Santuário – Casa de Touro
Atenas – Grécia
08:48 PM

Nem bem fechou a boca, Mulder sentiu todos os olhares recaírem sobre ele. Foi aí que percebeu que havia cometido um erro.

Aquilo saiu sem querer, um reflexo instintivo para provocar Scully. Mas por quê? Por ela ter conseguido tantas informações relevantes trabalhando com outros? Por ter viajado sozinha com aqueles homens? Por dar ouvidos a coisas que normalmente contestaria se fosse ele quem dissesse?

Ele se arrependeu no mesmo instante. Mas a grosseria já estava feita.

Felizmente, os Cavaleiros eram diplomáticos, e um deles tomou a dianteira para aliviar o clima.

"Vamos comer 'à escoteira', então tratem de vir se servir!" disse Máscara da Morte, esbanjando animação e ignorando propositalmente a tensão no ar.

"É isso mesmo, de estômago cheio pensamos melhor, non?" Camus interveio, estendendo a mão para Scully.

Ela aceitou sem hesitar, mas antes de sair, lançou um olhar para Mulder. Não era de fúria, mas de algo pior. Decepção.

Quando os dois saíram do ambiente, Kanon mudou de lugar, sentando-se diretamente à frente do agente. O olhar que ele lançou não era intimidador, mas também não era amigável.

"Agente Mulder, com tudo o que está acontecendo, e considerando seu histórico com a agente Scully, me parece injusto tratá-la dessa forma."

Mulder cruzou os braços.

"Você não me conhece. Não conhece a Scully. Como acha que pode-"

"Conheço mais do que você imagina." Kanon o interrompeu sem elevar a voz. "Vi sua história, sua trajetória. Sei bem o quanto você lutou e o que perdeu. Vi o suficiente sobre a agente Scully também."

Mulder sentiu a nuca arrepiar.

"Posso acessar a mente de qualquer um aqui, se quiser. Mas prefiro não invadir privacidades sem consentimento."

Kanon pausou, considerando o que ia dizer em seguida.

"O que estou dizendo é que agora não é tempo para desentendimentos ou disputas pessoais. Estamos lidando com algo maior. Você entende isso, não entende?"

Antes que Mulder pudesse responder, Aldebaran surgiu, puxando-o pelo ombro com sua força gentil.

"Vocês não vêm comer? Anda, senão esfria!"

Kanon se levantou sem pressa e os seguiu, o semblante de volta à calma habitual.

xXx

Santuário
Atenas – Grécia
11:15 PM

O jantar tinha servido ao seu propósito. Entre histórias contadas, implicâncias bem-humoradas e um ou outro olhar atravessado, o peso da discussão anterior se dissipou. Até Mulder parecia mais relaxado, embora de vez em quando ainda lançasse olhares discretos (ou nem tanto) para Scully.

"E então? Quem precisa de um atalho" Mu perguntou, com a gentileza de sempre.

"Olha, eu vou aceitar." — Mulder brincou, dando um tapinha no estômago. "Depois dessa comida toda, acho que não conseguiria subir nenhuma escadaria."

Scully revirou os olhos, mas aceitou a ajuda sem questionar. Mu apenas sorriu e estendeu as mãos. Num piscar de olhos, a Casa de Touro desapareceu, dando lugar ao chalé rústico do Templo de Capricórnio.

"Vocês dois... descansem, ok? Amanhã temos festa." Mu disse antes de desaparecer novamente.

"Bem, isso foi conveniente. — Mulder disse, jogando-se no sofá.

Scully sorriu de leve e foi até a poltrona oposta. O jantar aliviou a tensão, mas ainda havia algo entre eles. Se ela não puxasse o assunto, ele nunca o faria.

"Mulder..." Suspirou, cansada "Qual o problema? Você ficou calado depois do jantar."

Ele bufou.

"Você já sabe qual é o problema."

Scully encostou de vez na poltrona. Seu parceiro era tão teimoso...

"Kanon?

"Kanon. Esse cara." Ele fez um gesto amplo, como se não conseguisse decidir se estava irritado ou apenas confuso "Ele sabe coisas que nem nós conseguimos acessar. Ele consegue informações que eu levaria anos para conseguir, e não precisa nem de um computador para isso."

"Ele tem métodos próprios, Mulder. Métodos que, convenhamos, não são tão diferentes dos seus."

"Exceto pelo fato de que ele aparentemente já sabe de tudo antes mesmo de perguntar."

"Mulder, sinceramente, isso te incomoda por quê?"

"Porque você confia nele." Mulder voltou o olhar para a janela, não gostava nem de pensar nisso.

A acusação pairou no ar por alguns segundos. Scully fechou os olhos por um instante antes de responder, escolhendo as palavras com cuidado.

"Eu confio porque ele está nos dando fatos. E, goste ou não, o que ele descobriu sobre as substâncias no meu sangue é real."

Mulder não respondeu. A questão ainda lhe atormentava. Evidências cientificas a parte, fosse ele a trazer essas evidências ela certamente ainda acharia uma forma de contestar.

"Kanon acha que isso pode ser maior do que imaginamos." Scully continuou "Não só um experimento ou um caso isolado, mas algo que pode estar interligado a tudo o que enfrentamos até agora."

Mulder esfregou o rosto, exausto.

"É só... ah, esquece!"

Scully assentiu. Ela se levantou e parou à porta do quarto.

"Boa noite, Mulder."

Ele não respondeu. Apenas ficou ali, olhando para o teto, sentindo o peso daquilo tudo.

xXx

Aldebaran, Shura e Kanon ainda estavam em Touro, onde Mu os reencontrou, aproveitando a brisa da montanha que soprava mais fresca à noite.

"Você foi bem direto com o agente Mulder." Shura comentou, encostado na balaustrada de pedra "Assustou o homem."

"Ele precisava ouvir." Kanon respondeu, cruzando os braços.

Aldebaran sorriu.

"Você não gosta de meias palavras, hein?"

"Não vejo necessidade." Kanon disse, encarando o horizonte. "Ele é inteligente, mas está deixando o ego e o ciúme atrapalharem o julgamento. Isso pode ser perigoso para todos."

"Ele confia em Scully, mas tem dificuldade em aceitar que ela consiga lidar com isso sem ele." Mu ponderou.

Shura assentiu.

"Entendo o ponto de vista dele. Mas se esse caso for tão grande quanto parece, Kanon está certo e teremos que trabalhar juntos, sem essas bobagens."

"Ele vai se adaptar." Aldebaran disse, convicto. "Do contrário vai acabar mal, e ainda perde a moça."

Kanon não respondeu, mas um sorriso discreto se formou em seu rosto.

xXx

Santuário – Chalé de Capricórnio
Atenas – Grécia
07:46 AM

O sol nascente dourava as colinas ao redor do Santuário, mas no alto das Doze Casas, onde o Templo de Capricórnio estava localizado, tudo ainda permanecia em um silêncio sereno. A vila, muito abaixo, já estaria movimentada com os preparativos para o primeiro dia da Festa do Solstício, mas dali não se ouvia nada além da brisa cortando as montanhas.

Scully despertou devagar, seus olhos se ajustando à luz que entrava pela janela do chalé. Inspirou fundo, sentindo o ar fresco da manhã e, por um momento, permitiu-se apenas existir naquela tranquilidade. Seu olhar logo recaiu sobre a cadeira ao lado da cômoda, onde o vestido marfim que Afrodite escolhera para ela estava cuidadosamente dobrado.

Ela se lembrava da cena com clareza. Ele a arrastando até a banca da feira, ignorando suas tentativas de argumentar que não precisava de algo assim. "Estamos a dois dias das festividades... vai arrasar corações se usar este vestido."

Scully sorriu sozinha, lembrando-se de como foi convencida. Na época, aceitara o presente sem pensar muito, mas agora, segurando o tecido delicado, sentia um pequeno peso no gesto. Apesar de sua fé cristã, ela compreendia a importância da celebração para os moradores da vila e para os Cavaleiros de Ouro, que tinham nela uma importante tradição comunitária.

Então, por que não participar?

Ela começou a se vestir.

No quarto ao lado, Mulder despertou. Saiu do cômodo ainda sonolento e encontrou Scully já pronta, ajeitando os últimos detalhes do traje. Ele parou ao vê-la, piscando algumas vezes.

"Uau!"

Scully arqueou a sobrancelha "O quê?"

"Isso está ficando sério.

Scully riu.

"É uma festa importante, ora."

Mulder cruzou os braços.

"Isso significa que eu deveria estar vestido de toga?"

"Não. Isso significa que Afrodite escolheu um vestido especial para mim, e você vai usar exatamente o que te deram quando chegamos."

Ele suspirou, jogando-se no sofá.

"Bem, pelo menos não é uma fantasia completa..."

Ela riu e pegou um pequeno pente para prender parte dos cabelos.

"Melhor se arrumar logo. Afrodite e Máscara da Morte estão coordenando os preparativos, daqui a pouco Mu aparece e você ainda está desse jeito."

Mulder bufou, mas se levantou para trocar de roupa.

xXx

Vila de Rodoria
Atenas – Grécia
10:57 AM

Enquanto os dois se aprontavam, a vila abaixo do Santuário já estava tomada pelos últimos ajustes. As ruas de pedra que levavam à praça central estavam enfeitadas com guirlandas de folhas douradas e tapeçarias coloridas. Algumas bancas ainda funcionavam como mercado, mas a maioria havia sido reorganizada para servir comida, vinho e doces, que seriam distribuídos ao longo do dia.

Enquanto Afrodite supervisionava as decorações com sua precisão quase obsessiva, Máscara se encarregava de coordenar os discípulos e as servas que ajudavam a organizar os altares e a distribuição das oferendas.

"Essas guirlandas precisam estar perfeitamente distribuídas" Afrodite dizia enquanto ajustava uma flor em um dos arcos cerimoniais "E, por favor, não deixem as tochas muito próximas umas das outras. Queremos iluminação, não um incêndio."

Máscara, que estava encostado em uma das mesas, apenas riu.

"Se você não relaxar não vai aguentar a festa mais tarde..."

Afrodite o lançou um olhar afiado. "Sabe que não faço nada menos que o ótimo, não é?"

"Só espero que essa cerimônia não dure mais do que o necessário. Quero chegar logo à parte em que servem a comida."

Afrodite sorriu.

"Ah, Máscara, sempre tão... prático."

Antes que ele pudesse responder, um brilho discreto preencheu o centro da praça. Mu de Áries havia acabado de se materializar, trazendo Mulder e Scully consigo.

Os murmúrios da vila diminuíram por um breve instante. Mulder imediatamente percebeu os olhares sobre Scully. Ele tentou ignorar, mas era impossível não notar algumas mulheres cochichando e sorrindo ao vê-la com um vestido tradicional. Até alguns discípulos mais jovens pareceram surpresos.

Máscara da Morte também notou. Seu olhar deslizou pela figura de Scully de forma automática, instintiva.

Ela estava diferente. Não era só a roupa – embora o vestido grego realçasse as curvas e o porte naturalmente elegante dela – mas a forma como se movia, com uma confiança tranquila, os cabelos ruivos presos para trás evidenciavam o rosto alvo e os olhos bem azuis. Foi uma fração de segundo. Um momento breve o suficiente para que ninguém percebesse... exceto Afrodite.

O Cavaleiro de Peixes desviou o olhar das flores que ajustava e observou Máscara. Conhecia bem aquele olhar. Porque já olhou para Máscara daquela exata maneira inúmeras vezes.

O peito dele apertou.

Máscara desviou os olhos de Scully, pigarreando e forçando um sorriso debochado.

"Então, nada de toga para você, agente Mulder?" Ele brincou, qualquer desconforto dissipado imediatamente.

O agente apenas cruzou os braços, ciente de que algo estranho acontecia, mas sem entender bem o quê.

Afrodite se recuperou rapidamente e salvou o agente da piada do amigo.

"Sejam bem-vindos, daqui a pouco tudo começa." Pegou uma das mãos de Scully e cumprimentou com um beijo delicado "Espero que a festa faça justiça a tanta beleza."

Mulder ainda estreitou os olhos para Máscara, que apenas ergueu as mãos em um gesto inocente. Afrodite suspirou, algo resignado. Afinal, Máscara não era nem nunca seria dele mesmo. Que pelo menos todos sobrassem inteiros, então.

TO BE CONTINUED...


MEU DEUS DO CEU q coisa antiga! Tava aqui dando uma limpa no onedrive e olha o que achei kkkkk alguns capitulos (mal) escritos dessa fic esquecida. Aaah mas eu gostava tanto dela. Tem valor sentimental. Entao vou arrumar esses trem aqui e postar. Se ainda tiver alguem vivo aqui, meu mais sincero OIIII 3 saudades imensas :)