O carro do presidente era mais confortável do que pude me lembrar, mas ainda não sabia o porquê de estar aqui e ao lado dessa coisa minúscula e afrontosa.

Ainda sentia a dor em meu corpo devido ao seu corpo sendo jogado no meu, ou como suas mãos me forçavam a continuar no chão, algo que odiei.

Nunca fui tão desrespeitado em toda a minha vida, nem mesmo o reitor Highbottom se enquadrava nesse pódio feito na minha cabeça.

_ O que faz aqui? - Sua voz era tão impetuosa que dava raiva.

_ Ainda não foi inventado uma bola de cristal que me diga o futuro. - Chutou minha canela e fiquei impressionado. _ Você me odeia tanto assim?

_ Você me disse para morrer naquela caçamba. - Não se virou e continuou vendo a paisagem.

_ Não era isso que você queria? Que eu não prestasse atenção em você? Então, eu fiz. - Garota louca. _ Por quê? Se apaixonou por mim? - Arrumei meus cabelos.

_ Prefiro beijar os ratos de minha casa do que me apaixonar por você. - Ridículo, por que estamos brigando?

Tigris podia ter razão, as garotas podiam estar com medo e me afrontar era um mecanismo de defesa dessa coisa pequena.

Então se a Lucy falava com mansidão e fazia tudo que eu mandava, essa iria me perguntar o porquê e dizer que minhas palavras estavam erradas.

Acho que o prêmio não vale tanto quanto a minha saúde mental, afinal, o que adianta ter um vencedor se o reitor me odeia? Ele poderia fazer qualquer coisa para complicar a minha vida.

Prestei atenção nela, suas mãos tremiam e seu olhar era raivoso, como um porco-espinho que conheci quando era criança.

_ Está com medo? - Seu nariz se mexeu, mas não falou. _ Por quê?

_ Não é da sua conta. - Ri, ela não iria se abrir comigo, provavelmente já sabe que apenas estou fazendo isso tudo para o meu bel prazer.

Essa coisinha não era tão idiota quanto a outra, ela sabia ver minhas intenções... Era perigosa para os meus planos.

_ Mesmo você não aceitando que sou seu mentor, você precisa se abrir para que eu possa ajudá-la. - Não se mexeu. _ Juníper, o que você quer?

_ Que você cale a boca, está me deixando com dor de cabeça. - Fechou os olhos e se encostou no vidro.

Ela não era adequada para esse carro, suas roupas estavam sujas e seu cabelo todo desgrenhado, até mesmo seu rosto estava manchado.

Mas não posso dizer muito, minha perfeição se foi desde que entrei naquele caminhão.

Não existia mais Coriolanus Snow, o aluno perfeito e rico de Panem. Apenas existia um garoto que se enfiou no meio da sujeira e sua máscara caiu em algum lugar.

_ Desculpa. - Foi como uma picada de mosquito. _ Muitas coisas aconteceram durante esses dias da colheita até aqui, não queria jogar minha raiva em você.

Tirou algo do bolso e me mostrou, era a rosa que a dei, algo que a Tigris convenceu a Lady-Vó de me dar.

_ Pensei que não tivesse gostado. - O motorista nos olhou pelo retrovisor central, mas não falou.

_ É um presente, não posso fazer uma desfeita dessas. - Mesmo que a rosa só tenha algumas pétalas restante. _ Obrigada.

_ Me perdoe também, fui grosseiro. - Sorriu e concordou. _ Vai me dizer o que aconteceu? - Suspirou.

_ Não confio em você. - Já sabia. _ Seu sorriso é falso e parece que cada passo que você dá, é controlado. - Franzi o cenho. _ Você gosta de controlar as pessoas, não é? Para que nada saía do seu controle.

_ É uma mania feia. - Discordou.

_ É a resposta de um trauma. - Deslizou seu dedo indicador pela pétala branca. _ Você viu tudo ruir quando era criança, vendo os adultos conversarem e perderem o controle da guerra, então você vê isso como impotência.

_ Incompetência. - Sussurrei e fiquei assustado, enquanto virava meu rosto para longe dos seus olhos.

Porém, o reflexo do vidro me fez vê-la, o que me fez voltar analisá-la para desvendar cada nuance de seus pensamentos.

Mas era impossível de desvendar algo que acabei de conhecer, ainda mais contendo tantos espinhos ao seu redor.

O silêncio reinou entre nós, apenas com o barulho do carro dirigindo em direção da mansão do presidente, algo que já foi arruinado por bombas, mas que agora estava sendo reformada.

_ Quanto que você paga de imposto? - Sua voz perfurou meu coração, me lembrando que nesse ano todos iriam pagar impostos.

_ Ainda não sei, mas saberei em breve. - Engoli em seco. _ E você?

_ Não muito, Lucy me ajuda em alguns meses. - Deu de ombros, ela falava muito da garota do circo. _ O que você faz na Capital? Claro, além de estudar.

_ Digo para a minha vó quase todas as manhãs que ela está desafinada quando canta o hino de Panem. - Riu e tive que segurar o riso. _ Vejo as novas peças de roupa que Tigris está confeccionando e tento ser amável.

_ Tigris é sua namorada? - Virei meu rosto e neguei.

_ Ela é minha prima. - Cruzei as pernas. _ Uma mulher sensacional e que ama a moda como ama sua família.

_ Você parece amar sua família. - Não discordei, aquelas duas eram tudo para mim.

Antes que pudesse perguntar como era sua relação com sua família, o carro passa pelos portões majestosos e se direciona para o estacionamento dos fundos.

Ainda não sabia o motivo de estar vindo junto ou o motivo dela estar ao meu lado, mas a minha implicância com a garota foi restringida por alguns minutos.

O carro parou perto de uma fonte e o motorista saiu, abrindo a porta do meu lado direito e isso me fez pensar que essa coisinha tinha alguma importância.

_ Senhorita Ever, por favor. - Estendeu a mão e ela a pegou, saindo do carro.

A porta se fechou, me fazendo pensar em largar minha nobreza e sair com as minhas próprias mãos e pés, mas não tive que fazer isso.

_ Senhor Snow. - A porta abriu e saio por ela, arrumando meu uniforme que já tinha alguns visgos.

A coisinha ficou olhando a mansão, não parecia surpresa ou eufórica, mas tinha um ar de saudades.

Seu olhar encontrou o meu e o castanho gelado que tinha visto se derreteu, fazendo que poças de ouro manchassem o meu coração.

Aproximei-me dela, vendo que ela continuava a coisinha irritante e que foi apenas uma ilusão de minha cabeça.

_ Não vou perguntar se estou feia, já que não tomo banho já tem alguns dias. - Cutucou minha costela, mas não doeu. _ Vermelho combina com você.

_ Juniper Ever. - Olhamos para a pessoa que descia os pequenos degraus. _ Já faz algumas semanas desde que a vi pela última vez.

O presidente continuava frio com seu uniforme pré-guerra, mas o sorriso simpático era algo que nunca pude imaginar ver.

Era como se a coisinha fosse alguém importante e que sua vida estivesse em suas mãos.

_ Ainda estou com raiva. - Tirou algo do sapato e mostrou. _ Isso aqui não retirou ela. - Era uma carta.

_ Juro pela minha vida que não fui eu que coloquei seu nome, com certeza aconteceu um erro e estou tentando averiguar. - Olhou-me. _ Senhor Snow.

_ Presidente. - Fui cordial.

_ Vamos entrar, alguém pode nos ver e acabar espalhando boatos. - Caminhou para a entrada de sua casa, fazendo que a gente o seguisse.

Juniper foi à frente, ansiosa para qualquer coisa que tivesse que fazer, mas fui controlando os meus passos e tentando não aparentar a minha ansiedade por estar aqui.

Um dia isso será meu e governarei esse país, como a Lady-Vó e Tigris sempre desejaram.

Apenas que meus sonhos precisavam ficar guardados até a oportunidade aparecer e se a coisinha era alguém importante, era melhor ficar de olho nela do que a garota do circo.

Sua voz impressionou Panem, mas a raiva explosiva foi o que trouxe à tona o sentimento preso em nossos corações.

Entramos na mansão e tinha tantos móveis de luxo que até pensei que tivéssemos voltado para antes da guerra.

Onde a comida não era escassa e meus pais ainda existiam.

_ Estão com fome? - A garota resmungou e isso nos fez entrar na sala de jantar, onde havia comida posta na mesa.

_ Felix não está? - Perguntei, observando a mesa recheada de comida, mas que continha apenas três pratos.

_ Está na Academia, onde o senhor também deveria estar. - Sentou-se na cadeira da cabeceira. _ Por favor.

Sentamo-nos nas cadeiras dispostas a nossa frente e uma bacia de água vinha em um carrinho, parando primeiro na garota que lavou as mãos com habilidade.

A tolha foi entregue e a bacia foi trocada, insinuando para que eu fizesse a mesma coisa que ela.

_ A poção foi eficaz? - Secou o rosto molhado.

_ Sim, mais eficaz que os medicamentos da família Vickers que tomei na rebelião. - Lysistrata ficaria envergonhada por esse comentário.

Concordou e começou a comer sem pedir permissão, mas a etiqueta que demonstrava era única, não era selvagem ou rebelde, mas refinada e antiquada.

Como se tivesse morado na Capital e sido ensinada por professores de primeira linha.

_ As dores sumiram, mas ainda é difícil de caminhar. - Comentou enquanto partia o bife, e me juntei a refeição, estava com fome.

_ Preciso de um laboratório para fazer a segunda dose. - Bebeu um pouco de posca, algo que não queria tomar nem se me pagassem. _ Isso é horrível.

_ É vinho com mel e ervas, isso foi útil para os anos de guerra na Capital. - Confidenciou. _ Infelizmente ainda não temos outras bebidas. - Parecia envergonhado.

_ Pelo menos ainda tem comida. - Continuamos a comer. _ O contrato...

_ Será feito amanhã, duas vias como pediu. - Isso estava tão estranho.

_ Então por que me chamou? Estava gostando de pegar insolação. - Essa garota era impossível de domar.

Não prestei atenção no olhar do presidente em cima de mim, não queria me importar com as coisas em que diziam.

Porém, se estou aqui, comendo comida que tanto faltava na minha dispensa, com certeza era algo importante.

_ Volumnia já está a caminho, ela será sua professora para os seus experimentos durante os anos que estiver aqui, e espero que vocês se deem bem. - A faca em minha mão caiu.

_ Pensei que ela fosse ser um tributo. - A garota tinha mais chances de ganhar que a própria coloridinha.

_ E é, mas um tributo diferente já que não vai vencer os jogos para vencer. - Franzi o cenho. _ Ela irá morar na Capital e ajudará Volumnia nos jogos, mas será minha enfermeira por algum tempo.

_ Onde vou morar? - Um arrepio se fez no meu corpo.

_ No prédio mais opulento da Capital, na cobertura onde seu mentor mora. - Engasguei-me com as ervilhas e tive que beber a merda da posca.

O gosto continuava horrível, mas não queria morrer por asfixia e muito menos dar esse gostinho para a coisinha ao meu lado.

_ Senhor, como isso pode ser possível? - Minha casa está caindo aos pedaços! _ Ainda moro naquele lugar. - Por que ela não pode morar aqui?

_ O senhor só terá que disponibilizar um quarto para ela. - Esse era um dos problemas. _ Claro, vou pagar os impostos e o aluguel dela. - Até que não era tão ruim assim.

Isso me salvaria de ser despejado mesmo não tendo o prêmio em mãos, poderia até juntar o dinheiro de seu aluguel para ir para a universidade.

Essa coisinha não era tão irritante assim, posso até me dar bem com ela.

_ Também quero dinheiro para compras. - A olhamos. _ Roupas, sapatos e comida. - Seu olhar caiu na minha costela, quase me fazendo prender a respiração. _ Não quero abusar da hospitalidade do senhor Snow.

Bom, meus dias de comer sopa aguada de repolho se foram apenas com algumas palavras da garota.

E se ela não estivesse tão suja, - mesmo lavando o rosto e as mãos -, a beijaria por ter me salvado de me jogar no precipício.

Sei que a Lady-Vó iria odiar ter um tributo morando na sua residência, ainda mais que seus delírios estavam ficando piores, mas Tigris poderia me ajudar.

E falando nela, ela poderia pedir demissão e nunca mais ver Fabricia, algo que apoiava imensamente.

_ Como falei, farei tudo que estiver ao meu alcance. - A observou. _ Apenas faça a sua parte.

_ Não estou fazendo? - Levantou a sobrancelha. _ Às vezes o senhor me magoa. - Limpou a boca e não parecia querer comer os restinhos de seu prato.

Antes que pudéssemos dissipar esse silêncio, a mulher negra de pele retinta, que me fazia tremer desde que a conheci quando era um pirralho, apareceu.

Lembro perfeitamente que em um passeio da escola ela estava derretendo a pele de um rato de laboratório, algo que nenhuma criança de nove anos queria ver.

Bom, menos Kesa, ela ficou fascinada com aquela coisa...

_ Senhor Snow, foi um belo espetáculo. - Riu e seus olhos bicolores me perfuraram.

_ Não tive a intenção de cair lá, apenas queria conhecer meus tributos. - Bateu as mãos, fascinada.

_ Casca deveria aprender com você, mas ele odeia os jogos, nem parece que foi ele quem deu a ideia. - Estalou a língua. _ E você deve ser a Juniper Ever! - Estava tão animada.

_ Senhora Gaul, sou grande fã de seus pensamentos. - Levantou-se e foi até a mulher com roupas vermelhas. _ Sempre tive vontade de conhecê-la. - Estendeu a mão.

Esperei que a senhora Gaul não lhe desse a cara, mas sua mão apertou a da garota, como se fossem melhores amigas.

_ Vi seu brinquedinho com o Casmo, aquilo me deu a ideia de colocar drones para entregar comida aos tributos, claro, ainda está em teste. - Sorriram. _ Mas a poção transparente, aquilo é incrível, como a fez?

_ Infelizmente não posso contar, ainda quero morar por bastante tempo aqui. - Deu um passo para trás, voltando para o seu lugar ao meu lado. _ Mas não se preocupe, cuidarei do presidente.

_ Não me importo com o Casmo. - Parecia se importar. _ Que dia podemos começar? - Sentou-se à nossa frente. _ Os meus bichinhos não estão sendo divertidos.

_ Senhora, ela precisa voltar para o zoológico. - Seu lábio franziu. _ Ela é uma jogadora.

_ Vocês descobriram quem fez isso? - Discordamos. _ Certo, irei preparar alguns pássaros para averiguar. - Seu semblante mudou. _ Espero que não morra, você é mais preciosa para mim viva.

_ Farei o meu melhor para sair viva da arena. - A vejo apertar os dedos.