Capítulo 8: Abisko


De forma cuidadosa, Aiolos depositou Atena em uma cama. Por conta do desperte da chave a deusa estava inconsciente. O ex cavaleiro demorou o olhar nela, antes de se sentar numa poltrona.

Enquanto isso, os três arcanjos estavam na sala do trono. Mikael examinava o pequeno objeto metálico em formato de losango, era a primeira vez que o via.

- Não imaginaria que Asher fosse esconder o objeto dentro da humana. – disse Uziel.

- Aquela vadia é esperta. – o arcanjo do Fogo não tirou o olhar do objeto. – era o local mais seguro em Ninkai.

- E agora? – Raphaelle alisava suas penas. – como se faz para ativar? Eu não sinto nada vindo desse artefato.

- Não seja pessimista irmão, - Mikael virou-se para ele. – o mais difícil já temos. É questão de tempo liberarmos o poder.

- Mas você sabe como ativar? – perguntou Uziel. – não irá necessitar Dele?

- Quando foi entregue a Gabrian, Ele passou todos os ensinamentos.

- E você os tem? Porque tudo a respeito de Gabrian foi destruído.

- Não tenho. – disse seco. – mas darei um jeito.

- E Lucy? – Uziel lembrou-os. – ele está planejando algo.

- Deixe-o. – Mikael. – nós iremos esmagá-lo em breve.

- E quanto a humana? Por que não a eliminamos?

- Deixe-a viva, pode ter alguma serventia no futuro.

Numa sala ao lado os anjos aguardavam novas ordens.

- Eu queria ter lutado! – exclamou Sitael.

- Tenha paciência. – Elemiah brincou com os cabelos brancos.

- Diz isso porque lutou com um deles.

- E como foi? – indagou Dianeirah.

- O cara até que é forte. – Elemiah esparramou-se no divã. – Jeliel teria dificuldades em vencê-lo. – disse para provocar.

- O que disse?

- E quanto ao assassino? – a anjo entrou no meio. Não queria discussões.

- É um fraco. – disse Maha. – se o senhor Mikael tivesse permitido tinha eliminado-o.

- Poupe suas forças Maha. – Elemiah trazia os olhos fechados. – você terá que usá-la depois.

- Por que diz isso? – Sitael o fitou curioso.

- Acham mesmo que o caído foi só para observar?

- Lucy não terá chance contra os arcanjos. – falou Jeliel.

- Para quem implantou Astaroth no meio dos humanos, está gastando muita munição atoa.

- Acha que ele fará algo?

- Claro minha cara. – a fitou. – a guerra pelo Abisko só começou. E podem esperar que aqueles humanos ainda darão as caras.

- São um bando de fracos! – exclamou Maha. – podem morrer num piscar de olhos.

- Eu não teria tanta certeza...

A frase de Elemiah deixou Dianeirah ressabiada. Para ele dizer algo assim, eles não eram tão fracos.

Parecia que sobre a cabeça estava uma pedra, tamanho o peso que sentia, fora a dor que sentia no meio da testa. Atena demorou a abrir os olhos e erguer o corpo. Estranhou o lugar onde estava.

- Onde...

A voz se perdeu ao fitar Aiolos sentado numa cadeira. Pela posição e respiração lenta percebeu que ele estava dormindo.

Era fato que os seres alados não precisavam de repouso como os humanos, mas Aiolos ainda não tinha se desprendido totalmente do lado terrestre, tanto que seu corpo ainda necessitava de descanso. E há muitos dias sem dormir e depois de uma batalha, o corpo reclamou. Acabou adormecendo.

Sem fazer barulho, a deusa levantou e caminhou lentamente até ele. Se não fosse pelas roupas, era o cavaleiro de Sagitário que estava a sua frente. Ela tinha muito carinho por ele, afinal de contas ele a salvara da morte. A deusa foi tocar os fios dourados, mas parou, quando ele segurou o braço dela com força.

Olharam- se por alguns segundos.

- O que pensava em fazer? – indagou com a voz fria.

- Nada. – apesar da aparência, quem estava na sua frente era Raziel.

Ele levantou, mas sem soltá-la, ao contrário colocou um pouco mais de força.

- Eu não sou seu cavaleiro.

- Eu sei. – mesmo com a força ela não abandonou a expressão serena.

- Meus senhores querem vê-la. – a soltou. - Vamos.

- Aiolos. – a deusa segurou o braço dele. O olhou fixamente por alguns segundos.

- Me solta agora. – a voz saiu ameaçadora.

Ela o soltou. Raziel deu as costas e a deusa foi atrás. Ao invés de entristecida pelo tom áspero, pois Aiolos jamais falaria com ela desse jeito, ela sorriu.

Durante o caminho, os pensamentos sobre Aiolos foram substituídos pelas dúvidas. A primeira era, se ele havia morrido quando ela era um bebê, como Mikael ou Hades não se manifestaram a respeito? E segundo, se ela carregava Abisko dentro de si, por que sua memória de deusa não lembrava desse fato?

Na sala dos tronos, os arcanjos e os anjos, que tinham sido chamados, ficaram em silêncio quando Raziel entrou com Atena. A deusa caminhou até o centro.

- Espero que o quarto tenha agradado-a. – Mikael trazia um sorriso cínico.

- O que pretende fazer com Abisko?

Atena não se intimidou.

- Voltar ao tempo que o mundo dos humanos temia o nosso mundo. – respondeu simplesmente. – e como guardiã daqueles humanos deveria ser a primeira em concordar.

Saori sorriu.

- Como se eu e meus cavaleiros fossemos permitir.

- Seus servos? – Jeliel disse com desprezo. – não passam de insetos. Fora que dois deles...

- Uma vez cavaleiro sempre cavaleiro. – deu um sorriso.

A expressão de Raziel fechou. Mulher teimosa, pensou.

- Humana suja...

Jeliel pegou sua espada, mas antes que pudesse fazer algo, foi arremessado contra uma parede, ferindo-se seriamente. Os anjos ficaram surpresos pois não viram. Os três arcanjos ficaram em silêncio.

- Jeliel... – murmurou Uziel. – não é atoa que é a deusa da guerra. – fitou Atena. O ataque tinha partido dela.

- Não admito que fale ou pense algo dos meus cavaleiros. – fitou o grupo de anjos que ficaram em silêncio, afinal ela tinha o mesmo poder dos arcanjos. Jeliel a fitou com ódio.

- Seus amados humanos não serão ridicularizados. – disse Mikael pouco se importando com a cena. – não é o meu desejo matá-la, pelo menos não por agora. Enquanto aguarda o seu desfecho você ficará hospedada nesse palácio. Dianeirah e Raziel serão seus responsáveis.

A general não expressou nada.

- Vocês representam os quatro elementos... – deveria ser bem cuidadosa com a pergunta. – água, fogo, e ar. Onde está terra? É por acaso Lúcifer?

- Não compare esse elemento com aquele traste. – cuspiu Uziel. – terra está morto.

- Cinco arcanjos...

- Raziel e Dianeirah levem-na. – Mikael entrou no meio.

Atena não fez mais perguntas, esperaria o momento certo para descobrir mais sobre eles.

Os dois generais a conduziram.

- Jeliel vá tratar os ferimentos. – Uziel o fitou friamente. – cuidado ao levantar a voz contra um ser mais forte que você.

- Perdoe-me. – fez uma reverência.

- Os demais estão dispensados.

Saíram restando apenas os arcanjos.

- Pensei que fosse defender seu general. – disse Raphaelle.

- Jeliel às vezes precisa aprender a manter a boca fechada e saber seu lugar. – Uziel o fitou. – eu sabia que Atena não o mataria. É a deusa da guerra, mas é pacifista.

- É uma tola. – Mikael levantou. – tomem conta de tudo, irei sair.

- Aonde vai? – Uziel estranhou.

- Cuidar dos nossos interesses. Não demoro.

- E Abisko? – indagou Rapha.

- Abriremos daqui dois dias.

Mikael abriu asas e voou.

Jeliel seguia para a sala de cura, bastante irritado. Tinha sido humilhado pela humana e diante de seus senhores e dos demais anjos.

- "Humilhação!"

Elemiah e Sitael que vinham um pouco atrás abafavam o sorriso.

- O senhor Uziel pode começar a olhar um substituto. – disse Sitael. – vai que o general dele...

- Cala a boca! – gritou Jeliel.

- Vocês dois. – Maha chamou a atenção deles. – deixe-o.

Jeliel ficou com mais ódio, pelo atrevimento de Maha, mas não disse nada. Apertou o passo, deixando-os para trás.

- Apesar de humana, gostei da atitude dela. – disse o mais jovem. – ela poderia ter matado-o. Faria um favor.

- Não é o perfil dela. – Elemiah colocou os braços atrás da cabeça. – foi só um susto mesmo.

- É melhor irmos treinar. – Maha queria colocar um ponto final no assunto. – com Abisko em nosso poder, os caídos podem tentar alguma coisa.

Os outros dois concordaram.

Raziel e Dianeirah seguiam na frente e Atena achava graça nos dois. Havia algo no ar. Os pensamentos mudaram para a resposta de Uziel. Então eles não tinham ideia que Gabrian estava vivo e faria tudo para manter essa informação escondida. Se tinha alguém que poderia evitar Abisko nas mãos deles era o arcanjo da Terra. Os generais pararam diante de uma porta.

- Espero que não tente nada. – disse Dianeirah.

- Não farei nada.

Atena entrou sem antes, lançar um olhar amável para Raziel. Ao se verem sozinhos...

- Ela insiste que ainda sou um dos servos dela.

- Venha aqui.

Dianeirah o levou para uma sala próxima. Sem dizer uma palavra a jovem parou diante do rapaz olhando-o fixamente.

- O que foi Dianeirah?

- Quero me certificar que realmente sua personalidade voltou.

- Como assim?

- Nunca tivemos na nossa história um anjo que "nasceu" humano.

- Você se preocupa demais. – tocou nos ombros dela. – sou o mesmo Raziel. Nada mudou.

O olhar do general desviou para os lábios levemente rosados da jovem. Sem pensar muito tomou os lábios de Dianeirah deixando-a surpresa. Era a segunda vez que ele fazia aquilo. Raziel sentiu o desejo aumentar aprofundando o contato, queria mais.

As mãos na cintura dela, fizeram-na murmurar o nome dele. O ex cavaleiro afastou-se na hora.

- Desculpe. – ficou atordoado, não pelo o que tinha feito, mas sim por ter o rosto de Hilda jogado na mente.

- Você nunca... – estava igualmente surpresa. Tinha sido... bom?

- Me desculpe. – afastou. – é melhor voltarmos para as nossas funções.

- Tudo bem. – sorriu envergonhada. Apesar de não saber o que era aquela sensação, tinha sido boa.

- Vamos.

O.o.O.o.O

Yekun descontava sua sede de sangue em algum pobre anjo de patente menor. Por ele, tinha matado todos os humanos daquele lugar. Mas a hora deles estavam chegando, assim como os dos seres de luz.

Gadrel, Astaroth e Kesabel estavam numa sala de descanso. O ex cavaleiro de Atena, estava deitado num divã. O corpo pedia descanso.

- Desde quando você precisa dormir?! – exclamou Gadrel. – vamos treinar.

- O corpo humano precisa de descanso e ele voltou recentemente de Ninkai. – disse Kesabel. – é natural.

- Vá procurar algo para fazer Gadrel. – disse Asta.

- Fraco. – puxou uma cadeira. – não tem nada para fazer. – virou a cara. – e por que ela não tem isso? – apontou para a garota.

- Sou híbrida. Meu corpo não é cem por cento humano.

- O que achou deles? – indagou Asta a ela.

- Derrotariam Yekun facilmente.

- Fariam um favor. – disse Gadrel.

- Alguns parecem ser mais fortes. O geminiano e o ariano.

- Saga já ocupou um grande cargo naquele local. – respondeu sem abrir os olhos. – de todos é o que dará uma boa luta. Tem também o libriano, ele tem muita experiência em batalhas.

Kesabel pensou em Afrodite. Como se adivinhando os pensamentos dela Astaroth falou:

- Apesar de ser mais fraco precisam tomar cuidado com o pisciano. Ele utiliza venenos e não sei como as substâncias se comportariam em nossos corpos. – levantou. – vamos treinar. – olhou para Gadrel.

- Pensei que fosse ficar deitado para sempre.

- Está bem mesmo Asta?

- Sim Bel. Vamos Gadrel.

Saíram. Kesabel ficou pensando nos dizeres de Asta, precisava pesquisar sobre magias e poções contra venenos.

Lúcifer estava numa reunião a portas fechadas com Azazel e Narahim.

- Mikael levará algum tempo até abrir Abisko. – disse o ex arcanjo. – ninguém sabe como romper o lacre.

- Como ninguém? Não é de conhecimento de todos? - indagou Nara.

- Apenas duas pessoas sabiam como ativar... – a voz saiu baixa. – como estão nossas tropas?

- Prontas ao seu comando.

- Iremos invadir Tenkai.

Azazel e Nara olharam entre si.

- Invadir? – o anjo da Aniquilação ficou surpreso.

- Mikael é deveras orgulhoso. Acha que eu não farei nada, mas vamos atacar Tenkai com força total. Quero a humana.

- Para que precisa dela? – indagou Azazel.

- Tenho algumas perguntas que quero que ela me responda. – Lucy calou-se. Desde que vira Atena, seu rosto não saia da mente. Ela era muito parecida com um rosto que viu no passado e talvez aquilo não fosse apenas coincidência. – preparem o exército, quero uma reunião com os comandantes e meus generais. – fitou os dois. – tenho algo a fazer e estarei de volta em breve. Espero que tudo esteja pronto.

- Sim senhor. – disse Azazel.

Lúcifer desmaterializou.

- Não pensei que ele atacaria Tenkai.

- Nosso senhor planeja isso há muito tempo. Devemos confiar no julgamento dele. – Azazel abriu suas asas. – vamos reunir todos.

O.o.O.o.O

Miro se contorcia de ódio por ter perdido para um anjo fraco. Era como se tivesse sido derrotado por um cavaleiro de bronze.

No recinto, o único que não se importava com a hierarquia dos anjos era Shion. Culpava-se por ter deixado o fato do surgimento de Atena perdido em sua mente. Se tivesse lembrado que Alédia era Atena, o sequestro dela poderia ter sido evitado.

Porém algo não encaixava.

- Gabrian... Atena enquanto entidade saberia que Abisko...

- Certamente. – aquele detalhe também intrigava o arcanjo. - Como um bebê mortal, ela não se lembraria de tais fatos, mas sua memória de deusa estava ativa. Eu também não entendo porque ela não sabia da existência do Abisko, mas suspeito que Asher tenha selado essa lembrança dela ou até alterado o conhecimento de Atena sobre Abisko.

- Mexer com a memória de um deus? – Saga ficou surpreso.

- Não imaginam o poder que Asher possuía. De toda a história de Lemuria ela foi a mais poderosa de todos. Alterar lembranças e fatos era corriqueiro para ela, ainda mais com a mente de Atena presa num corpo mortal e frágil. É a teoria mais certa.

- Se Mikael descobrir que na verdade só levou a chave, o que poderá acontecer? – indagou Deba.

- Levará algum tempo até ele descobrir isso. Só existe um lugar que Abisko pode ser aberto e Mikael não tem acesso a ele. Até lá teremos tempo para resgatar Alédia.

- Senhor Gabrian, - iniciou Kamus. – trabalhando com a hipótese que Mikael descubra a verdade como seria o desperte?

A pergunta do francês não deixou o arcanjo surpreso. Era uma pergunta racional e com a resposta poderiam traçar planos alternativos.

- Aurien foi o lugar escolhido por Asher para manter Abisko a salvo. Naquela época, todos os arcanjos tinham o livre acesso, o que hoje já não é mais possível. Tenho certeza que antes de fugir para Ninkai ela lacrou os acessos. – fez uma pausa. – antes de morrer, Asher passou a Cahethel as duas formas de entrar em Aurien: Alédia com seu cosmo e eu. Alédia precisará elevar seu cosmo na interseção das dimensões e aí o local se mostrará ou algo relacionado a mim e aos meus dons.

- Se Atena conseguir abrir o caminho, Mikael tem Abisko?

- É necessário a chave e Atena juntos no altar principal e acredito que Asher deve ter colocado mais uma condição para isso para dificultar ao máximo o acesso.

- Então temos que recuperar a chave e destruí-la. – disse Afrodite. – tirando uma das variáveis Abisko não voltará.

- Não funcionará. Mesmo que destruam a chave, Mikael e os demais virão em cima de vocês. Serão mortos por eles e a humanidade será condenada.

- Como iremos para Tenkai? – perguntou Shion.

- Antes da queda de Lúcifer existiam muitos portais que ligavam os três reinos. Após sua queda eu selei boa parte deles, principalmente o acesso de Devakai a Tenkai. – Gabrian voltou a se sentar. – existe o portal que liga Tenkai a Devakai, mas ele só abre a partir de Tenkai. Um portal que liga Devakai a Ninkai e três que ligam Ninkai a Tenkai. Mas dois deles eu não aconselho a vocês usarem.

- Por que não? – Deba estranhou.

- Um deles é usado por Mikael, é sustentado com o poder dele. O outro era o que eu usava e supostamente eu estou morto. Se chegarem a Tenkai por ele, levantarão suspeitas. Podem me descobrir e colocar em risco a verdadeira identidade de Atena.

- Seria muito arriscado... – murmurou Saga. – ainda mais que tem Lucy e seus generais. Não acho que ele irá simplesmente assistir a vitória de Mikael.

- Lucy sempre foi bom em estratégias... – Gabrian lembrou-se do tempo de crianças. – ele está armando sua jogada para garantir um xeque mate. Precisam ter muito cuidado com ele, principalmente por um ex companheiro de vocês ser um de seus generais, ainda por se tratar de Astaroth.

- Qual o terceiro?

- O que ligava Lemuria a Tenkai.

- Mas as terras não foram destruídas? – perguntou Mu.

- Sim, mas o portal não. Ele apenas está sepultado nas águas.

- Saga, - chamou Shion. – entre em contato com a Fundação Kido. Mande preparar o submarino.

Os cavaleiros arregalaram os olhos, olhando uns para os outros.

- Submarino? Atena tem um submarino?!

- Saori Kido. – Shion respondeu calmamente. – como acha que ela tem acesso aos exercícios militares dos países? Atena precisa de recursos da época para garantir a proteção da Terra.

- Vou ligar... – murmurou Saga impressionado. Sabia que Atena tinha acesso a vários setores secretos da política e da ordem militar pelo mundo, só não imaginava que fosse tanto.

- Tem uma coisa que não encaixa nessa história. – Mask levantou a mão. – Aiolos morreu para salvar Atena, Hades não saberia sua verdadeira identidade? Shaka morreu no muro e depois Odin nos trouxe a vida.

Os dourados concordaram na hora com a observação de Giovanni.

- Mikael e Lúcifer selaram completamente a essência divina deles. Poderiam passar a eternidade em Hades que nunca despertariam. Por isso, Atena nunca descobriu sobre os dois. A verdade é que ambos arriscaram seus planos. Se bem que... – murmurou pensativo.

- Se estavam dispostos a terem Abisko, - iniciou Afrodite. – não poderiam arriscar dessa forma.

Gabrian não respondeu. Havia algo estranho nessa história. Se as lutas contra Hades não ocorressem, Mikael e Lucy ficariam sem seus generais, o que poderia dificultar a vitória deles. Será que sabiam de algo que valesse a pena o risco?

- Isso não faz diferença agora. – disse Shion. – Saga.

- Claro.

O geminiano saiu às pressas para cumprir as ordens. A cada minuto, a vida de Atena corria risco.

O.o.O.o.O

Depois de voar por milhas, Mikael pousou num vale. Daquele ponto seria menos chamativo caminhar pela floresta do que chegar ao seu alvo pelos ares. Andou por quinze minutos até chegar à entrada de uma caverna, encoberta por arbustos. Ninguém sabia da existência daquele lugar, nem mesmo seus irmãos. Após a batalha em Aurien, Mikael queria apagar a existência de Gabrian, mas precisava de seus escritos e estudos. Dos pertences que havia restado do arcanjo da Terra, escondeu-os ali, longe das vistas.

Formou com a mão uma bola de fogo para iluminar o caminho. Caverna adentro andou por mais dez minutos até parar diante de um paredão de rocha. Tirou do pescoço uma correntinha que usava e encostou o pingente de pedra no paredão. Segundos depois o barulho de algo arrastando ecoou pelo local, dando passagem ao arcanjo.

O lugar era completamente diferente do exterior. O espaço era ricamente enfeitado com estátuas em mármore. Encravado nas paredes dezenas de livros e um grande lustre fazia a iluminação daquele local.

- Apesar de tudo, preservei seus livros Gabrian... e eles nos levarão à vitória.

Mikael passou horas no recinto, lendo vários livros, ao final sem qualquer hesitação queimou tudo que estava lá dentro. Quando viu que não havia sobrado nada levantou voo. Precisava ir a mais um local.

Revelação contemplava os cosmos, quando as águas que ficavam sobre si agitaram-se. Conhecia aquela energia.

- Vim visitá-la. – Mikael sorriu. – seus dias de confinamento logo chegarão ao fim. A vitória de Tenkai está próxima.

A jovem permaneceu calada.

- Deveria ficar animada. Terá o prazer de rever seus amigos. É uma pena que seu líder tenha morrido em Aurien. – andava sem rumo. - Morto pela barreira que ele e Asher construíram. Ironia...

- O que veio fazer aqui?

- Resolveu falar. – sorriu. – primeiro falar que logo sairá dessa prisão, pois já tenho Abisko.

A anjo arregalou os olhos, os humanos da terra média tinham perdido?

- Será questão de tempo o poder de Abisko ser liberado e Ninkai e Devakai caírem ao meu controle.

- O que houve com a guardiã?

- Está preocupada com a jovem humana? – fingiu surpresa. – ela está viva pelo menos por enquanto.

Mikael andou até a mulher e grosseiramente segurou o queixo dela, fazendo as íris prateadas o fitarem diretamente.

- Quando o poder estiver em minhas mãos será melhor para você continuar me servindo. E não apenas nas revelações... – olhou de forma maliciosa para o corpo dela. – te vejo em breve An Clár.

O arcanjo aproximou o rosto do dela, a ponto das respirações se misturarem. De forma bruta a empurrou e saiu daquele local.

As asas brancas reluziam no céu. Mikael trazia um sorriso confiante. An Clár, apelidada de Revelação era o último anjo que fazia parte do séquito de Gabrian e como tal ela possuía o dom de ver o futuro. E como a última do seu clã, se ela perecesse, o dom perderia-se para sempre.

Procriação não existia em meio aos anjos e o relacionamento entre eles e humanos era inconcebível, uma falta grave.

- "Para quem desceu tão baixo, ceder à luxúria não é nada." – pensou, enquanto se lembrava que entre alguns caídos haviam híbridos. – "mas em prol do objetivo maior isso será necessário... preciso garantir que o clã dos reveladores ainda exista..."

Mikael estava decidido que logo após conseguir os poderes de Abisko tomaria An Clár, gerando um descendente. Sendo o único governador dos três reinos, ninguém ousaria questionar seu ato, garantindo assim a chave para o futuro.

- "Ela é bonita... dará uma boa cria." – sorriu.

No lago...

No chão, a jovem sentiu os olhos marejarem. Se Abisko caísse nas mãos do arcanjo do Fogo, não apenas ela, mas todos os seres estariam condenados. Além disso, o jeito que o arcanjo fitou o corpo dela fez lhe ocorrer um pensamento sombrio. Cortando seus pensamentos, o chão sob si começou a brilhar. Ela enxugou as lágrimas passando a olhar os desenhos que eram mostrados a ela.

- O que...

Viu a terra dos anjos ser manchada de sangue e depois um local que desconhecia. Lembrava muito a antiga Lemuria, mas os moradores eram outros. Viu em meio deles, o rosto de um homem de olhos verdes e longos cabelos azuis. A visão cessou.

- O que significa...?

Ficou preocupada.

O.o.O.o.O

Kesabel estava em seu quarto aguardando novas ordens. Subitamente lembrou-se de alguém. Abriu as asas voando.

A séculos Lúcifer não deixava seus domínios. Odiava ter que andar no mundo dos humanos, mas aquela era uma emergência. Usando seus poderes, ele suprimiu suas asas, cauda e chifres, tornando-se apenas um gótico excêntrico.

Os olhos arroxeados fitaram a placa em grego.

- "Mortais e suas línguas..."

Entrou num prédio em estilo clássico, onde abrigava uma das bibliotecas de Athenas. Munido do seu melhor sorriso, pediu auxílio a uma atendente sobre um assunto específico.

Procurando um local mais afastado, Lucy abriu o livro sobre mitologia grega. Os dedos passaram rapidamente algumas páginas até chegar onde queria.

- Palas Atenea... – sussurrou.

Leu tudo que falava sobre a deusa. Apesar de Astaroth ter relatado sobre ela, tinha algo na história que estava faltando. Após isso foi para a sala de informática, tendo dificuldade. Usou seu charme e uma garota o ajudou a acessar sobre "Saori Kido".

- "Não fala nada sobre seus pais biológicos... mas ela precisa de um corpo mortal..." – relaxou na cadeira. – "Astaroth disse que o mestre a encontrou embaixo da estátua...- Lucy olhava fixamente para a foto de Saori. - "tem algo que não encaixa... as duas são muito parecidas..."

Sem encontrar o que procurava, Lucy voltou para Devakai.

- Está tudo pronto senhor. – disse Azazel assim que o viu.

- Estão em Bahamuto?

- Sim.

- Quero olhar de perto.

Os dois rumaram para os confins de Devakai. Bahamuto era um vale sombrio, em meio a uma cadeia de montanhas. Não havia nada ali, nem mesmo o ar era agradável. Um rio, de águas negras e pastosa separava a região em duas. O céu estava constantemente coberto por nuvens cinzas. Era um lugar inóspito e nem os próprios caídos gostavam de ir. Era lá que Lucy concentrava seu exército de anjos e homens corrompidos. Eram centenas.

- Fizeram um bom trabalho. – fitou Azazel. – passarei as instruções aos outros generais. Vamos.

O.o.O.o.O

Shion e Saga tinham se retirado para providenciar o transporte que os levaria às ruínas submarinas de Lemuria. Gabrian recolheu-se para poupar energia e os demais se espalharam.

Aioria descia solitário em direção a casa de Sagitário. A hora de confrontar Aiolos se aproximava. O leonino adentrou na nona casa, mas não foi para a área íntima e sim para onde ficava os dizeres do irmão.

- O que...?

Ficou em choque ao ver a placa que trazia as palavras despedaçadas no chão.

- Como...? – agachou olhando os pedaços.

- Aioria.

Ele nem escutou as vozes dos companheiros. Eram Deba, Miro e Giovanni.

- O que foi Aioria?

- Destruído... – os olhos estavam marejados. – a placa está destruída...

- Quem faria isso? – Miro parou ao lado do leonino.

- Destruíram...

- Foi o Aiolos.

Olharam para Giovanni.

- Está dizendo que meu irmão destruiu isso? – Aioria levantou na hora revoltado. – ele não destruiria seus próprios dizeres.

- Não foi Aiolos que destruiu e sim Raziel. Não estão sentindo resquício do cosmo dele?

Sentiram.

- Por que ele faria isso? – Deba fitou as rochas com pesar.

- Raziel quer apagar tudo que o lembra sobre sua humanidade. – Mask agachou pegando uma pedra. – e isso é o que mais o aproxima de Atena.

- Seu idiota! – Aioria deu um murro no chão. – idiota!

- Aioria... – murmurou Miro.

- Eu vou contar ao Seiya, ele não vai perdoá-lo... – fechou os olhos pois não queria que os companheiros o vissem chorando. – seu idiota... – sentia que a cada minuto perdia seu irmão.

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Afrodite foi para a vila, esperaria as ordens de lá. Durante o trajeto pensou nas novas descobertas. Atena carregar Abisko e ser filha de uma lemuriana era surpreendente. Como Atena reagiria ao saber de sua mãe? Foi para os arredores de Rodorio certificar que tudo estava em ordem e nem desconfiou que alguém o observava. Antes de atravessar a barreira do santuário, Kesabel recolheu suas asas. Aproveitando que eles não podiam sentir a energia, ficou observando o vaivém das pessoas na vila até que viu Gustavv. Ela sabia que se seu senhor descobrisse a ida dela poderia custar sua vida, mas seu lado humano estava curioso a respeito do cavaleiro de Atena. Ao ver que ele seguia por um caminho o seguiu.

- Não deveria andar por aí numa guerra.

O sueco arregalou os olhos, virando-se para trás.

- Kesabel?!

- Oi.

- O que faz aqui?!

- Não vim atacar e nem a mando de ninguém. – elevou as mãos em sinal de rendição. – queria apenas te ver.

- Como?

Diria algo, mas a mente paralisou. Se ela tivesse o poder de ler mentes, o segredo de Atena seria descoberto, inclusive que Gabrian estava vivo. Nem se mexeu, quando ela caminhou até ele. Vendo que não havia perigo, Kesabel fez suas asas voltarem. O pisciano ficou impressionado por elas. Eram lindas.

- O que faz aqui? – fez um esforço para que sua mente não fosse acessada.

- Já disse. – sentou próxima a uma árvore. – vim ver você.

Ele a fitou desconfiado.

- Se eu quisesse te matar, já estaria morto. Senta aí. – apontou para a grama.

Dite achou tudo uma loucura, ainda mais por querer sentar perto dela.

- Parece que a barreira não é nada para vocês. – a fitava desconfiado.

- Não. – sorriu. – não me olhe assim, já disse que não vou fazer nada.

- É uma inimiga.

- Prefiro dizer que temos objetivos diferentes.

Ele não respondeu. Aquilo era uma armadilha. Com certeza Shaka estava à espreita.

- Cadê o Shaka?

- Shaka? – estranhou. – ah, Astaroth? Está em Devakai. Relaxa, ninguém sabe que estou aqui. Por ser meio humana consigo transitar mais livremente pelos dois mundos. E nem se preocupe, não há ninguém num raio de metros, ninguém vai nos ver.

Afrodite olhou bem para ela. Os cabelos brancos desciam até a cintura, encobrindo o generoso decote do vestido na cor roxa. A pele morena deixava os olhos ainda mais verdes. E o sinal que havia perto dos olhos era um charme a mais.

- "Como um demônio pode ser tão lindo."

- Pode perguntar. – sorriu. – ficou olhando para a minha marca.

- É de nascença?

- É herdada. – voltou a atenção para alguns passarinhos que estavam no chão. – Quando o senhor Lucy se rebelou, todos que o seguiu, receberam chifres, cauda e essas marcas. Cada um possui a sua. Inclusive Astaroth.

- Antes todos tinham asas brancas?

- Sim. De menos eu. Eu nasci depois da queda.

- Por quê? – calou-se. Estava conversando com a inimiga?

- Sou híbrida. Metade anjo metade humana. Meu pai andou entre os humanos e eu nasci. – o fitou. – até os dois anos era uma criança normal, mas depois... eu herdei tudo do meu pai, até a marca. – apontou para ela. – fui levada por ele, mas ele morreu pouco tempo depois.

- Eu sinto muito.

- Não me lembro dele mesmo.

- E sua mãe?

- Já estava em Devakai com isso bem a mostra. – mostrou as asas. – não poderia viver muito tempo entre os humanos. Então comecei a aprender magias para me disfarçar, porém minha mãe foi morta numa guerra. O senhor Lucy sempre me permitiu transitar pelos dois mundos.

- Mas pode virar anjo?

- Não. E você? Qual a sua história?

A frase o pegou de surpresa. Realmente ela estava ali só para uma conversa?

- Já disse que se eu quisesse você já teria morrido.

- Não nasci nessas terras. Perdi meus pais ainda menino e vim para cá. Sou do norte.

- Nórdico? – indagou surpresa. – já andei por aquelas terras alguns milênios atrás. Era um povo interessante.

- Quantos anos você tem?

- Bem mais que você. – sorriu.

O sorriso dela abaixou a guarda dele.

- Obrigada pela gentileza daquela vez.

- Se eu soubesse que era uma inimiga...

Kesabel riu.

- Você não negaria ajuda, não o Gustavv de hoje. Astaroth me disse.

- Ele contou tudo para vocês?

- É um dos melhores generais de Lucy. Natural que ele reportasse, mas não se preocupe. Não estamos aqui a trabalho. Não me interessa os planos do seu superior da mesma forma que não te interessa os planos do meu superior.

- Essa conversa pode custar nossas cabeças.

- Eu sei e é isso que torna tudo divertido.

- Você é louca.

Apenas sorriu. Realmente Afrodite era um homem bonito. Seu rosto era perfeito e o cheiro de rosas que emanava dele era embriagante.

- Você sempre cheira assim? A rosas?

O sueco ficou rubro com o comentário.

- Desde pequeno eu... sim... É forte?

- É maravilhoso. Nós anjos não temos odores, então é sempre agradável sentir uma fragrância como a sua. – ela levantou. – eu preciso ir.

Dite ergueu o olhar, as asas negras eram do tamanho dela e pareciam macias.

- Posso tocar?

- Claro.

Ainda receoso, Dite tocou na asas dela. As penas eram suaves, aveludadas.

- É macio...

- Obrigada.

O cavaleiro continuou a acariciar até embaixo, permaneceria quando algo chamou sua atenção. Pela posição do sol, deveria ter a sombra dela projetada no chão, contudo não havia nada.

- Não temos sombra. – disse percebendo o olhar dele. - nenhum anjo, nem mesmo os arcanjos. Isso eu herdei do meu pai. Eu realmente preciso ir.

Ele levantou ficando bem próximo a ela.

- Espero vê-lo novamente Gustavv e que não seja no campo de batalha.

- Temos os nossos deveres.

- Eu sei, só vou te dar uma dica, não deixe armas, nem nossas nem dos da luz encostarem em você. Pode ser fatal.

Dite lembrou-se imediatamente do aviso de Gabrian sobre isso. Fez o pensamento desaparecer.

- Está querendo salvar a minha vida? – deu um sorriso.

- Seria ruim você morrer. Não sentiria mais o cheiro de rosas. – disse simplesmente.

- Só por isso quer me salvar? – aproximou seu rosto ao dela. – pelo meu cheiro?

- Você é um humano interessante. – colocou as mãos na altura do peito, alisando vagarosamente. – seria uma grande perda.

O cavaleiro de Peixes nunca faria aquilo, ainda mais com uma inimiga, mas Gustavv faria. Desde que a vira no caminho de Rodorio, aquele rosto o intrigava. Havia uma áurea no entorno daquela mulher, que deixava seus sentidos alterados. Tão alterados que cedeu a vontade de beijá-la. Kesabel ficou surpresa com o ato, mas aproveitou. Já tinha tempo que queria provar aqueles lábios rosados. A ação durou poucos minutos, pois os dois se afastaram quase ao mesmo tempo. Kesabel deu alguns passos para trás antes de abrir suas imponentes asas. Um segundo depois não estava mais ali. Afrodite olhou para o céu.

- "Não sei o que é pior, Aiolos e Shaka anjos, ou eu querendo vê-la novamente."

Dohko apenas acompanhava o serviço de Saga e Shion. Dava até gosto ver dois grandes mestres trabalhando. Pensou em ajudar, mas sentia um forte cansaço. As pernas estavam pesadas.

- Gostaria de saber o que mestre Sage acharia se soubesse que Atena tem um corpo lemuriano.

- Ele ficaria surpreso. – Shion não desviou o olhar de seus afazeres. – ainda mais por saber que Atena renasceu fora do santuário de novo.

- Foi muita sorte ele ter encontrado-a. – descansou mais o corpo.

Shion o fitou, achando estranho o semblante do amigo.

- Algum problema Dohko?

- Não. - levantou, mas por pouco não foi ao chão. - vou indo se precisarem de mim, é só chamar. - sorriu.

Shion não disse nada, mas o comportamento do libriano estava esquisito.

Do lado de fora, Dohko sentiu ainda mais o peso nas pernas. Praticamente arrastou-se até um cômodo anexo, deitando num divã. Talvez alguns minutos de sono ajudaria.

Gabrian preferiu esperar as novas ordens de Shion em seu quarto. Estava sentado na varanda, recebendo os raios solares. Aquele calor o fazia sentir-se vivo.

A batalha contra seus irmãos estava se aproximando e dessa vez não cometeria erros. Mesmo que carregasse a marca faria o que fosse preciso para pará-los.

Escutou batidas na porta.

- Atrapalho?

- Pode entrar.

Um pouco acanhado Shura caminhou até o arcanjo.

- Será que podemos conversar?

- O que te aflige, cavaleiro?

- Dias atrás eu tive um sonho... no passado eu... – contou sobre a morte de Aiolos e a luta contra Aioria em Asgard. – eu sempre peço perdão a Aiolos e ele diz que não guarda ódio ou rancor, mas antes disso tudo acontecer sonhei que estava numa sala rodeada de tronos. Havia pessoas mas eu não conseguia ver os rostos mas eles gritavam assassino.

A expressão de Gabrian não se alterou durante o relato.

- Quando acordei não entendi, mas agora... Aiolos disse que me puniria. Acredito que seja isso.

- É um sonho profético como o do cavaleiro de Leão. – Gabrian apontou para que Shura sentasse numa cadeira próxima. Ele obedeceu. – de fato você feriu um ser divino.

- Ele vai me matar?

- Eu não sei a resposta Shura. Como disse antes, poucos anos convivendo com vocês não vai alterar milênios de história. Nós somos mais antigos que a própria humanidade. Raziel tem raiva de você, não por ser Shura e sim por ser humano. Ele mataria qualquer um que tivesse ferido ele, porém tem um agravante.

Shura que ouvia tudo receoso ficou ainda mais temeroso.

- Se no fundo da sua essência, Aiolos ainda tiver qualquer resquício de mágoa, irá se manifestar ainda mais forte em Raziel. Será como na batalha contra o leonino.

- Eu já esperava por isso.

- Saga e você terão que tomar cuidado com ele. Sinto muito por ser tão franco, já que eram amigos, mas é a realidade.

- No momento que levantei a mão contra Aiolos eu sabia que não teria paz.

No escritório de Atena, Saga aguardava o telefonema sobre a liberação do submarino. Tudo aquilo era um absurdo, cavaleiros usarem submarino e a existência de anjos.

- "A cada guerra as coisas sobem de nível." – pensou. – "só falta descobrirmos que um de nós é rei de outra galáxia." - deu uma gargalhada. - e uma nave espacial pousar aqui.

- E então Saga?

Kanon abriu a porta de uma vez.

- Temos que esperar. Não é fácil arranjar um submarino. – esfregou a testa. – onde isso vai parar Kanon?

- Nós vamos invadir Tenkai e resgatar Atena. Sempre conseguimos não será diferente agora.

- Com o Tesouro do Céu e Trovão Atômico contra nós? Aioria não lutará contra Aiolos e Mu e Giovanni contra Shaka. Ninguém conseguirá. – levantou. - Cadê o arcanjo?

- No quarto. Ele disse que precisa poupar energia.

- Ele é o único que pode lutar de igual contra os arcanjos. – andava de um lado para o outro. - Teremos que derrotar os outros generais primeiro e depois pensarmos no que fazemos com os dois.

- Só temos informações de Azazel, Elemiah, Jeliel e Yekun. Os dois mais fortes e os dois mais "fracos". Ainda tem Dianeirah e Narahim, fora os intermediários.

O telefone tocou. Rapidamente Saga atendeu.

- Entendido. Chegaremos em três horas.

- O que foi?

- Submarino.

Saga passou a informação para Shion que chamou todos os cavaleiros.

- Pegaremos um vôo para Espanha, durante o caminho explico o que faremos.

- Espanha? – estranhou Shura.

- Lemuria está nas águas atlânticas. – disse Gabrian.

- Isso mesmo. Shura e Aioria ficaram aqui para proteger o santuário na nossa ausência.

- O que?! – berraram os dois.

- Precisamos de alguém aqui para entrar em contato com Seiya e os demais. – tinha essa razão, mas também que não queria que os dois fossem. Dificilmente lutariam contra Aiolos. – é uma ordem.

Os dois ficaram em silêncio.

- Vamos.

Durante o trajeto, Afrodite olhava para Gabrian.

- "Realmente ele não tem sombra..."

Sentindo-se observado o arcanjo o fitou. Tinha notado algo.

- Algum problema Gustavv?

- Não. – assustou-se. – só notei que você não tem sombra... – a frase chamou a atenção dos demais. – isso...

- Ninguém de natureza angélica tem sombra.

- Ah...

Não quis perguntar nada e até apressou o passo para juntar-se os que estavam mais à frente.

- Sempre que tiver dúvida pode perguntar.

Gabrian tocou levemente no ombro dele ficando ressabiado. Sentiu sutilmente a vibração que os caídos tinham. Como foi ele a colocar as marcas, cauda e chifres, sabia perfeitamente identificar. Além disso, Afrodite já estivera com um deles. Achou tudo muito estranho.

- "Essa vibração híbrida só pode ser de uma pessoa..."

O.o.O.o.O

Atena estava sentada na varanda do seu quarto. Dali tinha uma esplêndida vista da cidade dos anjos. Vez ou outra via um deles cruzar o céu. Aquele local lembrava muito o Olimpo.

- Como será que eles estão...? – pensou em seus cavaleiros.

Levou a mão à testa. Desde que o objeto havia saído de seu corpo sentia uma ardência no fronte. Era como se tivesse dois pontos de pressão na tez branca.

- Deve ser consequência...

- Seu corpo mortal ainda não se acostumou a esse ambiente.

A deusa olhou para o lado, deparando-se com Raziel.

- Notei que a atmosfera daqui é mais leve.

- É um lugar divino. – ajeitou sua espada.

- Não usará mais o arco e flecha?

- A espada é minha arma principal, mas aquele objeto até que foi útil.

Atena ouvia as respostas sem emoção do rapaz. Será que sua personalidade juvenil tinha sido suprimida?

- Como foi parar na família de Aioria?

- Fui deixado nas cercanias. Era um casal sem filhos. Apesar das limitações dos humanos souberam cumprir suas obrigações.

- Sua família foi só obrigação?

- E o que mais seria? – a fitou. – são reles humanos.

- Aioria e Hilda...

Aiolos franziu o cenho ao se lembrar dos dois.

- Eles são passado. – voltou o olhar para a paisagem. – ao contrário daqueles dois.

- Que dois? – estranhou.

- Os cavaleiros de Gêmeos e Capricórnio. Foram responsáveis pela minha morte e quase colocaram o plano do meu senhor a perder. Irão pagar com a vida.

- Vai matá-los?

- Sim.

A voz saiu com tanta convicção que Atena temeu por seus cavaleiros.

- Raziel.

Os dois olharam para trás. Era Sitael.

- Entrou sem bater?

- Ela é prisioneira. – disse. – ainda mais humana.

- Mesmo assim. O que quer?

- Estão te chamando em Abos.

- Estou indo. – abriu as asas. – vigie até Dianeirah voltar.

- Como quiser.

Sitael sentou no chão, olhando fixamente para ela.

- Você...

- Sitael.

Ele era alto. Suas vestes, brancas e com a espada ao lado lembrava os jovens samurais da Terra e achou o fato curioso. Notou as feições jovens. Ele deveria ter a sua idade.

- É o mais jovem daqui?

- Sim. – respondeu sem tirar o olhar dela. – fui criado por último.

- Quantos anos tem?

- Milhares. Fui criado antes de vocês aparecerem em Ninkai. E sem perguntas, está na situação de prisioneira.

Atena franziu o cenho. Chamando sua atenção, um anjo pousou na varanda. Ao contrário das vestes brancas e o ar divino, aquele anjo trazia o vermelho sangue nas roupas.

- O que faz aqui? – indagou Sitael.

- Estava passando. – Elemiah fitou Atena. – uma garota cuida de Abisko.

Ela não respondeu. Sem se importar, o anjo da Restauração aproximou seu rosto do dela.

- Se parece demais...

- O que...? – Atena recuou um pouco diante da aproximação.

- Nada. – ele recuou. – o que faz aqui?

- Raziel pediu para vigia-la até Dianeirah chegar.

- Hum... – coçou o queixo. – vou vigiar também. – sentou ao lado do jovem anjo.

- O que?! Essa missão é minha!

- Não tenho nada para fazer. – deu nos ombros.

- Vá treinar! – o empurrou.

- Ao respeito moleque!

Atena olhava tudo perplexa, apesar de serem anjos agiam como qualquer humano.

- Quem é o arcanjo superior de vocês?

A pergunta os fez pararem a discussão.

- Não temos que responder para uma humana.

- Raphaelle. – Elemiah deu um tapa nas costas de Sitael.

- Ei! – ralhou.

- Responda quando for perguntado.

- O que aconteceu ao arcanjo da Terra?

Temendo levar outro tapa, Sitael respondeu.

- Foi na batalha de Aurien, não o conheci, pois era criança, ele...

- Continua criança. – Elemiah deu outro tapa.

- Elemiah! – ralhou. – se eu não respondo me bate e se respondo me bate também.

- Força do hábito. – gargalhou. – tudo que precisa saber é que hoje são quatro, - a voz saiu em tom normal. – aliás três, já que o outro é um traidor.

- Entendi Elemiah.

- Preciso ir. – levantou. – você também. – puxou Sitael.

- Para com isso! E não posso sair daqui! Tenho ordens.

- Pois agora estou passando outras ordens. Vamos.

- Mas... a Dianeirah não chegou e o Raziel...

- Converso com eles depois. Vamos.

- Elemiah… - rolou os olhos.

- Vai desobedecer a ordem de um primário? – Elemiah o fitou friamente.

- Não. – Sitael engoliu a seco. Elemiah nunca se referia como primário, mas quando ele fazia isso era melhor obedecer. – estou indo.

- Dianeirah logo chegará Atena. – ele a olhou fixamente. – e também não tem como fugir daqui.

- Eu sei.

Abriu as asas e voou, Sitael foi atrás. A deusa franziu o cenho.

- "Será que ele achou a minha pergunta proposital?"

Sitael voava atrás de Elemiah. Se ele estava calado não puxaria papo. O anjo da Restauração trazia uma expressão séria.

- "Será que ela sabe que Gabrian existiu?"

xxxxxxx

Após a partida de Mikael, Uziel refugiou-se na sala da pintura. Era incrível como nos últimos dias, uma sala que ficou milênios fechada, agora era aberta constantemente. O arcanjo da água sentou no meio do salão fitando as imagens.

Era uma pena que Gabrian não estava mais vivo para presenciar o triunfo deles. Com Abisko a ordem seria restabelecida.

- Esse lugar virou mesmo um refúgio.

O arcanjo olhou para trás.

- Sinto tranquilidade quando estou aqui.

Raphaelle caminhou até o irmão, sentando ao lado dele.

- Era o lugar favorito dele. – apontou para o arcanjo da Terra.

- Mikael ainda não voltou?

- Não. – Rapha balançou a cabeça. – teremos que ir para Aurien?

- Acredito que sim. Foi o local que ele e a lemuriana escolheram para guardar Abisko. Faz sentido ser lá o lugar para abri-lo.

- Eu não queria ter que pisar lá. – olhou o retrato do irmão mais velho.

- Por quê? – Uziel ficou surpreso.

- É o lugar onde Gabrian morreu. Um arcanjo de grande poder morrer daquela forma e num local como aquele. Ainda escuto a voz de Mikael dizendo que Aurien o destruiu.

- Foi um choque para todos. E se não bastasse, todo o séquito dele morreu. Gabrian tinha muitos anjos ao seu dispor e só sobrou An Clár. Nem Cahethel e Achaiah sobreviveram e eram generais primários.

- Tudo culpa de Lucy. Ele é responsável por tantas mortes. Não sei como não tem aquela marca...

- Ela só aparece quando se mata um arcanjo e felizmente Lucy não desceu tão baixo. Ainda não, pois acredito que ele chegará às últimas consequências.

- Acha que ele tentará contra nós? – Raphaelle indagou surpreendido.

- Eu não duvido. Mikael é estrategista, mas impulsivo ao contrário de Lúcifer. Ele nos deixou trazer a humana. Para quem está tão decidido em ter o poder ele está planejando algo grave.

- Não pode ser Uziel... – Rapha levantou. – ele vai querer matar um de nós?

- Sim. – também levantou. – ele fará de tudo para conseguir Abisko.

xxxxxxx

Dianeirah e Raziel conversavam quando Elemiah e Sitael pousaram perto deles.

- O que faz aqui? – indagou Raziel.

- Elemiah que mandou. – disse o jovem. – não me deixou ficar lá.

- É obrigação sua. – Elemiah disse seco. – vá antes que Mikael fique bravo.

- Sitael... – o ex cavaleiro o fitou torto. – eu pedi...

- Ele mandou. – apontou para o outro anjo. - Eu não tive culpa.

- Francamente. – bufou.

Raziel voou.

- Vá treinar Sitael. – Elemiah praticamente o empurrou.

- Elemiah! – berrou. – vou reclamar!

- Vá logo garoto. – o empurrou mais forte.

- Isso vai ter volta.

O jovem partiu. Dianeirah olhava tudo entediada.

- Pare de tratar Sitael assim. Ele é um general.

- Preciso conversar com você.

A seriedade da voz dele, deixou a mulher surpresa.

- Qual o assunto?

- Primeiro a humana. Não está achando ela muito tranquila para quem foi sequestrada?

- Deve ser a personalidade dela. Raziel disse que ela é assim.

- Pode ser...

- Não é isso que está te incomodando. – ela o conhecia muito bem. - Fale Elemiah.

- Raziel...

Dianeirah indicou para que eles fossem para um local mais reservado.

- O que tem ele?

- Deve ter notado. – olhava um ponto qualquer. – Ele está estranho desde que voltou.

- Estranho como?

- Seu elgin vibrando diferente, ele acertando a pena de Jeliel. O sacana do Jeliel estava muito longe, ele não conseguiria acertar.

- É o resultado do treinamento que passou naquele local. Não vejo nada de anormal.

- Ele ficou sentido quando destruiu aqueles dizeres. Nós não temos isso.

- É devido a sua vida humana.

- Não é Dianeirah. – a voz saiu mais grossa. – você viu como ele ficou. Ele hesitou em destruir. Viu que ele abaixou a espada para a humana? Ela deu uma ordem e ele obedeceu. Um general de Mikael obedeceu a ordem de outra pessoa.

A jovem ficou em silêncio. Também havia notado essas coisas, ainda mais o fato dele se referir ao seu "irmão" humano.

- Acha que a fase em Ninkai pode ter afetado mais que o normal?

- Desconfio Diah. – bagunçou os cabelos brancos. – pode ser apenas consequência do tempo exposto, mas sei lá.

- Será apenas uma fase. – sorriu. – logo o teremos de volta.

- Espero que sim.

Ela continuou a sorrir, mas por dentro ficou preocupada. As dúvidas de Elemiah não eram tão infundadas. Tinha também o beijo. Aquilo não era comum.

- "O que está acontecendo com você Raziel...?"

Mikael pousou em seu quarto, seguindo para uma ala especial do palácio. Entrou numa sala sem ser visto. Seu plano estava caminhando perfeitamente. Só restava ir até Aurien ativar Abisko. Mirou-se num grande espelho que havia no recinto.

- Falta pouco para me tornar o ser absoluto. – sorriu, ao ver refletido o pequeno objeto: Abisko.