O ar estava pesado, meus pensamentos giravam sem controle, fervendo de ódio.
O sangue subia à minha cabeça, e minhas mãos tremiam, não de medo, mas de pura raiva.
Sabia que isso não era um erro, não havia equívoco no meu nome sendo chamado.
Era uma conspiração, uma punição por algo que fiz ou que sequer tive a chance de fazer.
Saio do palco com passos pesados, quase tropeçando nas escadas, enquanto os Pacificadores já me seguiam de perto, suas mãos prontas para me conter.
Mas não estava interessada em fugir dessa vez.
Não ainda.
Primeiro, queria respostas, e sabia exatamente quem me responderia.
Meus pés me levaram rapidamente até a base dos Pacificadores, o edifício frio e cinzento era tão familiar quanto repulsivo para mim.
Pensei que nunca voltaria para esse lugar, mas mais uma vez estou aqui, não como uma prisioneira que tentava de todos os modos fugir com uma rebelde, mas como uma Tributo pronta para morrer...
Cada batida do meu coração era um lembrete doloroso do lugar que queria esquecer.
O ar ao meu redor estava pesado, e uma mistura de ansiedade e raiva me consumia.
Era como se as paredes frias estivessem se fechando ao meu redor, sufocando-me lentamente.
Cada degrau que subia era um lembrete do meu passado — momentos de desespero e traição que insistiam em ressurgir.
Minha mente girava em um turbilhão.
O que diria a Hoff?
A ideia de confrontá-lo, de exigir respostas, queimava em meu peito como um fogo inextinguível.
Não tinha mais medo; a raiva era minha aliada agora, um combustível que me impulsionava a seguir em frente.
Com um empurrão forte, as portas se abriram e os Pacificadores me olharam confusos, sem saber como reagir à minha presença ali, afinal, não era ali que eu deveria estar.
_ Onde está o Hoff? - Gritei, minhas palavras ecoando pelos corredores.
Meus olhos faiscavam de raiva e mesmo assim, observavam o ambiente para encontrar o dito cujo.
_ Ele está aqui, não está?
Os Pacificadores hesitaram, trocando olhares nervosos, mas eles me conheciam e era um dos motivos que não estou sendo contida por falta de disciplina.
_ Logotipo Falem! - Continuaram em silêncio, o que me irritou o bastante para empurrá-los para o lado.
Caminhei em direção da sala daquele homem, tentando não pensar nos momentos que tive que vir para esse lugar repugnante.
A porta da sala dele se aproximava, e a cada passo, sentia meu coração disparar.
Empurrei a porta com um movimento brusco, e ela se abriu com um rangido que cortou o silêncio como uma lâmina.
O som da porta batendo com força contra a parede o fez levantar a cabeça.
E lá estava ele: Comandante Hoff, sentado em sua cadeira de couro, como se nada tivesse acontecido.
Analisando papéis como se fosse apenas mais um dia qualquer.
_ Juníper... - Começou a dizer, mas sua voz era calma demais, fria demais, como se a situação estivesse completamente sob controle.
_ Você não tinha o direito de fazer isso! - Gritei, avançando para o meio da sala.
Meu corpo tremia, mas não recuei.
_ Não tinha o direito de me colocar nisso!
Minha respiração estava descontrolada, me fazendo arfar sem necessidade.
_ Falei para você que não queria mais fazer parte dos Jogos e você vai lá e me coloca? - Ri azeda.
_ Não fiz nada. - Cruzou os braços e se inclinou-se na cadeira. _ Seu nome foi sorteado, e todos os jovens estão sujeitos a isso. - Parecia zombar. _ Você sabia disso.
_ Não me venha com essa desculpa esfarrapada! - Estava a poucos passos de distância.
Meus punhos cerrados com tanta força que minhas unhas perfuravam a pele.
_ Você me colocou nisso, Hoff. - Respirei fundo, tentando me acalmar.
Ele me olhou por um momento, seus olhos calculistas avaliando minha raiva.
Então, ele se levantou lentamente, como se não houvesse pressa.
_ Não se engane, Juníper. - Zombou. _ O mundo não gira ao seu redor.
Caminhou até a janela, observando a movimentação lá fora.
_ Você se colocou nessa posição, as escolhas que fez, as alianças, sua rebeldia... - Suspirou. _ Tudo isso a trouxe até aqui.
Minha respiração estava pesada, o calor subindo pelo meu pescoço e queimando meu rosto.
_ Pedi tantas vezes para me colocar e só agora que não precisava, você vai e me coloca? - Murmurei, sentindo as lágrimas de ódio brotarem, mas logo as sequei. _ Você é uma pessoa horrível.
Ele se virou para mim, agora com um sorriso frio no rosto.
_ Eu quis protegê-la, mas você não quis minha proteção, sempre preferiu a rebeldia e suas próprias escolhas. - Ficou me observando. _ Agora arque com suas consequências.
Sacudi a cabeça, negando suas palavras, mas ele continuou.
_ Você está nos Jogos, e agora, você tem duas opções: morrer como a aberração que todos esperam que você seja... - Deu de ombros, fazendo seu sorriso cínico crescer. _ Ou lutar e mostrar a eles o quão errados estavam sobre você.
Essas palavras perfuraram minha mente como agulhas afiadas, a imagem de todos aqueles rostos sorrindo, desejando minha morte passou por minha cabeça igual a um redemoinho.
Queria destruí-los, todos eles, mas as palavras de Hoff tinham um peso terrível de verdade.
Minha raiva não desapareceu, mas se transformou em algo mais focado.
Poderia morrer na arena, talvez fosse o mais provável, mas se fosse para morrer, não seria como uma vítima indefesa.
Faria deles meu alvo, teria minha vingança.
_ Vou sobreviver. - Sussurrei, minhas palavras saindo quase como uma promessa. _ Mas não por você.
_ Nunca imaginei que sobreviveria por mim. - Suspirou. _ Vai ter que matar a sua querida Lucy para vencer, está preparada para isso?
Lucy... Ela também estava nos Jogos e deveria matá-la para vencer, mas não tinha coragem para isso.
Não tinha coragem nem mesmo de imaginar a cena, então como eu realizaria esse meu desejo de vingança?
As palavras de Hoff ainda reverberavam na minha mente, mas o peso da realidade começou a se intensificar quando os Pacificadores entraram na sala.
A maneira como se moviam, com suas roupas limpas e rostos inexpressivos, fazia meu estômago revirar.
Estava cercada por eles, e a sensação de impotência era sufocante.
_ Por que eles estão aqui? - Os observei. _ O que pretende fazer comigo?
_ Você é uma Tributo e deve se comportar como uma. - Dei alguns passos para trás, sentindo mãos em meus braços.
_ Não! - Gritei, sentindo o desespero tomando conta do meu corpo. _ Faça tudo comigo, mas não me coloque naquele lugar. - Supliquei, sentindo o aperto em meus braços, tentando me tirar da sala de qualquer maneira.
_ A levem daqui.
Meus pés tentaram se fincar no chão, mas eram inúteis.
Quanto mais eu tentava me soltar, mais firme era o aperto.
Cada movimento deles era mecânico, e a frieza em seus olhos me fez sentir como um animal acuado, sendo levado de volta a uma jaula que detestava.
_ Juro por tudo que é mais sagrado... - Gritei, mas minha boca foi tampada por um pano.
Mas isso não me impediu de ver aquele homem pela última vez.
Juro por tudo que é mais sagrado que irei fazer a vida desse homem um inferno, ou não me chamou Juníper.
Respirei fundo, quase me engasgando com o ar e morrendo no processo, mas enquanto eles me arrastavam pelos corredores, a familiaridade daquele caminho se misturava à repulsa.
As paredes frias e cinzentas pareciam se fechar ao meu redor, e cada tropeço em direção ao quartinho trazia de volta as memórias mais horríveis da minha infância.
Esse lugar era pior que o laboratório, mesmo que não estivessem me fazendo de cobaia para experimentos loucos, era melhor ter meu estômago costurado do que esse inferno de cela.
A escuridão, a solidão e tudo que me fazia pensar nos dias mais sombrios da minha vida se encontrava naquele lugar, naquele quartinho minúsculo.
Não queria reviver aquele pesadelo, não de novo...
A visão da porta de metal à frente me atingiu como um soco, e o medo cresceu em mim, brutal e desesperador.
Não podia e não queria voltar para aquela cela.
Com um impulso que veio de algum lugar profundo, me debati com toda a força, tentando torcer meus braços, chutando para trás, buscando qualquer movimento que me soltasse do aperto deles.
Cuspo o pano e grito, abafando minhas súplicas.
_ Me soltem... - Solucei, sentindo minha garganta queimar e meus pulmões ficando sem ar. _ Não posso ficar lá de novo!
Por um instante, senti um dos Pacificadores afrouxar o aperto, e aproveitei para tentar escapar, me jogando para o lado, quase tropeçando, mas sem perder o ímpeto.
Meu coração martelava no peito, e minhas pernas tremiam, mas continuei lutando. O medo fazia minha força parecer infinita.
Mas eles foram mais rápidos, antes que pudesse me afastar, senti as mãos deles me agarrando novamente, dessa vez com ainda mais força.
Um deles me segurou pelos ombros, me puxando de volta, enquanto outro mantinha meu braço firme, torcendo-o levemente para impedir qualquer tentativa de fuga.
A porta estava mais perto agora. Minha respiração se acelerava, como se cada passo fosse uma sentença final, uma entrada obrigatória naquele pesadelo que me esperava.
A porta se abriu, revelando o interior sombrio que eu conhecia tão bem — paredes nuas, uma cama estreita e um silêncio opressivo.
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, fui empurrada e a porta se fechou atrás de mim com um estrondo, ressoando como um eco de todas as minhas esperanças despedaçadas.
Fiquei ali, paralisada, absorvendo a escuridão que me cercava.
O desespero me invadiu, e não consegui conter a sensação de claustrofobia.
Com os punhos cerrados, bati na porta de metal, arranhando-a com as unhas.
_ Me deixem sair! Por favor!
Minha voz soava distante, fora de sintonia com os meus ouvidos e aflição.
Continuei a berrar, pedindo que me tirassem daquele lugar o mais rápido possível.
Mas tudo que ouvi foi o silêncio de minhas palavras ecoando pelo vento.
_ Por favor. - Supliquei mais uma vez, enquanto minhas pernas caiam sem se importar com a dor do impacto.
Aquele silêncio esmagador era pior do que qualquer tortura física.
Estava de volta ao meu próprio inferno, sufocando-me de dentro para fora.
Sabia que dali não escaparia tão cedo, sabia o que me esperava. Mas o pior de tudo era que, naquele quartinho, não era apenas eu.
A sombra dela pairava ali, como um fantasma que nunca me abandonaria.
A primeira vez que fui trazida para esta cela, meus gritos haviam sido abafados pelos dela.
Kamile... Lembro perfeitamente como era seu rosto e sua voz, era uma mulher vitoriosa por ter conseguido sobreviver por tanto tempo no Distrito sem enlouquecer.
Kamile me contou sobre sua vida, que ela não era uma residente desse lugar, que ela apenas foi forçada a ficar.
A guerra a destruiu, a deixou sem saber o que era verdade ou não, ela não confiava em ninguém, nem mesmo em si.
Aquela mulher tinha um sotaque carregado, mas o fantasma que assombrava não falava, apenas me observava.
Ela estava morta, mas toda vez que entro nesse lugar, eu a vejo, a sinto e me desespero pensando que ela veio para cobrar sua vida que perdeu devido a mim.
Porém, nada acontece e apenas continuo lembrando de seus ensinamentos.
Kamile foi uma grande cientista, segundo ela, e seus ensinamentos antes da guerra valeriam milhões de dólares.
Contudo, foi com os ensinamentos dela que consegui fazer tantas coisas com alguns trocados.
Ela sabia dos meus segredos, ela entendia o porquê de estar ali, mas nunca me julgou e apenas me incentivou ainda mais.
Porém, seus traços do oriente a fazia se tornar um alvo fácil, e foi um dos motivos que sua vida acabou bem na minha frente.
A multidão do Distrito doze, com suas expressões de ódio e fúria, a tiraram de perto de mim.
E tive que ver tudo, cada soco, cada chute, cada olhar frio que acompanhava o espancamento.
Eles a lincharam até a última centelha de vida, e eu só pude assistir, impotente.
Então, em uma simples segunda-feira de inverno, minha professora se foi para todo o sempre.
Sem mesmo ter tido a oportunidade de voltar para seu país de origem.
Tudo porque aquele homem deixou eles fazerem isso...
Fechei os olhos, tentando esquecer das cenas que tentavam surgir.
Do vermelho se mesclando com o branco da neve, do seu sorriso ou de suas palavras de confiança, dizendo que tudo ficaria bem.
Mas não ficou, agora sinto uma agonia tão grande por estar nesse lugar que até posso sentir seu cheiro de fumaça que tinha em seu corpo.
Respirei fundo mais uma vez e observei a sala que não tinha mais o esqueleto de Kamile.
Era só eu e meus demônios.
