Mavi ajustou a gravata com um gesto automático, sentindo o peso do cansaço lhe consumir após um dia exaustivo de trabalho. As horas se arrastavam enquanto suas vistas se fixavam nas câmeras posicionadas ao seu redor, instrumentos que registravam cada movimento, cada nuance de expressão. No entanto, havia uma única coisa que nunca o deixava realmente fatigado: Viola. Aquela mulher que, de todas as formas possíveis, o havia rejeitado por tanto tempo.
Ele não podia negar a dor que essa rejeição lhe causou. Mavi se sentia magoado e, em um momento de fraqueza, tinha elaborado um plano com Luma com o intuito de prejudicar a carreira da talentosa cozinheira. A ideia de vingança parecia, à época, uma maneira de aliviar seu coração partido. Contudo, agora, em meio a esse cansaço, um arrependimento profundo o envolvia. Ele não conseguia deixar de pensar que, caso Viola se sentisse vulnerável, ela poderia, talvez, recorrer a ele em busca de apoio. Mas, para seu desatino, a realidade não se desenrolou como ele esperava. Ela havia desaparecido e ele estava completamente sem saber como agir. Já havia enviado Ibérere para realizar uma busca, mas até aquele momento, não havia obtido nenhuma informação concreta. Em algumas ocasiões, parecia que ele carregava um profundo arrependimento por tudo o que havia acontecido, enquanto em outras, a sensação de que não era culpado ganhava força. Era um conflito interno que o atormentava, um turbilhão de emoções que ele mesmo não conseguia decifrar. Aquela sensação confusa era algo que ele nunca tinha experienciado antes, como se fosse uma nova dimensão de sentimentos que surgiu de repente, trazendo incertezas e angústias para sua mente. . Mavi olhou para o relógio na parede e percebeu que já era hora de ir para casa. Com um suspiro profundo, ele se levantou da cadeira, sentindo a solidão daquele ambiente, que só parecia ecoar seus pensamentos sobre Viola. Ele pegou os papéis que estavam espalhados sobre a mesa, organizando-os cuidadosamente dentro de uma pasta. Com tudo em ordem, Mavi se dirigiu para a saída.
Seu telefone começou a tocar, e ao olhar para a tela, viu que era uma chamada de Mecia. No fundo, ele não estava com vontade de atender naquele momento, então resolveu desligar. Em seguida, entrou no carro e começou a dirigir sem rumo. Nos últimos dias, havia se entregado ao desejo de beber uísque, tentando afogar seus sentimentos de solidão e vazio, que pareciam o consumir por dentro. Talvez essa sensação de desamparo estivesse ligada à ausência de Viola em sua vida; a falta de notícias dela o deixava ainda mais angustiado.
Ele estava decidido a fazer qualquer coisa por ela, pois seu amor por Viola era mais forte do que qualquer outra coisa que já havia sentido. No entanto, essa devoção só aumentava sua dor, pois se sentia ferido ao perceber que ela não nutria os mesmos sentimentos por ele. Para Viola, seu coração parecia estar voltado apenas para Ruda, e essa consciência o machucava intensamente. O desamparo gerado por esse amor não correspondido o deixava ainda mais apreensivo. Pensar no caicara despertou nele uma sensação de raiva intensa. O que ele mais almejava naquele momento era ver aquele sujeito atrás das grades. Talvez assim, ele finalmente deixasse de atrapalhar sua vida, era isso que ele mais desejava. O telefone tocou novamente, e ele não precisou nem olhar para a tela, tinha certeza de que era a mesma pessoa que havia ligado poucos minutos antes. Uma parte dele cogitou desligar o celular, acreditando que assim conseguiria ter um momento mais tranquilo. No entanto, decidiu atender a chamada de uma vez por todas, para saber o que aquela pessoa tanto queria.
— Fala logo, Mercia! — exclamou ele, assim que colocou o celular no ouvido, sem se preocupar se sua voz soava agressiva ou não.
— Que mal-humor é esse? — ela respondeu, enquanto ele revirava os olhos, respirando fundo. Ele desejava intensamente desligar o telefone e se esconder de todas as pessoas, fugindo de qualquer contato com o mundo exterior.
— O que você quer? — perguntou, tentando controlar o tom de voz, que apesar de mais baixo, ainda carregava uma pitada de agressividade.
— Filho, tenho uma boa notícia para você. — Ela disse com entusiasmo, mas ele apenas deu de ombros, ciente de que as boas notícias dela muitas vezes se transformavam em pesadelos para ele.
— Deixa eu adivinhar, você vai me dar o pendrive e depois vai sumir da minha vida? — Ele perguntou, com uma certa ironia na voz.
— Não, mas você só vai saber na hora certa. — Ela respondeu, mantendo um ar de mistério.
— Você só vai saber na hora certa. — Ele imitou o jeito dela de falar. — Você me ligou só para fazer mistério?
— Não seja mal-humorado! — Ela retorquiu. — Eu liguei para te dizer que a Luma está querendo ir embora daqui. Você precisa fazer algo a respeito.
"- Se ela quer ir, então que vá. E você pode ir com ela também; talvez assim eu consiga ficar livre das duas!" -Ele exclamou, enquanto desviava o carro para evitar colidir com um ciclista. Que absurdo um ciclista ficar parado bem no meio da rua! No entanto, naquele momento, ele não estava com a cabeça para se preocupar com isso.
— Não fale dessa maneira, você sabe o quanto a Luma é importante tanto para mim quanto para você, não sabe? Então, venha logo e resolva essa situação! Peça para ela ficar, eu percebo que apenas você tem o poder de convencê-la a ficar. Você não é exatamente alguém que tem habilidade em manipular os outros? — Ele soltou um bufar de frustração; manipular as pessoas era uma das suas grandes habilidades, mas a única que ele realmente reconhecia como imune a seus truques era a Viola.
— Tudo bem, tudo bem, já estou a caminho de casa — ele respondeu, antes de desligar o telefone abruptamente, sem sequer se despedir.
A verdade é que ele já havia percebido as transformações que ocorreram em Luma nos últimos tempos. Ela parecia estar carregando um peso na consciência, como se se sentisse culpada e arrependida . Sua atitude havia mudado completamente, e ele notou isso em vários aspectos de seu comportamento, até mesmo na hora das refeições; pela manhã, ela comia muito pouco, um sinal claro de que algo não ia bem.
Inicialmente, ele pensou que essa mudança de comportamento poderia ser atribuída ao estresse e à pressão do trabalho no Resot, mas com o tempo, ficou evidente que a situação era mais complexa do que isso. Ele começou a entender que essa sóbria transformação se relacionava com Rudar e Viola, e não era nenhuma tolice da sua parte ter chegado a essa conclusão . E agora, a decisão dela de querer partir não o surpreendia em absoluto. Na verdade, ele sentia um certo alívio por ter a chance de se ver livre das duas mulheres com quem compartilhava sua vida. Talvez, ao se libertar dessa situação complicada, ele finalmente pudesse encontrar um pouco de paz, algo que parecia tão distante até então.
Ele se pegava imaginando como seria reencontrar Viola. Se conseguissem reatar o relacionamento e se tornassem um casal novamente, ele sonhava com a possibilidade de morarem juntos. A ideia de casarem-se e construírem uma família, com filhos correndo pela casa, preenchia seu coração de esperança. Ele estava convencido de que, ao lado dela, poderia ser extremamente feliz. O que realmente desejava era estar junto da mulher que amava; essa era a sua verdadeira aspiração, o que ele mais ansiava na vida.Apesar de todos os esforços que ele fazia para demonstrar força, a dor de saber que ela estava desaparecida o consumia por dentro. O maior temor que o assombrava era a possibilidade de perdê-la para sempre. Na verdade, ele se perguntava se, de certa forma, não a havia perdido há dez anos, quando ela decidiu fugir com Rudar e o traiu de maneira inesperada. Aquela traição o devastou emocionalmente, deixando cicatrizes profundas em sua alma. No entanto, depois de muito sofrimento, ele conseguiu superar aquele momento sombrio de sua vida, mas a saudade dela nunca o abandonou. Agora, sua única esperança era encontrar uma forma de reencontrar aquela mulher.
