Sabia que o reitor Highbottom me odiava, todos sabiam, mas meu nome ainda não foi pronunciado para ser mentor de pelo menos um dos tributos dos distritos do onze para baixo.
Minha ansiedade corroía a minha cabeça, tentando manter a compostura e observar aquele homem de estatura tão pequena que poderia chutá-lo para dizer meu nome.
Ele gostava de me punir, como se eu tivesse feito algo com ele, mas sempre fui respeitoso com todos os meus professores.
Até mesmo bajulava a bêbada de minha mentora, Satyria, para ganhar um pouco de conforto entre esses merdinhas que pensavam que eu continuava rico.
Controla-se, Coriolanus Snow, você é o prestigiado aluno dessa escola e você receberá o prêmio quando seu tributo vencer, tudo que ele precisa fazer é sobreviver.
Algo que pode ser impossível se o meu nome não estiver ali... Será que não está? Dei o meu melhor para ser o melhor aluno, com as melhores notas e agora estou for a dessa competição?
Injusto!
Até mesmo o nome de Sejanus foi falado e estou com tanta inveja por ele ter pegado o tributo do distrito dois, – o seu antigo distrito –, que não ouvia mais as palavras do reitor.
O prêmio era uma chance para ir à universidade, reformar aquela casa que poderia cair na próxima chuva, até mesmo poderia comprar lindos vestidos para Tigris ou turbantes novos para a Lady-vó.
Mas tudo que posso fazer é ficar sentado nessa cadeira de estofado vermelho e escutar meu nome não sendo chamado.
_ Agora, no distrito doze foi confirmado um pequeno problema. - Parece que posso morrer nas próximas palavras.
_ Que problemas? - Satyria entornou um pouco de posca em seu queixo. _ Não me diga que todos morreram de fome? - Zombou, mas pude ouvir sua barriga roncar.
Não éramos tão diferentes deles, apenas que estávamos usando máscaras para aparentar grandeza e riqueza, algo que não tínhamos.
_ Não, olhem para a tela e vocês saberão o problema. - Minha atenção foi para a tela que mostrava em letras garrafais "distrito doze".
Os outros alunos sentados em extremidades opostas ficaram em silêncio e todos se perguntavam: o que aconteceu?
_ Lucy Gray Baird! - A mulher gritou e uma garota estranha com vestes ainda mais estranhas apareceu.
Tudo aconteceu muito rápido, mas os risos e suspiros de descrença foi o que prevaleceu quando o tapa acertou no seu rosto.
A garota parecia chorar, mas Carmela, algo como apresentadora para o distrito mais pobre e menos atrativo, mudou atenção do público. Ela realmente era boa e a senhora Gaul deve estar em êxtase.
Entretanto, suas palavras me fizeram desgrudar minhas costas da cadeira e prestar atenção nos dois nomes que saíram de sua boca.
Inédito, inacreditável e desafiador...
"Odeio vocês!"
A segunda garota exclamou com tanta raiva que senti o meu couro cabeludo arrepiar.
Mesmo não sendo tão atrativa quanto aquela primeira, a que parecia ter vindo de um circo, tenho certeza de que sua raiva chamou atenção da Capital.
As pessoas da Capital estavam com raiva e descontavam ela nessas pessoas, e essa garota poderia ser um exemplo perfeito do que todos queriam fazer com o restante desse mundo.
Matar e punir.
A sua voz não acabou, mas seu sorriso ficou amplo em seu rosto fino e com bochechas salientes.
Acho que se não fosse a desnutrição, seus olhos castanhos dourados que pareciam ouro líquido não seriam opacos e seus cabelos negros como o céu, não seriam cinzentos.
_ Ela é linda. - Felix sussurrou com suas bochechas rosadas. _ Posso trocar? - Levantou a mão e o professor olhou para trás, com seu monóculo.
_ Essas pessoas não são objetos, senhor Ravinstill. - O garoto de cabelos medianos nem mesmo ficou ofendido, mas sua atenção voltou para a tela.
_ Então, são realmente três ou um deles irá morrer ao longo do caminho? - Satyria me fez piscar algumas vezes.
_ O quê? - Perguntei, como se isso fosse um absurdo, eles foram sorteados e não deveriam morrer assim.
O reitor se levantou e nos observou com seus olhos atentos, tentando saber o que faria.
_ Serão três, mas a garota... - Olhou o papel. _ Juniper Ever não terá um mentor apenas para si. - Meus ouvidos doeram pelos sussurros.
_ Então? - Clemensia parecia mais ansiosa que eu. _ Quem será o sortudo? - Jogou os cabelos negros escorridos para trás.
_ Jessup Diggs terá a mentoria de nossa aluna Lysistrata Vickers. - Ficou satisfeita. _ E as duas garotas terá a mentoria do senhor Coriolanus Snow.
Minha boca abriu para contestar, mas as palavras não saiam e os olhares me queimavam, mas o único pensamento era: esse filho da puta quer me matar?
Não adiantava me colocar como mentor do pior Distrito que existia em Panem, mas queria me colocar não com uma desnutrida, mas com duas?
Elas irão morrer em menos de dois minutos na arena.
Já podia ouvir a Lady-Vó delirando por falta do dinheiro e a Tigris sendo maltratada pela Fabricia... Merda, o que faço? Deixo uma morrer e coloco todas as minhas fichas naquela que me provar que vencerá?
Ou terei que fugir da Capital com a minha família? Não, quem faz isso é esquecido e menosprezado por todos.
_ Senhor Snow, está me ouvindo? - Quero estrangulá-lo. _ Quer desistir? Não me importaria de colocar outro no seu lugar.
_ Serei o mentor das duas. - Seu sorriso congelou. _ Obrigado pela confiança, reitor Highbottom. Uma não era suficiente para provar que sou capaz e logo me trouxe duas, agradeço sua generosidade.
Palavras preenchidas com ironia e acidez, era o que a Lady-Vó me ensinou quando não surtava por pensar que estávamos na guerra.
Lembro dela dizendo que seus inimigos poderiam morrer pelas suas mãos, mas suas palavras eram a chave de qualquer rebelião.
_ Dispensados, os tributos devem chegar amanhã ou em dois dias. - Pegou o vidrinho de morfina em sua roupa e o bebeu, enquanto saia desse lugar.
Ainda não conseguia me mexer ou caminhar para o refeitório para tirar o gosto amargo da sopa de repolho da minha garganta.
Estava hipnotizado por aquelas duas meninas que apareciam vidradas na tela, mostrando como uma poderia aguentar um tapa e ser tão letal com seu olhar.
Mas a outra não temia a morte e transpirava raiva até mesmo de longe, as duas eram opostas e não sabia o que fazer.
_ Você não parece feliz. - Sejanus sussurrou, mas era ele que não estava feliz.
_ Você pegou um dos bons dessa ninhada. - Franziu o cenho.
_ Sou da ninhada. - Certo, seu pai é um dos novos-ricos da Capital, uma abominação.
Acho que todos o odeiam por perceberem que se Sejanus conseguiu entrar com dinheiro na Capital, o que impediria a ralé entrar também?
Estávamos perdendo o nosso lugar para que essas pessoas entrassem e usurpassem o nosso pequeno e maltratado trono.
_ O que fará? - Não sei e não quero saber no momento, então apenas me levantei.
_ Encontro você por aí. - Saio sem olhar para trás, não estava com cabeça para socializar e dizer que estava tudo bem.
Apenas queria comer e esquecer que aquelas pessoas existiam.
A caminhada para o refeitório não foi tão satisfatória quanto pensei, as pessoas ainda me olhavam como se estivesse carregando uma mina de dinheiro.
Agora sou o sortudo dessas pessoas, o mentor que tinha duas chances de vencer, mas que tinha o dobro de trabalho e de perda.
Acho que nem mesmo os professores queriam me interromper com falsa bajulação, eles entendiam o meu sofrimento, mesmo que no meu rosto não tivesse nada para mostrar.
Ele estava impecável e até os meus cabelos estavam no lugar, então a minha máscara não mostrava nenhum trincado, mesmo sabendo que ela podia mostrar a minha raiva transbordando pelos lados.
O refeitório estava cheio e apenas algumas mesas estavam vazias, o que me fez apressar em pegar a bandeja e observar o que tinha para hoje.
Torta! Quanto tempo não vejo ou sinto o sabor em minha boca? Provavelmente quando as paredes de minha casa não estavam trincadas ou que não existia canibalismo em meu vocabulário.
_ Um pedaço bem grande. - Minha mão tremeu antes de pegar o pedaço de torta.
_ Reitor. - Realmente o odeio, mas apenas peguei a torta.
_ O que senhor fará depois dos Jogos? - Meu coração tremeu.
_ Irei para a universidade, senhor. - Sorri e fui pegar outras coisas ali.
Já que depois que a Capital ficou sem comida durante a guerra, devido aos distritos fecharem suas barreiras para que morrêssemos de fome.
Os restos eram luxo e os ossos era raridade, mas agora, depois de dez anos, eles que sentem fome e nós, que voltamos a nossa antiga glória, comemos até enjoar... Bom, nem todos.
_ E se o senhor não tiver o prêmio? O que fará? - Engoli em seco e parei de pensar em comida.
_ Pagaremos. - Riu e observou todos os alunos atrás de mim, comendo e rindo.
_ Sei que não podem, vocês são mais pobres que o Distrito 12 e foi um dos motivos que o coloquei como mentor. - Semicerrei os olhos. _ A neve derrete, Snow, e sua glória e riqueza derreteram com seu pai.
O seu tapinha em minha cintura me fez enrijecer e apenas o vi sair do refeitório para voltar a sua vida medíocre.
Volto a minha atenção para a comida e vou até uma das mesas vazias, saboreando a torta que não tinha mais sabor em minha boca.
_ Então aqui está o sortudo. - Clemensia se sentou a minha frente. _ Acho que o reitor estima muito você. - Ela nem imagina. _ O que fará?
_ Alguma ideia? - Essa garota era uma das minhas conhecidas mais próximas, ainda mais que faço dupla com ela nas pesquisas e nas aulas.
_ Nenhuma, mas boa sorte com as suas loucas. - Riu e começou a comer.
Loucas... Acho que posso acabar virando um se isso continuar, ou já sou e apenas escondo.
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Andei de um lado para o outro no quarto, tentando fazer a Tigris entender o meu lado.
Mas ela era uma humana demais, boa e perfeita demais para entender os meus sentimentos.
Ela era a melhor prima que pude desejar em todos esses anos de minha vida, mas ela precisava entender que meus sentimentos são tão nebulosos quanto a chuva que sempre caia.
_ Coryo, se você continuar assim, acabará fazendo um buraco no chão.
_ Mais um? - Zombei. _ Tigris, entenda, são duas garotas medíocres, e se uma delas não vencer, acabou prêmio.
_ Posso pegar mais alguns serviços com a Fabrícia, vamos dar um jeito nisso. - Discordei. _ Você está transformando isso tudo em uma tempestade, você nem conhece elas.
_ Já posso adivinhar que são completamente loucas e irão morrer...
_ Só se você deixar.
O abajur tremeu quando me encostei na mesa, observando os olhos fundos e olheiras gigantes em seu rosto, me fazendo me desculpar com ela.
Ela não tinha culpa que aquele homem me odiava, ou que estávamos nessa situação ultrajante.
Quem mandou colocar todo o nosso empenho e dinheiro no Distrito 13? Um lugar que nem mesmo existia mais e nunca irá existir.
Olhei para baixo e suas mãos tinham bolhas...
_ Coryo, elas ainda são adolescentes e uma tem sua idade, aposto que estão com medo.
_ Medo? -Ri. _ O medo que sinto por pensar que podemos ser despejados quando os impostos aparecerem na porta. - Apontei para a saída. _ Não é nada para você?
_ Não falei isso, apenas que vocês podem ter mais coisas em comum. - Arrumou seus cabelos loiros. _ Lembra da Kesa? Aposto que se ela estivesse viva, já estaria dando um sermão em você.
_ Ela está morta e mortos não falam. - Cruzei os braços, odiava me lembrar dela. _ E o que posso ter em comum com aquelas pessoas?
_ Você vai descobrir, você é inteligente, primo. Não pense que não é apenas por ver um obstáculo à sua frente. - Deu batidinhas em minha mão. _ Amo você.
_ Também amo você. - Apertei seu nariz pontudo.
