_ Espero que não me critique quando ver tudo. - Arrumou os cabelos enquanto segurava a maçaneta da porta.

Estávamos na cobertura, algo que poderia ser magnifico se não fosse o elevador quebrado, ou os infinitos lances de escada.

O corredor tinha alguns escombros, mas nada que nos impedisse de chegar a única porta desse andar.

Acho que a situação de sua família era pior que pude imaginar, mas não iria falar nada no momento, o garoto poderia morrer de vergonha se eu falasse alguma coisa do tipo.

Segurei sua mão e a fiz girar a maçaneta, estava cansada de ficar em pé, ou de vê-lo arrumar seus cabelos.

_ Você vai acabar ficando careca se continuar. - Empurrei a porta e a casa me foi mostrada.

Não era horrível como imaginei, tinha móveis que precisavam de alguns reparos, janelas grandes que um pouco de água poderia tirar a poeira delas.

Até às paredes que estavam descascando poderiam ser consertadas, mas ele estava tão envergonhado que já poderia imaginar o motivo.

Ele era o herdeiro da família Snow, um nobre de Panem, mas a situação de sua família era uma vergonha para si e para os seus conceitos de extravagância.

_ Apenas não conte a ninguém. - Entrou na casa e me puxou pelo pulso para entrar, fechando a porta em seguida.

_ Não sou fofoqueira. - A casa era bem maior que os dois cômodos que me acostumei.

A cozinha não era tão pequena que imaginei, mas precisava de novos eletrodomésticos, algo que poderia ser comprado hoje.

_ Essa é a cozinha, sala de jantar e a sala. - Apontou para os receptivos lugares. _ Alguns lugares estão trancados, já que não tem móveis. - Tirou a bolsinha de couro do seu corpo e a colocou na bancada da cozinha.

Sua mão permaneceu firme em meu pulso, como se ele realmente acreditasse que eu poderia me jogar da sacada ou fugir para expor ao mundo que a família Snow estava tão arruinada quanto um distrito esquecido.

Sua voz ecoava pela casa, preenchendo o silêncio sufocante com descrições minuciosas: o que havia por trás de cada porta, a localização exata dos quartos, banheiros e até mesmo um "quarto de empregada" que nem sequer existia.

Era quase como se ele quisesse mascarar o vazio com detalhes irrelevantes, mas o peso da decadência estava em cada canto, impossível de ignorar.

_ E ao lado de fora, na sacada, existe o lugar que a minha vó cultiva as rosas. - Não se virou e paramos no meio do corredor extenso.

_ Ok, mesmo sendo grande, consegui gravar cada canto dessa casa. - Fiquei a sua frente e suas sobrancelhas estavam quase se unindo. _ O que foi?

_ É só que ninguém sabe da situação... - Suspirou. _ Bom, existe você e aquele homem. - Observou o chão.

_ Onde está a sua família? - Piscou algumas vezes. _ Não vi ninguém ainda.

_ Tigris provavelmente está com a Fabrícia, e a vovó deve estar cuidando de suas rosas. - Olhou para o meu pulso e o deixou.

Ficamos em silêncio e não sabia o que dizer, será que pergunto onde seria meu futuro quarto ou deveria perguntar se ele queria ir ao mercado?

Não sou boa em ter interações com estranhos, ainda mais quando parece que estou sendo um estorvo.

Talvez isso não funcione, será que eu volto para a mansão do presidente e falo para me arrumar outro lugar?

Poderia explicar que me senti deslocada com tanta beleza e nobreza da família Snow, e que preferia um lugar menos...

_ Cheguei. - Olhamos em direção da voz. _ Coryo? Está em casa?

_ Tigris. - Sussurrou e foi em direção da voz carinhosa. _ Pensei que fosse demorar para chegar em casa. - Fui atrás dele.

Mas antes de sair do corredor para a sala aberta, fiquei parada e vi a garota de cabelos loiros e de um sorriso deslumbrante.

_ Fabricia me liberou mais cedo. - Suspirou. _ Vi sua entrevista, todos ficaram loucos por você estar lá com os tributos. - Parecia animada. _ Tenho certeza de que você será o ganhador.

_ Não preciso necessariamente ser o ganhador. - Franzi o cenho e apareci.

_ Você precisa fazer que a Lucy ganhe, ela não pode morrer. - Segurei a pontinha do seu terno. _ Por favor.

_ Ela... Ela... - Não prestei atenção na garota.

_ Prometo não contar nada sobre sua família e posso te ajudar com o dinheiro, podemos fazer tudo que você quiser, mas não deixe ela morrer. - Acho que posso vomitar a qualquer momento.

_ Você está se esquecendo de algo importante. - Não tirou minha mão do seu terno. _ Você também é uma jogadora.

_ Sim, me lembro disso, mas sei me virar e consigo sobreviver, mas a Lucy é mais nova e tem um bom coração. - Odiava implorar.

_ Verei o que faço. - Soltei seu terno e segurei minha felicidade. _ Juníper, essa é a minha prima, Tigris.

Estendi minha mão e a garota não se importou em apertar, sorrindo sem entender o motivo de estar aqui.

Porém, não demorou muito para o seu primo contar tudo que ele sabia e o porquê de estar aqui, a fazendo ficar surpresa demais para reagir.

_ Então, bem-vinda. - Já tínhamos separado nossas mãos. _ Sempre quis alguém para conversar além do Coryo e da Lady-Vó. - Bateu palminhas.

_ Boa sorte. - Sussurrou no meu ouvido. _ Ainda não mostrei o quarto dela...

_ Mas não tem nenhuma cama nos quartos de hóspedes. - Sua expressão ficou tensa. _ Ela vai dormir com você, Coryo? - Empurrou o ombro do primo.

_ Ela precisa voltar, então não pense em coisas estranhas logo cedo. - Tigris riu, mas não continuou falando. _ Ela vai precisar de roupas e sapatos.

_ Tudo bem, vou ver se a Fabrícia tem alguma coisa que não quer mais e...

_ Tenho dinheiro. - Olharam-me. _ Então vocês podem fazer o que quiserem. - Tirei o cartão preto que o presidente havia me dado. _ Não tem limite.

O garoto parecia estar tremendo e foi segurado pela prima que estava com os olhos tão dilatados que não dava para ver o azul de suas írises.

Os dois tiveram que se sentar na cadeira e me olhavam como se eu fosse um cofrinho bem gordo.

_ Sem sopa de repolho? - Gaguejou. _ Sem aqueles feijões enlatados?

_ Então não teremos mais purê de batata aguada? - Tigris apertava a mão de seu primo, como se fosse arrancá-la.

_ Bife. - Sussurrou. _ Podemos ter molho branco com bife? - Acho que eles precisam disso mais que pude pensar.

Fui até eles e antes que pudesse falar alguma coisa, uma velhinha apareceu ao meu lado, me observando com olhos tão azuis quanto o oceano.

Mas seu olhar foi para o cartão que estava segurando, como se ele fosse a coisa mais preciosa que viu em todos os anos de sua vida.

Suas mãos tremeram e taparam sua boca, tentando conter os soluços de alívio.

_ Você é um anjo? - Aproximou-se de mim, segurando meu braço com sua mão calejada. _ Por que está nos ajudando?

_ É que vou morar aqui quando tudo terminar, então... - Abraçou-me e fiquei sem entender.

Pensei que a velhinha ficaria com raiva de uma pessoa do distrito aparecer em sua casa, mas ela estava me abraçando com tanta força que poderia sentir meus ossos estalando.

O que me fez sentir um pouco desconfortável, mas retribuí o abraço, tentando sentir um pouco de calor que esses três fingiam não ter em seus corações.

_ A senhora tem um cheiro bom. - A fiz rir.

Realmente tinha, o cheiro de rosas era tão forte que me fez relaxar e fechar os olhos.

Finalmente, finalmente estou aqui...

Mesmo que eles só estivessem me vendo e me tratando bem devido ao dinheiro que tinha, sei que poderia fazer que eles me tratassem com um pouco de dignidade.

_ Espera. - Olhamos para a garota. _ O que você faz aqui, Coryo? - Levantou-se. _ Você não deveria estar na Academia?

_ Eles irão entender. - Seu sorriso não saia de seu rosto, fazendo que aqueles caninos fossem charmosos (?)

A senhora foi até o neto e deu batidinhas em seu ombro, como se o estivesse parabenizando por ter me pescado com uma rede furada.

Ou apenas estava dizendo que tudo iria mudar.

_ Preciso...

_ Certo, vou pegar uma toalha e roupas para você. - Tigris correu pelo corredor.

_ Iria dizer que precisava voltar. - Bati o cartão nos dedos, enquanto Snow se levantava e vinha em minha direção. _ O quê? - Pegou no meu pulso e me puxou.

Ele tinha uma mania feia de me puxar para onde quisesse ir, talvez ele me visse como um cachorro que precisava de coleira.

_ Vou te mostrar o banheiro. - Olhei para trás e acenei para a senhora que nós via. _ Sabe o que é um banheiro, não é?

Soltei meu pulso de sua mão e chutei sua canela, o fazendo segurar sua perna e pular para escapar dar dor.

Certo, ele continuava um idiota e esse rostinho bonito, ou as palavras amáveis eram uma fachada para me manipular.

Deveria ter chutado mais forte, mas ver ele assim já era um começo, porém, queria gravar esse momento na cabeça e mesmo que o ambiente não fosse tão fotogênico para as minhas memórias, era algo que poderia rir.

O garoto ficou com raiva e me empurrou na parede que não tinha mais reboco, fazendo que minhas costas doessem.

Sério, as pessoas tinham alguma mania idiota de me empurrar em paredes e pedras?

_ Você gosta de me ver assim? - Pronto, endoidou.

_ Claro que gosto, ainda mais quando seu rostinho patético aparece. - Cutuquei sua costela. _ Sei o que é um banheiro, Snow. Mas acho que você não sabe mais o gosto de um molho branco.

Ficamos nos encarando, mas na minha cabeça tinha uma voz que me deixava ansiosa, já que se ele piscasse poderia mudar nossas posições.

Seria interessante ser a pessoa que o encurrala, mas isso não aconteceu já que ele se rendeu primeiro e meu divertimento se foi.

_ Você é chato. - O empurrei para sair de sua posse. _ Então, qual banheiro vou usar? - Continuou olhando para a parede onde fiquei por alguns segundos.

_ Os outros estão com falta de kit básico, então terá que usar o meu.

_ Não é só pegar do seu e levar para os outros? - Cruzei os braços, o vendo franzir. _ Não pense que isso vai funcionar.

_ O quê? - Olhou-me. _ Não estou dando em cima de você, você não é nada atrativa. - Ri enquanto se aproximava.

_ Então o que o senhor está fazendo?

_ Você é uma coisinha minúscula e irritante. - Ficou vermelho. _ Estou dizendo que não dá para usar os outros, já que eles não têm mais pisos e isso pode prejudicar a estrutura!

Uau, acho que esse foi seu limite e já sei onde devo pisar nos próximos dias, ou posso continuar sendo assim.

O endoidando de vez em quando e o vendo bufar, ficar vermelho ou ter esse azul intenso direcionados para mim.

Será que consigo comprar uma câmera? Apenas para fotografar quando ele se soltava e deixava de ter essa máscara de garotinho da vovó?

Dava até vontade de apertar suas bochechas que não existia ou bagunçar seus cabelos que já estavam bagunçados.

_ Tudo bem, erro meu, mas seu também. - Não se mexeu. _ Me deve um pedido de desculpas, não, um não, dois.

_ Por que dois? - Levantou a sobrancelha.

_ Por ter me chamado de coisinha minúscula e irritante. - Cutuquei sua costela. _ Vamos, quero tirar esse cheiro podre.

Dei alguns passos e o esperei passar por mim para que me levasse dá até o seu quarto, o que não demorou tanto e sua voz logo voltou a ser audível.

_ Não vou pedir desculpas por isso, mas peço desculpas pelo banheiro. - Fez um muxoxo. _ Você é uma coisinha minúscula e irritante. - Abriu a porta e me mostrou seu quarto.

Uma cama de casal que não estava tão bagunçada quanto imaginei, janelas sem cortinas que deixava o sol entrar, aquecendo o quarto frio de sentimentos.

Até mesmo tinha um pequeno guarda-roupa de duas portas, contendo cabides sem roupas... Isso era triste de certa forma.

Entrei no quarto e o vejo fechar a porta, mas logo atrás dele tinha uma escrivaninha contendo papéis, canetas e uma foto quando ele era criança.

Isso dizia muita coisa dele, um lugar apresentável, mas bagunçado e que existia muita desordem em sua cabeça, sem saber se era um homem ou o garoto da foto.

_ Patético, não? - Discordei e fui até a foto, vendo três crianças.

_ Quem são?

_ Kesa, Tigris e eu. - Sorriu enquanto pegava a foto. _ Kesa é essa sem os dentes da frente. - A garota era pálida, quase como se estivesse doente. _ E Tigris é da outra ponta, lembro que ela teve que ficar agachada para caber na foto.

Alisou a foto e parecia estar relembrando momentos afortunados, o que poderia ser raro.

Dei alguns passos para trás, tentando não o fazer retomar a realidade, mas não foi possível.

_ Bom, vou te mostrar o banheiro. - Deixou a foto no lugar de antes e passou por mim, indo em direção da segunda porta.

Olhei pela última vez a foto e fui até ele, tentando não perguntar o que havia acontecido com a menina da foto, já que não era da minha conta.

Entrei no banheiro que não era pequeno, mas que faltava certas coisas nos azulejos da parede.

Toquei um dos lugares vazio e meu dedo foi pressionado ali por outro.

_ Tésseras, é isso que falta. - Nunca percebi que ele era alto, ou apenas não gostava de olhar para ele.

_ Por quê?

_ No dia da colheita tive que usar uma camisa e não tenho muitas. - Não parecia envergonhado. _ Então a Tigris me ajudou a confeccionar uma, mas ela teve que tirar as tésseras dos banheiros.

_ Para colocar nos botões? - Concordou e deixou meu dedo. _ Inteligente. - Encostei no balcão.

_ Ela me salvou muitas vezes e nesse dia foi mais um. - Apontou para o chuveiro. _ Água quente e fria, você pode escolher. - Resmunguei. _ Tem sabonete lacrado aqui.

Abriu a gaveta do balcão e me mostrou alguns pacotinhos transparentes.

_ Pensei que fossem pobres.

_ Somos, mas alguns pequenos luxos não consigo largar mão. - Pegou um dos pacotinhos e me deu. _ Divirta-se, ainda não precisamos pagar conta de água ou de luz.

Deu alguns passos para sair do banheiro, mas não saiu e ficou ali, vendo alguma coisa que não sabia o que era.

Até que ele se virou e se aproximou de novo, esperando que eu falasse alguma coisa que não sabia.

_ A rosa pode murchar. - Sim, ela podia...

Tirei a rosa do bolso e a entreguei, pedindo algo sem falar.

_ E o cartão pode molhar. - Dessa vez não fiz o que ele queria, aquilo era meu passe para continuar aqui.

_ Isso fica comigo. - Balancei o cartão.

_ Não vou roubar.

_ Nunca disse isso. - Revirou os olhos e saiu do banheiro, fechando a porta.

Deixei o cartão no balcão e suspirei em alívio, tudo deu tão certo que nem mesmo poderia imaginar.

Estou na Capital e na família Snow! O que mais posso desejar? Nada, ainda nada, mas um dia vou realizar todos os meus sonhos e fazer cada um pagar.

Seja aquele que tentou me matar ou aqueles que se esqueceram de mim, vou fazer todos engolirem a própria língua.

Respirei fundo e comecei a desabotoar o vestido, fazendo que um corpo quase esquelético aparecesse para os meus olhos.

O tirei e vi pelo espelho a minha marca de nascença, ou apenas a tatuagem que tenho desde que me entendo por gente.

Uma letra, um símbolo e um mistério mal resolvido.

Poderia ser algo pequeno que ficava entre as bandagens dos meus seios e minha pele, mas dizia muita coisa sobre quem sou e de onde vim.

E se eu mostrasse isso...

_ Ah, eu esqueci de... - Olhei para ele que ficou parado no lugar.

_ Esqueceu o quê? - Abracei meus seios para esconder aquilo que não deveria ser visto.

_ A toalha. - Balançou o pano. _ E as roupas. - Apontou para sua cama. _ Estarei na sala. - Colocou a toalha no balcão e saiu mais uma vez do banheiro.

Dessa vez tranquei a porta, para que ele não entrasse de novo e visse o símbolo, aquilo não poderia ser visto por ele.

Encostei a cabeça na porta e sabia que ele estava ali ainda, conseguia escutar sua respiração.

_ Você está bem? - Perguntei.

_ Estou, conviver com mulheres me fez achar essas coisas normais. - Até que fazia sentido. _ Desculpa, deveria ter batido. - Sua voz saiu abafada.

_ Não me importei tanto quanto imagina. - Olhei para os meus pés e tirei os sapatos. _ Você continua aí?

_ Sim. - Então ele não estava tão bem quanto dizia. _ Vou sair, vejo você mais tarde. - E realmente saiu.

Continuei olhando para os meus pés, até que a bandagem caiu no chão, fazendo que os seios que me prejudicaram tanto fossem libertos.

Não que eles fossem grandes e pesados, mas devido a eles o emprego era difícil e as poucas moedas só vieram quando os escondi, escondendo que eu era a bruxa, a estranha.

Ser um garoto não era um problema, mas esconder isso por tanto tempo me fez ter pensamentos estranhos.

_ Era mais fácil ser homem. - Arranhei a porta e me afastei.

Tirei a calcinha e a deixei pelo caminho, pegando o sabonete e indo para o chuveiro.

Queria sentir a água caindo e me molhando por todas as extremidades, queria molhar meus cabelos enquanto me lavava e esquecer que nada que passei era real.

Abro o registro e a água fria é jogada em meu rosto, quase me fazendo pular de alegria.

Mas apenas me acalmei e retirei o plástico do sabonete, o colocando no nicho do banheiro para colocar o sabonete de volta.

Mexi no outro registro e a água morna começou a cair, me fazendo fechar os olhos para apreciar o que me foi tirado por anos.

Os meus pensamentos continuaram indo e vindo, enquanto o sabonete tirava a sujeira do meu corpo, me afastando de todo o meu passado para viver o meu futuro.

Até mesmo lavei meus cabelos sem me importar se eles iriam ficar ressecados depois de secos.

Apenas continuei pensando em ficar para sempre aqui e esquecer que existia um mundo lá fora.

Até pensei que o garoto iria bater à porta, perguntando se morri ou se acabei derretendo pela água, mas não veio, o que me fez sentir mais à vontade nesse lugar.

Olhei para o lado e a minha segurança para continuar aqui, continuava ali, me observando a ter pensamentos nada louváveis.

Peguei o plástico e coloquei o sabonete de volta em seu lugar, lavando as minhas mãos em seguida para fechar os registros.

Saio do box e enrolo a toalha em meu corpo, pegando as minhas roupas do chão e as dobrando, já que deveria voltar a usá-las depois de algumas horas.

Peguei o cartão e saio do banheiro, vendo que não havia ninguém ali, apenas a roupas.

Vou até elas, vendo que tinha peças íntimas e que a roupa não era um vestido, felizmente.

Olho para a porta e não me importo muito, ele não entraria de novo... Ou entraria? Vou até a porta e tranco ela, esperando que ele não achasse que iria pular da janela.

Volto para perto da cama e começo a colocar a roupa, vendo que a saia de cintura alta ia até os meus tornozelos, mas não era ruim.

Porém, a camisa branca não tinha cheiro ruim e as tésseras eram fofas.

Antes que pudesse colocar o colete da mesma cor da saia, alguém bate à porta e a voz carinhosa entrou pelos meus ouvidos.

_ Oi? - Vou até a porta e a destranquei, abrindo a porta para ver a loira. _ Você está linda. - Sorriu.

_ Obrigada. - Abotoei o colete.

_ Coryo brigou comigo dizendo que marrom, preto e branco não seriam boas cores, mas vendo você. - Alisei a saia. _ Deveria ter apostado com ele.

Mostrou um par de botas e agradeci, pegando a bota para me sentar na cama.

A loira entrou no quarto e se sentou ao meu lado.

_ Obrigada. - Fechei a bota sem entender. _ Coryo não é muito bom com as palavras, mas precisava dizer isso para você.

_ Por quê? - Coloquei o cartão no bolsinho da saia.

Observei seus dedos ansiosos, mas não falei algo ou fiz mais algum gesto, apenas esperei que ela dissesse o motivo de seu agradecimento.

_ Nossa família ficou sem nada quando o meu tio morreu, mas não foi pela sua morte que a família Snow afundou. - Arrumou seus cabelos. _ Todo nosso dinheiro estava no Distrito 13, mas acabou quando ele foi bombardeado.

_ Nem mesmo me lembrava que esse distrito existiu. - Riu.

_ Bom, também queria esquecer, mas a vida ficou difícil depois disso. - Fungou. _ Tive que abdicar os meus estudos e trabalhar com a Fabrícia, mesmo não sendo um amor de pessoa, ela me ensinou muitas coisas.

_ Deve ter sido difícil. - Mexi nas minhas roupas.

_ Sim, ainda mais que o garotinho da família sempre foi mimado. - Sorriu. _ Ele odiava feijões-manteiga, mas era a única coisa que tinha para comer.

_ Não são ruins. - Concordou. _ Por que está me contando isso tudo?

_ Para que você entenda o motivo dos meus agradecimentos. - Pegou minha mão. _ A comida ficou escassa na Capital e nem posso imaginar nos distritos, mas tínhamos tudo do bom e do melhor, e então, tudo mudou.

_ A guerra traz consequências, até mesmo para o lado vencedor. - Apertou minha mão. _ Você deve ter sofrido. - Suas mãos calejadas são a prova disso.

_ Tive que aprender a cozinhar com oito anos, já que a Lady-Vó não sabia ligar o fogão. - Seus olhos ficaram marejados. _ Nunca contei isso, mas me senti tão sozinha e não posso colocar todo o meu ressentimento no Coryo, ele é meu irmãozinho idiota.

Lágrimas gordas rolaram pelo seu rosto anguloso e bonito, era um pecado vê-la assim. Mas não queria limpar suas lágrimas de alívio e tristeza.

Uma criança passou isso tudo e mesmo assim, continuou sorrindo para dar o seu melhor.

Quando conhecemos os pontos de vistas de outras pessoas, talvez sua opinião mude ou apenas atrofie com as incoerências da vida.

_ Então, obrigada, obrigada por nos ajudar e espero que você se sinta confortável aqui. - Soluçou. _ E se o Coryo disser coisas rudes, apenas brigue com ele. - Acenei, pensando nos chutes que dei em sua canela.

Mas dessa vez tive que secar suas lágrimas, tentando dizer que não precisava mais chorar já que não sou sua salvadora de fato.

Apenas estou fazendo isso para me proteger e viver confortável, mas não queria acabar com suas ilusões de uma heroína sem capa ou poderes.

O mundo nunca foi bom, mesmo que tenha pensamentos positivos, ele sempre vai derrubá-los no minuto seguinte.

_ Onde posso comprar os mantimentos? - Tive que mudar de assunto ou a mulher iria chorar tanto que não saberia o que fazer.

_ Tem um mercado que abriu já tem alguns meses. - Concordei. _ Mas só sei cozinhar poucas coisas, sopa aguada de repolho, feijão e até mesmo fazer papinha de batata. - Suas bochechas ficaram rosadas.

Dei tapidinhas em sua mão para que ela não se importasse com isso e apenas me informasse o endereço para que pudéssemos ir lá.

Claro, iria arrastar aquele idiota para carregar as compras e ele poderia reclamar, mas não iria me importar.

_ Depois você pode ver as coisas que precisam ser consertadas, empregados e cozinheiros. - Seus olhos brilharam. _ O dinheiro do presidente é para isso. - Pisquei, pegando minhas roupas e sapatos. _ Onde posso deixar isso?

Apontou para o baú que ficava no pé da cama e coloquei ali, esperando que ela dissesse mais alguma coisa.

Mas não foi preciso, já que o oxigenado bateu à porta, nos fazendo olhar para aquele lugar.

_ Coryo, diga, ela não está linda? - Levantou-se para ficar ao lado do primo.

Não falou apenas levantou a mão e tinha uma escova lacrada ali, me fazendo perceber que provavelmente estava com bafo.

Baforei minha mão e realmente estava...

Corri até ele e peguei a escova, voltando para o banheiro para terminar o que já deveria ter feito.

Deixei a escova ali quando terminei, pegando a escova de cabelo para desembaraçar alguns fios, o que era praticamente todos.

_ Coryo sabe onde fica o mercado, vocês podem ir juntos e enquanto isso, posso lavar as louças.

A observei pelo espelho e apenas concordei, já iria fazer isso mesmo.

_ Ela ainda é uma jogadora, as pessoas podem saber quem é ela. - Não estava errado.

_ Meu rosto estava sujo quando apareci para todos, duvido que eles irão reparar. - Me virei para vê-lo.

_ Acha que tomando banho vai mudar sua aparência? - Ri e neguei.

_ Mas as roupas podem transformar uma pessoa em outra.

Pisquei, me aproximando dele, o que me fez perceber que tínhamos quase a mesma altura com ajuda dos sapatos.

_ Ou você não quer comer bife ao molho branco. - Semicerrou os olhos.

_ Às vezes a odeio.

_ É recíproco. - Acho que isso não vai dar certo.