto a observava.
— E agora? — perguntei, quebrando o silêncio. — O que faremos?
Ela me olhou, ponderando por um momento antes de responder:
— Acho que deveríamos descansar.
Levantei uma sobrancelha, surpreso com a sugestão.
— Descansar? Você está cansada?
— Não exatamente. — Ela ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha. — Mas nós estamos acostumados a acordar cedo e dormir cedo por causa da nossa rotina no Santuário. Durante essa missão, teremos que nos acostumar a ficar acordados até mais tarde, então seria prudente descansar agora para nos adaptarmos.
Inclinei-me para frente, analisando o argumento dela.
— Faz sentido. — Concordei, após alguns segundos de reflexão. — Mas antes vou até a sala dos agentes. Quero saber como estão organizando a patrulha do navio.
Ela assentiu.
— Tudo bem. Vou organizar algumas coisas por aqui enquanto isso.
Deixei o quarto e segui até a sala onde Nikos e os outros agentes estavam. Eles discutiam os horários e rotas para patrulhar o navio com discrição. Conversamos rapidamente e sugeri algumas alterações que poderiam ajudá-los. Quando finalizei, voltei para o quarto.
Ao entrar, vi Luisa dobrando algumas roupas sobre a cama. Ela já havia trocado de roupa, usando uma camisola de seda que marcava perfeitamente suas curvas. Não consegui evitar que meu olhar percorresse sua silhueta.
Desviei o olhar rapidamente, tentando focar em qualquer outra coisa, mas o incômodo já estava lá, preso dentro de mim como um turbilhão que eu não sabia explicar.
— Tudo certo por lá? — ela perguntou casualmente, enquanto guardava uma blusa no roupeiro.
— Sim — respondi, fechando a porta. — Eles vão patrulhar o navio em turnos e nos avisar se virem algo suspeito.
— Ótimo. — Ela sorriu, caminhando até a janela para ajustar as cortinas.
Tirei meus sapatos, deixando-os próximos à poltrona. Caminhei até a cama, me sentando na ponta para aliviar um pouco o cansaço acumulado.
— Vamos descansar, então? — perguntei, com um tom brincalhão.
— Vamos. — Ela deu um pequeno sorriso antes de se deitar.
Deitei ao lado, mantendo uma distância respeitosa, mas a proximidade já era suficiente para me deixar inquieto. O perfume delicado dela voltou a invadir meus sentidos, da mesma forma que tinha acontecido antes, quando ela saiu do banheiro.
Fechei os olhos, tentando me concentrar em qualquer outra coisa, mas as sensações pareciam se intensificar. Havia algo nela que despertava em mim um misto de curiosidade e desejo.
Observei Luisa por mais alguns minutos. Ela dormia tranquila, o rosto levemente virado para o lado, a respiração calma e ritmada. Cada detalhe parecia ainda mais evidente agora, sem a barreira da máscara que antes ocultava suas expressões. Eu sabia que havia algo diferente, algo que me atingira desde o momento em que a vi sem a máscara.
Desde então, ela vinha me causando uma inquietação que eu não conseguia ignorar. Não era apenas a surpresa de vê-la sem a máscara; era a Luisa por completo. A força que ela exibia como amazona, sua determinação, o jeito como seus olhos azul-claros brilhavam quando estava focada em algo ou quando ria sem perceber. E agora, nesse contexto de missão, estávamos mais próximos do que nunca, como se o destino tivesse planejado testar os limites da minha paciência e dos meus sentimentos.
Passei a mão pelos cabelos, suspirando. O que mais me incomodava era a clareza que começava a surgir em meus pensamentos. Eu sabia o que estava sentindo. Não era apenas admiração ou respeito. Era algo muito mais profundo. Algo que me fazia querer protegê-la de tudo, mesmo sabendo que ela era plenamente capaz de cuidar de si mesma. Algo que me fazia querer estar perto dela, ouvir sua voz e decifrar cada expressão que ela fazia.
Mas não podia agir precipitadamente. Não sabia o que Luisa sentia. Às vezes, ela parecia tão aberta, tão espontânea, que quase me fazia acreditar que havia algo ali. Outras vezes, no entanto, ela parecia se fechar por completo, erguendo um muro que eu não sabia como atravessar. Precisava ter certeza antes de qualquer coisa, e, para isso, precisaria de tempo para entender o que estava acontecendo, tanto dentro de mim, quanto entre nós.
Esses pensamentos continuaram rodando na minha mente, me impedindo de adormecer. A imagem dela dançava em meus pensamentos, o perfume que ainda pairava no ar me distraía, e tudo parecia conspirar para que eu não conseguisse desligar.
No entanto, o cansaço acumulado do dia finalmente começou a pesar sobre meus ombros. Lentamente, senti meus pensamentos se dispersarem, e, ainda que de forma inquieta, fui vencido pelo sono. Mas mesmo ao adormecer, a presença de Luisa permanecia, ocupando um espaço que eu começava a perceber que seria dela para sempre.
Quando abri os olhos, não sabia ao certo quanto tempo havia passado. A luz alaranjada do fim de tarde tingia o quarto com tons suaves e aconchegantes. Pelo céu, já era possível perceber que a noite estava prestes a cair. Eu me sentia mais descansado, ainda que os pensamentos que me consumiram antes de dormir permanecessem latentes. O silêncio no ambiente e o peso nos meus ombros deixavam claro como eu precisava daquela pausa. A sugestão de Luisa, mais uma vez, tinha sido certeira.
Olhei para o lado e notei que a cama estava vazia. Por um instante, me perguntei onde ela poderia estar, mas logo escutei o leve som de passos vindo da sacada. Levantei-me, passando a mão pelo cabelo, e caminhei até lá. Luisa estava apoiada na grade, observando a imensidão do mar que agora começava a escurecer. A brisa suave balançava os fios de cabelo que haviam escapado do coque que ela havia feito. Era uma cena tão simples, mas que me capturou por completo.
— Finalmente acordou — ela disse, virando-se para mim assim que percebeu minha presença. Havia um leve sorriso nos lábios, algo descontraído, mas que tinha um efeito maior em mim do que eu gostaria de admitir. — Eu estava começando a achar que você não fosse levantar mais.
— Acho que estava mais cansado do que imaginei — respondi, coçando a nuca. — Sua sugestão foi melhor do que eu esperava.
— É, eu percebi. — Ela riu de leve e se afastou da grade, vindo em minha direção. — Mas, caso você quisesse continuar dormindo, eu ia te acordar de qualquer forma. Pedi para trazerem nosso jantar aqui no quarto. Achei melhor assim, mais prático.
— Boa ideia — falei, encostando-me na grade da sacada enquanto ela cruzava os braços e olhava para o horizonte novamente. — E o que você fez enquanto eu dormia?
— Nada muito interessante. Só fiquei aqui, pensando na vida. O mar tem esse efeito sobre mim. Parece que tudo fica mais calmo, mais fácil de colocar em perspectiva. — Sua voz tinha um tom tranquilo, quase melancólico, mas não havia tristeza ali. Apenas reflexão. — E você, sonhou com algo?
— Nada que eu me lembre — respondi com um meio sorriso.
— Bem, que bom que aproveitou. — Ela me olhou de lado, ainda sorrindo.
Antes que a conversa pudesse continuar, ouvimos uma leve batida na porta. O jantar havia chegado, sinal de que a noite estava apenas começando.
Voltamos para dentro e nos sentamos à mesa, que já estava arrumada com uma refeição cuidadosamente preparada. O aroma era convidativo, e os pratos, embora simples, eram bem apresentados. Haviauma entrada de salada caprese, com tomates frescos, mussarela de búfala, manjericão e um fio de azeite de oliva aromatizado.
Para o prato principal, havia um filé de salmão grelhado com crosta de ervas, acompanhado de risoto de limão siciliano. Do outro lado, uma travessa menor continha legumes assados, como abobrinhas, cenouras e aspargos. Tudo exalava frescor e cuidado. Para finalizar, uma pequena seleção de sobremesas aguardava: panna cotta com calda de frutas vermelhas e uma porção de tiramisù para dividir.
— Não sabia exatamente o que você gosta de comer, então pedi algo mais leve e variado, embora eu não conhecesse muito bem os pratos... Espero que esteja bom — disse Luisa enquanto ajeitava o guardanapo no colo e me olhava com expectativa.
— Está perfeito, Luisa. — Respondi com um sorriso, servindo-me da salada. — Parece que pensou em tudo. Obrigado.
Ela sorriu, satisfeita, e começamos a jantar. O ambiente estava tranquilo, apenas o som dos talheres e do leve murmúrio das ondas lá fora. A cada garfada, o sabor confirmava o cuidado na preparação dos pratos.
Depois de alguns minutos de conversa leve, Luisa comentou, casualmente:
— Ah, esqueci de te falar. Mais tarde, os agentes vão vir aqui para combinarmos o que faremos à noite. Parece que o plano é que cada "casal" vá a uma festa diferente.
— Faz sentido. — Concordei, enquanto cortava um pedaço do salmão. — Assim, cobrimos mais terreno e nos misturamos melhor entre os passageiros. Você viu quais festas estão programadas?
Ela assentiu, animada. — Sim! Tem várias opções. Uma festa tropical na área da piscina, com roupas mais leves, e outra bem formal no salão principal, com trajes de gala. Além disso, tem o cassino, apresentações musicais, degustação de vinhos e até um show de dança no teatro.
— Parece que o navio foi feito para garantir que ninguém fique entediado. — Comentei, pegando o copo de suco.
— Exatamente. — Ela riu, mordendo um pedaço de salmão. — Mas o que mais chamou a atenção foi a festa no salão principal. Acho que seria interessante pra gente ir nela. Dá pra observar um público mais sofisticado, provavelmente pessoas que podem estar envolvidas com a organização.
— Você está pensando estrategicamente. — Notei, com um sorriso.
— É meu trabalho, Escorpião. — Ela piscou, divertida, mas logo ficou séria. — Falando nisso, quando os agentes chegarem, podemos ajustar os detalhes. Quero ter certeza de que cobriremos todas as áreas mais movimentadas.
Assenti em concordância, e terminamos nosso jantar enquanto discutíamos as possibilidades. Havia algo intrigante em Luisa — mesmo em um momento de descontração, ela sempre mantinha a mente focada na missão. Isso era admirável. E perigoso, pensei, enquanto olhava para ela.
Depois que tudo foi combinado com os agentes, começamos a nos arrumar. Sabíamos que precisávamos estar impecáveis para a festa no salão principal, não apenas para manter o disfarce, mas também para evitar chamar atenção de forma negativa.
Luisa escolheu um vestido longo vermelho com alças finas e um decote em V que, embora elegante, era discreto o suficiente. O tecido abraçava suavemente suas curvas até a cintura, onde descia fluido, esvoaçando a cada movimento. Para complementar, ela optou por uma maquiagem leve e sofisticada, que realçavam sua beleza natural.
Nas orelhas, ela usava pequenos brincos de pérolas, delicados e elegantes, combinando com uma pulseira fina de ouro branco no pulso direito. O anel de noivado e a aliança que havíamos escolhido juntos completavam o visual, tornando-o ainda mais convincente.
Eu vesti um terno preto clássico, com camisa branca e gravata vinho, combinando com o vestido dela. Um relógio elegante no pulso esquerdo foi meu único acessório, além da aliança que brilhava discretamente em meu dedo.
— Está pronta? — perguntei, virando-me para ela após ajustar minha gravata.
Quando Luisa se virou, fiquei momentaneamente sem palavras. Era impossível ignorar como ela estava deslumbrante. Embora eu soubesse que precisávamos manter o foco, um pensamento escapou em minha mente: como eu conseguiria manter a concentração com ela ao meu lado?
— Estou pronta — respondeu com um leve sorriso, como se não tivesse notado o impacto que causara.
Saímos do quarto e caminhamos pelos corredores do navio até o salão principal. O ambiente estava começando a encher, com pessoas elegantemente vestidas, e eu percebi os olhares que Luisa atraía. Sua presença era magnética, mas ela parecia alheia a isso, mantendo-se elegante e reservada. Por um instante, pensei que nosso disfarce de casal apaixonado seria muito fácil de sustentar, pois as emoções que começavam a despertar em mim pareciam cada vez mais reais.
No salão principal, a festa já estava em andamento. Um enorme lustre de cristal pendia no centro do teto, iluminando o ambiente com uma luz quente e acolhedora. As mesas eram cobertas por toalhas brancas impecáveis, e uma banda ao vivo tocava uma melodia animada, enquanto casais dançavam no meio do salão.
Aproximei minha mão da cintura de Luisa, envolvendo-a com naturalidade enquanto inclinava ligeiramente o rosto em direção ao ouvido dela, sussurrando:
— Vamos nos misturar, mas fique atenta a qualquer coisa fora do normal.
Minha voz saiu baixa, quase íntima, e eu pude sentir o perfume dela, que parecia ainda mais hipnotizante naquela proximidade. Me demorei ali, de propósito, o suficiente para notar quando o corpo dela estremeceu e um leve arrepio percorreu sua pele. Ela tentou disfarçar, mantendo a postura firme, mas não passou despercebido por mim.
Mantive a mão firme na cintura dela enquanto caminhávamos pelo salão. Aquele gesto não era apenas uma estratégia para o disfarce; servia também para deixar claro para todos ali que ela estava acompanhada. Alianças nos dedos poderiam ser ignoradas, mas uma demonstração como aquela não deixava dúvidas.
Luisa lançou-me um olhar de canto, talvez um pouco desconcertado, mas não disse nada. Seu silêncio, no entanto, parecia tão significativo quanto qualquer palavra.
Depois de um tempo, soltei sua cintura com certa relutância. Mas a mensagem já estava passada. Mesmo assim, o perfume dela ainda parecia me envolver, como se tivesse se impregnado no ar ao meu redor.
— Pronta? — perguntei, lançando um olhar cúmplice a ela.
Ela respirou fundo, ajustando o vestido enquanto observava o ambiente com atenção.
— Sempre.
O salão estava repleto de música e risadas, um cenário luxuoso, com um clima leve que parecia convidar até os mais sérios a relaxarem. No entanto, mesmo enquanto caminhávamos ou trocávamos algumas palavras casuais, tanto eu quanto Luisa mantínhamos nossos sentidos aguçados, atentos a cada movimento ou conversa ao nosso redor. Precisávamos observar, sem chamar atenção, e ainda assim nos encaixar no papel de um jovem casal em sua tão sonhada lua de mel.
Em um momento, a música desacelerou, e aproveitei a oportunidade para me inclinar levemente em direção a ela.
— O que acha de bebermos algo? — perguntei, minha voz baixa para não destoar do ambiente.
Luisa hesitou por um breve instante, suas mãos ajustando uma das alças finas do vestido. — Não sou muito adepta a bebidas alcoólicas... — disse, mas seu tom não era exatamente uma recusa.
Sorri, inclinado mais uma vez para mostrar que não insistiria, mas ainda assim, ela completou:
— Mas... acho que posso abrir uma exceção hoje.
Fiz um leve gesto de cabeça, sinalizando para que ela esperasse, e me dirigi até o bar próximo. Escolhi duas taças de champanhe, uma bebida que parecia combinar perfeitamente com a sofisticação do ambiente. Quando voltei, entreguei uma das taças a ela, observando-a com curiosidade.
— Saúde — murmurei, erguendo minha taça com um pequeno sorriso.
Luisa repetiu o gesto, seus olhos encontrando os meus por um instante antes de desviar para a bebida. Ela levou a taça aos lábios com delicadeza, tomando um pequeno gole, como se testasse o sabor antes de se comprometer.
— Não é tão ruim quanto eu imaginava — admitiu, esboçando um sorriso que parecia quase despreocupado, mas não completamente.
— Bom saber que consegui acertar, pelo menos dessa vez — comentei, brincando, o que arrancou uma risadinha discreta dela.
Nosso disfarce era convincente. Dançávamos, ríamos baixinho de observações inocentes sobre os outros convidados, e trocávamos olhares como se fossemos apenas mais um casal apaixonado.
Tudo corria dentro da normalidade, mas algo mudou subitamente. Era como um zumbido distante em minha mente que rapidamente se transformou em um pulsar claro e intenso. Luisa também sentiu; seu olhar cruzou com o meu, e não foi preciso dizer nada. Ambos sabíamos que era outro cosmo, diferente daquele que havíamos sentido mais cedo — esse parecia ainda mais carregado, quase sufocante.
Com discrição, comecei a procurar a origem. Após um breve instante de concentração, senti com clareza.
— Está vindo do lado oposto, onde está acontecendo a festa tropical — murmurei, inclinando-me em direção a Luisa.
Ela assentiu levemente. — Vamos. Melhor agirmos como se fossemos lá só para aproveitar a festa.
Seguimos pelo navio, movendo-nos com calma e parecendo interessados na movimentação ao nosso redor, mas com nossos sentidos totalmente focados na energia que nos guiava. Quando chegamos ao ambiente da festa tropical, era um contraste total com o salão elegante de antes. O lugar estava cheio de cores vibrantes, decoração temática com folhagens e frutas, e as pessoas vestiam roupas descontraídas, mas com um toque de elegância. O clima era de diversão, mas o cosmo que sentíamos era uma sombra que pairava sobre aquele cenário animado.
No meio da multidão, percebemos Alexandros e Eleni. Eles estavam próximos ao bar, em um canto mais afastado, e quando nos viram, sinalizaram discretamente para que os seguíssemos. Andamos na direção deles com calma, mas sempre atentos aos olhares ao nosso redor.
Quando nos aproximamos, Alexandros foi direto ao ponto.
— Sigam-nos. Há algo que precisam ver.
Fomos conduzidos para um pequeno corredor que dava acesso a um ponto isolado na lateral do deck. Ali, longe dos olhares curiosos, Alexandros apontou discretamente para um homem que estava em uma das mesas mais reservadas da festa. Ele era alto, com cabelos castanho-escuros penteados para trás, vestindo uma camisa de linho branca e calças bege. Tinha uma postura relaxada demais, como se estivesse à vontade, mas seus olhos estavam constantemente vasculhando o ambiente, atentos.
— O nome dele é Ivan Petrov — disse Alexandros em um tom baixo, enquanto mantinha o olhar fixo no homem. — É um dos recrutas mais novos da Griffon Negro. Não é tão experiente quanto os outros, mas é cruel e extremamente perigoso.
Eleni acrescentou:
— Esse tipo de festa é perfeita para a organização. É onde geralmente se reúnem mulheres jovens, principalmente solteiras, os alvos mais comuns deles. Eles se misturam, ganham confiança e, eventualmente, desaparecem com algumas delas sem levantar suspeitas.
Luisa apertou o punho ao ouvir aquilo, mas se conteve, mantendo a expressão serena. — Já sabemos de algo concreto sobre os próximos passos deles? — ela perguntou.
Alexandros balançou a cabeça. — Ainda não, mas ele parece estar sondando alguém. Reparem como ele não para de observar o ambiente.
O olhar de Ivan era calculista, percorrendo o salão com atenção predatória. Algo nele parecia indicar que estava se preparando para agir.
— Vamos continuar observando, mas precisamos nos revezar — disse Eleni. — Se ficarmos todos muito tempo no mesmo lugar, será fácil nos notarem.
Eu assenti. — Concordo. Vamos ficar de olho. Se ele tentar algo, não podemos intervir imediatamente, mas também não podemos deixá-lo desaparecer.
Luisa olhou para mim com determinação nos olhos. — Faremos o que for necessário.
E, com isso, retornamos ao salão tropical, prontos para nos misturar novamente e continuar a vigília. A missão estava apenas começando a se revelar mais complexa do que imaginávamos.
Ficamos de olho em Ivan, cada um de nós assumindo uma posição estratégica. A energia do lugar era de diversão: homens e mulheres de todas as idades se divertiam, alguns mais descontraídos, outros claramente tímidos e tentando se soltar. Havia um equilíbrio curioso, como se a música e o ambiente tropical conseguissem envolver a todos, mas, para mim, nada disso importava. O foco estava no homem que observava tudo com uma postura quase casual, mas que denunciava intenções sombrias.
Durante a vigília, tomávamos cuidado para agir normalmente. Luisa e eu conversávamos ocasionalmente, trocávamos olhares e sorrisos, como qualquer casal faria. Em alguns momentos, íamos para a pista de dança, aproveitando para mudar de posição e continuar monitorando Ivan sem parecer suspeitos. Alexandros e Eleni faziam o mesmo: ora sentados em um canto do bar, ora se misturando à multidão com bebidas em mãos.
Em um determinado momento, notei alguém se aproximando de mim e de Luisa. Era uma mulher alta, de cabelos loiros ondulados que caíam pelas costas. Seu vestido justo e curto, moldando suas curvas de forma provocante, e o decote generoso não passava despercebido. A maquiagem, pesada e destacada, trazia olhos bem delineados com sombras escuras e um batom vermelho vivo, que combinava perfeitamente com o tom do vestido. Ela estava levemente embriagada, movendo-se com uma confiança um pouco exagerada.
— Não pude deixar de notar vocês dois — começou ela, com um sorriso malicioso. — Especialmente você, gato.
Eu mantive a postura tranquila, embora fosse impossível não perceber a tensão que tomou conta de Luisa ao meu lado. Mantendo o tom educado, tentei desviar a conversa.
— Estamos apenas curtindo a festa, mas agradeço o elogio.
— Só curtindo? — insistiu ela, inclinando-se ligeiramente em minha direção, com um sorriso cheio de segundas intenções. — Um homem como você deveria aproveitar mais...
Enquanto falava, senti o olhar de Luisa queimar ao meu lado, mesmo que ela estivesse se esforçando para manter a compostura.
— Desculpe, mas estou comprometido — respondi, levantando a mão esquerda para exibir a aliança. — Sou casado.
A mulher deu um passo para trás, mas não parecia disposta a desistir tão facilmente.
— Casado, é? — murmurou, com um toque de descrença na voz. — Percebi que vocês estavam juntos, mas achei que fossem amigos. Não trocaram um beijo sequer.
Essas palavras fizeram tanto Luisa quanto eu ficarmos momentaneamente tensos. Era um ponto válido: mesmo com nossas alianças e nossa postura próxima, não tínhamos feito nenhuma demonstração explícita de afeto. Antes que Luisa pudesse responder, outra mulher apareceu, claramente constrangida pela atitude da amiga.
Ela era mais baixa, de cabelos castanhos presos em um coque elegante. Vestia um vestido azul, de corte simples e discreto, que ia até os joelhos. A maquiagem era leve.
— Desculpem, minha amiga — disse ela, segurando a mulher pelo braço. — Ela já bebeu um pouco mais do que deveria. Vamos, Helena, já é hora de voltarmos para nossa mesa.
A mulher loira fez um beicinho, mas deixou-se guiar pela amiga. Antes de sair, lançou um último olhar em minha direção, como se não estivesse completamente convencida da situação. Quando finalmente se afastaram, suspirei aliviado e olhei para Luisa, que cruzava os braços com um semblante claramente aborrecido.
— Não precisa se incomodar com isso — tentei tranquilizá-la.
— Quem disse que estou incomodada? — respondeu ela, com um tom um pouco mais ríspido, antes de descruzar os braços e forçar um sorriso.
Eu sabia que não era o momento para provocar, então apenas assenti e mudamos o foco de volta para a festa.
A festa não durou até o amanhecer como eu imaginava. O ambiente foi ficando mais tranquilo conforme a noite avançava, e por volta das três horas, a maioria dos convidados já começava a se dispersar.
Enquanto Ivan deixava o local, Luisa e eu, junto de Alexandros e Eleni, continuamos a agir normalmente, conversando com outras pessoas casualmente. Nossos olhos, porém, estavam sempre atentos ao ambiente e às pessoas ao redor. Era uma tarefa delicada: manter as aparências enquanto tentávamos identificar algo que passasse despercebido para os outros.
Finalmente, quando Ivan saiu, acompanhamos discretamente sua saída com os olhos, mas ele não deu qualquer sinal de comportamento suspeito além de sua observação cuidadosa durante a festa. Ele estava apenas sondando o terreno, como havíamos previsto, e aquilo trouxe tanto alívio quanto frustração. Sabíamos que a verdadeira ação ainda estava por vir.
Milo POFF
